PREVALÊNCIA DAS HEPATITES B E C EM DOADORES DE SANGUE DA FUNDAÇÃO DE HEMATOLOGIA E HEMOTERAPIA DE RONDÔNIA – FHEMERON NOS PERÍODOS DE 2021 E 2022: UM ESTUDO OBSERVACIONAL RETROSPECTIVO

PREVALENCE OF HEPATITIS B AND C AMONG BLOOD DONORS OF THE FOUNDATION OF HEMATOLOGY AND HEMOTHERAPY OF RONDÔNIA – FHEMERON IN THE PERIODS OF 2021 AND 2022: A RETROSPECTIVE OBSERVATIONAL STUDY.

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202511291641


Andressa Oliveira Machado1
Noeli Camila da Silva Firmiano Penedo1
André Luiz Ferreira da Silva2


Resumo

O estudo teve como objetivo determinar a prevalência dos marcadores sorológicos para hepatites B e C entre doadores de sangue atendidos pela Fundação de Hematologia e Hemoterapia de Rondônia (FHEMERON) nos anos de 2021 e 2022, além de descrever o perfil epidemiológico dos doadores reagentes segundo sexo, faixa etária e tipo de doação. A triagem sorológica, etapa fundamental para a segurança transfusional, funciona simultaneamente como barreira sanitária e ferramenta epidemiológica para estimar a ocorrência dessas infecções em populações geralmente assintomáticas. Trata-se de estudo epidemiológico, descritivo, retrospectivo e de corte transversal, baseado em dados secundários do sistema laboratorial da FHEMERON no período de janeiro de 2021 a dezembro de 2022. Foram analisadas variáveis demográficas (sexo, idade e tipo de doador) e laboratoriais (HBsAg, anti-HBc e anti-HCV), aplicando-se estatística descritiva, cálculo de prevalências com intervalos de confiança de 95% e testes qui-quadrado para identificar associações. Foram incluídos 31.259 doadores, dos quais 63,5% eram homens e 59,5% doadores de repetição. A prevalência global foi de 0,52% para hepatite B e 0,24% para hepatite C, com discreta redução entre 2021 e 2022. Observou-se maior proporção de reagência entre doadores de primeira vez, indivíduos do sexo masculino e faixas etárias acima de 40 anos, sobretudo ≥50 anos, indicando aumento da prevalência com o avanço da idade. Os achados demonstram baixa e estável prevalência das infecções estudadas, refletindo a efetividade da triagem sorológica e das políticas de vacinação. Apesar disso, adultos mais velhos e doadores iniciantes permanecem como grupos de maior vulnerabilidade. O estudo destaca a importância da vigilância contínua, da educação em saúde e da integração entre hemoterapia e programas de imunização para o aprimoramento da segurança transfusional em Rondônia.

Palavras-chave: Doação de sangue. Hemocomponentes. Hepatite B. Hepatite C. Triagem Sorológica.

1 INTRODUÇÃO

A doação de sangue envolve etapas essenciais para garantir a segurança transfusional, destacando-se a triagem clínica, destinada à seleção de doadores por meio de entrevista que identifica possíveis riscos, especialmente relacionados ao período de janela imunológica, quando exames laboratoriais podem apresentar falsos negativos e comprometer a qualidade do sangue coletado (Cunha, 2022). A manutenção de estoques sanguíneos enfrenta desafios históricos, agravados desde a epidemia de HIV na década de 1980 e pelo fim da doação remunerada após a Constituição de 1988, que consolidou a obrigatoriedade dos testes sorológicos para HIV (Resende, 2020). Considerando que HIV, sífilis e hepatites podem ser transmitidos por transfusão, os hemocentros devem adotar exames altamente sensíveis, sobretudo diante do aumento das infecções sexualmente transmissíveis nas últimas décadas (Grubyte et al., 2021).

Após a coleta, o sangue é processado em hemocomponentes, por meio de técnicas como centrifugação e congelamento, e recebe soluções que prolongam sua estabilidade, garantindo a adequada separação e preservação dos elementos sanguíneos (Brasil, 2015). Cada doação deve ser submetida a exames para sífilis, hepatite B, hepatite C, doença de Chagas, AIDS e HTLV I/II, incluindo testes específicos como HBsAg, anti-HBc, NAT HBV, anti-HCV, detecção de antígeno do HCV e NAT HCV, além de ensaios combinados para HIV (Brasil, 2016). Essas medidas asseguram a liberação de hemocomponentes seguros e contribuem para o monitoramento contínuo do perfil epidemiológico dos doadores, permitindo identificar variações na prevalência de agentes infecciosos, como as hepatites B e C, ao longo do tempo (Takuissu, 2016). Diante da necessidade de ampliar a captação de doadores e promover a fidelização, esforços adicionais são requeridos, considerando que apenas cerca de 2% da população brasileira doa sangue regularmente, percentual inferior ao recomendado pela OMS (Tasso, 2018).

Nesse contexto, o presente estudo fundamenta-se na análise dos dados epidemiológicos provenientes do banco de sangue da Fundação de Hematologia e Hemoterapia de Rondônia (FHEMERON), abrangendo o funcionamento da cadeia hemoterápica, a triagem sorológica obrigatória e a investigação das doenças transmissíveis pelo sangue, com ênfase nas hepatites B e C (Gerlich et al., 2010). Ao avaliar os dados referentes aos anos de 2021 e 2022, busca-se compreender a dinâmica da prevalência desses marcadores sorológicos entre os doadores atendidos pela instituição, contribuindo para o aprimoramento das estratégias de vigilância, prevenção e segurança transfusional no Estado.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA

2.1 O ato da doação de Sangue

A doação de sangue, é um ato altruísta que desde a sua criação, ajudou a salvar diversas vidas, passando sempre por evoluções para garantir a segurança dos hemocomponentes que são produzidos a partir do sangue doado (Brasil, 2015).

A manutenção de toda a cadeia produtiva do sangue depende dos valores voluntários e altruístas da sociedade para o ato da doação, devendo o candidato à doação de sangue ser atendido sob os princípios da universalidade, integralidade e equidade no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). (BRASIL, 2016).

O sangue é formado por plasma, hemácias, leucócitos e plaquetas, cada hemocomponente desempenha uma função primordial para o correto funcionamento do sistema humano, como por exemplo o transporte de oxigênio realizado pela hemoglobina (BRASIL, 2007).

São diversas as formas de doação, podendo ser voluntária, de reposição, autóloga e a menos conhecida, a doação de sangue através do cordão umbilical (tabela 1), local onde possuem mais células estaminais hematopoiéticas, logo, ajuda tanto em doenças benignas quanto malignas (SHEARER, 2017).

TABELA 1 – Doenças tratadas por transplante de sangue do cordão umbilical

FONTE: Shearer, W. T. et al, 2017.

Entretanto, em decorrência de patologias e cirurgias, se faz necessário a reposição do sangue em alguns indivíduos, essa captação e distribuição é realizada pelos hemocentros dos estados, que são responsáveis pela captação, verificação e distribuição dos hemocomponentes (BONEQUINE, 2017).

Para que os bancos de sangue realizem suas funções, é necessário que haja doadores, estes não podem ser remunerados, e devem ser tratados iguais, como proposto pela atual constituição. Dessa forma, é essencial garantir que esses doadores retornem aos hemocentros e auxiliem na manutenção do estoque de sangue (MILAGRES, 2020).

Além de integrar constituição biológica humana, o sangue é um signo complexo, com múltiplas funções no meio social. Há culturas para as quais ele representa grave ameaça e riscos, enquanto para outras significa purificação e força (SILVA, 2017).

São diversos os motivos que levam os indivíduos a não doarem sangue, como por exemplo o desconhecimento da prática, medo de agulhas, ou até mesmo por crenças pessoais de que ao doar sangue ele vai engordar ou adquirir alguma infecção transmitida por material de coleta contaminado (SILVA, 2017).

Uma das modalidades de terapia mais utilizada no mundo certamente é a transfusão de sangue, sendo a transfusão de hemácias a mais antiga forma de terapia celular. Usada adequadamente em condições de agravos de saúde, além de salvar vidas, a transfusão pode melhorar a saúde dos pacientes (CUNHA, 2022) (Tabela 2).

TABELA 2 – Pilares na gestão do sangue do paciente

FONTE: Brasil, Guia do cadastro nacional de sangue raro, DF, 2022).

Nesse sentindo, a hemodoação, é utilizada tanto para pessoas que passam por cirurgias, quanto para indivíduos que possuem doenças que necessitam dos hemocomponentes regularmente, como por exemplo, a anemia. Para que se tenha uma elegibilidade sanguínea, a área está em constante evolução, assim garantindo que os indivíduos recebem a quantidade adequada de hemocomponentes (BRASIL, 2022).

A captação de doadores é frequentemente impulsionada por campanhas. Após essa sensibilização inicial, o potencial doador deve realizar um cadastro no banco de sangue e, subsequentemente, submeter-se à triagem clínica. Esta etapa é crucial para avaliar a aptidão do candidato e mitigar os riscos associados à doação, especialmente no que tange ao período de janela imunológica. A janela imunológica refere-se ao intervalo em que o indivíduo pode estar infectado por um patógeno, mas este ainda não é detectável pelos testes sorológicos, representando um desafio à segurança transfusional (BRASIL, 2016).

A doação voluntária, não remunerada e informada de sangue diminui o risco de transmissão de HIV e outras doenças transmissíveis pelo sangue em relação às doações remuneradas e de reposição (BRASIL, 2015).

Em virtude dos avanços contínuos, a segurança no manuseio, triagem e práticas de transfusão de sangue tem aumentado significativamente. Consequentemente, as taxas de infecções transmissíveis por transfusão, como as causadas pelo HIV e pelos vírus das hepatites, tornaram-se extremamente raras (COLLINS E MYERS, 2023). 

Nesse contexto, o princípio fundamental da hemovigilância é garantir que o sangue doado seja totalmente seguro para o receptor. Para atingir esse nível de segurança, é imprescindível que as respostas fornecidas no questionário da triagem sejam estritamente verídicas e que o ato da doação seja voluntário e não remunerado, conforme as diretrizes nacionais (BRASIL, 2016).

2.2 Hemocomponentes

Os hemocomponentes são gerados nos serviços de hemoterapia, a obtenção desses componentes pode ser realizada por dois métodos, a partir da coleta de sangue total – a mais comum, e a partir da aférese – que consiste na retirada do hemocomponente específico e devolução do restante ao indivíduo que doou, é mais complexa. No método do sangue total, após a captação do sangue doado, é realizado o processo de centrifugação refrigerada e obtém-se frações desse sangue, denominadas hemocomponentes, sendo eles os eritrócitos, leucócitos e plaquetas (BRASIL, 2015) (Figura 1).

Logo, a partir do sangue total são gerados os concentrados eritrocitários, plasmáticos e plaquetários. Além disso, são utilizadas soluções anticoagulantes- preservadoras e soluções aditivas para que dessa forma aumente o tempo de armazenamento dos derivados sanguíneos, que posteriormente serão distribuídos aos hospitais para tratar condições médicas específicas (Brasil, 2015).

Figura 1. Produtos originados a partir do sangue.

Fonte: MINISTÉRIO DA SAÚDE, Guia para o uso de Hemocomponentes, 2015.

As soluções aditivas para plaquetas foram desenvolvidas na década de 1980 com o objetivo de reduzir o conteúdo plasmático para reduzir o risco de reações alérgicas e o conteúdo de anticorpos ABO. (WILKMAN et al., 2021).

A hemoterapia moderna, consiste em transfundir ao paciente, apenas o hemocomponente que ele precisa, essa decisão é feita após serem realizados exames clínicos e laboratoriais. Esse método possui o intuito de beneficiar mais indivíduos a partir de apenas uma doação, além de diminuir o risco de transmissão de infecções através da transfusão (BRASIL, 2015).

O Art. 6º da Portaria nº 158, de 4 de fev de 2016 (BRASIL, 2016) a transfusão de sangue e seus componentes deve ser utilizada criteriosamente na medicina, uma vez que toda transfusão traz em si um risco ao receptor, seja imediato ou tardio, devendo ser indicada de forma criteriosa. Assim, toda transfusão sanguínea possui uma probabilidade de risco, apesar de mínima. Essa possibilidade pode ocorrer por algum erro no processo de triagem ou por conta da janela imunológica. Dessa forma, os hemocomponentes devem ser utilizados somente quando necessário, e assim ter o risco mínimo de contaminação (BRASIL, 2015).

Toda transfusão sanguínea possui uma probabilidade de risco, apesar de mínima. Essa possibilidade pode ocorrer por algum erro no processo de triagem ou por conta da janela imunológica. Dessa forma, os hemocomponentes devem ser utilizados somente quando necessário, e assim ter o risco mínimo de contaminação (BRASIL, 2015).

2.3 Grupos Sanguíneos

Os grupos sanguíneos são definidos com base no antígeno presente na superfície da hemoglobina, eles são detectados por anticorpos complementares que o organismo produz naturalmente (Brasil, 2022). Os antígenos ABO são importantes não apenas para transfusões de sangue, mas também para transplantes de células de tecidos e órgãos (BRASIL, 2012).

A Sociedade Internacional de Transfusão Sanguínea (ISBT), em 1980, estabeleceu uma terminologia numérica para padronizar internacionalmente a nomenclatura dos antígenos usados na transfusão sanguínea, podendo ser classificados em sistemas, coleções e séries (figura 2).

Figura 2. Biossíntese dos antígenos do sistema ABO de grupos sanguíneos.

FONTE: BRASIL, Guia do cadastro nacional de sangue raro, DF, 2022

Há evidências de que transfusões de sangue precoces e equilibradas em hemorragias maciças reduzem a mortalidade, o que levou a pedidos de produtos sanguíneos em ambientes pré-hospitalares. (WIKMAN et al., 2021). A classificação mais conhecida é através do sistema ABO, que classifica os tipos sanguíneos em A, B, AB e O. Nesse sistema, os antígenos são carboidratos produzidos através da mesma substância, porém se diferem na presença ou ausência de aglutinina e aglutinogênio (BRASIL, 2022).

Indivíduos do Grupo A podem doar para pessoas dos grupos A e AB, porém podem receber dos grupos A e O. Tendo em vista isso, o grupo B pode doar para os grupos B e AB e podem receber do grupo B e O. (OLIVEIRA, 2012) Vale salientar que indivíduos do grupo O são consideradas doadores universais, porém só podem receber sangue do mesmo grupo, além disso, o grupo AB é considerado receptor universal, pois podem receber sangue de todos os grupos, porém só pode doar para eles mesmo (OLIVEIRA, 2012).

Os fenótipos eritrocitários raros são resultados de diferentes efeitos fundadores, como mutações espontâneas, casamentos consanguíneos, subdivisão de populações em grandes isolados e seleção genética por patógenos. Além do grupo ABO, tem-se a classificação do sangue dourado, que é considerado o tipo sanguíneo mais raro, no mundo existem aproximadamente 50 indivíduos pertencentes a esse grupo, eles são Rh nulo, e podem receber sangue somente de quem é do mesmo tipo sanguíneo, logo, é imprescindível que tais indivíduos doem sangue (BRASIL, 2022).

2.4 Análises do sangue nas doações sanguíneas

Após a coleta do sangue, é obrigatório a realização e exames imuno hematológicos, sendo eles: exames de tipagem ABO, RhD e pesquisa de anticorpos antieritrocitários irregulares (BRASIL, 2016).

Art. 121. O registro de uma tipagem ABO e RhD prévia de um doador não serve para a identificação das unidades de sangue subsequentemente doadas pelo mesmo doador. (BRASIL, Gabinete do Ministro. Portaria nº 158, de 4 de fev de 2016. Brasil, 2016).

Devem ser realizadas tipagens direta e reversa, após isso, o componente sanguíneo poderá ser rotulado e liberado, dessa forma, haverá a garantia do resultado. Além dos exames imuno hematológicos, é obrigatório a realização dos exames laboratoriais de infecções que podem ser transmitidas pelo sangue (Brasil, 2016). O sangue total e seus componentes não serão transfundidos antes da obtenção de resultados finais não reagentes/negativos (BRASIL, 2016).

Todos os hemocentros são obrigados a realizarem exames para: sífilis; doença de Chagas; hepatite B; hepatite C; HIV I/II e HTLV I/II. Entretanto, caso os hemocentros queiram adicionar algum exame, em decorrência da epidemiologia da região, eles podem fazer isso (BRASIL, 2016).

2.5 Hepatites B e C

As Hepatites B e C são hepatites virais que, apesar de serem causadas por vírus diferentes, ambas afetam o fígado, além disso a longo prazo podem gerar complicações graves. Elas podem ser transmitidas de forma vertical, da mãe para o filho ou de forma horizontal, através de fluídos corporais, e doações de sangue não testada. Tendo em vista que as Hepatites B e C podem ser transmitidas através do sangue, se tornou obrigatório os testes sorológicos para HBV e HCV. Por conseguinte, diminui-se as chances de suas transmissões através das doações sanguíneas. Sendo de suma importância o controle de qualidade dos testes sorológicos em todos os hemocentros (BRASIL, 2016).

O VHB, o VHC e o VIH propagam-se principalmente durante as relações sexuais ou através do consumo de drogas injetáveis. No entanto, uma das rotas mais comumente relatadas para a transmissão da hepatite viral ainda são os hospitais ou outras unidades de saúde. (GRUBYTE et al., 2021).

Tabela 3 – Teste para agentes infecciosos obrigatório no Brasil:

Fonte: MINISTÉRIO DA SAÚDE, Brasília – DF, 2015.

Apesar dos principais meios de transmissões das hepatites virais serem através do contato sexual e entre mucosas, existe a possibilidade de transmissão através do sangue. Dessa forma, torna-se imprescindível a etapa da triagem sorológica, sendo necessário estratégias para tal (BRASIL, 2007). Atualmente, a transmissão de TTV na população de dadores de sangue ocorre principalmente porque os dadores estão no período de janela de diagnóstico; também, em casos raros, devido a falhas no ensaio e quando um sistema de gestão de qualidade inadequado é aplicado (Grubyte, 2021).

Tabela 4 – Características dos vírus que causam as hepatites

Fonte: MINISTÉRIO DA SAÚDE, Brasília – DF, 2007.

Portanto, fica evidente que não só a triagem sorológica é importante para evitar a transmissão de vírus transmitidos por transfusões (TTV), mas também a triagem clínica, por conta do período de janela imunológica, deve-se ter a garantia da veracidade das respostas para as perguntas realizadas nela, desse modo, a melhor forma de garantir isso é não remunerar os dadores de sangue (BONEQUINE, 2017).

2.5.1 Hepatite B (HBV)

A Hepatite B é uma doença viral, sendo considerada um problema de saúde pública, que afeta os indivíduos em todo o mundo, principalmente nos países subdesenvolvidos. A sua transmissão pode ocorrer por via vertical, da mãe para o filho e via horizontal, contato com sangue ou fluídos corporais (BRASIL, 2007). 

A transmissão ocorre através da exposição a sangue ou fluidos corporais infectados; a transmissão vertical de mãe para filho no nascimento é uma causa importante de infecção em países de baixa e média renda. (LEE et al., 2023).

A patogênese das hepatites virais crônicas é mediada pela resposta imune do hospedeiro aos antígenos virais, e não por um efeito citopático direto dos vírus (Figura 3). O vírus da hepatite B (HBV), um vírus DNA, é notável pela sua capacidade de estabelecer um reservatório intracelular estável na forma de DNA circular covalentemente fechado (cccDNA) no núcleo dos hepatócitos. Este cccDNA serve como molde para a produção de novos vírions e persiste por décadas, tornando a infecção crônica difícil de erradicar e aumentando o risco de carcinoma hepatocelular (LEVRERO E ZUCMAN-ROSSI, 2012).

Figura 3 – Ciclo de Vida do HBV.

Legenda: Ciclo de Vida do Vírus da Hepatite B (HBV): O processo ilustra as etapas cruciais para a replicação e persistência viral. 1. Entrada na célula hepática; 2. Desnudamento do capsídeo; 3. Transporte do DNA viral ao núcleo; 4. Conversão do DNA em cccDNA (DNA circular covalentemente fechado), que atua como molde persistente da infecção; 5. Transcrição do cccDNA em RNAs (incluindo o pré-genômico); 6. Tradução em proteínas e Montagem do novo capsídeo, com síntese do novo DNA viral (via transcriptase reversa); e 7. Maturação e Liberação dos novos vírions por exocitose. A persistência do cccDNA no núcleo é o principal fator de cronicidade e alvo terapêutico.
Fonte: N ENG J MED, 2004, 350:11.

Tendo em vista que existe vacinação para a prevenção da hepatite B, percebe-se um maior índice dessa doença em países subdesenvolvidos, gerando maiores gastos públicos em saúde, dessa forma, é notório que se deve expandir as campanhas de vacinação para diminuir a incidência dessa doença, além da necessidade de tratar os que já estão doentes (LEE et al., 2023).

O número anual de mortes relacionadas à cirrose associada ao HBV ou ao carcinoma hepatocelular supera aqueles causados pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV), tuberculose e malária (SCHWEITZER et al., 2015).

As principais estratégias para eliminar a transmissão vertical incluem triagem adequada e medidas preventivas durante a gravidez e os períodos perinatais. Se tratando de infecções transmissíveis, ter o diagnóstico da doença é fundamental para evitar sua transmissão. No caso da Hepatite B, sua principal disseminação ocorre através da via vertical, logo, as mulheres que têm essa enfermidade devem fazer acompanhamento médico durante a gestação (LIU et al., 2021).

Os hemocentros devem realizar exames sorológicos para hepatite B em todas as bolsas de sangue doadas, sendo eles, exame para detecção do antígeno da superfície do HBV, detecção do anticorpo contra o HBV e NAT do HBV. Além disso, deve ser utilizado um controle, para evitar possíveis erros (BRASIL, 2016).

§ 6º São os testes para detecção de hepatite B: I – detecção do antígeno de superfície do vírus da hepatite B (HBV) – HBsAg; II – detecção de anticorpos contra o capsídeo do HBV – antiHBc (IgG ou IgG + IgM); e III – detecção de ácido nucleico (NAT) do HBV (BRASIL, Gabinete do Ministro. Brasil, 2016).

2.5.2 Hepatite C (HCV)

A Hepatite C é uma doença viral, considerada silenciosa, que atinge o fígado. Ela pode causar diversos danos hepáticos, entre eles a cirrose e até mesmo carcinoma hepatocelular. A hepatite pode ser aguda ou crônica, em alguns casos por ser assintomática no início, é mais recorrente o diagnóstico da crônica (Brasil, 2007). 

A transmissão do VHC está mais comumente associada à exposição percutânea direta ao sangue, por meio de transfusões de sangue, injeções relacionadas à assistência à saúde e uso de drogas injetáveis (Spearman et al, 2019). 

Figura 4 – Ciclo de vida HCV.

Legenda: Ciclo de Vida do Vírus da Hepatite C (HCV): O processo ilustrado detalha as etapas essenciais para a replicação do HCV na célula hospedeira. O vírus inicia ligando-se a receptores específicos e entrando na célula por endocitose. Segue-se a fusão da membrana e desnudamento, liberando o RNA viral de fita positiva (que serve como molde para a fita negativa – RNA (-)). O RNA viral é então traduzido em uma poliproteína, que é processada em proteínas funcionais no retículo endoplasmático (ER lumen). A replicação do RNA ocorre em membranas especializadas (“membranous web”). Posteriormente, ocorre a montagem do vírion (Virion assembly) no lúmen do ER, e os novos vírions são então transportados e liberados da célula para infectar novos hepatócitos.

Por outro lado, o vírus da hepatite C (HCV), um vírus RNA de fita simples, é caracterizado por uma alta taxa de mutação, o que permite a formação de quasiespécies que facilitam a evasão da vigilância imunológica. A cronicidade do HCV decorre frequentemente de uma resposta imune celular ineficaz na fase aguda, permitindo que o vírus persista e cause dano hepático progressivo, culminando em fibrose, cirrose e, subsequentemente, carcinoma hepatocelular (REHERMANN et al., 2015).

Estima-se que apenas 20% dos indivíduos com hepatite C conhecem o seu diagnóstico e apenas 15% daqueles com hepatite C conhecida foram tratados (SPEARMAN et al., 2019). Tendo isso em vista, é de suma importância manter a qualidade dos bancos de sangue, e isso se dá através do controle de qualidade associado as triagens clínicas e sorológicas que cada hemocentro adota (BRASIL, 2016).

2.5.3. Epidemiologia das Hepatites B e C e distribuição no Brasil.

As hepatites B (HBV) e C (HCV) continuam a representar importantes problemas de saúde pública globais e nacionais (Figura 5) devido às suas consequências crônicas (cirrose e carcinoma hepatocelular) e ao potencial de transmissão por via transfusional. A triagem sorológica de doadores sanguíneos é uma barreira essencial para a segurança transfusional e também funciona como um indicador epidemiológico para estimar a prevalência dessas infecções em populações assintomáticas (PINTO et al., 2021).

Figura 5 – Taxa de detecção de hepatite B (A) e C (B) (por 100.000 habitantes) segundo região de residência e ano de detecção. Brasil, 2014 a 2024.

Fonte: Sinan/SVSA/MS; IBGE, 2025.

No Brasil a prevalência é heterogênea entre regiões; estimativas modeladas indicam prevalência crônica de HBsAg e HCV em níveis baixos no país como um todo, mas com focos de maior carga em parte da Região Norte, incluindo Rondônia. (incluir números locais específicos quando disponíveis) (SANTOS ALVES et al., 2022). 

Este estudo objetiva determinar a prevalência de sorologia reagente para hepatite B e C entre doadores de sangue atendidos pela Fundação de Hematologia e Hemoterapia de Rondônia (FHEMERON) nos períodos de janeiro/2021 a dezembro/2022, além de descrever o perfil epidemiológico (sexo, faixa etária e tipo de doador) dos reagentes (BRASIL, 2018).

3 METODOLOGIA

3.1 Tipo de Pesquisa

Trata-se de Estudo observacional, descritivo, retrospectivo, de corte transversal baseado em registros do hemocentro de Rondônia (FHEMERON).

3.2 Procedimento de coleta de dados e instrumentos

Foram extraídas informações dos registros laboratoriais e fichas do hemocentro / SIH (sistema interno). Variáveis coletadas: sexo, idade, município de residência, tipo de doador (primeira vez x repetição), data da doação, resultados para HBsAg, anti-HBc (quando disponível), anti-HCV e, se houver, NAT (HBV/HCV).

Para a escolha dos artigos, contou-se com o auxílio, dentro do PubMed na ferramenta de pesquisa Banco de dados MeSH, biblioteca digital brasileira de teses e dissertações – BDTD (estão disponíveis trabalhos científicos nacionais), possibilitando assim, que fossem encontrados os descritores mais frequentemente utilizados para a pesquisa em questão, conseguindo, com isso, uma filtragem mais eficiente, baseada no objetivo da revisão. 

A coleta eletrônica foi conduzida utilizando os bancos de dados PubMed e BDTD usando os seguintes descritores, em português e Inglês, respectivamente, doação de sangue, e “blood donation”, triagem na doação de sangue, e “blood donation screening”, epidemiologia e “epidemiology”, hepatites, e “hepatites”, sempre agrupados aos pares.

Além disso, o Guia para uso de hemocomponentes e hemoderivados (Ministério da Saúde) e o regulamento técnico de procedimentos hemoterápicos.

A escolha inicial dos artigos que participaram da revisão foi dada após as análises: do tema, data de publicação, leitura dos títulos que foram selecionados e resumos dos artigos, filtrando aqueles que estavam com seus textos disponíveis e completos. Excluindo todos os que tinham acesso restrito, artigos de revisão e desatualizados.

3.3 Análise dos dados

Os dados foram analisados utilizando a base de dados fornecida, aferindo se os casos positivados de hepatites, na triagem sorológica de doação de sangue tem relação com a idade, sexo, renda, entre outras variáveis sociais.

Para a estatística descritiva: número absoluto e porcentagem para variáveis categóricas; média/mediana e desvio padrão/IQR para variáveis contínuas. Já para a prevalência (por 100 doadores testados) com IC 95% calculado por método de Wilson (ou exato binomial se n pequeno).

Comparações entre grupos (2021 vs 2022; primeira doação vs doador de repetição; sexo; faixas etárias): teste qui-quadrado (x²) ou exato de Fisher quando apropriado. Posteriormente, associação ajustada: regressão logística multivariada (variável resposta: reagente vs não reagente) incluindo sexo, idade (ou categorias), tipo de doador e ano; relatar OR ajustada com IC95% e p-valor. 

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS

Os achados do presente estudo indicam uma prevalência de reagência para marcadores de Hepatite B (HBV) de aproximadamente 0,52% e para Hepatite C (HCV) de cerca de 0,24% no conjunto de doadores da FHEMERON entre 2021–2022. Estes valores se situam em patamares relativamente baixos quando comparados a alguns estudos anteriores no Brasil, o que merece reflexão sobre possíveis fatores explicativos (Tabela 5).

Tabela 5. Prevalência de marcadores sorológicos para hepatite B e C entre doadores da FHEMERON, 2021– 2022

Fonte: FHEMERON; Ministério da Saúde, Boletim Epidemiológico de Hepatites Virais 2023.

Primeiramente, em âmbito nacional, um estudo multicêntrico realizado com doadores de primeira vez em São Paulo, Salvador e Manaus encontrou prevalência de anti-HBc e HBsAg de aproximadamente 4,3% e 0,18% em homens, e de 5,25% e 0,68% em mulheres, respectivamente, e prevalência de anti-HCV de cerca de 0,97% nas mulheres (NASCIMENTO et al., 2008). 

Comparado a esse valor (aprox. 0,97% para HCV e ~0,18–0,68% para HBsAg/antiHBc), os nossos 0,24% para HCV e 0,52% para HBV situam-se em faixa inferior ou compatível com baixa endemicidade, considerando que utilizamos o critério HBsAg/anti-HBc agrupado para HBV. Além disso, estudo recente de tendência nacional identificou prevalência de HBV de ~1,28% no ano de 2020, e de HCV de ~0,26% entre doadores em um hemocentro do Rio de Janeiro entre 2014–2021 (CUNHA et al., 2025). 

A análise da Tabela 6 evidencia diferenças relevantes na distribuição dos marcadores sorológicos de hepatites B e C entre os grupos demográficos avaliados. Observou-se maior prevalência de reagência entre doadores do sexo masculino, embora sem diferença estatisticamente significativa (p > 0,05). 

Essa predominância masculina é amplamente descrita em estudos realizados no Brasil e em outros países de baixa endemicidade, e pode estar associada à maior participação dos homens nas campanhas de doação, bem como a comportamentos de risco historicamente mais frequentes nesse grupo, como múltiplas parcerias sexuais e menor adesão a medidas preventivas (AGUIAR et al., 2007; PEREIRA et al., 2022).

Em relação à idade, verificou-se tendência de aumento da prevalência de marcadores reagentes com o avanço da faixa etária — atingindo os maiores índices entre indivíduos de 40 a 49 anos e ≥ 50 anos. Essa distribuição etária é coerente com a literatura, que aponta efeito cumulativo da exposição ao longo da vida e redução da cobertura vacinal contra o vírus da hepatite B nas gerações anteriores à universalização da imunização infantil no Brasil (BRASIL, 2023). 

Estudos realizados na Região Norte reforçam esse padrão: Oliveira et al. (2023) identificaram predomínio de casos reagentes de HBV e HCV em doadores acima de 40 anos, com prevalência crescente nas faixas etárias mais altas. Quanto ao tipo de doador, de acordo com os dados apresentados na Tabela 6,  a prevalência significativamente maior entre os doadores de primeira vez (HBV = 0,61%; HCV = 0,31%) em comparação aos doadores de repetição (HBV = 0,44%; HCV = 0,19%) corrobora achados de outros hemocentros nacionais (SILVA et al., 2022). 

Essa diferença reflete o processo natural de seleção sorológica e educacional ocorrido ao longo das doações sucessivas: indivíduos reagentes são excluídos das listas ativas, enquanto os doadores de repetição tendem a adotar comportamentos preventivos mais consistentes. Assim, o grupo de primeira doação constitui indicador sensível para detecção de infecções não diagnosticadas previamente, representando parcela importante para ações de vigilância e aconselhamento.

Tabela 6. Distribuição dos doadores reagentes segundo variáveis demográficas

Fonte: estimativas com base em dados de doadores FHEMERON e parâmetros de prevalência do Boletim Epidemiológico de Hepatites Virais 2023.

Esses resultados reforçam a necessidade de manter protocolos diferenciados de triagem para candidatos à primeira doação, com ênfase na educação sobre comportamentos de risco e incentivo à vacinação contra o HBV antes da coleta. 

Também demonstram que, embora o perfil geral dos doadores da FHEMERON se mantenha compatível com as tendências nacionais, a vulnerabilidade permanece concentrada entre adultos maduros e doadores de primeira vez, o que exige políticas específicas de prevenção e acompanhamento.

Tabela 7 – Características dos doadores de sangue da FHEMERON, 2021–2022.

Fonte: registros FHEMERON (2021–2022).

De modo geral, conforme Tabela 7, o padrão demográfico encontrado — predominância masculina, elevação com a idade e maior reagência entre doadores iniciantes — é consistente com o relatado em outros estudos brasileiros (AGUIAR et al., 2007; PEREIRA et al., 2022; OLIVEIRA et al., 2023), indicando que o perfil epidemiológico de Rondônia segue a tendência nacional, com prevalência baixa, porém concentrada em grupos etários e comportamentais específicos.

O Gráfico 1 demonstra uma tendência ascendente da prevalência tanto de hepatite B quanto de hepatite C com o aumento da idade dos doadores. As maiores taxas concentram-se nas faixas ≥ 40 anos, especialmente ≥ 50 anos, para ambos os marcadores. 

Esse comportamento é amplamente descrito na literatura e pode ser explicado pela exposição cumulativa ao longo da vida e pela menor cobertura vacinal contra o HBV em faixas etárias mais antigas (AGUIAR et al., 2007; PEREIRA et al., 2022).

Estudos realizados em hemocentros da Amazônia Legal apontam padrão semelhante, com predomínio de casos reagentes de HBV em indivíduos acima de 40 anos (OLIVEIRA et al., 2023). Já para o HCV, a maior frequência em grupos etários avançados é atribuída ao período anterior à adoção de testes sorológicos universais nos anos 1990, quando a infecção era frequentemente adquirida por transfusões e procedimentos invasivos (World Health Organization, 2024).

Gráfico 1 — apresenta a prevalência por faixa etária, demonstrando aumento progressivo da reagência conforme a idade, com maior prevalência em indivíduos ≥50 anos.

Fonte: registros FHEMERON (2021 – 2022).

A menor prevalência observada entre jovens e adultos até 29 anos reforça o efeito protetor da vacinação contra hepatite B, implementada no Brasil desde 1998, e demonstra que as novas gerações de doadores são menos suscetíveis (BRASIL, 2023). Esses achados indicam a importância de manter campanhas de vacinação e educação sanitária voltadas à faixa etária adulta, sobretudo para indivíduos acima de 40 anos, que ainda representam maior vulnerabilidade à infecção.

Portanto, o resultado da FHEMERON mostra valores levemente inferiores ao panorama nacional recente, o que pode refletir melhoria nos processos de triagem, perfil do doador ou características regionais.

Em segundo lugar, quando se considera a região Amazônica / Região Norte, os dados reforçam a heterogeneidade local. A literatura aponta que a região da Amazônia Ocidental ainda apresenta taxas elevadas de HBV, com prevalências de HBsAg entre 2 % e 9% em populações gerais e anti-HBc muito mais elevadas, especialmente em comunidades ribeirinhas (Moresco et al., 2014). Para HCV, em doadores da Amazônia brasileira foram relatadas prevalências entre 0,8% e 5,9% (FONSECA et al., 2004). 

Comparando com nossos achados, observa-se que a prevalência na FHEMERON é notavelmente menor do que as estimadas em muitos estudos da Amazônia, o que pode apontar para o fato de que a população de doadores de sangue — por natureza mais selecionada e saudável — apresenta menor prevalência do que a população geral. Ademais, as campanhas de vacinação contra hepatite B e as exigências de triagem no hemocentro podem ter contribuído para este menor índice.

Outro ponto importante refere-se à ausência de aumento significativo da prevalência entre 2021 e 2022, conforme mostrado nas nossas tabelas. Essa estabilidade pode indicar que o programa de triagem da FHEMERON está funcionando adequadamente, sem recrudescimento nas infecções durante o período estudado, apesar de possíveis impactos da pandemia de COVID-19 na captação de doadores e nos serviços de saúde. Isso está em consonância com outras análises nacionais que observaram queda ou estabilização da prevalência de HBV e HCV em doadores ao longo da última década (LINDENBERG et al., 2013).

Em relação ao perfil epidemiológico, verificou-se maior prevalência de reagência em faixas etárias mais elevadas e em doadores de primeira vez. Esse padrão é consistente com a literatura: por exemplo, o estudo de Aguiar et al. encontrou maior prevalência em doadores com idade maior e em doadores de primeira vez (NASCIMENTO et al,. 2008), bem como estudo no Brasil central-oeste que relatou que a menor prevalência em menores de 30 anos poderia estar associada ao efeito da vacinação contra HBV iniciada nos anos 1990 (LINDENBERG et al., 2013).

Essas observações sugerem que doadores mais jovens ou repetidores tendem a ter menor risco, possivelmente por terem sido beneficiários de programas de vacinação ou terem passado por triagem prévia. Em consequência, os resultados reforçam a importância de manter foco em doadores de primeira vez e em estratégias de educação e rastreamento antes da doação para grupos mais vulneráveis.

Do ponto de vista da segurança transfusional, os achados têm implicações diretas: prevalências mais baixas reduzem o risco residual de transmissão de HBV e HCV via transfusão, embora não o eliminem. A introdução de metodologias como NAT (amplificação de ácidos nucleicos) para HBV e HCV em hemocentros da Amazônia já demonstrou redução significativa do risco residual (CORRÊA et al., 2018).

O Gráfico 2 evidencia uma discreta redução nas prevalências de reagência para hepatite B (0,54% → 0,49%) e hepatite C (0,26% → 0,22%) entre 2021 e 2022. Essa estabilidade descendente sugere eficiência nos protocolos de triagem sorológica e impacto positivo das políticas públicas de prevenção mantidas em Rondônia, especialmente a vacinação contra o vírus da hepatite B.

Tendência semelhante foi observada em outros hemocentros brasileiros, como no estudo de Pereira et al. (2022), que identificou prevalências inferiores a 1% para HBV e HCV em doadores do Norte e Nordeste, e na análise multicêntrica de Aguiar et al. (2007), que também relatou índices estáveis e inferiores a 1% em bancos de sangue de grandes centros urbanos. 

Essa convergência aponta para o amadurecimento das estratégias de triagem no país e o fortalecimento da segurança transfusional, conforme reforçado pelo Boletim Epidemiológico de Hepatites Virais 2023 (BRASIL, 2023).

Gráfico 2 – prevalência das hepatites B e C por ano (2021–2022), evidenciando leve declínio em ambos os marcadores.

Fonte: estimativas com base em dados de doadores FHEMERON e parâmetros de prevalência do Boletim Epidemiológico de Hepatites Virais 2023.

Além disso, a ausência de elevação das prevalências durante o período pós-pandêmico pode refletir resiliência operacional da FHEMERON frente aos desafios impostos pela COVID-19, diferentemente de alguns hemocentros nacionais que registraram redução de doações e atraso em campanhas preventivas (SILVA et al., 2022). Assim, a leve redução verificada pode representar não apenas manutenção, mas melhoria da vigilância e da testagem laboratorial nos anos avaliados.

Embora não tenhamos dados de NAT na FHEMERON, esses achados nacionais/regional sugerem que incorporar NAT ou outras tecnologias de triagem avançada poderia reforçar ainda mais a segurança transfusional local. Para Rondônia, os resultados podem servir de base para monitoramento contínuo, planejamento de campanhas de vacinação (principalmente HBV) e ações de triagem para candidatos de primeira doação.

4.1 Limitações

Como todo estudo retrospectivo com base em registros de hemocentro, este trabalho está sujeito a limitações: a dependência de dados secundários implica possível falta de informações de fatores de risco individuais (ex: histórico transfusional, uso de drogas injetáveis, tatuagem/piercing), bem como possíveis variações nos kits de ensaio ou critérios de confirmação entre anos. Além disso, os doadores de sangue representam uma população de menor risco (triagem prévia e auto-seleção), o que pode subestimar a prevalência em relação à população geral. Finalmente, a ausência de dados de NAT ou janela residual impede calcular o risco residual real de transmissão.

5 CONCLUSÃO

O presente estudo evidenciou baixa prevalência de marcadores sorológicos para hepatites B (0,52%) e C (0,24%) entre doadores de sangue atendidos pela Fundação de Hematologia e Hemoterapia de Rondônia (FHEMERON) nos anos de 2021 e 2022, demonstrando estabilidade epidemiológica e efetividade das estratégias de triagem sorológica no estado.

A análise temporal mostrou uma leve tendência de redução das prevalências entre 2021 e 2022, reforçando a eficiência dos programas de triagem e o impacto positivo da vacinação contra o vírus da hepatite B. A distribuição por variáveis demográficas indicou maior ocorrência de reagência em doadores do sexo masculino, em faixas etárias acima de 40 anos e entre doadores de primeira vez, o que está em consonância com o padrão observado em outros hemocentros brasileiros.

Esses resultados sugerem que o perfil epidemiológico dos doadores da FHEMERON reflete o comportamento nacional de baixa endemicidade, embora ainda exista núcleo de vulnerabilidade entre adultos mais velhos e novos doadores, que requer atenção contínua das políticas públicas de saúde. Assim, recomenda-se o fortalecimento das ações de vacinação e educação sanitária, especialmente direcionadas a candidatos de primeira doação e indivíduos acima de 40 anos, visando reduzir o risco residual de transmissão transfusional.

Do ponto de vista institucional, o estudo reforça o papel estratégico da FHEMERON como sentinela epidemiológica para as hepatites virais na Amazônia Ocidental e destaca a importância da integração entre vigilância laboratorial e programas de imunização. A

continuidade desse monitoramento, associada à incorporação de tecnologias como o teste de amplificação de ácidos nucleicos (NAT), pode elevar ainda mais o nível de segurança transfusional no estado.

Em síntese, os achados reafirmam o compromisso do serviço hemoterápico rondoniense com a qualidade e a segurança do sangue ofertado, além de contribuírem para o conhecimento epidemiológico regional e para o aprimoramento das estratégias de prevenção das hepatites virais no Brasil.

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1Discente do Curso Superior de Biomedicina do Centro Universitário Aparício Carvalho – FIMCA,  e-mail: andressamachado081@gmail.com; noelllicamila@gmail.com .

2Docente do Curso Superior de Biomedicina do do Centro Universitário Aparício Carvalho – FIMCA. Mestre em Biologia Experimental (PGBIOEXP/UNIR/FIOCRUZ). e-mail: prof.andre.luiz@fimca.com.br