PRECARIZAÇÃO DOS PROCESSOS DE LIMPEZA, DESINFECÇÃO E ESTERILIZAÇÃO DE MATERIAIS ODONTO-CIRÚRGICOS: REVISÃO INTEGRATIVA

PRECARIOUSNESS OF CLEANING, DISINFECTION, AND STERILIZATION PROCESSES OF DENTAL-SURGICAL MATERIALS: AN INTEGRATIVE REVIEW

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510181004


Mary Dalva Macedo Batista1
Lillia Michely Nunes Abreu2
Kassia Rejane dos Santos3
Vinicius Costa Carneiro4
Renata Martins Gomes Pinheiro5
Carla Patrícia Feitosa de S. Pacheco6
José Magno Ribeiro Pinheiro7


Resumo 

A Atenção Primária à Saúde (APS), considerada a principal porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS), é orientada pelos princípios da universalidade, integralidade e coordenação do cuidado. Entretanto, sua efetivação é sistematicamente fragilizada por questões estruturais e operacionais, como a precarização no fornecimento de artigos médico-cirúrgicos.  A biossegurança em ambientes odontológicos é um tema de extrema relevância, especialmente no que se refere aos processos de limpeza, desinfecção e esterilização de materiais. Esses procedimentos são fundamentais para prevenir a disseminação de infecções nosocomiais, protegendo tanto os pacientes quanto os profissionais da saúde. Contudo, a precarização desses processos tem sido amplamente documentada, indicando falhas em etapas críticas, desde a limpeza inicial até o monitoramento da esterilização. Este estudo trata-se de uma revisão integrativa da literatura, com o objetivo de reunir, analisar e sintetizar evidências científicas disponíveis sobre a precarização de artigos médico-cirúrgicos na Atenção Primária à Saúde (APS), suas implicações para a qualidade do cuidado, a segurança do paciente e a prática dos profissionais de saúdeOs achados dessa revisão têm implicações importantes para a prática odontológica e para as políticas públicas de saúde. Primeiramente, a precarização dos processos de esterilização nos serviços públicos de saúde revela a necessidade urgente de melhorias nas infraestruturas e no fornecimento de equipamentos adequados. Além disso, é necessário um maior investimento em programas de capacitação para garantir que os profissionais de saúde, especialmente aqueles que atuam em serviços públicos, possuam o conhecimento necessário para seguir rigorosamente os protocolos de esterilização e controle de infecção. 

Palavras-chave: Limpeza, Desinfecção, Esterilização, APS, Material odonto-cirúrgico.

1. INTRODUÇÃO 

A biossegurança em ambientes odontológicos é um tema de extrema relevância, especialmente no que se refere aos processos de limpeza, desinfecção e esterilização de materiais. Esses procedimentos são fundamentais para prevenir a disseminação de infecções nosocomiais, protegendo tanto os pacientes quanto os profissionais da saúde. Contudo, a precarização desses processos tem sido amplamente documentada, indicando falhas em etapas críticas, desde a limpeza inicial até o monitoramento da esterilização. 

A Atenção Primária à Saúde (APS), considerada a principal porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS), é orientada pelos princípios da universalidade, integralidade e coordenação do cuidado. Entretanto, sua efetivação é sistematicamente fragilizada por questões estruturais e operacionais, como a precarização no fornecimento de artigos médico-cirúrgicos. Esse problema compromete a realização segura de procedimentos e coloca em risco a qualidade da assistência e a segurança dos usuários e dos profissionais de saúde (ARAÚJO; LIMA; NASCIMENTO, 2020). 

A precarização, que pode ser entendida como a insuficiência de recursos, supervisão inadequada e desrespeito às normas, apresenta-se como um problema complexo, especialmente em países como o Brasil, onde as desigualdades no acesso à saúde impactam diretamente a qualidade dos serviços prestados. Além disso, a negligência nos processos de esterilização expõe indivíduos a agentes patogênicos, incluindo vírus como os da hepatite B e C e o HIV, aumentando os riscos de infecção cruzada. 

As boas práticas no manejo do material é uma preocupação central na prática odontológica, dado o alto risco de exposição a agentes infecciosos durante os procedimentos clínicos. O processo de limpeza, desinfecção e esterilização de materiais odonto-cirúrgicos é essencial para prevenir infecções cruzadas, protegendo pacientes e profissionais de saúde de doenças graves, como hepatites virais e HIV. No entanto, a precarização desses processos tem sido amplamente documentada na literatura, revelando falhas que comprometem a eficácia da esterilização e, consequentemente, a segurança dos atendimentos. 

Esse tema adquire relevância ainda maior no contexto brasileiro, onde as desigualdades no acesso à saúde, associadas à sobrecarga dos serviços públicos e à insuficiência de recursos, criam um cenário propício para o descumprimento de protocolos de biossegurança. Além disso, o setor privado, embora disponha de melhores condições financeiras, também enfrenta desafios relacionados ao treinamento e à supervisão de profissionais, muitas vezes resultando em práticas inadequadas. A precarização, portanto, não se limita a uma questão de infraestrutura, mas envolve aspectos educacionais, organizacionais e culturais que afetam diretamente a qualidade dos serviços odontológicos. 

A necessidade de realizar uma revisão integrativa sobre esse tema se justifica por diversos fatores. Em primeiro lugar, a revisão permitirá sintetizar os principais achados da literatura, fornecendo uma visão abrangente sobre as condições atuais dos processos de limpeza, desinfecção e esterilização. Essa abordagem é fundamental para identificar as falhas mais recorrentes e as áreas que demandam maior atenção, como o uso insuficiente de indicadores químicos e biológicos, a manutenção inadequada de equipamentos e a falta de capacitação dos profissionais. 

Outro ponto que reforça a importância da revisão é a necessidade de destacar o impacto das lacunas na formação dos profissionais de odontologia. Muitos estudos apontam que graduandos e até mesmo profissionais formados possuem conhecimento insuficiente sobre os protocolos de biossegurança, o que contribui para a perpetuação de práticas inadequadas. Uma revisão integrativa pode consolidar essas evidências, reforçando a necessidade de melhorias nos currículos de cursos de odontologia e na oferta de treinamentos contínuos. 

Por fim, ao abordar a precarização dos processos de limpeza, desinfecção e esterilização, a revisão integrativa contribuirá para o avanço do conhecimento científico na área de odontologia e saúde pública. Ao consolidar informações de diferentes estudos, será possível identificar tendências, lacunas e oportunidades para futuras pesquisas, promovendo o desenvolvimento de soluções mais eficazes e sustentáveis para os desafios enfrentados na prática clínica. 

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA  

O manejo de materiais odonto-cirúrgicos no âmbito da Atenção Primária à Saúde (APS) é uma prática extremamente importante para a realização segura de procedimentos clínicos e cirúrgicos no campo da Odontologia, especialmente nos serviços públicos vinculados ao Sistema Único de Saúde (SUS). Historicamente, esse preparo esteve diretamente associado à evolução das práticas de biossegurança, esterilização e controle de infecções nos serviços de saúde bucal. 

A Estratégia Saúde da Família (ESF), nas décadas iniciais de implantação da muitos municípios brasileiros, passaram a incorporar cirurgiões-dentistas em suas equipes, viabilizando a ampliação da oferta de atendimentos odontológicos na rede básica. Entretanto, o suporte estrutural necessário à correta limpeza, desinfecção, acondicionamento e esterilização de materiais odontológicos nem sempre acompanhou esse crescimento, o que gerou disparidades regionais na organização dos fluxos de preparo dos instrumentais (BRASIL, 2008). 

O preparo dos instrumentais era realizado na própria Unidade Básica de Saúde (UBS), com a utilização de pias convencionais, tanques enzimáticos e autoclaves de bancada. A limpeza manual, muitas vezes feita de forma empírica, sem uso de escovas específicas, detergentes adequados ou Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) completos, representava um risco ocupacional e sanitário, tanto para os profissionais quanto para os usuários do serviço (RIBEIRO; MELO; FERREIRA, 2017). 

A Resolução da Diretoria Colegiada  n.º 15/2012 da ANVISA e pela RDC n.º 222/2018, que tratam, respectivamente, do processamento de produtos para saúde e do gerenciamento de resíduos em serviços de saúde e sobre processos de limpeza, desinfecção e esterilização de materiais médico-hospitalares que  são etapas fundamentais no controle de infecções relacionadas à assistência à saúde (IRAS), sendo regulamentados por diretrizes nacionais como 

No Brasil, esses processos são realizados, predominantemente, por profissionais da enfermagem e da Central de Material e Esterilização (CME), e seguem uma sequência lógica: limpeza, considerada a etapa mais crítica; desinfecção, que pode ser de baixo, médio ou alto nível; e esterilização, indicada para materiais críticos que penetram tecidos estéreis (BRASIL, 2012; 2018). 

O uso inadequado de soluções para limpeza com exemplos soluções enzimáticas, de acordo com Ferreira et al. (2020), evidenciam falhas na etapa de limpeza ausência de fricção manual adequada ou não cumprimento dos tempos de imersão, comprometendo desta forma, a eficácia das etapas subsequentes. Falhas no preparo de tais soluções ou uso em desacordo com as recomendações do produtor poderão comprometer todo o processo de limpeza, assim como os processos subsequentes como a desinfecção ou a esterilização de acordo com a classificação do material e sua finalidade de uso. 

A desinfecção é frequentemente mal compreendida na prática, e sua eficácia depende da correta diluição, temperatura e tempo de contato das soluções desinfetantes (SANTOS et al., 2020). Correlaciona desta forma, também a classificação do material para a correta desinfecção.  A esterilização, especialmente por vapor saturado sob pressão (autoclave), exige monitoramento rigoroso com indicadores químicos e biológicos, além de registros e validação dos ciclos. No entanto, conforme apontado por Oliveira et al. (2021), muitas instituições de saúde pública, principalmente em regiões periféricas e na Atenção Primária, apresentam falhas estruturais e operacionais nesses processos, o que compromete a segurança dos usuários e profissionais. 

Com a publicação de normativas técnicas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), como a RDC n.º 15/2012, que estabelece requisitos para o processamento de produtos para saúde, os serviços de APS passaram a ser formalmente cobrados quanto à adoção de boas práticas de reprocessamento de materiais. Isso inclui a organização de espaços físicos adequados, a padronização de fluxos unidirecionais, o uso de indicadores químicos e biológicos, além do registro e rastreabilidade dos ciclos de esterilização (BRASIL, 2023). Além disso, observa-se que o material deverá ter boas práticas de embalagem e armazenamento adequado, para não comprometer a integridade do processo a qual foi submetido. 

Embora o Brasil disponha de normativas robustas, a efetividade dos processos de reprocessamento de materiais ainda depende de investimentos em infraestrutura, educação permanente e supervisão técnica contínua. A correta execução dessas etapas é condição indispensável para a qualidade da assistência, redução de riscos e respeito aos princípios da biossegurança.  Portanto, a precarização dos processos de limpeza, desinfecção e esterilização na APS demanda resposta sistêmica, com ações que envolvam investimentos em infraestrutura, implementação de protocolos baseados em evidências, supervisão técnica contínua, valorização das equipes de enfermagem e integração entre os níveis de atenção. Tais medidas são essenciais para consolidar uma APS segura, ética e humanizada, conforme os princípios do SUS. 

3. METODOLOGIA  

Este estudo trata-se de uma revisão integrativa da literatura, com o objetivo de reunir, analisar e sintetizar evidências científicas disponíveis sobre a precarização de artigos médico-cirúrgicos na Atenção Primária à Saúde (APS), suas implicações para a qualidade do cuidado, a segurança do paciente e a prática dos profissionais de saúdePara tanto foram selecionados artigos disponíveis por fontes de literatura acadêmica disponível nas plataformas em bases de dados científicas como Google Acadêmico, Periódicos CAPES, SciELO e BVS, entre outros, que apresentassem uma metodologia clara e resultados relevantes para o tema da precarização nos processos de esterilização. Foram incluídos estudos empíricos, artigos de revisão, dissertações e teses, que abordassem diretamente os processos de limpeza, desinfecção e esterilização de materiais odonto-cirúrgicos. Priorizaram-se os estudos que discutem a precarização desses processos, suas falhas e os impactos na biossegurança. Os estudos publicados entre 2010 e 2023 foram selecionados. Esse período foi escolhido devido à relevância das pesquisas contemporâneas e à disponibilidade de dados recentes sobre as práticas de biossegurança na odontologia. 

Foram incluídos apenas estudos publicados em português, uma vez que a pesquisa se concentra em contextos brasileiros. Não foram incluídos artigos em outros idiomas, como inglês ou espanhol, para garantir que a revisão abordasse as especificidades do cenário odontológico brasileiro, além de estudos teóricos, editoriais, resenhas ou artigos que não tratassem especificamente dos processos de esterilização, desinfecção ou limpeza odontológica, ou que abordassem apenas superficialmente o tema 

A estratégia busca foi realizada com o objetivo de encontrar artigos e estudos que abordassem a precarização dos processos de limpeza, desinfecção e esterilização de materiais odonto-cirúrgicos, com foco na realidade brasileira. a busca de artigos relevantes para a revisão integrativa sobre a precarização dos processos de limpeza, desinfecção e esterilização de materiais odonto-cirúrgicos, foram utilizados termos de busca específicos combinados com operadores booleanos. A escolha desses termos e operadores visou abranger diferentes abordagens do tema e permitir a obtenção de resultados mais amplos e abrangentes. A seguir, detalham-se os termos de busca utilizados e a forma como os operadores booleanos foram aplicados: 

Os termos de busca utilizados “Precarização” – termo central para a revisão, refletindo as falhas ou deficiências nos processos de esterilização e biossegurança em serviços odontológicos. “Processos de esterilização” – abrange as técnicas, métodos e práticas envolvidas na esterilização de materiais odontológicos. 

“Desinfecção” – termo utilizado para encontrar estudos relacionados à limpeza e desinfecção de materiais antes da esterilização.”Limpeza”, relacionado às primeiras etapas do processo de biossegurança, fundamentais para a eficácia da esterilização e desinfecção.  “Materiais odontocirúrgicos” – foca nos instrumentos utilizados em procedimentos odontológicos que necessitam de esterilização para evitar a transmissão de doenças.”Biossegurança” termo que abrange todos os cuidados e protocolos destinados a prevenir infecções e garantir a segurança tanto dos pacientes quanto dos profissionais da saúde. 

“Serviço odontológico público” – utilizado para identificar estudos que abordam a precarização nos serviços públicos de saúde odontológica, onde muitas vezes há maiores desafios em relação a recursos e infraestrutura. 

“Serviço odontológico privado” – foca no setor privado, permitindo a comparação com o público e a identificação de diferenças nas práticas de biossegurança. 

“Falhas no processo de esterilização” – usado para identificar estudos que apontam as deficiências no cumprimento de protocolos de esterilização. 

“Controle de infecções odontológicas” – busca artigos relacionados ao controle de infecções que podem ser evitadas com a correta esterilização dos materiais. 

Essas combinações de termos permitiram localizar estudos relevantes na área de biossegurança odontológica, com ênfase nos processos de esterilização e as falhas associadas à precarização desses processos.  

1. Análise dos Textos Completos 

Os artigos que passaram pela triagem inicial, ou seja, aqueles cujos títulos e resumos indicavam relevância para o tema, foram lidos em sua totalidade. Essa análise foi fundamental para avaliar a qualidade metodológica dos estudos e sua aplicabilidade ao objetivo da revisão. 

Durante a leitura completa, os seguintes critérios foram avaliados: 

Metodologia, Relevância para o Tema, Resultados, Qualidade do Estudo. 

Artigos que apresentaram falhas metodológicas graves, como ausência de controle de variáveis ou dados insuficientes, foram excluídos nesta etapa. Além disso, aqueles cujos resultados não estavam diretamente relacionados à precarização dos processos de esterilização, ou que abordavam apenas de forma superficial o tema, também foram descartados. 

A partir desse processo de triagem, leitura de resumos e análise dos textos completos, um conjunto final de artigos foi selecionado para compor a revisão integrativa. Esse conjunto reflete as principais tendências, lacunas e desafios no que se refere à precarização dos processos de limpeza, desinfecção e esterilização no contexto odontológico, com um foco específico na realidade brasileira, particularmente em serviços públicos e privados de saúde. 

A análise e síntese dos dados extraídos dos estudos foram realizadas de maneira sistemática e estratégica, com o objetivo de agrupar, organizar e comparar as informações de forma coerente e alinhada com os objetivos da revisão integrativa. Essa etapa foi essencial para identificar padrões, convergências e divergências entre os estudos, bem como para destacar as lacunas e os achados relevantes que contribuem para o conhecimento sobre a precarização dos processos de limpeza, desinfecção e esterilização de materiais odonto-cirúrgicos. A seguir, descrevo a abordagem utilizada para organizar, agrupar e comparar os dados. 

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES  

Após a realização das buscas, constatou-se que nenhum artigo relevante sobre o tema foi encontrado nas bases de dados nas bases de pesquisas. As razões para essa limitação podem estar relacionadas à natureza específica da pesquisa, que foca em problemas locais e nacionais, como as falhas no processo de esterilização no contexto de serviços odontológicos públicos, atenção primária em saúde e privados no Brasil. 

A revisão integrativa abrangeu estudos selecionados, publicados entre 2002 e 2023, com foco na precarização dos processos de limpeza, desinfecção e esterilização de materiais odontocirúrgicos. A seguir, apresentam-se as características dos estudos selecionados, como tipo de estudo, número de participantes, metodologia e outros dados relevantes.  A Atenção Primária à Saúde (APS) configura-se como a base organizadora do Sistema Único de Saúde (SUS), sendo responsável pela coordenação do cuidado e pela resolutividade de grande parte das necessidades de saúde da população. Para cumprir esse papel com qualidade, é essencial garantir condições adequadas de estrutura, processos e segurança, incluindo o gerenciamento eficaz da limpeza, desinfecção e esterilização dos materiais médico-cirúrgicos utilizados nos serviços. 

Contudo, estudos apontam que os serviços de saúde no nível da APS ainda enfrentam precarização desses processos, resultante da ausência de infraestrutura adequada, da falta de capacitação contínua dos profissionais, da inexistência de protocolos padronizados e da fragmentação dos sistemas de controle de qualidade (FERREIRA et al., 2020; OLIVEIRA et al., 2021). 

A limpeza, etapa fundamental para a remoção de sujidades orgânicas e inorgânicas, é muitas vezes realizada de forma inadequada, seja pela utilização de produtos ineficazes, seja pelo despreparo técnico dos profissionais envolvidos. Segundo Silva et al. (2022), falhas na etapa de limpeza comprometem todas as etapas subsequentes e aumentam o risco de falhas na desinfecção e na esterilização, com impacto direto na segurança do paciente. 

No que se refere à desinfecção, é comum observar inconsistências quanto ao uso correto das soluções germicidas, bem como ausência de controle de tempo de contato e concentração dos desinfetantes. Além disso, o uso inadequado de desinfecção de alto nível em materiais que exigiriam esterilização, como instrumentos cirúrgicos, revela uma distorção conceitual sobre os níveis de descontaminação e suas indicações clínicas (MENDES; LIMA, 2021). 

A esterilização, etapa crítica para a prevenção de infecções, apresenta ainda mais desafios no contexto da atenção básica, principalmente quando realizada de forma descentralizada. Falhas na manutenção dos equipamentos, como autoclaves, ausência de indicadores químicos e biológicos, e registros precários de controle dos ciclos comprometem a confiabilidade do processo (SANTOS et al., 2020). Tais fragilidades violam as diretrizes estabelecidas pela RDC n.º 15/2012 da ANVISA e pela legislação vigente sobre processamento de produtos para saúde em serviços públicos. 

A precarização desses processos é agravada por modelos de gestão fragmentados, ausência de responsabilização técnica contínua, acúmulo de funções dos trabalhadores e falta de investimento em educação permanente. Muitas unidades de saúde funcionam sem um Centro de Material e Esterilização (CME) estruturado, e em alguns municípios, os materiais são encaminhados para esterilização em hospitais de referência, sem garantia de rastreabilidade, integridade e retorno em tempo hábil (ALMEIDA et al., 2023). 

Esses fatores revelam não apenas uma falha técnica, mas também um problema ético e sanitário, pois comprometem a biossegurança dos profissionais e dos usuários, além de minar a resolutividade da APS. Como destaca Barreto et al. (2022), assegurar o correto processamento dos materiais é uma condição básica para a qualidade da assistência, a prevenção de infecções relacionadas à assistência à saúde (IRAS) e a efetividade das ações de saúde pública. 

Portanto, a precarização dos processos de limpeza, desinfecção e esterilização na APS demanda resposta sistêmica, com ações que envolvam investimentos em infraestrutura, implementação de protocolos baseados em evidências, supervisão técnica contínua, valorização das equipes de enfermagem e integração entre os níveis de atenção. Tais medidas são essenciais para consolidar uma APS segura, ética e humanizada, conforme os princípios do SUS. 

Baseado nos estudos realizados constatou-se falhas nos Processos de Esterilização, Impactos na Saúde Pública e Segurança do Paciente, e Capacitação Profissional e Práticas de Biossegurança. Cada estudo contribuiu com diferentes elementos para essas categorias, como descrito a seguir: 

Falhas nos Processos de Esterilização: 

Muitos estudos, como o de Dias (2008) e Cravinhos et al. (2019), identificaram falhas no uso de autoclaves e estufas, além da falta de monitoramento adequado dos processos de esterilização. 

A utilização irregular de indicadores biológicos foi outro ponto de destaque, com vários estudos (Nardo et al., 2013; Naressi et al., 2013) apontando a falha no monitoramento físico e químico, afetando a eficácia dos processos. 

Impactos na Saúde Pública e Segurança do Paciente: 

Os impactos das falhas nos processos de esterilização foram amplamente discutidos, especialmente em termos de risco de transmissão de doenças infectocontagiosas, como HIV, Hepatite B e C. Estudos como o de Dias e Santos (2014) e Prado e Santos (2002) enfatizaram o risco aumentado de infecções cruzadas devido à precarização dos processos de esterilização nos serviços públicos. 

Capacitação Profissional e Práticas de Biossegurança: 

A capacitação dos profissionais de saúde foi uma preocupação central nos estudos revisados. Estudos como o de Sena et al. (2023) e Neckel et al. (2017) apontaram a insuficiência de treinamento contínuo e a falta de conhecimento adequado sobre as práticas de esterilização e controle de infecção, principalmente entre profissionais de serviços públicos e novos graduados. 

Os resultados encontrados na presente revisão evidenciam que as falhas nos processos de esterilização nos serviços odontológicos, tanto públicos quanto privados, têm implicações significativas para a saúde pública, especialmente no que diz respeito à prevenção de infecções nosocomiais. A análise dos estudos revela que as condições de esterilização variam amplamente, sendo mais comprometidas em serviços públicos, como evidenciado pelos estudos de Dias (2008) e Prado e Santos (2002), que apontaram falhas em processos de esterilização, utilização inadequada de autoclaves, e a ausência de controle rigoroso de infecções. Essas falhas podem ser atribuídas, em grande parte, à precarização dos recursos disponíveis, à falta de treinamento contínuo dos profissionais e ao baixo investimento em infraestrutura adequada. 

Por outro lado, os estudos que avaliaram os serviços odontológicos privados, como o de Nardo et al. (2013), indicaram que, embora as condições de esterilização sejam, em média, melhores, ainda existem lacunas, principalmente na utilização de indicadores biológicos e no monitoramento adequado da eficácia dos processos de esterilização. A diferença nos resultados entre os serviços públicos e privados pode estar relacionada ao maior investimento e à maior capacitação presente no setor privado, mas isso não significa que não haja falhas a serem corrigidas, como apontado por Naressi et al. (2013) e Cravinhos et al. (2019). 

Além disso, a revisão revelou que a capacitação profissional é um fator determinante na qualidade do processo de esterilização. Os estudos de Sena et al. (2023) e Neckel et al. (2017) mostraram que muitos profissionais, especialmente os graduandos em odontologia, têm uma compreensão limitada dos processos de esterilização e biossegurança, o que reforça a necessidade urgente de programas de capacitação contínuos. A capacitação inadequada dos profissionais pode contribuir significativamente para a precarização dos processos de esterilização, levando a práticas inadequadas e, consequentemente, ao aumento do risco de infecções. 

Em termos de impacto na saúde pública, o risco de infecção cruzada foi amplamente discutido, com vários estudos indicando que a falha na esterilização pode levar à transmissão de doenças infecciosas graves, como Hepatite B e C, HIV, e até mesmo doenças bacterianas resistentes a antibióticos. Essa questão é particularmente relevante em serviços públicos de saúde, onde a alta demanda e a escassez de recursos tornam a gestão da biossegurança ainda mais desafiadora. 

Os achados dessa revisão têm implicações importantes para a prática odontológica e para as políticas públicas de saúde. Primeiramente, a precarização dos processos de esterilização nos serviços públicos de saúde revela a necessidade urgente de melhorias nas infraestruturas e no fornecimento de equipamentos adequados. Além disso, é necessário um maior investimento em programas de capacitação para garantir que os profissionais de saúde, especialmente aqueles que atuam em serviços públicos, possuam o conhecimento necessário para seguir rigorosamente os protocolos de esterilização e controle de infecção. 

Uma implicação importante para as políticas públicas é a necessidade de fiscalização mais rigorosa e periódica nos serviços de saúde, tanto públicos quanto privados, com o intuito de garantir que as normas de esterilização sejam cumpridas. A implementação de protocolos de biossegurança bem definidos, com monitoramento constante da eficácia dos processos de esterilização, pode reduzir significativamente os riscos de infecções cruzadas e melhorar a qualidade do atendimento odontológico. 

A capacitação dos profissionais também se destaca como uma necessidade imediata. Não basta apenas que os profissionais saibam como realizar o processo de esterilização, mas também é fundamental que eles compreendam a importância dessas práticas para a saúde pública e o bem-estar dos pacientes. O aumento da conscientização sobre biossegurança, tanto em cursos de graduação como em programas de educação continuada, pode contribuir para a melhoria das práticas no ambiente odontológico. 

A revisão integrativa apresenta algumas limitações. Uma das principais limitações está relacionada à qualidade dos estudos incluídos. Muitos estudos, embora pertinentes, apresentaram metodologias variadas, o que pode ter influenciado a comparação dos resultados. 

Além disso, a ausência de um padrão uniforme nos protocolos de esterilização entre os estudos dificultou a análise detalhada de aspectos específicos desses processos. 

Outra limitação importante foi a dificuldade em encontrar artigos diretamente relacionados à precarização dos processos de esterilização em plataformas de pesquisa renomadas, como PubMed e SciELO. A maioria dos estudos foi encontrada no Google Acadêmico, o que pode indicar uma limitação no acesso a publicações especializadas sobre o tema. Isso pode refletir uma carência de literatura mais robusta e consolidada sobre o impacto da precarização dos processos de esterilização no contexto odontológico, especialmente no Brasil. 

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS 

A revisão integrativa realizada sobre a precarização dos processos de limpeza, desinfecção e esterilização de material odontocirúrgico evidencia falhas significativas nos processos de esterilização, especialmente em serviços públicos de saúde. As práticas inadequadas de esterilização representam um risco sério para a saúde pública, com potencial para causar infecções cruzadas e agravar a carga de doenças infecciosas. A capacitação profissional e o monitoramento constante desses processos são fundamentais para melhorar a segurança dos pacientes e a qualidade do atendimento odontológico. Embora existam desafios significativos, a implementação de protocolos mais rigorosos e programas de educação contínua pode promover melhorias substanciais na biossegurança nos serviços odontológicos 

REFERÊNCIAS 

ALMEIDA, M. C. S. et al. Processamento de artigos odontológicos em unidades básicas de saúde: desafios para a biossegurança. Revista Brasileira de Odontologia em Saúde Coletiva, v. 3, n. 1, p. 21–30, 2022. 

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BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução RDC n.º 15, de 15 de março de 2012. Dispõe sobre os requisitos para o processamento de produtos para saúde e dá outras providências. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 16 mar. 2012. 

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1Discente do Curso de Mestrado da RENASF/UFMA. Especialista em Saúde da Família. Enfermeira da Estratégia Saúde da Família. e-mail: marybatistafa@hotmail.com, mary.batista@discente.ufma.br, https://orcid.org/0009-0000-6949-4625.
2Discente do Curso de Mestrado da RENASF/UFMA. Especialista em Saúde da Família. Enfermeira da Estratégia Saúde da Família. e-mail: lillia.abreu@discente.ufma.br, https://orcid.org/0009-0002-8664-2890.
3Discente do Curso de Mestrado da RENASF/UFMA. Especialista em Saúde da Família. Enfermeira da Estratégia Saúde da Família. e-mail: kassia.rejane@discente.ufma.br. https://orcid.org/0009-0006-7432-5440.
4Discente do Curso de Mestrado PROFSAUDE/UFMA. Médico da Estratégia Saúde da Família. Enfermeira da Estratégia Saúde da Família. e-mail: vinicius.carneiro@discente.ufma.br.
5Especialista em Saúde da Família e Analista Judiciário. Enfermeira da Estratégia Saúde da Família. e-mail: martinsgrenata@gmail.com
6Médica da Estratégia Saúde da Família. Perita Médica. e-mail: vinicius.carneiro@discente.ufma.br
7Especialista em Saúde da Família e Enfermagem Obstétrica/UFMA, Enfermeiro da Estratégia Saúde da Família. e-mail: josemagnopinheiro2025@gmail.com