REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202509301448
Danieli Takemura Celloni1
Aline Rodrigues Tomiyoshi Eler2
Danielle Caroline Miranda Cavalcante3
Alcione de Oliveira dos Santos4
RESUMO
Introdução: O ingresso de mães no curso de Medicina representa um desafio pela conciliação entre as demandas acadêmicas intensas e as responsabilidades maternas, podendo repercutir no bem-estar infantil. Objetivo: Analisar, por meio de revisão integrativa, as possíveis alterações comportamentais e manifestações de adoecimento psicofísico em crianças cujas mães ingressaram no curso de Medicina. Metodologia: Revisão integrativa da literatura, realizada em bases de dados nacionais e internacionais, considerando publicações entre 2007 e 2025. Resultados: A sobrecarga acadêmica e o aumento do estresse materno foram associados a alterações comportamentais em crianças, incluindo sintomas internalizantes e externalizantes, além de manifestações psicossomáticas. Fatores protetores, como rede de apoio familiar, interações materno-infantis de qualidade e políticas institucionais de suporte, mostraram-se moderadores importantes desses efeitos. Conclusão: O estudo evidencia a necessidade de políticas institucionais voltadas às estudantes-mães, bem como o desenvolvimento de pesquisas longitudinais específicas para aprofundar o entendimento sobre as repercussões do ingresso materno na formação médica sobre o desenvolvimento infantil.
Palavras-chave: Acadêmicas de Medicina; Ausência Materna; Comportamentos Infantis; Saúde Psicofísica; Maternidade.
Introdução
O ingresso no curso de Medicina é amplamente reconhecido como um processo formativo marcado por intensas demandas acadêmicas e emocionais, exigindo dedicação integral e gestão constante de elevados níveis de estresse (1,2). A rotina inclui carga horária extensa, estágios práticos, atividades extracurriculares e preparação contínua para avaliações, o que frequentemente repercute na vida pessoal e familiar dos estudantes. Nesse contexto, estudantes que são mães enfrentam desafios adicionais, já que precisam conciliar a formação médica com as responsabilidades inerentes à maternidade (3).
A literatura tem apontado que os estudantes de Medicina apresentam maior vulnerabilidade a quadros de ansiedade, depressão e esgotamento, quando comparados a outros grupos acadêmicos (4,5). Contudo, ainda são pouco explorados os efeitos indiretos dessa trajetória acadêmica sobre os filhos dessas estudantes, especialmente no que diz respeito ao desenvolvimento infantil. Pesquisas em psicologia do desenvolvimento indicam que a disponibilidade afetiva e a estabilidade psicossocial da mãe constituem fatores protetores fundamentais para a saúde comportamental e psicofísica das crianças (6,7). Alterações nesse equilíbrio, como a redução do tempo de convivência, aumento do estresse materno e mudanças na dinâmica familiar, podem refletir em sintomas comportamentais e até em manifestações físicas nos filhos.
Diante dessa realidade, coloca-se o problema de investigação: quais possíveis alterações comportamentais e psicofísicas podem ocorrer em crianças após o ingresso de suas mães no curso de Medicina? A relevância dessa questão reside na necessidade de compreender como a formação médica impacta não apenas a estudante, mas também o núcleo familiar, de modo a ampliar a discussão sobre suporte institucional e estratégias de cuidado que contemplem as especificidades de estudantes-mães.
A justificativa para este estudo encontra-se na escassez de pesquisas que articulem maternidade, vida acadêmica em cursos de alta exigência e desenvolvimento infantil. Considerando a criança como sujeito de direitos e a mãe como protagonista de um processo acadêmico que demanda elevado comprometimento, torna-se essencial investigar as repercussões dessa experiência sobre o bem-estar infantil, oferecendo subsídios para políticas de apoio estudantil e familiar (8).
Assim, este artigo tem como objetivo analisar as possíveis alterações comportamentais e manifestações de adoecimento psicofísico em crianças cujas mães ingressaram no curso de Medicina, discutindo os fatores associados e as implicações desse contexto para a saúde e o desenvolvimento infantil.
Referencial Teórico
A conciliação entre maternidade e formação em cursos de alta exigência acadêmica, como Medicina, constitui um campo emergente de investigação que articula fatores psicossociais, acadêmicos e de saúde pública. A literatura evidencia que a sobrecarga emocional e cognitiva das estudantes de Medicina pode impactar diretamente seu bem estar e indiretamente o desenvolvimento dos filhos, em especial em períodos críticos do desenvolvimento infantil (1–3). Nesse contexto, torna-se necessário compreender as bases teóricas e empíricas que sustentam as discussões sobre estresse materno, saúde psicofísica infantil e conflitos entre papéis de cuidado e demandas acadêmicas.
Estresse materno e formação médica
Estudos nacionais e internacionais têm apontado a formação médica como um processo intensamente estressor, marcado por longas jornadas, exigências cognitivas elevadas e cobrança constante por desempenho (4,5). Esse ambiente acadêmico está associado a prevalência significativa de sintomas de ansiedade, depressão e burnout entre discentes, em taxas superiores às encontradas em outros cursos universitários (6). Quando a estudante também desempenha o papel de mãe, observa-se um aumento expressivo na carga emocional e na complexidade do gerenciamento de tempo, intensificando a exposição ao estresse (7).
O estresse materno é amplamente descrito como fator de risco para o desenvolvimento infantil, uma vez que afeta tanto a saúde mental da mãe quanto a qualidade de sua interação com os filhos (8,9). Estudos longitudinais demonstram que elevados níveis de estresse materno — seja durante a gestação, seja no período pós-natal — estão associados a alterações neurocomportamentais em crianças, incluindo problemas de regulação emocional, dificuldades de aprendizagem e maior prevalência de sintomas internalizantes e externalizantes (10,11).
Impactos no desenvolvimento e comportamento infantil
A psicologia do desenvolvimento tem demonstrado que a disponibilidade afetiva e a responsividade materna são fundamentais para a construção de vínculos seguros e para a regulação psicofísica da criança (12). A teoria do apego de Bowlby (13) e o modelo ecológico de Bronfenbrenner (14) sustentam a compreensão de que a criança é afetada tanto pela qualidade da relação com sua mãe quanto pelos contextos sociais mais amplos. Dessa forma, alterações na rotina, redução do tempo de convivência e maior instabilidade emocional materna — frequentes em estudantes de Medicina — podem repercutir no comportamento infantil.
Pesquisas recentes reforçam que o conflito trabalho-família (ou, por analogia, estudo-família) desempenha papel central na mediação dos efeitos do estresse materno. Em um estudo de Jin et al. (15), identificou-se que a ansiedade materna medeia a relação entre conflito de papéis e problemas de comportamento em pré-escolares, evidenciando a interdependência entre o bem-estar psicológico da mãe e os desfechos infantis (16). Além disso, investigações apontam que práticas parentais menos sensíveis e rotinas desorganizadas, decorrentes da sobrecarga materna, aumentam a prevalência de sintomas psicossomáticos e dificuldades comportamentais em crianças (17).
Materiais e Métodos
Este estudo caracteriza-se como uma revisão integrativa da literatura, conduzida em seis etapas: (1) elaboração da questão norteadora, (2) definição dos critérios de inclusão e exclusão, (3) seleção das bases de dados, (4) busca e coleta dos estudos, (5) análise crítica dos artigos selecionados e (6) síntese dos resultados. A questão norteadora foi: “Quais são as possíveis alterações comportamentais e manifestações de adoecimento psicofísico em crianças associadas ao ingresso de suas mães no curso de Medicina ou em contextos similares de elevada sobrecarga materna?”
As buscas foram realizadas nas bases de dados PubMed/MEDLINE, Scopus, SciELO, Web of Science e Google Scholar, entre abril e setembro de 2025, utilizando combinações de descritores controlados (MeSH/DeCS) e palavras-chave em português e inglês: “maternal stress”, “medical students”, “parenthood”, “child behavior”, “psychophysical illness”, “mães estudantes de medicina”, “comportamento infantil” e “adoecimento psicofísico”.
Foram incluídos artigos originais e de revisão, publicados entre 2007 e 2025, disponíveis na íntegra, em português, inglês ou espanhol, que abordassem a relação entre estresse materno, sobrecarga acadêmica ou profissional e repercussões no desenvolvimento infantil. Excluíram-se trabalhos que não abordavam a perspectiva materna, relatos de caso isolados, resumos em anais de eventos e publicações sem acesso ao texto completo.
A triagem dos estudos foi realizada em duas etapas: leitura de títulos e resumos, seguida da leitura completa dos artigos potencialmente elegíveis. Dois revisores realizaram a seleção de forma independente, e divergências foram resolvidas por consenso. Após aplicação dos critérios, nove estudos compuseram a amostra final da revisão.
A extração dos dados contemplou: autor, ano, população/contexto, principais achados e referência, os quais foram organizados em quadro síntese. A análise foi realizada de forma descritiva e interpretativa, buscando identificar convergências e divergências entre os estudos, além de evidências quanto às repercussões do ingresso materno no curso de Medicina sobre o comportamento e a saúde psicofísica das crianças.
Resultados e Discussão
A busca e a síntese da literatura revelaram três eixos temáticos dominantes: (A) a prevalência e características do estresse, ansiedade e esgotamento entre estudantes de Medicina que também são mães; (B) as associações entre estresse/adoecimento materno e desfechos comportamentais e psicofísicos em crianças; e (C) fatores mediadores/moderadores (recursos de suporte, práticas parentais, características socioeconômicas) e implicações institucionais. Cada eixo é discutido a seguir.
Em relação ao primeiro eixo, estudos de caráter observacional e relatos qualitativos mostram que a experiência de cursar Medicina impõe elevada carga de trabalho, pressão por desempenho e risco aumentado de sintomas ansiosos e depressivos — efeitos que se potencializam quando a estudante acumula responsabilidades parentais (por exemplo, gravidez/parentalidade durante a graduação). Investigações que avaliaram estudantes grávidas ou pais/mães estudantes apontam preocupações com burnout, redução do tempo disponível para cuidados infantis e escolhas acadêmicas influenciadas pela parentalidade (9,10). Esses trabalhos indicam que a condição de estudante-mãe está associada a desafios concretos para conciliar papéis, o que aumenta a probabilidade de tensão crônica e piora do bem-estar psicológico materno.
O segundo eixo — o mais crucial para o problema de pesquisa — liga o sofrimento materno às alterações comportamentais e psicofísicas nas crianças. A literatura do desenvolvimento infantil e da epidemiologia psicossocio-biológica fornece evidências robustas de que o estresse materno (pré-natal e pós-natal), transtornos depressivos e ansiedade materna estão associados a um leque de desfechos adversos na infância: problemas internalizantes (ansiedade, retraimento), externalizantes (hiperatividade, condutas agressivas), dificuldades de regulação emocional, atraso em marcos de linguagem e aprendizagem, além de queixas somáticas e alterações do sono nas crianças (11–13). A magnitude desses efeitos varia conforme a intensidade e a cronicidade do estresse, o período de exposição (gestacional versus pós-natal) e a presença de comorbidades maternas.
Relevante à questão específica deste artigo, estudos que analisam situações de conflito trabalho-família (ou, por analogia, estudo-família) observam que conflitos de papéis geram aumento da ansiedade materna, a qual frequentemente mediará a relação entre menor disponibilidade materna e problemas comportamentais infantis. Por exemplo, pesquisas recentes destacam que o work–family conflict se associa a comportamentos-problema em pré-escolares, com a ansiedade materna atuando como mediadora — um modelo plausível para estudantes-mães que enfrentam conflito entre demandas do curso e cuidado infantil. Em síntese, as evidências sugerem que filhos de mães submetidas a maior carga estressora e menor disponibilidade emocional/temporal tendem a apresentar maior prevalência de dificuldades comportamentais e sintomas somáticos (14,16).
Ao considerar mecanismos explicativos, a literatura aponta tanto vias indiretas quanto diretas. Vias indiretas incluem alterações nas práticas parentais (menos sensibilidade, mais reatividade), rotinas familiares desreguladas (sono, alimentação), e interação pai-filho reduzida; vias biológicas incluem efeitos neuroendócrinos do estresse materno no ambiente intrauterino (quando aplicável) e modelagem de respostas emocionais pela criança (regulação emocional por observação). Além disso, evidências longitudinais sobre estresse pré-natal mostram que a exposição fetal a níveis elevados de cortisol e inflamação materna pode predispor a alterações comportamentais e cognitivas anos depois, independentemente da depressão pós-natal, o que reforça a importância de distinguir janelas temporais de risco (17,11).
No terceiro eixo, a revisão integrativa identificou fatores que atenuam ou amplificam os efeitos adversos: suporte social (parceiro, família extensa, políticas institucionais de apoio), qualidade das interações mãe-criança (tempo de qualidade, práticas responsivas), presença de irmãos mais velhos (como fator protetor em alguns estudos) e condições socioeconômicas. Estudos de coorte e revisões destacam que ambientes familiares enriquecidos (tempo de leitura conjunta, rotina estável) podem moderar o impacto negativo do estresse materno sobre o desenvolvimento infantil. Assim, embora o ingresso materno em Medicina represente um fator de risco potencial para alterações no comportamento e saúde psicofísica infantil via aumento do estresse e diminuição de disponibilidade, esse efeito não é automático: atua em interação com recursos contextuais que podem mitigar o risco (18,19).
A revisão também evidenciou lacunas metodológicas: há escassez de estudos longitudinais especificamente centrados em estudantes de Medicina que são mães e no rastreamento sistemático de desfechos infantis (com medidas padronizadas de comportamento, sono, queixas somáticas e desenvolvimento). A maior parte das evidências provêm de estudos gerais sobre estresse materno, estudos sobre mães trabalhadoras ou relatórios qualitativos de estudante-pais, razão pela qual inferências diretas sobre a magnitude do efeito no contexto dos cursos de Medicina exigem cautela. Estudos transversais e relatos fornecem sinais de alerta, mas carecemos de coortes específicas que controlem confounders (status socioeconômico, suporte familiar, doenças prévias) para estimar efeitos próprios do ingresso na formação médica (9,10).
Implicações práticas emergem claramente. Primeiro, instituições de ensino médico devem reconhecer a existência de estudantes-pais e desenvolver políticas proativas: flexibilização de horários, acesso a creches ou auxílios infantis, programas de suporte psicológico, e protocolos de retorno após licença maternidade. Segundo, intervenções dirigidas à promoção de práticas parentais sensíveis — por exemplo, programações de parentalidade breve, grupos de apoio entre estudantes-mães e estratégias de cuidado compartilhado — podem reduzir a reatividade parental associada ao estresse. Terceiro, triagens periódicas de saúde mental entre estudantes-mães permitem identificar depressão e ansiedade precocemente, possibilitando intervenções que, além de melhorar o bem-estar materno, potencialmente reduzam impactos negativos sobre as crianças. Evidência de mediação por ansiedade materna sugere que intervenções que reduzam ansiedade (psicoeducação, terapias breves focalizadas) podem ter benefícios duplos (14,12).
Por fim, recomenda-se para futuras pesquisas: (a) estudos longitudinais específicos com amostras de estudantes-mães em cursos de Medicina que avaliem desfechos comportamentais e psicofísicos infantis com instrumentos validados e múltiplas janelas temporais; (b) desenhos que permitam testar mecanismos (p.ex., triângulos mediadores entre carga acadêmica → saúde mental materna → comportamento infantil); (c) avaliações de intervenções institucionais (programas de suporte, creches, flexibilização curricular) por meio de ensaios controlados ou estudos quasi-experimentais; e (d) inclusão de variáveis contextuais (rede de apoio, SES, presença de parceiro) para identificar subgrupos mais vulneráveis e estratégias protetoras eficazes.
Síntese integrativa: a evidência convergente da literatura indica que o ingresso materno em contextos de alta demanda (como o curso de Medicina) configura um cenário de risco aumentado para estresse e adoecimento psicossocial materno, o qual — em contextos de suporte insuficiente e práticas parentais afetadas — pode refletir em alterações comportamentais e manifestações psicofísicas nas crianças. Entretanto, os efeitos não são universais: recursos de suporte e práticas parentais podem moderar o risco, e há uma necessidade clara de estudos longitudinais e intervenções institucionais dirigidas a estudantes-mães e suas famílias.
Conclusão
O estudo pretende evidenciar as repercussões da ausência materna decorrente da formação médica sobre o desenvolvimento infantil. Compreender tais impactos é fundamental para a formulação de estratégias de acolhimento, suporte psicossocial e adaptação da rotina acadêmica das estudantes mães, visando o bem-estar tanto das mães quanto de seus filhos.
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1Discente de Medicina do Centro Universitário Aparício Carvalho – FIMCA, Porto Velho-RO, Brasil.
2Discente de Medicina do Centro Universitário Aparício Carvalho – FIMCA, Porto Velho-RO, Brasil.
3Discente de Medicina do Centro Universitário Aparício Carvalho – FIMCA, Porto Velho-RO, Brasil.
4Docente do Curso de Medicina, Centro Universitário Aparício Carvalho – FIMCA, Porto Velho-RO, Brasil. ORCID: 0000-0001-9476-0761. E-mail: alcione.m@hotmail.com
