REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ma10202509301440
Giovana Sylos Vaz
Renato Morales Jóias
Resumo
INTRODUÇÃO: A prótese dentária total desempenha papel fundamental na reabilitação oral de pacientes edêntulos, devolvendo estética, função mastigatória e fonética. Para sua confecção, a etapa de moldagem é essencial, pois determina a adaptação e o sucesso clínico. Tradicionalmente, a moldagem convencional foi considerada o padrão ouro, mas a evolução tecnológica trouxe o fluxo digital como alternativa. Este artigo apresenta uma revisão narrativa da literatura, comparando as duas técnicas e destacando suas aplicações, vantagens e limitações. MÉTODOS: Essa revisão foi baseada em artigos encontrados na plataforma do PubMED e conta com livros de referência em prótese total e biomateriais. Somam a esse projeto, 20 referências baseadas nas pesquisas em plataformas. OBJETIVO: O objetivo desta revisão é comparar a moldagem convencional com a moldagem digital, analisando e avaliando as vantagens e desvantagens de cada método na confecção de próteses. DISCUSSÃO: Durante a revisão, os autores divergem de opiniões, onde cada um sustenta a ideia que mais se adapta ao seu dia a dia clínico. Outros de fato conduzem pesquisas que mostram a eficácia de cada modelo de obtenção da cópia e suas vantagens comparado a outros meios. CONCLUSÃO: Não há evidências que comprovam que um meio é mais eficaz que o outro, pois muito varia da técnica do profissional e dos métodos para obtenção do modelo. A revisão mostra uma necessidade de mais pesquisas sobre o assunto bem como aplicabilidade clínica.
Palavras chave: Prótese total; Materiais para Moldagem Odontológica; Tecnologia Odontológica.
Abstract
INTRODUCTION: Complete dentures play a fundamental role in the oral rehabilitation of edentulous patients, restoring esthetics, masticatory function, and phonetics. For their fabrication, the impression stage is essential, as it determines adaptation and clinical success. Traditionally, conventional impressions have been considered the gold standard, but technological advances have introduced the digital workflow as an alternative. This article presents a narrative literature review, comparing the two techniques and highlighting their applications, advantages, and limitations. METHODS: This review was based on articles retrieved from the PubMed database, as well as reference textbooks on complete dentures and biomaterials. In total, 20 references were included, drawn from these research platforms. OBJECTIVE: The aim of this review is to compare conventional impressions with digital impressions, analyzing and evaluating the advantages and disadvantages of each method in denture fabrication. DISCUSSION: During the review, authors present divergent opinions, with each supporting the approach that best fits their clinical routine. Some, in fact, conduct studies demonstrating the effectiveness of each impression technique and their advantages compared to alternative methods.
CONCLUSION: There is no evidence confirming that one method is more effective than the other, as outcomes largely depend on the clinician’s technique and the impression method employed. This review highlights the need for further research on the topic, as well as its clinical applicability.
Keywords: Complete denture; Dental Impression Materials; Dental Technology.
Introdução
No âmbito da odontologia, a prótese dentária ainda é muito visada para a fase de reabilitação oral. Dentre os tipos de próteses utilizados na clínica, destacam-se as próteses parciais e totais.
A prótese total é um dispositivo odontológico utilizado para substituir todos os dentes ausentes em uma arcada dentária. Projetada para se encaixar de forma confortável na boca do paciente, essa prótese restaura não apenas a estética do sorriso, mas também a função mastigatória e a clareza da fala. Geralmente, o material da prótese é resina acrílica ou uma combinação de resina acrílica e metal, moldada para se adaptar à estrutura da boca do paciente. Para garantir o sucesso na entrega das próteses, é fundamental ter-se uma boa cópia de estruturas orais por meio de boas e fiéis moldagens anatômicas e funcionais. Por muito tempo, o método convencional de moldagem, que ainda é usado por muitos profissionais devido à facilidade de acesso e menor complexidade para sua manipulação, foi o único método para a modelagem das estruturas orais para a fabricação de próteses dentárias. Entretanto, conforme houve a evolução da tecnologia, um método baseado em fluxos digitais emergiu. Hoje, há um debate ativo sobre as indicações do uso de cada um desses métodos, considerando suas vantagens e pontos a serem debatidos.
O método convencional de moldagem para as próteses tem como princípio copiar todas as estruturas orais de forma precisa, sem que haja distorção de dimensão. Esse processo envolve a criação de moldes detalhados dos dentes e das estruturas bucais do paciente, permitindo que os cirurgiões dentistas desenvolvam tratamentos e dispositivos personalizados. Nessa técnica, materiais como silicones de adição ou alginatos são utilizados para fazer os moldes que capturam com detalhes a anatomia oral do paciente.
Mesmo com o surgimento de novas tecnologias, como a digitalização intraoral e a impressão 3D, o método convencional ainda é amplamente empregado devido à confiabilidade da técnica, baixo custo e simplicidade de execução, garantindo resultados precisos e adaptados às necessidades individuais de cada paciente.
O fluxo digital, método alternativo ao convencional, também apresenta uma alta fidelidade quanto à obtenção de estruturas anatômicas, porém há estudos que apresentam evidências que comprovam uma distorção de dimensão nos modelos. Existem diversas diferenças entre os métodos, mas a que se destaca é a necessidade de um prévio treinamento para obtenção do método no fluxo digital para entender o funcionamento do equipamento. Pesquisadores já estudaram a eficácia do fluxo digital para próteses parciais removíveis e próteses fixas, no entanto, ainda há uma lacuna de pesquisa no que diz respeito às próteses totais, cuja eficácia ainda não foi completamente estabelecida.
Um dos desafios no planejamento para uma prótese total com o fluxo digital é que quanto menor for a quantidade de dentes em boca, menor será a qualidade da precisão em relação aos escaneamentos. Por outro lado, esta inovadora tecnologia elimina a demanda por criação de modelos físicos e traz consigo uma série de vantagens, tais como: a capacidade de armazenar dados de forma permanente, a eliminação do desconforto para os pacientes, a otimização do processo de trabalho, e a redução do espaço físico necessário para o armazenamento desses modelos (Cardoso et al., 2018).
Portanto, o objetivo deste trabalho, baseado em revisão de literatura, é comparar a moldagem convencional com a moldagem digital, analisando e avaliando as vantagens e desvantagens de cada método na confecção de próteses.
Metodologia
A busca foi realizada em bases como PubMed e livros referência em prótese total e biomateriais, utilizando os descritores ‘prótese total’, ‘materiais de moldagem odontológica’ e ‘tecnologia odontológica’, em português e inglês. Foram selecionados 20 artigos, publicados entre 2000 e 2023, priorizando estudos comparativos, revisões de literatura e pesquisas clínicas relevantes. Por se tratar de uma revisão narrativa, não foram aplicados critérios de exclusão sistemáticos.
Revisão de literatura
Próteses Totais
A perda total de dentes gera alterações anatômicas significativas, como perda de dimensão vertical de oclusão, alteração da fala e reabsorção óssea progressiva. Tratando-se de pacientes edêntulos, a forma mais tradicional e eficaz de reabilitação em termos de função, estética e fonética é a prótese total. Nela é possível devolver grande parte das funções orais perdidas, restabelecendo suporte dos tecidos moles e harmonia facial, sem que haja alteração na saúde geral do paciente.
Para que o tratamento seja eficiente, é essencial a cópia das estruturas anatômicas através do ato de moldagem. Para essa etapa é importante uma boa precisão na captura das estruturas, seja ela pelo método convencional, com a seleção correta dos biomateriais ou no método mais atual com um scanner intraoral. Portanto a qualidade da moldagem está diretamente ligada à retenção e o desempenho da peça, trazendo um maior conforto, durabilidade e função ao paciente (GONÇALVES; GONÇALVES, 2021)
Moldagem Convencional
A tecnologia na área odontológica avançou significativamente nas últimas décadas, incluindo os métodos de moldagem. Tradicionalmente, a moldagem convencional tem sido o padrão ouro para criar modelos dentários, por conta da fiel cópia que os materiais conseguem reproduzir.
Analisando esse método, vários materiais podem ser utilizados, sendo os principais: hidrocolóide irreversível, silicone de condensação, silicone de adição, e os poliéteres (PUNJ; BOMPOLAKI; GARAICOA, 2017) todos contendo suas vantagens e desvantagens diante do tratamento (PUNJ; BOMPOLAKI; GARAICOA, 2017).
O hidrocolóide irreversível, mais comumente conhecido por alginato, é o material de primeira escolha de muitos profissionais por ter um baixo custo e suprir as suas necessidades. Hidrocolóides irreversíveis são materiais hidrofílicos que podem capturar detalhes de tecidos duros e moles na presença de umidade (NASSAR; AZIZ; FLORES-MIR, 2011)). O alginato não possui a propriedade de capturar com exatidão as estruturas anatômicas, por isso é de eleição para moldagens anatômicas de estudo, além disso, para obtenção do modelo de estudo, não se pode esperar muito tempo para verter o gesso, em razão da suscetibilidade à perda de água por evaporação e/ou exsudação de fluidos de sua superfície (VERGANI; PAVARINA; JORGE, 2024).
Os poliéteres, diferente dos hidrocolóides irreversíveis, possuem maior afinidade com a água, por isso podem ser trabalhados em ambientes úmidos, porém não submersos em água pois pode causar a sua distorção. No quesito do tempo para verter o gesso, se forem bem armazenados podem ser vertidos em até 7 dias. (BARATIERI, 2010)
Já os silicones de adição são de primeira escolha, pois possuem diversas formas, da mais fluída para a mais densa, essas diversidades auxiliam o profissional por conta de existir variáveis tipos de rebordo, podendo então ter a escolha do que se adapta melhor ao paciente. Esse material se destaca por uma alta qualidade de reprodução de detalhes, estabilidade dimensional e margem gengival bem definida (FREITAS; SILVA, 2022). A característica de não apresentar deformação se dá pelo material não liberar nenhum subproduto (PETRIE ; WALKER; O’MAHONY,2003). Mesmo sendo um material elástico, ele possui duas características vantajosas: a sua alta resistência a rasgos e a alta recuperação elástica (PUNJ; BOMPOLAKI; GARAICOA, 2017).
Por outro lado, o silicone de condensação apresenta excessiva contração por perder o seu subproduto (álcool etílico), portanto para obter um modelo preciso é necessário verter o gesso em até 30 minutos (PHILLIPS, 2013).
Além das propriedades dos materiais de moldagem, outro ponto importante para ser avaliado é o conforto que se trará ao paciente, então se o mesmo possui sensibilidade no momento da moldagem, a escolha de outro material pode ser considerada.
Quando diz respeito aos avanços tecnológicos, o fluxo analógico é passado para trás e uma nova era no mundo de moldagem é adicionado. Muitos profissionais hoje em dia contam com aparelhos de alto nível de tecnologia, atualmente o scanner intraoral é o recurso utilizado.
Moldagem Digital
Nos anos 80, surgiram os modelos digitais na odontologia, substituindo a moldagem convencional. (PATZELT; EMMANOUILIDI; STAMPF; STRUB, 2013) (MIYAZAKI et al.,2009). A moldagem digital na odontologia é um processo inovador que utiliza tecnologias digitais para criar modelos tridimensionais precisos dos dentes e tecidos bucais de um paciente. Em vez de utilizar materiais convencionais de moldagem, como alginato ou silicone, a moldagem digital emprega scanners intraorais para capturar imagens detalhadas da cavidade oral. Após a captura, as imagens são processadas por software especializado para gerar modelos digitais precisos, os quais têm diversas aplicações, como planejamento de tratamento, fabricação de próteses dentárias e análise oclusal. (TROESCH; MELLO; CARVALHO; LIMA, 2021).
A mesma apresenta várias vantagens, tais como maior conforto para o paciente, eliminação de erros comuns na moldagem tradicional e maior eficiência na fabricação de dispositivos protéticos (TROESCH; MELLO; CARVALHO; LIMA, 2021). Além de uma melhor visualização direta do modelo, melhor eficiência de tempo e praticidade em repetição (DIB ZAKKOUR; MONTERO; GUADILLA, 2023).
Em dentes únicos ou áreas de arcada parcial apresenta a mesma precisão dos materiais de moldagem convencional de alta precisão, para desdentados mostra a deficiência na precisão (DIB ZAKKOUR; MONTERO; GUADILLA, 2023).
Os dados do paciente escaneados são transmitidos ao laboratório pela internet, evitando o risco de quebra durante o transporte (TROESCH; MELLO; CARVALHO; LIMA, 2021). Outro ponto positivo se faz pelos dados clínicos serem armazenados por arquivo eletrônico, facilitando caso o paciente quebre ou perca a sua prótese e necessite de uma nova, desse modo a sua confecção pode ser feita sem idas ao consultório (JANEVA ET AL., 2018). Mas nos traz desvantagens como: divergência na DVO, incapacidade de definir o plano oclusal e aumento do custo tanto do aparelho quanto do laboratório.
Pesquisa clínica
Além dos métodos unicamente do digital ou convencional, há uma técnica que faz uma conexão dos dois métodos, chamado híbrido. JANEVA et al., 2018 relatou um caso com essa proposta. O paciente foi submetido a uma moldagem anatômica com o hidrocolóide irreversível. No laboratório o caso foi planejado com o sistema CAD-CAM, onde foi montada toda a prótese através do sistema. Por fim, ao entregar fizeram os devidos ajustes de oclusão e o paciente relatou estar satisfeito com a função, estética e conforto. Ao final do estudo os profissionais relataram precisar de mais estudos sobre esse método, mas também se mostraram satisfeitos por conseguir ligar as vantagens de cada método, o convencional com a sua alta precisão e o digital por evitar tantas idas ao consultório.
TROESCH; MELLO; CARVALHO; LIMA, 2021 realizaram um estudo in vitro que avalia a precisão de quatro scanners intraorais em arcos dentários completos, com base em medidas de veracidade e precisão. O estudo envolveu a avaliação de quatro scanners intraorais: CEREC Bluecam, CEREC Omnicam, TRIOS Color e Carestream CS 3500. Um molde de referência de arco completo foi criado e impresso usando uma impressora 3D dental com resina fotopolímerizável. O molde de referência foi digitalizado usando um scanner 3D de luz branca de laboratório. Cada scanner intraoral digitalizou o molde de referência impresso 10 vezes. Os arquivos digitais resultantes foram então registrados no arquivo de referência e comparados em termos de veracidade e precisão usando um software de modelagem 3D. Além disso, o tempo de digitalização foi registrado para cada varredura realizada. Os resultados mostraram que o Carestream CS 3500 teve a menor veracidade e precisão geral em comparação com o Bluecam e o TRIOS Color. O quarto scanner, Omnicam, teve uma veracidade e precisão intermediárias. Todos os scanners tendiam a subestimar o tamanho do arquivo de referência, com exceção do Carestream CS 3500, que foi mais variável. Com base na inspeção visual da renderização de cores das diferenças assinadas, o maior erro tendeu a ser nos aspectos posteriores do arco, com erros locais excedendo 10 μm para todas as varreduras. O scanner de captura única Carestream CS 3500 teve os tempos de varredura gerais mais longos e foi significativamente mais lento do que os scanners de captura contínua TRIOS Color e Omnicam. Em conclusão, foram encontradas diferenças significativas tanto na veracidade quanto na precisão entre os scanners. Os tempos de varredura dos scanners de captura contínua foram mais rápidos do que os dos scanners de captura única.
O estudo feito por D’Arienzo et al., 2018 envolveu quatro participantes com uma média de idade de 72,5 anos, um homem e três mulheres que não tinham experiência prévia com impressão convencional ou digital. As impressões digitais foram feitas usando um scanner intraoral. Dois cirurgiões dentistas atenderam os pacientes – um com experiência em impressão convencional e o outro especializado em impressão digital. Cada paciente teve duas impressões feitas de sua arcada superior, uma realizada por cada dentista. A primeira impressão foi feita pelo dentista especializado em impressão digital usando um scanner intraoral (Trios3®). A segunda impressão foi feita pelo especialista em impressão convencional, usando um material de impressão de hidrocolóide irreversível (Hydrogum 5, Zhermack) com uma moldeira de impressão Schreinemakers. O Trios 3®, lançado em 2015, neste caso, foi utilizada a versão USB, que foi conectada a um computador de alto desempenho através de uma porta USB. A conclusão do estudo foi que a digitalização de maxilares edêntulos com o uso de um scanner intraoral parece ser viável in vivo, embora os tecidos periféricos não tenham sido efetivamente reproduzidos. Com base nos resultados deste estudo, o escaneamento pode ser considerado válido apenas para substituir a impressão preliminar, para obter um modelo graças ao qual é possível construir uma moldeira individual. Os autores não eliminam que a moldagem convencional seja mais adequada para a confecção das próteses totais.
No artigo de ENDER; ZIMMERMANN; MEHL, 2019 é feita uma comparação entre a técnica de moldagem convencional e a digital. O estudo realizou 10 repetições de impressões para cada grupo. As impressões convencionais foram preenchidas com gesso tipo IV e posteriormente digitalizadas com um scanner de laboratório. O autor destaca que a moldagem digital oferece várias vantagens, como a visualização imediata do modelo, maior eficiência de tempo e facilidade de repetição. No entanto, o autor também enfatiza a necessidade de mais pesquisas devido ao debate sobre a precisão. Em dentes individuais ou áreas de arcada parcial, a precisão é comparável à dos materiais de moldagem convencional de alta precisão. No entanto, para pacientes desdentados, a precisão é insuficiente. Com a análise clínica de PEROZ et al., 2021 foram usados 16 pacientes, onde todos foram submetidos à moldagem convencional e a digital. Quando as próteses bimaxilares foram confeccionadas, entregaram para os pacientes, tanto a digital quanto a convencional. Os pacientes passavam um certo tempo com uma prótese e depois trocavam para a outra, sem saber qual era o método de confecção. No final do estudo os pacientes não relataram nenhuma diferença significativa com o uso das próteses, apenas ressaltaram que quando a prótese de fluxo digital era inserida primeiro, causava um certo desconforto. De fato, relataram a praticidade da confecção das próteses digitais, já que não demandam muitas idas ao consultório.
CHEBIB N et al., 2022 fizeram uma pesquisa clínica com 19 pacientes, onde o objetivo era avaliar a retenção dos dois tipos de prótese, a convencional e a de fluxo digital. Foi feito os dois tipos de moldagem em cada paciente. Os resultados mostraram que as bases fabricadas a partir de impressões convencionais apresentaram forças retentivas significativamente maiores do que aquelas fabricadas a partir das varreduras intraorais. Portanto, em casos de rebordo flácido os scanners possuem dificuldade para capturar com precisão.
CEPIC et al., 2023 conduziram um estudo clínico com 10 participantes. Os pacientes foram divididos em dois grupos: aqueles que utilizariam próteses convencionais e aqueles que usariam próteses produzidas por fluxo digital. De maneira geral, os pacientes expressaram uma avaliação positiva das próteses fabricadas por scanners intraorais, destacando sua estabilidade, conforto na primeira inserção e a redução no número de visitas ao consultório para ajustes significativos. Apesar desses benefícios, os pacientes concluíram que ambas as técnicas de fabricação são vantajosas, pois atendem ao seu principal objetivo: a reabilitação. No entanto, quando se trata de praticidade, o fluxo digital se sobressai por sua maior precisão e necessidade reduzida de ajustes.
Um estudo feito por TEW; SOO; POW, 2023 analisou 14 publicações, envolvendo um total de 572 dentaduras completas produzidas digitalmente e 939 produzidas de maneira convencional, atendendo a 1300 pacientes. Os dados indicaram que as dentaduras produzidas digitalmente demandam menos tempo de clínica e possuem um custo total reduzido, mesmo considerando os custos de material mais elevados em comparação com a técnica convencional. Tanto as próteses produzidas digitalmente quanto as convencionais apresentaram impactos significativos na eficiência da mastigação, conforto, retenção, estabilidade, facilidade de limpeza, fonética e satisfação geral do paciente, além de influenciar na incapacidade social, limitação funcional, desconforto psicológico e dor física. Em resumo, as dentaduras produzidas digitalmente se mostraram mais custo-efetivas do que as produzidas de maneira convencional. Contudo, ambos os métodos de produção apresentam diversos impactos nos resultados relatados pelos pacientes (PROMs), sem que um método se mostre superior ao outro.
Discussão
A área odontológica passa por muitos avanços a cada dia. Através da tecnologia podemos ampliar as possibilidades de tratamento, trazer uma melhor precisão em diagnósticos e um melhor conforto aos pacientes. Porém alguns desses avanços ainda precisam de um melhor estudo para ver se é superior ou não aos métodos já obtidos.
Os materiais convencionais já estão em uso há muito tempo, sem muita discussão sobre sua eficiência, pois a mesma já é comprovada. O que é discutido é o tipo de material que se deve utilizar em cada caso, levando em consideração toda a mucosa do paciente. Materiais como o hidrocolóide irreversível são mais indicados para as moldagens de estudo, onde precisam de precisão, mas não uma cópia tão fiel ao original. Agora se tratando de um modelo de trabalho e modelos para cópia de função, as siliconas são de primeira escolha, porque além de uma cópia fiel, também conseguem afastar e replicar todo o rebordo do paciente. Quando se trata do rebordo, os materiais devem ser bem selecionados. Para um rebordo mais flácido é necessário um material que seja fluido. Segue essa mesma analogia também para rebordos mais retentivos, utilizando de um material de consistência fluida regular, para acompanhar a anatomia do rebordo.
Sendo assim, os materiais hoje utilizados, possuem uma grande diversidade que se adaptam aos diversos tipos de anatomia dos pacientes, com isso, para a tecnologia ser integrada no quesito próteses totais, precisam também dessas vastas opções para se adequarem aos pacientes.
O escaneamento intra-oral ainda é uma prática recente, porém levou anos para ser inserida no dia a dia dos dentistas. Foi desenvolvido em 1980, porém o seu uso rotineiro começou a ser divulgado há pouco tempo.
Muitos autores debatem sobre situações que podem interferir no resultado final com as tecnologias, como o rebordo do paciente, quantidade de ausências dentárias, tempo útil, valor de investimento e veracidade nas dimensões dos arquivos.
TROESCH et al., 2021 idealiza bem o quesito dimensional, pois analisou quatro scanners e os quatro apresentaram diferença dimensional. Por toda a divergência, é complicado se afirmar a veracidade da extensão dos arquivos utilizados para a confecção das próteses.
Pensando no rebordo, como já apresentado, os materiais convencionais conseguem se adaptar a cada variação, porém quando se traz para o fluxo digital, alguns autores se contradizem, pois avaliando a precisão e envolvendo tanto o rebordo quanto a ausência dentária, CHEBIB N et al., 2022 e ENDER; ZIMMERMANN; MEHL, 2019 afirmam que a precisão não é alta e há distorção quando se trata da flacidez do rebordo e de grande ausência dentária. ENDER; ZIMMERMANN; MEHL, 2019 citam que os scanners possuem alta precisão quando não há grandes perdas dentárias, sendo comparado até mesmo com a alta precisão dos materiais convencionais, porém quando se trata de próteses totais, há uma alta falta de exatidão. O mesmo não ocorre com CEPIC et al., 2023 que defende a praticidade e a precisão da moldagem digital.
Já D’Arienzo et al., 2018 discorda da prática tecnológica como forma única de moldagem para casos de próteses totais. Para ele, os scanners podem ser utilizados apenas como uma pré-moldagem, excluindo a moldagem com o hidrocolóide irreversível para confecção de moldeiras individuais. O autor defende que o método convencional ainda é mais eficiente do que o método mais tecnológico.
Todos os pesquisadores fizeram avaliações em pacientes, onde eles traziam os seus feedbacks sobre as moldagens e os resultados com o uso das próteses confeccionadas. É unânime a resposta dos avaliados quando diz respeito à praticidade. Todos relataram de forma positiva o fato da prótese ter sido confeccionada em poucas idas ao consultório. De fato, é um ponto a ser considerado tanto pelos pacientes quanto pelo próprio dentista pensando na sua hora clínica. Por outro lado, alguns pacientes usados para a pesquisa de PEROZ et al., 2021 afirmaram que ao inserir a prótese feita digitalmente, houve um certo desconforto, diferente do que se relata os pacientes de CEPIC et al., 2023 onde a primeira inserção feita com fluxo digital foi satisfatória. TEW; SOO; POW, 2023 fizeram a junção de vários artigos para avaliar qual método seria o mais eficiente, mas como já esperado, nenhum dos métodos se mostrou superior ao outro. Cada um se apresenta com suas distintas vantagens.
Outro método ainda discutido é o chamado híbrido, onde junta as vantagens das duas técnicas. JANEVA et al., 2018 pensou justamente em conectar os métodos, já que ambos apresentavam grandes benefícios. Nesse novo jeito de confecção, o cirurgião dentista está diretamente ligado com o técnico de prótese, pois o cirurgião molda o paciente com materiais tradicionais e depois envia o modelo ao laboratório, aonde o técnico irá escanear o modelo e transformar em um arquivo digital. Desse processo em diante uma prótese total é confeccionada.
Pode-se observar que esse método combina a exatidão dos materiais de moldagem com a praticidade do fluxo digital. Ainda está em estudo esse método, porém o que se pode afirmar é que juntando a tecnologia com a técnica do convencional, podemos obter uma peça bem feita e com as suas devidas funções.
De fato, é necessário avaliar o lado dos dentistas, mas também, o mais beneficiado que são os pacientes, pois as próteses tanto feitas convencionalmente quanto em fluxo digital, devolvem o que eles mais buscam e talvez a maior insegurança deles que é o sorriso. Levando para o lado dos pacientes, a praticidade para a confecção é o maior ponto a ser destacado, pois além de poucas idas ao consultório, também é benéfico o fato dos arquivos ficarem salvos, para que se em casos de emergências, uma nova peça possa ser confeccionada.
Conclusão
A comparação entre a moldagem tradicional e a moldagem digital em prótese total revela avanços significativos na odontologia moderna. Utilizando scanners intraorais e programas de CAD/CAM, a moldagem digital proporciona precisão e rapidez reduzindo a necessidade de ajustes posteriores e visitas extras ao consultório. No entanto, é importante ter em mente que a utilização dessa tecnologia requer um grande investimento inicial e um bom treinamento dos profissionais. Por outro lado, a moldagem convencional oferece várias vantagens, como a possibilidade de utilizar diversos tipos de materiais. Além disso, essa técnica é bem conhecida e amplamente empregada. No entanto, apresenta algumas limitações, como o tempo de execução, o desconforto do paciente e a possibilidade de distorções do material.
Assim sendo, com base nas pesquisas realizadas para a execução deste trabalho, a escolha entre a moldagem tradicional ou digital deve ser fundamentada nas necessidades específicas de cada situação, na infraestrutura disponível e na experiência do especialista. Portanto, não é possível determinar qual das moldagens é mais eficiente, o que requer mais estudos.
Referências
- Punj A, Bompolaki D, Garaicoa J. Dental Impression Materials and Techniques. Dental Clinics of North America [Internet]. 2017 Oct 1 [cited 2020 Jun 6];61(4):779–96. Available from: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0011853217300708?c v%3D1%26via%3Dihub
- Nassar U, Aziz T, Flores-Mir C. Dimensional stability of irreversible hydrocolloid impression materials as a function of pouring time: a systematic review. The Journal of prosthetic dentistry [Internet]. 2011;106(2):126–33. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21821167
- Carlos Eduardo Vergani, Ana Cláudia Pavarina, Janaina Habib Jorge, Garcia E. Reabilitação Oral com Prótese Parcial Removível Convencional. 2021.
- Luiz Narciso Baratieri, Al E. Odontologia restauradora: fundamentos & técnicas. São Paulo (Sp): Santos; 2010.
- Freitas CMS, Silva JRB da. MOLDAGEM DIGITAL VERSUS MOLDAGEM CONVENCIONAL – REVISÃO DE LITERATURA. REASE [Internet]. 3º de novembro de 2022 [citado 3º de setembro de 2025];8(10):1734-46. Disponível em: https://periodicorease.pro.br/rease/article/view/7283
- Petrie CS, Walker MP, O’Mahony AM, Spencer P. Dimensional accuracy and surface detail reproduction of two hydrophilic vinyl polysiloxane impression materials tested under dry, moist, and wet conditions. The Journal of Prosthetic Dentistry. 2003 Oct;90(4):365–72.
- Anusavice KJ. Phillips Materiais Dentários. Elsevier Brasil; 2013.
- Patzelt SBM, Emmanouilidi A, Stampf S, Strub JR, Att W. Accuracy of full-arch scans using intraoral scanners. Clinical Oral Investigations. 2013 Nov 17;18(6):1687–94.
- MIYAZAKI T, HOTTA Y, KUNII J, KURIYAMA S, TAMAKI Y. A review of dental CAD/CAM: current status and future perspectives from 20 years of experience. Dental Materials Journal [Internet]. 2009;28(1):44–56. Available from: https://www.jstage.jst.go.jp/article/dmj/28/1/28_1_44/_article/-char/en
- Moitinho Troesch M, Borges Mello B, Oliveira Carvalho A, Maria Castor Xisto Lima E. MOLDAGEM DIGITAL EM PRÓTESE DENTÁRIA DIGITAL IMPRESSIONS IN PROSTHODONTICS. RFO [Internet]. 16º de janeiro de 2021 [citado 3º de setembro de 2025];50(3). Disponível em: https://periodicos.ufba.br/index.php/revfo/article/view/43112
- Sara Dib Zakkour, Dib-Zakkour J, Yasmina Guadilla, Montero J, Dib A. Comparative Evaluation of the Digital Workflow and Conventional Method in Manufacturing Complete Removal Prostheses. Materials [Internet]. 2023 Oct 30;16(21):6955–5. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC10650844/
- Janeva NM, Kovacevska G, Elencevski S, Panchevska S, Mijoska A, Lazarevska B. Advantages of CAD/CAM versus Conventional Complete Dentures – A Review. Open Access Macedonian Journal of Medical Sciences [Internet]. 2018 Aug 4;6(8):1498–502. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6108805/pdf/OAMJMS-61498.pdf
- Tavares CC, Freire JCP, Freire SCP, Dias-Ribeiro E, Batista AUD. Aplicabilidade dos sistemas CAD/CAM em Prótese Total: revisão de literatura. Arch Health Invest [Internet]. 11º de março de 2019 [citado 3º de setembro de 2025];7(11). Disponível em: https://www.archhealthinvestigation.com.br/ARCHI/article/view/3030
- Luigi Federico D’Arienzo, A. D’Arienzo, Borracchini A. Comparison of the suitability of intra-oral scanning with conventional impression of edentulous maxilla in vivo. A preliminary study. 2018 Nov 14;10(4):115–20.
- Ender A, Zimmermann M, Mehl A. Accuracy of complete- and partial-arch impressions of actual intraoral scanning systems in vitro. International Journal of Computerized Dentistry [Internet]. 2019;22(1):11–9. Available from: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30848250/
- Peroz S, Peroz I, Beuer F, Sterzenbach G, von Stein-Lausnitz M. Digital versus conventional complete dentures: A randomized, controlled, blinded study. The Journal of Prosthetic Dentistry. 2021 Apr;
- Chebib N, Imamura Y, El Osta N, Srinivasan M, Müller F, Maniewicz S. Fit and retention of complete denture bases: Part II – conventional impressions versus digital scans: A clinical controlled crossover study. The Journal of Prosthetic Dentistry. 2022 Aug;
- Zupancic Cepic L, Gruber R, Eder J, Vaskovich T, Schmid-Schwap M, Kundi M. Digital versus Conventional Dentures: A Prospective, Randomized Cross-Over Study on Clinical Efficiency and Patient Satisfaction. Journal of Clinical Medicine [Internet]. 2023 Jan 1;12(2):434. Available from: https://www.mdpi.com/20770383/12/2/434
- Tew IM, Soo SY, Pow EHN. Digitally versus conventionally fabricated complete dentures: A systematic review on cost-efficiency analysis and patient-reported outcome measures (PROMs). The Journal of Prosthetic Dentistry [Internet]. 2023 Nov 23; Available from: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0022391323007114
- Gonçalves AR, Gonçalves CDTR, orgs. Reabilitação oral com próteses totais. Teresina: EDUFPI; 2021. 277 p. Il. Livro digital. ISBN 978-65-5904-212-8.
- Cardoso FL, Alves P, Ribeiro S, Kelly, Larissa. MOLDAGEM DIGITAL EM ODONTOLOGIA: PERSPECTIVAS FRENTE À CONVENCIONAL – UMA REVISÃO DE LITERATURA. Anais do Seminário Científico do UNIFACIG [Internet]. 2018 [cited 2025 Sep 23];(4). Available from: https://pensaracademico.unifacig.edu.br/index.php/semiariocientifico/article/vi ew/769
