PERFIL FUNCIONAL DE PACIENTES CRÍTICOS: UMA ANÁLISE RETROSPECTIVA 

FUNCTIONAL PROFILE OF CRITICALLY ILL PATIENTS: A RETROSPECTIVE  ANALYSIS 

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202511230906


Maria Eduarda Bittencourt Silva1; Layssa Mel Ribeiro Lima2; Luis Felipe Pantoja Siqueira3; Débora Elem Cruz Monteiro4; Paula Izabelle Pantoja Veloso5; Ildene Lucas Campelo Soares6; Axell Lins7


RESUMO 

Introdução: Pacientes críticos internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) apresentam elevado risco  de comprometimento funcional decorrente da imobilidade prolongada, suporte ventilatório e presença de  comorbidades, fatores que contribuem para a fraqueza muscular adquirida na UTI e prejuízo da autonomia  pós-alta. A avaliação funcional mediante instrumentos padronizados é fundamental para orientar decisões  clínicas. Objetivo: Traçar o perfil funcional de pacientes críticos por meio da escala Functional Status Score  for the Intensive Care Unit (FSS-ICU), relacionando funcionalidade, tempo de internação, ventilação mecânica  invasiva (VMI) e comorbidades. Métodos:Estudo retrospectivo, multicêntrico e longitudinal realizado com  análise de 1.292 prontuários de pacientes internados entre janeiro de 2021 e janeiro de 2025 em um hospital  de referência no Pará. Foram incluídos indivíduos maiores de 18 anos com permanência mínima de 48 horas  e registro da FSS-ICU na admissão e na alta; dados clínicos e funcionais foram analisados por testes T,  Wilcoxon e Mann-Whitney (p < 0,05). Resultados: Não houve diferença funcional significativa entre os  gêneros, embora os homens tenham permanecido por mais tempo na UTI. O uso de VMI esteve associado a  menor funcionalidade inicial e final, além de aumentar o tempo de internação. Doença renal crônica,  cardiopatias e acidente vascular encefálico foram as comorbidades mais relacionadas à intubação e pior  desempenho funcional. Conclusão: O comprometimento funcional em pacientes críticos está diretamente  associado à exposição prolongada à ventilação mecânica e às comorbidades, evidenciando a vulnerabilidade  clínica desses indivíduos. A utilização da FSS-ICU mostrou-se eficaz para monitorar a evolução funcional e  orientar intervenções individualizadas, reforçando a necessidade da mobilização precoce e reabilitação  intensiva para reduzir desfechos negativos pós-UTI. 

Palavras-chave: Ventilação mecânica; Funcionalidade; ITU; FSS-UTI; Mobilização precoce.

ABSTRACT 

Introduction: Critically ill patients admitted to Intensive Care Units (ICUs) present a high risk of functional  impairment due to prolonged immobility, ventilatory support, and the presence of comorbidities, factors that  contribute to ICU-acquired muscle weakness and impaired post-discharge autonomy. Functional assessment  using standardized instruments is fundamental to guide clinical decisions. Objective: To outline the functional  profile of critically ill patients using the Functional Status Score for the Intensive Care Unit (FSS-ICU) scale,  relating functionality, length of stay, invasive mechanical ventilation (IMV), and comorbidities. Methods: A  retrospective, multicenter, and longitudinal study was conducted analyzing 1,292 medical records of patients  admitted between January 2021 and January 2025 to a reference hospital in Pará. Individuals over 18 years of  age with a minimum stay of 48 hours and FSS-ICU record at admission and discharge were included. Clinical  and functional data were analyzed using T-tests, Wilcoxon tests, and Mann-Whitney tests (p < 0.05). Results: There was no significant functional difference between genders, although men remained in the ICU for a longer  time. The use of mechanical ventilation was associated with lower initial and final functionality, as well as  increased length of stay. Chronic kidney disease, heart disease, and stroke were the comorbidities most related  to intubation and poorer functional performance. Conclusion: Functional impairment in critically ill patients  is directly associated with prolonged exposure to mechanical ventilation and comorbidities, highlighting the  clinical vulnerability of these individuals. The use of the ICU Functional Score (FSS-ICU) proved effective in  monitoring functional evolution and guiding individualized interventions, reinforcing the need for early  mobilization and intensive rehabilitation to reduce negative post-ICU outcomes. 

Keywords: Ventilação mecânica; Funcionalidade; UTI; FSS-ICU; Mobilização precoce. 

INTRODUÇÃO 

As Unidades de Terapia Intensiva (UTI’s) são unidades hospitalares especializadas em  fornecer suporte intensivo para pacientes com quadros graves e potencialmente fatais. O perfil desse  paciente crítico engloba características e condições clínicas que requerem monitoramento intensivo e  cuidados multiprofissionais, onde podemos incluir o estado de saúde, instável e estável;  monitoramento intensivo de sinais vitais; intervenções médicas avançadas como a ventilação  mecânica; presença de comorbidades e vulnerabilidade (Siddika, 2023). 

As Doenças Críticas Crônicas (DCC), têm um alto risco de mortalidade nas UTI’s. Há uma  grande lacuna no conhecimento sobre a carga de doenças críticas em termos de prevalência e  incidência, entretanto, em tentativas anteriores de estimar a carga de doenças críticas, um estudo de  coorte observacional retrospectivo em Israel, EUA e Austrália foi realizado. As características das  variáveis utilizadas como critério de admissão nas UTI’s dessas nações foram: idade mais jovem,  sexo masculino, pontuação em escalas utilizadas (LAPS e Charlson) e diagnósticos primários, dentre  os principais por média foram a Insuficiência Respiratória Aguda (0,6%); Sepse (3,2%), Ataque  Isquêmico Transitório e/ou Acidente Vascular Encefálico (3,2%) e Trombose Venosa Profunda e/ou  Embolia Pulmonar (1,35%) mais recorrentes (Abuhasira, 2022). 

Nos países de rendimento baixo e médio, como é observado na Uganda, os principais fatores  de risco para mortalidade na UTI incluíram idade ≥ 45 anos, necessidade de ventilação mecânica, necessidade de suporte vasopressor/inotrópico e soropositividade para HIV, mas enfrentam uma taxa  de mortalidade estimada quase quatro vezes superior à dos seus homólogos em países de rendimento  elevado (Atumanya, 2024). Na Suécia, a prevalência de doenças graves tratadas em hospitais em  adultos é de 19,4 por 100.000 pessoas. Entre os pacientes hospitalizados, um em cada dez estava  gravemente doente, a grande maioria dos quais (94%) foi tratada fora da UTI (Schell, 2023). Outro  estudo realizado no Malawi, Sri Lanka e Suécia, o estudo revelou um fardo significativo de doenças  graves em hospitais em diferentes ambientes globais. Um em cada oito pacientes hospitalizados  estava gravemente doente, 19% deles morreram no hospital e 96% dos pacientes foram tratados fora  das unidades de cuidados intensivos (Schell, 2024). 

No Brasil, segundo Aguiar (2021), o perfil sociodemográfico e clínico se delimita em 81%  do sexo masculino, com predominância de faixa etária superior a 70 anos. Quanto às causas de  internação em terapia intensiva, foram descritas diversas doenças, com destaque para as doenças  cardiovasculares, uso de VMI, variando de 10,7% a 74,3% dos pacientes e o uso de drogas vasoativas  e terapia renal substitutiva também estavam presentes, entretanto em menor escala. Para reduzir esses  efeitos colaterais, manter o estado funcional do paciente durante a admissão na unidade de terapia  intensiva UTI e prevenir a perda de autonomia são essenciais e a mobilização precoce é uma  abordagem terapêutica vital para conseguir isso. 

A capacidade de mobilização precoce durante as primeiras 48 horas após a admissão na UTI  tem como objetivo prevenir a perda e a Fraqueza Muscular Adquirida (FMA) e preservar a força,  desempenha um papel crucial no sentido de diminuir o estado crítico e, até mesmo, o tempo de  internação do paciente no ambiente hospitalar (Lorenz, 2023; Yang, 2023). A ICUAW é uma  síndrome neuromuscular proveniente de várias complicações críticas, tais como infecções, como a  sepse, ventilação mecânica (VM) e um maior tempo de internação, apesar de não possuir uma  etiologia específica, podemos citar alguns mecanismos fisiopatológicos que podem estar envolvidos,  sendo eles o desequilíbrio entre síntese e degradação de proteínas, disfunção de mitocôndrias,  alterações na função do retículo sarcoplasmático, destruição da estrutura do miofilamento, neuropatia  entre outros (Khalil, 2023; Voiriot, 2022). Nesse contexto, a mobilização precoce e a fisioterapia  motora, dotada de práticas que envolvem exercícios ativos e passivos, transferências, mobilizações,  dentre outros, possuem um papel importante no que diz respeito à melhora da funcionalidade do  paciente (Chen, 2024). 

A Escala de Status Funcional para Unidade de Terapia Intensiva (Functional Status Score  for the Intensive Care Unit FSS-ICU) é um instrumento utilizado pelos fisioterapeutas para avaliar a função física de pacientes criticamente enfermos. Trata-se de uma escala ordinal composta por cinco  itens que avaliam tarefas de mobilidade, como rolar no leito, passar da posição deitada para sentada,  transferir-se da posição sentada para em pé, manter-se sentado à beira do leito e deambular. A  pontuação total varia de 0 a 35 pontos, sendo que valores mais altos indicam maior nível de  funcionalidade física. A FSS-ICU destaca-se por ser de fácil aplicação, podendo ser incorporada à  rotina clínica sem necessidade de equipamentos adicionais (WU et al, 2024) 

A análise do perfil funcional de pacientes críticos é de grande relevância, pois possibilita  compreender os impactos da imobilidade, do uso de ventilação mecânica e das complicações clínicas  sobre a capacidade funcional desses indivíduos, contribuindo para o aprimoramento das práticas de  cuidado e de reabilitação precoce. Em um contexto em que a sobrevida é prioridade, a avaliação  funcional é essencial para reduzir o tempo de internação, prevenir incapacidades e melhorar a  qualidade de vida após a alta hospitalar. A aplicação da Escala de Status Funcional para Unidade de  Terapia Intensiva (FSS-ICU) permite quantificar e monitorar, de forma objetiva, a evolução da  funcionalidade, favorecendo condutas fisioterapêuticas individualizadas e baseadas em evidências.  Os principais beneficiários dos resultados deste estudo são os pacientes, que poderão receber  intervenções mais direcionadas à recuperação funcional, e os profissionais da equipe  multiprofissional, que passam a dispor de informações que orientam decisões clínicas mais assertivas.  Além disso, este estudo contribui para a área acadêmica e científica ao fornecer dados funcionais  sobre pacientes críticos. Dessa forma o presente estudo teve como objetivo traçar o perfil funcional  através da escala FSS-ICU em um hospital de referência do estado do Pará. 

MÉTODOS 

1.1 Tipo de Estudo 

Trata-se de um estudo retrospectivo, multicêntrico, longitudinal, analítico e cego através de  análise de prontuário eletrônico e/ou físico de pacientes que estiveram internados no período de  janeiro de 2021 a janeiro de 2025 em UTI’s adulto. 

1.1.1 Local Da Realização Do Estudo 

A pesquisa será realizada no Setor de Serviço de arquivo médico e estatística (SAME) do  Hospital Regional Dr Abelardo Santos (HRAS), localizado na Avenida Augusto Montenegro Km 13,  S/N, Bairro Agulha, Campina-Icoaraci, CEP: 66013-090 no município de Belém, PA – Brasil

1.2 Critérios de Inclusão E Exclusão 

Os critérios de inclusão e exclusão foram definidos de forma a garantir a consistência e  relevância dos dados analisados. Foram incluídos no estudo os prontuários de pacientes com idade  superior a 18 anos, que possuíam registro de avaliação funcional realizada por meio da Escala de  Estado Funcional para Unidade de Terapia Intensiva (FSS-ICU) (Anexo I) no Hospital Regional  Abelardo Santos (HRAS). Foram considerados elegíveis aqueles que permaneceram internados em  unidades de terapia intensiva adulto por período superior a 48 horas, independentemente de terem  sido submetidos à intubação orotraqueal, incluindo usuários de traqueostomia e pacientes em período  pós-operatório. Foram excluídos os prontuários que apresentavam registros incompletos das  avaliações fisioterapêuticas ou das escalas selecionadas, bem como aqueles em que não foi  identificado declínio funcional durante o acompanhamento. 

1.3 Análise de Dados 

Os dados serão distribuídos em planilhas do programa de computador Microsoft Excel  Office 2007 (Windows), identificados com as variáveis citadas anteriormente. Eles serão tratados por  métodos estatísticos e porcentagem incluindo medidas de tendência central e de dispersão de acordo  com cada dado específico. A análise será feita após avaliação, interpretação e correlação dos  resultados coletados, onde os dados numéricos serão quantificados através do teste T e Wilcoxon para  comparar as variáveis. Serão realizados testes não paramétricos para comparação, com um nível de  significância estatística de 5% 

1.4 Procedimento 

A coleta de dados será realizada por meio da análise de prontuários localizados no Setor de  Arquivo Médico e Estatística (SAME) do Hospital Regional HRAS, com caráter exclusivamente  documental e retrospectivo, não havendo contato com os pacientes ou qualquer membro da equipe  assistencial. Toda a consulta aos registros será feita presencialmente, dentro das dependências do  SAME, sem a realização de fotografias, digitalizações ou fotocópias, garantindo a confidencialidade  e a preservação das informações contidas nos prontuários. Serão coletadas as seguintes variáveis:  idade, gênero, diagnóstico clínico principal, tempo de permanência na Unidade de Terapia Intensiva  (UTI), necessidade de suporte ventilatório (ventilação mecânica invasiva ou não invasiva) e os valores da Escala Functional Status Score for the ICU (FSS-ICU) registrados na admissão e na alta  da UTI. Esses dados serão organizados em planilha digital própria para análise, contendo apenas  informações codificadas, sem qualquer identificação pessoal, assegurando sigilo, anonimato e  cumprimento das normas éticas vigentes. A partir dessas informações, será possível caracterizar o  perfil dos pacientes avaliados, bem como analisar a evolução funcional durante o período de  internação na UTI e verificar possíveis relações entre o uso de ventilação mecânica, o tempo de  permanência e a variação da funcionalidade segundo a FSS-ICU. 

RESULTADOS 

A classificação do estudo foi concluída com um quantitativo de 1.646 de um total de 2000  pacientes. Foram excluídos 36 por informações inconclusas e 318 pela falta de acesso aos dados do  paciente nos registros hospitalares, resultando em uma coleta final de 1.292 indivíduos. A distribuição  dos resultados está representada através de tabelas em conformidade com o perfil traçado de cada  paciente. 

O gráfico 1 demonstra a correlação da funcionalidade entre o gênero e tempo de internação.  Nesse contexto, observa-se que não houve diferença estatisticamente significativa entre homens e  mulheres nos escores do FSS-ICU tanto na admissão quanto na alta, indicando que o nível de  funcionalidade apresentou comportamento semelhante entre os grupos. Entretanto, foi encontrada  uma diferença significativa no tempo de internação, sendo maior no grupo masculino. Esse resultado  sugere que, embora ambos os sexos apresentam evolução funcional parecida durante a internação na  UTI, os homens tendem a permanecer internados por um período mais prolongado. 

Gráfico 1 – Análise comparativa da funcionalidade entre gêneros e tempo de internação

A tabela 2 faz uma correlação entre o tempo de internação e o uso de ventilação mecânica  invasiva (VMI), demonstrando que, com o uso de VMI, o tempo de internação aumentou  significativamente em comparação aos pacientes que não foram intubados. Além disso, a  funcionalidade inicial dos pacientes que usaram intubação foi expressivamente mais baixa quando  comparada aos pacientes que não fizeram uso de VMI. Bem como na alta, em que foi possível  observar que os pacientes que foram intubados, tiveram a funcionalidade notavelmente mais limitada. 

Tabela 2 – Análise comparativa da funcionalidade entre o uso de ventilação mecânica e tempo de  internação 

*Resultado significativo do teste Mann-Whitney.

Na tabela 3, foi possível observar que o sexo não apresentou diferença estatisticamente  significativa quanto à necessidade de ventilação mecânica invasiva. Com base nas patologias,  observou-se que os pacientes com doença renal crônica (p = 0,0023*), doença cardíaca (p = 0,0173*)  e acidente vascular encefálico (p = <0,0001*) apresentaram maior risco de intubação e VMI, refletindo em maior gravidade clínica e comprometimento funcional. Essas condições podem ser  explicadas pelos mecanismos fisiopatológicos dessas patologias, as quais envolvem desequilíbrios  metabólicos, comprometimento hemodinâmico e disfunção neuromuscular ou respiratória, resultando  em menor capacidade funcional e maior propensão ao agravamento clínico.  

Tabela 3 – Estimativa de incidência e prevalência com risco de intubação  

*Resultado significativo do teste Risco Relativo do tipo Razão de Prevalência. 

DISCUSSÃO 

Em nossa pesquisa, apesar de não ter sido encontrada diferença significativa entres os gêneros  tanto na admissão quanto na alta da UTI, o tempo de internação mostrou que os pacientes do sexo  masculino permaneceram internados por mais tempo em comparação às mulheres, o que mostra uma  diferença em relação ao perfil funcional no contexto critico. Nesse cenário, outros estudos também  evidenciaram esse achado, como o estudo de coorte observacional retrospectivo que foi realizado em  quatorze UTIs de treze hospitais universitários terciários em Pequim, o qual mostrou que a duração  da ventilação mecânica, o tempo de internação na UTI e o tempo de internação hospitalar foram  significativamente maiores para os homens do que para as mulheres no grupo etário mais jovem (p  ≤  0,013). (Ma, JG., Zhu, et al, 2022).  

Nesse sentido, em nosso estudo foi possível observar que o uso de VMI influenciou  diretamente no tempo de internação, afetando de forma significativa a funcionalidade, que pode ser  severamente comprometida pelo déficit de força muscular. Sabe-se que a perda de força muscular é  obtida em pacientes críticos sob ventilação mecânica por períodos extensos. A perda muscular  expressiva, resultante tanto do repouso no leito quanto da gravidade da doença, leva ao declínio da  capacidade de realizar atividades de autocuidado e transferência, além de intensificar a incapacidade  em pacientes egressos da UTI. Nessa perspectiva, além da ventilação mecânica, o uso de  bloqueadores neuromusculares também exerce impacto direto sobre a capacidade funcional de pacientes críticos. Lin et al. (2023), ao analisarem uma coorte de 5.709 pacientes sob ventilação  mecânica, observaram que o uso prolongado de bloqueadores neuromusculares por mais de 48 horas  esteve associado a maior mortalidade em longo prazo, sugerindo pior recuperação sistêmica. Esse  efeito pode ser explicado pelo fato de que a paralisação farmacológica reduz significativamente a  contração muscular espontânea, favorecendo o desenvolvimento de fraqueza adquirida na UTI.  

A fraqueza adquirida na UTI se manifesta mesmo após a alta hospitalar como síndrome pós terapia intensiva (SPTI), resultando em comprometimento da função física, disfunção cognitiva e  piora do estado de saúde mental. (Aglawe et al. 2022). De acordo com estudos, um dos fatores que  explicam esse declínio é a instabilidade hemodinâmica frequentemente observada após a intubação.  Segundo Dubée et al. (2022), a hipoperfusão tecidual periférica é um importante preditor de  instabilidade hemodinâmica pós-intubação, o que contribui para piora do quadro clínico e maior  vulnerabilidade muscular. Em conjunto, Chen (2024) e Khalil (2023) destacam que a combinação de  imobilismo prolongado, uso de sedativos e alterações metabólicas decorrentes da ventilação mecânica  favorece o desenvolvimento da Fraqueza Muscular Adquirida na UTI (FAUTI), dificultando a  recuperação funcional. Em um estudo realizado por Kanova et al. (2022), evidenciou-se que a  proteólise ativada é de importância primordial na fraqueza muscular adquirida na UTI (ICUAW).  Duas vias principais atuam para facilitar a degradação muscular: o sistema ubiquitina-proteassoma  (UPS) e a autofagia desregulada, o que reforça que o tempo de internação prolongado e a VMI não  apenas indicam maior gravidade clínica, mas também potencializam o declínio da funcionalidade,  evidenciando a necessidade da implementação de protocolos de mobilização precoce e reabilitação  intensiva ainda durante o período crítico. 

Ademais, foi observado que o sexo não apresentou diferença estatisticamente significativa  quanto à necessidade de ventilação mecânica invasiva, resultado semelhante ao identificado em  estudos realizados por Ma, Zhu e Jiang et al. (2022) que também não evidenciaram associação entre  gênero e risco de intubação em pacientes críticos. No entanto, a análise das patologias associadas  revelou que indivíduos com doença renal crônica, doença cardíaca e acidente vascular encefálico  apresentaram maior propensão à intubação e à dependência de suporte ventilatório invasivo,  indicando um quadro de maior gravidade clínica e comprometimento funcional. Em um estudo  realizado por Mesina et al. (2024), sugere-se que as incapacidades funcionais pré-UTI são importantes  fatores de risco para incapacidades funcionais a longo prazo, podendo contribuir para um déficit  funcional pós-UTI significativo. 

No caso da doença renal crônica (DRC), apresentou-se uma associação significativa com a necessidade de ventilação mecânica invasiva (p = 0,0023), evidenciando sua influência direta sobre  o perfil funcional de pacientes críticos. Essa condição sistêmica provoca repercussões metabólicas e  musculares que comprometem tanto a força respiratória quanto o desempenho físico global. A uremia  e o acúmulo de toxinas como indoxil sulfato e p-cresil sulfato induzem disfunção mitocondrial e  inflamação persistente, ativando vias catabólicas como o sistema ubiquitina-proteassoma, o que  acelera a degradação proteica e contribui para a perda de massa muscular esquelética e respiratória  (Troutman et al., 2022). Esses mecanismos reduzem a tolerância ao esforço e explicam a maior  vulnerabilidade desses pacientes à fraqueza adquirida na UTI e à limitação funcional observada  durante a reabilitação. 

A acidose metabólica crônica, típica da DRC, intensifica o catabolismo e prejudica o metabolismo  energético das fibras musculares respiratórias. O excesso de íons H⁺ altera a homeostase intracelular,  reduz a eficiência das enzimas oxidativas e compromete a produção de ATP, o que leva à fadiga  precoce do diafragma e dificulta o processo de desmame da ventilação mecânica (Nagami, 2022).  Além disso, distúrbios eletrolíticos como hipocalemia, hipocalcemia e hipermagnesemia interferem  na excitabilidade neuromuscular e na contração das fibras respiratórias, diminuindo a força  inspiratória máxima e limitando o desempenho funcional global (Cheng et al., 2022). 

Outro fator determinante é a sobrecarga hídrica, resultante da diminuição da taxa de filtração  glomerular. O acúmulo de líquidos provoca edema intersticial pulmonar e redução da complacência  torácica, aumentando o trabalho respiratório e dificultando a ventilação espontânea. Esse quadro  repercute na perfusão tecidual, intensifica a hipoxemia e prolonga o tempo de dependência  ventilatória (Bitker et al., 2024). Em contrapartida, o balanço hídrico e a otimização hemodinâmica  demonstram melhorar o sucesso do desmame e reduzir a duração da ventilação (Wang et al., 2024). 

Do ponto de vista funcional, a DRC também se associa à resistência à insulina e ao desequilíbrio  hormonal (redução de vitamina D e aumento de citocinas inflamatórias), o que limita a síntese  proteica, reduz a força de membros e atrasa a recuperação da mobilidade após a fase crítica (Bureau  et al., 2023; Rocha et al., 2024).  

De modo semelhante, em pacientes com doenças cardíacas, o comprometimento hemodinâmico  decorrente da disfunção ventricular e da hipoperfusão sistêmica acarreta na redução da perfusão  muscular e aumento do risco de instabilidade respiratória, esse comprometimento da perfusão tecidual  pode ser observado na identificação do lactato presente no sangue (De Becker et al. 2022). Em um  estudo realizado por Yamatugi et al. (2024), foi observado que pacientes com piores desfechos  apresentaram níveis significativamente mais altos de lactato e os níveis desse biomarcador seis horas após a cirurgia foram significativamente mais altos no grupo com tempo na UTI prolongado. Esse  comprometimento impacta diretamente no desempenho físico e na capacidade funcional global, visto  que a perfusão inadequada compromete tanto o metabolismo muscular quanto a resposta ao esforço,  o que está em concordância com estudos que associam disfunção cardíaca a piores desfechos  funcionais durante a internação em UTI (Dubée et al., 2022). Segundo Luo et al. (2021), a ventilação  mecânica gera uma alteração cíclica na pressão intratorácica e no retorno venoso, o que afeta na  perfusão tecidual, isso demonstra que quanto maior o tempo de internação e uso de ventilação  mecânica invasiva, maior o comprometimento funcional dos pacientes pós-UTI. 

No contexto do acidente vascular encefálico, o comprometimento neurológico afeta o  controle central da respiração e a função motora. Este dano neurológico afeta não apenas os músculos  periféricos, mas também os respiratórios, causando fraqueza muscular respiratória, alterações nos  ritmos respiratórios e diminuição dos volumes e fluxos pulmonares. (Liu, Y. T et al, 2024). Estudos  como os de Chen & Huang, 2024; Voiriot et al., 2024 indicam que essa combinação favorece a  ineficiência ventilatória e o desenvolvimento da fraqueza muscular adquirida na UTI, condição que  se manifesta por atrofia e perda de força decorrentes da imobilidade prolongada, do uso de sedativos  e da resposta inflamatória sistêmica. Tal quadro contribui para o declínio da funcionalidade e  prolonga o tempo de dependência ventilatória, sendo amplamente descrito na literatura recente.  Ademais, pacientes com lesão cerebral aguda, como o AVC, tendem a apresentar maior probabilidade  de falha na extubação e necessidade prolongada de ventilação mecânica, em razão da perda do  controle neural da respiração e de alterações autonômicas que comprometem a coordenação entre o  sistema nervoso central e a musculatura respiratória (Asehnoune et al, 2023). Dessa forma, os achados do presente estudo reforçam que as fisiopatologias associadas às  comorbidades interferem diretamente na funcionalidade dos pacientes críticos, tanto pela limitação  da resposta muscular e cardiorrespiratória quanto pela maior susceptibilidade a complicações  decorrentes da imobilidade (Kanova & Kohout, 2022; Khalil et al., 2023). Esses resultados  convergem com pesquisas que ressaltam a importância de estratégias de mobilização precoce,  reabilitação intensiva e manejo individualizado das comorbidades como medidas essenciais para  preservar a funcionalidade e reduzir o impacto das disfunções adquiridas durante a ventilação  mecânica invasiva (Lorenz et al., 2023; Yang et al., 2023). 

CONCLUSÃO

O presente estudo permitiu delinear o perfil funcional de pacientes críticos internados em  unidades de terapia intensiva, destacando que, apesar da semelhança entre os gêneros quanto à  funcionalidade na admissão e na alta, o tempo de internação mostrou-se maior entre os homens. Além  disso, a análise revelou que o uso de ventilação mecânica invasiva esteve associado a menor escore  funcional e a períodos mais prolongados de internação, evidenciando o impacto direto do suporte  ventilatório sobre o desempenho físico. 

A principal interpretação desses achados indica que o comprometimento funcional dos  pacientes críticos está fortemente relacionado ao tempo de exposição a fatores como imobilidade,  suporte ventilatório e presença de comorbidades, especialmente doença renal crônica, cardiopatias e  acidente vascular encefálico. Tais condições potencializam o declínio da força muscular e retardam  a recuperação da autonomia funcional, configurando um perfil clínico de elevada vulnerabilidade. 

De forma geral, os resultados obtidos oferecem uma visão mais ampla sobre a funcionalidade  de pacientes críticos no contexto hospitalar, evidenciando que o desfecho funcional não depende  apenas da gravidade da doença, mas também das características clínicas e das condições associadas  de cada indivíduo. Assim, compreender esse perfil contribui para reconhecer precocemente os grupos  mais suscetíveis à limitação funcional e orientar futuras estratégias voltadas à recuperação global após  a alta da UTI. 

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1Discente do Curso Superior de Fisioterapia da Universidade da Amazônia, e-mail: bittencourteduarda155@gmail.com
2Discente do Curso Superior de Fisioterapia da Universidade da Amazônia, e-mail: layssamel_@outlook.com
3Discente do Curso Superior de Fisioterapia da Universidade da Amazônia, e-mail: luis.f.p.s.700@gmail.com
4Discente do Curso Superior de Fisioterapia da Universidade da Amazônia, e-mail: deboraellem15@gmail.com
5Discente do Curso Superior de Fisioterapia da Universidade da Amazônia, e-mail: bellyspant15@gmail.com
6Bacharel em Fisioterapia – Universidade da Amazônia, e-mail: doutorildenelucas@gmail.com
7Docente do Curso Superior de Fisioterapia da Universidade da Amazônia. Mestre em
Farmacologia e Bioquímica (PPGFARMABIO/UFPA). e-mail: axell.ti20@gmail.com