EPIDEMIOLOGICAL AND CLINICAL PROFILE OF WOMEN ADMITTED TO INTENSIVE CARE UNIT
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202511111554
Jéssica Raiza Amaral Evangellista
Catarina Medeiros Sulpino
Laysa Gabrielle Silva Medeiros
Orientadora: Ma. Ana Caroline Queiroz Trigueiro
RESUMO: A gravidez é um processo fisiológico, mas pode envolver riscos significativos à saúde materna como pré-eclâmpsia, eclâmpsia, hemorragia, insuficiência respiratória e sepse, principais causas de internação em cuidados intensivos. Este estudo teve como objetivo analisar o perfil epidemiológico e clínico de mulheres admitidas em uma unidade de terapia intensiva no sertão paraibano. Trata-se de uma pesquisa exploratória, descritiva, documental e de abordagem quantitativa, realizada na Unidade de Terapia Intensiva Materna de uma maternidade pública localizada no sertão paraibano. A coleta de dados ocorreu entre junho e dezembro de 2023. Foram avaliadas comorbidades, tempo médio de internação, mortalidade e complicações, correlacionadas a fatores clínicos e epidemiológicos, a partir da análise de prontuários hospitalares organizados no Microsoft Excel. Observou-se predominância de mulheres jovens, residentes em áreas rurais e com ocupações informais, o que reflete desigualdades sociais e limitações no acesso à assistência pré-natal qualificada. As doenças hipertensivas da gestação, especialmente a pré-eclâmpsia grave e a síndrome HELLP, destacaram-se como principais causas de internação. A maioria das pacientes realizou pré-natal (84%) e foi submetida à cesariana (77%). O tempo médio de internação foi curto, embora casos com múltiplas comorbidades exigissem suporte prolongado. A atuação do fisioterapeuta mostrou-se essencial na prevenção de complicações respiratórias e tromboembólicas, além de favorecer a reabilitação precoce e a redução do tempo de internação. Conclui-se que a pesquisa contribui para o aprimoramento da assistência obstétrica e para o fortalecimento de políticas voltadas à segurança e à equidade no cuidado materno em cuidados intensivos.
Palavras-chave: UTI Materna; Saúde da Mulher; Mortalidade materna; Perfil epidemiológico; Complicações obstétricas.
ABSTRACT: Pregnancy is a physiological process but may involve significant risks to maternal health, such as preeclampsia, eclampsia, hemorrhage, respiratory failure, and sepsis, which are the main causes of admission to intensive maternal care. This study aimed to analyze the epidemiological and clinical profile of women admitted to an intensive care unit in the countryside of Paraíba, Brazil. It is an exploratory, descriptive, documentary, and quantitative study conducted in the Maternal Intensive Care Unit of a public maternity hospital located in the same region. Data collection took place between June and December 2023. Comorbidities, average length of stay, mortality, and complications were evaluated and correlated with clinical and epidemiological factors through the analysis of hospital records organized in Microsoft Excel. Most patients were young women living in rural areas and engaged in informal occupations, reflecting social inequalities and barriers to accessing qualified prenatal care. Hypertensive disorders of pregnancy, particularly severe preeclampsia and HELLP syndrome, stood out as the main causes of hospitalization. Most patients received prenatal care (84%) and underwent cesarean delivery (77%). The average length of stay was short, although cases with multiple comorbidities required prolonged support. The role of the physiotherapist proved essential in preventing respiratory and thromboembolic complications, as well as in promoting early rehabilitation and reducing hospitalization time. It is concluded that this research contributes to improving obstetric care and strengthening policies aimed at ensuring safety and equity in maternal care in intensive settings.
Keywords: Maternal ICU; Women’s Health; Maternal mortality; Epidemiological profile; Obstetric complications.
INTRODUÇÃO
A gravidez é um processo fisiológico para a maioria das mulheres, mas pode também representar uma situação de alto risco para a mãe e o bebê. Complicações podem surgir, afetando o desenvolvimento fetal, o momento do parto e a recuperação no pósparto (Berghella et al., 2020).
A probabilidade de uma mulher ser admitida em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) durante o ciclo gravídico-puerperal é significativamente maior do que a de uma mulher jovem não gestante. Estima-se que entre 0,1% e 0,9% das gestantes enfrentem complicações que exigem internação em UTI, sendo as principais causas a hipertensão, hemorragia, insuficiência respiratória e sepse (Lima et al., 2017; Moura et al., 2018; Lima et. al., 2021).
A Organização Mundial de Saúde (OMS, 2014), define morte materna como “a morte de mulheres durante a gestação ou dentro de um período de 42 dias após o término da gravidez, devida a qualquer causa relacionada com a gestação, agravada pela gravidez ou por medidas tomadas em relação a ela, porém não a causas acidentais ou incidentais”.
A política pública voltada para a redução da mortalidade materna teve um grande avanço através do Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher (PAISM), que foi lançado em 1983 pelo Ministério da Saúde (MS). Tal programa teve como função o atendimento integral à saúde reprodutiva das mulheres, em detrimento da outrora política única de planejamento familiar (Mesquita, 2010).
Ademais, foi instituída pelo Governo Federal a Rede Alyne, que tem como meta a melhoria do atendimento à saúde das gestantes, puérperas, recém-nascidos (RN) e crianças até dois anos de idade. A Rede Alyne, criada pela Portaria GM/MS nº 5.350/2024, visa reduzir a mortalidade materna em 25% até 2027 e fortalecer a equidade racial, ampliando o acesso a uma atenção qualificada, humanizada e segura durante o ciclo gravídico-puerperal (Brasil, 2024).
Nesse contexto, a assistência pré-natal é fundamental para identificar e gerenciar condições clínicas e comportamentais de risco durante a gestação. Dessa forma, cuidados pré-natais adequados são essenciais para proteger a saúde e minimizar a incidência de eventos adversos durante o período gestacional (Goulard et al., 2016).
Diante das particularidades das complicações obstétricas e das disparidades no acesso e na qualidade da assistência em saúde, é essencial compreender o perfil epidemiológico e clínico das mulheres admitidas em uma Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) no sertão paraibano. Essa análise permitirá identificar as principais causas de internação, os desfechos clínicos e as necessidades particulares dessas pacientes, contribuindo para a formulação de estratégias de manejo e políticas de saúde mais eficazes.
As pacientes que demandam assistência de saúde complexa em Unidade de Terapia Intensiva necessitam de suporte tecnológico multissistêmico e equipe de saúde multiprofissional especializada. No caso das gestantes, às doenças normalmente visualizadas são a pré-eclâmpsia, eclâmpsia, atonia uterina e hemorragia pós-parto (Nogueira et al., 2001).
Nesse contexto, destaca-se a importância da atuação fisioterapêutica na Unidade de Terapia Intensiva, especialmente junto a mulheres no ciclo gravídico-puerperal. A fisioterapia contribui para a manutenção das funções cardiorrespiratórias, prevenção de complicações decorrentes da imobilização e reabilitação funcional pós-alta, desempenhando papel essencial na assistência multiprofissional à mulher crítica. Além disso, o fisioterapeuta participa ativamente do manejo de pacientes em ventilação mecânica, da mobilização precoce e da recuperação da capacidade funcional, colaborando para a redução do tempo de internação e para melhores desfechos clínicos maternos (Santos et al., 2021; Assis et al., 2020).
Assim, conhecer o perfil epidemiológico e clínico das pacientes admitidas na Unidade de Terapia Intensiva em uma Maternidade no sertão da Paraíba, constitui-se indispensável, já que o conhecimento das características ensejará em uma prestação melhorada, qualificada e humanizada.
Diante disso, a presente pesquisa teve como objetivo principal, verificar o perfil epidemiológico e clínico de mulheres admitidas em uma unidade de terapia intensiva no sertão paraibano. Bem como também, investigar a prevalência de condições crônicas e comorbidades entre as pacientes, examinar o tempo médio de permanência na UTI e analisar as taxas de mortalidade e complicações associadas às pacientes e correlacionar com os fatores clínicos e epidemiológicos.
METODOLOGIA
Trata-se de um estudo exploratório, descritivo, documental e de abordagem quantitativa, realizado na Unidade de Terapia Intensiva Materna (UTI Materna) da Maternidade Dr. Peregrino Filho, instituição pública localizada no município de Patos-PB, que destina 100% de seus leitos ao Sistema Único de Saúde (SUS). O período de coleta de dados compreendeu os meses de junho a dezembro de 2023.
A amostra foi composta por 128 prontuários clínicos de pacientes admitidas na UTI Materna durante o período gravídico-puerperal, residentes no sertão paraibano, selecionados por conveniência, conforme disponibilidade e autorização institucional para acesso aos dados.
Foram incluídos na pesquisa os prontuários de mulheres admitidas na UTI Materna durante o ciclo gravídico-puerperal, que apresentaram óbito obstétrico direto ou indireto. Excluíram-se os registros de pacientes com óbitos ou admissões decorrentes de causas não obstétricas, bem como aqueles com ausência significativa de informações que comprometesse a análise dos dados. Também foram desconsideradas as admissões exclusivamente para administração de hemocomponentes, sem intercorrências clínicas ou obstétricas associadas.
Não houve delimitação específica de faixa etária como critério de inclusão, sendo considerados todos os prontuários que atendiam aos critérios estabelecidos e estavam disponíveis no período de coleta.
Para a coleta das informações, utilizou-se um instrumento estruturado elaborado para esta pesquisa, contendo variáveis sociodemográficas (faixa etária, situação conjugal, profissão, município e estado de residência) e clínicas e obstétricas (realização do pré-natal, número de gestações, ocorrência de abortos, idade gestacional, tipo de parto, motivo da admissão na UTI Materna e diagnóstico médico). Também foram incluídas variáveis relativas à evolução clínica, como tempo de internação, uso e duração da ventilação mecânica, conduta fisioterapêutica e setor de internação do recém-nascido.
A coleta de dados foi realizada mediante análise documental dos prontuários, cujas informações foram organizadas, calculadas e tabuladas com o auxílio do software Microsoft Excel, possibilitando a análise estatística descritiva das variáveis.
A pesquisa atendeu aos princípios éticos previstos na Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde, que dispõe sobre pesquisas envolvendo seres humanos. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro Universitário de Patos (UNIFIP), sob o CAAE nº 85462224.7.0000.5181 e Parecer nº 7.411.360. Por tratar-se de um estudo documental, não houve contato direto com as participantes, sendo assegurados o sigilo e a confidencialidade das informações por meio da assinatura do Termo de Compromisso do Pesquisador.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A partir da análise dos 128 prontuários observou-se que as faixas etárias das mulheres variaram entre 16 e 51 anos, com prevalência maior na faixa etária de 21 a 30 anos (56%), conforme representado no gráfico 1.
Gráfico 1– Distribuição etária das participantes da pesquisa.

Fonte: Dados da pesquisa, 2025.
Esse achado demonstra que a maior parte das internações se concentrou em mulheres jovens, em idade reprodutiva ativa, o que é esperado diante do perfil de uma UTI materna. Estudo semelhante realizado por Mario et al. (2019) identificou que 50,6% das mães avaliadas tinham entre 20 e 29 anos, reforçando a tendência de maior vulnerabilidade obstétrica nesse grupo etário.
Quanto ao estado civil das participantes, 67 (52%) declararam-se solteiras, 54 (42%) são casadas, 3 (2%) vivem em união estável e 4 (3%) não responderam à pergunta, totalizando 128 participantes (Gráfico 2).
Gráfico 2– Estado Civil

Fonte: Dados da pesquisa, 2025.
A predominância de solteiras evidencia uma característica sociodemográfica relevante, visto que o suporte conjugal e familiar pode influenciar tanto o acesso ao pré-natal quanto a adesão às recomendações de cuidado durante a gestação e o puerpério. Resultado semelhante foi encontrado por Barreto (2021), que identificou percentual de (53,4%) de mulheres solteiras entre os casos de mortalidade materna analisados, ressaltando que o apoio do companheiro durante a gestação e o puerpério representa um fator importante, pois contribui com suporte emocional, segurança e auxílio prático nesse período.
Quanto à profissão das participantes, a maioria são agricultoras, com 52 (41%), seguidas por donas de casa, com 35 (27%). Também foram registradas 13 (10%) secretárias e 10 (8%) profissionais da área da saúde, que englobam dentistas, enfermeiras, técnicas de enfermagem, farmacêuticas, psicólogas e esteticistas. Além disso, houve 4 (3%) professoras, 4 (3%) estudantes, 4 (3%) autônomas, 1 (1%) advogada, 1 (1%) aposentada e 4 (3%) participantes que não responderam, totalizando 128 participantes (Tabela 1).
Tabela 1– Profissões das gestantes.
| Profissão | Quantidade | Percentual |
| Agricultora | 52 | 41% |
| Dona de casa | 35 | 27% |
| Secretária | 13 | 10% |
| Profissional da área de saúde | 10 | 8% |
| Professora | 4 | 3% |
| Estudante | 4 | 3% |
| Autônoma | 4 | 3% |
| Advogada | 1 | 1% |
| Aposentada | 1 | 1% |
| Sem resposta | 4 | 3% |
| TOTAL | 128 | 100% |
Fonte: Dados da pesquisa, 2025.
Os resultados permitem identificar um perfil epidemiológico caracterizado por mulheres em idade reprodutiva ativa, predominantemente jovens, solteiras e residentes em áreas rurais. Esse panorama reflete o contexto de vulnerabilidade social do sertão paraibano, onde o acesso aos serviços de saúde especializados ainda é limitado e a assistência pré-natal, muitas vezes, tardia ou fragmentada. Segundo Barreto (2021) e Junior et al. (2024), fatores socioeconômicos e territoriais estão fortemente relacionados ao aumento de complicações obstétricas graves e à maior necessidade de cuidados intensivos, especialmente entre mulheres de menor renda e escolaridade. Essa realidade reforça a importância do fortalecimento da atenção primária e da ampliação das políticas de saúde materna voltadas à equidade territorial.
Embora as categorias não sejam idênticas, ambos os estudos indicam uma predominância de mulheres em situação de menor inserção no mercado formal de trabalho ou em atividades que podem limitar o acesso a cuidados de saúde regulares. Essa convergência sugere que mulheres com profissões informais, rurais ou de dedicação doméstica podem estar mais expostas a vulnerabilidades sociais e de saúde, o que justifica a atenção especial no acompanhamento pré-natal e durante a gestação.
Quanto à localidade das participantes, 7 (5%) são da cidade de Patos (PB), enquanto 121 (95%) vêm das demais cidades do sertão paraibano, que são contempladas pelo atendimento da atual maternidade, já que esta é referência regional. No total, a amostra é composta por 128 participantes (Gráfico 3).
Gráfico 3 – Localidade das gestantes.

Fonte: Dados da pesquisa, 2025.
Esse resultado pode ser explicado pelo papel regional da maternidade em estudo, que funciona como unidade de referência para diversas cidades circunvizinhas. Assim, o baixo percentual de participantes da cidade-sede não reflete necessariamente uma menor demanda local, mas ressalta o caráter abrangente do serviço, que concentra atendimentos de uma ampla rede de municípios.
Em relação ao acompanhamento pré-natal, 107 (84%) realizaram durante a gestação, o que indica uma boa adesão a essa importante etapa do cuidado materno-infantil. Apenas 1 participante (1%) relatou não ter feito o pré-natal e 20 participantes (16%) não responderam à pergunta (Gráfico 4).
Gráfico 4 – Pré-natal

Fonte: Dados da pesquisa, 2025.
Em estudo realizado por Mario et al. (2019), observou-se também que a maioria das mulheres participantes (84,0%) realizou seis ou mais consultas de pré-natal. O acompanhamento pré-natal representa uma etapa essencial para garantir a saúde da gestante e do bebê, configurando-se como o ponto de partida para um parto seguro e com menores riscos. Segundo Martins et al. (2015), sua importância está relacionada à identificação precoce de possíveis intercorrências e à prevenção de complicações durante a gestação, além de possibilitar o monitoramento de fatores de risco que possam afetar negativamente a saúde materno-infantil.
Do total das 128 participantes, 53 (41%) relataram estar na primeira gestação, 56 (44%) afirmaram já ter passado por duas a quatro gestações, enquanto 9 (7%) informaram ter tido mais de cinco gestações. Além disso, 10 (8%) participantes não responderam à pergunta (Gráfico 5).
Gráfico 5 – Distribuição das pacientes analisadas de acordo com o número de gestações.

Fonte: Dados da pesquisa, 2025.
Uma parte expressiva das participantes já vivenciou múltiplas experiências maternas, o que pode influenciar diretamente suas percepções sobre os cuidados com a saúde, o acesso a serviços obstétricos e o planejamento familiar. Por outro lado, uma parcela significativa (41%) está passando pela primeira gestação, representando um público importante para ações de acolhimento, informação e apoio, considerando que a inexperiência pode gerar maior insegurança ou necessidade de orientação específica quanto aos cuidados pré-natais e ao processo do parto.
Em pesquisa semelhante desenvolvida por Vidal (2023), aproximadamente 58 mulheres, correspondendo a 33,7% das participantes, estavam vivenciando a primeira gestação. De acordo com Tajvar, Hajizadeh e Zalvand (2022), compreender o perfil reprodutivo das mulheres, em especial aspectos como o número de gestações (paridade), a idade materna e o intervalo entre os partos, é fundamental para subsidiar a formulação de políticas públicas eficazes voltadas à promoção da saúde materna e à redução da mortalidade infantil.
Das 128, 33 (26%) relataram já ter sofrido aborto, 54 (42%) afirmaram que nunca passaram por essa experiência e 41 (32%) não responderam (Gráfico 6).
Gráfico 6 – Distribuição das pacientes analisadas segundo registro de aborto nos prontuários.

Fonte: Dados da pesquisa, 2025
O fato de mais de um quarto das gestantes já terem passado pela experiência do aborto destaca a importância de garantir acompanhamento psicológico e clínico adequado, promovendo uma abordagem integral à saúde da mulher que leve em consideração suas vivências reprodutivas de forma sensível e humanizada. Esses dados evidenciam, ainda, a relevância de incluir a temática do aborto nas políticas públicas de saúde materna, tanto na perspectiva da prevenção quanto no cuidado pós-evento, assegurando suporte físico e emocional às mulheres que enfrentam essa realidade.
Com base nos dados referentes à idade gestacional (IG) no momento do parto, observa-se que, entre as 128 entrevistadas, 2 (2%) tiveram parto entre 14 e 22 semanas, 9 (7%) entre 23 e 30 semanas, 74 (58%) entre 31 e 38 semanas e 25 (19%) entre 39 e 42 semanas. Além disso, 18 (14%) não responderam (Gráfico 7).
Gráfico 7 – Distribuição das pacientes segundo idade gestacional ao parto.

Fonte: Dados da pesquisa, 2025
Os dados indicam que a maioria das pacientes tiveram seus filhos dentro do intervalo em que os riscos neonatais tendem a ser menores. No entanto, também se destaca a ocorrência de partos prematuros, especialmente nas faixas de 22 a 30 semanas. Essa distribuição revela uma realidade comum em diversas regiões brasileiras. Por exemplo, em um estudo conduzido por Marmitt, Machado e Cesar (2025), no município de Rio Grande-RS identificou que, embora a maioria dos partos ocorra a termo, a taxa de prematuridade se manteve elevada ao longo de mais de uma década, oscilando entre 15,5% e 17,3%, com predominância de partos prematuros moderados (32 a 36 semanas).
Em âmbito global, a Organização Mundial da Saúde (OMS) (2023) estima que 13,4 milhões de bebês nasceram prematuros em 2020, representando mais de 1 em cada 10 nascimentos no mundo. As complicações decorrentes da prematuridade são a principal causa de morte entre crianças menores de 5 anos, sendo responsáveis por cerca de 900 mil mortes em 2019. Ainda segundo a organização, as taxas variam de 4% a 16% globalmente, com maior concentração no sul da Ásia e na África Subsaariana. Em ambientes de baixa renda, metade dos bebês nascidos com 32 semanas ou menos morrem por falta de cuidados adequados, enquanto em países de alta renda quase todos sobrevivem.
Diversos fatores de risco maternos têm sido amplamente relacionados à ocorrência de partos prematuros, sobretudo na faixa de 34 a 36 semanas de gestação, conhecida como prematuridade tardia. Entre esses fatores, destacam-se a idade materna avançada, a presença de diabetes gestacional e a inadequação no acompanhamento pré-natal. Santos et al. (2023), em um estudo multicêntrico com 4.150 partos prematuros no Brasil, observaram que gestantes com diabetes apresentaram 78,9% de partos entre 34 e 36 semanas, valor significativamente superior ao encontrado entre as não diabéticas (62,1%).
Além disso, essas mulheres tinham maior idade média, o que reforça a associação entre envelhecimento materno, comorbidades e maior risco de prematuridade. O estudo evidencia ainda que a maioria dos partos ocorreu por cesariana, indicando intervenções médicas associadas às condições maternas de risco.
Em relação ao tipo de parto, 7 (6%) tiveram parto vaginal, 99 (77%) foram submetidos a parto cirúrgico e 22 (17%) ainda não haviam nascido (Gráfico 8).
Gráfico 8 – Distribuição segundo tipo de parto.

Fonte: Dados da pesquisa, 2025
Esses resultados apontam para uma tendência elevada na realização de cesarianas no grupo investigado. Em estudo realizado por Vidal (2023), observou-se que 33,7% das pacientes foram submetidas a parto vaginal, enquanto 66,3% passaram por parto cesariano, evidenciando uma prevalência significativa desse tipo de procedimento.
Já em estudo conduzido por Betran et al. (2021), onde avaliaram dados disponíveis dos anos de 2010 à 2018, referentes a 154 países e abrangendo 94,5% dos nascimentos vivos no mundo, indicam que 21,1% das mulheres deram à luz por cesariana. Os autores destacam que, para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), é essencial tratar de forma abrangente a crescente taxa de cesarianas, reconhecendo-a como uma prioridade global.
Além disso, o uso cada vez mais frequente desse procedimento tem implicações para a saúde que variam desde benefícios imediatos em casos específicos até aumento da morbimortalidade, com possíveis efeitos a longo prazo sobre a saúde de mulheres e crianças, muitos dos quais ainda não são totalmente compreendidos (Keag; Norman; Stock, 2018).
Em relação às complicações graves durante a gestação, 58 apresentaram pré-eclâmpsia grave (PE grave). Dentre elas, 26 (20,3%) tiveram apenas PE grave, enquanto outras apresentaram PE grave associada a condições como síndrome HELLP (9;7,0%), diabetes mellitus (7; 5,5%) e hemorragia pós-parto (6; 4,6%).
No grupo classificado como “PE grave + outros diagnósticos” (70 casos; 55,0%), foram identificadas condições como obesidade, hipertireoidismo, histerectomia, cardiopatia e hipertensão arterial sistêmica (HAS), cada uma com um caso registrado. Além dessas, também se destacaram GUT, hemorragia pós-parto e a associação entre hipertensão arterial sistêmica e diabetes mellitus. Outras condições menos frequentes foram reunidas na categoria “Demais diagnósticos”, incluindo diabetes mellitus isolado, pneumonia, choque hemorrágico, valvopatia mitral associada à insuficiência cardíaca congestiva (ICC), laqueadura, epilepsia associada ao descolamento prematuro de placenta (DPP), hemorragia intra-parto, histerectomia, óbito fetal intrauterino (OFIU) e trombofilia (Tabela 2).
Tabela 2 – Distribuição das gestantes com pré-eclâmpsia grave segundo associação com outras condições clínicas.
| Diagnósticos associados à PE GRAVE | Quantidade | Percentual |
| PE GRAVE | 26 | 20,3% |
| PE GRAVE + S. HELLP | 9 | 7,0% |
| PE GRAVE + EPILEPSIA | 2 | 1,5% |
| PE GRAVE + HAS + DM | 3 | 2,3% |
| PE GRAVE + HPP | 6 | 4,6% |
| PE GRAVE + DM | 7 | 5,5% |
| PE GRAVE + TROBOFILIA | 3 | 2,3% |
| PE GRAVE + OUTROS DIAGNÓSTICOS | 70 | 55,0% |
| TOTAL | 128 | 100% |
Fonte: Dados da pesquisa, 2025.
Estudos como o de Lotufo et al. (2017) destacam que a pré-eclâmpsia grave é uma condição clínica complexa, que impõe desafios significativos para o manejo obstétrico, principalmente devido à variedade de complicações associadas e à necessidade de intervenções específicas, como o uso de sulfato de magnésio para prevenção da eclâmpsia.
Amorim et al. (2001) realizaram um estudo brasileiro com 2.541 casos de pré-eclâmpsia grave e eclâmpsia, identificando como principais fatores de risco para óbito em mulheres a falta de acompanhamento pré-natal associada à hipertensão arterial crônica, síndrome HELLP, eclâmpsia e edema pulmonar agudo. Esses fatores corroboram a relevância do acompanhamento rigoroso das gestantes acometidas, especialmente em cenários com alta incidência de comorbidades.
Os dados referentes a “PE grave + outros diagnósticos” evidenciam a complexidade do perfil clínico das pacientes atendidas, destacando a necessidade de estratégias integradas de atenção à saúde materna, com ênfase no fortalecimento do pré-natal, na vigilância contínua dos fatores de risco e no preparo das equipes para situações de urgência e emergência obstétrica. Esse padrão, caracterizado por múltiplos diagnósticos simultâneos, é semelhante ao observado por Andrade et al. (2020), que, ao analisarem a morbidade materna grave em hospitais públicos do interior de São Paulo, identificaram que condições diversas somaram entre 20% e 25% dos atendimentos obstétricos de média e alta complexidade.
Esses autores também relataram uma alta frequência de casos potencialmente ameaçadores à vida, destacando as complicações hipertensivas como principais causas de morbidade grave e a hemorragia como principal causa de mortalidade, evidenciando que a qualidade da assistência obstétrica no Brasil é determinante para o agravamento ou a prevenção desses desfechos.
De modo semelhante, os achados deste estudo reforçam a magnitude das complicações hipertensivas como principal motivo de internação em unidade de terapia intensiva materna, com destaque para a pré-eclâmpsia grave e a síndrome HELLP. A elevada frequência dessas condições corrobora estudos nacionais que apontam as doenças hipertensivas como as principais responsáveis pelas internações em unidades de cuidado intensivo (Lotufo et al., 2017; Andrade et al., 2020). Essas síndromes estão associadas a complicações sistêmicas graves, como insuficiência hepática, renal e coagulopatias, exigindo vigilância contínua e suporte multiprofissional. Além disso, a coexistência de diabetes gestacional e hemorragia pós-parto observada nos prontuários evidencia a sobreposição de fatores de risco que agravam o prognóstico materno. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (2023), mais de 70% das mortes maternas poderiam ser evitadas mediante diagnóstico precoce e manejo oportuno das complicações hipertensivas e hemorrágicas da gestação.
Em relação ao tempo de internação, 89 (70%), permaneceu hospitalizada por um período de 1 a 3 dias. Outras 28 (22%) ficaram internadas entre 4 e 6 dias, enquanto 8 (6%) relataram internação de 7 a 9 dias. Apenas 3 (2%) permaneceram hospitalizadas por um período mais prolongado, entre 10 e 13 dias (Gráfico 9).
Gráfico 9 – Tempo de internação hospitalar.

Fonte: Dados da pesquisa, 2025.
A predominância de internações curtas pode sugerir que, para a maioria das gestantes, as complicações obstétricas foram manejadas de forma eficaz e sem intercorrências graves. No entanto, é importante considerar que a duração da internação pode ser influenciada por diversos fatores, como a gravidade da complicação, a presença de comorbidades e a resposta ao tratamento. A presença de comorbidades, como eclâmpsia, distúrbios hipertensivos preexistentes com proteinúria sobreposta e hipertensão gestacional com proteinúria significativa, está diretamente associada ao aumento do tempo de internação hospitalar. Pereira et al. (2019) destacam que o nível de criticidade clínica influencia diretamente esse tempo, sendo que quadros mais graves resultam em internações mais prolongadas.
O tempo médio de permanência na UTI Materna foi relativamente curto, concentrando-se entre 1 e 3 dias, o que sugere resolução clínica rápida em parte dos casos. No entanto, as pacientes com associação de múltiplas comorbidades, especialmente pré-eclâmpsia grave e síndrome HELLP, apresentaram internações mais prolongadas. Estudos realizados em unidades obstétricas de alta complexidade apontam que o tempo de internação é um indicador indireto da gravidade do quadro clínico e da eficiência das condutas terapêuticas (Pereira et al., 2019; Macedo et al., 2023). Assim, variações no tempo de permanência refletem a necessidade de abordagens individualizadas e da integração efetiva entre as equipes médica, de enfermagem e fisioterapêutica.
Em relação à mortalidade materna, trata-se de um dos mais relevantes indicadores de saúde pública, por refletir diretamente a qualidade da assistência obstétrica e o acesso das mulheres aos serviços de saúde durante o ciclo gravídico-puerperal. No presente estudo, verificou-se a ocorrência de óbitos maternos entre as pacientes internadas na UTI Materna, o que evidencia a gravidade das complicações obstétricas e clínicas que demandaram suporte intensivo. O gráfico 10 apresenta a distribuição das mulheres segundo a ocorrência de mortalidade materna, expressa em números absolutos e percentuais, permitindo visualizar a proporção de óbitos em relação ao total de internações analisadas.
Gráfico 10 – Ocorrência de mortalidade materna entre as pacientes internadas na UTI Materna.

Fonte: Dados da pesquisa, 2025.
Os óbitos maternos identificados neste estudo ocorreram em duas pacientes, representando uma proporção reduzida em relação ao total de internações analisadas na UTI Materna. Ainda que o número absoluto seja baixo, cada caso de morte materna representa uma falha na continuidade do cuidado e um evento sentinela de extrema relevância para a vigilância em saúde.
A primeira paciente evoluiu para óbito em decorrência de choque hipovolêmico associado à insuficiência renal aguda, síndrome de HELLP e pré-eclâmpsia, um quadro clínico de elevada gravidade, frequentemente descrito na literatura como uma das principais causas diretas de mortalidade materna em todo o mundo. A síndrome de HELLP (hemólise, elevação de enzimas hepáticas e plaquetopenia) é uma complicação grave da pré-eclâmpsia e está associada à falência de múltiplos órgãos, hemorragias e disfunções hepatorrenais, exigindo diagnóstico precoce e manejo intensivo (Krebs; Silva; Bellotto, 2021; Poon et al., 2019).
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2023), os distúrbios hipertensivos da gestação incluindo pré-eclâmpsia, eclâmpsia e síndrome de HELLP são responsáveis por aproximadamente 14% das mortes maternas globais, configurando-se como uma das principais causas evitáveis de mortalidade em países de média e baixa renda. No Brasil, dados do Ministério da Saúde (BRASIL, 2022) e da FEBRASGO (2023) apontam que as doenças hipertensivas permanecem entre as três primeiras causas diretas de óbito materno, ao lado das hemorragias e das infecções puerperais.
A segunda paciente apresentou insuficiência respiratória aguda, com suspeita clínica de COVID-19 ou pneumonia, evoluindo para óbito mesmo após suporte intensivo. Durante a pandemia, o SARS-CoV-2 evidenciou um impacto desproporcional sobre gestantes e puérperas, com aumento significativo da mortalidade materna, especialmente em regiões com restrições de acesso à UTI e baixa cobertura vacinal (Takemoto et al., 2022). No Brasil, estima-se que mais de 2.000 mortes maternas tenham ocorrido por COVID-19 entre 2020 e 2022, representando uma das maiores taxas do mundo (BRASIL, 2023). Mesmo após o período pandêmico, estudos como o de Nunes et al. (2024) destacam que complicações respiratórias infecciosas continuam a figurar entre as causas indiretas relevantes de mortalidade materna, sobretudo em mulheres com comorbidades associadas e atraso no diagnóstico.
Esses achados reforçam a necessidade de vigilância obstétrica intensiva e manejo interdisciplinar nos casos de gestação de alto risco, particularmente quando coexistem distúrbios hipertensivos, disfunções orgânicas e infecções respiratórias. A Rede Alyne (Brasil, 2024), instituída como política pública para redução da mortalidade materna, destaca a importância da articulação entre a atenção primária, hospitalar e intensiva, com foco na prevenção de causas evitáveis e no atendimento rápido e resolutivo às emergências obstétricas.
Ademais, o manejo adequado do choque hipovolêmico e da insuficiência respiratória demanda recursos tecnológicos e equipe multiprofissional especializada, incluindo fisioterapeutas, enfermeiros obstétricos e médicos intensivistas. A atuação fisioterapêutica na UTI materna, conforme evidenciado por Silva et al. (2025), é essencial para o suporte ventilatório, mobilização precoce e reabilitação funcional, contribuindo para a recuperação e redução de complicações.
Quanto ao uso de ventilação mecânica invasiva (VMI), observou-se que 5 (4%) pacientes fizeram uso desse recurso durante a internação, enquanto 123 (96%) não necessitaram. Em relação à conduta fisioterapêutica, 21 (16%) receberam fisioterapia respiratória, 40 (31%) fisioterapia motora e 67 (52%) ambas as modalidades (Tabela 3).
Tabela 03 – Distribuição das pacientes segundo o uso de ventilação mecânica invasiva e conduta fisioterapêutica durante a internação na UTI Materna.
| Variáveis | Quantidade | Percentual |
| Uso de ventilação mecânica invasiva (VMI) Sim Não | 5 23 | 4% 96% |
| Conduta fisioterapêutica durante a internação Fisioterapia respiratória | 21 | 16% |
| Fisioterapia motora | 40 | 31% |
| Fisioterapia respiratória e motora | 67 | 52% |
| TOTAL | 128 | 100% |
Fonte: Dados da pesquisa, 2025.
Estudo conduzido por Lapinsky et al. (2015), com 29 gestantes internadas em UTI e submetidas à ventilação mecânica invasiva (VMI), revelou alta morbimortalidade materna e neonatal associada à gravidade dos quadros clínicos. Embora 10 pacientes tenham realizado o parto durante o suporte ventilatório, apenas parte delas apresentou melhora respiratória significativa, sem que houvesse preditores clínicos confiáveis para esse desfecho. A baixa taxa de VMI identificada na presente pesquisa (4%) corrobora os achados do referido estudo, reforçando que a ventilação invasiva é geralmente necessária apenas em situações críticas, como insuficiência respiratória grave.
Observou-se que apenas 4% das pacientes necessitaram de ventilação mecânica invasiva, indicando que a maioria manteve estabilidade respiratória ao longo da internação. A atuação fisioterapêutica foi expressiva, estando presente em 99% dos casos, com predominância da combinação entre fisioterapia respiratória e motora (52%). Esses dados reforçam a relevância do fisioterapeuta na equipe multiprofissional da UTI Materna, tanto na prevenção de complicações pulmonares quanto na reabilitação motora precoce. Segundo Silva et al. (2025) e Rodrigues et al. (2025), a mobilização e o suporte ventilatório precoce contribuem para reduzir o tempo de internação, otimizar o desmame ventilatório e melhorar a capacidade funcional global das pacientes críticas. No contexto obstétrico, tais intervenções são fundamentais para garantir segurança materna e favorecer o retorno à funcionalidade após o parto.
A intervenção fisioterapêutica no trabalho de parto atua em diversas frentes, contribuindo para a saúde e qualidade de vida da parturiente. Busca-se reduzir o uso de técnicas medicamentosas, valorizando métodos que promovam o bem-estar da mulher (Martins, 2020).
O fisioterapeuta, com seu conhecimento da fisiologia humana, está capacitado para trabalhar a mobilidade pélvica e fortalecer músculos como o diafragma, auxiliando no controle respiratório e na contração muscular (Coimbra; De Sousa; Delfino, 2016). Estudos indicam que os exercícios respiratórios durante o trabalho de parto diminuem a ansiedade, promovem relaxamento e melhoram a saturação sanguínea (Santos; Silva, 2017).
Em relação à internação do filho, 75 (59%) ficaram em enfermaria, 8 (6%) em UTI neonatal, 9 (7%) na unidade de cuidados intermediários neonatais (UCIN) e 2 (2%) no método canguru. Houve 34 (27%) sem resposta (Tabela 4).
Tabela 4 – Distribuição dos setores de internação do filho.
| Internação do filho | Quantidade | Percentual |
| Enfermaria | 75 | 58% |
| UTI Neo | 8 | 6% |
| UCIN | 9 | 7% |
| Canguru | 2 | 2% |
| Sem resposta | 34 | 27% |
| TOTAL | 128 | 100% |
Fonte: Dados da pesquisa, 2025.
Os dados mostram que, embora a maioria dos recém-nascidos não tenha precisado de cuidados intensivos, uma parcela relevante demandou atenção especializada, o que evidencia a necessidade de equipes qualificadas e de uma estrutura adequada. Além disso, a baixa adesão ao método canguru reforça a urgência de aprimorar a assistência e o monitoramento, em conformidade com as diretrizes da Rede Cegonha e da Organização Mundial da Saúde, que destacam a humanização e a integralidade no cuidado neonatal.
No Brasil, um estudo realizado em São Paulo identificou que, em 2012, dos 55.402 nascidos vivos em serviços do Sistema Único de Saúde, 16,5% precisaram de internação hospitalar, sendo 28,6% em UTIN e 71,4% em unidades de cuidado intermediário (UCIN) (Moura et al., 2020). De modo semelhante, pesquisa realizada no Iraque apontou que, entre 72.320 nascidos vivos em um período de três anos, 6,5% necessitaram de internação em UTIN (Umran; Jammali, 2017). Esses dados corroboram a importância de manter serviços preparados para atender neonatos que demandam cuidados especializados, mesmo quando a maioria evolui sem complicações graves.
A ocorrência de complicações graves e a necessidade de suporte intensivo entre gestantes e puérperas internadas na UTI Materna refletem fragilidades ainda persistentes na rede de atenção obstétrica, especialmente nas regiões de menor cobertura assistencial. Embora a maioria dos casos tenha evoluído favoravelmente, os registros de mortalidade materna observados indicam a urgência do fortalecimento das políticas públicas de atenção materna e neonatal. A Rede Alyne (Brasil, 2024) propõe estratégias para reduzir em 25% a mortalidade materna até 2027, enfatizando a ampliação da vigilância de óbitos e o acesso oportuno a cuidados intensivos de qualidade. Dessa forma, o estudo contribui para o reconhecimento de fatores epidemiológicos e clínicos que podem subsidiar práticas assistenciais mais seguras e equitativas no contexto do sertão paraibano.
CONCLUSÃO
O presente estudo evidenciou o perfil epidemiológico e clínico de gestantes e puérperas admitidas na Unidade de Terapia Intensiva Materna de uma maternidade pública do sertão paraibano, revelando a complexidade das condições enfrentadas por essa população. Observou-se predominância de mulheres jovens, residentes em áreas rurais e com inserção laboral informal, o que reflete vulnerabilidades sociais que impactam o acesso aos serviços de saúde e a adesão a um pré-natal qualificado.
As doenças hipertensivas da gestação, especialmente a pré-eclâmpsia grave e a síndrome HELLP, configuraram-se como as principais causas de internação, frequentemente associadas à hemorragia pós-parto e ao diabetes mellitus. Esses achados corroboram a literatura científica e reforçam a necessidade de vigilância contínua, diagnóstico precoce e manejo multiprofissional oportuno, com vistas à redução de complicações e à prevenção de desfechos maternos adversos.
O tempo médio de internação foi predominantemente curto, o que sugere boa resolutividade clínica na maioria dos casos. Entretanto, gestantes com múltiplas comorbidades apresentaram maior tempo de permanência hospitalar, evidenciando a relação direta entre a gravidade clínica e a necessidade de suporte intensivo. Nesse contexto, destaca-se a relevância do fisioterapeuta na equipe multiprofissional da UTI Materna. A alta frequência de intervenções fisioterapêuticas, tanto respiratórias quanto motoras, reforça seu papel fundamental na estabilidade hemodinâmica, na prevenção de complicações pulmonares e tromboembólicas e na promoção da reabilitação precoce, contribuindo para a redução do tempo de internação e para a recuperação funcional das pacientes.
Constatou-se também uma elevada taxa de cesarianas entre as gestantes avaliadas, possivelmente associada à presença de comorbidades e à gravidade dos quadros obstétricos. Esse achado evidencia a necessidade de fortalecer práticas assistenciais que promovam o parto seguro e humanizado, em consonância com as diretrizes da Organização Mundial da Saúde e da Rede Alyne. A consolidação dessas políticas públicas é fundamental para ampliar o acesso a cuidados obstétricos qualificados, reduzir intervenções cirúrgicas desnecessárias e prevenir a mortalidade materna, especialmente em regiões de maior vulnerabilidade, como o sertão paraibano.
Conclui-se que o conhecimento do perfil clínico e epidemiológico das mulheres internadas na UTI Materna fornece subsídios relevantes para o aprimoramento das práticas assistenciais e para o fortalecimento das equipes multiprofissionais, especialmente com a integração efetiva do fisioterapeuta no cuidado intensivo. Este estudo contribui, portanto, para o desenvolvimento de estratégias que promovam segurança, integralidade e equidade na assistência obstétrica, reafirmando a importância da articulação entre ciência, gestão e prática clínica no enfrentamento dos desafios da saúde materna no contexto regional.
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