PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DOS ÓBITOS POR ECLÂMPSIA NO BRASIL (2019–2024)

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202602220014


Mariana Sepulcri Silveira1
Murilo Andrey Vedana2
Carolina Mira Maciel Pereira3
Andressa Oliveira Flores Ramirez4
Ana Cláudia Barros5
Jaquelline Monte Stevanato6


RESUMO

Este estudo teve como objetivo analisar e traçar o perfil dos óbitos maternos decorrentes de eclâmpsia no Brasil entre os anos de 2019 a 2024, considerando que os principais distúrbios hipertensivos figuram entre as principais causas de mortalidade materna. Trata-se de um estudo retrospectivo e descritivo, realizado a partir de dados do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS), por meio da plataforma TabNet. Foram selecionados os registros de óbitos maternos, classificados pela CID-10 O15 (Eclâmpsia), no período analisado. No total, foram registrados 798 óbitos por eclâmpsia no país, com maior número absoluto em 2019 (160 casos). Observou-se redução de 30,62% nos números de óbitos em 2024 (111 casos) quando comparado ao inicial do estudo. Os estudos reenteram a relevância da eclâmpsia como causa expressiva de mortalidade materna no Brasil, com maior concentração de casos nas regiões Norte, Nordeste e Sudeste, acometendo predominantemente mulheres com faixa etária de 25 a 39 anos e de cor/ raça parda em ambiente hospitalar.

Palavras-chave: mortalidade materna; eclâmpsia; transtornos hipertensivos da gestação; saúde materna; epidemiologia.

ABSTRACT

This study aimed to analyze and profile maternal deaths due to eclampsia in Brazil between 2019 and 2024, considering that hypertensive disorders are among the leading causes of maternal mortality. This is a retrospective and descriptive study conducted using data from the Department of Informatics of the Unified Health System (DATASUS), through the TabNet platform. Records of maternal deaths classified under ICD-10 O15 (Eclampsia) were selected for the analyzed period. In total, 798 deaths due to eclampsia were recorded in the country, with the highest absolute number in 2019 (160 cases). A 30.62% reduction in the number of deaths was observed in 2024 (111 cases) compared to the initial year of the study. Studies highlight the relevance of eclampsia as a significant cause of maternal mortality in Brazil, with a higher concentration of cases in the North, Northeast, and Southeast regions, predominantly affecting women aged 25 to 39 years and of mixed race/color in a hospital setting.

Keywords: maternal mortality; eclampsia; hypertensive disorders of pregnancy; maternal health; epidemiology.

1 INTRODUÇÃO

A doença hipertensiva específica da gestação, denominada pré-eclâmpsia, constitui a principal afecção hipertensiva associada ao ciclo gravídico-puerperal, destacando-se pelo impacto significativo na morbimortalidade materna e perinatal. Trata-se de uma condição própria da segunda metade da gestação, com maior incidência a partir da vigésima semana. A ocorrência antes da 20ª semana é rara e, quando identificada, está geralmente associada à presença de neoplasia trofoblástica gestacional ou a condições autoimunes, como a síndrome antifosfolípide.

As síndromes hipertensivas da gravidez representam a segunda principal causa de mortalidade materna em escala global, com predominância das hemorragias como a principal causa. No Brasil, é a principal causa de mortalidade materna. Ocorre em 10% das gestações. (Febrasgo, 2024)

Embora a etiologia da pré-eclâmpsia permaneça não completamente elucidada, diversos fatores de risco têm sido consistentemente associados ao seu desenvolvimento, incluindo primiparidade, estado nutricional inadequado no período pré-gestacional ou gestacional, ganho ponderal excessivo, extremos da idade reprodutiva, presença de doenças crônicas, histórico pessoal e/ou familiar de préeclâmpsia, condições socioeconômicas desfavoráveis, obesidade, padrões alimentares hipoproteicos ou hiper sódicos e baixa escolaridade.

Do ponto de vista fisiopatológico, a condição decorre de uma perfusão placentária inadequada, resultante de invasão trofoblástica deficiente das artérias espiraladas uterinas. Esse processo culmina em disfunção endotelial sistêmica, ativação da resposta inflamatória, redução da síntese de prostaglandinas vasodilatadoras (PGI₂) e aumento da atividade do tromboxano A₂ (TXA₂), favorecendo vasoconstrição e agregação plaquetária. Tais alterações podem evoluir para comprometimento multissistêmico, com repercussões em órgãos-alvo como rins, sistema nervoso central e fígado. 

Clinicamente, a pré-eclâmpsia caracteriza-se pela elevação dos níveis pressóricos, definidos por pressão arterial sistólica ≥140 mmHg e/ou diastólica ≥90 mmHg, associada à proteinúria significativa (relação P/C > 0,3; > 1,0 g/l em fita reagente); disfunções orgânicas maternas – perda de função renal (creatinina > 1,1 mg/dl); disfunção hepática (aumento de transaminases pelo > 2 vezes o limite superior normal; epigastralgia); complicações neurológicas (estado mental alterado; cegueira; hiperreflexia com clônus, escotomas, turvamento visual, diplopia, Doppler da artéria oftálmica materna com peak/ratio > 0,78); complicações hematológicas (plaquetopenia, CIVD < hemólise); estado de antiangiogênese (PLGF < 36 pg/ml ou relação sFlt-1/PIGF > 85) – e, disfunção uteroplacentária (CIUR assimétrico; Doppler umbilical alterado, principalmente se presente também Doppler alterado nas duas artérias uterinas maternas (Dimitriadisr et al, 2023)  

 De acordo com a Internacional Society for the Study in Hypertension and Pregnancy (ISSNHP), que revisou os distúrbios hipertensivos na gestação, as gestantes com níveis  pressóricos iguais ou acima de 140mmHg para a pressão sistólica e 90 mmHg para pressão diastólica (Magee et al., 2022), devem ser avaliadas e inseridas em um de quatro grandes grupos, são eles: hipertensão arterial sistêmica (HAS) crônica, HAS gestacional, pré eclâmpsia (PE) e PE com HAS crônica sobreposta (Ramos et al., 2023). 

A pré-eclâmpsia é diagnosticada quando a hipertensão de início após a 20ª semana de gestação está associada a manifestações clínicas, laboratoriais ou hemodinâmicas indicativas de disfunção de órgão-alvo, tais como proteinúria significativa, deterioração da função renal, disfunção hepática, alterações neurológicas ou hematológicas, entre outras.

A hipertensão arterial sistêmica (HAS) crônica na gestação é definida pela presença de níveis pressóricos elevados previamente à gravidez ou pela identificação de hipertensão no primeiro trimestre gestacional, antes da 20ª semana. Em contraste, a hipertensão gestacional caracteriza-se pelo surgimento de elevação pressórica após a 20ª semana de gestação, sem associação com sinais clínicos, alterações laboratoriais ou evidências de comprometimento de órgão-alvo que configurem préeclâmpsia.

A pré-eclâmpsia sobreposta, por sua vez, é caracterizada pelo desenvolvimento de critérios diagnósticos de pré-eclâmpsia em gestantes previamente portadoras de HAS crônica. Ressalta-se que essas entidades clínicas apresentam impactos distintos sobre a saúde materna e fetal, demandando estratégias de acompanhamento e abordagens terapêuticas específicas.

Em razão de suas repercussões sobre o binômio materno-fetal, a préeclâmpsia deve ser sempre considerada uma condição clínica de elevada gravidade, uma vez que pode apresentar evolução rápida e desfavorável, culminando em morbimortalidade materna e perinatal. O controle adequado dos níveis pressóricos durante o pré-natal é a única forma de reduzir mortalidade materna e perinatal. 

Já a prevenção da eclâmpsia é feita com efetiva assistência pré-natal na atenção primária, complementada pela atenção secundária aos grupos de risco. Até que se tenha diagnóstico diferencial, a convulsão em gestação avançada deve ser considerada como diagnóstico de eclâmpsia. A melhor conduta requer a adoção de protocolos padronizados em serviços de nível terciário. Orienta- se a conduta assistencial para medidas gerais de suporte cardiorrespiratório, terapia anticonvulsivante, tratamento anti-hipertensivo e conduta obstétrica resolutiva. 

No Brasil, as causas diretas de mortalidade materna, incluindo doenças hipertensivas da gestação como a eclâmpsia, continuam a ser responsáveis por uma parcela significativa dos óbitos de mulheres em idade fértil, refletindo desigualdades no acesso e na qualidade da atenção obstétrica.

Este estudo, tem como objetivo analisar e traçar o perfil epidemiológico decorrentes de eclâmpsia nos anos de 2019 a 2024.

2 METODOLOGIA

Trata-se de uma pesquisa de natureza quantitativa, com delineamento descritivo, fundamentada em dados secundários extraídos do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), disponibilizados pelo Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde, por meio da plataforma TabNet/DATASUS.

A população do estudo foi constituída por óbitos maternos decorrentes de doenças hipertensivas associadas à gestação, eventos de notificação compulsória, identificados a partir da causa básica do óbito segundo a Classificação Internacional de Doenças, 10ª Revisão (CID-10). Para fins de análise, foram considerados os códigos O16 — edema, proteinúria e transtornos hipertensivos na gravidez, parto e puerpério — e O15 — eclâmpsia.

A partir dos dados obtidos, analisaram-se as seguintes variáveis: prevalência dos códigos da CID-10 previamente mencionados, faixa etária (classificada em intervalos regulares de 10 a 49 anos), cor/raça (branca, preta, amarela, parda, indígena e ignorada). As variáveis foram comparadas entre as cinco regiões geográficas do Brasil (Norte, Nordeste, Centro – Oeste, Sudeste e Sul) no período de 2019 a 2024. Os dados coletados foram tabulados e organizados em planilhas eletrônicas no programa Microsoft Excel. 

O presente estudo dispensou submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa, uma vez que utilizou exclusivamente dados de acesso público, sem identificação individual dos sujeitos.

3 RESULTADOS

De a cordo com o estudo foram registrados 798 óbitos por eclâmpsia no país, com maior número absoluto em 2019 (160 casos). Em 2023, observou-se uma redução de 30,62% no número de óbitos (111 casos) em comparação ao ano inicial do estudo. 

Tabela 1 – Óbitos maternos por eclâmpsia segundo o ano (2019-2024)

AnosÓbitosPercentual (%)
201916020,05%
202014918,67%
202113416,92%
202214718,42%
20239712,16%
202411113,91%
Fonte: DATASUS

Observa-se que, no Brasil, foram registrados 798 óbitos maternos por eclâmpsia entre os anos de 2019 e 2024. A região Nordeste apresentou o maior número de óbitos maternos por eclâmpsia, com 309 casos notificados, seguida pelas regiões Sudeste, com 217 óbitos, Norte, com 173 óbitos, Sul, com 50 óbitos, e Centro-Oeste, com 49 óbitos registrados.

Tabela 2 – Óbitos maternos por eclâmpsia segundo região

RegiõesÓbitosPercentual (%)
Norte17321,68%
Nordeste30938,72%
Sul506,27%
Sudeste21727,19%
Centro-Oeste496,14%
Fonte: DATASUS

Em relação à faixa etária, observa-se maior prevalência de óbitos em mulheres com idade entre 20 e 39 anos, totalizando 614 registros. Por outro lado, a faixa etária de 40 a 59 anos foi a menos impactada, com 77 óbitos registrados.

Tabela 3 – Óbitos maternos por eclâmpsia segundo faixa etária

Faixa etáriaÓbitosPercentual (%)
20 a 39 anos61476,94%
40 a 59 anos779,65%
Fonte: DATASUS

Na variável cor/raça, observou-se que 449 casos foram registrados em mulheres da cor/raça parda, representando 56,27% dos óbitos maternos, seguido da cor/raça branca com 188, cor/raça preta com 119, cor/raça indígena com 22, cor/raça amarela com 3. 

Tabela 4 – Óbitos maternos por eclâmpsia segundo raça/cor

Cor/RaçaÓbitosPercentual (%)
Parda44956,27%
Branca18823,56%
Preta11914,91%
Indígena222,76%
Amarela30,38%
Fonte: DATASUS

Além disso, o principal local de ocorrência das mortes maternas foi o hospital, responsável por 735 óbitos (91,99%), evidenciando que, apesar do acesso aos serviços de saúde, a eclâmpsia ainda representa um grave desafio no manejo da gestante, especialmente nos casos de diagnóstico tardio ou falhas na assistência.

Tabela 5 – Óbitos maternos por eclâmpsia segundo local

LocalÓbitosPercentual (%)
Hospital73591,99%
Outro estabelecimento de saúde212,63%
Domicílio222,75%
Via Pública91,13%
Outros121,50%
Fonte: DATASUS

4 DISCUSSÃO

A eclâmpsia representa grave complicação da gravidez, caracterizada pela ocorrência de convulsões e óbito materno-fetal. É acidente agudo, sendo a forma mais grave da pré-eclâmpsia. 

As principais causas de morte materna na eclâmpsia são hemorragia intracerebral, complicações pulmonares, insuficiência renal, insuficiência hepática e falência de mais de um órgão.10 Para o feto, a pré-eclâmpsia está associada com a redução do débito sanguíneo da placenta que resulta em hipóxia, restrição de crescimento intrauterino (CIUR), e em casos graves, nascimento de feto morto. Embora a hipertensão na gravidez afete múltiplos órgãos maternos, o acometimento cerebrovascular é responsável por 40% das mortes.  

Diversas mães ainda têm pouco conhecimento sobre essa temática, seus fatores de risco, sinais de alerta e complicações. Verificou-se que os diagnósticos muitas vezes foram relacionados a episódios de dor, ansiedade e disfunções hemodinâmicas, desse modo, as gestantes só recorrem aos cuidados assistenciais devido ao aparecimento desses sintomas, reflexo do déficit de autopromoção de saúde e de abordagem das SHEG durante as consultas de pré-natal (Santos et al., 2024).

 Para suprir esses déficits, é instituída a Rede Cegonha, em 2011, sendo uma estratégia do Ministério da Saúde que propõe a melhoria do atendimento às mulheres e às crianças disponibilizando atendimento de pré-natal, garantindo de realização de todos os exames necessários e vinculando da gestante a uma maternidade de referência para o parto. São atribuições da Atenção Básica no pré-natal de alto risco, conforme art. 7º da Portaria GM/MS nº 1.020, de 29 de maio de 2013: captação precoce da gestante de alto risco, com busca ativa das gestantes, estratificação de risco, acolhimento e encaminhamento responsável ao estabelecimento que realiza o pré-natal de alto risco, por meio da regulação, entre outras atribuições. Deverá ocorrer a informação prévia sobre a maternidade que fará o atendimento à gestante, de forma a evitar a peregrinação na hora do parto (UNA-SUS/UFMA, 2016).

5 CONCLUSÃO

 Conclui-se que a eclâmpsia permanece como um importante de mortalidade materna no Brasil, com maior ocorrência nas regiões Nordeste e Sudeste e predominância em mulheres autodeclaradas pardas com idade entre 20 a 39anos. Apesar dos avanços alcançados, a prevenção e o manejo adequado da eclâmpsia ainda configuram um importante desafio a ser superado. Trata-se de uma síndrome de curso instável, com manifestações clínicas variáveis, progressão imprevisível e cujo único tratamento definitivo consiste na interrupção da gestação.

Apesar da redução dos óbitos no período analisado, evidencia-se a necessidade de aprimorar o rastreamento precoce das gestantes com fatores de risco para pré-eclâmpsia, bem como otimizar o tratamento e intensificar a capacitação das equipes de saúde, especialmente no ambiente hospitalar, para o manejo adequado da eclâmpsia.

6 REFERÊNCIAS

INTERNATIONAL SOCIETY FOR THE STUDY OF HYPERTENSION IN PREGNANCY. Guidelines for the management of hypertensive disorders of pregnancy. [S.l.]: ISSHP, 2018. Disponível em: https://www.isshp.org\. Acesso em: 29/01/2026.

BRASIL. Ministério da Saúde. Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS). Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM). Brasília: Ministério da Saúde, 2024. Disponível em: https://datasus.saude.gov.br\. Acesso em: 31/01/2026.

FEDERAÇÃO BRASILEIRA DAS ASSOCIAÇÕES DE GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA (FEBRASGO). Síndromes hipertensivas da gravidez. São Paulo, 2024. Disponível em: https://www.febrasgo.org.br/pt/noticias/item/1886-sindromeshipertensivas-da-gravidez\. Acesso em: 29/01/2026.

MAGEE, Laura A. et al. The hypertensive disorders of pregnancy: ISSHP classification, diagnosis & management recommendations for international practice. Pregnancy Hypertension, v. 27, p. 148–169, 2022.

SILVA FILHO, Estevão Pires da; MARTINS, Juliana Fidelis; PRESTES, Rebeca da Cruz; BEZERRA, Felipe da Cruz; SANTOS JÚNIOR, José Ricardo Baracho dos; SOUSA, Nelma Silva; SAMPAIO, Fernando Souza; ALBANO, Allefy Beltrão. Perfil epidemiológico dos óbitos por eclâmpsia no Brasil. Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, v. 5, n. 5, p. 2021–2029, 2023. DOI: https://doi.org/10.36557/2674-8169.2023v5n5p2021-2029.


1Graduando em Medicina pela Uninassau Vilhena/RO

2Graduando em Medicina pela Uninassau Vilhena/RO
murilovedana0202@gmail.com 

3Graduada em Medicina pela Uninassau Vilhena/RO – CRM/RO 9389

4Especialidades: Ginecologia e Obstetrícia, Mastologia – CRM/RO 5671

5Especialidades: Ginecologia e Obstetrícia – CRM/RO 7721

6Mestre em Enfermagem pela Faculdade Integradas Aparício Carvalho, FIMCA Vilhena/RO