PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DE CRIANÇAS COM ASMA ATENDIDAS EM UM HOSPITAL UNIVERSITÁRIO: ANÁLISE RETROSPECTIVA DE ATENDIMENTOS AMBULATORIAIS EM 2015

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510301547


Maíra Machado da Silva
Vinícius Fighera da Rocha
Maísa Silveira
Rafaela Montiel Martins
Magally da Silva Ilha
Bernardo Rocha Rosso
Orientadora: Adriane Schmidt Pasqualoto
Coorientadora: Carla Aparecida Cielo


Resumo

A asma é uma doença inflamatória crônica das vias aéreas de alta prevalência na infância, com impacto significativo sobre a saúde pública. Objetivo: Analisar o perfil clínico e epidemiológico de crianças com asma atendidas no Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM) em 2015. Métodos: Estudo retrospectivo, observacional e descritivo, realizado por meio da análise de prontuários de crianças de até 12 anos com diagnóstico de asma confirmado conforme a Global Initiative for Asthma (GINA, 2023). Foram avaliadas variáveis clínicas, nutricionais e ambientais. Resultados: Dos 994 atendimentos registrados, 233 preencheram os critérios de inclusão. Houve predominância do sexo masculino (60,9%) e média de idade de 8,2 ± 2,6 anos. A maioria das crianças era eutrófica (60,5%), e as comorbidades mais frequentes foram rinite alérgica (87,5%) e dermatite atópica (26,6%). Histórico familiar de asma foi identificado em 32,6% dos pacientes, enquanto 28,8% estavam expostos ao tabagismo passivo e 47,2% apresentaram broncoespasmo induzido por exercício. Conclusão: Observou-se alta frequência de comorbidades alérgicas e influência de fatores ambientais, ressaltando a importância de estratégias preventivas e de manejo da asma infantil.

Palavras-chave: Asma infantil; Comorbidades; Epidemiologia; Fatores ambientais; Saúde pública.

INTRODUÇÃO

A asma é uma doença inflamatória crônica das vias aéreas, de elevada relevância em saúde pública, especialmente na infância (GINA, 2023). Estima-se que mais de 339 milhões de pessoas vivam com a doença em todo o mundo, das quais aproximadamente 20 milhões estão no Brasil (SOUZA-MACHADO et al., 2018). Em crianças, a asma impõe limitações às atividades diárias, afeta o desempenho escolar e constitui uma das principais causas de internações hospitalares (MENEZES et al., 2021).

Diversos fatores estão associados ao desenvolvimento e à exacerbação da asma pediátrica, como predisposição genética, atopia, obesidade infantil, exposição ambiental a poluentes, alérgenos domésticos e tabagismo passivo (BOUSQUET et al., 2022). O controle adequado da doença requer diagnóstico preciso, adesão ao tratamento e mitigação de fatores desencadeantes (GINA, 2023).

No Brasil, estudos apontam prevalência de sintomas asmáticos superior a 23% em adolescentes (SOLÉ et al., 2018) e em torno de 12,1% em crianças (CARDOSO et al., 2023). Uma metanálise internacional recente indicou prevalência global de 10,2% (IC 95%: 9,5–11,0%), com índices mais elevados em países latino-americanos (BMJ OPEN, 2024). Essa variabilidade reforça a importância de conhecer o perfil clínico e epidemiológico de populações específicas para subsidiar políticas públicas e aprimorar o manejo clínico da doença.

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo retrospectivo, observacional e descritivo, baseado na análise de prontuários de crianças de até 12 anos atendidas no Ambulatório de Pneumologia Pediátrica do Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM – Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares – EBSERH), durante o ano de 2015.

O critério de inclusão utilizado foi ter diagnóstico clínico de asma confirmado segundo os critérios da Global Initiative for Asthma (GINA, 2023). Os critérios de exclusão adotados foi ter idade superior a 12 anos, ausência de diagnóstico definido ou prontuários incompletos.

As variáveis analisadas incluíram sexo, idade, estado nutricional, presença de comorbidades (rinite alérgica e dermatite atópica), histórico familiar de asma, exposição ao tabagismo passivo, uso de fogão a lenha e broncoespasmo induzido por exercício. Os dados foram organizados em planilha eletrônica e analisados de forma descritiva (frequência, média e desvio-padrão). Quando aplicável, foram empregados testes de associação (qui-quadrado e teste t de Student), com nível de significância estabelecido em p < 0,05.

Para contextualização dos achados, realizou-se uma breve revisão narrativa da literatura publicada entre 2015 e 2025 sobre prevalência, fatores de risco e impacto da asma infantil, com ênfase em estudos brasileiros e latino-americanos.

RESULTADOS

Durante o ano de 2015, foram registrados 994 atendimentos ambulatoriais, dos quais 233 atenderam aos critérios de inclusão. Houve predominância do sexo masculino (60,9%; p < 0,05) e média de idade de 8,2 ± 2,6 anos. Quanto ao estado nutricional, 60,5% das crianças eram eutróficas, 14,6% apresentavam sobrepeso, 19,7% obesidade e 3% baixo peso, conforme mostra a figura 1.

A rinite alérgica foi a comorbidade mais prevalente (87,5%), seguida da dermatite atópica (26,6%). O histórico familiar de asma foi identificado em 32,6% dos pacientes. Entre os fatores ambientais, 28,8% das crianças estavam expostas ao tabagismo passivo, 14,6% à fumaça de lenha ou lareira e 47,2% apresentaram broncoespasmo induzido por exercício.

DISCUSSÃO

Os resultados evidenciaram alta demanda por atendimento de crianças com asma, com predomínio do sexo masculino, o que está em consonância com achados de estudos nacionais e internacionais (SOLÉ et al., 2018; SOUZA-MACHADO et al., 2018). Essa diferença pode estar relacionada a fatores anatômicos e hormonais que tornam as vias aéreas masculinas mais suscetíveis à obstrução nos primeiros anos de vida (BOUSQUET et al., 2022).

A elevada frequência de rinite alérgica (87,5%) reforça a relação entre doenças alérgicas das vias aéreas superiores e inferiores, conforme descrito por BATEMAN et al. (2015). A coexistência de dermatite atópica em aproximadamente um quarto dos pacientes corrobora o conceito de “marcha atópica”, no qual manifestações alérgicas evoluem progressivamente desde a infância.

Fatores ambientais como o tabagismo passivo e a exposição à fumaça de lenha, observados neste estudo, são reconhecidamente associados à piora do controle da asma e ao aumento da morbidade respiratória (CARDOSO et al., 2019). Além disso, a elevada proporção de sobrepeso e obesidade sugere possível influência do estado nutricional na gravidade da doença, hipótese respaldada por estudos que associam obesidade à inflamação sistêmica e à menor resposta ao tratamento com corticosteroides inalados (FORNO et al., 2017).

CONCLUSÃO

O estudo demonstrou elevada frequência de atendimentos ambulatoriais de crianças asmáticas, com predominância do sexo masculino e alta prevalência de comorbidades alérgicas e fatores ambientais de risco. Esses achados reforçam a importância da implementação de estratégias preventivas, ações educativas e acompanhamento multiprofissional contínuo voltado à população pediátrica, visando o melhor controle e a redução das exacerbações da asma.

REFERÊNCIAS

  1. BATEMAN, E. D. et al. Global strategy for asthma management and prevention: GINA executive summary. Eur Respir J, v. 46, n. 4, p. 861–877, 2015.
  2. BMJ OPEN. Global prevalence of asthma in children: a meta-analysis, 2024.
  3. BOUSQUET, J.; ANTO, J. M.; BACHERT, C. et al. Allergic rhinitis and its impact on asthma update (ARIA 2022): integrating new evidence into clinical practice. Allergy, v. 77, n. 1, p. 1–18, 2022.
  4. BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Asma. Brasília: Ministério da Saúde, 2022.
  5. CARDOSO, A.M. et al. Prevalence of asthma symptoms in Brazilian children: nationwide estimates. Rev Bras Epidemiol, 2023.
  6. CARDOSO, T. A. et al. Environmental factors and asthma in childhood: an integrative review. J Bras Pneumol, v. 45, n. 3, e20180425, 2019.
  7. FORNO, E.; CELEDÓN, J. C. The effect of obesity, weight gain, and weight loss on asthma inception and control. Curr Opin Allergy Clin Immunol, v. 17, n. 2, p. 123–130, 2017.
  8. GLOBAL INITIATIVE FOR ASTHMA (GINA). Global Strategy for Asthma Management and Prevention. 2023. Disponível em: https://ginasthma.org.
  9. MENEZES, A. M. B. et al. Prevalence of asthma and wheezing in schoolchildren: ISAAC phase III Brazil. Rev Saúde Pública, v. 55, p. 5, 2021.
  10. SOLÉ, D.; WANDALSEN, G. F.; CAMELO-NUNES, I. C.; NASPITZ, C. K. ISAAC – International Study of Asthma and Allergies in Childhood (Brasil). Rev Bras Alerg Imunopatol, v. 41, n. 3, p. 74–83, 2018.
  11. SOUZA-MACHADO, C. et al. Asthma control in Brazil: results from the National Asthma Control Program. J Bras Pneumol, v. 44, n. 3, p. 241–248, 2018.
  12. WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Growth reference data for 5–19 years. Geneva: WHO, 2007.

O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível. Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento 001. C A Cielo agradece o apoio do CNPq (Processo no. 305151/2022-3).
Trabalho apoiado pelo programa DS CAPES n.23081 073374/2024-72

Rolar para cima