PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DE CASOS DE MENINGITE NO MUNICÍPIO DE PORTO VELHO ENTRE OS ANOS DE 2018 A 2023 

EPIDEMIOLOGICAL PROFILE OF MENINGITIS CASES IN THE MUNICIPALITY OF PORTO VELHO BETWEEN 2018 AND 2023 

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202510242129


Eduardo Bianchini Ferreira da Silva1
José Umbelino da Silva Neto2
Mário Cezar Aspett Cott3
Maria do Carmo Lacerda Nascimento4


RESUMO 

A meningite caracteriza-se por ser uma doença infectocontagiosa causada por bactérias, vírus, fungos e infecções que acometem as meninges. Um caso suspeito de meningite é classificado por aquele indivíduo que apresenta febre, rigidez na nuca como também irritação meníngea pelos sinais de Kernig e Brudzinski. Dentre os tipos de meningite, as de etiologia bacteriana e viral se destacam, sendo as mais frequentes as de origem bacteriana, exibindo maior gravidade e letalidade e as virais maiores incidências. Essa enfermidade apresenta uma elevada taxa de incidência e prevalência no município de Porto Velho, sendo consequência da incompreensão dos fatores de risco e dos determinantes epidemiológicos da doença, o que torna difícil um planejamento que idealize medidas de prevenção e controle da meningite. Trata-se de um estudo observacional, retrospectivo e descritivo, com dados obtidos acerca do número de casos notificados no Sistema de Informações de Agravos de Notificação (SINAN) e do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS) entre o período de 2018 a 2023. Ao todo foram constatados 176 casos de Meningite na região de Porto Velho, onde foram observou-se uma predominância do sexo masculino na taxa de 63,6%, um acometimento da faixa etária comum entre os anos de 20 a 39 anos equivalendo a 37,5%, predominando a cor parda 74,4%. Ademais, observou-se um aumento do número de casos no ano de 2023 e também nos meses de Junho e Agosto. Foi constatada a etiologia mais comum sendo a Meningite Bacteriana Não Especificada, e um aumento em casos de Meningite Tuberculosa. A letalidade em geral da doença foi de 15,3%, sendo a meningite fúngica com a maior taxa de letalidade (50%). Em suma, a Meningite ainda apresenta um enorme desafio para a saúde pública do município de Porto Velho, conforme foi retratado é necessário estimular a vigilância epidemiológica, o diagnóstico precoce da doença, a cobertura vacinal e especialmente o acesso ao tratamento visando reduzir a morbimortalidade da doença. 

Palavras-chaves: meningite; epidemiologia; incidência; demográfico.

ABSTRACT 

Meningitis is characterized as an infectious disease caused by bacteria, viruses, fungi, and infections that affect the meninges. A suspected case of meningitis is classified as an individual who has fever, neck stiffness and meningeal irritation due to Kernig’s and Brudzinski’s signs. Among the types of meningitis, bacterial and viral etiologies stand out, with bacterial meningitis being the most frequent, exhibiting greater severity and lethality, and viral meningitis having higher incidence rates. This disease has a high incidence and prevalence rate in the municipality of Porto Velho, as a result of a lack of understanding of the risk factors and epidemiological determinants of the disease, which makes it difficult to plan ideal measures for the prevention of the disease, which makes it difficult to plan ideal measures for the prevention and control of meningitis. This is an observational, retrospective, and descriptive study, based on data obtained regarding the number of reported cases from the Sistema de Informações de Agravos de Notificação (SINAN) and the Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS) between 2018 and 2023. A total of 176 cases of meningitis were identified in the region of Porto Velho, with a predominance of males (63.6%), most cases occurring among individuals aged 20 to 39 years (37.5%), and a higher prevalence among individuals self-identified as brown (pardo) (74.4%). Furthermore, an increase in the number of cases was observed in 2023, particularly during the months of June and August. The most common etiology was found to be unspecified bacterial meningitis, alongside a rise in cases of tuberculous meningitis. The overall case fatality rate was 15.3%, with fungal meningitis presenting the highest lethality rate (50%). In summary, meningitis remains a major public health challenge in the municipality of Porto Velho. As highlighted, it is essential to strengthen epidemiological surveillance, ensure early diagnosis, expand vaccination coverage, and especially improve access to treatment in order to reduce the morbidity and mortality associated with the disease. 

Keyword: meningitis; epidemiology; incidence; demographic.

INTRODUÇÃO 

A meningite trata-se de uma doença infectocontagiosa de rápida e fácil transmissão causada por bactérias, vírus e infecções que acometem as meninges, membranas que recobrem o Sistema Nervoso Central (SNC) (McGill et al., 2017). Dentre os tipos da meningite, as bacterianas e virais se destacam como as mais recorrentes, com as bacterianas apresentando maior gravidade e letalidade e as virais maiores incidências. Em conjunto com os outros fatores etiológicos o uso de drogas, parasitas e fungos também são marcadores patológicos para a causa da doença (Silva; Mezarobba, 2018). 

Classifica-se um caso suspeito de meningite o indivíduo que apresentar febre, cefaleia, vômitos, rigidez de nuca como também irritação meníngea, pelos sinais de Kernig e Brudzinski. Outros sinais são fotofobia, exantemas (rash cutâneo), diarreia e mialgia. O quadro clínico da doença varia de acordo com a sua etiologia, mas em geral apresenta casos graves que podem evoluir para óbito. Além disso, os fatores epidemiológicos podem influenciar na expressão da doença, como o tipo de agente infeccioso, fatores climáticos, demográficos e socioeconômicos (Kumar, 2005). 

A meningite é caracterizada como uma doença de notificação compulsória imediata de acordo com a Portaria GM no 3 de 21 de fevereiro de 2006 do Ministério da Saúde, tendo a capacidade de produzir surtos (McGill et al., 2017) Essa doença apresenta uma alta incidência e prevalência no município de Porto Velho. Esse cenário é consequência da incompreensão dos fatores de risco e dos determinantes epidemiológicos da enfermidade, fato esse que dificulta um planejamento que vise medidas de prevenção e controle da doença (Silva et al., 2021). 

Dentro do contexto mencionado, a respeito da meningite, destacando fatores clínicos, como sua transmissão, causas e agravos da doença, esse estudo tem como objetivo avaliar o epidemiológico dos casos de meningite no município de Porto Velho, em Rondônia, nos anos de 2018 a 2023, com os dados coletados do departamento de informática o Sistema Único de Saúde do Brasil (DataSUS) e Sistema de Informações e Agravos de Notificação (SINAN) buscando dar destaque nas populações mais afetadas e seus fatores clínicos em comum. 

MATERIAL E MÉTODOS 

A pesquisa apresentada se trata de um estudo do tipo observacional, retrospectivo e descritivo da situação epidemiológica da meningite no município de Porto Velho no período de 2018 a 2023 a partir de dados epidemiológicos secundários retrospectivo, quantitativo que utiliza dados extraídos do sistema DATASUS, atualizados em 28 de junho de 2024. 

O estudo foi realizado no município de Porto Velho, capital do estado de Rondônia. Possui uma área geográfica de 34.068,50 km² ocupando 14,35% do território do estado. O município apresenta um clima tropical úmido com temperaturas elevadas ao longo do ano e alta umidade relativa do ar, influenciado pela presença da Floresta Amazônica. 

De acordo com as estimativas da população residente nos municípios brasileiros com data de referência em 1º de julho de 2025, a população de Porto Velho é estimada em cerca de 517 mil habitantes. A amostra do estudo se baseia no número de casos notificados de meningite coletados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) através de consulta ao banco de dados disponível no Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS), que são 176 casos. 

Estão incluídas informações dos casos de meningite em residentes no município de Porto Velho – Rondônia, entre os anos de 2018 e 2023 diagnosticados e notificados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) e consultados a partir do banco de dados disponível no Departamento de informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS-TabNet), sendo considerados indivíduos de todas as faixas etárias, sexos e raça/cor. Este estudo não foi submetido a um Comitê de Ética em Pesquisa por se tratar da utilização de dados de fonte secundária, sem a identificação nominal dos indivíduos. 

Para estimar a incidência da meningite em Porto Velho, foram utilizados os dados disponíveis do banco de dados do DATASUS, referente ao número de casos novos. Para isso, os dados da população referente ao denominador, serão buscados no sítio do IBGE. 

Para a análise das características epidemiológicas, foram utilizadas as seguintes variáveis referentes a pessoa coletadas na plataforma digital do Ministério da Saúde/DATASUS: sexo, faixa etária, raça, etiologia, sorogrupo, critério de confirmação e evolução. Serão calculados a proporção de casos de acordo com as variáveis e período do estudo. 

A extração dos dados foi realizada em 08 de setembro de 2025 do sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), acessado pela plataforma TABNET, disponibilizada pelo Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS), utilizando filtros específicos para o município de Porto Velho – RO, abrangendo o período de 2018 a 2023, com seleção dos casos notificados de meningite. Os dados extraídos foram organizados em planilhas eletrônicas no software Microsoft Excel®, onde foram realizadas a limpeza, categorização e padronização das variáveis de interesse, conforme a terminologia oficial do SINAN. 

Esse estudo não apresenta riscos para a integridade física ou moral dos participantes, já que utiliza apenas dados de fonte secundária, que são provenientes de bases públicas de livre acesso e disponibilizadas pelo Ministério da Saúde, por meio do DATASUS. As informações usadas para o estudo são agrupadas e anonimizadas, impossibilitando a identificação de indivíduos, domicílios ou qualquer informação sensível. Os resultados podem contribuir para o avanço e aprimoramento das estratégias de vigilância e controle da meningite no âmbito dos serviços públicos de saúde. 

RESULTADOS 

Durante o período de 2018 a 2023, foram registrados 176 casos de meningite no município de Porto Velho. Dentre esses, observou-se predominância do sexo masculino, o qual representou 63,6% (n = 112) do total de casos, enquanto o sexo feminino correspondeu a 36,4% (n=64). 

Podemos observar no Figura 1 a distribuição dos casos de acordo com o sexo, que evidencia que a incidência de casos no sexo masculino superou a observada no sexo feminino em todos os anos do estudo. Nesse sentido, é importante destacar que ano de 2023 apresentou o maior número absoluto de casos em ambos os sexos, 39 casos do sexo masculino e 23 do sexo feminino, refletindo um aumento no número de notificações nesse período.

Figura 1 – Número de casos confirmados de meningite segundo sexo e ano de início de sintomas no município de Porto Velho/RO no período de 2018 a 2023. 

Fonte: Brasil, 2025. 

A análise de casos de acordo com a faixa etária revelou um perfil epidemiológico concentrado em adultos jovens e de meia-idade, onde as faixas etárias de 20 a 39 anos e 40 a 59 anos foram responsáveis pela maioria das ocorrências, 66 e 51 respectivamente, somando juntas 117 casos e totalizando 66,5% dos casos. A faixa etária de 20 a 39 anos foi a mais acometida durante o período, com 66 casos (37,5%), seguida da faixa de 40 a 59 anos que apresentou 51 casos (29%). Tais valores podem ser observados no Figura 2.

Figura 2 – Número de casos confirmados de meningite de acordo com a faixa etária no município de Porto Velho/RO no período de 2018 a 2023. 

Fonte: Brasil, 2025. 

Durante o período do estudo evidenciou-se um padrão de sazonalidade relativamente uniforme ao longo dos meses do ano, com pequenos picos sazonais nos meses de junho a setembro, com picos de maior número de casos em julho e agosto como observado no Figura 3. 

Esses meses, correspondentes ao período de transição entre a estação chuvosa e o início do período seco na região amazônica, podem estar relacionados a condições ambientais mais favoráveis à disseminação de agentes infecciosos respiratórios, como o Neisseria meningitidis e o Streptococcus pneumoniae, principais etiologias bacterianas da doença.

Figura 3 – Número de casos confirmados de meningite segundo mês de início de sintomas no município de Porto Velho/RO no período de 2018 a 2023. 

Fonte: Brasil, 2025. 

A variável raça/cor, representada na Figura 4, apresenta distribuição heterogênea, refletindo parcialmente a composição demográfica da região caracterizada por elevada miscigenação. Do total de casos, observou-se 131 casos (74,4%) acometendo indivíduos pardos, seguidos por 19 casos em brancos (74,4%), 5 casos em indivíduos pretos (2,8%), 4 casos indígenas (2,3%) e 3 casos amarelos. 

Nesse sentido, também se destacou o elevado número de notificações que foram ignoradas ou deixadas em branco, que correspondem a 14 casos (7,95%) do total. Esse dado pode indicar uma falha na coleta de dados epidemiológicos, sendo ele de suma importância durante o preenchimento adequado das fichas de notificação para análise mais precisa do perfil populacional afetado. 

Figura 4 – Número de casos confirmados de meningite segundo raça/cor e ano de início de sintomas no município de Porto Velho/RO no período de 2018 a 2023. 

Fonte: Brasil, 2025. 

Acerca do desfecho clínico, observou-se que a maioria dos eventos evoluíram para alta hospitalar, como demonstrado no Figura 5, totalizando 106 casos (60,2%), enquanto 27 casos (15,3%) evoluíram para óbito diretamente atribuído à meningite e 22 casos (12,5%) apresentaram óbito por outras causas. No entanto, em 21 casos (11,9%) o desfecho foi classificado como ignorado ou em branco, evidenciando uma limitação na completude dos dados.

Figura 5 – Número de casos confirmados de meningite segundo evolução e ano de início de sintomas no município de Porto Velho/RO no período de 2018 a 2023. 

Fonte: Brasil, 2025. 

Ao analisar o Figura 6, nota-se que houve uma variação significativa na distribuição etiológica das meningites ao longo do período estudado. O ano de 2023 destacou-se com o maior número de registros (n = 62), demonstrando um aumento expressivo em relação aos anos anteriores, especialmente para as etiologias Meningite Bacteriana (MB), que pulou de 4 casos em 2022 para 30 em 2023, e Meningite por Tuberculose (MTBC) que passou de 4 para 12 casos no mesmo intervalo. 

Por outro lado, as Meningites Não Especificadas (MNE) mantiveram-se em níveis relevantes ao longo de todo o período, embora com variação discreta e tendência à estabilidade. A Meningite por Outras Etiologias (MOE) também demonstrou números consideráveis e constantes ao longo dos anos, sugerindo uma persistência de casos que não tiveram sua etiologia identificada.

Figura 6 – Número de casos confirmados de meningite segundo etiologia e ano de início de sintomas no município de Porto Velho/RO no período de 2018 a 2023. 

Fonte: Brasil, 2025. 

A etiologia MCC (meningite por Cryptococcus neoformans/gattii) apresentou a maior taxa de letalidade (50%), seguida da MM (Meningite por Meningococo) com taxa de letalidade de 20% (Figura 7). No entanto, é válido ressaltar que foram etiologias com menores números de casos, o que sugere que embora menos incidentes, apresentam evolução clínica mais grave e maior risco de morte. 

As meningites bacterianas não especificadas (MB) e as meningites não especificadas (MNE) apresentam a maior carga da doença, com 49 e 48 casos respectivamente, e se destacaram pelo maior número de óbitos por meningite, com 8 óbitos cada. Apesar disso, suas taxas de letalidade de 16,3% e 16,7%, respectivamente, sugerem que nem sempre estão associadas aos piores desfechos. 

Além disso, a letalidade da MTBC (Meningite Tuberculosa) foi de 11,1% e pode representar desafios na confirmação diagnóstica ou subnotificação de casos mais graves. Esses resultados reforçam a ameaça e a necessidade de fortalecer sistemas de vigilância para orientar meios de prevenção e o diagnóstico rápido da doença. Em contrapartida, a MV (meningite viral) registrou letalidade nula (0%) apresentando um prognóstico mais comumente benigno, apesar do seu baixo número de casos.

Figura 7 – Número de casos confirmados de meningite segundo etiologia e taxa de letalidade no município de Porto Velho/RO no período de 2018 a 2023. 

Fonte: Brasil, 2025. 

Dentre o número de casos e as etiologias específicas observadas na Figura 8, a MNE e MB apresentaram o maior número de altas hospitalares, com 32 e 31 casos respectivamente, o que reflete a alta incidência desse tipo de meningite. Além disso, também estão associadas, respectivamente, a 5 e 2 óbitos por outras causas, o que demonstra sua gravidade clínica e complicações associadas. 

Outro dado que chama a atenção é o número casos Ignorados/Sem informação, que totalizam 21 casos, principalmente para MNE e MB, o que pode impactar na análise da letalidade e demonstra a importância do melhoramento do sistema de informação em saúde.

Figura 8 – Número de casos confirmados de meningite segundo etiologia e evolução no município de Porto Velho/RO no período de 2018 a 2023. 

Fonte: Brasil, 2025. 

DISCUSSÃO 

No período avaliado, observou-se uma tendência crescente do número de casos de meningite no município de Porto Velho, com destaque no ano de 2023, que apresentou o maior número de eventos, com 62 casos notificados. Esse aumento pode estar relacionado ao retorno de atividades sociais e laborais após o período de COVID-19, assim como ao aumento e melhoria do número de notificações. 

Foi observado na pesquisa uma predominância da doença sobre o sexo masculino, totalizando 63,6% dos casos no período do estudo. Tal padrão entra em concordância com estudos nacionais que também registraram predomínio do sexo masculino entre os casos de meningite, como observado por Azevedo et al. (2013), reforçando este perfil demográfico no país. Tal contexto está, possivelmente, relacionado a fatores comportamentais e biológicos, uma vez que homens tendem a ter maior exposição ocupacional, ambientes de aglomeração e adiar a busca por atendimento médico. 

Esta pesquisa também deu enfoque na variável de faixa etária, onde observou-se que as idades mais afetadas foram a de 20 a 39 anos (37,5%), seguida por 40 a 59 anos (29%), demonstrando a predominância de ocorrência em adultos em idade economicamente ativa em Porto Velho. Resultados semelhantes podem ser observados por Oliveira et al. (2025) que demonstraram prevalência de casos de meningite na mesma faixa etária desta pesquisa, associando esse padrão a fatores como maior mobilidade social, exposição ocupacional e menor cobertura vacinal entre adultos. No entanto, os achados do presente estudo contrastam com a tendência nacional, como demonstrado por Freitas et al. (2021), que identificou maior prevalência de casos de meningite bacteriana em crianças menores que 10 anos (35,2%), seguido do acometimento de adultos jovens entre 20 a 39 anos (21,1% ). 

Foi observado um número razoavelmente constante de casos no decorrer dos meses do ano, tendo maior pico de ocorrência nos meses de junho, julho e agosto, época esta que coincide com o período de transição entre a estação chuvosa e início do período seco na região Norte do Brasil. Tal relação, também foi observado por Saraiva et al. (2015), que associou o aumento no número de casos a períodos de maior umidade relativa do ar dos meses abril e maio, correspondente ao período chuvoso na região. 

A raça/cor mais predominante na pesquisa foi a cor parda, correspondendo a 74,4% dos casos, totalizando 131 acometidos. O estudo de Silva et al. (2024) que avaliou 181.126 casos de meningite no Brasil, que demonstrou uma predominância da ocorrência sobre a cor branca de 45,17%, evidenciando que a alta miscigenação da região de Porto Velho pode ser considerada um fator determinante no perfil epidemiológico da doença. 

O estudo de Silva et al. (2024) demonstrou ainda que 79,37% dos casos analisados evoluíram para alta hospitalar, demonstrando o alto índice de cura da doença, ao passo que 9,26% dos casos findaram em óbito em decorrência da meningite. Tal cenário também se perpetua na região de Porto Velho, onde houve um percentual de alta hospitalar de 60,2% dos casos com uma taxa de letalidade de 15,3%. Tais dados corroboram para demonstrar que apesar dos avanços na redução de casos e óbitos, assim como a clínica resolutiva da doença, a estabilidade na taxa de letalidade ainda perpetua-se, evidenciando a necessidade de formulação de estratégias focadas no diagnóstico e tratamento adequado da meningite. 

A análise etiológica observada evidencia a predominância das meningites bacterianas (MB), que configurou a etiologia mais prevalente, com destaque para o ano de 2023 com um pico de 30 casos. Este dado sugere fortemente que o pneumococo pode ser o principal agente etiológico específico por trás desses números, uma vez que a meningite bacteriana agrupa as bactérias Streptococcus pneumoniae (pneumococo), Haemophilus influenzae e outras (Moraes et al, 2024). Além disso, é válido ressaltar que apesar do maior número de casos, a meningite bacteriana apresentou uma taxa de letalidade intermediária em comparação às demais etiologias com 16,3% de letalidade, correspondendo a 8 óbitos. 

Em última análise, também é importante destacar o aumento do número de casos de meningite por tuberculose (MTBC), os quais triplicaram entre 2022 e 2023, passando de 4 casos para 12 casos nesses anos. Este dado é preocupante pois ele é um indicador indireto da carga de tuberculose da região, uma vez que, conforme Guedes et al. (2024), o aumento pode refletir fragilidades no rastreio e diagnóstico da tuberculose, assim como baixa cobertura de tratamento ou a coexistência de comorbidades que aumentam a vulnerabilidade da contração de doenças. 

CONSIDERAÇÕES FINAIS 

A partir dos dados coletados, com posterior análise, constatou-se que a meningite se apresenta como um desafio para a saúde pública no município de Porto Velho/RO. 

Com o decorrer dos anos analisados, verificou-se uma variação nas taxas de incidência da doença, apresentando uma redução dos casos registrados durante a pandemia de COVID-19, porém, com um pico de casos posteriormente a mesma, no ano de 2023, provavelmente devido ao retorno das atividades laborais e sociais da população, já que a queda durante o período de pandemia se relaciona pela atenção dos serviços de saúde ao enfrentamento do novo coronavírus em detrimento de outras doenças endêmicas. Com isso, é necessário destacar a necessidade de fortalecer os serviços de vigilância epidemiológica a fim de garantir a continuidade do serviço e minimizar os impactos da doença na saúde pública. 

Fatores socioeconômicos desempenham um papel determinante na incidência da doença, já que a população mais afetada são homens jovens em idade produtiva e indivíduos de cor parda, relacionando-se com a maior exposição ocupacional, ambientes com aglomerações e demora para busca dos serviços de saúde. Assim, torna-se essencial o fortalecimento de estratégias de educação em saúde, campanhas de vacinação e ampliação do acesso precoce ao diagnóstico e tratamento, visando reduzir a morbimortalidade e as desigualdades associadas à doença.

Os resultados obtidos evidenciam um avanço no enfrentamento da meningite. Com uma alta proporção de altas hospitalares observada, ainda que represente um bom prognóstico e a eficácia do tratamento quando instituído precocemente, contrasta com taxas de letalidade ainda significativas. Essa discrepância reforça a necessidade de qualificar o acesso e a resolutividade dos serviços de saúde, principalmente nas fases iniciais da doença. 

Os achados do estudo reforçaram a relevância da vigilância epidemiológica e da atenção integrada à meningite, especialmente diante da persistência de taxas de letalidade expressivas e da predominância da etiologia bacteriana, com destaque para o Streptococcus pneumoniae. A ocorrência de casos de meningite por tuberculose em ascensão, revela um alerta para o fortalecimento de ações de rastreio e tratamento da tuberculose na região. Diante desse cenário, torna-se imprescindível a criação de políticas voltadas à ampliação da cobertura vacinal, diagnóstico precoce e capacitação das equipes de saúde, buscando a redução da morbimortalidade na região. Com isso, a integração de políticas públicas, educação, vigilância laboratorial constitui o eixo principal para o controle e a prevenção da meningite em nível regional e nacional.

REFERÊNCIAS 

AZEVEDO, L. C. P.; TOSCANO, C. M.; BIERRENBACH, A. L. Bacterial Meningitis in Brazil: Baseline Epidemiologic Assessment of the Decade Prior to the Introduction of Pneumococcal and Meningococcal Vaccines. PLoS ONE, v. 8, n. 6, p. e64524, 18 jun. 2013. DOI: https://doi.org/10.1371/journal.pone.0064524. Disponível em: http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0064524. Acesso em: 8 set. 2025. 

BRASIL. Ministério da Saúde. Sistema de Informação de Agravos de Notificação – Sinan. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/svsa/sistemas-de-informacao/sinan. Acesso em: 20 jul. 2025. 

FREITAS, A. T. S. et al Estudo epidemiológico sobre meningite bacteriana no Brasil no período entre 2009 a 2018. Revista de Medicina, São Paulo, v. 100, n. 3, p. 220-228, maio/jun. 2021. DOI: http://dx.doi.org/10.11606/issn.1679-9836.v100i3p220-228. Disponível em: https://revistas.usp.br/revistadc/article/view/171748. Acesso em: 8 set. 2025. 

KUMAR, R. Aseptic Meningitis: Diagnosis and Management. Indian Journal of Pediatrics, Nova Delhi, v. 72, n. 1, p. 57-63, jan. 2005. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/15684450/. Acesso em: 05 set. 2025. 

MCGILL, F. et al. Acute bacterial meningitis in adults. The Lancet, [S. l.], v. 390, n. 10106, p. 3036-3047, 2017. Disponível em: 10.1016/S0140-6736(16)30654-7 . Acesso em: 10 set. 2025. 

MORAES, L. N. R. et al. Fatores associados aos desfechos desfavoráveis de tratamento da tuberculose em idosos no Brasil: uma análise multinomial. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, Rio de Janeiro, v. 27, e230244, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1981-22562024027.230244.en. Acesso em: 8 set. 2025. 

OLIVEIRA, A. V. et al. Trends in incidence, mortality, and lethality due to meningitis in children and teenagers in Brazil: a nationwide time-series study from 2002 to 2022. Revista Brasileira de Epidemiologia, [S. l.], v. 28, p. e250047, 2025. DOI: https://doi.org/10.1590/1980-549720250047. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbepid/a/Fk8QYQnqjYk8sL7yL8pX5QG/. Acesso em: 10 set. 2025 

SARAIVA, M. G. G. et al. Epidemiology of infectious meningitis in the State of Amazonas, Brazil. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, [S. l.], v. 48, n. Suppl. 1, p. 79-86, 2015. DOI: https://doi.org/10.1590/0037-8682-0116-2014. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rsbmt/a/4s8v8yV6kQmJjqLz5WrY8wJ/. Acesso em: 10 out. 2025.

SILVA, A. F. T. et al. Estudo epidemiológico sobre meningite bacteriana no Brasil no período entre 2009 a 2018. Revista de Medicina, São Paulo, v. 100, n. 3, p. 220-228, maio-jun. 2021. Disponível em: https://doi.org/10.11606/issn.1679-9836.v100i3p220-228. Acesso em: 05 set 2025. 

SILVA, H. C. G.; MEZAROBBA, N. Meningite no Brasil em 2015: o panorama da atualidade. Arquivos Catarinenses de Medicina, Florianópolis, v. 47, n. 1, p. 34-46, jan.-mar. 2018. Disponível em: https://revista.acm.org.br/arquivos/article/view/227. Acesso em: 15 set. 2025. 

SILVA, L. R. et al. Geografia e saúde coletiva: análise da dinâmica epidemiológica das meningites no Brasil, entre os anos de 2010 e 2019. Revista Brasileira de Epidemiologia, [S. l.], v. 27, p. e240031, 2024. DOI: https://doi.org/10.1590/1980-549720240031.2. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbepid/a/vxLpQyqjYk8sL7yL8pX5QG/. Acesso em: 10 out. 2025.


1Acadêmico de medicina. E-mail: eduardobianchini2015@gmail.com. Artigo apresentado ao Centro Universitário Aparício Carvalho, como requisito para obtenção do título de Bacharel em Medicina, Porto Velho/RO, 2024;
2Acadêmico de medicina. E-mail: jumbelino2010@gmail.com. Artigo apresentado ao Centro Universitário Aparício Carvalho, como requisito para obtenção do título de Bacharel em Medicina, Porto Velho/RO, 2024;
3Acadêmico de medicina. E-mail: cezarcott18@gmail.com. Artigo apresentado ao Centro Universitário Aparício Carvalho, como requisito para obtenção do título de Bacharel em Medicina, Porto Velho/RO, 2024;
4Professor Orientador. Professor do curso de Medicina. E-mail: username@domínio.com