REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202602271420
Ana Carolina Cândido dos Santos; Ana Julia Maronez Vila; Athos Adriano Araújo Costa; Caio Henrique Corrêa Alves; Kisley Patrick de Souza Bernardes; Mariana Camilla Silva Lima; William Matheus Costa Didone; Tuane Carolina Ferreira Moura
Resumo
A sífilis congênita (SC) permanece como um importante problema de saúde pública no Brasil, especialmente em regiões com desigualdades socioeconômicas e limitações estruturais, como o estado do Pará. Este estudo epidemiológico, descritivo e quantitativo, analisou os casos notificados de SC no Pará entre 2020 e 2024, utilizando dados secundários do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN). Os resultados evidenciaram 4.886 casos confirmados no período, com predominância da forma recente da doença. A maioria das gestantes afetadas possuía baixa escolaridade e acompanhamento pré-natal insuficiente, fatores diretamente associados à persistência da transmissão vertical. Observou-se redução gradual dos casos após 2022, possivelmente relacionada à implementação de políticas de controle, como o Plano Estadual de Eliminação da Transmissão Vertical. Conclui-se que, embora haja avanços, persistem desafios relacionados à cobertura e à qualidade do pré-natal, ao tratamento adequado das gestantes e parceiros, e ao enfrentamento das desigualdades regionais. O fortalecimento das ações educativas e o aprimoramento da vigilância epidemiológica são essenciais para reduzir a incidência da SC no território paraense.
Palavras-chave: Sífilis congênita; Epidemiologia; Pré-natal; Saúde pública; Pará.
INTRODUÇÃO
A Sífilis Congênita é uma infecção sexualmente transmissível (IST) causada pela bactéria Treponema pallidum, transmitida verticalmente, via transplacentária, da mãe para o feto durante qualquer momento da gestação, eventualmente, no momento do parto (BRASIL, 2006). Essa patologia pode resultar em sérias consequências para a saúde do recém-nascido, como malformações congênitas, morte fetal, prematuridade, baixo peso ao nascer e sequelas neurológicas e auditivas (DOMINGUES et al., 2024). A SC possui duas fases principais: a precoce, que se caracteriza por sintomas visíveis logo após o nascimento ou até os 2 primeiros anos de vida, e a forma tardia, que pode se manifestar após os 2 anos de vida, com sequelas graves se não tratada precocemente (Motta, 2018).
A transmissão ocorre quando a gestante, infectada pela sífilis, não recebe o tratamento adequado com antibióticos, como a penicilina, especialmente se a infecção está na fase recente, com uma taxa de transmissão de 70% a 100%, graças à maior taxa de treponema circulante. A infecção pode ser evitada com o diagnóstico precoce da sífilis materna, seguido do tratamento adequado, que impede a transmissão para o bebê (BRASIL, 2020).
O estado do Pará, localizado na região Norte do Brasil, apresenta características geográficas e socioeconômicas que favorecem a alta incidência de sífilis congênita. A vastidão territorial, a desigualdade no acesso aos serviços de saúde, a dificuldade de monitoramento das gestantes e as condições precárias de infraestrutura e saneamento básico contribuem para a manutenção de altos índices de infecção entre gestantes e recém nascidos. A falta de acesso adequado ao pré-natal adequado, como à realização do teste de VDRL que pode ser realizado durante todo o período gestacional, e a baixa adesão ao tratamento adequado, especialmente nas zonas rurais e comunidades de difícil acesso, são fatores que agravam essa condição na região (ARAÚJO al., 2006).
A SC também está associada a fatores socioeconômicos, como a baixa escolaridade, a pobreza e a falta de acesso a serviços de saúde de qualidade. Essas desigualdades têm impacto direto sobre a saúde da população, com o grupo em situação de vulnerabilidade sendo mais susceptível a ISTs, em razão da dificuldade de acesso a informações, ao diagnóstico precoce e ao tratamento adequado (PINTO et al., 2018).
Diante do exposto, a pesquisa proposta visa entender as características sociodemográficas das gestantes diagnosticadas com sífilis e a ocorrência de sífilis congênita no Pará entre 2020 e 2024. Logo, A hipótese deste estudo é que as características sociodemográficas das gestantes, como baixa escolaridade, baixa renda e maior exposição a áreas rurais, estão diretamente relacionadas com a ocorrência de SC. Considera-se também que muitas dessas gestantes residem em áreas de difícil acesso, com deficiências no atendimento pré-natal e nas condições de infraestrutura básica, o que dificulta o diagnóstico e o tratamento da infecção, comprometendo a saúde materna e infantil e a sua qualidade de vida.
METODOLOGIA
Trata-se de um estudo epidemiológico, descritivo e quantitativo, voltado para os casos de Sífilis congênita adquirida no estado do Pará no período de 2020 à 2024.
O estado Pará se encontra no Norte do Brasil, com cerca 8.664.306 habitantes, este é considerado o estado mais populoso da região Norte (IBGE, 2024), além disso, esse estado possui um território com cerca de 1.245.828.829 km² (IBGE, 2024) e densidade demográfica de 6,52 hab/km² (IBGE, 2022).

Os dados dessa pesquisa vieram predominantemente do SINAN (Sistemas de Informações de Agravos de Notificação), que uma fonte de informações relacionada diretamente com o SUS (Sistema Único de Saúde), aonde por meio do site DATASUS/TABNET pode-se ter acesso a dados estatísticos sobre diferentes casos de doenças. Neste trabalho foram considerados os seguintes fatores para nortear a pesquisa: biológicos, relacionados ao pré-natal, socioeconômicos, estruturais e institucionais. Os dados coletados foram organizados e deram origem a gráficos e tabelas. Como foram utilizados dados públicos ofertados pelo próprio Datasus, não houve a necessidade de submeter o trabalho ao Comitê de Ética e Pesquisa de acordo com o que se aborda nas diretrizes da Resolução CNS nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde (CNS) no parágrafo único com Art 1.
RESULTADOS
A sífilis congênita permanece como um grave problema de saúde pública no Brasil, refletindo desafios persistentes no acesso, qualidade e continuidade do cuidado pré-natal. Caracteriza-se pela transmissão vertical da Treponema pallidum, da mãe para o feto, podendo gerar complicações severas como malformações, natimortalidade e óbitos neonatais. Apesar da existência de diretrizes nacionais para rastreamento e tratamento da sífilis em gestantes, a alta incidência da forma congênita revela lacunas tanto na cobertura quanto na efetividade das intervenções ofertadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), especialmente em regiões com desigualdades socioeconômicas marcantes, como o estado do Pará.
A análise epidemiológica dos casos notificados no Pará, entre os anos de 2020 e 2024, permite compreender a magnitude e o perfil da sífilis congênita no contexto local. As tabelas a seguir sistematizam os dados por ano de diagnóstico, faixa etária materna, escolaridade, realização do pré-natal e classificação final dos casos, possibilitando visualizar padrões relevantes e potenciais pontos críticos da rede de atenção à saúde materno-infantil. Esses resultados oferecem subsídios para refletir sobre os fatores associados à persistência da transmissão vertical da sífilis, contribuindo com evidências para formulação de políticas públicas e estratégias de intervenção mais efetivas no território paraense.
TABELA 1. Casos confirmados por classificação final segundo ano de diagnóstico – Pará, 2020–2024


TABELA 2. Casos confirmados por sífilis materna segundo faixa etária da mãe – Pará, 2020–2024


TABELA 3. Casos confirmados por realizou pré-natal segundo escolaridade da mãe – Pará, 2020–2024

TABELA 4. Casos confirmados por sífilis materna segundo realizou pré-natal – Pará, 2020–2024

TABELA 5. Casos confirmados por sífilis materna segundo classificação final – Pará, 2020–2024

DISCUSSÃO
A sífilis congênita (SC) é uma doença infecciosa de abrangência mundial, causada pela bactéria Treponema pallidum e transmitida da mãe para o bebê durante a gestação. Possui potencial para determinar graves complicações sistêmicas em recém-nascidos, seja na fase precoce com acometimento ósseo, neurológico, hematológico e hepatoesplênico
ou na fase tardia, caracterizada por estigmas decorrentes de remodelação e deformidades ósseas (MOTTA, 2018; BRASIL, 2006). Além de malformações, pode levar a parto prematuro, morte fetal, óbito neonatal e sequelas neurológicas ou auditivas (DOMINGUES et al., 2024). Apesar de ser uma condição amplamente tratável e prevenível a um custo acessível, principalmente com o uso de penicilina seguindo protocolos já consolidados (BRASIL, 2020), no Brasil sua prevalência entre os nascidos vivos aumentou três vezes na última década (MOTTA, 2018).
No estado do Pará, assim como em outras regiões em desenvolvimento, a SC se mantém como um grave desafio de saúde pública, marcado por elevada incidência, subnotificação e falhas no acompanhamento pré-natal (ARAÚJO et al., 2006). Entre 1990 e 1996, foram notificados oficialmente apenas 151 casos de SC no estado; entretanto, estudo realizado na Fundação Santa Casa do Pará revelou incidência de 9,1% entre os recém-nascidos atendidos, o que, projetado para o total de nascimentos no período, indicaria cerca de 3.630 casos, evidenciando expressivo problema de subnotificação (ARAÚJO et al., 2006).
Dados mais recentes mostram a continuidade do problema. Entre 2020 e 2024, foram confirmados 4.886 casos de SC no Pará, sendo 4.734 na forma recente, que se manifesta nos dois primeiros anos de vida e é amplamente evitável por meio de diagnóstico e tratamento materno oportunos (AUTORES, 2025; MOTTA, 2018; BRASIL, 2020). Uma parcela significativa das infecções maternas foi identificada durante o pré-natal ou no momento do parto/curetagem; porém, ainda ocorreram 594 casos de gestantes sem qualquer acompanhamento pré-natal e 686 diagnosticadas apenas após o parto (AUTORES, 2025), reforçando a persistência de barreiras como distância geográfica, dificuldades de transporte, falta de informação e desigualdade na oferta de serviços (ARAÚJO et al., 2006).
A baixa qualidade da assistência pré-natal é um dos principais fatores para a manutenção dos altos índices da doença. Embora 78,3% das mães diagnosticadas com sífilis no estudo de Araújo et al. (2006) tenham tido acesso ao pré-natal, parte significativa realizou acompanhamento incompleto ou não repetiu o teste VDRL conforme as recomendações do Ministério da Saúde, que orienta sua realização no início da gestação e novamente no terceiro trimestre. Apenas 53,8% receberam tratamento adequado (ARAÚJO et al., 2006). Essa fragilidade no rastreamento e tratamento reflete-se também nos dados recentes, que mostram que as diretrizes nacionais de rastreamento não têm alcançado de forma plena as regiões mais remotas do Pará (BRASIL, 2020).
Os determinantes sociais da saúde desempenham papel relevante na persistência da SC. Uma proporção expressiva dos casos ocorreu em gestantes com ensino fundamental ou médio incompletos (ARAÚJO et al., 2006; AUTORES, 2025). Esse nível de escolaridade está associado ao menor acesso à informação, à dificuldade de compreensão de orientações médicas e, muitas vezes, à inserção em contextos de vulnerabilidade socioeconômica (PINTO et al., 2018). Ademais, o início precoce da vida sexual e a dificuldade na negociação do uso de preservativos aumentam a suscetibilidade às infecções sexualmente transmissíveis (PINTO et al., 2018).
O perfil conjugal também merece atenção. No estudo de Araújo et al. (2006), 78,3% das mães eram casadas e 87% relataram ter tido apenas um parceiro sexual durante a gravidez, sugerindo que a infecção muitas vezes é adquirida por meio de parceiros promíscuos. Além disso, a coinfecção com HIV, o uso de drogas, a automedicação e o uso inadequado de antibióticos — em doses insuficientes ou prescrições incorretas — podem modificar o curso clínico da sífilis e resultar em tratamento ineficaz (ARAÚJO et al., 2006).
O contexto geográfico e estrutural do Pará agrava o cenário. A vasta extensão territorial, a presença de comunidades isoladas e a desigualdade na distribuição dos serviços de saúde dificultam a detecção e o tratamento oportunos (BRASIL, 2020). Assim, a persistência da SC não se deve apenas a falhas pontuais no atendimento, mas a um conjunto de fatores estruturais que exigem respostas coordenadas.
Para mitigar o problema, é fundamental ampliar o acesso e a qualidade do pré natal, garantindo a realização e repetição do teste VDRL nos momentos adequados, conforme os protocolos nacionais (MOTTA, 2018; BRASIL, 2020). Também é necessário intensificar as ações de educação em saúde, assegurar o fornecimento contínuo de penicilina e fortalecer a vigilância epidemiológica. Mais do que uma medida técnica, trata-se de uma ação social para proteger mães e crianças de uma condição totalmente prevenível, mas que persiste como reflexo de desigualdade e ineficiência no cuidado à saúde (PINTO et al., 2018; AUTORES, 2025).
CONCLUSÃO
A análise dos dados epidemiológicos da Sífilis Congênita no estado do Pará entre os anos de 2020 e 2024 revelam que o menor número de casos registrados de sífilis congênita foi no ano de 2024, vale ressaltar que o número de casos dentro desse espaço de tempo sofreu uma grande alteração, apresentando valores baixos em 2020 que aumentaram gradativamente até 2022, após isso o número de casos começou a diminuir.
Esta realidade é apenas um reflexo de desafios persistentes na atenção de pré natal: falta de infraestrutura e pouca adesão populacional ao pré-natal precocemente. As disparidades socioeconômicas é um fator preponderante que impacta consideravelmente no número de casos de Sífilis Congênita, visto que, os casos dessa doença estão mais presentes em pessoas que se encontram em uma situação econômica mais fragilizada, que não possuem acesso a um serviço de saúde de boa qualidade e muitas vezes demoram demais para iniciar o pré-natal.
Ademais, estratégias governamentais como o Plano Estadual de Controle e Eliminação da Transmissão Vertical, adotado em 2022, contribuem de forma positiva para a queda no número de casos nos últimos anos. Ainda assim, é de extrema importância que a haja a intensificação de ações como: cobertura total e qualificada do pré-natal, tratamento simultâneo de parceiros sexuais, monitoramento sistemático da criança exposta ou com sífilis, educação em saúde e entre outros fatores, para que se possa diminuir ainda mais a incidência dessa doença no estado do Pará.
Portanto, por mais que o Pará apresentou uma melhora no número de casos nos últimos anos, a manutenção e expansão de estratégias integradas é imprescindível para tentar diminuir a transmissão vertical no território.
REFERÊNCIAS
ARAÚJO, Eliete da Cunha; COSTA, Kelly de Souza Gama; SILVA, Rafaela de Souza e; AZEVEDO, Valéria Nascimento da Gama; LIMA, Fábio André Souto. Importância do pré-natal na prevenção da Sífilis Congênita. Revista Paraense de Medicina, Belém, v. 20, n. 1, p. 39-44, mar. 2006.
BRASIL. Open-access Brazilian Protocol for Sexually Transmitted Infections, 2020: congenital syphilis and child exposed to syphilis. Revista de Saúde Pública, [S.l.], v. 54, n. 1, p. 1-8, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1590/0037-8682-597-2020. Acesso em: 04 jul. 2025.
BRASIL. Ministério da Saúde. Departamento de Informática do SUS – DATASUS. Tabnet: Sistema de Informações de Agravos de Notificação – SINAN. Brasília: Ministério da Saúde, [2025]. Disponível em: http://tabnet.datasus.gov.br/. Acesso em: 07 ago. 2025.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA – IBGE. Pará: Cidades e Estados. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/cidades-e-estados/pa/. Acesso em: 5 jul. 2025.
PINTO, V. M. et al. Factors associated with sexually transmitted infections: a population based survey in the city of São Paulo, Brazil. Ciencia & saude coletiva, v. 23, n. 7, p. 2423–2432, 2018.
Motta, I. A., Delfino, I. R. S., dos Santos, L. V., Morita, M. O., Gomes, R. G. D., Martins, T. P. S., Carellos, E. V. M., & Romanelli, R. M. C. (2018). Sífilis congênita: por que sua prevalência continua tão alta? Revista de Medicina de Minas Gerais, 28(Supl. 6), e S280610. DOI: https://dx.doi.org/10.5935/2238- 3182.20180102
Brasil. (2006). Diretrizes para controle da sífilis congênita: manual de bolso/Ministério da Saúde, Programa Nacional de DST/Aids. https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_sifilis_bolso.pdf.
DOMINGUES, G. P. C. et al. Sífilis congênita – uma revisão abrangente sobre a epidemiologia, fisiopatologia, manifestações clínicas, diagnóstico e tratamento. Brazilian Journal of Health Review, v. 7, n. 2, p. e68063, 2024.
