PERFIL CLÍNICO E EPIDEMIOLÓGICA DA RUBÉOLA CONGÊNITA NA REGIÃO NORDESTE DO BRASIL, 2015 A 2024

CLINICAL AND EPIDEMIOLOGICAL PROFILE OF CONGENITAL RUBELLA IN NORTHEAST BRAZIL, 2015–2024

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202602271402


Bruna Caroline da Silva Boueres1
José Francisco das Chagas Magalhães Avelar2


Resumo

A síndrome da rubéola congênita (SRC) permanece como importante problema de saúde pública, especialmente em contextos de falhas na cobertura vacinal e na vigilância epidemiológica. Nesta perspectiva, o objetivo geral desta pesquisa foi analisar o perfil clínico e epidemiológico da SRC na região Nordeste entre 2015 e 2024. Tratou-se de uma pesquisa epidemiológica, documental, quantitativa, de natureza descritiva e retrospectiva, com delineamento censitário, que abrangeu todos os casos de rubéola congênita notificados na região Nordeste no período de 1º de janeiro de 2015 a 31 de dezembro de 2024. Os dados foram obtidos por meio do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) e das bases públicas do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS). Foram notificados 152 casos de rubéola congênita na região Nordeste do Brasil no período analisado, com média anual de 15,2 casos. Observou-se tendência crescente ao longo dos anos, com pico de notificações em 2022 e 2023. O Rio Grande do Norte concentra metade dos casos, seguido pelos estados do Ceará e da Bahia. A cura foi o desfecho mais frequente (55,9%), embora 40,1% dos registros apresentassem evolução ignorada. O critério laboratorial foi predominante (62,5%), e a maioria dos casos foi classificada como descartada (57,2%). Houve predominância do sexo masculino (59,2%) entre os casos notificados e confirmados, sem associação clara com piores desfechos clínicos. Conclui-se que os achados evidenciam a persistência da SRC na região Nordeste, destacando a necessidade de fortalecimento das ações de vigilância epidemiológica, melhoria da qualidade dos registros e ampliação da cobertura vacinal, especialmente entre mulheres em idade fértil, a fim de prevenir novos casos e reduzir a carga da doença.

Palavras-chave: Rubéola congênita. Epidemiologia. Morbimortalidade. Desfecho clínico.

INTRODUÇÃO

As infecções transmitidas da mãe para o filho durante a gestação, conhecidas como infecções congênitas, ocorrem principalmente por via transplacentária ou intra uterina e podem ocasionar sérias complicações ao nascimento. Em outros casos, a transmissão acontece durante o parto, pelo contato com o canal vaginal infectado, ou durante a amamentação, sendo classificadas como infecções perinatais. Estima-se que até 10% dos recém-nascidos sejam afetados por essas condições, cujos principais agentes etiológicos incluem toxoplasmose, rubéola, citomegalovírus, hepatites virais, HIV e sífilis (Teixeira et al., 2024).

Entre essas infecções, a Síndrome da Rubéola Congênita (SRC) destaca-se como uma das formas mais graves, resultante da infecção materna pelo vírus da rubéola, especialmente quando ocorre durante o primeiro trimestre gestacional. A transmissão vertical nesse período crítico compromete o desenvolvimento fetal, provocando malformações em múltiplos sistemas orgânicos, que podem acarretar sequelas permanentes e impactar significativamente a qualidade de vida da criança (Santos et al., 2024).

As manifestações clínicas da SRC são variadas e estão diretamente relacionadas ao momento da infecção durante a gestação, sendo o primeiro trimestre o período de maior risco. Entre os sinais mais comuns observados ao nascimento, destacam-se microcefalia, catarata, surdez neurossensorial, defeitos cardíacos congênitos, hepatoesplenomegalia, trombocitopenia e atraso no desenvolvimento neuropsicomotor. Além disso, podem surgir manifestações tardias, como diabetes mellitus e encefalite progressiva (MSD Manuals, 2024).

As complicações neurológicas evidenciam-se pela gravidade e diversidade. O vírus da rubéola possui afinidade pelo tecido nervoso, podendo causar lesões diretas por meio da replicação viral nas células neurais, resultando em necrose, degeneração e calcificações. Além disso, lesões indiretas podem ocorrer em função da resposta imune do hospedeiro, que provoca inflamação, edema e apoptose. Essas alterações podem ser detectadas ao nascimento ou manifestar-se tardiamente, conforme a localização e extensão das lesões no sistema nervoso central e periférico (Silva et al., 2023).

O diagnóstico laboratorial da SRC é realizado por meio da detecção de anticorpos IgM específicos ou pela persistência de anticorpos IgG. No Brasil, o Instituto de Saúde Pública (ISP) utiliza o método ELISA para confirmar a infecção, observando tanto a presença de IgM quanto o aumento significativo de IgG em amostras pareadas. A confiabilidade dos resultados depende da padronização e validação dos testes nos laboratórios de referência (Ricardo et al., 2024).

No cenário nacional, entre 2013 e 2024, o Brasil manteve a eliminação da SRC, certificada pela OPAS em 2024, com a transmissão endêmica interrompida desde 2009. No Maranhão, a ausência de casos confirmados nesse período reflete a efetividade das ações do Sistema Único de Saúde (SUS), incluindo campanhas de vacinação, como a de 2008, que atingiu 96,7% do público-alvo (Brasil, 2025).

A identificação precoce da SRC, associada a intervenções adequadas, é fundamental para reduzir as complicações e melhorar o prognóstico dos pacientes. Para isso, a manutenção da vigilância epidemiológica é essencial, permitindo monitorar a eficácia da vacinação, identificar novas variantes virais e compreender as variações clínicas da síndrome. O manejo dos casos requer uma abordagem multidisciplinar, envolvendo pediatras, cardiologistas, oftalmologistas, otorrinolaringologistas e outros especialistas, a fim de garantir um cuidado integral e coordenado (Santos et al., 2024).

Dada a relevância da SRC como problema persistente de saúde pública, especialmente em contextos marcados por fragilidades na cobertura vacinal e no acompanhamento adequado da infecção durante a gestação, torna-se imprescindível investigar o perfil clínico e epidemiológico dessa condição na região Nordeste. Compreender a ocorrência e as manifestações clínicas dos casos notificados entre 2013 e 2024 é fundamental para avaliar a efetividade das estratégias de vigilância epidemiológica e das ações de imunização adotadas no estado. Essa análise possibilita identificar lacunas nos processos de prevenção, diagnóstico e atenção à saúde, subsidiando a formulação de políticas públicas mais eficazes, voltadas à prevenção da rubéola congênita, ao diagnóstico precoce e à assistência qualificada às gestantes e aos recém-nascidos expostos ao vírus.

Assim, o objetivo geral desta pesquisa foi analisar o perfil clínico e epidemiológico da SRC na região Nordeste entre 2015 e 2024, buscando descrever a evolução temporal dos casos de síndrome da rubéola congênita na região Nordeste do Brasil entre 2015 e 2024, analisar a distribuição espacial segundo o estado de ocorrência, caracterizar os casos quanto à classificação final, aos critérios de confirmação diagnóstica e à evolução clínica, bem como avaliar a distribuição dos casos segundo o sexo e sua associação com a classificação final e a evolução dos desfechos.

MATERIAIS E MÉTODOS

Tratou-se de uma pesquisa epidemiológica, documental, quantitativa, de natureza descritiva e retrospectiva, com delineamento censitário que abrangeu todos os casos de rubéola congênita notificados na região Nordeste, no período de 1º de janeiro de 2015 a 31 de dezembro de 2024. Os dados foram obtidos por meio do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) e das bases públicas do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS).

Foram incluídos todos os casos confirmados de rubéola congênita em recém-nascidos residentes na região Nordeste, independentemente da faixa etária, durante o período estabelecido. Excluíram-se os casos notificados na região, porém referentes a pacientes com residência em outras unidades federativas.

A coleta dos dados foi realizada por meio da consulta às bases públicas do SINAN e DATASUS, utilizando a ferramenta TabNet para extração das informações disponíveis. As variáveis analisadas compreenderam ano de notificação, sexo, faixa etária, manifestações clínicas, evolução do quadro clínico (alta, sequelas ou óbito), localidade de residência e cobertura vacinal materna.

Os dados foram organizados e tabulados em planilhas eletrônicas, utilizando o programa Microsoft Excel 2020. A análise foi conduzida por meio de estatística descritiva, apresentando números absolutos, frequências relativas e percentuais, além da elaboração de tabelas e gráficos para facilitar a visualização dos resultados. Também foi avaliada a distribuição temporal e geográfica dos casos, bem como a tendência dos desfechos clínicos da rubéola congênita ao longo do período estudado.

RESULTADOS

No período de janeiro de 2015 a dezembro de 2024, foram notificados 152 casos de rubéola congênita na região Nordeste do Brasil, correspondendo a uma média anual de 15,2 casos. O Gráfico 1 apresenta a distribuição dos casos segundo o ano de notificação, permitindo a visualização da variação temporal ao longo do período analisado.

Gráfico 1. Evolução anual dos casos de rubéola congênita na região Nordeste do Brasil, 2015–2024.

Fonte: DATASUS/SINAN (2025)

Observa-se variação ao longo do período, com valores mais baixos nos anos iniciais, seguida por um aumento progressivo a partir de 2018. Destaca-se um pico de notificações em 2022 e 2023, seguido de redução em 2024. A linha de tendência linear evidencia um aumento global no número de casos ao longo da série histórica, indicando uma retomada da ocorrência da rubéola congênita na região durante o período avaliado.

O Gráfico 2 apresenta a distribuição dos casos de rubéola congênita segundo o estado de ocorrência, em ordem crescente, no período de 2015 a 2024.

Gráfico 2. Distribuição dos casos de rubéola congênita por estado de ocorrência na região Nordeste do Brasil, 2015–2024.

Fonte: DATASUS/SINAN (2025)

Observa-se concentração expressiva dos casos em poucos estados, com destaque para o Rio Grande do Norte, responsável por 50,0% (n = 76) do total de notificações. Em seguida, Ceará (17,76%; n = 27) e Bahia (16,45%; n = 25) também apresentam números elevados. Os demais estados Pernambuco, Alagoas, Piauí, Paraíba e Maranhão, contribuíram com proporções menores, individualmente inferiores a 10%, evidenciando heterogeneidade na distribuição espacial dos casos na região Nordeste.

A Tabela 1 apresenta a distribuição dos casos de rubéola congênita notificados na região Nordeste do Brasil entre 2015 e 2024, segundo o estado de ocorrência, a evolução clínica, os critérios de confirmação diagnóstica e a classificação final dos casos.

Tabela 1. Distribuição dos casos de rubéola congênita segundo evolução clínica, critérios de confirmação e classificação final por estado de ocorrência na região Nordeste do Brasil, 2015–2024.

Fonte: DATASUS/SINAN (2025)

Verifica-se que a cura foi o desfecho mais frequente, correspondendo a 55,9% (n = 85) dos registros, enquanto os óbitos ou outras evoluções representaram 3,9% (n = 6) dos casos. Ressalta-se ainda a elevada proporção de registros com evolução ignorada ou em branco (40,1%; n = 61), indicando limitações no preenchimento das notificações.

Quanto aos critérios de confirmação, predominou o laboratorial, responsável por 62,5% (n = 95) dos casos, seguido pelo critério ignorado/em branco (32,9%; n = 50), ao passo que a confirmação clínica foi pouco frequente (4,6%; n = 7). Em relação à classificação final, a maioria dos registros foi descartada (57,2%; n = 87), enquanto os casos confirmados de rubéola congênita corresponderam a 7,9% (n = 12), além de 7,2% (n = 11) classificados como confirmados sem especificação e 6,6% (n = 10) inconclusivos.

Entre os estados, o Rio Grande do Norte concentrou os maiores quantitativos em praticamente todas as categorias analisadas, destacando-se tanto no número de casos com cura quanto na confirmação laboratorial e nos casos descartados. Esses achados evidenciam heterogeneidade na distribuição dos desfechos e na qualidade das informações notificadas entre os estados, reforçando a importância do aprimoramento da vigilância epidemiológica e do preenchimento adequado das fichas de notificação.

A Tabela 2 apresenta a distribuição dos casos de rubéola congênita segundo a classificação final e o sexo dos indivíduos notificados no Nordeste do Brasil, no período de 2015 a 2024.

Tabela 2. Associação entre a classificação final dos casos de rubéola congênita e o sexo na região Nordeste do Brasil, 2015–2024.

Fonte: DATASUS/SINAN (2025)

Observa-se predominância do sexo masculino, que correspondeu a 59,2% (n = 90) do total de casos, enquanto o sexo feminino representou 40,1% (n = 61). Apenas 0,7% (n = 1) dos registros apresentaram sexo ignorado.

Em relação à classificação final, a maioria dos casos foi descartada (57,2%; n = 87), sendo essa categoria mais frequente tanto no sexo masculino (34,9%; n = 53) quanto no feminino (22,4%; n = 34). Os casos confirmados de infecção congênita corresponderam a 7,9% (n = 12) do total, com maior proporção no sexo masculino (5,3%; n = 8) em comparação ao feminino (1,9%; n = 3). Situação semelhante foi observada para os casos confirmados, também mais frequentes entre indivíduos do sexo masculino. Os casos inconclusivos representaram 6,6% (n = 10) das notificações, distribuídos de forma semelhante entre os sexos. 

A Tabela 3 apresenta a associação entre o sexo e a evolução dos casos de rubéola congênita notificados na região Nordeste do Brasil no período de 2015 a 2024.

Tabela 3. Associação entre o sexo e a evolução dos casos de rubéola congênita na região Nordeste do Brasil, 2015–2024.

Fonte: DATASUS/SINAN (2025)

Nota-se que a cura foi o desfecho mais frequente, correspondendo a 56,0% (n = 85) do total de casos, seguida pela categoria ignorado/em branco (40,2%; n = 61). Os óbitos por outras causas representaram 3,9% (n = 6) das notificações. Em relação ao sexo, houve predominância de casos no sexo masculino (59,2%; n = 90), em comparação ao sexo feminino (39,5%; n = 60), com pequena proporção de registros com sexo ignorado (1,3%; n = 2). 

Entre os casos com evolução para cura, a maior parte ocorreu em indivíduos do sexo masculino (32,9%; n = 50), seguida pelo sexo feminino (22,4%; n = 34). De modo semelhante, os registros classificados como ignorado/em branco foram mais frequentes entre os indivíduos do sexo masculino (23,7%; n = 36). Os óbitos por outras causas foram pouco frequentes e distribuídos principalmente entre indivíduos do sexo masculino (2,6%; n = 4), com menor ocorrência no sexo feminino (1,3%; n = 2). 

DISCUSSÃO

A presente pesquisa analisou o perfil clínico e epidemiológico da Síndrome da Rubéola Congênita (SRC) na região Nordeste do Brasil no período de 2015 a 2024, evidenciando padrões temporais, espaciais e clínicos relevantes para a compreensão da dinâmica recente da doença na região.

A análise temporal demonstrou variação no número de casos ao longo do período estudado, com valores reduzidos nos anos iniciais e aumento progressivo a partir de 2018, culminando em picos de notificações em 2022 e 2023, seguidos de redução em 2024. A tendência crescente observada contrasta com o cenário esperado após a certificação da eliminação da rubéola e da SRC no Brasil, alcançada em 2015, sugerindo possíveis falhas na vigilância epidemiológica, redução das coberturas vacinais ou reintrodução do vírus em populações suscetíveis (Brasil, 2025; OPAS, 2024). 

Estudos nacionais demonstram que a cobertura vacinal da vacina tríplice viral no Brasil vem declinando consistentemente desde meados da década de 2010, com taxas frequentemente abaixo dos 95 % recomendados e altos índices de abandono em muitas regiões, especialmente no Nordeste e Norte, fatores que ampliam o risco de reintrodução de doenças como rubéola e sarampo (Moura; Neto; Souza-Santos, 2024; Godin et al., 2023; Moura et al., 2023). Além disso, análises recentes apontam para uma tendência global de reemergência de doenças imunopreveníveis em contextos de baixa cobertura vacinal e hesitação à vacinação pós-pandemia de COVID-19 (Moura; Neto; Souza-Santos, 2024; Godin et al., 2023; Sato et al., 2023). 

No estudo conduzido por Moura, Neto e Souza-Santos (2024), que analisou a cobertura vacinal e as taxas de abandono da vacinação contra sarampo, caxumba e rubéola no Brasil, observou-se que, no período de 2014 a 2021, apenas 38,3% e 12,9% dos municípios alcançaram cobertura vacinal igual ou superior a 95,0% para a primeira e a segunda doses da vacina tríplice viral, respectivamente. Ademais, 53,6% dos municípios apresentaram taxa de abandono classificada como alta (entre 20,0% e 49,9%), enquanto 37,2% exibiram taxa de abandono muito alta. A região Nordeste concentrou os principais agrupamentos de baixa cobertura tanto para a primeira dose, entre 2018 e 2021, quanto para a segunda dose, entre 2020 e 2021, apresentando maiores riscos relativos em comparação com outros agrupamentos do país. Ressalta-se ainda que o risco relativo para altas taxas de abandono mostrou-se elevado em todas as regiões brasileiras, variando de 1,57 a 26,23.

No que se refere à distribuição espacial, observou-se concentração expressiva dos casos em poucos estados, especialmente no Rio Grande do Norte, seguido por Ceará e Bahia. Essa heterogeneidade pode refletir tanto diferenças reais na ocorrência da SRC quanto desigualdades na capacidade de detecção, investigação e notificação dos casos entre os estados. Estados com sistemas de vigilância mais estruturados tendem a identificar maior número de casos, enquanto sistemas de vigilância incompletos ou com falhas operacionais estão associados à subnotificação e a indicadores de qualidade aquém das metas estabelecidas para doenças imunopreveníveis no Brasil (Brasil, 2025; Brasil, 2022). 

Além disso, aglomerados espaciais de baixa cobertura vacinal podem favorecer a circulação do vírus em determinadas áreas, refletindo desigualdades sociais e variações regionais na imunização, o que contribui para a distribuição desigual da doença na região Nordeste (Moura; Neto; Souza-Santos, 2024).

Em relação aos desfechos clínicos, a cura foi o desfecho mais frequentemente registrado, o que está em consonância com achados de outros estudos que indicam sobrevida elevada entre crianças com SRC acompanhadas adequadamente, mesmo quando frequentemente desenvolvem sequelas permanentes e atrasos no desenvolvimento ao longo dos primeiros anos de vida, demonstrando a persistência da vida além do período neonatal apesar das complicações neurológicas e sensoriais associadas à síndrome (De Melo et al., 2025; Gong et al., 2024). 

Contudo, destaca-se a elevada proporção de registros com evolução ignorada ou em branco, o que compromete a avaliação precisa do impacto clínico da doença e evidencia fragilidades no preenchimento das fichas de notificação. A incompletude de dados é um problema recorrente nos sistemas de informação em saúde no Brasil e já foi amplamente descrita na literatura como um fator limitante para análises epidemiológicas robustas, refletindo lacunas na completude e consistência dos registros no SINAN (Almeida et al., 2025). 

Quanto aos critérios de confirmação diagnóstica, predominou o critério laboratorial, em consonância com as recomendações do Ministério da Saúde para confirmação de casos suspeitos de SRC (Brasil, 2014). Segundo as recomendações do Ministério da Saúde no Guia de Vigilância em Saúde, casos suspeitos de SRC devem ser confirmados preferencialmente por critério laboratorial, incluindo evidência sorológica da infecção congênita pelo vírus da rubéola, em recém-nascidos ou crianças de até 12 meses com sinais clínicos compatíveis (Brasil, 2014).

Entretanto, é importante destacar que a elevada proporção de registros com critério ignorado ou em branco aponta possíveis falhas no processo de investigação e encerramento dos casos, além de dificuldades operacionais na realização ou registro dos exames laboratoriais, especialmente em áreas com menor infraestrutura diagnóstica.

A análise da classificação final revelou que a maioria dos casos foi descartada, enquanto os casos confirmados de SRC corresponderam a uma pequena proporção do total, o que pode refletir tanto a sensibilidade do sistema de vigilância quanto a dificuldade no diagnóstico diferencial da SRC, cujas manifestações clínicas podem se sobrepor a outras condições congênitas, como infecções por citomegalovírus, toxoplasmose, sífilis e herpes congênitos, entre outras, exigindo investigação laboratorial e criteriosa avaliação clínica e epidemiológica para definição adequada do caso (Freita et al., 2024).

Observou-se ainda predominância do sexo masculino entre os casos notificados, incluindo entre os casos confirmados e aqueles com evolução para cura. Embora a rubéola congênita não apresente predileção biológica conhecida por sexo, achados semelhantes já foram descritos em outros estudos e podem estar relacionados a vieses de notificação ou flutuações aleatórias em séries históricas com número reduzido de casos (Purnami et al., 2024; Zhang et al., 2022). A ausência de associação clara entre sexo e evolução desfavorável reforça a hipótese de que o sexo não constitui fator determinante para o prognóstico da doença.

De modo geral, os resultados evidenciam a persistência da SRC na região Nordeste do Brasil, mesmo após esforços nacionais de eliminação, destacando a necessidade de fortalecimento das ações de vigilância epidemiológica, ampliação da cobertura vacinal e melhoria da qualidade dos registros nos sistemas de informação. Esses achados reforçam o papel da vigilância contínua como estratégia essencial para a prevenção da rubéola congênita e para a manutenção do status de eliminação da doença no país.

CONCLUSÃO

O estudo evidenciou que, entre 2015 e 2024, a Síndrome da Rubéola Congênita (SRC) manteve ocorrência persistente na região Nordeste do Brasil, com tendência temporal de aumento e distribuição espacial heterogênea, concentrada principalmente em alguns estados. Observou-se predominância de notificações no sexo masculino, bem como elevada proporção de casos com desfechos favoráveis, embora com expressiva incompletude das informações clínicas e diagnósticas.

A predominância do critério laboratorial como forma de confirmação reforça a adesão às recomendações nacionais, porém a elevada frequência de registros ignorados ou em branco, tanto na evolução clínica quanto nos critérios de confirmação, evidencia fragilidades no processo de vigilância e no encerramento dos casos. Esses achados limitam a avaliação precisa da magnitude e do impacto da SRC na região.

Diante desse cenário, conclui-se que o fortalecimento da vigilância epidemiológica, a qualificação do preenchimento das fichas de notificação e a ampliação das estratégias de imunização, especialmente em populações vulneráveis, são fundamentais para a prevenção da rubéola congênita. O monitoramento contínuo da doença permanece essencial para evitar a reemergência da SRC e para subsidiar políticas públicas voltadas à proteção materno-infantil no Brasil.

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1Discente do Curso de Residência Médica em Pediatria do Hospital Universitário da Universidade Federal do Maranhão, São Luís-MA, e-mail: Brunacrs03@gmail.com
2Docente do Curso de Residência Médica em Pediatria do Hospital Universitário da Universidade Federal do Maranhão, São Luís-MA. e-mail: avellar.avelar@yahoo.com.br