PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DA MORTALIDADE NEONATAL POR SEPTICEMIA, EM PORTO VELHO/RO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202510261143


Isabelle Rodrigues Ubiali
Karoline Moreira Leite
Letícia Evelyn Azevedo da Silva
Orientador: Ma. Régia de Lourdes Ferreira Pachêco Martins


RESUMO

Introdução: A mortalidade infantil é um importante indicador das condições sociais, econômicas e da assistência à saúde em uma população. No Brasil, observa-se que a taxa de mortalidade neonatal, que compreende o período de 0 a 27 dias de vida, é maior que a taxa pós-neonatal (28 dias a 1 ano). Em 2021, aproximadamente 70,5% dos óbitos infantis no Brasil equivalem a neonatos, sendo que a região Norte expressou uma taxa semelhante à nacional, com 67% dos óbitos infantis ocorrendo em recém-nascidos. A septicemia é uma das principais causas de morbimortalidade em recém-nascidos no mundo. No plano mundial, há cerca de 22 casos de sepse neonatal a cada mil nascidos vivos. A maioria das crianças evoluem para óbito nas primeiras 48 a 72 horas do tratamento, geralmente associado ao choque séptico, em razão da vulnerabilidade dessa população. Objetivos: Analisar o perfil epidemiológico da mortalidade neonatal por septicemia, no município de Porto Velho, de 2019 a 2023. Descrever a taxa de mortalidade neonatal por septicemia; descrever as principais características maternas e dos recém-nascidos, dos óbitos neonatais e analisar os principais fatores associados aos óbitos neonatais por septicemia. Metodologia: É um estudo epidemiológico observacional descritivo e retrospectivo, foram utilizados os dados das declarações de óbitos neonatais que estão declarados no Sistema de Informação sobre mortalidade e nas fichas de investigações dos óbitos. Resultados: O estudo da mortalidade neonatal por septicemia traça um perfil epidemiológico desses casos em Porto Velho e amplia as pesquisas publicadas sobre o tema, agregando informações vigentes às considerações já existentes.

Palavras-chave: Sepse neonatal; Mortalidade neonatal; Perfil epidemiológico.

1 INTRODUÇÃO

O coeficiente de mortalidade infantil (número de óbitos de menores de um ano de idade por mil nascidos vivos) é um importante indicador das condições sociais, econômicas e da assistência à saúde em uma população, compreendendo a soma dos óbitos ocorridos durante o primeiro ano de vida (DATASUS, 2023). No Brasil, observa-se que a taxa de mortalidade neonatal, que compreende o período de 0 a 27 dias de vida, é significativamente maior que a taxa pós-neonatal (28 dias a 1 ano). No ano de 2021, aproximadamente 70,5% dos óbitos infantis no Brasil corresponderam a neonatos, sendo que a região Norte apresentou uma taxa semelhante à nacional, com 67% dos óbitos infantis ocorrendo em recém-nascidos (FLEISHMANN-STRUZEK et al., 2018).

A sepse representa uma das principais causas de morbimortalidade em recém nascidos no mundo (MEDEIROS et al., 2019). Em nível global, estima-se 22 casos de sepse neonatal a cada mil nascidos vivos (WEISS et al., 2020). Tal condição pode ser definida como uma disfunção sistêmica exacerbada no organismo, secundária a uma infecção, que, dependendo das complicações, manejo e desfecho do neonato, pode levar a choque e óbito.

A maioria das crianças evoluem para óbito nas primeiras 48 a 72 horas do tratamento, geralmente associado ao choque, por se tratar de uma população mais vulnerável, a redução da mortalidade torna-se difícil e lenta (DUARTE, 2007; WEISS et al., 2020). O sistema imunológico imaturo e a dificuldade do diagnóstico e manejo clínico de casos infecciosos são fatores que dificultam o tratamento bem-sucedido em neonatos (VIEIRA, 2004). Além de causar prejuízos à saúde do paciente e risco de morte, é onerosa ao sistema de saúde, pela demanda de terapia medicamentosa, tempo de internação e procedimentos de alta complexidade (ALVES et al., 2018).

Portanto, a identificação precoce e tratamento adequado são essenciais para aperfeiçoar os resultados infantis por sepse. Dessa maneira, é importante conhecer os fatores associados à sepse neonatal dentro da realidade brasileira, para que seja possível adotar medidas específicas para essa faixa etária, relevantes para o direcionamento das ações de cuidado e redução da mortalidade  nessa  faixa  de  idade  (GOULART  et  al.,  2006).  Apesar  do decréscimo nas últimas décadas, os óbitos de neonatos mostram-se ainda elevados no Brasil, com diferenças evidentes a nível regional, dessa forma, neste estudo, o objetivo é analisar o perfil epidemiológico de óbitos por septicemia em recém-nascidos em Porto Velho.

2 REFERENCIAL TEÓRICO

2.1 MORTALIDADE INFANTIL

De acordo com a Secretaria de Vigilância em Saúde em 2019, no Brasil, cerca de 13,3 óbitos ocorrem por cada 1000 nascidos vivos (BRASIL, 2019). A mortalidade infantil, calculada pelo número de óbitos de menores de um ano pela quantidade de nascidos vivos numa mesma população, é um importante indicador epidemiológico de saúde, pois, através da análise das taxas de mortalidade é possível inferir as condições de saúde e qualidade de vida de determinada comunidade. Além disso, a partir da investigação da mortalidade infantil, é possível traçar metas e aplicar medidas que previnam os altos índices no país. A mortalidade infantil pode ser classificada em neonatal, quando ocorre até o vigésimo oitavo dia de vida, e em pós-neonatal a partir de vinte e nove dias até um ano de idade. Os óbitos neonatais podem ainda ser divididos em precoces, de 0 a 6 dias de vida e em tardios, de 7 a 27 dias do nascimento (FREITAS, 2020; DUARTE, 2007).

2.2 SEPSE NEONATAL

2.2.1 Conceitos

A sepse é uma síndrome clínica causada por uma resposta desregulada do próprio organismo à infecção (EVANS et al, 2021).

2.2.2 Sepse neonatal precoce

Os sintomas dessa condição acontecem nas primeiras 48 a 72 horas de vida, e estão relacionados a fatores maternos pré-natais e do periparto, como mães com infecção inesperada ou comprovada, colonização por Streptococcus agalactiae, rupturas das membranas por mais de 18 horas, herpes genital, leucorréia e corioamnionite. Deve ser pressuposto um quadro infeccioso quando houver características de alteração motora, perfusão periférica, instabilidade térmica, tristeza, irritabilidade, recusa alimentar ou somente a impressão de que o neonato não está bem (FEIL et al., 2018).

2.2.3 Sepse neonatal tardia

Essa classificação ocorre quando o quadro clínico é iniciado após 72 horas de vida do recém-nascido sendo relacionada com fatores pós-natais relacionados a interação com o ambiente hospitalar ou a comunidade, adquirindo organismos nocivos (PROCIANOY; SILVEIRA, 2020; SHANE et al., 2017).

2.2.4 Diagnóstico e sintomatologia

O diagnóstico de infecção em recém-nascidos é difícil, uma vez que suas manifestações clínicas podem ser inespecíficas e ainda passíveis de serem confundidas com sintomas de outras doenças. Dessa maneira, é necessário estabelecer uma ligação entre os fatores de risco maternos e neonatais para que haja suspeita de sepse (Instituto Latino Americano de Sepse, 2022).

Apesar do manejo clínico da sepse neonatal ser desafiador, o diagnóstico precoce e o tratamento imediato podem diminuir significativamente as taxas de morbimortalidade. No entanto, como anteriormente mencionado, os sinais clínicos que denotam a presença desse quadro, conforme ilustrado na Figura 1, frequentemente manifestam uma diversidade notável e carecem de especificidade, especialmente em faixas etárias extremas (FIORENTINO et al., 2021).

Figura 1 – Manifestações clínicas da sepse em neonatos

Fonte: Instituto Latino-Americano de Sepse (ILAS), 2022.

2.2.5 Tratamento

A terapêutica para a sepse envolve restaurar a perfusão com líquidos intravenosos e vasopressores, fornecer suporte de oxigênio, administrar antibióticos adequados (muitas vezes de amplo espectro) e controlar a origem da infecção. Em alguns casos, medidas extras como corticoides e insulina podem ser necessárias. O tratamento precoce é fundamental para melhorar o prognóstico (ALVARENGA, 2018; Instituto Latino Americano de Sepse, 2022).

2.3 ASPECTOS EPIDEMIOLÓGICOS

2.3.1 Mortalidade

No Brasil, foi evidenciado estudos sobre a mortalidade neonatal por sepse em algumas regiões específicas como o de Aguiar et al., (2021), em que o coeficiente de 11 mortalidade, entre 2014 e 2018, no estado da Bahia obteve uma taxa de 1,09 óbitos por 1.000 nascidos vivos, achado semelhante a taxa de 1,08 óbitos por 1.000 nascidos vivos na macrorregião sul de Santa Catarina no período de 1996 a 2009 (BENINCÁ et al., 2013). Já no estudo de Alves et al., (2018) em um município do Sul do Brasil, revelou-se uma taxa de 2,3 a cada mil nascidos vivos. Em Mato Grosso, a sepse foi a principal causa de morte no período neonatal entre 2010 e 2019, com 1,04/1.000 (GOULART et al., 2021).

Tratando-se da região Norte, com base no Gráfico 1, de 1990 a 2019, houve uma redução maior que 60% na taxa de mortalidade infantil, todavia, mesmo com essa diminuição, o Norte do Brasil ainda apresenta a maior taxa (16,9%) em comparação com as outras regiões do país e com a média nacional (13,3%). Em Porto Velho, o local de investigação deste estudo, conforme indicado no gráfico 2, de 2012 a 2017 o maior coeficiente de mortalidade Infantil foi em 2016 (14,82 óbitos/1.000 nascidos vivos). Entre os óbitos infantis nesse período, mais da metade se caracterizavam como óbitos evitáveis, e estavam interligados com a carência de atenção materna na gestação, parto e ao feto. A principal causa de morte no período observado na imagem foi sepse bacteriana não especificada no recém-nascido (FREITAS et al., 2020).

Gráfico 1 – Taxa de mortalidade infantil no Brasil, de 1990 a 2020

Fonte: Boletim epidemiológico da Secretaria da Vigilância em Saúde (Ministério da Saúde), 2021

Gráfico 2 – Coeficiente de mortalidade infantil em Porto Velho de 2012 a 2017

Fonte: Freitas et al, 2020

2.3.2 Variáveis maternas e gestacionais

Os principais fatores de risco maternos, de acordo com a Figura 2, na sepse neonatal são mães contaminadas com Estreptococos grupo B (SGB) com indicação profilaxia intraparto inadequada ou sem profilaxia, ruptura precoce ou prolongada da membrana, infecção urinária, febre, infecção do trato urinário no momento do trabalho de parto e infecção do trato genital (corioamnionite, líquido amniótico fétido, leucorreia) (RODRIGUES et al., 2022). Se tratando do tipo de parto associado aos óbitos por sepse, observa-se predominância de casos ocorridos após parto vaginal, entretanto em algumas regiões como evidenciado por Alves et al., em 2018, o coeficiente de mortalidade por sepse foi maior em cesarianas. É importante ressaltar a importância da realização do pré-natal e do diagnóstico e da prevenção da colonização materna por Streptococcus do grupo B na via do parto. Regiões com dificuldades em oferecer o devido acompanhamento e assistência às gestantes aumentam consideravelmente as chances de óbitos relacionados a essa causa (BENINCÁ et al., 2013).

O parto por cesárea é um agravante de risco para a sepse neonatal com a idade gestacional sendo menos de 39 semanas (JIANG et al, 2013). Em relação ao tipo de gravidez, percebe-se predominância da gravidez única, em razão de ser a mais comum, já a gravidez dupla ou tripla demonstra relação íntima com a sepse neonatal, (BENINCÁ et al., 2013) diz que o motivo são as comorbidades associadas a esses tipos de parto, como prematuridade e baixo peso ao nascer.

Em relação a idade materna, estudos apresentam divergência sobre sua associação à sepse neonatal (MANNAN, 2012), uma mãe mais velha ou uma bem mais nova são um alto risco de desenvolvimento da sepse neonatal e pode ser um fator agravado para a mortalidade de neonatos.

Figura 2 – Fatores de riscos materno na sepse neonatal

Fonte: Rodrigues et al, 2022

2.3.3 Variáveis neonatais

A maioria dos óbitos acontecem no período precoce (0 a 6 dias de vida), porém em algumas regiões estudadas prevaleceu o período neonatal tardio, em vista disso o baixo peso ao nascer e a prematuridade apresentam percentuais significativamente maiores nos casos de óbitos por sepse neonatal em vários estudos (ALVES et al., 2018). Segundo o Instituto Latino-Americano de Sepse (ILAS), o RN pré-termo apresenta de 8 a 11 vezes maior risco de infecção do que o RN a termo. Na variedade peso ao nascer, neonatos com extremo baixo peso (menor que 1000g) formam o grupo que mais morrem por sepse, seguido dos recém-nascidos de muito baixo peso (menor que 1.500g) (AGUIAR et al., 2021). No que se refere ao sexo e raça, o sexo masculino e a cor pardo foram os que obtiveram maiores taxas de mortalidade (AGUIAR et al., 2021, BENINCÁ et al., 2013).

A incidência da sepse em recém-nascidos é variável e depende de características inerentes ao nascimento, bem como dos procedimentos assistenciais que influenciam no desenvolvimento da infecção. Esses procedimentos incluem intervenções invasivas realizadas na UTI, o uso prolongado de ventilação mecânica (VM), a inserção de tubo endotraqueal e pronga nasal, a alimentação por via nasoentérica (SNE), a alimentação parenteral, o acesso venoso periférico (AVP), o cateter venoso central (CVC), o cateter arterial umbilical (CAU), a antibioticoterapia e uma longa permanência hospitalar (SANTOS et al., 2020).

2.3.4 Agentes Etiológicos

A infecção precoce frequentemente resulta da contaminação do neonato por bactéria do canal de parto, ou é secundária a bacteremias maternas, como Streptococcus agalactiae e Escherichia coli. Por outro lado, as infecções tardias são causadas por microrganismos hospitalares. No Brasil, as bactérias Gram-negativas e o Staphylococcus aureus destacam-se como os principais agentes causadores. Entretanto, em alguns hospitais brasileiros, essa realidade está passando por modificações, aproximando-se da situação observada em países desenvolvidos, onde os Staphylococcus coagulase-negativa (SCCN), como o S.epidermidis, são os principais patógenos nas Unidades de Terapia Intensiva Neonatais (UTIN), e as leveduras, como espécies de Candida vêm ganhando destaque (SOUSA et al., 2019).

2.3.5 Medidas preventivas

É possível prevenir a ocorrência de sepse ao manter boas condições de saúde e higiene. Quando um bebê está hospitalizado, é importante adotar medidas específicas para evitar infecções hospitalares. A princípio, deve-se investir na diminuição da colonização materna e complicações periparto, principais fatores de risco da sepse precoce. Algumas medidas indicadas na prevenção da sepse tardia são: lavagem de mãos e uso de álcool em gel, iniciar o quanto antes a alimentação enteral, preferencialmente leite humano, evitar superpopulação em UTIs neonatais, treinar e formar equipes multidisciplinares capacitadas (FIORENTINO et al., 2021; Instituto Latino Americano de Sepse, 2022).

3 JUSTIFICATIVA

A mortalidade neonatal representa um indicador epidemiológico relevante no contexto socioeconômico de um país. No Brasil, a sepse configura-se entre uma das causas recorrentes de óbitos neonatais precoces e tardios por consequência, principalmente, de infecções. Nessa perspectiva, ressalta-se a relevância desse estudo, que busca analisar os óbitos infantis por septicemia e seus fatores associados no âmbito da atenção materno-infantil.

4 OBJETIVOS

4.1 OBJETIVO GERAL

● Analisar o perfil epidemiológico da mortalidade neonatal por septicemia, no município de Porto Velho, de 2019 a 2023.

4.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS

  • Descrever a taxa de mortalidade neonatal por septicemia;
  • Descrever as principais características maternas e dos recém- nascidos, dos óbitos neonatais;
  • Analisar os principais fatores associados aos óbitos neonatais por septicemia.

5 METODOLOGIA

5.1 TIPO DE PESQUISA

É um estudo epidemiológico observacional descritivo e retrospectivo, com o objetivo de analisar o perfil epidemiológico da mortalidade neonatal por septicemia, no município de Porto Velho, de 2019 a 2023.

5.2 LOCAL DA PESQUISA

A pesquisa foi realizada no município de Porto Velho, capital do estado de Rondônia, região Norte do Brasil. Porto Velho destaca-se por ser a capital brasileira com maior área territorial, estendendo-se por cerca de 34 mil km² e mais de 500 km de extensão Leste-Oeste, abrangendo quase 15% do território estadual. Ao Norte, Porto Velho faz divisa com três Municípios do Amazonas (Lábrea, Canutama e Humaitá); ao Sul faz limites com seis Municípios rondonienses (Nova Mamoré, Buritis, Alto Paraíso, Candeias do Jamari, Cujubim e Machadinho D’Oeste) e uma extensa zona de fronteira com a Bolívia; e à Oeste, faz divisa em uma pequena extensão com o Acre, no Município de Acrelândia (CHAVES H. L.; SILVA L. G. E. 2018). O clima da região é o Equatorial e a vegetação é de Floresta Tropical. A topografia destaca relevos ondulados e fortemente acidentados. A bacia hidrográfica do rio Madeira tem rios com relevante volume de águas e com potencial para pesca, navegação e recreação.

5.3 POPULAÇÃO E AMOSTRA

A população de nascidos vivos na cidade de Porto Velho, segundo dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) referentes ao ano de 2020, foi de 7.893 nascidos vivos, enquanto ocorreram 361 (trezentos e sessenta e um) óbitos neonatais, no período de 2019 a 2022, registrados no Sistema de Informação sobre Mortalidade/SIM.

5.4 CRITÉRIOS DE INCLUSÃO E EXCLUSÃO

Os critérios de inclusão consistem em nascidos vivos que evoluíram para óbito por septicemia em unidades de saúde. Os partos realizados extra-hospitalares foram excluídos, também foram excluidos recém-nascidos com registro incompleto de dados na Declaração de Óbito.

5.5 PROCEDIMENTOS E INSTRUMENTOS

Para analisar o perfil epidemiológico da mortalidade neonatal por septicemia, no município de Porto Velho, de 2019 a 2023, foram utilizados os dados das declarações de óbitos neonatais que estão registrados no Sistema de Informação sobre mortalidade (SIM), segundo o ano de ocorrência do óbito. Para este objetivo foram analisados os óbitos neonatais segundo faixa etária materna, assim como sexo, peso ao nascer e dias de vida do neonato. Para descrever a taxa de mortalidade neonatal por septicemia, foi realizado o seguinte cálculo: número de óbitos neonatais, por septicemia, de 0 a 27 dias de idade, dividido por número de nascidos vivos e multiplicado por mil nascidos vivos de mães residentes, em Porto Velho, de 2019 a 2023. Para descrever as principais características maternas e dos recém-nascidos dos óbitos neonatais, utilizamos as seguintes variáveis, quanto às características maternas: tipo de parto, tipo de gravidez (única ou gemelar), gravidez dupla ou tripla e número de semanas da gestação. Utilizamos as seguintes variáveis quanto às características dos recém-nascidos: idade do recém-nascido (neonatal precoce ou tardio), peso ao nascer, procedimento invasivos realizados na UTI (uso de ventilação mecânica prolongada/VM, uso de tubo endotraqueal, pronga nasal, alimentação por via nasoentérica/SNE, alimentação parenteral, acesso venoso periférico/AVP, cateter venoso central/CVC, cateter arterial umbilical/CAU ou antibioticoterapia). Estes dados foram coletados nas fichas de investigação de óbitos maternos e infantis.

As informações foram solicitadas à Divisão de Vigilância Epidemiológica, do Departamento de Vigilância em Saúde/SEMUSA/Porto Velho.

Para analisar os principais fatores associados aos óbitos neonatais por septicemia, fizemos uma análise das variáveis apresentadas nos objetivos anteriores,  para  então  estabelecermos  os  fatores  associados  aos  óbitos neonatais.

5.6 ANÁLISE DOS DADOS

Após a coleta dos dados, foram realizadas análises estatísticas para identificar possíveis associações entre as variáveis estudadas. Os resultados obtidos foram apresentados em forma de tabelas e gráficos, facilitando a visualização e a interpretação dos dados, com a utilização do Excel. Foram calculadas medidas de frequência, como percentuais e taxas de mortalidade, para descrever a incidência e a distribuição dos óbitos por septicemia entre os neonatos estudados. Por fim, os resultados foram discutidos à luz da literatura científica existente, comparando-os com estudos anteriores sobre a mortalidade neonatal por septicemia e mostrando o perfil epidemiológico de Porto Velho. Foram destacados os principais achados do estudo, as limitações metodológicas encontradas e as implicações clínicas e de saúde pública decorrentes dos resultados.

5.7 PRINCÍPIOS ÉTICOS E LEGAIS

Este projeto foi encaminhado para apreciação do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), do Centro Universitário Aparício Carvalho, conforme preconizam as normas constantes na Resolução 466/12/CNS, aprovado conforme o número do parecer: 6.827.836. O estudo foi realizado conforme modelo utilizado em pesquisas desenvolvidas e pelo Comitê de Ética, o mesmo, não acarretará nenhum risco às pessoas, tendo em vista, que os dados foram acessados a partir de um banco de dados, que é o Sistema de Informação de Mortalidade (SIM) e os dados das investigações, portanto dados secundários. Não tivemos acesso a nenhum desses óbitos neonatais. Tudo foi acessado diretamente do Sistema de Informação de Saúde.

E como este trabalho se baseia na análise retrospectiva de dados de Declarações de Óbito, os riscos são mínimos. No entanto, é fundamental enfatizar que a gestão adequada dos dados é essencial para garantir a segurança e a privacidade dos indivíduos envolvidos. Todas as informações coletadas foram tratadas com confidencialidade e os dados foram utilizados apenas para fins de pesquisa, não sendo divulgados de forma que permita a identificação dos neonatos ou suas famílias. Nesse tipo de pesquisa, não há compensação ou ressarcimento dos envolvidos, uma vez que não há intervenção direta nos participantes.

6 RESULTADOS E DISCUSSÃO

A mortalidade neonatal representa um indicador epidemiológico relevante no contexto socioeconômico de um país. No Brasil, a sepse configura-se entre uma das causas recorrentes de óbitos neonatais precoces e tardios por consequência, principalmente, de infecções.

De acordo com a Secretaria de Vigilância em Saúde em 2019, no Brasil, cerca de 13,3 óbitos ocorrem por cada 1000 nascidos vivos (BRASIL, 2021). Nesse sentido, a partir da investigação da mortalidade infantil, é possível traçar metas e aplicar medidas que diminuam os altos índices no país.

Tabela 1 – Número de óbitos neonatais por septicemia, Porto Velho/RO, de 2019 a 2023

Fonte: Secretaria Municipal de Saúde/ Porto Velho, acessado em 13/11/2024

Conforme a Tabela 1, a mortalidade neonatal por septicemia em Porto Velho apresenta números próximos entre as fases neonatal precoce (0 a 6 dias) e tardia (7 a 27 dias), com oito e sete casos, respectivamente. Essa pequena diferença indica que o risco de óbito por sepse persiste ao longo do primeiro mês de vida, com uma ligeira concentração nos primeiros dias. Esse comportamento é consistente com a literatura nacional e internacional, que também aponta uma prevalência de óbitos neonatais por sepse nos primeiros dias de vida, principalmente devido à vulnerabilidade imunológica dos recém-nascidos e a complicações perinatais (DUARTE, 2007; VIEIRA, 2004). A proximidade dos números entre as fases neonatal precoce e tardia, em Porto Velho, sugere que fatores ambientais e hospitalares podem igualmente influenciar a ocorrência de sepse, mesmo após a fase neonatal inicial, alinhando-se às observações de que cuidados intensivos contínuos são necessários ao longo do período neonatal.

Tabela 2 – Taxa de mortalidade neonatal e por septicemia, Porto Velho/RO, de 2019 a 2023

Fonte: Secretaria Municipal de Saúde – Porto Velho, acessado em Novembro de 2024

A Tabela 2 mostra que a taxa de mortalidade neonatal por septicemia em Porto Velho variou de 0,25 a 0,59 por mil nascidos vivos, entre 2019 e 2023, com uma leve tendência de redução nos anos mais recentes. Esse índice é mais baixo em comparação com outros estados brasileiros, como a Bahia e Santa Catarina, onde taxas próximas a 1,0 por mil foram observadas (AGUIAR et al., 2021; BENINCÁ et al., 2013). Esta diferença pode estar associada a intervenções específicas, como protocolos de infecção hospitalar, cuidados intensivos neonatais mais bem estabelecidos e acesso a recursos de suporte e manejo precoce da sepse neonatal, alinhados com práticas recomendadas pela literatura (ILAS, 2022).

Tabela 3 – Óbitos neonatais, segundo características dos neonatais e maternas, Porto Velho/RO, de 2019 a 2023

Fonte: Secretaria Municipal de Saúde – Porto Velho, acessado em Novembro de 2024

Tabela 4 – Óbitos neonatais, segundo características inerentes à gestação, Porto Velho/RO, 2019 a 2023

Fonte: Secretaria Municipal de Saúde – Porto Velho, acessado em Novembro de 2024

A Tabela 3 mostra que a maioria dos óbitos neonatais em Porto Velho ocorreu em recém-nascidos com peso abaixo de 1 kg (40%). Segundo o estudo de Aguiar et al. (2021), neonatos com peso extremamente baixo (<1000g) têm maior vulnerabilidade a infecções hospitalares e complicações fatais. Adicionalmente, a Tabela 4 indica que óbitos ocorreram majoritariamente em gestações pré-termo e em partos cesáreos, corroborando estudos que associam o parto cesáreo e a prematuridade ao aumento do risco de sepse neonatal. O desenvolvimento imunológico incompleto nesses casos compromete a resposta às infecções, aumentando a mortalidade neonatal. Essas características destacam a importância de monitoramento intensivo em partos de risco e reforçam a necessidade de protocolos de controle de infecção, principalmente para neonatos em condições de maior vulnerabilidade (BENINCÁ et al., 2013; JIANG et al., 2013). Em relação ao sexo, observou-se uma leve predominância de óbitos entre neonatos do sexo feminino, mas a literatura costuma indicar o sexo masculino como mais suscetível a infecções neonatais e, portanto, com maior risco de mortalidade por sepse, possivelmente devido a fatores imunológicos inerentes (AGUIAR et al., 2021, BENINCÁ et al., 2013). Quanto à idade materna, a maioria dos óbitos ocorreu entre mães na faixa de 20 a 30 anos; porém, evidências sugerem que tanto mães muito jovens quanto mais velhas representam grupos de risco para complicações gestacionais e neonatais, incluindo sepse (MANNAN, 2012).

7 CONCLUSÃO

A pesquisa revelou que a mortalidade neonatal por septicemia, em Porto Velho, apresenta características epidemiológicas similares a outros locais do Brasil, com um perfil de risco predominante em neonatos prematuros e de baixo peso ao nascer. A maioria dos óbitos ocorreu na fase neonatal precoce, o que está em conformidade com a literatura, que destaca a fragilidade imunológica dos recém-nascidos e os desafios no manejo clínico da sepse nos primeiros dias de vida.

Portanto, recomenda-se a continuidade de políticas públicas que promovam cuidados perinatais intensivos e preventivos, priorizando a identificação precoce de fatores de risco e o aprimoramento dos protocolos de controle de infecção. A implementação de estratégias baseadas em evidências, alinhadas às particularidades regionais, poderá promover ainda mais a redução da mortalidade neonatal por sepse em Porto Velho e contribuir para uma assistência neonatal mais segura e eficaz.

REFERÊNCIAS

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