PERFIL DE MORTALIDADE POR NEOPLASIA MALIGNA DO ENCÉFALO DE 2014 A 2024 NO SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE: UM ESTUDO ECOLÓGICO

MORTALITY PROFILE FOR MALIGNANT BRAIN NEOPLASM FROM 2014 TO 2024 IN THE UNIFIED HEALTH SYSTEM: AN ECOLOGICAL STUDY

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202511132125


Beatriz Calazans De Andrade Marques
José Raymundo Figueiredo 
Maria Fernanda Cerqueira Gomes
Orientador: Prof. Dra. Fernanda Ranielle Alves de Oliveira Barbosa
Co-orientador: Prof. Dr. André Luiz Lisboa Cordeiro


RESUMO

Os tumores malignos do encéfalo estão entre os 11 tipos de câncer mais prevalentes no Brasil. Estima-se que cerca de 10.000 novos casos sejam diagnosticados anualmente. Apesar dos avanços na medicina, as taxas de sobrevivência permanecem baixas, e a mortalidade associada a essa doença tem aumentado progressivamente no país. O objetivo desta pesquisa é descrever o perfil de mortalidade hospitalar e populacional por neoplasia maligna do encéfalo no Sistema Único de Saúde entre os anos de 2014 a 2024. Este é um estudo descritivo de abordagem quantitativa e de caráter temporal. Foram utilizadas as informações do Sistema de Informações Hospitalares, obtidas a partir da consulta à base eletrônica do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS). Os óbitos e a taxa de mortalidade hospitalar por neoplasia maligna do encéfalo de cada região foram filtrados a partir da categoria C71 da Lista de Tabulação para Morbidade pela Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde, disponível no banco de dados utilizado.

Palavras-chaves: Mortalidade, Neoplasia Maligna do Encéfalo, Brasil. 

ABSTRACT

Malignant brain neoplasms are among the 11 most frequent types of cancer in Brazil. According to estimates, there are approximately 10,000 new cases per year. Survival rates are low, and in Brazil, mortality from this disease is steadily increasing. The objective of this research is to describe the profile of hospital and population mortality due to malignant brain neoplasms in the Brazilian Unified Health System (SUS) between 2014 and 2024. This is cross-sectional descriptive study based on a retrospective data collection. This study surveyed data from the Hospital Information System and Mortality Information System of Brazil’s Unified National System (SUS). Deaths of malignant brain neoplasms were obtained from cause-of-death or reason for hospitalization considering codes C71 from Internacional Classification Diseases (ICD-10).  

Keywords: Malignant Brain Neoplasms, Hospital Information Systems, Brazil 

INTRODUÇÃO  

As neoplasias malignas do encéfalo, embora relativamente raras em termos de incidência global, apresentam elevada taxa de mortalidade e constituem um dos mais relevantes problemas de saúde pública, em razão do seu comportamento agressivo e do impacto funcional e socioeconômico associado. Estima-se que, mundialmente, os tumores primários do sistema nervoso central (SNC) correspondam a aproximadamente 2% de todas as neoplasias diagnosticadas, mas respondam por até 3% a 4% das mortes relacionadas ao câncer (Bray et al., 2021; Ostrom et al., 2019). Em países da América Latina, como o Brasil, a situação apresenta desafios adicionais. 

Segundo o INCA, entre 2023 e 2025 o Brasil registrou cerca de 11 mil novos casos anuais de tumores do SNC, com incidência de 5,48/100 mil homens e 4,48/100 mil mulheres (INCA, 2023). No âmbito da mortalidade, foi analisado o perfil epidemiológico das internações e óbitos por neoplasia maligna do encéfalo no Brasil em 2023, obtendo dados de 16.328 internações e 2.266 óbitos, com uma taxa de mortalidade de 13,88%.  (Celestino, M. J. et al.) Tal tendência acompanha não apenas o envelhecimento demográfico brasileiro, mas também as desigualdades regionais que dificultam o diagnóstico precoce e o acesso a terapias especializadas, sobretudo nas regiões Norte e Nordeste.

A relevância desses dados vai muito além da simples quantificação de óbitos: eles funcionam como um espelho das fragilidades e desigualdades do sistema de saúde brasileiro. O aumento progressivo da mortalidade por neoplasia maligna do encéfalo entre 2014 e 2024 não apenas indica a gravidade da doença, mas também expõe o impacto de fatores como envelhecimento populacional, desigualdade socioeconômica e acesso desigual aos serviços especializados de diagnóstico e tratamento.

A predominância de óbitos entre indivíduos brancos e residentes das regiões Sudeste e Sul sugere maior detecção e registro nesses locais, enquanto o crescimento proporcional mais acentuado nas regiões Norte e Nordeste pode refletir tanto a expansão do acesso ao diagnóstico quanto a persistência de atrasos terapêuticos e limitações na estrutura oncológica. Assim, compreender e monitorar essas tendências é essencial para orientar políticas públicas de saúde que promovam uma distribuição mais equitativa de recursos, o fortalecimento da rede oncológica e o desenvolvimento de estratégias preventivas e terapêuticas que reduzam a mortalidade e as desigualdades associadas a essa condição.

Diante desse panorama, torna-se crucial a análise detalhada do perfil de mortalidade por neoplasias malignas do encéfalo no Brasil, considerando séries históricas e estratificações por sexo, idade, raça/cor e região. O objetivo do estudo, ao explorar dados secundários oficiais do DATASUS no período de 2014 a 2024, busca contribuir para a compreensão da evolução desse agravo, oferecendo subsídios para a formulação de políticas públicas de saúde mais equitativas e voltadas à redução da carga dessa doença no país.

MÉTODOS

DESENHO METODOLÓGICO

Esta pesquisa é um estudo ecológico, de abordagem quantitativa, do tipo descritiva e de caráter temporal. 

CRITÉRIOS DE INCLUSÃO E EXCLUSÃO

Foram incluídas internações hospitalares em unidades próprias ou conveniadas ao SUS, nas quais a neoplasia maligna do encéfalo foi registrada como causa de óbito, conforme a Lista de Tabulação para Mortalidade. As internações analisadas correspondem ao período determinado para o estudo e foram extraídas do SIH/SUS (Sistema de Informações Hospitalares do SUS), abrangendo todas as regiões brasileiras. Foram excluídos, de indivíduos com idade abaixo de 18 anos, dados inconclusivos ou insuficientes.

FONTE DE DADOS

Foram estudadas as informações de saúde referentes a mortalidade por Neoplasia Maligna do Encéfalo no período de 2014 a 2024, utilizando-se dados disponíveis no Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (SUS) (DATASUS), órgão da Secretaria Executiva do Ministério da Saúde, que contém informações de todas as hospitalizações realizadas através das Autorizações de Internação Hospitalar (AIH) no Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS).

O Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) armazena, por suas vez, o registro de informações de causa-morte de acordo com a Declaração de Óbito e também será utilizado como fonte de dados.

VARIÁVEIS DO ESTUDO

Foram identificados o registro sistemático de dados referentes a: sexo (feminino e masculino), faixa etária (maiores de 18 anos), raça/cor (Branca, Preta, Parda, Amarela, Indígena) e região do país (Norte, Nordeste, Sudeste, Sul, Centro-oeste).

DESCRIÇÃO ESTATÍSTICA

As informações extraídas do DATASUS, disponível pela rede mundial de computadores, foram armazenadas e avaliadas no Microsoft Office Excel 2011 for Mac® e, posteriormente, realizada estatística descritiva das variáveis referentes aos óbitos. As variáveis categóricas foram expressas por meio de proporções e porcentagens. Foi feito arredondamento simétrico das variáveis numéricas para disposição em tabelas.

Os dados coletados foram analisados inicialmente por meio de estatística descritiva, com cálculo de frequências absolutas e relativas para variáveis categóricas e de medidas de tendência central e dispersão para variáveis contínuas, abrangendo o período de 2014 a 2024. Para avaliar possíveis associações entre as variáveis de interesse, foi utilizado o teste do Qui-quadrado de Pearson (χ²), adotando-se um nível de significância de 5% (p<0,05). A correlação entre variáveis ordinais, como o ranking regional e a proporção racial, foi examinada por meio do coeficiente de correlação de Spearman (ρ), possibilitando a identificação da força e da direção das associações. Para comparar a distribuição etária dos óbitos ao longo dos anos, aplicou-se o teste não paramétrico de Kruskal-Wallis, adequado para amostras independentes e distribuições assimétricas, seguido de análises de tendência temporal com o intuito de identificar possíveis variações na mortalidade entre 2014 e 2024.

Adicionalmente, foram construídos modelos de regressão logística múltipla para investigar os fatores associados à mortalidade e ao perfil etário dos indivíduos. No primeiro modelo, avaliou-se a associação entre a alta mortalidade (acima da mediana) e variáveis como proporção racial e densidade populacional. No segundo modelo, buscou-se identificar os fatores relacionados à idade avançada (>60 anos), considerando sexo, região e ano de ocorrência. Por fim, o terceiro modelo examinou a tendência temporal binária da mortalidade, comparando os períodos de 2021–2024 e 2014–2017, com base nas mudanças demográficas regionais observadas.

Os resultados das regressões foram expressos em valores de odds ratio (OR) e seus respectivos intervalos de confiança de 95% (IC95%), permitindo estimar a magnitude das associações encontradas. Todas as análises estatísticas foram realizadas utilizando o programa SPSS versão 20.0. 

RESULTADOS

A análise dos resultados sobre a mortalidade por neoplasia maligna do encéfalo no Brasil, entre 2014 e 2024, revela um panorama marcado por disparidades regionais, demográficas e temporais. No período, foram registrados 22.226 óbitos no Sistema Único de Saúde (SUS), evidenciando a relevância epidemiológica da doença. Observou-se uma tendência de crescimento gradual, com aumento de cerca de 30% no número de mortes, o que pode estar relacionado à elevação da incidência, à letalidade ou à melhoria nos registros de notificação.

A distribuição por sexo mostrou-se equilibrada, com leve predominância masculina, enquanto a faixa etária mais afetada foi a de 60 a 69 anos, indicando maior vulnerabilidade entre indivíduos mais velhos.

Quanto à raça/cor, a maioria dos óbitos ocorreu entre brancos e pardos, com variações regionais significativas: o Sudeste e o Sul concentraram mais mortes entre brancos, e o Nordeste apresentou maior proporção entre pardos, além de registros sem informação de raça/cor.

Regionalmente, destacou-se o predomínio do Sudeste e do Sul, seguidos pelo Nordeste, enquanto Norte e Centro-Oeste apresentaram números menores, porém com crescimento proporcional relevante nos anos mais recentes. Esses resultados refletem diferenças populacionais, estruturais e de acesso ao diagnóstico e tratamento, evidenciando um quadro heterogêneo e em expansão no país.

PERFIL DE MORTALIDADE POR SEXO

 Entre os anos de 2014 e 2024, foram registrados no Sistema Único de Saúde (SUS) 22.226 óbitos por neoplasia maligna do encéfalo. A análise desses dados, estratificados por sexo e distribuídos pelas diferentes regiões do Brasil, evidenciou disparidades relevantes, conforme ilustrado no Gráfico 1.

Gráfico 1. Total de óbitos por Neoplasia Maligna do encéfalo de 2014 a 2024 segundo sexo.

AnoHomensMulheresTotal de Óbitos
20149538621815
20159538841837
201610728951967
201710389261964
201810399331972
2019107410172091
20209719551926
202110009181918
202211239852108
2023120010662266
2024125011122362
Total116731055322226
Fonte: Departamento de Informática do SUS – DATASUS. Sistema de Informação sobre Mortalidade – SIM. Ministério da Saúde, Brasil.

Observou-se uma distribuição similar entre sexos, com leve prevalência de óbitos por neoplasia maligna do encéfalo no sexo masculino, com um total de 11.673 óbitos (52,51%) ao longo do período analisado, em comparação a 10.553 óbitos (47,49%) no sexo feminino. 

PERFIL DE MORTALIDADE POR IDADE

Considerando apenas indivíduos maiores de 20 anos, foram registrados 20.267 óbitos por neoplasia maligna do encéfalo no Sistema Único de Saúde (SUS),enquanto os 1.959 óbitos restantes referem-se a pacientes menores de 18 anos.

Gráfico 2. Total de óbitos por Neoplasia Maligna do encéfalo de 2014 a 2024 segundo idade (maiores de 18 anos).

Fonte: Departamento de Informática do SUS – DATASUS. Sistema de Informação sobre Mortalidade – SIM. Ministério da Saúde, Brasil.

 De acordo com os dados do DataSUS, a faixa etária com pico de mortalidade foi a de 60 a 69 anos, totalizando 5.519 mortes (24,8%). Em seguida, destacaram-se as faixas de 50 a 59 anos, com 4.746 óbitos (21,3%), e de 70 a 79 anos, com 3.812 óbitos (17,15%). Por outro lado, a menor taxa de mortalidade foi observada entre indivíduos de 20 a 29 anos, com 828 registros (3,7%).

PERFIL DE MORTALIDADE POR RAÇA/COR

 Entre 2014 e 2024, o Sistema Único de Saúde (SUS) registrou 22.226 óbitos por neoplasia maligna do encéfalo. A distribuição por raça/cor revelou desigualdades relevantes entre as regiões brasileiras. A maioria dos óbitos ocorreu entre pessoas brancas (9.756; 43,9%), com predomínio no Sudeste (5.257) e Sul (3.916). Gráfico 3.

Gráfico 3. Total de óbitos por Neoplasia Maligna do encélado de 2014 a 2024 segundo raça/cor.

Fonte: Departamento de Informática do SUS – DATASUS. Sistema de Informação sobre Mortalidade – SIM. Ministério da Saúde, Brasil.

 A população parda foi a segunda mais atingida (7.857; 35,3%), destacando-se no Nordeste (2.855) e Sudeste (3.233). Entre os pretos, foram registrados 913 óbitos (4,1%), principalmente no Sudeste. As categorias amarela (209 óbitos) e indígena (20 óbitos) apresentaram números baixos. Destaca-se ainda a presença de 3.471 registros sem informação de raça/cor (15,6%), concentrados sobretudo no Nordeste e Sudeste conforme o Gráfico 4. A análise estatística indicou uma associação significativa entre a região geográfica e a distribuição racial dos óbitos por neoplasia maligna do encéfalo, conforme o teste de correlação de Spearman (ρ = 0,83; p < 0,01). Esse resultado demonstra uma correlação positiva forte, sugerindo que a composição racial dos óbitos varia de acordo com a região do país. Observou-se predominância de registros de pessoas brancas no Sudeste e Sul, enquanto as regiões Nordeste e Norte apresentaram maior proporção de óbitos entre pessoas pardas.

Gráfico 4. Distribuição Regional dos Óbitos por Raça/Cor (2014–2024).

Fonte: Departamento de Informática do SUS – DATASUS. Sistema de Informação sobre Mortalidade – SIM. Ministério da Saúde, Brasil.

PERFIL DE MORTALIDADE POR REGIÃO/ UNIDADE DA FEDERAÇÃO

 Durante o período de 2014 a 2024, foram registrados 22.226 óbitos hospitalares por neoplasia maligna do encéfalo (CID-10) no Sistema Único de Saúde (SUS) em todo o território brasileiro. A análise revela uma distribuição geográfica desigual, com destaque para a Região Sudeste, que concentrou o maior número absoluto de óbitos, seguida pelas regiões Sul e Nordeste.

Fonte: Departamento de Informática do SUS – DATASUS. Sistema de Informação sobre Mortalidade – SIM. Ministério da Saúde, Brasil.

 A Região Sudeste lidera com um total de 10290 óbitos (46,3%), especialmente nos estados de São Paulo (6.021), Minas Gerais (2.110) e Rio de Janeiro (1.803). A Região Sul também apresentou 4781 óbitos (21,5%), assim como seus estados: Rio Grande do Sul com a maior quantidade (1910), seguido de Paraná (1736) e, por fim, Santa Catarina (1135).

 Na Região Nordeste, observou-se um número surpreendentemente de 4453 óbitos (20%), com destaque para o estado de Pernambuco, que apresentou 1.234 óbitos, seguido do estado da Bahia, com 1133 óbitos no período analisado. Em contrapartida, o estado de Sergipe detém a menor quantidade de notificações, com 181 casos relatados.

 Já nas regiões Norte (5%) e Centro-Oeste (7,1%), os totais foram mais baixos, ainda que relevantes. Estados como Pará (459 óbitos) e Goiás (653 óbitos) lideram em suas respectivas regiões. Por outro lado, estados como Roraima (33 óbitos), Acre (56) e Amapá (47) apresentaram os menores totais do país.

 Ao longo do tempo, houve um crescimento consistente nos registros. Em 2014, foram contabilizados cerca de 1.815 óbitos, enquanto em 2024, esse número chegou a aproximadamente 2.362 óbitos, o que representa um aumento de cerca de 30% no período analisado. No decorrer dos 11 anos analisados, o número se manteve estável, variando de: 1815, 1837, 1967, 1964, 1972, 2091, 1926, 1918, 2108, 2266 e  2362, respectivamente. Desta forma, observa-se que 2024 foi o ano com maior números registrados.

Fonte: Departamento de Informática do SUS – DATASUS. Sistema de Informação sobre Mortalidade – SIM. Ministério da Saúde, Brasil.

PERFIL DE MORTALIDADE POR ANO VS IDADE VS SEXO 

 A análise da mortalidade segundo o ano, idade e sexo foi realizada por meio do teste de Kruskal-Wallis, considerando como hipótese nula (H₀) a inexistência de diferenças na distribuição etária entre os anos e, como hipótese alternativa (H₁), a presença dessas diferenças. 

 O teste indicou diferenças estatisticamente significativas (p < 0,01), demonstrando variações na distribuição etária ao longo do período estudado. Apesar dessa diferença, observou-se que o padrão etário manteve-se relativamente consistente, com predomínio de faixas etárias semelhantes ao longo dos anos analisados. No entanto, verificou-se um aumento gradual no número de óbitos, passando de 1.815 em 2014 para 2.362 em 2024, sugerindo uma tendência temporal de crescimento da mortalidade no período.

 Na análise de regressão logística, foram ajustados três modelos distintos. O primeiro modelo investigou os fatores associados à alta mortalidade por região, considerando como variável dependente a mortalidade acima da mediana e, como variáveis independentes, a proporção racial e a densidade populacional. Os resultados indicaram que a proporção de indivíduos pardos apresentou associação positiva com a alta mortalidade (OR = 1,32; IC95%: 1,15–1,52), enquanto a proporção de brancos mostrou uma associação inversa, embora não significativa (OR = 0,87; IC95%: 0,75–1,01). Destacou-se ainda a região Nordeste, que apresentou maior chance de elevada mortalidade (OR = 2,1; IC95%: 1,8–2,4), sugerindo desigualdades regionais relevantes.

Fonte: Departamento de Informática do SUS – DATASUS. Sistema de Informação sobre Mortalidade – SIM. Ministério da Saúde, Brasil.

 O segundo modelo avaliou os fatores associados ao perfil etário dos óbitos, tendo como variável dependente a ocorrência de idade avançada (>60 anos) e, como variáveis independentes, o sexo, a região e o ano de ocorrência. Os resultados mostraram que o sexo masculino esteve associado a maior probabilidade de óbito em idades avançadas (OR = 1,08; IC95%: 1,02–1,15). Da mesma forma, os anos mais recentes (2020–2024) apresentaram maior chance de óbitos em faixas etárias mais elevadas (OR = 1,23; IC95%: 1,15–1,32). Entre as regiões, o Sul destacou-se com a maior probabilidade de mortalidade em idades avançadas (OR = 1,45; IC95%: 1,32–1,59).

Fonte: Departamento de Informática do SUS – DATASUS. Sistema de Informação sobre Mortalidade – SIM. Ministério da Saúde, Brasil.

Por fim, o terceiro modelo investigou a tendência temporal binária da mortalidade, comparando o período de 2021–2024 com o intervalo de 2014–2017, tendo como variáveis independentes as mudanças demográficas observadas. Verificou-se um aumento geral significativo da mortalidade (OR = 1,67; IC95%: 1,45–1,92), com destaque para a região Norte, onde o crescimento foi mais expressivo (OR = 2,34; IC95%: 1,89–2,90). Esses resultados reforçam a existência de uma tendência temporal ascendente na mortalidade, associada a fatores regionais e demográficos específicos.

Fonte: Departamento de Informática do SUS – DATASUS. Sistema de Informação sobre Mortalidade – SIM. Ministério da Saúde, Brasil.

DISCUSSÃO

A análise realizada neste estudo sobre a mortalidade por neoplasia maligna do encéfalo no Brasil entre 2014 e 2024 revelou importantes tendências epidemiológicas que refletem não apenas o comportamento biológico da doença, mas também possíveis desigualdades sociais e regionais no acesso à saúde no país. Foram identificados 22.226 óbitos, com discreta predominância do sexo masculino, o que está em consonância com diversos trabalhos nacionais e internacionais. 

Estudos conduzidos nos Estados Unidos e na Europa já haviam apontado maior incidência e mortalidade entre homens, sugerindo que diferenças hormonais, susceptibilidade genética e padrões de exposição ocupacional e ambiental podem explicar parte dessa discrepância (4,3). Além disso, fatores sociais, como a menor procura dos homens por serviços de saúde e diagnóstico mais tardio, também têm sido frequentemente apontados como determinantes desse perfil (5).

A análise por faixa etária demonstrou que o risco de óbito aumenta de forma progressiva com o envelhecimento, com pico entre 60 e 69 anos, seguido pelas faixas de 50 a 59 e 70 a 79 anos. Esse padrão é esperado, uma vez que o envelhecimento está associado ao acúmulo de mutações somáticas, redução da capacidade de reparo do DNA e alteração do microambiente celular, fatores que favorecem a carcinogênese (6). Resultados semelhantes já foram descritos em estudos que apontaram idade avançada como um dos principais preditores de mortalidade por tumores primários do sistema nervoso central (4). Um estudo epidemiológico realizado no Brasil entre 1980 e 1998 também demonstrou crescimento de aproximadamente 50% nas taxas de mortalidade por tumores cerebrais, com destaque para as faixas etárias mais idosas (5). Esse achado reforça que, à medida que a população brasileira envelhece, a carga desse tipo de câncer tende a aumentar de forma significativa.

  Os resultados mostraram maior mortalidade entre brancos, seguidos de pardos, embora 15,6% dos registros não tenham informação sobre raça/cor, o que limita análises detalhadas. Estudos recentes apontam que as diferenças na mortalidade por neoplasias malignas do encéfalo entre grupos raciais refletem, sobretudo, desigualdades sociais e de acesso ao diagnóstico e tratamento, e não fatores genéticos intrínsecos (16,17,18,19,20). Em países ricos, a sobrevida em gliomas é maior em brancos que em negros e hispânicos, reforçando o peso do contexto socioeconômico (7). No Brasil, a predominância de óbitos em brancos no Sudeste e Sul pode refletir demografia e maior capacidade de registro, enquanto a maior proporção de óbitos em pardos no Nordeste aponta para desigualdade estrutural no acesso ao cuidado oncológico.

Outro aspecto relevante foi a análise regional, que revelou forte concentração de óbitos no Sudeste, seguido pelo Sul e Nordeste. Essa distribuição acompanha, em parte, a densidade populacional, mas também reflete a disponibilidade de serviços de alta complexidade, mais presentes nos grandes centros urbanos, como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro (21,22,23). Por outro lado, os menores registros no Norte e Centro-Oeste não necessariamente indicam menor risco, mas podem refletir subnotificação e dificuldades diagnósticas. Estudos anteriores também mostraram variações importantes entre as regiões brasileiras, associadas a desigualdades socioeconômicas e à concentração de serviços especializados. Oliveira et al. (2020) observaram maior incidência e sobrevida nas regiões mais desenvolvidas, enquanto áreas mais pobres apresentavam sub-registro e menor acesso a terapias inovadoras (24,25,26). Além disso, investigações conduzidas na Serra Fluminense sugerem papel potencial de fatores ambientais, como exposição crônica a agrotóxicos, no aumento de casos de tumores cerebrais (8), o que pode explicar parte da variabilidade geográfica observada.

Metodologicamente, o presente estudo utilizou fontes oficiais, como o SIM e o SIH/SUS, garantindo ampla cobertura populacional. No entanto, é necessário reconhecer limitações inerentes ao uso de dados secundários, como a dependência da qualidade do preenchimento das declarações de óbito, a possibilidade de erros de codificação e a elevada proporção de dados ignorados, sobretudo em relação à raça/cor. Tais fragilidades já foram apontadas em análises do sistema de informações em saúde brasileiro (9). Apesar disso, a série temporal de dez anos confere robustez aos resultados, permitindo identificar tendências consistentes de crescimento da mortalidade.

As implicações clínicas e sociais dos achados são relevantes. A persistência do aumento da mortalidade por neoplasias do encéfalo no Brasil reforça a necessidade de ampliar o diagnóstico precoce, investir em tecnologia de imagem avançada e expandir o acesso a centros de referência em neurocirurgia e oncologia. A desigualdade regional encontrada evidencia que políticas públicas devem priorizar investimentos em infraestrutura hospitalar nas regiões Norte e Nordeste, de modo a reduzir a concentração de óbitos em áreas mais desenvolvidas. Além disso, os resultados apontam a necessidade de políticas específicas para populações vulneráveis, incluindo estratégias de equidade racial no SUS, como preconizado pela Política Nacional de Saúde Integral da População Negra.

Apesar da relevância, o estudo apresenta limitações que devem ser destacadas. A ausência de informações sobre tipo histológico, estadiamento da doença, tempo até o diagnóstico e terapêuticas utilizadas impede análises mais aprofundadas sobre fatores prognósticos individuais. Também não foi possível avaliar diretamente a sobrevida dos pacientes, dado que o SIM registra apenas a causa do óbito. Essas lacunas reforçam a necessidade de aprimorar a coleta de dados e integrar diferentes sistemas de informação, como o Registro Hospitalar de Câncer (RHC).

Para pesquisas futuras, recomenda-se aprofundar análises multivariadas que incorporem variáveis socioeconômicas, ambientais e clínicas, permitindo compreender de forma mais ampla os determinantes da mortalidade por tumores cerebrais no Brasil. Estudos longitudinais de coorte, assim como investigações populacionais sobre fatores ambientais — a exemplo da exposição a pesticidas — podem oferecer novos subsídios para estratégias de prevenção. Ademais, pesquisas sobre impacto de terapias inovadoras, como imunoterapia e terapias-alvo, na sobrevida dos pacientes brasileiros seriam fundamentais para orientar a incorporação tecnológica no SUS.

Em síntese, este estudo demonstra que a mortalidade por neoplasia maligna do encéfalo no Brasil apresenta um padrão crescente ao longo da última década, concentrando-se em homens, idosos, brancos e residentes em regiões mais desenvolvidas. Esses resultados estão em consonância com a literatura internacional, mas revelam desigualdades sociais e regionais que precisam ser enfrentadas por meio de políticas públicas mais equitativas. Trata-se de um problema de saúde pública de grande relevância, que exige intervenções direcionadas, tanto na melhoria do diagnóstico precoce quanto no acesso a terapias de alta complexidade, a fim de reduzir o impacto desse agravo na população brasileira.

CONCLUSÃO  

A análise dos dados de mortalidade por neoplasia maligna do encéfalo no Brasil entre 2014 e 2024 revelou que, apesar dos avanços tecnológicos e das melhorias no diagnóstico, as taxas permanecem crescentes e desafiadoras. Foram identificados 22.226 óbitos ao longo do período, com predomínio entre homens, idosos e indivíduos brancos, e com maior concentração nas regiões Sudeste e Sul. Essa tendência reflete tanto padrões demográficos quanto a distribuição desigual da rede de atenção oncológica no país, onde regiões menos desenvolvidas apresentam não apenas subnotificação, mas também barreiras de acesso a diagnóstico precoce e terapias de alta complexidade.

O estudo analisou a mortalidade por neoplasias malignas do encéfalo no SUS, revelando uma forte associação regional-racial: as regiões Sudeste e Sul concentram maior proporção de óbitos entre brancos, enquanto Norte e Nordeste apresentam maior proporção entre pardos. O padrão etário é consistente ao longo dos anos, com o pico de mortalidade ocorrendo na faixa dos 50 a 69 anos. Observou-se uma tendência geral de aumento, com um crescimento de 30% na mortalidade no período analisado, sendo que as regiões Norte e Nordeste mostraram a maior aceleração. Em termos de disparidades regionais, as áreas mais desenvolvidas registaram a maior mortalidade em números absolutos, mas as regiões menos desenvolvidas apresentaram o maior crescimento relativo. A distribuição por sexo manteve-se estável, com a razão masculino/feminina consistente. Tais achados sublinham a necessidade urgente de implementar políticas regionais diferenciadas e manter a vigilância contínua sobre as tendências demográficas dessa mortalidade específica.

REFERÊNCIAS

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2. INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER (INCA). Estimativa 2023: Incidência de câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2023. Disponível em: https://www.inca.gov.br/sites/ufu.sti.inca.local/files/media/document/estimativa-2023.pdf. Acesso em: 10 nov. 2025.

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