PROFILE OF HOSPITALIZATIONS AND DEATHS DUE TO CONGENITAL HEART MALFORMATIONS IN THE STATE OF MARANHÃO, 2015–2024
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202602130909
Rachel Vilela de Abreu Haickel Nina1
Ciro Borges Barbosa2
RESUMO
As cardiopatias congênitas (CC) constituem malformações estruturais do coração e dos grandes vasos, figurando entre as principais causas de morbimortalidade na primeira infância. No Brasil, as doenças congênitas apresentam impacto relevante na mortalidade infantil, com cerca de 30 mil novos casos por ano, o que corresponde aproximadamente a 1% dos nascidos vivos. Nesta perspectiva, o presente estudo teve como objetivo analisar o perfil das internações e óbitos por diferentes malformações congênitas do coração no estado do Maranhão no período de 2015 a 2024. Tratou-se de um estudo epidemiológico, com delineamento descritivo e retrospectivo, cuja coleta de dados foi realizada no Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH/SUS) e do Sistema de Informação de Mortalidade (SIM), ambos disponibilizados pelo DATASUS. Entre 2015 e 2024, foram registradas 3.216 internações e 423 óbitos por malformações congênitas do coração no Maranhão, com médias anuais de 322 internações e 42 mortes. Observou-se crescimento expressivo das hospitalizações a partir de 2022, atingindo o pico em 2023 (498 casos), acompanhado de aumento nos óbitos, com o maior número também em 2022 (55). As internações concentraram-se em crianças menores de 1 ano, representando mais de 50% dos casos, e a maioria dos óbitos ocorreu nessa faixa etária (acima de 70%). Não houve predomínio significativo entre os sexos, embora os meninos tenham apresentado leve maior proporção de internações (51,3%) e óbitos (57,4%). A média de permanência hospitalar reduziu-se de 20,1 dias em 2015 para 10,2 dias em 2024, com maiores durações entre 1 e 4 anos. Os custos hospitalares aumentaram mais que o dobro no período, passando de R$ 1,4 milhão em 2015 para R$ 3,7 milhões em 2024, com predominância de gastos entre menores de 1 ano. Os achados evidenciam a relevância das cardiopatias congênitas como causa persistente de internações e óbitos infantis no Maranhão, reforçando a necessidade de estratégias voltadas ao diagnóstico precoce, qualificação da atenção neonatal e fortalecimento das ações de prevenção e tratamento especializado.
Palavras-chave: Cardiopatias congênitas, Epidemiologia, Internação, Mortalidade.
ABSTRACT
Congenital heart diseases (CHD) are structural malformations of the heart and great vessels and constitute one of the leading causes of morbidity and mortality in early childhood. In Brazil, congenital diseases have a significant impact on infant mortality, with approximately 30,000 new cases per year, corresponding to roughly 1% of live births. From this perspective, the present study aimed to analyze the profile of hospitalizations and deaths due to different congenital heart malformations in the state of Maranhão from 2015 to 2024. This was an epidemiological study with a descriptive and retrospective design, and data collection was performed using the Hospital Information System of the Unified Health System (SIH/SUS) and the Mortality Information System (SIM), both provided by DATASUS. Between 2015 and 2024, a total of 3,216 hospital admissions and 423 deaths due to congenital heart malformations were recorded in Maranhão, with annual means of 322 hospitalizations and 42 deaths. A marked increase in hospitalizations was observed from 2022 onward, reaching a peak in 2023 (498 cases), accompanied by a rise in deaths, with the highest number reported in 2022 (55). Hospitalizations were concentrated among children under 1 year of age, accounting for more than 50% of cases, and most deaths occurred in the same age group (over 70%). No substantial sex predominance was identified, although boys presented slightly higher proportions of both hospitalizations (51.3%) and deaths (57.4%). The mean length of hospital stay decreased from 20.1 days in 2015 to 10.2 days in 2024, with longer durations among children aged 1 to 4 years. Hospital expenditures more than doubled during the study period, rising from R$ 1.4 million in 2015 to R$ 3.7 million in 2024, with the highest expenditures observed among children under 1 year of age. The findings highlight the persistent relevance of congenital heart diseases as a cause of infant hospitalizations and deaths in Maranhão, emphasizing the need for strategies aimed at early diagnosis, improved neonatal care, and strengthened prevention and specialized treatment services.
Keywords: Congenital heart disease, Epidemiology, Hospitalization, Mortality.
1 INTRODUÇÃO
As cardiopatias congênitas (CC) correspondem a um conjunto de malformações cardíacas presentes desde o nascimento, comprometendo a estrutura e/ou o funcionamento do coração e dos grandes vasos. Suas manifestações clínicas surgem principalmente nos primeiros meses de vida, sendo responsável por elevada mortalidade no período neonatal (Cordovil et al., 2024).
As CC podem ser classificadas em acianogênicas e cianogênicas. As primeiras não apresentam cianose, decorrendo de shunt esquerda-direita, como na comunicação interatrial, interventricular, persistência do canal arterial, podendo causar sobrecarga pulmonar e insuficiência cardíaca. Já as cianogênicas envolvem shunts direita-esquerda, permitindo a passagem de sangue venoso para a circulação sistêmica, como na tetralogia de Fallot, transposição das grandes artérias e atresia tricúspide, resultando em cianose, hipoxemia e atraso no crescimento (Neves et al., 2020).
As CC estão entre as malformações mais letais da infância, representando a terceira causa de morte neonatal. Mundialmente, afetam de 0,8% a 1,2% dos recém-nascidos (Neves, Finati & Vargas, 2025). No Brasil, ocorrem cerca de 30 mil novos casos por ano, equivalentes a 1% dos nascimentos vivos, enquanto no Nordeste a prevalência estimada é de 2,54 casos por 10.000 nascidos vivos, refletindo diferenças regionais na detecção e notificação (Brasil, 2022; Cabral et al., 2025).
A etiologia das CC envolve fatores genéticos e ambientais. Variações em genes como T-box, NKx e GATA podem aumentar o risco, assim como exposições maternas a vírus, medicamentos, tabaco, radiação e metais pesados durante a gestação, interferindo no desenvolvimento cardíaco fetal (Barros et al., 2023).
A ultrassonografia consolidou-se como ferramenta essencial no pré-natal, permitindo a detecção precoce de malformações mesmo em fetos sem fatores de risco aparentes. O ecocardiograma fetal, geralmente realizado a partir da 18ª semana, apresenta elevada sensibilidade para identificar desde defeitos sutis até anomalias estruturais complexas. Além de possibilitar o rastreamento precoce, orienta condutas clínicas, planeja intervenções terapêuticas e fornece prognósticos mais precisos, contribuindo para melhores desfechos neonatais (Garcia et al., 2024).
O tratamento das CC evoluiu significativamente com técnicas cirúrgicas minimamente invasivas e manejo perioperatório aprimorado, que reduzem complicações e aceleram a recuperação. A detecção precoce permite o planejamento de abordagens individualizadas, incluindo intervenções cirúrgicas imediatas ou intrauterinas, aumentando a sobrevida e melhorando a qualidade de vida, consolidando avanços na medicina cardiovascular pediátrica (Alvarenga et al., 2024).
É fundamental considerar o acompanhamento prolongado e o manejo das possíveis complicações em pacientes com cardiopatias congênitas. Ao longo da vida, esses indivíduos podem apresentar problemas cardíacos residuais, desafios no desenvolvimento psicossocial e dificuldades na transição para a vida adulta, destacando a importância de um cuidado contínuo e integrado (Maximiliano et al., 2024).
A elevada morbimortalidade associada às CC, especialmente no período neonatal, aliada às diferenças regionais na detecção e manejo dessas malformações, evidencia a necessidade de investigações locais que subsidiem políticas de saúde direcionadas. No Maranhão, apesar da ocorrência significativa de casos, ainda há escassez de dados atualizados sobre o perfil epidemiológico das internações e óbitos por diferentes tipos de CC. Conhecer a distribuição por idade, sexo, tipo de malformação e desfechos clínicos permite identificar lacunas no diagnóstico, no acesso a intervenções terapêuticas e no acompanhamento prolongado, fornecendo subsídios para aprimorar estratégias de prevenção, cuidado e planejamento de recursos na saúde pública regional.
Nesse contexto, o presente estudo tem como objetivo geral analisar o perfil das internações e óbitos por diferentes malformações congênitas do coração no estado do Maranhão no período de 2015 a 2024, com objetivos específicos de descrever a frequência de internações e óbitos por tipo de cardiopatia congênita, faixa etária e sexo; identificar tendências temporais na ocorrência de internações e óbitos por CC ao longo do período estudado.
2 METODOLOGIA
Tratou-se de um estudo epidemiológico, documental, quantitativo, de base populacional, com delineamento descritivo e retrospectivo, cujo objetivo foi caracterizar o perfil das internações e óbitos por diferentes malformações congênitas do coração no estado do Maranhão, no período de 2015 a 2024.
De acordo com as Resoluções nº 466/12 e nº 510/16 do Conselho Nacional de Saúde (CNS), esta pesquisa não exigiu submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), por utilizar exclusivamente dados secundários de acesso público, sem identificação direta dos indivíduos. Ressaltou-se que todos os princípios éticos e legais inerentes à pesquisa científica foram observados.
Os dados sobre internações e óbitos por cardiopatias congênitas foram obtidos por meio do Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH/SUS) e do Sistema de Informação de Mortalidade (SIM), ambos disponibilizados pelo DATASUS (http://www.datasus.gov.br). Foram selecionadas todas as notificações de internações e óbitos de pacientes de todas as faixas etárias e ambos os sexos, residentes no estado do Maranhão, com diagnóstico principal de malformação congênita do coração, de acordo com a Classificação Internacional de Doenças – 10ª Revisão (CID-10). Registros com informações incompletas ou inconsistentes relevantes para a análise foram excluídos.
As variáveis analisadas incluíram ano da internação ou óbito, sexo, faixa etária, tempo de permanência hospitalar e custos hospitalares. Os dados extraídos foram organizados e tabulados em planilhas eletrônicas no software Microsoft Excel 2020®, garantindo a consistência e integridade das informações. A análise estatística consistiu em procedimentos descritivos, apresentando os resultados em valores absolutos, percentuais e séries temporais. Para facilitar a interpretação, os achados foram exibidos em tabelas e gráficos.
3 RESULTADOS
No período analisado, foram registradas 3.216 internações por malformações congênitas do coração no estado do Maranhão, correspondendo a uma média anual de aproximadamente 322 casos. No mesmo intervalo, foram notificados 423 óbitos, resultando em uma média de 42 mortes por ano.
O Gráfico 1 apresenta a evolução das notificações de internações e óbitos por malformações congênitas do coração no estado do Maranhão, no período de 2015 a 2024.
Gráfico 01- Evolução das notificações de Internações e óbitos por Malformações Congênitas do Coração no Maranhão, 2015-2024 (número de óbitos total=423; número de internação total=3.216)

Fonte: DATASUS-SIH/SIM
Observa-se que, ao longo da série temporal, o número de internações variou de forma oscilante até 2021, com discreta redução entre 2020 (233 casos 7,2%). A partir de 2022, nota-se um crescimento expressivo das internações, alcançando 395 (12,3%) registros em 2022 e atingindo o pico de 498(15,5%) em 2023, seguido por uma leve redução para 459 (14,3%) em 2024, representando um aumento de 82,1% em relação a 2015. Quanto aos óbitos, embora os números sejam menores em comparação às internações, a tendência também revela variações ao longo dos anos, oscilando entre 30 casos no ano de 2021 e 55 (13%) dos casos no ano de 2022, coincidindo com o início do aumento acentuado das internações.
A Tabela 1 apresenta o perfil das internações e óbitos por malformações congênitas do coração no estado do Maranhão, segundo a faixa etária e o sexo.
Tabela 01- Perfil das Internações e Óbitos por Malformações Congênitas do Coração no Estado do Maranhão entre 2015 e 2024.


Fonte: DATASUS-SIH/SIM
No que se refere às internações, observa-se um predomínio consistente de casos em crianças menores de 1 ano, que corresponderam, em média, a mais da metade das hospitalizações ao longo do período. Em 2015, essa faixa etária representava 56,3% das internações, mantendo-se acima de 50% até 2024 (51,4%). Nas demais faixas etárias, observa-se participação crescente dos grupos de 1 a 4 anos e 5 a 9 anos, sobretudo a partir de 2022, quando juntos passaram a representar quase 40% das internações. Já as faixas de 10 a 14 anos e 15 a 19 anos apresentaram participação reduzida ao longo da série, raramente ultrapassando 10% dos casos.
Quanto à distribuição por sexo, observou-se que, no total, 51,3% das internações ocorreram em meninos e 48,7% em meninas, não havendo, portanto, uma predominância absoluta entre os sexos. Em alguns anos, verificou-se maior frequência de internações entre meninos, como em 2020 (59,7%) e 2024 (55,1%); contudo, em outros períodos, o predomínio foi feminino, destacando-se 2016 (53,9%) e 2023 (55,6%).
Em relação aos óbitos hospitalares, a concentração também se deu em crianças menores de 1 ano, respondendo por mais de 70% das mortes em quase todos os anos analisados, atingindo 86,0% em 2024. Crianças de 1 a 4 anos apresentaram participação secundária, variando entre 6,5% e 20% das mortes, enquanto as demais faixas etárias contribuíram de forma esporádica e residual. No recorte por sexo, os óbitos também não apresentaram discrepâncias expressivas: 57,4% ocorreram em meninos e 42,6% em meninas, indicando apenas uma leve predominância masculina ao longo do período analisado. Em 2024, por exemplo, os meninos representaram 60% dos óbitos, padrão que se repetiu em outros momentos da série.
A Tabela 2 apresenta a média de permanência hospitalar das internações por malformações congênitas do coração no estado do Maranhão, no período de 2015 a 2024, distribuídos por faixa etária e sexo.
Tabela 02- Média de permanência das internações por malformações congênitas do coração no Maranhão, 2015-2024.

Fonte: DATASUS-SIH/SIM
Nota-se que em 2015, a média total era de 20,1 dias, caindo para 10,2 dias em 2024. Entre as faixas etárias, os pacientes de 1 a 4 anos apresentaram as maiores médias de permanência (13,8 dias em média), especialmente nos primeiros anos da série (24,7 dias em 2015). Já os adolescentes de 15 a 19 anos tiveram as menores médias (8,6 dias), refletindo internações mais breves. No recorte por sexo, não se observou diferença expressiva entre meninos e meninas. Enquanto os pacientes do sexo feminino apresentaram média de 13,99 dias de permanência, os do sexo masculino registraram 13,54 dias.
A Tabela 3 apresenta os custos hospitalares das internações por malformações congênitas do coração no estado do Maranhão, no período de 2015 a 2024, distribuídos por faixa etária e sexo.
Tabela 03- Custos hospitalares das internações por malformações congênitas do coração no Maranhão, 2015-2024.

Fonte: DATASUS-SIH/SIM
Observa-se um aumento expressivo dos custos totais ao longo dos anos, passando de R$ 1.407.161,70 em 2015 para R$ 3.773.618,54 em 2024, o que representa mais que o dobro do valor inicial. A partir de 2022, nota-se um salto acentuado nos gastos, especialmente com o registro de R$ 3.779.957,39 em 2022 e R$ 4.060.576,94 em 2023.
Em relação à faixa etária, o grupo de menores de 1 ano concentrou a maior parte dos custos em todos os anos analisados, atingindo R$ 1.815.697,65 em 2024. As faixas de 1 a 4 anos e 5 a 9 anos também apresentaram valores significativos, enquanto as faixas etárias mais avançadas registraram custos menores, acompanhando a menor frequência de internações.
Quanto ao sexo, verifica-se variação dos custos entre os anos, porém sem discrepância marcante. Em 2024, por exemplo, os gastos com pacientes masculinos (R$ 2.216.582,58) superaram os femininos (R$ 1.557.035,96), mantendo a tendência observada em parte da série histórica.
DISCUSSÃO
Os resultados deste estudo evidenciam um panorama relevante das internações e óbitos por malformações congênitas do coração no estado do Maranhão, entre os anos de 2015 e 2024. Observou-se um aumento expressivo tanto nas internações quanto nos custos hospitalares. Esses achados refletem não apenas a ampliação do diagnóstico e da notificação de casos, mas também a persistência do impacto das cardiopatias congênitas sobre a morbimortalidade infantil, especialmente em contextos de menor acesso a serviços especializados (Hillesheim; Nazário, 2020).
O aumento de 82,1% nas internações entre 2015 e 2024 sugere uma possível combinação de fatores, como o aprimoramento da vigilância epidemiológica, ampliação da rede de diagnóstico precoce e maior sobrevida dos recém-nascidos com malformações cardíacas. Estudos nacionais indicam que a melhoria na cobertura do pré-natal e o avanço das técnicas de ecocardiografia fetal têm contribuído para a identificação mais precoce dessas anomalias (Peres et al., 2023; Silva et al., 2025). No entanto, esse crescimento pode também refletir limitações no acompanhamento ambulatorial e na resolutividade das ações de atenção primária, o que resulta em maior demanda por internações hospitalares (Medeiros; Ferreira; Freitas, 2024; Neves; Freitas, 2025).
A análise por faixa etária reforça que as crianças menores de um ano concentram a maior parte das internações e dos óbitos, resultado compatível com a gravidade e a complexidade clínica das cardiopatias congênitas diagnosticadas no período neonatal. A alta vulnerabilidade dessa faixa etária deve-se, em parte, às limitações fisiológicas e à necessidade de intervenções cirúrgicas precoces (Soares, 2020; Meng et al., 2020). Ademais, a manutenção de percentuais superiores a 50% de internações em lactentes ao longo de toda a série temporal indica que as cardiopatias congênitas continuam sendo um importante causa de hospitalização e mortalidade infantil no Maranhão, alinhando-se ao padrão observado em outros estados brasileiros (Peres et al., 2023; Hillesheim; Nazário, 2020; Lima et al., 2025).
Os óbitos hospitalares apresentaram comportamento relativamente estável, com valores anuais variando entre 30 e 55 casos, o que corresponde a uma média de 42 mortes por ano. Embora os números sejam menores que os de internações, a letalidade ainda representa um desafio importante para os serviços de saúde. A concentração de mais de 70% das mortes em menores de um ano, chegando a 86% em 2024, revela a gravidade clínica e o risco elevado de desfecho desfavorável nessa população. Esse padrão é semelhante ao encontrado em estudos nacionais e internacionais, que destacam o primeiro ano de vida como o período de maior risco para mortalidade por cardiopatias congênitas, especialmente em locais com limitações na oferta de cirurgias cardíacas pediátricas e terapia intensiva neonatal (Florenzano et al., 2024; Hillesheim; Nazário, 2020; Soares et al., 2024; Weiliang; Jinxian; Xiaobo, 2020).
Em relação ao sexo, não se observaram discrepâncias significativas, ainda que os meninos tenham apresentado ligeira predominância tanto nas internações (51,3%) quanto nos óbitos (57,4%). Esse achado está de acordo com a literatura, que sugere uma tendência de maior frequência de determinadas cardiopatias congênitas em indivíduos do sexo masculino (Hillesheim; Nazário, 2020; Florenzano et al., 2024; Saggin et al., 2023). Entretanto, a ausência de diferença expressiva ao longo dos anos reforça que o risco é relativamente equilibrado entre os sexos, e que fatores genéticos, ambientais e socioeconômicos podem exercer papel mais relevante na determinação dos desfechos clínicos (Meng et al., 2020).
A análise da média de permanência hospitalar indica uma redução importante ao longo da década, passando de 20,1 dias em 2015 para 10,2 dias em 2024. Essa diminuição pode estar associada à modernização dos protocolos de tratamento, maior agilidade nos fluxos de encaminhamento e avanços tecnológicos na área da cardiologia pediátrica. Além disso, o aumento na oferta de serviços de alta complexidade em estados vizinhos pode ter contribuído para internações mais breves, com transferências para centros especializados (Fonseca et al., 2024; Selig, 2020). O grupo etário de 1 a 4 anos apresentou as maiores médias de permanência, possivelmente devido à realização de procedimentos cirúrgicos corretivos ou reintervenções nesse período. Já os adolescentes (15 a 19 anos) tiveram médias menores, refletindo casos de menor gravidade ou hospitalizações voltadas ao acompanhamento clínico (Souza et al., 2024).
No que se refere aos custos hospitalares, houve um aumento substancial das despesas associadas às internações por malformações cardíacas, com crescimento de mais de 160% entre 2015 e 2024. Esse aumento acompanha o crescimento do número de internações e reflete também o alto custo do cuidado especializado exigido por esses pacientes. Os gastos mais elevados foram observados no grupo de menores de um ano, coerentes com a necessidade de intervenções complexas, uso prolongado de unidades de terapia intensiva e maior consumo de recursos hospitalares. A elevação significativa dos custos a partir de 2022 pode estar relacionada à retomada dos atendimentos eletivos pós-pandemia de COVID-19, além da atualização dos valores de procedimentos e insumos hospitalares (Barros et al., 2024).
A variação dos custos por sexo mostrou discreta predominância dos pacientes masculinos nos gastos totais, o que acompanha a leve predominância observada nas internações. Contudo, a diferença não é suficiente para indicar uma desigualdade de investimento ou tratamento entre os sexos. O que se observa é um aumento geral da carga financeira imposta ao sistema de saúde, o que reforça a necessidade de estratégias voltadas à prevenção, diagnóstico precoce e manejo integral dessas condições desde o pré-natal (Soares et al., 2025).
De modo geral, os achados deste estudo evidenciam a relevância das malformações congênitas do coração como problema de saúde pública no Maranhão, tanto pelo impacto sobre a morbimortalidade infantil quanto pelo peso econômico sobre o sistema hospitalar.
4 CONCLUSÃO
O estudo permitiu caracterizar o perfil das internações e óbitos por malformações congênitas do coração no estado do Maranhão entre 2015 e 2024, evidenciando variações anuais e um aumento expressivo a partir de 2022. As internações concentraram-se principalmente em crianças menores de um ano, grupo que apresentou maior vulnerabilidade e frequência de desfechos fatais, refletindo a gravidade das cardiopatias congênitas nessa faixa etária. A distribuição por sexo foi equilibrada, com discreta predominância de meninos, sem diferenças significativas entre os gêneros.
A tendência crescente das internações, acompanhada do aumento dos custos hospitalares, pode indicar maior complexidade dos casos e demanda por maior capacidade assistencial especializada. Embora o tempo médio de permanência hospitalar tenha diminuído, o impacto financeiro e clínico das cardiopatias congênitas permanece relevante, exigindo aprimoramento contínuo dos serviços de diagnóstico e tratamento precoce.
De forma geral, os achados maranhenses acompanham o cenário nacional, reforçando a importância de políticas públicas voltadas à triagem neonatal, à ampliação da rede de cardiologia pediátrica e ao fortalecimento da atenção materno-infantil. A consolidação de estratégias integradas e preventivas é essencial para reduzir a mortalidade e melhorar a qualidade de vida das crianças acometidas por malformações cardíacas congênitas.
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1Médica. Pediatra. Docente do Curso de Residência Médica em Pediatria pela UFMA. Mestrado em Saúde Materno- Infantil e Doutorado em Saúde Coletiva. Campus São Luís e-mail: rachelhaickel@gmail.com
2Discente do Curso de Residência Médica em Pediatria pela UFMA Campus São Luís e-mail: ciro_bb@hotmail.com
