PERCEPÇÃO DOS PROFISSIONAIS SOBRE A PRÁTICA DA HUMANIZAÇÃO NA ESTRATÉGIA SAÚDE DA FAMÍLIA

PROFESSIONALS’ PERCEPTION ABOUT THE PRACTICE OF HUMANIZATION IN THE FAMILY HEALTH STRATEGY

PERCEPCIÓN DE LOS PROFESIONALES SOBRE LA PRÁCTICA DE LA HUMANIZACIÓN EN LA ESTRATEGIA DE SALUD DE LA FAMILIA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202508242227


Anna Nunes Pereira Neta Farias1
Leila Rute Oliveira Gurgel do Amaral2


RESUMO

O objetivo deste artigo é conhecer a percepção dos profissionais que atuam no Centro de Saúde da Comunidade Aureny II sobre a prática da humanização na Estratégia de Saúde da Família (ESF), no município de Palmas-TO. Trata-se de um estudo qualitativo em saúde, composto por 10 (dez) profissionais da ESF. A coleta de dados foi realizada no período de abril  a junho de 2016 por meio de uma entrevista semiestruturada contendo questões relacionadas ao processo de trabalho das equipes. Todos os profissionais conceituaram humanização como forma de tratar o usuário com responsabilidade, ouvir as queixas e realizar a escuta qualificada. O relacionamento com o usuário, às vezes é permeado de conflitos. Uma das facilidades encontradas pelos entrevistados é a liberdade para realizar os trabalhos na comunidade, seja nas escolas ou nos grupos de hipertensos e diabéticos. Quanto à humanização na Estratégia de Saúde da Família, os profissionais relataram que poderia ser melhor e de acordo com os preceitos da Política Nacional de Humanização (PNH). Através do estudo e diante das necessidades enfrentadas pelos profissionais, faz-se necessário a busca por medidas eficazes que atuem diretamente nos problemas evidenciados neste estudo.

PALAVRAS-CHAVE: Estratégia Saúde da Família; equipes; humanização.

ABSTRACT

The objective of this article is to know the perception of professionals who work at the Aureny II Community Health Center on the practice of humanization in the Family Health Strategy (ESF), in the city of Palmas-TO. This is a qualitative study in health, composed of 10 (ten) FHS professionals. Data collection was carried out from April to June 2016 through a semistructured interview containing questions related to the teams’ work process. All professionals conceptualized humanization as a way of treating the user responsibly, listening to complaints, performing qualified listening. The relationship with the user is sometimes permeated with conflicts. One of the facilities found by the interviewees is the freedom to carry out work in the community, whether in schools or in groups of hypertensive and diabetic patients. As for humanization in the Family Health Strategy, professionals reported that it could be better and in accordance with the precepts of the National Humanization Policy (PNH). Through the study and in view of the needs faced by professionals, it is necessary to search for effective measures that act directly on the problems highlighted in this study.

KEYWORDS: Family Health Strategy; teams; humanization.

RESUMEN

El objetivo de este artículo es conocer la percepción de los profesionales que actúan en el Centro de Salud Comunitario Aureny II sobre la práctica de la humanización en la Estrategia de Salud de la Familia (ESF), en la ciudad de Palmas-TO. Se trata de un estudio cualitativo en salud, compuesto por 10 (diez) profesionales de la ESF. La recolección de datos se llevó a cabo de abril a junio de 2016 a través de una entrevista semiestructurada que contenía preguntas relacionadas con el proceso de trabajo de los equipos. Todos los profesionales conceptualizaron la humanización como una forma de tratar al usuario con responsabilidad, escuchando las denuncias, realizando una escucha cualificada. La relación con el usuario a veces está impregnada de conflictos. Una de las facilidades encontradas por los entrevistados es la libertad para realizar el trabajo en la comunidad, ya sea en escuelas o en grupos de hipertensos y diabéticos. En cuanto a la humanización en la Estrategia de Salud de la Familia, los profesionales relataron que podría ser mejor y de acuerdo con los preceptos de la Política Nacional de Humanización (PNH). A través del estudio y en vista de las necesidades que enfrentan los profesionales, es necesario buscar medidas efectivas que actúen directamente sobre los problemas destacados en este estudio.

PALABRAS CLAVE: Estrategia de Salud de la Familia; equipo; humanización.

INTRODUÇÃO 

A Política Nacional de Humanização (PNH) existe desde 2003, sendo fruto de um debate entre sanitaristas, gestores e profissionais de saúde, para efetivar os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS) no cotidiano das práticas de atenção e gestão, qualificando a saúde pública no Brasil e incentivando trocas solidárias entre gestores, trabalhadores e usuários.

A PNH deve se fazer presente e estar inserida em todas as políticas e programas do SUS. Promover a comunicação entre estes três grupos pode provocar uma série de debates em direção a mudanças que proporcionem melhor forma de cuidar e novas formas de organizar o trabalho. A humanização é a inclusão de todos os sujeitos, valorização dos usuários, trabalhadores e gestores no processo de produção de saúde. Valorizar os sujeitos é oportunizar uma maior autonomia, a ampliação da sua capacidade de transformar a realidade em que vivem, através da responsabilidade compartilhada, da criação de vínculos solidários, da participação coletiva nos processos de gestão e de produção de saúde.1 

A humanização representa um conjunto de iniciativas que visa à produção de cuidados em saúde capaz de conciliar a melhor tecnologia com promoção de acolhimento, respeito ético e cultural ao paciente. Neste sentido, a humanização pode ser entendida como a maneira de ver e considerar o ser humano a partir de uma visão global, buscando superar a fragmentação da assistência2. 

Conforme o que foi mencionado anteriormente, o trabalho da equipe  de saúde da família numa perspectiva de atuação interdisciplinar, reconhece e acolhe as particularidades e a valorização do conhecimento com o objetivo de oferecer um cuidado integral à saúde. Diante disso, salienta-se que cada profissional quando interligados favorecer a integralidade do atendimento e a humanização da assistência.

As diretrizes operacionais da ESF revelam muitos pontos de convergência com aquelas referidas na PNH, a saber: ênfase no trabalho em equipe multiprofissional, incentivo da participação comunitária, baseada no princípio de corresponsabilidade e maior aproximação com a realidade da população, vinculada à identificação de suas necessidades3

Atualmente, a maioria das instituições de saúde sofre com a escassez de recursos materiais e humanos para os profissionais trabalharem, além da falta de exames e procedimentos específicos, número de vagas insuficientes no atendimento especializado, enfim, diversos problemas que dificultam o atendimento ao usuário. Diariamente, a mídia tem noticiado o caos encontrado nos serviços de saúde, desde a insatisfação dos usuários com o atendimento recebido,  profissionais estressados, devido à grande sobrecarga de trabalho, a falta de compromisso da gestão, as pressões por parte da chefia e a falta de um adequado acolhimento. Tal realidade aponta para a urgência de melhoria na qualidade dos serviços de saúde e a corresponsabilização, com a responsabilidade partilhada entre os trabalhadores, gestores e usuários. 

A humanização está articulada como uma perspectiva biopsicossocial de atendimento ao usuário e, portanto, vincula-se aos processos de saúde – doença. A saúde está intimamente associada com os princípios propostos pela PNH, cujo descumprimento gera diversos tipos de adoecimentos para os trabalhadores, gestores e usuários. O fato de alguns profissionais não atuarem dentro dessa perspectiva biopsicossocial reflete em práticas equivocadas, distantes do processo de construção da saúde e, por outro lado, alguns centros de saúde da comunidade ainda apresentam práticas desvinculadas e distantes do modelo proposto pelo Ministério da Saúde, tais como falta de espaços instituídos de diálogos entre os servidores da rede e usuários, deficiência na realização do acolhimento, na gestão e na escuta qualificada, profissionais despreparados e com perfil inadequado para atuar na saúde da família, usuários insatisfeitos e estrutura física inadequada, provocando transtornos no processo de trabalho da equipe. Através dessas considerações, tornou-se prioridade realizar este trabalho sobre a humanização na ESF. 

Levando em consideração os aspectos já elencados, o objetivo deste estudo foi analisar a percepção dos profissionais de saúde sobre a prática da humanização na Estratégia Saúde da Família. 

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo descritivo, exploratório, de abordagem qualitativa em saúde4,5. A abordagem qualitativa promove uma aproximação fundamental e de intimidade entre sujeito e objeto, uma vez que ambos são da mesma natureza6.

A investigação foi  concretizada nos meses de abril a junho de 2016, no Centro de Saúde da Comunidade Aureny II. A amostra do estudo foi composta por 1 (uma) médica, 1 (uma) enfermeira, 1 (uma) técnica de enfermagem, 1 (um) cirurgião-dentista, 1 (uma) assistente de saúde bucal e 5 (cinco) agentes comunitárias de saúde; uma agente se recusou a participar da pesquisa. Como critério de inclusão, foram definidos: aqueles profissionais que atuam no

Centro de Saúde da Comunidade Aureny II; e que fazem parte da Estratégia de Saúde da Família; os profissionais que não estão de licença médica ou maternidade; os que aceitarem participar da investigação; e aqueles que não estiverem no período de férias. Como critério de exclusão, foram definidos: profissionais que estão em férias; aqueles que estão de atestado médico ou de licença-maternidade; profissionais que se recusaram a participar da pesquisa; profissionais que não são da ESF e que não fazem parte da Equipe.

Para a coleta de dados, utilizou-se uma entrevista semiestruturada. A abordagem dos sujeitos foi realizada pela pesquisadora, que, após esclarecimento sobre o objetivo da pesquisa e  a manifestação de interesse dos voluntários, combinou o dia e o horário para a entrevista. Todas as entrevistas foram efetivadas nos consultórios, sala de reunião e de procedimentos  dos profissionais, com vista a preservar a privacidade e o anonimato dos entrevistados. Para possibilitar a íntegra dos depoimentos, os dados foram gravados e   transcritos pela pesquisadora, providência que permitiu  valorizar  o significado das falas dos participantes. Os discursos foram identificados pelas siglas E1, E2, E3, E4, E5, E6, E7, E8, E9, E10 (Entrevistado). 

Os dados obtidos foram analisados por meio da análise de conteúdo7. Inicialmente, foi promovida a pré-análise, isto é, as leituras flutuantes e exaustivas dos dados coletados, procurando-se delinear o tema presente no texto, com idas e vindas ao material coletado. A  segunda fase, a análise temática do conteúdo (fase exploratória), baseou-se nas representações e argumentos elucidados. Nessa fase, buscou-se organizar os dados em unidades de contexto  e de registro e se  tentou demarcar os núcleos de sentido e suas principais categorias: conceito de humanização, relacionamento com o paciente, relacionamento entre os membros da equipe, facilidades encontradas, dificuldades encontradas e humanização na ESF. Após realizada a seleção das categorias, iniciou-se a descrição e a discussão dos resultados encontrados. 

Esta pesquisa foi submetida e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa Com Seres Humanos da Universidade Federal do Tocantins (UFT),  por meio do Parecer 114 de 12 de Dezembro de 2014.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Categoria 1 – Conceito de humanização 

Essa categoria refere-se aos significados expressos pelos informantes sobre o conceito de humanização. Quando aludem a esse conceito, os profissionais relataram que, ao ouvirem pela primeira vez a palavra humanização, pensaram no atendimento humanizado ao usuário, em se colocar no lugar dele. Os conceitos apontados estão em consonância com a literatura.

Percebe-se isso, através dos comentários abaixo:

‘’Imaginei que era uma coisa muito boa, sim, colocada em prática,   seria muito bom prá todo mundo’’ […] (E6)

‘’Tem que ser humano, se colocar no lugar dele. Eu me senti mais preparada… ‘’[…] (E8)

É o atendimento, entrada e saída do paciente no seu atendimento, onde ele está sendo atendido. É a forma que ele é atendido na hora da chegada e a saída dele no atendimento […] (E9)

A gente tem que tratar as pessoas conforme, né?… Assim elas merecem, conforme a gente gostaria de ser tratado, né? Eu acho que a humanização assim é tudo,  né?… na nossa profissão […] (E4) 

De acordo com o Dicionário da Língua Portuguesa, a humanização é o ato ou efeito de humanizar, que, por sua vez, significa tornar humano; dar condição humana; tornar benévolo, afável, tratável; tornar-se humano; humanar-se8. A humanização está associada à qualificação da relação entre o profissional da saúde e o sujeito que procura o serviço de saúde. É como se fosse o encontro entre sujeitos no e pelo ato de cuidar, ou seja, o encontro de subjetividades9.

É importante destacar que a PNH tem por objetivo qualificar práticas de gestão e de atenção à saúde, e isto, significa para a PNH, a produção de novas atitudes por parte de trabalhadores, gestores e usuários, por meio do método próprio desta política, que é o método da tríplice inclusão em todos os espaços de saúde10. 

É recorrente as falas destacarem  práticas de desumanização, o que entende-se como o oposto da humanização, e isto remete às formas precárias de condições e organização do trabalho em saúde10.

A PNH deve ser compreendida como política transversal no SUS, que não se resume em “ações humanitárias”, mas como filosofia prática, surge da iniciativa mais integral no cuidado em saúde pública, novos modos de fazer, que passam a refletir práticas de atenção e gestão da saúde, alimentadas por compromissos éticos e políticos, construídos coletivamente10.

A humanização na ESF, é realizada pela equipe multiprofissional, de maneira distinta e individualizada11Para desenvolver uma prática humanizada na ESF é fundamental que o trabalhador de saúde tenha um olhar voltado para atender o usuário de maneira holística, integral, colocar-se no lugar do próximo e vê-lo como um todo, como um ser que precisa de carinho, cuidados, atenção, independentemente da sua situação socioeconômica, cultural ou religiosa. Podemos perceber isso por meio do relato abaixo:

Colocar no lugar do paciente, colocar o coração antes da ação, o vê chegando na unidade e, abraçar a causa dele, Dar um bom dia, boa tarde, colocar a cadeira para ele sentar. Quando eu fiz o curso  de formação  pra  agente, os tutores lá nos preparou pra que a gente fosse assim mais aberto, conversasse mais uns com os outros. Tem que ser humano, se colocar no lugar dele. Eu me senti mais preparada […] (E8) 

Através das consideração supracitadas, a tecnologia deverá ser centrada no usuário paciente: colocar no lugar do paciente (….) tem que ser humano (…) é necessário que os serviços sejam gerenciados de modo mais coletivo, capazes de incorporar processos de trabalho cada vez mais partilhados, que busque uma organização coerente com uma lógica usuário-centrada, que permita construir cotidianamente vínculos e compromissos estreitos entre trabalhadores e os usuários, conforme suas necessidades individuais e coletivas11. 

A formação dos profissionais no serviço sobre a importância da humanização no atendimento ao usuário é fundamental. Os profissionais precisam estar preparados, capacitados para atender de maneira integral os usuários que procuram os serviços de saúde. 

Na perspectiva dos processos de formação isto redundaria em exercício de ação pedagógica “transmissionista”, prescritiva, com oferta de estratégias de capacitação e treinamento. Para se ter este efeito – correspondência entre a ação e aquilo que se toma como “o” certo – a ação educativa passa a se referir como capacitação, igualando-se à transferência de informações para que os “descapacitados” passem a ter determinadas capacidades; na mesma direção, se “treinaria” os trabalhadores para que repitam e se exercitem o modo correto de fazer. Para aqueles que, mesmo assim, não se enquadram a esta normalização, a oferta é a reciclagem: remodelação dos sujeitos. De qualquer maneira, a formação torna-se, assim, correção  daqueles trabalhadores de saúde supostamente desumanos: formar na humanização teria este sentido de “humanizar os desumanos”. Esta demarcação é importante para se distinguir processos de formação mais tradicionais, daqueles que a PNH tem buscado construir em consonância com seus pressupostos ético-políticos. 12

Categoria 2 – Relacionamento com o usuário 

A relação entre os trabalhadores e os pacientes  representa um desafio para a reorganização dos serviços de saúde pública.13 A mudança no processo de trabalho em saúde só é possível se houver a compreensão de cada trabalhador sobre o modo de produzir saúde e de aderir à nova forma de agir na relação com o usuário14.

‘’Olha, é por dia, tem dias que isso aqui é uma maravilha, mas, tem outros dias que é um quebra-pau, ali na frente, você precisa ver, é uma graça  […] (E7)’

De acordo com o relato acima, as rodas de conversa, o incentivo às redes e movimentos sociais e a gestão dos conflitos gerados pela inclusão das diferenças são ferramentas experimentadas nos serviços de saúde a partir das orientações da PNH que já apresentam resultados positivos. A inclusão dos trabalhadores na gestão é fundamental para que eles, no dia a dia, reinventem seus processos de trabalho e sejam agentes ativos das mudanças no serviço de saúde. Incluir usuários e suas redes sócio-familiares nos processos de cuidado é um poderoso recurso para a ampliação da corresponsabilização no cuidado de si.15 A PNH estimula a comunicação entre gestores, trabalhadores e usuários para construir processos coletivos de enfrentamento de relações de poder, trabalho e afeto que muitas vezes produzem atitudes e práticas desumanizadoras que inibem a autonomia e a corresponsabilidade dos profissionais de saúde em seu trabalho e dos usuários no cuidado de si.15

Os profissionais de saúde devem conquistar a confiança da população, ter coragem para entrar na realidade de cada família, dialogar com as diferenças e compreender as singularidades humanas, sem preconceitos  ou verdades.16 

O profissional de saúde deve procurar manter uma relação humanizada com o paciente. O toque, uma palavra de carinho, ouvir, conversar, ter paciência, são fatores que cooperam para melhorar o desempenho das atividades dos profissionais, além de estabelecer uma relação de confiança e também de credibilidade. O desgaste profissional, a sobrecarga de trabalho, o estresse, se não bem administrados, interferem muito na relação profissional e usuário: 

Aqui a gente consegue se dar bem. A relação do administrativo com o usuário é boa, mas, às vezes, ali fica muito cheio, tem paciente que é grosso, o pessoal tá cansado, aquele tanto de gente ali conversando acaba tendo algum estresse, mas, a maioria das vezes é muito boa  […] (E3).

Quando se trata de relacionamento entre profissional e usuário, é importante entender a importância do acolhimento. Acolher é reconhecer o que o outro traz como legítima e singular necessidade de saúde. O acolhimento deve comparecer e sustentar a relação entre equipes/serviços/usuários/populações. Como valor das práticas de saúde, o acolhimento é construído de forma coletiva, a partir da análise dos processos de trabalho e tem como objetivo a construção de relações de confiança, compromisso e vínculo entre as equipes/serviços, trabalhador/equipes e usuário com sua rede socioafetiva.17 

Categoria 3 – Relacionamento entre os membros da equipe

Na ESF, o trabalho em equipe é considerado um dos pilares para a mudança do atual modelo hegemônico em saúde, com interação constante e intensa de trabalhadores de diferentes categorias e com diversidade de conhecimentos e habilidades capazes de interagir entre si, para que o cuidado do usuário seja ético-político, que organiza a intervenção técnico-cientifíca.18.

Nessa categoria, retrata-se o relacionamento entre os membros que compõem a equipe da ESF, o que constitui um desafio na reestruturação da atenção básica em saúde. Para humanizar os serviços de saúde, é imprescindível o bom relacionamento entre  os trabalhadores de saúde. O relacionamento é bom, como foi referido nas falas dos entrevistados:

‘’Eu acho bom, é legal, a gente conversa sobre os problemas de alguns pacientes, é um bom relacionamento  […] ( E1)’’

‘’Eu falo que aqui é a minha família. Então, graças a Deus, eu dou bem com todos, pra mim, são pessoas maravilhosas. Aqui nós somos muito unidos  […] (E3)’’

Deve-se considerar que uma equipe é composta por pessoas que trazem especificidades próprias como:gênero, inserção social, tempo e vínculo de trabalho, experiências profissionais e de vida, formação e capacitação, visão de mundo, diferenças salariais e, por fim, interesses próprios. Essas diferenças exercem influência sobre esse processo de trabalho, uma vez que estão presentes no agir de cada profissional, mas não inviabilizam o exercício da equipe.19 Para reorganizar o processo de trabalho das equipes e garantir o cumprimento dos princípios da integralidade, acessibilidade e universalidade, os membros das Equipes de Saúde da Família, devem manter relacionamentos saudáveis com todos os colegas de trabalho.

Categoria 4 – Facilitadores no exercício da humanização 

O profissional que atua na ESF tem toda a autonomia para realizar as suas atividades, desde que não prejudique outra pessoa. Antes da realização dessas atividades, cabe ao profissional fazer um planejamento em equipe multiprofissional. Os profissionais têm o direito de desfrutar de suas liberdades e, na prática da autonomia, estão sujeitos às limitações heterônomas, desde que não sejam espúrias, sob o enfoque ético, que visem a assegurar o respeito dos direitos e liberdades dos demais e satisfazer às justas exigências da moral, da bioética, da ordem pública e do bem-estar social.20

Neste sentido, como categoria relevante encontrada neste estudo foram as facilidades encontradas pelos profissionais pesquisados para realizar o trabalho na ESF. Um dos fatores que facilita a humanização na ESF, segundo uma participante desta pesquisa, é a liberdade para realizar o trabalho, principalmente com grupos de hipertensos, diabéticos, gestantes, palestras educativas na creche, na escola, como citado no relato da entrevistada abaixo:

A gente é livre prá fazer o trabalho da gente, você escolhe o tema da palestra, você quer organizar alguma coisa, você consegue organizar  […] (E1)’’

A autonomia é considerada pelos sujeitos da pesquisa como um dos fatores que facilitam  a humanização. Os profissionais devem ter autonomia para tratar de maneira humanizada os usuários que procuram os serviços de saúde. Praticar o exercício da autonomia precisa ser altamente analisado por profissionais competentes. Muitos profissionais investem o maior tempo de seu trabalho na resolução de questões administrativas, quando não estabelecem nenhum vínculo com o usuário, o que gera uma falsa autonomia.21

Qualquer mudança na gestão e atenção é mais concreta se construída com a ampliação da autonomia e vontade das pessoas envolvidas, que compartilham responsabilidades. Os usuários não são só pacientes, os trabalhadores não só cumprem ordens: as mudanças acontecem com o reconhecimento do papel de cada um. Um SUS humanizado reconhece cada pessoa como legítima cidadã de direitos e valoriza e incentiva sua atuação na produção de saúde.15 

Diante disso, é importante fomentar a construção de autonomia e protagonismo dos sujeitos, fortalecer o controle social com caráter participativo, democratizar as relações de trabalho e valorizar os profissionais de saúde. 

Categoria 5 – Dificuldades encontradas 

Nessa categoria, as principais dificuldades encontradas pelos profissionais são inúmeras: a estrutura do centro de saúde  é precária, pequena, não tem espaço para as duas equipes, de modo que fica difícil a  execução dos trabalhos em grupo. Para efetivar essas ações é preciso ter espaço suficiente para realizar rodas de conversa, reuniões de equipe, além do atendimento médico e de enfermagem. Isso pode ser percebido através dos relatos dos profissionais:

‘’As dificuldades às vezes é a questão da estrutura, e também, igual eu te   falei, alguma pessoa não trata bem o paciente ‘’[…] (E3)

Espaço que a gente não tem, é pouco espaço aqui, a gente desenvolve muita atividade com a comunidade, não tem espaço na unidade, a gente tem que tá procurando fora para realizar […] (E5)

Uma questão importante, referente à consolidação da ESF, está ligada às condições gerais do espaço físico das unidades de saúde da família. Um ambiente terapêutico deve propiciar conforto, bem-estar e a interação entre usuários, família e equipe, por meio do acolhimento e do estabelecimento de vínculo entre os envolvidos, a fim de resgatar valores de solidariedade, respeito e corresponsabilidade com o outro.22

Categoria 6 – Humanização na estratégia saúde da família

A ESF constitui um pilar essencial na construção de novo modelo de atenção à saúde, que é a humanização. Um dos principais objetivos dessa estratégia é criar vínculos entre os profissionais e usuários, através da corresponsabilidade, a fim de envolver cada usuário na resolução dos problemas de saúde.23

Ao perguntar aos profissionais como eles veem a humanização na ESF, alguns deles responderam que está tudo bem, contudo, o atendimento ao usuário poderia ser melhor. Pode-se ilustrar essa percepção pela fala de alguns dos profissionais:

As pessoas são tratadas com bastante humanização. Mas, poderia ser mais. Eu acho que deveria ser melhor, ainda não está. Tá longe ainda dos 100%.

Está melhor do que já teve, né?… mas ainda não está o suficiente  […] (E1)

Às vezes, é deficiente. Todo mundo que trabalha tem que tratar o paciente desde a hora que ele chega ali na recepção, até aqui, tem hora que falta um pouco de humanização[…] (E2)

Eu vejo que é aplicada a humanização aqui, todo mundo faz sua parte, o acolhimento poderia ser melhor, poderia, mas todo mundo faz a sua parte de humanização […] (E6)

‘’Hoje , ela tá boa, ela poderia estar melhor, mas, ela hoje está boa. Já dá para andar, mas antes ela já teve muito ruim’’ […] (E8)

“Deve ser tratado com mais respeito, mais dignidade, com mais humanidade, eu vejo muito o lado do paciente, como fosse meu lado também’’  […] (E10)

Segundo os profissionais entrevistados, a humanização na ESF é fundamental, porque lida diretamente com o ser humano que procura a unidade para resolver os problemas de saúde e espera do profissional atendimento acolhedor e humanizado. Sabe-se que muitos profissionais não têm perfil para atuar na Atenção Primária à Saúde, não gostam do que fazem e estão ali porque não encontraram outro vínculo empregatício. Por outro lado, o atendimento às vezes está voltado para o modelo biomédico e não para o atendimento biopsicossocial da pessoa como um todo. A humanização na Estratégia de Saúde da Família, busca fortalecer o trabalho em equipe multiprofissional, fomentando a transversalidade e a grupalidade; construção de autonomia e protagonismo dos sujeitos e coletivos; na co-responsabilização desses sujeitos nos processos de gestão e atenção e também no fortalecimento do controle social.24

Conclusão

O desenvolvimento desta pesquisa trouxe várias  reflexões  acerca da PNH como política transversal no SUS, principalmente a diretriz do acolhimento, além da integralidade da atenção e dos vários aspectos abordados, tais como o significado de humanização, as dificuldades e facilidades apontadas para efetivar as atividades no âmbito da Atenção Primária, a humanização no atendimento ao usuário e o relacionamento entre usuários,  trabalhadores e gestores. 

Diante do que foi mencionado, a humanização não pode ser vista como programa, mas como política pública que atravessa as diferentes instâncias do SUS, incluindo os gestores, trabalhadores e usuários. Destacando a sua potência no que tange a contribuir para processos de trabalhos mais significativos para todos os envolvidos e com maior impacto no território e na vida do usuário. Porém observa-se a fragilidade e ausência de ações que de fato priorize a implementação e fortalecimento da PNH no cotidiano desses serviços. 

Observou-se compreensão, embora simplista, do significado de humanização, sendo evidenciada, principalmente, a relação do profissional com o acolhimento e a necessidade de se colocar no lugar do usuário. Além disso, a ambiência foi apontada como aspecto importante para os trabalhadores de saúde. 

Este estudo mostrou diversas situações que interferem no processo de trabalho dos profissionais da ESF e destaca-se a necessidade de implementação de políticas públicas e intervenções  no sentido de cooperar para o aprimoramento da PNH  no âmbito da Estratégia de  Saúde da Família. Os profissionais perceberam que a humanização na ESF é fundamental porque lida diretamente com o ser humano e  que espera do profissional atendimento humanizado.

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1Enfermeira, formada pela Universidade Católica de Goiás, Especialista em Saúde da Familia com complementação em Docência Superior; Gerontología Social; Cuidado Pré-natal na Atenção Primária à Saúde; Gestão das Clínicas nas Regiões de Saúde; Doenças Crônicas na Atenção Primária à Saúde; Mestre em Ciências da Saúde pela Universidade Federal do Tocantins.
2Docente, psicóloga, formada pela Universidade Estadual de Londrina (1995), Mestre em Psicologia pela Universidade Estadual Paulista- UNESP (2003), Doutora em Ciências pela Universidade de São Paulo- USP (2008) e pós-doutora em Psicologia da Educação pela Universidade Estadual Paulista- UNESP (2014).