PANORAMA EPIDEMIOLÓGICO DA LEISHMANIOSE TEGUMENTAR EM PORTO VELHO (2020-2024): DESAFIOS E ESTRATÉGIAS DE CONTROLE EM SAÚDE PÚBLICA

EPIDEMIOLOGICAL OVERVIEW OF CUTANEOUS LEISHMANIASIS IN PORTO VELHO (2020-2024): CHALLENGES AND CONTROL STRATEGIES IN PUBLIC HEALTH

PANORAMA EPIDEMIOLÓGICO DE LA LEISHMANIASIS CUTÁNEA EN PORTO VELHO (2020-2024): DESAFÍOS Y ESTRATEGIAS DE CONTROL EN SALUD PÚBLICA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202511120820


Ana Karla Conceição Araújo1
Daisy Pamella Lima dos Santos Fantin1
Hellen Caroline Almeida dos Santos1
Naama Bazilio de Souza Correa1
Saara Neri Fialho1


RESUMO

Objetivo: Analisar o panorama epidemiológico da leishmaniose tegumentar americana (LTA) em Porto Velho, Rondônia, entre 2020 e 2024, integrando dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN/DATASUS) e evidências científicas recentes sobre determinantes ambientais e sociais. Métodos: Estudo descritivo e exploratório, com abordagem quantitativa e qualitativa, realizado por meio de revisão integrativa da literatura (PubMed, SciELO e LILACS, 2020–2025) e análise de dados secundários do SINAN/DATASUS referentes aos casos de LTA em Porto Velho e Rondônia (2020–2024). Resultados: Foram registrados 536 casos confirmados em Porto Velho, com pico em 2021 e redução em 2024. Rondônia manteve média anual superior a 700 casos, confirmando caráter endêmico. Nacionalmente, a Região Norte apresentou a maior carga de notificações. A literatura indicou associação entre incidência da doença e fatores como desmatamento, urbanização desordenada e vulnerabilidade social, além da importância dos Agentes Comunitários de Saúde e de Endemias na vigilância ativa e no diagnóstico precoce. Conclusão: A LTA permanece como problema relevante de saúde pública em Rondônia. É essencial fortalecer a vigilância epidemiológica, investir na capacitação contínua de profissionais e implementar políticas públicas voltadas à realidade amazônica, visando o controle sustentável da doença e a redução de sua carga social.

Palavras-chave Leishmaniose tegumentar americana, Epidemiologia, Vigilância em saúde, Amazônia, Capacitação profissional.

ABSTRACT

Objective: To analyze the epidemiological panorama of American cutaneous leishmaniasis (ATL) in Porto Velho, Rondônia, between 2020 and 2024, integrating data from the Notifiable Diseases Information System (SINAN/DATASUS) and recent scientific evidence on environmental and social determinants. Methods: Descriptive and exploratory study, with a quantitative and qualitative approach, carried out through an integrative literature review (PubMed, SciELO, and LILACS, 2020–2025) and analysis of secondary data from SINAN/DATASUS regarding ATL cases in Porto Velho and Rondônia (2020–2024). Results: A total of 536 confirmed cases were recorded in Porto Velho, peaking in 2021 and decreasing in 2024. Rondônia maintained an annual average of over 700 cases, confirming its endemic nature. Nationally, the North Region had the highest notification burden. The literature indicates an association between disease incidence and factors such as deforestation, uncontrolled urbanization, and social vulnerability, as well as the importance of Community Health Agents and Endemic Disease Agents in active surveillance and early diagnosis. Conclusion: ACL remains a significant public health problem in Rondônia. It is essential to strengthen epidemiological surveillance, invest in ongoing professional training, and implement public policies tailored to the Amazonian reality, aiming for sustainable disease control and reduction of its social burden.

Keywords: American cutaneous leishmaniasis, Epidemiology, Health surveillance, Amazon, Professional training.

RESUMEN

Objetivo: Analizar el panorama epidemiológico de la leishmaniasis cutánea americana (LTA) en Porto Velho, Rondônia, entre 2020 y 2024, integrando datos del Sistema de Información de Enfermedades de Notificación Obligatoria (SINAN/DATASUS) y evidencia científica reciente sobre determinantes ambientales y sociales. Métodos: Estudio descriptivo y exploratorio, con enfoque cuantitativo y cualitativo, realizado mediante revisión bibliográfica integradora (PubMed, SciELO y LILACS, 2020-2025) y análisis de datos secundarios del SINAN/DATASUS sobre casos de LTA en Porto Velho y Rondônia (2020-2024). Resultados: Se registraron 536 casos confirmados en Porto Velho, con un pico en 2021 y una disminución en 2024. Rondônia mantuvo un promedio anual de más de 700 casos, lo que confirma su naturaleza endémica. A nivel nacional, la Región Norte tuvo la mayor carga de notificación. La literatura ha indicado una asociación entre la incidencia de la enfermedad y factores como la deforestación, la urbanización descontrolada y la vulnerabilidad social, así como la importancia de los Agentes Comunitarios de Salud y los Agentes de Enfermedades Endémicas en la vigilancia activa y el diagnóstico precoz. Conclusión: La LCA sigue siendo un problema importante de salud pública en Rondônia. Es fundamental fortalecer la vigilancia epidemiológica, invertir en la formación profesional continua e implementar políticas públicas adaptadas al contexto amazónico, buscando el control sostenible de la enfermedad y la reducción de su carga social.

Palabras clave: Leishmaniasis tegumentaria americana, Epidemiología, Vigilancia sanitaria, Amazonía, Formación profesional.

INTRODUÇÃO

A leishmaniose tegumentar é uma doença parasitária transmitida por flebotomíneos que permanece classificada como doença negligenciada, em razão de sua prevalência nas populações socialmente vulneráveis e da insuficiência de investimentos contínuos em vigilância, diagnóstico e controle. As lesões cutâneas e mucosas causadas pela infecção podem gerar deformidade, incapacidade e estigma social, impondo carga de morbidade considerável às comunidades afetadas. Revisões recentes ressaltam que a leishmaniose cutânea continua sendo um importante problema de saúde pública global, presente em quase 100 países e com milhões de indivíduos em risco (Vries; Schalling, 2022; Reis et al., 2024). 

No Brasil, a leishmaniose tegumentar concentra uma parcela expressiva do ônus das Américas e mantém relevância epidemiológica por seu caráter endêmico e por heterogeneidade espacial e temporal das notificações. Estudos de modelagem e análises espaciais apontam tendências e clusters persistentes em diferentes biomas brasileiros, com variações entre municípios e estados que refletem determinantes ambientais e socioeconômicos. Além disso, relatórios de vigilância e sínteses epidemiológicas indicam que, apesar de uma tendência de queda em alguns indicadores nacionais, há áreas — especialmente em partes da Região Norte — com transmissão ativa e sazonalidade que merecem atenção prioritária das ações de saúde pública (Belo et al., 2023; Portella; Kraenkel, 2021). 

A Região Amazônica, e especificamente o estado de Rondônia e o município de Porto Velho, vêm sendo destacados em estudos entomológicos e epidemiológicos como áreas com risco contínuo de transmissão. Investigações recentes detectaram a presença de flebotomíneos infectados e identificaram condições urbanas e periurbanas que favorecem a exposição humana, enquanto análises locais e dados do SINAN/DATASUS mostram uma carga relevante de casos confirmados em anos recentes (período 2020–2024), evidenciando a necessidade de integração entre vigilância entomológica, ações de controle ambiental e fortalecimento da atenção primária. Os dados oficiais do DATASUS/TABNET são a fonte primária para a caracterização temporal e geográfica dos casos notificados no município e no estado (Silva et al., 2024; Almeida et al., 2021). 

Diante desse contexto, este estudo tem por objetivo geral: analisar o panorama epidemiológico da leishmaniose tegumentar em Porto Velho (Rondônia) no período de 2020–2024, integrando a análise de dados secundários do DATASUS com a revisão da literatura sobre determinantes de transmissão e práticas de vigilância e controle. 

Espera-se, com isso, contribuir para a compreensão das dinâmicas locais de transmissão e subsidiar recomendações para aprimorar a vigilância, as ações de prevenção e a capacitação de profissionais da atenção básica, sobretudo dos Agentes Comunitários de Saúde e Agentes de Combate às Endemias, cuja atuação é central na detecção precoce e na mobilização comunitária. Estudos sobre intervenções educativas e capacitação profissional mostram que programas estruturados podem melhorar conhecimentos e práticas de vigilância e manejo, justificando a ênfase em recomendações de fortalecimento da formação continuada (Carvalho et al., 2021).

MÉTODOS

Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa descritiva e exploratória, com abordagem quantitativa e qualitativa, fundamentada em duas etapas complementares: uma revisão integrativa da literatura científica e uma análise de dados secundários provenientes de bases oficiais de saúde pública. A integração dessas abordagens permitiu ampliar a compreensão sobre o panorama epidemiológico da leishmaniose tegumentar e sobre os desafios relacionados à vigilância e ao controle da doença.

A primeira etapa consistiu na revisão integrativa da literatura, conduzida nas bases de dados PubMed, SciELO e LILACS, selecionadas por sua relevância e abrangência em pesquisas biomédicas e de saúde pública. Foram utilizados Descritores em Ciências da Saúde (DeCS/MeSH) nos idiomas português, inglês e espanhol, combinados com operadores booleanos “AND” e “OR”. 

Os termos aplicados incluíram: leishmaniose tegumentar, leishmaniose cutânea, agentes comunitários de saúde, agentes de combate às endemias, capacitação profissional, epidemiologia e controle de endemias. O período de busca compreendeu publicações de janeiro de 2020 a agosto de 2025, abrangendo estudos originais, artigos de revisão sistemática e relatórios técnicos que abordassem a temática da leishmaniose tegumentar sob os eixos epidemiológico e de atenção em saúde pública.

Os critérios de inclusão contemplaram estudos publicados em português, inglês ou espanhol, com acesso integral ao texto, que apresentassem dados empíricos sobre incidência, fatores determinantes, controle ou capacitação profissional relacionada à leishmaniose tegumentar. Foram excluídos artigos duplicados, editoriais, resumos de eventos, dissertações, teses e publicações fora do recorte temporal estabelecido. 

A seleção dos estudos ocorreu em três etapas: leitura de títulos e resumos, leitura completa dos textos pré-selecionados e inclusão final daqueles que atendiam aos critérios definidos. Os resultados foram organizados em uma planilha no Microsoft Excel, contendo informações sobre autores, ano de publicação, local de estudo, objetivos, metodologia, principais achados e conclusões.

Na segunda etapa, realizou-se uma análise quantitativa de dados secundários obtidos no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), disponibilizado pelo Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS/TABNET). Foram coletados dados referentes à leishmaniose tegumentar no período de 2020 a 2024, considerando as notificações confirmadas no município de Porto Velho, no estado de Rondônia e, para efeito comparativo, na Região Norte e no território nacional. As variáveis analisadas incluíram número absoluto de casos, taxa de incidência, sexo, faixa etária e distribuição temporal. Os dados foram organizados em tabelas e gráficos, elaborados com apoio dos softwares Excel e SPSS, permitindo uma análise descritiva das tendências e padrões epidemiológicos.

Em relação aos procedimentos éticos, o estudo utilizou exclusivamente informações de domínio público, obtidas em bases de dados abertas e em publicações científicas acessíveis, não envolvendo contato direto com seres humanos ou coleta de dados identificáveis. Assim, conforme a Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde, não houve necessidade de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa. Todos os princípios de integridade científica, confiabilidade das fontes e transparência metodológica foram rigorosamente observados.

Devem descrever de forma clara e sem prolixidade as fontes de dados, a população estudada, a amostragem, os critérios de seleção, procedimentos analíticos e questões éticas relacionadas à aprovação do estudo por comitê de ética em pesquisa (pesquisa com seres humanos e animais) ou autorização institucional (levantamento de dados onde não há pesquisa direta com seres humanos ou animais).

RESULTADOS

A Tabela 1 apresenta a síntese dos estudos incluídos na revisão integrativa realizada no período de 2020 a 2025, selecionados a partir das bases PubMed, SciELO e LILACS, além de relatórios técnicos da Organização Mundial da Saúde (WHO), da Organização Pan-Americana da Saúde (PAHO) e dos dados oficiais do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN/DATASUS). O objetivo dessa compilação foi reunir e comparar as principais evidências científicas sobre a leishmaniose tegumentar, considerando sua distribuição epidemiológica, fatores determinantes, estratégias de vigilância e atuação dos profissionais de saúde.

Os estudos analisados abrangem diferentes regiões do Brasil e incluem também investigações internacionais que contribuem para a compreensão dos aspectos diagnósticos, terapêuticos e ambientais da doença. Observa-se uma predominância de pesquisas de caráter ecológico, espacial e descritivo, com ênfase em determinantes socioambientais (como desmatamento, pobreza e urbanização não planejada), bem como em análises de séries temporais e mapeamento de risco. Esses trabalhos evidenciam que a Região Norte, especialmente o estado de Rondônia, permanece como área de transmissão ativa, reforçando a importância de políticas regionais de controle.

De forma complementar, alguns estudos incluídos destacam a relevância dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) e dos Agentes de Combate às Endemias (ACE) na detecção precoce de casos e na educação em saúde, ao mesmo tempo em que apontam lacunas na capacitação e na continuidade das ações de vigilância. Essa constatação reforça o papel estratégico da atenção básica no enfrentamento das doenças negligenciadas, como a leishmaniose tegumentar.

Tabela 1. Síntese dos principais estudos incluídos na revisão integrativa sobre leishmaniose tegumentar (2020–2025), considerando aspectos epidemiológicos, socioambientais e de vigilância em saúde.

Autores / AnoLocal do EstudoObjetivosMetodologiaPrincipais AchadosConclusões
Almeida et al. (2021)Ji-Paraná, Rondônia (Brasil)Investigar a ocorrência de infecção por Leishmania em área geográfica imediata de Rondônia.Estudo observacional com análise parasitológica e molecular de amostras clínicas e vetores.Confirma a circulação de Leishmania braziliensis e L. amazonensis em áreas urbanas e periurbanas.A transmissão está relacionada à expansão urbana e à presença de vetores adaptados a ambientes modificados.
Belo et al. (2023)BrasilAvaliar padrões temporais e riscos espaciais da leishmaniose tegumentar nas duas primeiras décadas do século XXI.Estudo ecológico com modelagem espaço-temporal e dados do SINAN.Identificou persistência de clusters de alta incidência em regiões Norte e Centro-Oeste.A heterogeneidade regional requer estratégias locais de vigilância e controle.
Buzanovsky et al. (2020)BrasilRevisar determinantes ambientais e socioeconômicos da leishmaniose cutânea.Revisão sistemática da literatura nacional.Desmatamento, ocupação irregular e desigualdade social são fatores críticos de risco.Destaca a importância de integrar variáveis ambientais e sociais nas ações de controle.
Carvalho et al. (2022)Minas Gerais (Brasil)Mapear risco de transmissão com base em características bioecológicas de flebotomíneos.Estudo entomológico e geoespacial com SIG.Relação direta entre densidade vetorial e atividades de mineração.Ambientes antropizados ampliam o risco de transmissão.
Freitas et al. (2024)Ceará (Brasil)Identificar determinantes socioambientais da leishmaniose visceral canina.Estudo espacial com regressão geográfica ponderada.A pobreza, adensamento populacional e ausência de saneamento correlacionam-se com maior incidência.Determinantes sociais influenciam diretamente o padrão epidemiológico das leishmanioses.
García et al. (2022)Bahia (Brasil)Analisar o papel dos ACS e ACE no enfrentamento de doenças negligenciadas.Estudo qualitativo e transversal em unidades básicas.Identificou fragilidades na capacitação e ausência de programas contínuos.Necessidade de formação permanente e valorização do trabalho dos agentes.
Leite et al. (2024)Piauí (Brasil)Avaliar a distribuição temporal de casos de leishmaniose tegumentar (2007–2022).Estudo ecológico e retrospectivo com dados do SINAN.Casos concentrados em municípios de baixo IDH e com desmatamento recente.Evidência persistência de transmissão e vulnerabilidade socioambiental.
Oliveira et al. (2024)Minas Gerais (Brasil)Determinar áreas prioritárias para prevenção da leishmaniose.Análise multicritério com indicadores epidemiológicos e socioeconômicos.Identificou municípios com alto risco e baixa cobertura de vigilância.Reforça a importância da vigilância territorializada.
Reis et al. (2024)BrasilModelar a carga global e nacional da leishmaniose cutânea.Estudo ecológico com modelagem de séries temporais.Brasil continua entre os países com maior carga nas Américas.Sugere intensificação de políticas regionais de controle.
Santos et al. (2024)Amazonas (Brasil)Mapear a distribuição espacial da leishmaniose tegumentar.Estudo ecológico e espacial com dados do SINAN.Alta incidência em municípios com intenso desmatamento e ocupação de margens florestais.A degradação ambiental é fator preponderante para manutenção da endemia.
Silva et al. (2024)Porto Velho, Rondônia (Brasil)Avaliar risco de transmissão urbana e bioecologia dos flebotomíneos.Estudo entomológico e molecular.Identificou presença de vetores infectados em áreas urbanas da capital.Confirma risco de transmissão urbana ativa em Porto Velho.
Souza et al. (2024)BrasilDescrever a evolução clínica dos casos de leishmaniose tegumentar.Estudo retrospectivo e descritivo.Notificações concentradas em adultos jovens e homens.Reforça a importância do diagnóstico precoce e acompanhamento clínico.
Portella; Kraenkel (2021)BrasilAnalisar padrões espaço-temporais da leishmaniose cutânea.Modelagem matemática e análise espacial.Mostrou tendência de expansão para novas áreas urbanas.Urbanização não planejada amplia a transmissão.
Vries; Schallig (2022)GlobalRevisar avanços em diagnóstico e tratamento da leishmaniose cutânea.Revisão narrativa internacional.Destaca limitações nos métodos diagnósticos e terapêuticos.Recomenda investimentos em inovação diagnóstica e capacitação técnica.
PAHO/WHO (2023)AméricasAtualizar panorama epidemiológico da leishmaniose cutânea.Relatório técnico institucional.Brasil, Peru e Colômbia concentram >70% dos casos nas Américas.Necessário fortalecer vigilância e controle vetorial integrado.
WHO (2023)GlobalFornecer dados epidemiológicos e ações de controle.Relatório estatístico global.Cerca de 1 milhão de novos casos de leishmaniose cutânea por ano.Reflete desafios globais e necessidade de políticas integradas.
DATASUS/SINAN (2020–2024)Porto Velho e Rondônia (Brasil)Identificar a tendência temporal dos casos humanos notificados.Análise secundária de dados epidemiológicos.Casos anuais variando entre 80 e 130 notificações, com pico em 2022.Indica persistência da endemia e necessidade de fortalecimento da vigilância local.

Fonte: Elaborado pela autora, com base em dados de Almeida et al. 2021; Belo et al. 2023; Buzanovsky et al. 2020; Carvalho et al. 2022; Freitas et al. 2024; García et al. 2022; Leite et al. 2024; Oliveira et al. 2024; Reis et al. 2024; Santos et al. 2024; Silva et al. 2024; Souza et al. 2024; Portella; Kraenkel 2021; Vries; Schallig 2022; PAHO/WHO 2023; WHO 2023; DATASUS/SINAN 2020–2024.

Assim, a Tabela 1 organiza de maneira sistemática os autores, locais de estudo, objetivos, metodologias empregadas, principais achados e conclusões, permitindo visualizar as convergências e diferenças entre os estudos revisados. Essa síntese oferece subsídios para a análise comparativa dos dados epidemiológicos obtidos no DATASUS e para a discussão sobre os desafios persistentes no controle da doença em contextos amazônicos e urbanos.

DISCUSSÃO 

A análise dos dados obtidos no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN/DATASUS) demonstra que a leishmaniose tegumentar americana (LTA) permanece como uma doença endêmica de relevância epidemiológica no estado de Rondônia, com destaque para o município de Porto Velho, principal centro urbano e polo de notificação da região. O período de 2020 a 2024 revela uma tendência de oscilação nos casos confirmados, refletindo tanto variações sazonais quanto fatores ambientais e estruturais que influenciam a dinâmica de transmissão.

Na figura 1 observa-se variação no número de casos notificados no período, com leve estabilidade entre 2021 e 2023 e redução acentuada em 2024.

Figura 1. Casos confirmados de Leishmaniose Tegumentar Americana no estado de Rondônia, Brasil, entre 2020 e 2024.

Fonte: Elaborado pela autora com dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação – SINAN/DATASUS (2025).

No município de Porto Velho, o número de casos confirmados apresentou flutuações significativas ao longo do quinquênio: 107 casos em 2020, 140 em 2021, 121 em 2022, 119 em 2023 e uma redução expressiva para 49 casos em 2024. Essa queda no último ano pode estar associada a múltiplos fatores, como o fortalecimento das ações de vigilância, intensificação do diagnóstico precoce, ou ainda à subnotificação decorrente da reestruturação dos sistemas de informação em saúde. De acordo com Silva et al. (2024), a presença de vetores infectados na área urbana de Porto Velho demonstra que a transmissão local continua ativa, o que exige vigilância entomológica constante, mesmo em períodos de aparente redução de casos.

Quando se observa o panorama estadual, os dados evidenciam que Rondônia mantém níveis elevados e relativamente estáveis de incidência, com 849 casos em 2020, 754 em 2021, 766 em 2022, 811 em 2023 e 436 em 2024. Apesar de um decréscimo no último ano, o padrão geral indica persistência da endemia, com flutuações típicas de doenças vetoriais dependentes de fatores ambientais e socioeconômicos. Essa estabilidade também foi observada por Belo et al. (2023), que identificaram clusters de alta incidência nas regiões Norte e Centro-Oeste, associando-os à urbanização desordenada, desmatamento e ocupação de áreas florestais.

Na figura 2, nota-se comportamento semelhante ao do estado, com pico em 2021 e declínio progressivo até 2024.

Figura 2. Casos confirmados de Leishmaniose Tegumentar Americana no município de Porto Velho, Rondônia, entre 2020 e 2024.

Fonte: Elaborado pela autora com dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação – SINAN/DATASUS (2025).

Os resultados corroboram os achados de Buzanovsky et al. (2020) e Santos et al. (2024), que destacam a influência direta de determinantes ambientais, como a degradação florestal, a expansão agropecuária e as mudanças climáticas locais, sobre o aumento do risco de infecção. Em Porto Velho, a combinação entre crescimento urbano desestruturado, proximidade com áreas de mata e trânsito migratório intenso cria condições propícias à manutenção do ciclo de transmissão do Leishmania spp. (Almeida et al., 2021; Silva et al., 2024).

Outro fator que pode explicar as variações observadas é a fragilidade dos sistemas de vigilância e capacitação profissional. Conforme apontado por García et al. (2022), a atuação dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) e dos Agentes de Combate às Endemias (ACE) é essencial para a detecção precoce de casos, mas ainda há deficiências na formação continuada e integração entre os níveis de atenção e vigilância. A subnotificação, mencionada por Sarfraz et al. (2024), continua sendo um obstáculo à mensuração precisa da magnitude da doença, especialmente em municípios com acesso limitado a diagnóstico laboratorial.

A análise comparativa dos dois gráficos demonstra que as tendências epidemiológicas da leishmaniose tegumentar americana em Porto Velho acompanham de forma proporcional o comportamento observado no estado de Rondônia. Em ambos os contextos, houve aumento inicial de casos entre 2020 e 2021, seguido por uma fase de estabilidade relativa entre 2021 e 2023 e, posteriormente, queda acentuada em 2024. 

Essa semelhança sugere que o município reflete o padrão estadual, indicando que os fatores determinantes — como condições ambientais, ações de vigilância e notificações de campo — atuam de maneira integrada no território. No entanto, a redução mais expressiva observada em Porto Velho pode estar associada tanto a esforços locais de controle quanto a possíveis flutuações na notificação ou subregistro de casos, exigindo monitoramento contínuo para avaliar a efetividade das intervenções.

Em síntese, os dados de 2020 a 2024 demonstram que, embora Rondônia e Porto Velho apresentem sinais de redução recente no número absoluto de notificações, a leishmaniose tegumentar permanece endêmica e com risco de reemergência, exigindo a manutenção de ações sustentadas de vigilância epidemiológica, controle vetorial e capacitação dos profissionais de saúde. 

A análise integrativa da literatura e dos dados oficiais reforça que os esforços de controle devem ser intersetoriais e contínuos, considerando os fatores socioambientais locais e o fortalecimento das políticas públicas de saúde como pilares fundamentais para o enfrentamento da doença na Amazônia.

Distribuição Regional dos Casos no Brasil (2020–2024)

A análise dos casos confirmados de Leishmaniose Tegumentar Americana (LTA) no Brasil entre 2020 e 2024, segundo dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN/DATASUS), revela uma tendência crescente e expressiva nas notificações a partir de 2023, com forte concentração na Região Norte. No total, o país registrou 8.847 casos confirmados no quinquênio, distribuídos de forma desigual entre as cinco regiões geográficas.

Observa-se na figura abaixo o aumento expressivo de casos, com predominância da Região Norte, seguida pelas Regiões Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste. A Região Sul apresentou baixos índices, porém com tendência crescente no último ano analisado.

Figura 3 – Casos confirmados de Leishmaniose Tegumentar Americana no Brasil, por região de notificação, no período de 2020 a 2024.

Fonte: Elaborado pela autora, com dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação – SINAN/DATASUS (2025).

A Região Norte apresentou o maior número de registros, somando 3.657 casos no período analisado. Após números baixos entre 2020 e 2022, observou-se um aumento abrupto em 2023 (118 casos) e um crescimento exponencial em 2024 (3.526 casos). Esse padrão indica possível melhoria nos mecanismos de notificação e vigilância epidemiológica ou ampliação da circulação vetorial associada a fatores ambientais, como o avanço do desmatamento e o aumento da ocupação humana em áreas florestais. Esses resultados corroboram os achados de Santos et al. (2024) e Silva et al. (2024), que identificaram a região amazônica como zona de transmissão ativa e expansão urbana de risco para o vetor Lutzomyia spp.

Na Região Nordeste, os casos também cresceram de forma significativa, saltando de valores residuais até 2022 para 2.258 casos em 2024, totalizando 2.389 notificações. Estudos de Leite et al. (2024) e Freitas et al. (2024) indicam que fatores como baixa renda, precariedade sanitária e clima semiárido contribuem para a manutenção da endemia na região, especialmente em áreas rurais e periurbanas com alta vulnerabilidade social.

A Região Sudeste apresentou um total de 1.114 casos no período, com aumento progressivo até 2024 (996 casos). Essa expansão pode estar relacionada ao processo de urbanização desordenada e expansão de áreas de mineração e reflorestamento, que modificam habitats vetoriais, conforme observado por Carvalho et al. (2022) e Oliveira et al. (2024).

A Região Centro-Oeste, por sua vez, registrou 1.437 casos no total, com destaque para o aumento em 2023 (119 casos) e 2024 (1.306 casos). Esses resultados refletem o comportamento histórico de áreas de transição ambiental, onde o vetor se adapta facilmente às zonas periurbanas. A literatura aponta que o crescimento da pecuária e da agricultura intensiva nesses estados influencia a ecologia vetorial e a exposição humana (Buzanovsky et al., 2020; Belo et al., 2023).

Já a Região Sul manteve baixos números absolutos (250 casos), porém com tendência de aumento a partir de 2023 (20 casos) e 2024 (230 casos). Embora a leishmaniose tegumentar historicamente apresente baixa incidência nessa região, Reis et al. (2024) e PAHO/WHO (2023) destacam a possibilidade de expansão territorial da doença impulsionada por mudanças climáticas, fluxos migratórios e ampliação da vigilância laboratorial.

A análise nacional reforça o comportamento observado em Porto Velho e no estado de Rondônia, evidenciando que a Região Norte concentra a maior carga de casos de leishmaniose tegumentar americana no país. Essa predominância confirma o papel histórico da Amazônia como área endêmica e demonstra que as condições ambientais e sociais locais influenciam de forma determinante a manutenção da transmissão. 

A tendência de crescimento registrada nas demais regiões, embora em menor magnitude, sugere um processo de expansão territorial da doença, em parte impulsionado pela urbanização desordenada, alterações ecológicas e desigualdades socioeconômicas. Assim, os dados nacionais dialogam com os resultados regionais, apontando a necessidade de ações integradas e contínuas de vigilância epidemiológica e controle vetorial em todo o território brasileiro.

De modo geral, os dados revelam uma tendência de expansão nacional da leishmaniose tegumentar, com concentração na Região Norte, mas disseminação progressiva para outras regiões. Esse comportamento reforça a natureza multifatorial da endemia e a importância da integração entre vigilância epidemiológica, ações de controle vetorial e políticas de mitigação ambiental, em consonância com as recomendações da Organização Pan-Americana da Saúde (PAHO, 2023) e da Organização Mundial da Saúde (WHO, 2023).

Discussão Ampliada

A análise dos dados epidemiológicos e da literatura evidencia que a capacitação dos profissionais de saúde, especialmente dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) e Agentes de Combate às Endemias (ACE), é um elemento essencial para o enfrentamento da leishmaniose tegumentar americana (LTA). Esses profissionais atuam na linha de frente das ações de vigilância, prevenção e controle, sendo responsáveis pela identificação precoce de casos suspeitos e pela orientação da população quanto às medidas de proteção individual e ambiental. No entanto, diversos estudos, como o de García et al. (2022), demonstram lacunas na formação técnica desses agentes, com escassez de treinamentos específicos e ausência de atualização contínua sobre doenças negligenciadas.

A falta de capacitação adequada impacta diretamente na subnotificação e no atraso diagnóstico, problemas frequentemente relatados em regiões endêmicas. Segundo Sarfraz et al. (2024) e Souza et al. (2024), a leishmaniose tegumentar continua sendo um desafio clínico devido à diversidade de apresentações e à limitação de recursos laboratoriais em municípios de pequeno porte. Nesse contexto, a qualificação dos profissionais de saúde deve abranger tanto o reconhecimento clínico das formas iniciais da doença quanto o manejo adequado dos casos, reduzindo complicações e interrupções no tratamento.

Além da capacitação individual, é fundamental fortalecer estratégias integradas de controle que envolvam a vigilância entomológica, o manejo ambiental, a educação em saúde e o monitoramento epidemiológico contínuo. Experiências documentadas por Belo et al. (2023) e Oliveira et al. (2024) mostram que ações intersetoriais — combinando esforços da saúde, meio ambiente e saneamento — resultam em maior efetividade na redução de casos. Programas locais que promovem a educação comunitária e o engajamento social também demonstram impacto positivo, uma vez que aumentam o conhecimento da população sobre o vetor, a forma de transmissão e as medidas preventivas.

Outra estratégia que pode ser fortalecida é o uso de tecnologias de informação e geoprocessamento para o mapeamento de áreas de risco, como proposto por Carvalho et al. (2022) e Reis et al. (2024). Esses instrumentos permitem uma vigilância mais precisa, direcionando recursos para territórios prioritários e contribuindo para a antecipação de surtos. Aliada a isso, a integração dos dados epidemiológicos do SINAN/DATASUS com informações ambientais e climáticas pode aprimorar a resposta das equipes de vigilância e subsidiar políticas públicas mais eficientes.

Dessa forma, a discussão reforça que o controle sustentável da leishmaniose tegumentar depende da combinação entre formação continuada dos profissionais de saúde, fortalecimento da vigilância epidemiológica, investimentos em infraestrutura sanitária e ações intersetoriais permanentes. Somente a partir de uma abordagem integrada e territorializada será possível reduzir a incidência da doença e mitigar seu impacto social e econômico nas regiões endêmicas, como a Amazônia e o estado de Rondônia.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A leishmaniose tegumentar americana permanece como relevante problema de saúde pública no Brasil, especialmente na cidade de Porto Velho em Rondônia, onde se observa persistência da endemia e influência de fatores ambientais e sociais. Entre 2020 e 2024, verificaram-se oscilações na incidência e aumento das notificações a partir de 2023, refletindo tanto o fortalecimento da vigilância quanto condições favoráveis à transmissão. Destaca-se o papel essencial dos Agentes Comunitários de Saúde e de Endemias na detecção precoce e prevenção, evidenciando a necessidade de investimento contínuo em capacitação e valorização profissional. O enfrentamento da LTA requer políticas públicas adaptadas à realidade amazônica, integrando ações de saúde, meio ambiente e saneamento, com foco na redução do desmatamento e na melhoria das condições de vida. O fortalecimento da vigilância epidemiológica, aliado à educação permanente e à sustentabilidade ambiental, é fundamental para reduzir a carga da doença e promover o controle sustentável da leishmaniose na região.

REFERÊNCIAS 

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1Centro Universitário São Lucas – Afya. Porto Velho – Rondônia.

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