REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202509232223
Bianca Moraes Pintos
Gabriella Magalhães Rosa de Araújo
Orientador: Prof. Me. Raphael Grillo da Silva
Coorientador: Dr. Rodrigo Brasil Fernandes
Resumo
O presente relato descreve o caso clínico de um felino adulto, sem raça definida, vítima de trauma corporal por mordedura de um cão de raça Dogue Alemão, atendido em regime de emergência em um Hospital Veterinário 24 horas, localizado em Guarulhos/São Paulo, em dezembro de 2024. O paciente apresentava três perfurações cutâneas graves, com feridas contaminadas e refratárias ao tratamento clínico-alopático convencional. Sendo assim, foi encaminhado ao departamento de reabilitação integrativa e medicina natural (naturopatia clínica). O protocolo terapêutico envolveu ozonioterapia (soro ozonizado, óleo ozonizado, in cupping, insuflação retal e autohemoterapia menor), laserterapia (fotobiomodulação com luzes: azul, vermelha e infravermelha), moxabustão com erva de Artemísia, homeopatias oral e injetável, nutracêuticos oral e injetável, terapia neural com cloridrato de procaína 0,7%, incluindo alimentação natural. A evolução clínica do paciente demonstrou resposta positiva com cicatrização progressiva e melhora da condição clínica de saúde geral, resultando em reparação tecidual total e evidenciando a eficácia da medicina integrativa na reabilitação dermatológica de feridas complexas.
Palavras-chave: Epizootia; Nutracêuticos; Cicatrização de feridas; Medicina funcional; Feridas traumáticas; Homeopatia.
Abstract
The present report describes the clinical case of an adult mixed-breed feline that suffered bodily trauma caused by the bite of a Great Dane dog. The patient was admitted for emergency care at a 24-hour Veterinary Hospital located in Guarulhos, São Paulo, in December 2024. Upon examination, the animal presented with three severe skin perforations, characterized by contaminated wounds that were unresponsive to conventional allopathic clinical treatment. Therefore, the patient was referred to the Department of Integrative Rehabilitation and Natural Medicine (Clinical Naturopathy).
The therapeutic protocol included ozone therapy (ozonized saline solution, ozonized oil, ozone cupping, rectal insufflation, and minor autohemotherapy), laser therapy (photobiomodulation using blue, red, and infrared light), moxibustion with Artemisia herb, oral and injectable homeopathic treatments, oral and injectable nutraceuticals, neural therapy with 0.7% procaine hydrochloride, and a natural diet.
The clinical progression of the patient demonstrated a positive response, with progressive wound healing and improvement in the overall health condition, resulting in complete tissue repair and evidencing the effectiveness of integrative medicine in the dermatological rehabilitation of complex wounds.
Keywords: Epizootic. Nutraceuticals. Wound healing. Functional medicine. Traumatic wounds. Homeopathy.
1. Introdução
Nos últimos anos, a medicina veterinária integrativa têm se consolidado como um recurso promissor no manejo de condições clínicas complexas, sobretudo em casos dermatológicos refratários. Terapias como a ozonioterapia, laserterapia e a homeopatia vêm sendo incorporadas ao arsenal terapêutico, proporcionando alternativas eficazes e seguras frente à resistência aos tratamentos convencionais (RIBEIRO et al., 2023).
As feridas decorrentes de mordeduras, especialmente em pequenos animais, configuram situações emergenciais que demandam intervenções terapêuticas abrangentes. Muitas vezes, esses ferimentos evoluem com infecções severas e são resistentes ao uso prolongado de antibióticos, o que justifica a adoção de estratégias integrativas para estimular a regeneração tecidual e restaurar a homeostase do organismo (CUNHA E LOPES, 2023). Além disso, a literatura destaca que traumas por mordedura apresentam alto risco de complicações devido à grande carga bacteriana inoculada no momento da agressão, exigindo abordagens multimodais para um tratamento eficaz (SMITH et al., 2019).
A ozonioterapia destaca-se entre os métodos complementares por seu potente efeito antimicrobiano e imunomodulador, sendo amplamente utilizada em protocolos veterinários modernos. Quando associada à laserterapia, potencializa os efeitos regenerativos, analgésicos e anti-inflamatórios por meio da fotobiomodulação tecidual (ALVES et al., 2024). Essa combinação tem sido referida como eficaz na cicatrização de feridas de segunda intenção, reduzindo o tempo de internação e promovendo melhora clínica progressiva (PEREIRA et al., 2022).
Outras abordagens como moxabustão, terapia neural, uso de nutracêuticos e formulações homeopáticas têm sido adotadas como medidas adjuvantes, especialmente por seu baixo potencial adverso e sua ação reguladora sobre o sistema imunológico. Elementos como própolis verde, ômega 3, graviola e ipê-roxo vêm demonstrando propriedades antimicrobianas e cicatrizantes quando integrados a um plano alimentar funcional (MEDEIROS et al., 2023). Estudos recentes ressaltam que a utilização de nutracêuticos em medicina veterinária pode modular respostas inflamatórias e otimizar processos de cicatrização em pacientes críticos (PEREIRA e ALVES, 2021).
Diante desses dados da crescente incorporação de protocolos não tradicionais na rotina clínica veterinária, o presente relato tem como objetivo descrever o protocolo de reabilitação dermatológica integrativa aplicado em paciente felino acometido por mordedura canina, destacando as técnicas empregadas e a resposta clínica observada frente à falha da abordagem alopática convencional.
2. Revisão de literatura
Feridas traumáticas, especialmente as provocadas por mordeduras, configuram um importante desafio clínico, uma vez que apresentam elevado potencial de infecção, intensa dor, possibilidade de necrose dos tecidos e comprometimento da cicatrização. O reparo tecidual progride por três etapas fundamentais, sendo elas a inflamação, proliferação e maturação, até que o tecido alcance sua cicatrização completa (Robbins & Cotran).
Diante disso, as terapias complementares têm se destacado por sua eficácia crescente no suporte ao tratamento de feridas extensas, infecções bacterianas, fúngicas e virais, além de lesões decorrentes de isquemia (Morette, Daniela Afonso), ademais, são frequentemente empregadas em animais, seja como terapia isolada ou associada a outros tratamentos, tanto na prevenção quanto no manejo de diversas doenças (Bergh et al., 2021).
Nas últimas décadas, a ozonioterapia tem sido objetivo de estudo aprofundado, visando estabelecer protocolos complementares de tratamento para diferentes condições clínicas (Bocci, 2011). Esse método terapêutico sobressai-se por promover maior oxigenação nos tecidos, o que, por sua vez, potencializa o metabolismo celular (Morette, 2011). Assim, evidencia-se que o uso do ozônio se mostra seguro e eficiente, oferecendo benefícios no manejo da dor e contribuindo para o bem-estar e a qualidade de vida dos pacientes. (Josip Buric, Luca Rigobello , David Hooper ) https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25694935/
O laser de baixa intensidade tem ganhado reconhecimento na prática clínica por suas capacidades analgésicas, anti-inflamatórias, regenerativas e angiogênicas, consolidando-se como uma importante modalidade terapêutica (Sun et al., 2021). O efeito do mesmo ocorre principalmente nas células, onde promove a ativação metabólica e estimula a formação de tecido de granulação, favorecendo a regeneração das fibras nervosas, a formação de novos vasos sanguíneos e a recuperação da rede linfática (Ferreira et al., 2021).
Citado por (Kumar; Abbas; Fausto, 2004), a suplementação com ácidos graxos ômega-3 tem se mostrado eficaz na modulação da resposta inflamatória, pois esses lipídios produzem menos metabólitos ativos pelas vias da ciclooxigenase e da lipooxigenase, contribuindo para a diminuição da agregação plaquetária, da trombose e da intensidade do processo inflamatório. Sob essa perspectiva, a medicina integrativa destaca-se como uma abordagem promissora no manejo de feridas por mordedura, combinando intervenções nutricionais, terapias complementares e protocolos convencionais, de modo a otimizar a cicatrização tecidual e minimizar o risco de complicações infecciosas. A suplementação com EPA e DHA afetou a produção local de citocinas inflamatórias e alterou o tempo de fechamento de feridas cutâneas em estudo experimental (McDaniel et al. 2008).
3. Relato de caso
Em dezembro de 2024, o paciente felino, sem raça definida (SRD), macho, adulto (um ano de idade), orquiectomizado, de pequeno porte, com vacinação atualizada e livre de ecto/endoparasitas, foi atendido em caráter emergencial no Hospital Veterinário 24 horas, localizado em Guarulhos/SP, pelo departamento de clínica médica geral.
Em triagem emergencial hospitalar, relatou-se trauma corporal por mordedura de contactante canino da raça Dogue Alemão, resultando em duas perfurações cutâneas na lateral direita do corpo (uma em hemitórax e outra em parede abdominal) (Figura 1) e uma perfuração cutânea na lateral esquerda do corpo (em parede abdominal) (Figura 2).
Figura 01: Lesões contaminadas, em lateral direita do corpo (uma em hemitórax e outra em parede abdominal).

Fonte: Arquivo Pessoal (2024)
Figura 2: Lesão contaminada, em lateral esquerda de parede abdominal.

Fonte: Arquivo Pessoal (2024).
O animal foi hospitalizado para terapia intensiva de suporte à vida, realização de exames complementares e manejo das feridas por segunda intenção. O hemograma revelou neutrofilia associada à linfopenia e eosinopenia, além de trombocitopenia moderada com presença de agregados plaquetários. Na avaliação bioquímica sérica, observaram-se hipoalbuminemia, elevação das enzimas hepáticas ALT e GGT, hiperglicemia acentuada e aumento da ureia, sugerindo alterações metabólicas, hepáticas e possível comprometimento da função renal.
Na radiografia torácica (projeções VD; LLD; LLE), observou-se padrão intersticial difuso nos campos pulmonares, considerado dentro da normalidade sob o ponto de vista radiográfico. A silhueta cardíaca apresentava-se preservada, assim como as demais estruturas avaliadas, incluindo traqueia, mediastino, diafragma e padrão vascular, que estavam dentro dos parâmetros fisiológicos.
Na ultrassonografia abdominal, verificou-se mesentério hiperecogênico em abdômen cranial bilateralmente, achado compatível com processo inflamatório agudo, o que motivou a recomendação de acompanhamento ultrassonográfico subsequente. A visualização da adrenal direita foi prejudicada devido à intensa sensibilidade dolorosa do paciente durante o exame. A presença de conteúdo gasoso em estômago e intestino limitou parcialmente a avaliação completa desses órgãos. Apesar disso, observou-se paredes intestinais com espessura preservada e peristaltismo normal. A próstata não foi identificada, achado compatível com histórico de orquiectomia.
Apesar da conduta inicial com suporte clínico-alopático, as feridas permaneceram contaminadas e refratárias ao tratamento convencional, não apresentando evolução satisfatória. Diante da refratariedade, o paciente foi encaminhado ao departamento de reabilitação integrativa e naturopatia clínica com o Médico Veterinário Endocanabinologista Rodrigo Brasil Fernandes (CRMV-SP: 35755), havendo a interrupção do tratamento medicamentoso e se iniciando a abordagem naturopática exclusiva, com sessões integrativas de reabilitação dermatológica a fim de otimizar a blindagem corporal e a reparação tecidual, consequentemente.
Passou-se, então, a iniciar o protocolo de ozonioterapia com soro ozonizado (inicialmente: 250 ml de ringer com lactato e ozônio a 50 mcg/ml, com ozonização de 10 minutos em fluxo contínuo; e finalmente: 250 ml de ringer com lactato e ozônio a 30 mcg/ml, com ozonização de 10 minutos em fluxo contínuo), higienização de todas as feridas, três vezes por semana (Figuras 3 e 4); in cupping (inicialmente: 60 ml de ozônio a 30 mcg/ml; finalmente: 60 ml de ozônio a 10 mcg/ml), em todas as feridas, três vezes por semana; insuflação retal (inicialmente: 10 ml de ozônio a 10 mcg/ml; finalmente: 10 ml de ozônio a 10 mcg/ml), duas vezes por semana; autohemoterapia menor / autohemopuntura em acuponto VG14 (Vaso Governador 14) (inicialmente: 1,0 ml de sangue a 30 mcg de ozônio em proporção de 1:1 da mistura de volumes; finalmente: 1,0 ml de sangue a 30 mcg de ozônio em proporção de 1:1 da mistura de volumes), uma vez por semana; óleo de girassol ozonizado (da empresa Ozone&Life), com aplicação tópica, em todas as feridas contaminadas, tanto pós-sessões como diariamente, em casa; três vezes ao dia, até completa cicatrização (Figuras 5 e 6) .
Figura 3: Lesões contaminadas em lateral direita do corpo, no início do tratamento.

Fonte: Arquivo Pessoal (2024)
Figura 4: Lesões contaminadas em lateral direita do corpo, no início do tratamento.

Fonte: Arquivo Pessoal (2024)
Figura 5: Lesão contaminada em lateral esquerda do corpo, no início do tratamento.

Fonte: Arquivo Pessoal (2024)
Figura 6: Lesão contaminada em lateral esquerda do corpo, no início do tratamento.

Fonte: Arquivo Pessoal (2024)
Na laserterapia, foram realizadas as técnicas de: luz azul (fotobiomodulação: emissão contínua e em varredura, com aplicação em 60 segundos por campo tecidual), previamente às luzes vermelha e infravermelha, três vezes por semana (Figuras 7 e 8); luz vermelha e luz infravermelha (fotobiomodulação: emissão pulsada e pontual, com aplicação de 4J por campo tecidual), três vezes por semana (Figuras 9 e 10). Na moxabustão, foi realizado termoterapia (com calor), nas feridas contaminadas, através da erva de Artemísia, em forma de bastão, três vezes por semana. Na terapia neural / procainoterapia, foi realizado aplicação de cloridrato de procaína 0,7% (Inject Center) na região periferida, para ativação cicatricial, e também nas cicatrizes (campos de interferência bioelétrica), uma vez por semana.
Figura 7: Evolução após início das terapias integrativas em lateral direita do corpo.

Fonte: Arquivo Pessoal (2024)
Figura 8: Evolução após início das terapias integrativas em lateral direita do corpo.

Fonte: Arquivo Pessoal (2024)
Figura 9: Evolução após início das terapias integrativas em lateral esquerda do corpo.

Fonte: Arquivo Pessoal (2024)
Figura 10: Evolução após início das terapias integrativas em lateral esquerda do corpo.

Fonte: Arquivo Pessoal (2024)
Na homeopatia oral, houve prescrição médica de: complexo homeopático (arnica montana 6CH + atropa belladonna 6CH + ferrum metallicum 6CH + nux vomica 6CH + pyrogenium 6CH + silicea 6CH: 03 gotas, pela via oral, quatro vezes ao dia, por 30 dias), objetivando melhor blindagem corporal e reparação tecidual (Figuras 11 e 12); o paciente se apresentava em apatia, com febre persistente, em anemia leve, em fase de detox corporal pela naturopatia, após um ciclo intensivo de alopáticos convencionais, no departamento de intensivismo (Figuras 13 e 14). Na homeopatia injetável (Inject Center), houve prescrição médica de: echinacea purpurea D15 (01 ampola, pela via subcutânea, uma vez ao dia, em dias alternados, por 30 dias) e graviola D5 + ipê roxo D5 (01 ampola, pela via subcutânea, uma vez ao dia, em dias alternados, por 30 dias).
Figura 11: Lesões em fase intermediária em lateral direita do corpo.

Fonte: Arquivo Pessoal (2024)
Figura 12: Lesão em fase intermediária em lateral direita do corpo.

Fonte: Arquivo Pessoal (2024)
Figura 13: Lesão em fase intermediária em lateral esquerda do corpo.

Fonte: Arquivo Pessoal (2024)
Figura 14: Lesão em fase intermediária em lateral esquerda do corpo.

Fonte: Arquivo Pessoal (2024)
Nos nutracêuticos orais, houve prescrição médica de: ômega 3 500 mg (rico em EPA – óleo de peixe) (01 cápsula, pela via oral ou via refeição, uma vez ao dia, uso contínuo), extrato aquoso de própolis verde (01 gota, via refeição, uma vez ao dia, até completa cicatrização) e Ascophyllum nodosum (alga bucal: 1/2 (meia) colher dosadora, via refeição, uma vez ao dia, uso contínuo). No nutracêutico injetável (Inject Center), realizou-se aplicação de: coenzima Q10 75 mg/2 ml (5 mg/kg), pela via intramuscular, uma vez a cada 15 dias, totalizando duas aplicações (Figura 15 e 16).
Figura 15: Lesões com reparo tecidual completo em lateral direita do corpo.

Fonte: Arquivo Pessoal (2024)
Figura 16: Lesão em fase final de cicatrização em lateral esquerda do corpo.

Fonte: Arquivo Pessoal (2024)
O animal foi encaminhado ao departamento de nutrologia veterinária, com foco em alimentação natural, para melhoramento dietético. As sessões integrativas iniciais foram realizadas três vezes por semana, com redução gradual da frequência conforme a evolução clínico-cicatricial, até uma vez por semana, incluindo higienização das feridas com soro ozonizado, aplicação tópica de óleo ozonizado e curativo com bandagem não compressiva (Figuras 17 e 18).
Figura 17: Lesão com reparo tecidual quase completo em lateral esquerda do corpo.

Fonte: Arquivo Pessoal (2024)
Figura 18: Lesão com reparo tecidual completo em lateral esquerda do corpo.

Fonte: Arquivo Pessoal (2024)
O paciente recebeu alta médica (Figuras 19 e 20) em fevereiro de 2025, com continuidade do tratamento domiciliar, utilizando ômega 3 e Ascophyllum nosodum.
Figura 19: Lesões completamente cicatrizadas em lateral direita do corpo, paciente de alta médica.

Fonte: Arquivo Pessoal (2024)
Figura 20: Lesão completamente cicatrizada em lateral esquerda do corpo, paciente de alta médica.

Fonte: Arquivo Pessoal (2024)
3.1 DISCUSSÃO
No presente relato, o paciente felino, macho, adulto jovem, sofreu trauma corporal por mordedura de cão de grande porte, resultando em múltiplas perfurações cutâneas localizadas no hemitórax direito e parede abdominal bilateral. Lesões desse tipo, como descrito por Silva et al. (2021), apresentam alto risco de infecção devido à inoculação de microrganismos presentes na saliva canina e ao comprometimento profundo do tecido, podendo evoluir para necrose e inflamação persistente se não tratadas de forma adequada.
Os exames complementares iniciais revelaram alterações compatíveis com resposta inflamatória sistêmica e estresse metabólico: trombocitopenia moderada (140 mil/mm³), hipoalbuminemia (1,8 mg/dL), elevação de ALT (128 U.I./L) e ureia (74,4 mg/dL) e hiperglicemia (310,5 mg/dL lista de abreviações). Resultados semelhantes foram observados por (Costa et al. 2020), em felinos politraumatizados, nos quais tais alterações foram associadas à gravidade das lesões e à resposta de fase aguda. A radiografia de tórax não demonstrou alterações relevantes, descartando pneumotórax ou fraturas, enquanto a ultrassonografia abdominal evidenciou mesentério ecoico bilateral, indicativo de processo inflamatório agudo abdominal, achado que, segundo Pacheco et al. (2022), é comum em quadros de feridas extensas contaminadas.
Diante da refratariedade ao tratamento alopático inicial e da manutenção das feridas contaminadas, foi instituída abordagem integrativa, tendo a ozonioterapia como eixo central. No presente caso, o ozônio foi utilizado em diferentes modalidades: soro ozonizado para higienização, aplicação tópica de óleo ozonizado, técnica de cupping, insuflação retal e auto-hemoterapia menor.
Segundo Borges et al. (2019), o uso combinado de aplicações tópicas e sistêmicas de ozônio em cães com feridas infectadas resultou em redução significativa da carga bacteriana e aceleração da cicatrização. Moreira et al. (2020), reforçam que, em equinos com lesões crônicas, a ozonioterapia favoreceu a granulação tecidual e a epitelização, devido à sua ação antimicrobiana, modulação inflamatória e estímulo à neoangiogênese.
Com o objetivo de visualizar as semelhanças e diferenças entre o presente caso e esses estudos, elaborou-se o quadro comparativo a seguir:
Quadro 1 – Quadro comparativo da aplicação da ozonioterapia em animais com feridas contaminadas ou crônicas.
| Característica / Parâmetro | Presente relato (Felino Bernardo) | Borges et al. (2019) – Cães com feridas contaminadas | Moreira et al. (2020) – Equinos com feridas crônicas |
| Espécie / N | Felino SRD, 1 indivíduo | Cães (n=3) | Equinos (n=5) |
| Tipo de lesão | Feridas traumáticas por mordedura de cão, localizadas em hemitórax direito e parede abdominal bilateral, contaminadas e refratárias ao tratamento alopático inicial | Feridas traumáticas contaminadas e infectadas, de diferentes origens | Feridas crônicas (úlceras cutâneas de difícil cicatrização) |
| Condições iniciais | Trombocitopenia moderada, hipoalbuminemia, elevação de ALT e ureia, hiperglicemia, mesentério ecoico bilateral | Presença de infecção ativa, secreção purulenta e tecido necrótico | Feridas de longa duração, com presença de tecido necrótico e inflamação persistente |
| Técnicas de ozonioterapia | Soro ozonizado, cupping, insuflação retal, auto-hemoterapia menor, óleo ozonizado tópico | Lavagem com solução ozonizada, aplicação tópica de óleo ozonizado | Infiltração subcutânea, aplicação tópica de óleo ozonizado, lavagem com solução ozonizada |
| Concentração de ozônio | 10–50 mcg/ml (variação conforme técnica) | 20–40 mcg/ml | 20–40 mcg/ml |
| Frequência de aplicação | 2 a 3 vezes por semana, com redução gradual | 3 vezes por semana | 2 vezes por semana |
| Associação com outras terapias | Laserterapia (luz azul, vermelha e infravermelha), moxabustão, terapia neural, homeopatia, nutracêuticos (ômega 3, própolis verde, Ascophyllum nodosum) | Antibióticoterapia sistêmica, curativos convencionais | Curativos especiais, limpeza mecânica |
| Tempo para cicatrização | 60 dias para cicatrização e reepilação completas | 35–50 dias para fechamento completo das feridas | 45–70 dias para fechamento e redução significativa de inflamação |
| Resultados observados | Resolução completa das lesões, controle da infecção, reepilação total | Fechamento das feridas, redução da carga bacteriana e melhora do aspecto tecidual | Fechamento parcial ou total das lesões, com regressão de inflamação e tecido necrótico |
| Conclusão dos autores | Ozonioterapia como eixo central do protocolo integrativo foi determinante para o sucesso clínico | Ozonioterapia mostrou-se eficaz no controle da infecção e na aceleração da cicatrização | Ozonioterapia favoreceu granulação e epitelização em feridas crônicas |
Além da ozonioterapia, o presente caso utilizou terapias complementares como laserterapia, moxabustão, terapia neural, homeopatia e nutracêuticos, que podem ter atuado de forma sinérgica, mas o quadro 1 comparativo reforça que a aplicação de ozônio, de forma sistemática e combinando vias de administração, esteve diretamente associada ao sucesso terapêutico. A literatura corrobora esse achado, já que em cães com feridas contaminadas submetidos à ozonioterapia tópica e sistêmica observou-se aceleração da cicatrização e controle da infecção (BORGES et al., 2019), enquanto em equinos com feridas crônicas foram relatados efeitos semelhantes, com destaque para a ação antimicrobiana e estimuladora de angiogênese do ozônio (MOREIRA et al., 2020). Dessa forma, os resultados obtidos no presente caso alinham-se aos dados relatados por esses autores, embora ainda sejam necessários estudos clínicos controlados que padronizam protocolos, concentrações e frequência de aplicação, visando consolidar a ozonioterapia como recurso terapêutico validado na medicina veterinária.
Além dos aspectos já discutidos, é relevante detalhar que a escolha das concentrações e vias de aplicação do ozônio neste caso seguiu parâmetros descritos em protocolos clínicos amplamente divulgados por associações internacionais de ozonioterapia veterinária, que recomendam concentrações entre 10 e 50 mcg/ml para uso tópico, sistêmico e retal em pequenos animais, ajustadas conforme a resposta clínica e a tolerância do paciente.
Do ponto de vista fisiológico, o ozônio promove modulação da cascata inflamatória por meio da ativação de vias antioxidantes, como a estimulação do fator de transcrição Nrf2 (BOCCI; ALBERTO, 2018), e aumento da expressão de enzimas protetoras, como a superóxido dismutase e a catalase. Essas alterações favorecem o controle do estresse oxidativo, reduzem a presença de espécies reativas de oxigênio e melhoram o metabolismo energético celular. Adicionalmente, o ozônio estimula a angiogênese, aumenta a disponibilidade de oxigênio para os tecidos e promove reorganização das fibras de colágeno, acelerando o processo de reparo tecidual.
4. CONCLUSÃO
A análise do caso demonstra que, em feridas traumáticas contaminadas e refratárias ao tratamento convencional, o uso exclusivo de antibióticos sistêmicos e curativos tradicionais pode resultar em recuperação prolongada, risco aumentado de resistência bacteriana e cronificação da lesão. Nesse contexto, a ozonioterapia, especialmente quando associada a terapias integrativas, apresentou efeitos benéficos como ação antimicrobiana, modulação inflamatória e estímulo à regeneração tecidual.
A abordagem multidisciplinar, incluindo ozonioterapia, laserterapia, moxabustão, terapia neural, nutracêuticos, homeopatia e plano alimentar funcional, favoreceu a cicatrização e a recuperação sistêmica, em concordância com a literatura científica.
Apesar dos resultados positivos, reforça-se a necessidade de estudos clínicos controlados e da padronização de protocolos, a fim de consolidar o uso da medicina integrativa como alternativa viável no manejo de feridas complexas e refratárias.
Lista de abreviaturas, Siglas e Símbolos
– ALT: Alanina Aminotransferase
– GGT: Gama-glutamil transferase
– J: Joules
– LDD: Lado lateral direita
– LLE: Lado lateral esquerda
– mcg/mL: Microgramas por mililitro
– mg/dL: Miligramas por decilitro
– mil/mm³: Mil por milímetro cúbico
– U.I./L: Unidades Internacionais por Litro
– VD: Ventrodorsal
REFERÊNCIAS
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