OZONIOTERAPIA NO TRATAMENTO DE FERIDAS TRAUMÁTICAS POR MORDEDURA EM FELINO – RELATO DE CASO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202509232223


Bianca Moraes Pintos
Gabriella Magalhães Rosa de Araújo
Orientador: Prof. Me. Raphael Grillo da Silva
Coorientador: Dr. Rodrigo Brasil Fernandes


Resumo

O presente relato descreve o caso clínico de um felino adulto, sem raça definida, vítima de trauma corporal por mordedura de um cão de raça Dogue Alemão, atendido em regime de emergência em um Hospital Veterinário 24 horas, localizado em Guarulhos/São Paulo, em dezembro de 2024. O paciente apresentava três perfurações cutâneas graves, com feridas contaminadas e refratárias ao tratamento clínico-alopático convencional. Sendo assim, foi encaminhado ao departamento de reabilitação integrativa e medicina natural (naturopatia clínica). O protocolo terapêutico envolveu ozonioterapia (soro ozonizado, óleo ozonizado, in cupping, insuflação retal e autohemoterapia menor), laserterapia (fotobiomodulação com luzes: azul, vermelha e infravermelha), moxabustão com erva de Artemísia, homeopatias oral e injetável, nutracêuticos oral e injetável, terapia neural com cloridrato de procaína 0,7%, incluindo alimentação natural. A evolução clínica do paciente demonstrou resposta positiva com cicatrização progressiva e melhora da condição clínica de saúde geral, resultando em reparação tecidual total e evidenciando a eficácia da medicina integrativa na reabilitação dermatológica de feridas complexas. 

Palavras-chave: Epizootia; Nutracêuticos; Cicatrização de feridas; Medicina funcional; Feridas traumáticas; Homeopatia.

Abstract

The present report describes the clinical case of an adult mixed-breed feline that suffered bodily trauma caused by the bite of a Great Dane dog. The patient was admitted for emergency care at a 24-hour Veterinary Hospital located in Guarulhos, São Paulo, in December 2024. Upon examination, the animal presented with three severe skin perforations, characterized by contaminated wounds that were unresponsive to conventional allopathic clinical treatment. Therefore, the patient was referred to the Department of Integrative Rehabilitation and Natural Medicine (Clinical Naturopathy). 

The therapeutic protocol included ozone therapy (ozonized saline solution, ozonized oil, ozone cupping, rectal insufflation, and minor autohemotherapy), laser therapy (photobiomodulation using blue, red, and infrared light), moxibustion with Artemisia herb, oral and injectable homeopathic treatments, oral and injectable nutraceuticals, neural therapy with 0.7% procaine hydrochloride, and a natural diet. 

The clinical progression of the patient demonstrated a positive response, with progressive wound healing and improvement in the overall health condition, resulting in complete tissue repair and evidencing the effectiveness of integrative medicine in the dermatological rehabilitation of complex wounds.

Keywords: Epizootic. Nutraceuticals. Wound healing. Functional medicine. Traumatic wounds. Homeopathy.

1. Introdução 

Nos últimos anos, a medicina veterinária integrativa têm se consolidado  como um recurso promissor no manejo de condições clínicas complexas,  sobretudo em casos dermatológicos refratários. Terapias como a ozonioterapia,  laserterapia e a homeopatia vêm sendo incorporadas ao arsenal terapêutico,  proporcionando alternativas eficazes e seguras frente à resistência aos  tratamentos convencionais (RIBEIRO et al., 2023). 

As feridas decorrentes de mordeduras, especialmente em pequenos  animais, configuram situações emergenciais que demandam intervenções  terapêuticas abrangentes. Muitas vezes, esses ferimentos evoluem com  infecções severas e são resistentes ao uso prolongado de antibióticos, o que  justifica a adoção de estratégias integrativas para estimular a regeneração  tecidual e restaurar a homeostase do organismo (CUNHA E LOPES, 2023). Além  disso, a literatura destaca que traumas por mordedura apresentam alto risco de  complicações devido à grande carga bacteriana inoculada no momento da  agressão, exigindo abordagens multimodais para um tratamento eficaz (SMITH  et al., 2019). 

A ozonioterapia destaca-se entre os métodos complementares por seu  potente efeito antimicrobiano e imunomodulador, sendo amplamente utilizada  em protocolos veterinários modernos. Quando associada à laserterapia,  potencializa os efeitos regenerativos, analgésicos e anti-inflamatórios por meio  da fotobiomodulação tecidual (ALVES et al., 2024). Essa combinação tem sido  referida como eficaz na cicatrização de feridas de segunda intenção, reduzindo  o tempo de internação e promovendo melhora clínica progressiva (PEREIRA et  al., 2022). 

Outras abordagens como moxabustão, terapia neural, uso de  nutracêuticos e formulações homeopáticas têm sido adotadas como medidas adjuvantes, especialmente por seu baixo potencial adverso e sua ação  reguladora sobre o sistema imunológico. Elementos como própolis verde, ômega  3, graviola e ipê-roxo vêm demonstrando propriedades antimicrobianas e  cicatrizantes quando integrados a um plano alimentar funcional (MEDEIROS et  al., 2023). Estudos recentes ressaltam que a utilização de nutracêuticos em  medicina veterinária pode modular respostas inflamatórias e otimizar processos  de cicatrização em pacientes críticos (PEREIRA e ALVES, 2021). 

Diante desses dados da crescente incorporação de protocolos não  tradicionais na rotina clínica veterinária, o presente relato tem como objetivo  descrever o protocolo de reabilitação dermatológica integrativa aplicado em  paciente felino acometido por mordedura canina, destacando as técnicas  empregadas e a resposta clínica observada frente à falha da abordagem  alopática convencional.

2. Revisão de literatura  

Feridas traumáticas, especialmente as provocadas por mordeduras,  configuram um importante desafio clínico, uma vez que apresentam elevado  potencial de infecção, intensa dor, possibilidade de necrose dos tecidos e  comprometimento da cicatrização. O reparo tecidual progride por três etapas  fundamentais, sendo elas a inflamação, proliferação e maturação, até que o  tecido alcance sua cicatrização completa (Robbins & Cotran). 

Diante disso, as terapias complementares têm se destacado por sua eficácia  crescente no suporte ao tratamento de feridas extensas, infecções bacterianas,  fúngicas e virais, além de lesões decorrentes de isquemia (Morette, Daniela  Afonso), ademais, são frequentemente empregadas em animais, seja como  terapia isolada ou associada a outros tratamentos, tanto na prevenção quanto  no manejo de diversas doenças (Bergh et al., 2021). 

Nas últimas décadas, a ozonioterapia tem sido objetivo de estudo aprofundado,  visando estabelecer protocolos complementares de tratamento para diferentes  condições clínicas (Bocci, 2011). Esse método terapêutico sobressai-se por  promover maior oxigenação nos tecidos, o que, por sua vez, potencializa o  metabolismo celular (Morette, 2011). Assim, evidencia-se que o uso do ozônio  se mostra seguro e eficiente, oferecendo benefícios no manejo da dor e  contribuindo para o bem-estar e a qualidade de vida dos pacientes. (Josip  Buric, Luca Rigobello , David  Hooper ) https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25694935/ 

O laser de baixa intensidade tem ganhado reconhecimento na prática clínica  por suas capacidades analgésicas, anti-inflamatórias, regenerativas e  angiogênicas, consolidando-se como uma importante modalidade terapêutica  (Sun et al., 2021). O efeito do mesmo ocorre principalmente nas células, onde  promove a ativação metabólica e estimula a formação de tecido de granulação, favorecendo a regeneração das fibras nervosas, a formação de novos vasos  sanguíneos e a recuperação da rede linfática (Ferreira et al., 2021). 

Citado por (Kumar; Abbas; Fausto, 2004), a suplementação com ácidos  graxos ômega-3 tem se mostrado eficaz na modulação da resposta inflamatória,  pois esses lipídios produzem menos metabólitos ativos pelas vias da  ciclooxigenase e da lipooxigenase, contribuindo para a diminuição da agregação  plaquetária, da trombose e da intensidade do processo inflamatório. Sob essa  perspectiva, a medicina integrativa destaca-se como uma abordagem  promissora no manejo de feridas por mordedura, combinando intervenções  nutricionais, terapias complementares e protocolos convencionais, de modo a  otimizar a cicatrização tecidual e minimizar o risco de complicações infecciosas.  A suplementação com EPA e DHA afetou a produção local de citocinas  inflamatórias e alterou o tempo de fechamento de feridas cutâneas em estudo  experimental (McDaniel et al. 2008).

3. Relato de caso 

Em dezembro de 2024, o paciente felino, sem raça definida (SRD), macho, adulto (um ano de idade), orquiectomizado, de pequeno porte, com vacinação atualizada e livre de ecto/endoparasitas, foi atendido em caráter emergencial no Hospital Veterinário 24 horas, localizado em Guarulhos/SP, pelo departamento de clínica médica geral. 

Em triagem emergencial hospitalar, relatou-se trauma corporal por mordedura de contactante canino da raça Dogue Alemão, resultando em duas perfurações cutâneas na lateral direita do corpo (uma em hemitórax e outra em parede abdominal) (Figura 1) e uma perfuração cutânea na lateral esquerda do corpo (em parede abdominal) (Figura 2).

Figura 01: Lesões contaminadas, em lateral direita do corpo (uma em hemitórax e outra em parede abdominal).

Fonte: Arquivo Pessoal (2024)

Figura 2: Lesão contaminada, em lateral esquerda de parede abdominal.

Fonte: Arquivo Pessoal (2024).

O animal foi hospitalizado para terapia intensiva de suporte à vida, realização de exames complementares e manejo das feridas por segunda intenção. O hemograma revelou neutrofilia associada à linfopenia e eosinopenia, além de trombocitopenia moderada com presença de agregados plaquetários. Na avaliação bioquímica sérica, observaram-se hipoalbuminemia, elevação das enzimas hepáticas ALT e GGT, hiperglicemia acentuada e aumento da ureia, sugerindo alterações metabólicas, hepáticas e possível comprometimento da função renal. 

Na radiografia torácica (projeções VD; LLD; LLE), observou-se padrão intersticial difuso nos campos pulmonares, considerado dentro da normalidade sob o ponto de vista radiográfico. A silhueta cardíaca apresentava-se preservada, assim como as demais estruturas avaliadas, incluindo traqueia, mediastino, diafragma e padrão vascular, que estavam dentro dos parâmetros fisiológicos. 

Na ultrassonografia abdominal, verificou-se mesentério hiperecogênico em abdômen cranial bilateralmente, achado compatível com processo inflamatório agudo, o que motivou a recomendação de acompanhamento ultrassonográfico subsequente. A visualização da adrenal direita foi prejudicada devido à intensa sensibilidade dolorosa do paciente durante o exame. A presença de conteúdo gasoso em estômago e intestino limitou parcialmente a avaliação completa desses órgãos. Apesar disso, observou-se paredes intestinais com espessura preservada e peristaltismo normal. A próstata não foi identificada, achado compatível com histórico de orquiectomia. 

Apesar da conduta inicial com suporte clínico-alopático, as feridas permaneceram contaminadas e refratárias ao tratamento convencional, não apresentando evolução satisfatória. Diante da refratariedade, o paciente foi encaminhado ao departamento de reabilitação integrativa e naturopatia clínica com o Médico Veterinário Endocanabinologista Rodrigo Brasil Fernandes (CRMV-SP: 35755), havendo a interrupção do tratamento medicamentoso e se iniciando a abordagem naturopática exclusiva, com sessões integrativas de reabilitação dermatológica a fim de otimizar a blindagem corporal e a reparação tecidual, consequentemente. 

Passou-se, então, a iniciar o protocolo de ozonioterapia com soro ozonizado (inicialmente: 250 ml de ringer com lactato e ozônio a 50 mcg/ml, com ozonização de 10 minutos em fluxo contínuo; e finalmente: 250 ml de ringer com lactato e ozônio a 30 mcg/ml, com ozonização de 10 minutos em fluxo contínuo), higienização de todas as feridas, três vezes por semana (Figuras 3 e 4); in cupping (inicialmente: 60 ml de ozônio a 30 mcg/ml; finalmente: 60 ml de ozônio a 10 mcg/ml), em todas as feridas, três vezes por semana; insuflação retal (inicialmente: 10 ml de ozônio a 10 mcg/ml; finalmente: 10 ml de ozônio a 10 mcg/ml), duas vezes por semana; autohemoterapia menor / autohemopuntura em acuponto VG14 (Vaso Governador 14) (inicialmente: 1,0 ml de sangue a 30 mcg de ozônio em proporção de 1:1 da mistura de volumes; finalmente: 1,0 ml de sangue a 30 mcg de ozônio em proporção de 1:1 da mistura de volumes), uma vez por semana; óleo de girassol ozonizado (da empresa Ozone&Life), com aplicação tópica, em todas as feridas contaminadas, tanto pós-sessões como diariamente, em casa; três vezes ao dia, até completa cicatrização (Figuras 5 e 6) . 

Figura 3: Lesões contaminadas em lateral direita do corpo, no início do tratamento.

Fonte: Arquivo Pessoal (2024)

Figura 4: Lesões contaminadas em lateral direita do corpo, no início do tratamento.

Fonte: Arquivo Pessoal (2024)

Figura 5: Lesão contaminada em lateral esquerda do corpo, no início do tratamento. 

Fonte: Arquivo Pessoal (2024)

Figura 6: Lesão contaminada em lateral esquerda do corpo, no início do tratamento. 

Fonte: Arquivo Pessoal (2024)

Na laserterapia, foram realizadas as técnicas de: luz azul (fotobiomodulação: emissão contínua e em varredura, com aplicação em 60 segundos por campo tecidual), previamente às luzes vermelha e infravermelha, três vezes por semana (Figuras 7 e 8); luz vermelha e luz infravermelha (fotobiomodulação: emissão pulsada e pontual, com aplicação de 4J por campo tecidual), três vezes por semana (Figuras 9 e 10). Na moxabustão, foi realizado termoterapia (com calor), nas feridas contaminadas, através da erva de Artemísia, em forma de bastão, três vezes por semana. Na terapia neural / procainoterapia, foi realizado aplicação de cloridrato de procaína 0,7% (Inject Center) na região periferida, para ativação cicatricial, e também nas cicatrizes (campos de interferência bioelétrica), uma vez por semana. 

Figura 7: Evolução após início das terapias integrativas em lateral direita do corpo.

Fonte: Arquivo Pessoal (2024) 

Figura 8: Evolução após início das terapias integrativas em lateral direita do corpo.

Fonte: Arquivo Pessoal (2024)

Figura 9: Evolução após início das terapias integrativas em lateral esquerda do corpo. 

Fonte: Arquivo Pessoal (2024)

Figura 10: Evolução após início das terapias integrativas em lateral esquerda do corpo.

Fonte: Arquivo Pessoal (2024)

Na homeopatia oral, houve prescrição médica de: complexo homeopático (arnica montana 6CH + atropa belladonna 6CH + ferrum metallicum 6CH + nux vomica 6CH + pyrogenium 6CH + silicea 6CH: 03 gotas, pela via oral, quatro vezes ao dia, por 30 dias), objetivando melhor blindagem corporal e reparação tecidual (Figuras 11 e 12); o paciente se apresentava em apatia, com febre persistente, em anemia leve, em fase de detox corporal pela naturopatia, após um ciclo intensivo de alopáticos convencionais, no departamento de intensivismo (Figuras 13 e 14). Na homeopatia injetável (Inject Center), houve prescrição médica de: echinacea purpurea D15 (01 ampola, pela via subcutânea, uma vez ao dia, em dias alternados, por 30 dias) e graviola D5 + ipê roxo D5 (01 ampola, pela via subcutânea, uma vez ao dia, em dias alternados, por 30 dias). 

Figura 11: Lesões em fase intermediária em lateral direita do corpo. 

Fonte: Arquivo Pessoal (2024) 

Figura 12: Lesão em fase intermediária em lateral direita do corpo. 

Fonte: Arquivo Pessoal (2024)

Figura 13: Lesão em fase intermediária em lateral esquerda do corpo.

Fonte: Arquivo Pessoal (2024)

Figura 14: Lesão em fase intermediária em lateral esquerda do corpo.

Fonte: Arquivo Pessoal (2024) 

Nos nutracêuticos orais, houve prescrição médica de: ômega 3 500 mg (rico em EPA – óleo de peixe) (01 cápsula, pela via oral ou via refeição, uma vez ao dia, uso contínuo), extrato aquoso de própolis verde (01 gota, via refeição, uma vez ao dia, até completa cicatrização) e Ascophyllum nodosum (alga bucal: 1/2 (meia) colher dosadora, via refeição, uma vez ao dia, uso contínuo). No nutracêutico injetável (Inject Center), realizou-se aplicação de: coenzima Q10 75 mg/2 ml (5 mg/kg), pela via intramuscular, uma vez a cada 15 dias, totalizando duas aplicações (Figura 15 e 16). 

Figura 15: Lesões com reparo tecidual completo em lateral direita do corpo.

Fonte: Arquivo Pessoal (2024) 

Figura 16: Lesão em fase final de cicatrização em lateral esquerda do corpo. 

Fonte: Arquivo Pessoal (2024)

O animal foi encaminhado ao departamento de nutrologia veterinária, com foco em alimentação natural, para melhoramento dietético. As sessões integrativas iniciais foram realizadas três vezes por semana, com redução gradual da frequência conforme a evolução clínico-cicatricial, até uma vez por semana, incluindo higienização das feridas com soro ozonizado, aplicação tópica de óleo ozonizado e curativo com bandagem não compressiva (Figuras 17 e 18).  

Figura 17: Lesão com reparo tecidual quase completo em lateral esquerda do corpo.

Fonte: Arquivo Pessoal (2024) 

Figura 18: Lesão com reparo tecidual completo em lateral esquerda do corpo.

Fonte: Arquivo Pessoal (2024) 

 O paciente recebeu alta médica (Figuras 19 e 20) em fevereiro de 2025, com continuidade do tratamento domiciliar, utilizando ômega 3 e Ascophyllum nosodum

Figura 19: Lesões completamente cicatrizadas em lateral direita do corpo, paciente de alta médica. 

Fonte: Arquivo Pessoal (2024) 

Figura 20: Lesão completamente cicatrizada em lateral esquerda do corpo, paciente de alta médica.

Fonte: Arquivo Pessoal (2024) 

3.1 DISCUSSÃO 

No presente relato, o paciente felino, macho, adulto jovem, sofreu trauma  corporal por mordedura de cão de grande porte, resultando em múltiplas  perfurações cutâneas localizadas no hemitórax direito e parede abdominal  bilateral. Lesões desse tipo, como descrito por Silva et al. (2021), apresentam  alto risco de infecção devido à inoculação de microrganismos presentes na saliva  canina e ao comprometimento profundo do tecido, podendo evoluir para necrose  e inflamação persistente se não tratadas de forma adequada. 

Os exames complementares iniciais revelaram alterações compatíveis  com resposta inflamatória sistêmica e estresse metabólico: trombocitopenia  moderada (140 mil/mm³), hipoalbuminemia (1,8 mg/dL), elevação de ALT (128  U.I./L) e ureia (74,4 mg/dL) e hiperglicemia (310,5 mg/dL lista de abreviações).  Resultados semelhantes foram observados por (Costa et al. 2020), em felinos  politraumatizados, nos quais tais alterações foram associadas à gravidade das  lesões e à resposta de fase aguda. A radiografia de tórax não demonstrou  alterações relevantes, descartando pneumotórax ou fraturas, enquanto a  ultrassonografia abdominal evidenciou mesentério ecoico bilateral, indicativo de  processo inflamatório agudo abdominal, achado que, segundo Pacheco et al. (2022), é comum em quadros de feridas extensas contaminadas. 

Diante da refratariedade ao tratamento alopático inicial e da manutenção  das feridas contaminadas, foi instituída abordagem integrativa, tendo a  ozonioterapia como eixo central. No presente caso, o ozônio foi utilizado em  diferentes modalidades: soro ozonizado para higienização, aplicação tópica de  óleo ozonizado, técnica de cupping, insuflação retal e auto-hemoterapia menor.  

Segundo Borges et al. (2019), o uso combinado de aplicações tópicas e  sistêmicas de ozônio em cães com feridas infectadas resultou em redução  significativa da carga bacteriana e aceleração da cicatrização. Moreira et al. (2020), reforçam que, em equinos com lesões crônicas, a ozonioterapia  favoreceu a granulação tecidual e a epitelização, devido à sua ação  antimicrobiana, modulação inflamatória e estímulo à neoangiogênese. 

Com o objetivo de visualizar as semelhanças e diferenças entre o  presente caso e esses estudos, elaborou-se o quadro comparativo a seguir:

Quadro 1 – Quadro comparativo da aplicação da ozonioterapia em animais com  feridas contaminadas ou crônicas.

Característica /  ParâmetroPresente relato  (Felino Bernardo)Borges et al.  (2019) – Cães  com feridas 
contaminadas
Moreira et al.  (2020) – Equinos  com feridas crônicas
Espécie / N Felino SRD, 1  indivíduoCães (n=3) Equinos (n=5)
Tipo de lesão Feridas traumáticas por mordedura de cão, localizadas em hemitórax direito e parede abdominal bilateral, contaminadas e refratárias ao tratamento alopático inicialFeridas traumáticas contaminadas e infectadas, de diferentes origensFeridas crônicas  (úlceras  cutâneas de  difícil  cicatrização)
Condições  iniciaisTrombocitopenia  moderada, hipoalbuminemia,  elevação de ALT  e ureia,  hiperglicemia,  mesentério  ecoico bilateralPresença de infecção ativa, secreção purulenta e tecido necróticoFeridas de longa  duração, com  presença de  tecido necrótico e inflamação  
persistente
Técnicas de  ozonioterapiaSoro ozonizado,  cupping,  insuflação retal,  auto-hemoterapia  menor, óleo ozonizado tópicoLavagem com solução 
ozonizada,  aplicação tópica  de óleo  ozonizado
Infiltração subcutânea, aplicação tópica de óleo ozonizado, lavagem com solução ozonizada
Concentração de  ozônio10–50 mcg/ml (variação conforme técnica)20–40 mcg/ml 20–40 mcg/ml
Frequência de  aplicação2 a 3 vezes por  semana, com  redução gradual3 vezes por  semana2 vezes por  semana
Associação com  outras terapiasLaserterapia (luz azul, vermelha e infravermelha), moxabustão, terapia neural, homeopatia, nutracêuticos (ômega 3, própolis verde, Ascophyllum nodosum)Antibióticoterapia  sistêmica,  curativos  
convencionais
Curativos  especiais,  limpeza  mecânica
Tempo para cicatrização60 dias para  cicatrização e reepilação completas35–50 dias para  fechamento completo das feridas45–70 dias para  fechamento e redução 
significativa de  inflamação
Resultados  observadosResolução completa das  lesões, controle da infecção, reepilação totalFechamento das feridas, redução da carga 
bacteriana e  melhora do aspecto tecidual
Fechamento  parcial ou total  das lesões, com  regressão de inflamação e tecido necrótico
Conclusão dos  autoresOzonioterapia como eixo central do protocolo integrativo foi determinante para o sucesso clínicoOzonioterapia mostrou-se eficaz no controle da 
infecção e na aceleração da cicatrização
Ozonioterapia favoreceu  granulação e epitelização em feridas crônicas
Fonte: Quadro adaptado de BORGES et al. (2019), MOREIRA et al. (2020), e presente relato  de caso.

Além da ozonioterapia, o presente caso utilizou terapias complementares como  laserterapia, moxabustão, terapia neural, homeopatia e nutracêuticos, que  podem ter atuado de forma sinérgica, mas o quadro 1 comparativo reforça que  a aplicação de ozônio, de forma sistemática e combinando vias de  administração, esteve diretamente associada ao sucesso terapêutico. A  literatura corrobora esse achado, já que em cães com feridas contaminadas  submetidos à ozonioterapia tópica e sistêmica observou-se aceleração da  cicatrização e controle da infecção (BORGES et al., 2019), enquanto em  equinos com feridas crônicas foram relatados efeitos semelhantes, com  destaque para a ação antimicrobiana e estimuladora de angiogênese do ozônio  (MOREIRA et al., 2020). Dessa forma, os resultados obtidos no presente caso  alinham-se aos dados relatados por esses autores, embora ainda sejam  necessários estudos clínicos controlados que padronizam protocolos,  concentrações e frequência de aplicação, visando consolidar a ozonioterapia  como recurso terapêutico validado na medicina veterinária. 

Além dos aspectos já discutidos, é relevante detalhar que a escolha das  concentrações e vias de aplicação do ozônio neste caso seguiu parâmetros  descritos em protocolos clínicos amplamente divulgados por associações internacionais de ozonioterapia veterinária, que recomendam concentrações  entre 10 e 50 mcg/ml para uso tópico, sistêmico e retal em pequenos animais,  ajustadas conforme a resposta clínica e a tolerância do paciente.  

Do ponto de vista fisiológico, o ozônio promove modulação da cascata  inflamatória por meio da ativação de vias antioxidantes, como a estimulação do  fator de transcrição Nrf2 (BOCCI; ALBERTO, 2018), e aumento da expressão de  enzimas protetoras, como a superóxido dismutase e a catalase. Essas  alterações favorecem o controle do estresse oxidativo, reduzem a presença de  espécies reativas de oxigênio e melhoram o metabolismo energético celular.  Adicionalmente, o ozônio estimula a angiogênese, aumenta a disponibilidade de  oxigênio para os tecidos e promove reorganização das fibras de colágeno,  acelerando o processo de reparo tecidual.

4. CONCLUSÃO 

A análise do caso demonstra que, em feridas traumáticas contaminadas e  refratárias ao tratamento convencional, o uso exclusivo de antibióticos  sistêmicos e curativos tradicionais pode resultar em recuperação prolongada,  risco aumentado de resistência bacteriana e cronificação da lesão. Nesse  contexto, a ozonioterapia, especialmente quando associada a terapias  integrativas, apresentou efeitos benéficos como ação antimicrobiana,  modulação inflamatória e estímulo à regeneração tecidual. 

A abordagem multidisciplinar, incluindo ozonioterapia, laserterapia,  moxabustão, terapia neural, nutracêuticos, homeopatia e plano alimentar  funcional, favoreceu a cicatrização e a recuperação sistêmica, em  concordância com a literatura científica. 

Apesar dos resultados positivos, reforça-se a necessidade de estudos  clínicos controlados e da padronização de protocolos, a fim de consolidar o uso  da medicina integrativa como alternativa viável no manejo de feridas complexas  e refratárias.


Lista de abreviaturas, Siglas e Símbolos 

– ALT: Alanina Aminotransferase 

– GGT: Gama-glutamil transferase 

– J: Joules 

– LDD: Lado lateral direita 

– LLE: Lado lateral esquerda 

– mcg/mL: Microgramas por mililitro 

– mg/dL: Miligramas por decilitro 

– mil/mm³: Mil por milímetro cúbico 

– U.I./L: Unidades Internacionais por Litro 

– VD: Ventrodorsal

REFERÊNCIAS  

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