REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ni10202510312054
Ricardo Costa Mesquita1
Catarina Soares Silveira2
RESUMO
A osteointegração é um fenômeno biológico fundamental para o sucesso dos implantes dentários, representando a conexão íntima entre o organismo e o biomaterial. Em pacientes que vivem com o vírus da imunodeficiência humana (HIV), esse processo levanta questionamentos, pois alterações imunológicas podem comprometer o reparo ósseo e a estabilidade do implante. Este artigo revisa as evidências científicas disponíveis sobre a osteointegração em indivíduos HIV+, com foco especial no impacto da terapia antirretroviral, da contagem de linfócitos CD4+ e do controle da carga viral. Os estudos analisados revelam que, quando a infecção está sob controle, a adesão ao tratamento é adequada e os parâmetros imunológicos permanecem estáveis, a taxa de sucesso dos implantes dentários se aproxima da observada na população geral. Contudo, situações de imunossupressão avançada, baixa aderência ao protocolo ou coinfecções podem elevar consideravelmente o risco de complicações, como falhas precoces e peri‑implantite. A literatura enfatiza que o acompanhamento multidisciplinar, aliado a uma prática clínica mais humanizada, é fundamental para garantir a segurança e a previsibilidade do procedimento. Desse modo, a reabilitação com implantes dentários em pacientes HIV+ revela‑se não só viável, mas também uma obrigação ética, ao assegurar qualidade de vida, funcionalidade e dignidade a esse grupo de pacientes.
Palavras-chave: Implantes dentários; Osteointegração; HIV; Terapia antirretroviral.
ABSTRACT
The biological process of osseointegration enables dental implants to succeed through the formation of a tight bond between host tissue and biomaterial. The altered immune response of HIV patients requires them to evaluate bone healing because it affects both bone regeneration and implant stability. The research examines scientific evidence regarding osseointegration in HIV-positive patients through an evaluation of antiretroviral therapy effects on the process and CD4+ lymphocyte count and viral load management connection. The research findings show that dental implant success rates match those of the general population when patients maintain proper treatment adherence and their immune system remains stable after clinical control of the infection. The risk of complications including early failures and peri-implantitis becomes higher when patients have advanced immunosuppression or when they do not follow their treatment plan or have additional infections. Research shows patients require care from multiple specialists and personalized clinical approaches to obtain reliable and secure results from the procedure. The procedure of dental implant rehabilitation works for HIV-positive patients because it provides them with restored quality of life and functional abilities and dignity.
Keywords: Dental implants; Osseointegration; HIV; Antiretroviral therapy.
1 INTRODUÇÃO
A implantodontia despontou como um ponto de inflexão na odontologia contemporânea, habilitando a reabilitação oral por meio de implantes dentários que simultaneamente recuperam a estética, a função mastigatória e, surpreendentemente, elevam a autoestima. O alicerce biológico que sustenta essa prática reside na osteointegração, fenômeno que se manifesta como uma conexão direta e firme entre o osso e a superfície do implante. Esse processo multifatorial depende da precisão da técnica cirúrgica e das propriedades intrínsecas do biomaterial e das condições sistêmicas que caracterizam o paciente.
Num panorama de múltiplos contextos clínicos, sobressai a realidade dos indivíduos que vivem com o vírus da imunodeficiência humana (HIV). Tradicionalmente, o diagnóstico de HIV vinha acompanhado de restrições terapêuticas e de um estigma que afastava esses pacientes de certas intervenções odontológicas. Contudo, os progressos na terapia antirretroviral de alta eficácia (HAART) reescreveram esse quadro, proporcionando maior longevidade, estabilização imunológica e uma qualidade de vida muito mais robusta. Em consequência, a reabilitação oral por meio de implantes dentários agora se apresenta como uma alternativa viável para esse segmento de pacientes.
Continua, porém, a pergunta que não se dissipa: a osteointegração em pacientes HIV‑positivos alcança os mesmos patamares de êxito observados na população geral? A diminuição dos linfócitos CD4, a presença de carga viral detectável, as coinfecções oportunistas e a escassa adesão ao tratamento podem interferir na reparação óssea, conferindo a esse tema uma relevância indispensável para a prática clínica.
Considerando esse cenário, o artigo que se segue tem por objetivo investigar a literatura científica relativa à osteointegração de implantes dentários em pacientes portadores de HIV, destacando os fatores biológicos, clínicos e terapêuticos que afetam o prognóstico. Também se procura evidenciar a relevância de uma abordagem interdisciplinar e humanizada, capaz de oferecer previsibilidade clínica, dignidade e inclusão social a esses indivíduos.
2 MATERIAL E MÉTODOS
O presente estudo configura-se como uma revisão narrativa da literatura, de natureza qualitativa e exploratória, concebida para compreender em profundidade as evidências científicas mais recentes sobre a osteointegração de implantes dentários em indivíduos vivendo com HIV. A escolha dessa metodologia justifica-se pelo caráter abrangente e reflexivo que ela permite, ao integrar diferentes perspectivas clínicas e biológicas, respeitando a complexidade do tema e o contexto humano que envolve essa população.
A busca dos estudos foi realizada nas bases PubMed, SciELO e Google Acadêmico, selecionadas pela relevância e abrangência no campo da saúde, odontologia e ciências biomédicas. O período contemplado foi de 2020 a 2025, com o intuito de reunir produções contemporâneas, que reflitam o atual estágio da ciência, já marcado por avanços consolidados da terapia antirretroviral e por abordagens mais humanizadas no cuidado clínico. Os descritores utilizados foram Dental implants, Osseointegration, HIV e Antiretroviral therapy, organizados a partir dos vocabulários controlados DeCS e MeSH, de modo a assegurar precisão na recuperação das publicações.
Foram incluídos artigos originais, estudos clínicos prospectivos e retrospectivos, revisões sistemáticas e relatos de caso que apresentassem informações relevantes sobre a instalação e o acompanhamento de implantes dentários em pacientes HIV+. Excluíram-se os trabalhos que não forneciam dados clínicos consistentes ou que não abordavam aspectos diretamente relacionados ao processo de osteointegração.
Após a seleção, realizou-se a leitura crítica integral dos artigos, buscando-se extrair informações sobre taxas de sucesso e insucesso dos implantes, parâmetros imunológicos como carga viral e contagem de linfócitos CD4+, adesão ao tratamento antirretroviral, além de complicações reportadas, como peri-implantite e perda óssea marginal. Essa etapa não se limitou à simples coleta de dados, mas buscou interpretar os achados integradamente, contextualizando-os na realidade clínica e social dos pacientes.
A análise foi conduzida com um olhar comparativo e interpretativo, permitindo identificar convergências e divergências entre os estudos e compreender de que forma as condições sistêmicas influenciam o sucesso dos implantes. Mais do que números, o que emergiu desse processo foi a percepção de que a osteointegração em indivíduos HIV+ deve ser avaliada sob parâmetros técnicos e em um cenário mais amplo de cuidado interdisciplinar e respeito às singularidades de cada paciente. Dessa forma, a metodologia adotada se configurou como uma ponte entre ciência e humanização, reconhecendo que o sucesso clínico está intrinsecamente ligado à dignidade e à qualidade de vida das pessoas atendidas.
3 DISCUSSÃO
A osteointegração de implantes dentários em pacientes com HIV desperta um interesse gradativo, sobretudo à medida que os avanços terapêuticos transformaram a doença em uma condição crônica, porém controlável. Uma revisão da literatura, abrangendo estudos publicados entre 2020 e 2025, indica que, em quem segue tratamento antirretroviral de forma contínua e mantém parâmetros imunológicos estáveis, as taxas de sucesso dos implantes chegam a se equiparar às registradas em pacientes sem HIV.
Esse achado representa um verdadeiro marco, já que por décadas esses pacientes foram considerados de alto risco para falhas cirúrgicas e complicações pós‑operatórias. Contudo, a comparação entre diferentes estudos revela que, embora a previsibilidade seja alta em pacientes controlados, ainda há variáveis que demandam cautela e reflexão clínica.
3.1 CONDIÇÃO IMUNOLÓGICA E TAXA DE SUCESSO DOS IMPLANTES
A osteointegração de implantes dentários em pacientes com HIV tem gerado crescente interesse, especialmente com os avanços terapêuticos que transformaram a doença em uma condição crônica controlável. A literatura atual, analisada entre 2020 e 2025, mostra que, em indivíduos que utilizam continuamente terapia antirretroviral e apresentam parâmetros imunológicos estáveis, as taxas de sucesso dos implantes se aproximam das observadas em pacientes não infectados. Essa constatação é um marco, pois por muito tempo esses indivíduos foram vistos como de alto risco para falhas cirúrgicas e complicações pós-operatórias (SHIYA; DE FIGUEIREDO, 2021).
O planejamento cirúrgico também merece destaque, já que a utilização de exames complementares é essencial para garantir previsibilidade nos resultados, especialmente em pacientes imunocomprometidos. Essa etapa amplia a margem de segurança do tratamento, permitindo antecipar complicações, individualizar condutas e alinhar a execução cirúrgica com as condições clínicas de cada paciente (SILVA, 2021).
Imagem 1: Osseointegração em implantes dentários.

Assim, a comparação entre diferentes estudos leva à conclusão de que, embora a previsibilidade seja alta em pacientes com infecção controlada, ainda existem variáveis que exigem cautela, como imunossupressão grave, baixa adesão ao tratamento ou presença de coinfecções que comprometam o metabolismo ósseo e a cicatrização (SHIYA; DE FIGUEIREDO, 2021; OLIVEIRA et al., 2023; SILVA, 2021).
3.1.1 A Influência Da Terapia Antirretroviral No Metabolismo Ósseo
A chegada das terapias antirretrovirais altamente eficazes virou o jogo: não só ampliou a expectativa de vida dos pacientes com HIV, como também mudou o jeito que a saúde óssea desses indivíduos se apresenta. Ainda que alguns fármacos estejam ligados a efeitos indesejados, osteopenia, osteoporose, entre outros, as pesquisas mais recentes apontam que tais impactos não bloqueiam o processo de osteointegração, pelo contrário, quando o tratamento é seguido à risca, observa‑se uma estabilidade clínica e imunológica que acaba por impulsionar o reparo ósseo de maneira bastante satisfatória.
Nessa linha de pensamento, a previsibilidade dos implantes dentários em pacientes HIV+ que recebem tratamento adequado pode Com acompanhamento regular e atenção cuidadosa aos eventuais efeitos metabólicos da terapia, pode‑se alcançar níveis praticamente equivalentes aos da população em geral (PUPO et al., 2021; LIMA et al., 2023).
3.2 COMPLICAÇÕES ASSOCIADAS E FATORES DE RISCO
Embora as taxas de sucesso sejam elevadas, observa-se que alguns pacientes HIV+ apresentam maior suscetibilidade a complicações peri-implantares. Casos de peri-implantite tendem a ocorrer com maior frequência em indivíduos que apresentam coinfecções, como a hepatite C, ou em situações de baixa contagem de linfócitos CD4+, reforçando a importância do equilíbrio imunológico para a manutenção da saúde peri-implantar. Nessas circunstâncias, não se pode responsabilizar somente a soropositividade; a realidade revela a conjunção de diversos fatores, imunossupressão avançada, hábitos de higiene oral insuficientes e a ausência de acompanhamento clínico regular, como determinantes. (SILVA, 2021; SILVA, 2021)
3.3 A DIMENSÃO HUMANIZADA DO CUIDADO INTERDISCIPLINAR
A discussão sobre osteointegração em pacientes HIV‑positivos ultrapassa a dimensão puramente técnica: impõe a necessidade de um cuidado realmente humanizado. Colocar um implante nesse contexto não se resume a um simples ato cirúrgico; é, antes, um gesto de acolhimento, inclusão e respeito à dignidade da pessoa. Para além da previsibilidade clínica, o acompanhamento deve ser realizado por equipes multiprofissionais, integrando cirurgiões‑dentistas, infectologistas, psicólogos e demais especialistas capazes de oferecer um suporte integral ao paciente.
Essa aliança eleva a confiança no tratamento, assegurando que cada pessoa seja contemplada em sua totalidade, com respeito às suas nuances biológicas, sociais e emocionais. Nesse sentido, a reabilitação oral por implantes em pacientes soropositivos integra um processo mais amplo de reconstrução da qualidade de vida, onde ciência e humanidade se unem para restituir a capacidade mastigatória, a autoestima e a esperança. (SOARES et al., 2023; OLIVEIRA et al., 2020)
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com o decorrer da investigação, ficou evidente que a osteointegração de implantes dentários em pacientes portadores de HIV não só pode ser realizada, como também tende a produzir resultados paralelos aos observados na população geral, desde que a carga sistêmica esteja sob rigoroso controle clínico. Uma terapia antirretroviral bem conduzida e ininterrupta estabelece um panorama de estabilidade imunológica que, por sua vez, assegura maior previsibilidade na cicatrização óssea e, consequentemente, eleva as chances de êxito dos implantes.
Entretanto, ficou evidente que o sucesso do tratamento transcende a simples técnica cirúrgica e a resposta biológica isolada. O cuidado integral, por sua vez, demanda atenção à adesão ao tratamento, à avaliação imunológica regular e à manutenção da saúde bucal, além de exigir uma visão mais abrangente, capaz de reconhecer as particularidades de cada paciente e de respeitar sua dignidade. Neste cenário, a implantodontia dirigida a pacientes HIV+ ultrapassa a mera reabilitação oral, transformando‑se em um autêntico agente de inclusão social ao devolver dentes, restaurar a autoestima, promover o bem‑estar e assegurar uma qualidade de vida mais plena.
Ao percorrer as reflexões construídas ao longo deste trabalho, percebe‑se que o verdadeiro desafio está em costurar ciência, técnica e humanidade em um único ato terapêutico. A reabilitação oral de pacientes HIV+ deve ser encarada sob uma perspectiva interdisciplinar, onde cada profissional contribui para o processo ser seguro, ético e verdadeiramente humanizado. Assim, reafirma‑se que a odontologia, em sua expressão mais elevada, precisa ir além da mera execução de procedimentos e se transformar num espaço de acolhimento, transformação e esperança.
REFERÊNCIAS
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EAPGOIAS. Osseointegração em implantes dentários: como funciona? EAPGOIAS – Fique Sabendo, 26 nov. 2024. https://eapgoias.com.br/osseointegracao–emimplantes–dentarios/
PUPO, Yasmine Mendes et al. Anais I JASBI-I Jornada Acadêmica de Saúde Bucal Inclusiva UFPR. ARCHIVES OF HEALTH INVESTIGATION, v. 10, p. 1-120, 2021. https://www.archhealthinvestigation.com.br/ArcHI/article/view/5604
LIMA, Heliton Gustavo et al. Anais II JASBI-II Jornada Acadêmica de Saúde Bucal Inclusiva,(UFPR)–Universidade Federal do Paraná-2022. ARCHIVES OF HEALTH INVESTIGATION, v. 12, p. 1-73, 2023. https://www.archhealthinvestigation.com.br/ARCHI/article/view/6115
SILVA, Polyana Turkiewicz. Fatores sistêmicos que influenciam na osseointegração de implantes dentários: uma revisão de literatura. 2021. http://200.150.122.211/jspui/handle/23102004/308
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SOARES, Ana Flária et al. Anais do Congresso Científico da Fasipe 2023. In: CONCIPE-Congresso Científico da Fasipe. 2023. p. 1-57. https://revistas.fasipe.com.br/index.php/CONCIPE/article/download/120/347
OLIVEIRA, Marcio A. et al. Dental implants in patients seropositive for HIV: a 12-year follow-up study. The Journal of the American Dental Association, v. 151, n. 11, p. 863-869, 2020. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0002817720305699
1Acadêmico de Odontologia. E-mail: ricardoocosta21@gmail.com. Artigo apresentado a FIMCA – Centro Universitário Aparício Carvalho, como requisito para obtenção do título de Bacharel em Odontologia, Porto Velho/RO, 2025.
2Professor Orientador. Email: catarinasoaressilveira@gmail.com. Professora do curso de Odontologia, Porto Velho/RO, 2025.
