OS DESAFIOS DA GESTÃO ESCOLAR EM CONTEXTOS RURAIS E URBANOS: UMA ABORDAGEM COMPARATIVA.

CHALLENGES OF SCHOOL MANAGEMENT IN RURAL AND URBAN CONTEXTS: A COMPARATIVE APPROACH.

LES DÉFIS DE LA GESTION SCOLAIRE EN CONTEXTE RURAL ET URBAIN: UNE APPROCHE COMPARATIVE.

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202601191745


Alberto Jacob Roberto1; Alfredo Moisés Erminio2; Brazarique Eduardo3; Delfina Emilio Luis Samissone Tadeu4; Lucas Augusto Danger5; Siete Rogério Moda6


RESUMO

Este artigo oferece uma análise comparativa dos obstáculos que a gestão escolar enfrenta em ambientes urbanos e rurais, com ênfase na província de Tete, em Moçambique. O estudo procura destacar as particularidades e os pontos de convergência entre os dois contextos, levando em conta os fatores socioeconômicos, culturais e de infraestrutura que afetam diretamente o funcionamento das instituições educacionais. Dentre os principais desafios identificados, destacam-se a falta de recursos materiais e humanos, as restrições na capacitação e formação de gestores e professores, a fraca participação da comunidade escolar e o acesso limitado a tecnologias, sobretudo nas áreas rurais. Com base numa abordagem qualitativa, foram realizadas entrevistas com gestores (10 diretores, 5 diretores adjuntos de escola, 5 coordenadores de ciclo e 3 coordenadores de classe) e observações para entender as estratégias implementadas pelos gestores escolares para superar esses desafios. Os resultados indicam que, embora existam diferenças contextuais, há desafios compartilhados que demandam soluções integradas e políticas públicas sólidas. O envolvimento ativo da comunidade escolar se destaca como um elemento crucial para o fortalecimento da gestão e para o avanço de uma educação mais inclusiva e justa. A pesquisa contribui para a discussão sobre a necessidade de ajustes e inovações na administração escolar, enfatizando a relevância de práticas contextualizadas que levem em conta as realidades locais. Ao valorizar a escuta dos gestores e suas experiências, o estudo fornece contribuições significativas para a criação de políticas educacionais mais eficientes.

Palavras-chave: Gestão escolar; Educação rural; Educação urbana; Desafios educacionais e Qualidade da educação.

ABSTRACT

This article offers a comparative analysis of the obstacles faced by school management in urban and rural environments, with an emphasis on the province of Tete, Mozambique. The study seeks to highlight the particularities and points of convergence between the two contexts, taking into account the socioeconomic, cultural, and infrastructural factors that directly affect the functioning of educational institutions. Among the main challenges identified are the lack of material and human resources, restrictions in the training and development of managers and teachers, weak participation of the school community, and limited access to technology, especially in rural areas. Based on a qualitative approach, interviews were conducted with school administrators (10 principals, 5 deputy principals, 5 cycle coordinators, and 3 class coordinators) and observations were made to understand the strategies implemented by school administrators to overcome these challenges. The results indicate that, although contextual differences exist, there are shared challenges that demand integrated solutions and solid public policies. The active involvement of the school community stands out as a crucial element for strengthening management and advancing a more inclusive and equitable education. The research contributes to the discussion on the need for adjustments and innovations in school administration, emphasizing the relevance of contextualized practices that consider local realities. By valuing the voices of administrators and their experiences, the study provides significant contributions to the creation of more efficient educational policies.

Keywords: School management; Rural education; Urban education; Educational challenges; Quality education.

INTRODUÇÃO

A gestão escolar é crucial para garantir educação de qualidade e inclusiva, especialmente em Moçambique, onde áreas rurais e urbanas apresentam desafios distintos. Nas zonas rurais, os gestores enfrentam infraestrutura precária, escassez de professores e falta de recursos, acumulando funções administrativas e pedagógicas, enquanto a participação comunitária é informal e gera pressões sobre decisões. Nas áreas urbanas, predominam turmas grandes, diversidade cultural e burocracia intensa, apesar de melhores recursos. Este estudo analisou dez escolas em Tete por meio de entrevistas semiestruturadas, observação direta e análise documental, buscando compreender os desafios, identificar convergências e divergências e destacar o papel das políticas públicas e da participação comunitária na promoção de uma gestão eficaz e equitativa.

REVISÃO DA LITERATURA

Gestão escolar

A gestão escolar é compreendida como um processo dinâmico e sistemático que integra ações administrativas, pedagógicas e comunitárias, com vista a assegurar o funcionamento eficaz da escola e a promoção de uma educação de qualidade. De acordo com Lück (2009), a gestão escolar pressupõe a harmonização do trabalho coletivo, a mobilização adequada dos recursos disponíveis e a organização dos processos de forma participativa e colaborativa, orientada para o alcance das metas educacionais. Nessa perspetiva, a autora destaca a centralidade da liderança pedagógica na criação de ambientes escolares favoráveis à aprendizagem. Complementarmente, Nhambi (2025) enfatiza que práticas de gestão curricular flexível, quando bem articuladas e contextualizadas, contribuem para a melhoria da aprendizagem dos alunos e para o fortalecimento da autonomia escolar, embora enfrentem desafios relacionados com a colaboração entre os atores educativos e a competência dos gestores escolares.

Adicionalmente, a gestão escolar abrange o planeamento, a organização e a liderança necessários para o sucesso das instituições de ensino (Libâneo, 2013). Ela transcende a mera burocracia, exigindo uma liderança pedagógica forte e a participação democrática da comunidade, conforme argumenta Paro (2016). No contexto de Moçambique, a complexidade da gestão é acentuada pelas acentuadas diferenças entre o ambiente rural e o urbano.

Em Moçambique, a gestão das escolas enfrenta desafios estruturais e contextuais que variam significativamente entre as zonas urbanas e rurais. De acordo com Mogo et al. (2025), a escassez de recursos, a carência de formação contínua para gestores e professores, e a limitada participação da comunidade escolar são fatores que comprometem a eficácia da gestão, especialmente em regiões periféricas. A análise da gestão escolar deve, portanto, considerar as especificidades territoriais e culturais que moldam as práticas educativas.

A gestão democrática, conforme defendido por Paro (2012), é um princípio fundamental para a construção de uma escola pública de qualidade, pois promove a participação ativa da comunidade e a corresponsabilidade na tomada de decisões. Em Moçambique, a implementação do Sistema Nacional de Educação (SNE) após os ajustes de 1992 buscou alinhar a gestão escolar a esse paradigma, embora ainda existam lacunas entre a teoria e a prática (Vanavave et al., 2025).

O Estado moçambicano tem buscado fortalecer o sistema educativo por meio de reformas e políticas públicas, mas ainda há lacunas significativas na formação de gestores e na adequação das práticas de gestão às realidades locais (UNISCED, 2022). A participação da comunidade escolar, conforme Paro (2012), é um elemento chave para a construção de uma escola pública democrática e inclusiva, capaz de responder aos desafios educacionais contemporâneos.

Educação em contextos rurais e urbanos

Para Chinhamo (2019), em Moçambique, as disparidades regionais entre zonas urbanas e rurais são significativas e afetam diretamente o desempenho das escolas e o trabalho dos gestores escolares.

Relativamente à educação em contextos rurais apresenta desafios específicos que exigem uma abordagem diferenciada tanto na gestão quanto nas práticas pedagógicas. Segundo Libâneo (2013), as escolas rurais enfrentam, frequentemente, problemas estruturais como a falta de recursos materiais, baixa qualificação dos profissionais e dificuldades no acesso às tecnologias, o que compromete a qualidade do ensino oferecido. Além disso, a dispersão territorial e o isolamento das comunidades rurais dificultam a frequência e a permanência dos alunos na escola (Freitas, 2010).

A educação rural deve ser pensada a partir da valorização do contexto cultural e social das populações do campo. Para Nóvoa (2009), “a escola rural não pode simplesmente reproduzir o modelo urbano; ela precisa ser adaptada às especificidades do meio, considerando os saberes locais e as práticas comunitárias” (p. 123). Isso implica na necessidade de um currículo contextualizado que dialogue com a realidade rural e promova a participação ativa da comunidade no processo de ensino-aprendizagem (Silva & Souza, 2015).

Ademais, a gestão escolar no meio rural deve ser sensível às condições locais, buscando fortalecer o vínculo entre a escola e a comunidade. Segundo Oliveira (2012), “a participação comunitária é um dos pilares para a construção de uma educação rural inclusiva e democrática, capaz de enfrentar as desigualdades e promover o desenvolvimento sustentável” (p. 87). 

A educação em contextos urbanos apresenta dinâmicas próprias, influenciadas pela diversidade cultural, densidade populacional e maior oferta de recursos e tecnologias, mas também marcada por desafios complexos relacionados às desigualdades sociais e econômicas. Segundo Libâneo (2013), as escolas urbanas, embora frequentemente disponham de melhores infraestruturas e acesso a recursos tecnológicos, enfrentam desafios ligados à heterogeneidade dos alunos, exigindo abordagens pedagógicas que reconheçam a diversidade cultural e social existente nas cidades.

A educação urbana deve ser compreendida como um espaço de diálogo e conscientização crítica, onde as desigualdades estruturais precisam ser enfrentadas por meio de práticas pedagógicas que promovam a inclusão e a participação ativa dos estudantes. A gestão escolar, nesse sentido, tem o papel de articular a escola com a comunidade urbana, mediando conflitos e buscando fortalecer o vínculo social (Oliveira, 2010).

Outro aspecto importante no contexto urbano é a urgência de políticas públicas que atendam às demandas particulares das regiões metropolitanas, como a redução da evasão escolar, enfrentamento da violência e garantia da equidade no acesso a uma educação de qualidade (Silva & Almeida, 2017). Segundo Souza (2014), “a educação urbana demanda uma gestão que seja democrática e participativa, capaz de integrar diversos actores sociais em torno da construção de uma escola inclusiva” (p. 142).

Portanto, embora as escolas urbanas contem com mais recursos materiais em comparação às rurais, a complexidade social e cultural dessas áreas exige uma abordagem educativa que vá além da simples transmissão de conhecimento, promovendo o desenvolvimento integral dos estudantes e o fortalecimento da cidadania.

Uma linha consistente de pesquisa demonstra que a localização geográfica influencia fortemente o acesso a infraestrutura, materiais didáticos e tecnologia. Escolas rurais enfrentam carência de infraestruturas básicas, distâncias maiores entre as comunidades e dificuldades logísticas que limitam programas de formação contínua e mecanismos de supervisão escolar; já em áreas urbanas o problema tende a manifestar-se em superlotação, degradação do ambiente escolar e desigualdades intra-urbanas. Relatórios recentes sobre Moçambique e outros países da África subsaariana documentam disparidades significativas entre zonas rurais e urbanas que impactam diretamente indicadores de conclusão e proficiência.

A comparação entre esses contextos evidencia que a qualidade da educação não depende exclusivamente da localização geográfica, mas da capacidade de a gestão escolar adaptar-se às condições objectivas e mobilizar os actores escolares em torno de um projecto pedagógico consistente. Como afirma Paro (2016), “a democratização da gestão é elemento fundamental para que a escola desempenhe seu papel social, combata as desigualdades e assegure uma educação de qualidade para todos” (p. 45). Assim, tanto em áreas rurais quanto urbanas, a eficácia da gestão escolar está fortemente associada ao planejamento participativo, ao uso racional de recursos e à valorização do trabalho docente.

Desafios educacionais                  

A gestão escolar enfrenta desafios distintos em contextos rurais e urbanos, influenciados por fatores socioeconômicos, infra-estruturais e culturais. As escolas moçambicanas lidam com desafios relacionados à superlotação, diversidade cultural, e demandas sociais variadas (Mussa & Nhantumbo, 2020). Embora disponham, em geral, de melhor infraestrutura em comparação com as áreas rurais, muitos estabelecimentos urbanos ainda enfrentam limitações que comprometem o ambiente de aprendizagem (Gudo et al., 2018). Além disso, a alta rotatividade de professores e gestores nessas regiões urbanas dificulta a continuidade dos projetos pedagógicos e administrativos (Pereira & Mucavele, 2016).

As políticas educacionais implementadas no país buscam promover a descentralização da gestão escolar e a maior participação da comunidade, especialmente nas zonas rurais, como estratégia para enfrentar esses desafios (Ministério da Educação de Moçambique, 2018). Contudo, a efetividade dessas políticas ainda é limitada pela insuficiência de recursos e pelo descompasso entre as directrizes nacionais e as realidades locais (Brito & Nhantumbo, 2020).

Dessa forma, Chilundo (2022), fala da importância de políticas públicas contextualizadas que considerem as particularidades das regiões rurais e urbanas. Além disso, é necessário promover uma gestão escolar mais inclusiva, participativa e eficaz, a fim de assegurar a elevação da qualidade da educação em todo o território moçambicano.

Relatórios e avaliações (Ministério da Educação, UNESCO, UNICEF e World Bank) indicam que Moçambique enfrenta desafios estruturais de financiamento, assimetrias regionais e necessidade de maior capacidade de monitoria e avaliação para traduzir planos estratégicos em resultados de aprendizagem. O Plano Estratégico da Educação 2020–2029 e as iniciativas multilateral-parceiras enfatizam a transição do foco em expansão para qualidade, contudo apontam lacunas em implementação, particularmente em províncias mais afectadas por pobreza, ciclones e conflitos. Esses fatores ampliam os desafios da gestão escolar, sobretudo em contextos rurais e zonas com insegurança. 

Relativamente as escolas rurais, elas frequentemente lidam com dificuldades como falta de transporte escolar, rotatividade de professores e acesso limitado a tecnologias educacionais. Hage (2013) ressalta que a gestão nesses contextos exige maior flexibilidade, como a adoção de modelos multisseriados e parcerias com a comunidade. Além disso, a qualidade da educação é impactada pela descontinuidade de políticas públicas voltadas para essas regiões.

Adicionalmente, outro desafio significativo é a escassez de recursos humanos qualificados. A dificuldade de fixação de professores nas zonas rurais, aliada à ausência de programas regulares de formação contínua, limita a capacidade das escolas de oferecer um ensino consistente e atualizado. Além disso, o acesso restrito a tecnologias educacionais e à internet impede a integração de práticas pedagógicas inovadoras e o desenvolvimento de competências digitais entre alunos e docentes.

A distância entre as comunidades e os centros escolares também representa um entrave, especialmente para crianças que precisam caminhar longas distâncias diariamente. Esse factor contribui para o abandono escolar e para a baixa taxa de conclusão do ensino básico. A gestão escolar, nesse contexto, enfrenta o desafio de articular soluções locais com políticas públicas que nem sempre consideram as especificidades territoriais.

No que concerne à educação em áreas urbanas de Moçambique, como na cidade de Tete, apresenta avanços significativos em relação à infraestrutura, à disponibilidade de recursos pedagógicos e ao acesso à formação de professores. No entanto, esses benefícios coexistem com desafios complexos que afetam diretamente a qualidade do ensino e a gestão escolar.

Um dos principais obstáculos é a superlotação das escolas, resultado do crescimento populacional acelerado e da migração de famílias das zonas rurais para os centros urbanos. Essa realidade sobrecarrega os recursos disponíveis, dificulta o acompanhamento individualizado dos alunos e compromete o ambiente de aprendizagem. Além disso, a diversidade cultural e socioeconômica dos estudantes exige práticas pedagógicas mais inclusivas e sensíveis às diferentes realidades.

Outro desafio relevante é a burocratização dos processos administrativos, que limita a autonomia dos gestores escolares e dificulta a implementação de soluções locais. A pressão por resultados e o cumprimento de metas educacionais também geram tensões na rotina escolar, muitas vezes em detrimento da qualidade pedagógica. Em alguns bairros periféricos, a violência e o abandono escolar são fatores adicionais que exigem ações integradas entre escola, família e comunidade.

Qualidade da Educação

A qualidade da educação é um conceito multifacetado que vai além do desempenho académico dos alunos, integrando as condições de ensino, a formação dos professores, a gestão escolar e o envolvimento da comunidade. A sua percepção é influenciada por fatores políticos, sociais, humanos e técnicos, sendo geralmente associada à capacidade do sistema educativo de responder às necessidades e expectativas dos seus intervenientes. Nesse sentido, Nhambi e Nascimento (2022) destacam que a centralidade do professor, aliada à formação contínua e a práticas pedagógicas contextualizadas, constitui um elemento determinante para a promoção da qualidade educativa.

De acordo com a UNESCO (2017), ela abrange o acesso, a permanência, a equidade e a aprendizagem relevante. Em Moçambique, a busca pela qualidade exige que a gestão escolar se adapte às particularidades de cada região, sejam elas rurais ou urbanas, como defendido por Chilundo (2022).

Adicionalmente, a qualidade da educação está diretamente relacionada à eficácia da gestão escolar em responder às necessidades do seu contexto (Libâneo, 2013). Em Moçambique, políticas recentes têm buscado incentivar a descentralização da gestão e a participação comunitária, especialmente em áreas rurais, para tornar a gestão mais contextualizada e eficiente (MINEDH, 2018). 

Assim, para promover a melhoria da qualidade da educação, a gestão escolar em Moçambique deve ser capaz de ajustar suas táticas às particularidades dos ambientes rurais e urbanos, enfrentando os múltiplos desafios educacionais com práticas inclusivas, participativas e sustentáveis (Chilundo, 2022). Entender as especificidades locais é essencial para criar políticas públicas e estratégias pedagógicas que assegurem uma educação justa e de alta qualidade para todos.

No entanto, podemos corroborar que a qualidade da educação está intimamente relacionada à gestão escolar eficaz. Uma liderança comprometida, com visão estratégica e sensibilidade para adaptar-se às especificidades do contexto, é fundamental para superar obstáculos e garantir que a escola cumpra seu papel social de promover aprendizagem significativa e equitativa.

Relativamente à contextos urbanos, observa-se, em geral, maior disponibilidade de recursos materiais, infraestrutura mais desenvolvida, acesso mais facilitado a tecnologias e maior oferta de formação continuada para docentes. Contudo, tais ambientes também enfrentam desafios como turmas superlotadas, desigualdades socioeconômicas internas e altos índices de evasão escolar em determinadas regiões periféricas (Soares & Andrade, 2015).

Por outro lado, nos contextos rurais, a qualidade educacional é muitas vezes comprometida por fatores como a escassez de professores qualificados, infraestrutura precária, distâncias geográficas entre escola e comunidade, e falta de materiais didáticos adequados. Além disso, há desafios relacionados à contextualização curricular, pois a educação rural frequentemente carece de integração com a realidade sociocultural e econômica local (Oliveira & Santos, 2018).

A UNESCO (2020) ressalta que a qualidade da educação, tanto em áreas rurais quanto urbanas, deve ser avaliada considerando indicadores quantitativos (taxas de matrícula, aprovação e frequência) e qualitativos (metodologias, formação docente, relevância curricular e satisfação da comunidade escolar). Assim, políticas públicas eficazes precisam levar em conta a heterogeneidade de contextos para garantir uma educação equitativa e transformadora.

Assim, a análise comparativa indica que a qualidade da educação não pode ser medida apenas pela disponibilidade de recursos, mas pela capacidade de adaptá-los ao contexto e às necessidades locais. Nesse sentido, políticas públicas devem considerar estratégias diferenciadas para contextos rurais e urbanos, garantindo não apenas igualdade de acesso, mas equidade de condições e oportunidades para todos os estudantes.

A qualidade da Educação em perspectivas comparativas, ela está intimamente ligada à capacidade da gestão escolar de superar adversidades locais. Enquanto nas zonas rurais a prioridade é assegurar acesso e permanência, nas urbanas o foco está na diversificação pedagógica e na redução de disparidades (Paro, 2015). A comparação entre os dois contextos revela que a qualidade da educação não depende exclusivamente da infraestrutura ou dos recursos disponíveis, mas também da capacidade de adaptação dos gestores, da valorização das práticas locais e da efetividade das políticas públicas.

A infraestrutura escolar (condições físicas da escola, água, saneamento, segurança, ventilação, espaço pedagógico) tem impacto mensurável sobre aprendizagem e sobre a permanência e motivação de alunos e professores. Relatórios do World Bank sintetizam evidências de que escolas com ambientes físicos adequados apresentam melhores resultados acadêmicos, e ressaltam que a ausência desses elementos tende a concentrar-se nas áreas mais pobres, muitas vezes rurais, ampliando desigualdades. Além de investimento, o relatório enfatiza a necessidade de planejamento participativo (com professores, pais e comunidade) para garantir que obras e recursos realmente favoreçam práticas pedagógicas e aprendizagem. 

Em Moçambique, essa relação é especialmente evidente quando se comparam os contextos rurais e urbanos, onde as disparidades estruturais influenciam significativamente o desempenho dos alunos, a motivação dos professores e a eficácia da gestão escolar.

Nas zonas urbanas, as escolas tendem a contar com melhores condições físicas, como salas de aula equipadas, acesso à electricidade, bibliotecas, laboratórios e tecnologias digitais. Esses elementos favorecem um ambiente de aprendizagem mais estimulante e diversificado, permitindo a implementação de metodologias pedagógicas inovadoras e o uso de recursos multimídia. Além disso, a presença de serviços básicos como água potável e saneamento contribui para a permanência dos alunos e para a saúde escolar. 

Em contraste, nas zonas rurais, muitas escolas enfrentam sérias limitações de infraestrutura: edifícios degradados, ausência de mobiliário adequado, falta de materiais didáticos e inexistência de acesso à internet. Essas carências afetam diretamente a qualidade do ensino, dificultam a retenção de professores e comprometem a gestão escolar. A escassez de recursos também limita a formação contínua dos profissionais, o que impacta negativamente o desenvolvimento das competências pedagógicas.

A gestão escolar, nesse cenário, torna-se um factor estratégico para mitigar os efeitos da precariedade estrutural, exigindo criatividade, articulação com a comunidade e apoio das autoridades educacionais.

No que tange o contexto socioeconómico, cultura e relevância curricular, as zonas rurais, os baixos níveis de rendimento familiar, o trabalho infantil, a insegurança alimentar e o acesso limitado a serviços básicos como saúde e transporte afetam directamente a frequência escolar e o desempenho dos estudantes. Além disso, a cultura local é marcada por línguas maternas diversas, práticas comunitárias e valores tradicionais muitas vezes entra em conflito com um currículo nacional padronizado, que não contempla as especificidades regionais nem valoriza os saberes locais.

Nos centros urbanos, embora haja maior acesso a serviços públicos e oportunidades econômicas, a desigualdade social e a diversidade cultural também representam desafios. O currículo, por vezes, não dialoga com a realidade dos alunos que vivem em bairros periféricos ou em situação de vulnerabilidade, o que pode gerar desmotivação e distanciamento da escola.

A relevância curricular, portanto, está diretamente ligada à capacidade de adaptação dos conteúdos às realidades socioculturais dos estudantes. Uma abordagem curricular contextualizada, que valorize os saberes locais e promova a inclusão, é essencial para garantir uma educação significativa e equitativa.

METODOLOGIA

Este estudo adotou abordagem qualitativa, com ênfase em pesquisa bibliográfica e análise documental, para investigar o papel do gestor escolar em contextos rurais e urbanos da província de Tete. A pesquisa bibliográfica utilizou materiais já publicados, como livros, artigos, teses e anais de eventos científicos (Gil, 2019), enquanto a análise documental fundamentou-se em registros escritos, primários ou secundários, incluindo documentos ministeriais e artigos acadêmicos (Marconi & Lakatos, 2006). Trata-se de pesquisa aplicada e de caráter exploratório, buscando compreender os desafios dos gestores e orientar estudos futuros (Do Nascimento, 2016; Severino, 2007). O desenho metodológico permitiu análise comparativa entre contextos rurais e urbanos, valorizando percepções dos gestores. A amostra incluiu dez escolas de ensino básico (cinco urbanas e cinco rurais), selecionadas por amostragem intencional, com 23 participantes entre diretores, adjuntos e coordenadores. A coleta de dados foi realizada por entrevistas semiestruturadas e observação direta, e a análise ocorreu por análise de conteúdo temática (Bardin, 2016), permitindo identificar categorias e subcategorias emergentes.

ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

A gestão escolar enfrenta desafios distintos em contextos rurais e urbanos, mas converge em aspectos estruturais, pedagógicos e formativos que influenciam a qualidade da educação. Nas escolas urbanas, há maior acesso a recursos materiais e tecnológicos, como bibliotecas, salas de informática e internet, embora sejam sobrecarregados por superlotação e burocracia. Nas escolas rurais, a infraestrutura precária, a falta de mobiliário e a ausência de tecnologias limitam práticas pedagógicas e a gestão escolar (Mogo, Chissico & Tamele, 2025).

A formação dos gestores é crítica: nas áreas urbanas, os programas são mais acessíveis, mas pouco contextualizados; nas rurais, a capacitação é escassa e irregular. Lück (2009) destaca que uma formação contínua e estratégica é essencial para a liderança escolar e para a eficácia da gestão.

A participação da comunidade é mais estruturada nas zonas urbanas, com conselhos escolares ativos, enquanto nas rurais ocorre de forma informal e depende da iniciativa local. Paro (2012) defende que a gestão democrática exige espaços de diálogo e corresponsabilidade.

Quanto à relevância curricular, os gestores enfrentam dificuldades na adaptação do currículo nacional às realidades locais. Nas áreas urbanas, a diversidade cultural exige práticas inclusivas; nas rurais, saberes tradicionais e línguas locais são frequentemente negligenciados. Vanavave et al. (2025) ressaltam que a desconexão entre currículo e contexto compromete a motivação e aprendizagem dos alunos.

Em síntese, superar os desafios da gestão escolar em Moçambique requer políticas públicas contextualizadas, formação contínua de gestores e valorização da participação comunitária, garantindo uma gestão estratégica, democrática e sensível às realidades locais.

CONCLUSÕES 

Este estudo analisou comparativamente os desafios da gestão escolar em contextos rurais e urbanos da província de Tete, Moçambique, destacando como as especificidades territoriais influenciam a qualidade da educação. Nas zonas rurais, os principais obstáculos estão relacionados à precariedade da infraestrutura, à escassez de profissionais qualificados e à limitada adaptação curricular às realidades locais. Nas áreas urbanas, os gestores enfrentam a complexidade institucional, a diversidade sociocultural e a pressão por resultados, mesmo dispondo de melhores recursos.

Em ambos os contextos, a gestão escolar revela-se estratégica para superar dificuldades e promover uma educação equitativa e de qualidade. Fatores como participação comunitária, formação contínua dos profissionais e adaptação do currículo às realidades locais são essenciais para fortalecer a escola como espaço de inclusão e transformação social. Assim, os resultados reforçam a importância de políticas públicas que reconheçam as especificidades territoriais e incentivem práticas de gestão democrática e inovadora, consolidando a liderança escolar como agente de mudança e a educação de qualidade como um direito efetivo.

REFERÊNCIAS

Brito, A., & Nhantumbo, C. (2020). Desafios da implementação de políticas educacionais em Moçambique: Entre a teoria e a prática. Revista Moçambicana de Educação, 12(1), 55–64.

Chansa, M., Banda, P., & Tembo, G. (2024). School leadership and management challenges in rural and urban contexts: A comparative perspective. Journal of Educational Administration and Leadership, 62(1), 45–61. https://doi.org/10.1108/JEAL-02-2024-0198

Chilundo, M. (2022). Gestão educacional e qualidade do ensino em Moçambique: Caminhos para a equidade. Cadernos de Educação e Sociedade, 8(2), 45–60.

Chinhamo, J. (2019). Desigualdades regionais e o impacto na gestão escolar moçambicana. Revista de Políticas Educacionais, 6(3), 101–115.

Gudo, A., Nhantumbo, J., & Mucavele, F. (2018). Infraestruturas escolares e qualidade da educação em Moçambique: Uma análise comparativa. Revista de Estudos Educacionais, 4(1), 77–89.

Imbernón, F. (2023). Formação docente e desenvolvimento profissional: Perspectivas críticas e colaborativas. São Paulo: Cortez Editora.

Libâneo, J. C. (2012). Organização e gestão da escola: Teoria e prática. Cortez.

Libâneo, J. C. (2013). Organização e gestão da escola: Teoria e prática (6ª ed.). Cortez Editora.

Lück, H. (2009). Gestão educacional: Uma questão paradigmática. Vozes.

Mbamba, C., & Batista, R. (2024). Desafios da gestão escolar em contextos rurais moçambicanos: Recursos, liderança e qualidade educativa. Revista Moçambicana de Educação e Sociedade, 5(2), 89–104.

Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano – MINEDH. (2021). Plano estratégico da educação 2020–2029. https://www.mined.gov.mz 

Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano. (2018). Plano estratégico da educação 2018–2028. Maputo: Governo de Moçambique.

Mogo, A., Chissico, F., & Tamele, J. (2025). Desafios da gestão escolar em Moçambique: uma análise regional. Revista FOCO, 12(1), 45–62. https://ojs.focopublicacoes.com.br/foco/article/view/9157

Murali, K. (2025). Educational management and equity: Rethinking school leadership in developing countries. International Review of Education, 71(1), 1–19. https://doi.org/10.1007/s11159-025-10018-6

Mussa, P., & Nhantumbo, C. (2020). Demandas sociais e diversidade cultural na gestão escolar urbana. Revista Africana de Estudos Educacionais, 7(3), 65–78.

Nhambi, P. M. (2025). Gestão curricular flexível: impactos na aprendizagem dos alunos. Revista Electrónica de Investigação e Desenvolvimento (REID), 2(16).

Nhambi, P. M., & Nascimento, A. (2022). O papel do professor na promoção da qualidade do ensino. Revista de Investigação em Educação e Desenvolvimento (REID), Universidade Católica de Moçambique.

Nhantumbo, J. (2021). Formação e desafios dos gestores escolares em áreas rurais de Moçambique. Revista Gestão e Educação, 11(2), 70–82.

Oliveira, P. S. (2012). Gestão participativa na educação rural. Revista de Educação do Campo, 7(2), 80-95.

Oliveira, R. P., & Santos, F. R. (2018). Educação no campo e qualidade social: desafios para as políticas públicas. Revista Educação em Questão, 56(49), 94–116.

Paro, V. H. (2012). Gestão democrática da escola pública. Cortez.

Paro, V. H. (2016). Educação como exercício de poder: Crítica ao senso comum em educação. Cortez.

Pereira, F., & Mucavele, L. (2016). Condições socioeconômicas e permanência escolar em Moçambique: Implicações para a gestão educacional. Revista Lusófona de Educação, 14(1), 34–49.

Silva, T., & Pereira, J. (2023). Gestão escolar e qualidade da educação: Interfaces entre liderança pedagógica e contexto sociocultural. Revista Ibero-Americana de Estudos Educacionais, 18(3), 212–228. https://doi.org/10.1590/riaee.v18n3.2023

Soares, T. M., & Andrade, R. J. (2015). Fatores associados ao desempenho escolar no Brasil: uma análise contextualizada. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, 96(243), 477–499.

UNESCO. (2017). Education for sustainable development goals: Learning objectives. Paris: UNESCO.

UNESCO. (2020). Global Education Monitoring Report 2020: Inclusion and education. All means all. Paris: UNESCO. Recuperado me https://www.unesco.at/fileadmin/Redaktion/Publikationen/Publikations Dokumente/2020_GEM-Report_Inclusion_and_Education_eng.pdf  

UNICEF Moçambique. (2022). Educação inclusiva e equitativa em Moçambique: Desafios e oportunidades para o ensino básico. Maputo: UNICEF. https://www.unicef.org/mozambique

UNICEF. (2021). Country Office Annual Report — Mozambique / The Situation of Children in Mozambique 2021 (relatórios). 

Universidade Save – UNISCED. (2022). Estado, sistema educativo e gestão escolar em Moçambique. Revista Científica da UNISCED, 5(2), 1–20. https://sgr.unisced.edu.mz/bitstream/123456789/3302/1/12777-Texto%20do%20Artigo-54281-1-10-20220610%20ESTADO.pdf 

World Bank. (2018). The impact of school infrastructure on learning: A synthesis of the evidence. Washington, DC: World Bank. Recuperado de https://documents1.worldbank.org/curated/en/853821543501252792/pdf/132579-PUB-Impact-of-School.pdf 

World Bank. (2023). Mozambique — Overview / education analyses.


1Mestrando em Gestão e Administração Educacional na Faculdade de Gestão de Recursos Naturais e Mineralogia – UCM. E-mail: 710250326@ucm.ac.mz
https://orcid.org/0009-0002-2875-1167

2Mestrando em Gestão e Administração Educacional na Faculdade de Gestão de Recursos Naturais e Mineralogia – UCM. . E-mail:710250280@ucm.ac.mz
https://orcid.org/0009-0006-2449-5505

3Mestrando em Gestão e Administração Educacional na Faculdade de Gestão de Recursos Naturais e Mineralogia – UCM. E-mail: 710250013@ucm.ac.mz
https://orcid.org/0009-0006-2055-9911

4Mestranda em Gestão e Administração Educacional na Faculdade de Gestão de Recursos Naturais e Mineralogia – UCM. E-mail: delfinae.samissone@gmail.mz
https://orcid.org/0009-0003-4405-8685

5Mestrando em Gestão e Administração Educacional na Faculdade de Gestão de Recursos Naturais e Mineralogia – UCM. E-mail: 710250013@ucm.ac.mz
https://orcid.org/0009-0009-5472-8391

6Mestranda em Gestão e Administração Educacional na Faculdade de Gestão de Recursos Naturais e Mineralogia – UCM. E-mail: 710250500@ucm.ac.mz
https://orcid.org/0009-0002-9002-4204