BIOSAFETY CARE FOR HIV PATIENTS AT METROPOLITAN COLLEGE
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202510311358
Hinara Barzotto Izel
Rosa Osmarina Coelho Campos
Orientador: Profª. Espª. Victor Hugo Bernardes
RESUMO: O Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV) e a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) figuram entre as condições mais estigmatizadas pela sociedade. Embora a infecção possa ser controlada por meio da terapia antirretroviral, ainda não existe cura definitiva, e o preconceito continua sendo um desafio tanto para os pacientes quanto para os profissionais de saúde. No Brasil, o tratamento e as medidas preventivas são disponibilizados gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o que amplia o acesso, mas não elimina as barreiras sociais e emocionais associadas à soropositividade. Diante desse contexto, o presente estudo tem como objetivo relatar o caso clínico de uma paciente de 43 anos, portadora do HIV, atendida na clínica odontológica da Faculdade Metropolitana, enfatizando as condutas de biossegurança e o manejo ético durante o tratamento endodôntico. O relato busca, ainda, discutir a abordagem adotada por alunos de Odontologia frente a pacientes soropositivos e refletir sobre a importância da formação humanizada no ambiente acadêmico. Para embasar a discussão, foi realizada uma revisão de literatura nas bases PubMed, LILACS e SciELO, contemplando publicações entre 2013 e 2024, acerca da relação entre biossegurança, prática odontológica e HIV. Os resultados apontam que o cirurgião-dentista desempenha papel essencial não apenas no tratamento odontológico, mas também no acolhimento e na redução do estigma enfrentado por esses pacientes. Ressalta-se, ainda, a necessidade de ações educativas contínuas voltadas à capacitação dos profissionais quanto às medidas de prevenção, protocolos de biossegurança e ética no atendimento clínico, de modo a garantir um ambiente seguro, inclusivo e livre de preconceitos.
Palavras-chave: HIV. Síndrome da Imunodeficiência Adquirida. Prevenção. Proteção. Ambi- ente seguro.
ABSTRACT: The Human Immunodeficiency Virus (HIV) and Acquired Immunodeficiency Syndrome (AIDS) remain among the most stigmatized conditions in society. Although infection can be effectively controlled through antiretroviral therapy, there is still no definitive cure, and prejudice continues to pose challenges for both patients and healthcare professionals. In Brazil, treatment and preventive measures are provided free of charge through the Unified Health System (SUS), expanding access but not fully eliminating the social and emotional barriers associated with seropositivity. This study aims to report the clinical case of a 43-year-old HIV-positive patient treated at the Dental Clinic of Faculdade Metropolitana, highlighting the biosafety protocols and ethical conduct adopted during endodontic treatment. The report also discusses the approach of dental students toward HIV-positive patients and reflects on the importance of humanized training within academic practice. To support the discussion, a literature review was conducted using the PubMed, LILACS, and SciELO databases, including studies published between 2013 and 2024 on the relationship between biosafety, dental care, and HIV. The results demonstrate that dentists play an essential role not only in providing oral treatment but also in supporting patients to overcome stigma. Furthermore, the findings emphasize the need for continuous educational programs aimed at strengthening knowledge on preventive measures, biosafety protocols, and ethical principles in clinical care, ensuring a safe, inclusive, and prejudice-free environment.
KEYWORDS: HIV. Acquired immunodeficiency syndrome. Prevention. Protection. Safe environment.
1 INTRODUÇÃO
Em 2013, cerca de 33,5 milhões de pessoas estavam infectadas pelo Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV) em todo o mundo, com 2,3 milhões de novos casos diagnosticados no ano anterior. No mesmo período, aproximadamente 1,6 milhões de indivíduos faleceram devido a complicações relacionadas à Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) globalmente. No Brasil, estima-se que 718 mil pessoas vivam com HIV/Aids, com 39.185 novos diagnósticos de AIDS registrados em 2012. Entre 2008 e 2012, a taxa de incidência manteve-se estável, com 20,2 casos para cada 100 mil habitantes, e a taxa de mortalidade anual média desde 1998 é de cerca de 11 mil óbitos por ano (UNAIDS, 2013; BRASIL, 2013). Como afirma Souza et al. (2017), a infecção pelo HIV continua a ser um grande desafio para a saúde pública, devido à sua prevalência global e à complexidade do tratamento.
No estado de Rondônia, a mortalidade por AIDS apresentou uma diminuição de 18,75% nos últimos dez anos, passando de 4,8 para 3,9 mortes por 100 mil habitantes. Em 2022, o estado registrou 89 mortes por HIV/AIDS, representando um aumento de 9,8% em relação às 81 mortes observadas em 2012. Porto Velho, a capital de Rondônia, apresentou uma taxa de 7,4 mortes por 100 mil habitantes, abaixo da média nacional, e uma taxa de detecção de AIDS de 20,6 casos por 100 mil habitantes. No total, o Brasil registrou 43.403 casos de HIV em 2022, sendo 335 deles em Rondônia. Além disso, a taxa de gestantes infectadas pelo HIV na capital rondoniense foi de 4,8 casos por mil nascidos vivos (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2023). Esses dados evidenciam o impacto contínuo da doença no Brasil e a necessidade de um acompanhamento efetivo dos pacientes que vivem com HIV/AIDS. Segundo Lima et al. (2021), a evolução dos casos de HIV no Brasil e o aumento da sobrevida dos pacientes exigem uma readequação dos cuidados, especialmente na área da saúde bucal, dada a vulnerabilidade desses pacientes a infecções orais oportunistas.
A gestão da saúde bucal de pessoas vivendo com HIV/AIDS representa um desafio crescente para os profissionais de odontologia, já que esses pacientes estão cada vez mais presentes nas unidades de atendimento. A atuação dos cirurgiões- dentistas se torna essencial para garantir um cuidado integral, levando em consideração as especificidades dessa população. Para tanto, é imprescindível que as equipes de saúde ampliem o acesso aos serviços odontológicos e adaptem suas práticas para atender de forma adequada às necessidades dos pacientes, proporcionando um atendimento que respeite a diversidade e a dignidade de cada indivíduo, independentemente de sua orientação sexual, estilo de vida ou condição clínica (SOARES et al., 2014). Nesse contexto, a educação em saúde bucal deve ser uma prioridade, tanto para os profissionais quanto para os pacientes, garantindo que todos compreendam a importância dos cuidados preventivos e terapêuticos, além de reduzir a estigmatização dos pacientes HIV positivos (RIBEIRO et al., 2020).
Este trabalho teve como objetivo realizar um relato de caso, abordando os cuidados odontológicos prestados a pacientes HIV positivos na clínica odontológica da Faculdade Metropolitana de Rondônia. A pesquisa avaliará as práticas de biossegurança adotadas pelos alunos de odontologia, com foco no uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e na importância de um atendimento humanizado. Através deste estudo, busca-se compreender como os futuros profissionais lidam com os desafios do atendimento a pacientes soropositivos, identificando possíveis lacunas na formação acadêmica e sugerindo melhorias nos protocolos de biossegurança.
2 OBJETIVO
2.1 Objetivos gerais
- Relatar os cuidados da biossegurança com pacientes HIV na clínica odontológica;
2.2 Objetivos específicos
- Identificar os cuidados odontológicos com pacientes HIV;
- Analisar a importância da biossegurança do profissional de odontologia na hora do procedimento com pacientes soropositivos.
- Observar os cuidados do paciente soropositivo ao receber atendimento odontológico.
3 REFERENCIAL TEÓRICO
O Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV) é um retrovírus que infecta as células do sistema imunológico, principalmente os linfócitos T CD4+, responsáveis pela defesa do organismo contra infecções. A infecção por HIV resulta na diminuição progressiva dessas células, o que enfraquece o sistema imunológico e torna o organismo vulnerável a infecções oportunistas e outras doenças, aumentando o risco de mortalidade (Macedo et al., 2021).
O HIV pertence à família Retroviridae e à subfamília Lentiviridae, sendo transmitido por via sexual, parenteral (contato com sangue ou fluidos corporais) e vertical (da mãe para o filho durante a gestação, parto ou amamentação). A infecção evolui para a fase mais grave da doença, a AIDS, que é caracterizada pela queda acentuada no número de linfócitos T CD4+, o que compromete a capacidade do corpo de combater infecções (Keser et al., 2019).
A descoberta do HIV na década de 1980 gerou grande preocupação global, particularmente devido à associação inicial com comportamentos sexuais de risco e com grupos específicos, como homens que fazem sexo com homens e usuários de drogas injetáveis. Isso alimentou estigmas e preconceitos em torno da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS), muitas vezes referida de forma errônea como “peste gay”, o que agravou a discriminação social em relação a esses grupos (Muniz et al., 2019).
O HIV continua a ser um problema global de saúde pública, reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS). De acordo com o Programa das Nações Unidas, até 2019, cerca de 38 milhões de pessoas foram diagnosticadas com HIV em todo o mundo, e a AIDS pode se tornar a terceira maior causa de morte até 2030. No Brasil, o Ministério da Saúde registrou 41.919 novos casos em 2019, com maior prevalência entre jovens adultos de 25 a 39 anos e uma maior incidência no sexo masculino. Embora a taxa de diagnóstico tenha aumentado, houve uma redução de 18,7% na taxa de novos casos entre 2012 e 2019, e uma queda de 17,1% na mortalidade durante o período de 2015 a 2019 (Brasil, 2020).
3.1 Biossegurança no Atendimento Odontológico a Pacientes Soropositivos
No contexto odontológico, existe um risco significativo de contaminação cruzada, principalmente devido ao manuseio de fluidos corporais, como sangue, durante os procedimentos. A contaminação pode ocorrer acidentalmente por cortes ou perfurações com instrumentos contaminados. Portanto, o conhecimento e a aplicação de normas rigorosas de biossegurança são essenciais para garantir a proteção tanto dos pacientes quanto dos profissionais de saúde. Esses protocolos incluem o uso adequado de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), limpeza e desinfecção de materiais, além da esterilização de instrumentos antes e após cada procedimento (Macedo et al., 2021).
A cavidade oral dos pacientes com HIV frequentemente apresenta manifestações clínicas relacionadas a doenças oportunistas e neoplasias malignas, que podem ser agravadas pela imunossupressão associada ao HIV. Mais de quarenta tipos de lesões orais foram identificadas em pacientes HIV positivos, variando de afecções leves a graves, que podem indicar tanto a progressão da infecção quanto falhas no tratamento antirretroviral (Toledo et al., 2017). O controle da carga viral por meio da terapia antirretroviral tem sido eficaz na redução dessas lesões e na melhora da saúde bucal dos pacientes, evidenciando a importância do acompanhamento odontológico contínuo.
3.2 Desafios no Atendimento Odontológico a Pacientes com HIV
Estudos, como o de Felipe et al. (2016), apontam que os procedimentos de biossegurança no atendimento a pacientes HIV positivos devem seguir as mesmas normas adotadas para todos os pacientes, sem necessidade de protocolos diferenciados, exceto quando há risco específico de exposição a fluidos corporais. No entanto, pesquisas como a de Saliba Garbin et al. (2018), realizada na Faculdade de Odontologia de Araçatuba, revelaram que muitos estudantes acreditam que é necessário adotar medidas adicionais de proteção, como reforço na utilização de EPIs e maior atenção durante os procedimentos. Isso indica uma lacuna entre o conhecimento teórico e a prática clínica em relação ao atendimento odontológico a pacientes com HIV.
No campo da ética e do acolhimento, Hipólito et al. (2020) destacam que o cuidado humanizado e o acolhimento sem discriminação de pacientes soropositivos nas unidades de saúde são fundamentais para garantir a adesão ao tratamento e prevenir a evolução para a AIDS. Um atendimento odontológico de qualidade, livre de estigmas e discriminação, contribui para a saúde geral do paciente e para a melhoria da qualidade de vida de pessoas vivendo com HIV.
4 RELATO DE CASO CLÍNICO
4.1 Histórico e Anamnese
A paciente compareceu à clínica odontológica da Faculdade Metropolitana relatando dor no elemento 24 (primeiro pré-molar superior esquerdo). Durante a anamnese, informou ser portadora do vírus HIV, sob tratamento antirretroviral (TARV) regular há aproximadamente dez anos, com carga viral indetectável e contagem de linfócitos CD4 estável. Negou infecções oportunistas recentes e relatou boa adesão ao tratamento médico.
A paciente mencionou episódios anteriores de discriminação em atendimentos de saúde, o que reforçou a importância de uma abordagem humanizada, ética e acolhedora. Durante a anamnese, foram aferidos os sinais vitais, os quais apresentaram valores dentro dos parâmetros de normalidade, com pressão arterial de 120/80 mmHg, frequência cardíaca de 78 batimentos por minuto, frequência respiratória de 17 incursões por minuto e temperatura corporal de 36,4 °C.
O exame clínico e radiográfico revelou uma lesão compatível com necrose pulpar no elemento 24, indicando a necessidade de tratamento endodôntico (Figura 1).
Figura 1. Aspecto clínico inicial do elemento 24 apresentando alteração de coloração e lesão de cárie profunda (A); radiografia periapical inicial evidenciando imagem radiolúcida periapical compatível com necrose pulpar (B).

Fonte: Imagem acervo do autor.
4.2 Cuidados de Biossegurança e Paramentação
Antes do início do atendimento, o box clínico foi preparado com rigoroso controle de biossegurança. Todas as superfícies de trabalho foram desinfetadas com hipoclorito de sódio a 1% e álcool 70%, e aplicadas barreiras de proteção descartáveis em refletor, cadeira odontológica, bandeja e alças dos equipamentos.
A equipe realizou paramentação completa, utilizando os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs): jaleco de manga longa e de uso exclusivo do ambiente clínico, máscara cirúrgica, protetor facial (face shield), touca descartável, óculos de proteção, avental impermeável, luvas de procedimento e luvas de borracha para a etapa de limpeza e desinfecção (Figura 2).
Figura 2. Box clínico devidamente preparado com barreiras de proteção descartáveis, desinfecção de superfícies e organização dos materiais para atendimento seguro a paciente soropositivo.

Fonte: Imagem acervo do autor.
Durante o atendimento, foram observadas as precauções padrão, evitando contato direto com saliva e gotículas, reduzindo o risco de contaminação cruzada. Após o procedimento, o box foi completamente higienizado, e os materiais utilizados foram lavados, desinfectados e esterilizados em autoclave, conforme as normas da ANVISA (RDC nº 15/2012) e protocolos institucionais.
4.3 Sessões Clínicas
Na primeira sessão, foi realizada anestesia local e isolamento absoluto do campo operatório, seguido da abertura coronária e acesso à câmara pulpar. Após a localização dos condutos radiculares, procedeu-se à irrigação inicial com hipoclorito de sódio a 2,5%. O comprimento de trabalho foi determinado com o auxílio do localizador apical e confirmado por radiografia odontométrica. A instrumentação dos terços cervical e médio foi feita com limas tipo K sob irrigação constante. Em seguida, o canal radicular foi seco com cones de papel absorvente e medicado com hidróxido de cálcio, sendo então realizado o selamento provisório.
Na segunda sessão, o dente foi reaberto e a medicação intracanal removida. A irrigação foi realizada com EDTA a 17% para a remoção da smear layer, dando continuidade à instrumentação até o terço apical, com ampliação progressiva até a lima nº 30. Após nova irrigação com hipoclorito de sódio e EDTA, o canal foi seco, medicado novamente com hidróxido de cálcio e selado provisoriamente para aguardar a obturação.
Na terceira e última sessão, procedeu-se à remoção da medicação intracanal e à irrigação final do sistema de canais radiculares. O canal foi seco com cones de papel absorvente e, em seguida, realizada a obturação pela técnica do cone único, utilizando cimento à base de óxido de zinco e eugenol. O cone foi cortado e condensado, e o selamento coronário provisório foi executado. Uma radiografia final de controle confirmou a obturação adequada até o limite apical (Figura 3).
Figura 3. Etapas do tratamento endodôntico do elemento 24. (A) Prova de cone e determinação do comprimento de trabalho; (B) Radiografia odontométrica de confirmação do limite apical; (C) Manipulação do cimento obturador à base de óxido de zinco e eugenol; (D) Prova de cones de guta-percha antes da obturação; (E) Inserção dos cones e condensação lateral; (F) Remoção dos excessos coronários e limpeza do acesso; (G) Aspecto final da cavidade após selamento provisório; (H) Radiografia final de controle evidenciando obturação homogênea até o limite apical, sem lacunas ou extravasamento.


Fonte: Imagem acervo do autor.
4.4 Cuidados Pós-Atendimento
Após o término do tratamento, foram adotadas todas as medidas de biossegurança recomendadas. O descarte dos resíduos contaminados foi realizado de maneira correta, os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) foram trocados e descartados conforme as normas vigentes, e o ambiente clínico foi completamente desinfetado, incluindo cadeira odontológica e superfícies de contato. Os instrumentais utilizados foram devidamente lavados, desinfetados e esterilizados em autoclave, em conformidade com os protocolos de controle de infecção.
A paciente recebeu orientações sobre os cuidados pós-operatórios e foi encaminhada para a reabilitação protética do elemento tratado. Todo o atendimento foi conduzido com ênfase na segurança, ética e acolhimento, garantindo uma experiência clínica humanizada e livre de preconceitos.
5 DISCUSSÃO
O presente relato clínico, referente ao tratamento endodôntico do elemento 24 em paciente soropositiva, permite refletir sobre a integração entre técnica operatória, biossegurança, controle clínico e ética no atendimento odontológico de pacientes portadores do vírus da imunodeficiência humana (HIV). Os avanços da terapia antirretroviral (TARV) transformaram o HIV em uma condição crônica controlável; contudo, a prática odontológica ainda enfrenta desafios relacionados ao preconceito e ao manejo seguro desses indivíduos (FONSECA et al., 2023; COULTHARD, 2020).
A conduta adotada neste caso — caracterizada pelo uso de isolamento absoluto, irrigação com hipoclorito de sódio a 2,5%, instrumentação adequada, medicação intracanal com hidróxido de cálcio e obturação pela técnica do cone único — está em conformidade com as recomendações atuais para tratamento endodôntico em pacientes imunossuprimidos (XAVIER et al., 2025; RAMALHO; GONÇALVES, 2023). O uso rigoroso de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), a desinfecção minuciosa do ambiente clínico e a esterilização dos instrumentais por autoclave reforçam o cumprimento dos princípios de biossegurança, que são essenciais para a prevenção da contaminação cruzada e para a proteção tanto do profissional quanto do paciente (SĂNDULESCU et al., 2023).
A literatura reforça que o risco de transmissão ocupacional do HIV em ambiente odontológico é extremamente baixo quando as precauções padrão são aplicadas corretamente (AMERICAN DENTAL ASSOCIATION, 2024). Assim, mais importante do que estabelecer protocolos diferenciados, é garantir que todos os pacientes sejam tratados como potencialmente infectados, assegurando um padrão universal de biossegurança (SILVA-BOGHOSSIAN et al., 2020; UCE GAVILÁNEZ GAIBOR, 2024). O cumprimento dessas medidas, como se observou no presente caso, contribui para a quebra do estigma que ainda permeia o atendimento de pessoas vivendo com HIV (PLHIV).
Em relação ao prognóstico endodôntico, diversas revisões sistemáticas demonstram que o status sorológico positivo não constitui, por si só, um fator de risco para o insucesso terapêutico. Xavier et al. (2025) observaram taxa de sucesso de 89,7% em pacientes HIV positivos e de 94,1% em pacientes soronegativos, sem diferença estatisticamente significativa. De modo semelhante, Xu et al. (2024) afirmam que “até o momento, não há evidências de que a infecção pelo HIV impacte negativamente os resultados da terapia endodôntica”. Essas conclusões corroboram a evolução clínica satisfatória relatada no presente estudo, uma vez que a paciente apresentou boa resposta terapêutica e ausência de intercorrências.
Além disso, pacientes com contagem de linfócitos CD4 acima de 350 células/mm³ e carga viral indetectável podem ser submetidos com segurança a procedimentos odontológicos eletivos (XU et al., 2024). A paciente relatada apresentava adesão satisfatória à TARV, o que possivelmente favoreceu a resposta clínica positiva. Tais achados reforçam que o sucesso do tratamento não depende apenas da técnica endodôntica, mas também do manejo sistêmico e da avaliação individualizada das condições imunológicas (SEGURA-EGEA et al., 2023).
Outro ponto de destaque é o impacto psicossocial do estigma. No presente caso, a paciente mencionou experiências prévias de discriminação, evidenciando a importância de uma abordagem humanizada, empática e livre de julgamentos. Fonseca et al. (2023) identificaram que aproximadamente 7% dos pacientes HIV positivos relataram recusa de atendimento odontológico e 8% perceberam desconforto por parte dos profissionais. Esses dados reforçam a necessidade de programas de capacitação continuada que contemplem não apenas a biossegurança, mas também os aspectos éticos e comunicacionais do cuidado em saúde.
A literatura aponta, ainda, que pessoas vivendo com HIV podem apresentar alterações salivares e da microbiota oral, mesmo com o uso regular da TARV, o que aumenta o risco de doenças orais secundárias, como cáries e infecções oportunistas (BERREZOUGA et al., 2024; CAO et al., 2022). Assim, o acompanhamento odontológico periódico e a manutenção da higiene bucal tornam-se medidas preventivas essenciais. No caso relatado, a adoção de controle rigoroso e o encaminhamento para reabilitação protética após o tratamento endodôntico refletem o compromisso com a integralidade da atenção.
O presente relato também contribui para o campo da educação em saúde. Ainda existem lacunas significativas na formação de cirurgiões-dentistas quanto ao manejo de pacientes soropositivos e às práticas seguras de biossegurança. Estudos brasileiros recentes evidenciam que parte dos alunos de odontologia apresenta falhas na utilização de EPIs e no conhecimento sobre protocolos de prevenção de infecção cruzada (SILVA-BOGHOSSIAN et al., 2020; RAMALHO; GONÇALVES, 2023). Portanto, incluir disciplinas e treinamentos sobre HIV, biossegurança e ética profissional é fundamental para a formação de profissionais competentes e conscientes (COULTHARD, 2020).
Em síntese, o caso apresentado demonstra que o tratamento endodôntico de pacientes com HIV pode ser conduzido com segurança, previsibilidade e sucesso, desde que sejam respeitados os princípios fundamentais da biossegurança, da técnica endodôntica e da ética clínica. A efetividade do tratamento e a ausência de complicações reforçam que a soropositividade, quando controlada, não deve ser considerada uma limitação terapêutica, mas sim um fator que exige atenção ampliada e abordagem multidisciplinar. Além disso, o relato reafirma o papel social da odontologia como promotora de inclusão, empatia e equidade em saúde.
6 CONCLUSÃO
A realização deste relato clínico evidenciou que o atendimento odontológico de pacientes portadores do HIV pode ser conduzido com segurança, previsibilidade e eficácia quando são rigorosamente seguidos os protocolos de biossegurança e adotada uma postura ética e humanizada. O tratamento endodôntico do elemento 24 demonstrou que a soropositividade, quando controlada, não representa uma limitação terapêutica, mas sim uma condição que requer atenção ampliada e cuidados integrados. Além de ressaltar a importância da técnica endodôntica adequada, este trabalho reforça o papel do cirurgião-dentista como agente de inclusão e acolhimento, capaz de contribuir para a redução do estigma e para a promoção de um ambiente clínico seguro, educativo e livre de preconceitos, consolidando o compromisso social da odontologia com a equidade em saúde.
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