OS BENEFÍCIOS DO TREINAMENTO RESPIRATÓRIO COMO ABORDAGEM FISIOTERAPÊUTICA EM PACIENTES COM DOENÇA PULMONAR OBSTRUTIVA CRÔNICA (DPOC): REVISÃO DE LITERATURA

THE BENEFITS OF RESPIRATORY TRAINING AS A PHYSIOTHERAPEUTIC APPROACH IN PATIENTS WITH CHRONIC OBSTRUCTIVE PULMONARY DISEASE (COPD): A LITERATURE REVIEW

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/pa10202511091702


Alissa Andreza da Silva Brito1; Sofia Santos de Oliveira1; Vanéia Fragoso de Oliveira1; Vitória Layandra Ferreira Guimarães1; Thaiana Bezerra Duarte2


RESUMO

Introdução: A Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), caracterizada por limitação persistente do fluxo aéreo, é uma das principais causas de morbimortalidade. O treinamento respiratório auxilia na melhora da função pulmonar, tolerância ao esforço e qualidade de vida. Objetivo: Realizar uma revisão de literatura para verificar os benefícios do treinamento respiratório como abordagem fisioterapêutica em pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica. Materiais e método: Trata-se de uma revisão de literatura realizada nas bases PubMed, SciELO, Lilacs, BVS e PEDro, utilizando os descritores: “Chronic Obstructive Pulmonary Disease”, “Resistance Training”, “Strength Training”, “Exercise Therapy”, “Efficiency”, “Effectiveness”, “Outcome”, “Patients”; e “Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica”, “Treinamento de resistência”, “Eficiência”, “Eficácia” e “Pacientes”. Foram incluídos ensaios clínicos randomizados dos últimos dez anos, em inglês e português, que avaliaram os benefícios do treinamento respiratório na reabilitação de pacientes com DPOC. Resultados: Foram selecionados sete estudos, totalizando 1.119 participantes, com média de idade de 66 anos. Os resultados indicaram que o treinamento muscular inspiratório, especialmente o resistivo, aumenta a pressão inspiratória máxima e melhora a eficiência ventilatória. Contudo, esses ganhos nem sempre se traduzem em benefícios clínicos adicionais à reabilitação pulmonar isolada. Programas domiciliares e comunitários mostraram eficácia na manutenção dos resultados a longo prazo, sobretudo com boa adesão dos pacientes. Conclusão: O treinamento respiratório é uma intervenção complementar eficaz na reabilitação da DPOC, por otimizar a função inspiratória e manter os ganhos funcionais a longo prazo.

Palavras-chave: Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica. Treinamento de resistência. Fisioterapia respiratória. Eficácia. Pacientes.

ABSTRACT

Background: Chronic Obstructive Pulmonary Disease (COPD), characterized by persistent airflow limitation, is a leading cause of morbidity and mortality. Respiratory training helps improve pulmonary function, exercise tolerance, and quality of life. Pourpose: To perform a 1 Discente do Curso de Fisioterapia do Centro Universitário do Norte – UNINORTE. 2 Doutorado em Reabilitação e Desempenho Funcional, Docente do Curso de Fisioterapia do Centro Universitário do Norte – UNINORTE e do Curso de Medicina da Afya Faculdade de Ciências Médicas Itacoatiara. Endereço: Av. Joaquim Nabuco, 1365, Centro | Manaus | AM | CEP: 69020-030 | (92) 3212-5000. literature review to evaluate the benefits of respiratory training as a physiotherapeutic approach in patients with COPD. Methods: This literature review was conducted in PubMed, SciELO, Lilacs, BVS, and PEDro using the descriptors: “Chronic Obstructive Pulmonary Disease”, “Resistance Training”, “Strength Training”, “Exercise Therapy”, “Efficiency”, “Effectiveness”, “Outcome”, “Patients”. Randomized clinical trials published in the last ten years, in English and Portuguese, evaluating the benefits of respiratory training in COPD rehabilitation were included. Results: Seven studies were selected, including 1.119 participants with a mean age of 66 years old. Results showed that inspiratory muscle training, particularly resistive training, increased maximal inspiratory pressure and improved ventilatory efficiency. However, these physiological gains do not always translate into additional clinical benefits compared to isolated pulmonary rehabilitation. Home- and community-based programs were effective in maintaining long-term results, especially when patient adherence was high. Conclusion: Respiratory training is an effective complementary intervention in COPD rehabilitation, optimizing inspiratory function and sustaining functional gains over the long term.

Keywords: Chronic Obstructive Pulmonary Disease. Resistance training. Respiratory physiotherapy. Effectiveness. Patients.

1 INTRODUÇÃO

A Doença Pulmonar Obstrutiva (DPOC) é uma inflamação crônica das vias aéreas que dificulta a respiração, predispõe a infecções e causa limitações físicas e funcionais nos pacientes. Globalmente, a DPOC ocupa a oitava posição entre as principais causas de perda de saúde, sendo a quarta principal causa de morte no mundo (OMS, 2024). Entre os principais sintomas destacam-se fadiga excessiva durante o treino de resistência, risco de complicações agudas, comprometimento por comorbidades, baixa adesão ao tratamento e dificuldade de progressão no treinamento (Silva et al., 2023). O manejo convencional da doença envolve medidas farmacológicas como, broncodilatadores de longa ação, corticoides inalatórios em regimes combinados e, em casos selecionados, novas opções como ensifentrina e dupilumabe, associadas ao treinamento muscular de resistência, parte fundamental da reabilitação pulmonar (GOLD, 2025).

Nesse cenário, o treinamento de resistência respiratória mostra-se uma estratégia eficaz para melhorar a função pulmonar e a tolerância ao esforço, contribui para a redução da dispneia e a limitação funcional. Estudos apontam que o fortalecimento da musculatura respiratória está relacionado ao aumento da capacidade ventilatória e a uma melhor resposta ao esforço físico, melhorando a qualidade de vida dos pacientes. Além disso, comparações entre diferentes abordagens fisioterapêuticas demonstram que o treinamento de resistência respiratória pode gerar resultados superiores no fortalecimento muscular e na reabilitação funcional desses indivíduos (Lee et al., 2019).

Considerando que a DPOC é marcada por limitação persistente do fluxo aéreo e elevada carga sintomática, a inclusão do treinamento de resistência na reabilitação pulmonar apresenta potencial para promover benefícios clínicos relevantes, otimizando o manejo da doença e reduzindo o impacto dos sintomas no cotidiano (Silva et al., 2023). O fortalecimento muscular respiratório é uma estratégia fisioterapêutica de grande relevância, estudada por sua eficácia em reduzir limitações funcionais Portanto, torna-se necessário compreender melhor os efeitos dessa intervenção sobre a capacidade funcional, a redução da dispneia e o fortalecimento muscular. A reabilitação pulmonar associada a exercícios específicos de resistência pode gerar benefícios superiores ao tratamento convencional isolado. Contudo, fatores como fadiga e limitações funcionais prejudicam a adesão, configurando um desafio para os profissionais da área. Nesse cenário, esta revisão buscou reunir evidências científicas sobre os benefícios do treinamento respiratório através da abordagem fisioterapêutica em em indivíduos com DPOC.

Sendo assim, o objetivo deste estudo foi realizar uma revisão de literatura para verificar os benefícios do treinamento respiratório como abordagem fisioterapêutica em pacientes com DPOC.

2 MATERIAIS E MÉTODO

Este estudo é uma revisão de literatura. As buscas foram realizadas em março de 2025 em cinco bases de dados: PubMed, SciELO, Lilacs, Biblioteca Virtual de Saúde (BVS) e PEDro.

As palavras-chave utilizadas nas bases de dados SciELO, Lilacs, Biblioteca Virtual de Saúde (BVS) combinadas com seus sinônimos, foram “COPD”, “Chronic Obstructive Pulmonary Disease”, “Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica”, “Resistance Training”, “Strength Training”, “Exercise Therapy”, “Treinamento de resistência”, “Efficiency”, “Effectiveness”, “Outcome”, “Eficiência”, “Eficácia”, “Patients” e “Pacientes”.

Na plataforma PubMed foram as palavras aplicadas foram “COPD”, “Chronic Obstructive Pulmonary Disease”, “Resistance Training”, “Strength Training” ,”Exercise Therapy”, “Efficiency”, “Effectiveness”, “Outcome” e “Patients”. Os termos foram empregados com os operadores booleanos “AND” e “OR” para combinar e unir os descritores nas bases de dados SciELO, Lilacs, Biblioteca Virtual de Saúde (BVS) e PubMed. Na plataforma PEDro, a combinação de termos utilizado foram “Chronic Obstructive Pulmonary Disease”, “Resistance Training”, “Efficiency” e “Patients with COPD” com o operador booleano “AND” para refinar os resultados.

Foram incluídos artigos publicados em inglês e português nos últimos 10 anos, disponíveis na íntegra. Optou-se por ensaios clínicos randomizados que abordassem intervenções fisioterapêuticas para reabilitação pulmonar e estudos experimentais.

Os critérios de exclusão foram aplicados para estudos que possuíssem o uso de tecnologia como abordagem terapêutica, pacientes que apresentavam comorbidades graves que pudessem interferir no exercício, como insuficiência cardíaca grave ou hipoxemia grave e estudos não disponíveis na íntegra.

Após a realização das buscas, os artigos foram filtrados pelos critérios de inclusão e exclusão. Em seguida, foi feita uma leitura exploratória dos documentos de maneira clara e objetiva.

Os resultados e a análise da síntese dos achados dos estudos foram selecionados e apresentados em quadros e tabelas.

3 RESULTADOS

Foram encontrados artigos nas bases PEDro, PubMed, BVS, Scielo e Lilacs que através dos descritores utilizados tiveram relevância para estes estudos, onde foram encontrados no total de 332 artigos, sendo duplicados 57, artigos selecionados para leitura de título e resumo 282, sendo excluídos 256 artigos, restando 7 artigos para elaboração do presente artigo de revisão, conforme a figura 1.

Figura 1- Fluxograma do estudo.

A tabela a seguir consolida sete ensaios clínicos randomizados focados em intervenções para a Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC). Organizados por ordem de ano de publicação do maior para o menor, os estudos abrangem desde a eficácia do Treinamento Muscular Inspiratório e o valor de programas de manutenção comunitária ou exercícios domiciliares, até a comparação de modalidades de treino e a aplicação de exercícios em grupo. Os resultados destacados oferecem uma visão crítica sobre a melhoria da capacidade funcional, qualidade de vida e o gerenciamento da dispneia em diferentes cenários clínicos da DPOC.

Tabela 1 – Síntese dos estudos incluídos na revisão.

Esta revisão apresenta os dados de 1119 pacientes selecionados para o estudo, com média de idade de 66 anos. Essa quantidade é de suma importância para compreender a amostra. A distribuição desses dados apresentando uma percepção sobre a faixa etária e a quantidade de participantes envolvidos na pesquisa encontra-se na Figura 2. Essa média de idade sugere uma amostra representativa de uma população de idade ativa.

Figura 2 – Gráfico representando a quantidade de pacientes envolvidos em cada estudo e média de idade.

A pesquisa recente sobre a reabilitação da Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) foca em duas vertentes principais: os benefícios da fisioterapia respiratória usada como intervenção e a garantia da sustentabilidade dos ganhos a longo prazo.

Em relação ao Treinamento Muscular Inspiratório (TMI), os resultados demonstram uma eficácia fisiológica, mas uma transferência clínica limitada. Estudos como os de Beaumont et al. (2018) e Schultz et al. (2018) concluíram que, embora o TMI intensivo adicional ao programa de Reabilitação Pulmonar (RP) promova um aumento significativo na Pressão Inspiratória Máxima (PIMáx) e na força muscular, essa melhora fisiológica não se traduz em benefícios adicionais na capacidade de exercício, qualidade de vida ou, crucialmente, na redução da dispneia, que é o sintoma central dos pacientes. Contudo, a escolha da modalidade de TMI faz diferença: Wu et al. (2024) compararam o treinamento de resistência (R-IMT) com o de limiar (T-IMT), descobrindo que, enquanto ambos melhoravam a PIM e a capacidade de exercício, apenas o R-IMT estava associado a uma respiração mais profunda e lenta e à melhora da eficiência ventilatória.

Outras intervenções complementares também se mostraram eficazes. Cazorla et al. (2023) demonstraram que a adição de exercícios de controle respiratório aplicados em grupo ao programa padrão de reabilitação melhorou significativamente a capacidade dos pacientes com DPOC grave.

O desafio mais significativo, no entanto, reside na manutenção dos resultados após o término da RP. Programas de continuidade são essenciais como programas Comunitários: Butler et al. (2020) observaram que um programa de manutenção comunitário pós-RP, embora não gerasse mais ganhos de forma geral, era fundamental para manter a capacidade de exercício ao longo de um ano, especialmente naqueles pacientes com alta adesão (frequência ≥50% das sessões).

Foi avaliado o treinamento de força domiciliar (HOMEX) e constataram que, apesar de não ter impacto na dispneia, melhorou o desempenho no teste de caminhada de 1 minuto e a percepção subjetiva do condicionamento físico pelos pacientes, reforçando o valor da continuidade na capacidade funcional.

Por fim, a adesão está intimamente ligada à tolerância do paciente ao exercício. Ao comparar diferentes formatos de treinamento físico, Rizk et al. (2015) notaram que, embora o Treinamento Contínuo em Alta Intensidade (CTHI), o Contínuo no Limiar Ventilatório (CTVT) e o Treinamento Intervalado (TI) melhorassem o afeto, o CTVT foi associado ao menor estresse fisiológico agudo (menor frequência cardíaca e respiratória). Em contraste, o Treinamento Intervalado (TI), apesar de seus benefícios, resultou na menor taxa de adesão no período de 12 semanas.

Em resumo, a evidência sugere que o sucesso na reabilitação da DPOC requer a seleção de técnicas otimizadas (como o R-IMT) e a implementação de programas de manutenção eficazes (comunitários ou domiciliares), pautados na escolha de formatos de exercício (como o CTVT) que garantam a melhor tolerância e, consequentemente, a maior adesão do paciente a longo prazo.

4 DISCUSSÃO

A presente revisão de literatura analisou os benefícios do treinamento respiratório como abordagem fisioterapêutica em pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC). De modo geral, a análise dos estudos incluídos demonstrou, de forma consistente, que o treinamento muscular inspiratório (TMI) e os programas de reabilitação pulmonar (RP) exercem papel fundamental na melhora da função respiratória, da capacidade de exercício e da qualidade de vida (QV) de pacientes com DPOC. Apesar das diferenças metodológicas entre os estudos, observa-se uma tendência uniforme que confirma a eficácia dessas intervenções fisioterapêuticas como abordagens essenciais no tratamento da DPOC estável e na manutenção dos resultados obtidos durante a reabilitação.

Em síntese, a RP é o principal motivos dos benefícios clínicos na DPOC. O TMI até melhora a pressão inspiratória máxima (PImax), porém, quando somado a programas de RP já bem estruturados, costuma gerar pouco ganho clínico adicional em curto prazo (Schultz et al., 2018; Beaumont et al., 2018).

Em programas de reabilitação pulmonar (RP) robustos, costuma não aparecer um ganho clínico extra ao somar o treinamento muscular inspiratório (TMI) porque a própria RP já entrega, sozinha, a maior parte do que o paciente sente na vida real: menos falta de ar, mais disposição para caminhar e melhor qualidade de vida. No grande ensaio de três semanas, o TMI até deixou os músculos que puxam o ar para dentro mais fortes, mas ambos os grupos (com e sem TMI) melhoraram de modo muito parecido nos desfechos que importam ao paciente, os autores destacam que a diferença de força alcançada foi pequena para “virar” benefício percebido, que o controle usou uma técnica de respiração lenta (capaz de gerar algum efeito por si) e que o período curto pode ter limitado a transferência da força extra para resultados do dia a dia, um típico efeito teto quando a RP já é intensa (Schultz et al., 2018).

De forma coerente, em quatro semanas de RP padronizada para DPOC grave/muito grave, o TMI novamente aumentou mais a força inspiratória, mas não trouxe alívio adicional de dispneia nem ganhos extras de caminhada ou qualidade de vida, os dados sugerem que o principal fator que “rouba o fôlego” nesse perfil (o aprisionamento de ar que surge no esforço) não mudou além do que a RP por si já modifica, e nem mesmo quem tinha fraqueza inspiratória de partida se beneficiou a mais, reforçando que, no curto prazo, fortalecer a inspiração não necessariamente mexe no mecanismo que limita o fôlego durante as atividades (Beaumont et al., 2018).

No ensaio clínico randomizado (ECR) multicêntrico de Schultz et al. (2018), acrescentar TMI intensivo a uma RP hospitalar de 3 semanas elevou PImax e volume inspiratório forçado no primeiro segundo/volume expiratório forçado no primeiro segundo (FIV1/VEF1); contudo, não melhorou outros desfechos clínicos em comparação ao TMI “sham” (procedimento simulado/placebo), levando os autores a não recomendar o TMI como adjuvante de rotina nesse cenário breve de RP intensiva (Schultz et al., 2018). De forma convergente, Beaumont et al. (2018) relataram incremento de PImax com TMI+RP, mas sem superioridade para a função clínica global ao fim de 4 semanas (Beaumont et al., 2018). Além disso, nos ECRs de fase hospitalar, a capacidade de exercício melhorou em ambos os grupos com a RP, porém sem vantagem do TMI sobre a RP isolada (Schultz et al., 2018; Beaumont et al., 2018).

Em contextos pós-RP, a manutenção baseada na comunidade mostrou efeito dependente de adesão: Butler et al. (2020) observaram impacto significativo na distância no teste de caminhada de seis minutos (DTC6) apenas entre quem frequentou ≥50% das sessões ao longo de 12 meses (Butler et al., 2020). Por sua vez, no domicílio, o programa HOMEX (home-based exercise) de treino de força por 12 meses foi viável e avaliou capacidade funcional por meio do teste de sentar-levantar de 1 minuto (1MSTST) e da DTC6 como desfechos, reforçando que estratégias estruturadas de longo prazo podem atenuar a queda de desempenho após a alta da RP (Frei et al., 2022).

Beaumont et al. (2018), usando o Perfil Multidimensional de Dispneia (MDP), a Escala de Borg de esforço/dispneia, 0–10 (Borg) e a Escala modificada do Medical Research Council para dispneia, 0–4 (mMRC), mostraram que a dispneia caiu em ambos os braços, mas sem diferença entre TMI+RP e RP isolada, a despeito do maior ganho de PImax no TMI (Beaumont et al., 2018). Complementarmente, em estudo recente, Wu et al. (2024) compararam resistive inspiratory muscle training (R-IMT; TMI por resistência) versus threshold inspiratory muscle training (T-IMT; TMI por limiar) por 8 semanas, em intensidade semelhante: ambos elevaram PImax e capacidade de exercício, e o R-IMT adicionalmente induziu respiração mais profunda e lenta e melhor eficiência ventilatória durante o esforço mecanismos plausíveis para atenuar a sensação de falta de ar, embora o efeito clínico final dependa de múltiplos fatores (Wu et al., 2024).

Em curto prazo, não houve ganho adicional de QV com TMI sobre a RP em Schultz et al. (2018). Por outro lado, exercícios de controle respiratório em grupo no pós-exacerbação (6 semanas) produziram mudanças clinicamente relevantes em marcadores fisiológicos e psicológicos, ainda que com limitações metodológicas, como a não individualização de carga e de progressão (Cazorla et al., 2023). Assim, intervenções respiratórias educativas em contextos específicos podem potencializar a QV, mas a RP estruturada segue como pilar central. Dois achados sobre adesão se complementam. Primeiro, em 12 semanas de treinamento supervisionado, respostas agudas, menor estresse fisiológico e maior vigor ao fim da sessão, associaram-se a melhor adesão subsequente; o continuous training at ventilatory threshold (CTVT; treino contínuo no limiar ventilatório) gerou maior vigor que o continuous training high-intensity (CTHI; treino contínuo de alta intensidade) e o interval training (IT; treino intervalado), enquanto o IT apresentou menor vigor pós-sessão e menor taxa de adesão (Rizk et al., 2015). Segundo a manutenção (domicílio ou comunidade) exige suporte comportamental/organizacional: o efeito em DTC6 no estudo comunitário foi condicionado à frequência ≥50% (Butler et al., 2020), e programas domiciliares estruturados de 12 meses mostraram-se factíveis e orientados por metas (Frei et al., 2022).

Em conjunto, os estudos indicam que fortalecer a musculatura inspiratória melhora marcadores fisiológicos (como a PImax e a eficiência ventilatória), porém o ganho clínico adicional sobre função pulmonar global, tolerância ao esforço, dispneia e QV depende menos do adjuvante pontual e mais de dose, contexto e adesão à RP e às estratégias de manutenção. Dessa forma, para maximizar desfechos, recomenda-se priorizar RP de qualidade, adotar intervenções que preservem a experiência afetiva durante as sessões (a fim de sustentar a adesão) e planejar manutenção viável no domicílio/comunidade, especialmente em seguimentos ≥6–12 meses (Schultz et al., 2018; Rizk et al., 2015; Butler et al., 2020; Frei et al., 2022).

Estes estudos tiveram como limitações amostras pequenas a moderadas e seguimentos majoritariamente curtos, o que reduz a capacidade de detecção de efeitos e a capacidade de avaliar manutenção dos efeitos (Schultz et al., 2018; Beaumont et al., 2018; Cazorla et al., 2023; Wu et al., 2024); ampla variedade de protocolos (tipos e intensidades de treino; modalidades de TMI), desfechos e instrumentos, dificultando comparações diretas e uma síntese quantitativa robusta (Schultz et al., 2018; Beaumont et al., 2018; Cazorla et al., 2023; Wu et al., 2024); populações e contextos distintos (estáveis com fraqueza inspiratória versus pós-exacerbação; domicílio/comunidade), o que limita a extrapolação entre cenários (Cazorla et al., 2023; Wu et al., 2024; Schultz et al., 2018); possível viés por cegamento parcial/inexistente em alguns ensaios (Cazorla et al., 2023; Wu et al., 2024); e forte influência da adesão, variável entre estudos e medida de formas diferentes (Butler et al. (2020); Frei et al., 2022; Rizk et al., 2015).

5 CONCLUSÃO

A presente revisão de literatura cumpriu o objetivo de verificar os benefícios do treinamento de resistência respiratória como abordagem fisioterapêutica em pacientes com Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC). Os achados dos ensaios clínicos randomizados analisados demonstraram que a Reabilitação Pulmonar (RP) constitui o pilar central para a melhora da função respiratória, capacidade de exercício e qualidade de vida na DPOC.

O Treinamento Muscular Inspiratório (TMI), quando adicionado à RP, mostrou-se eficaz em aumentar marcadores fisiológicos, como a Pressão Inspiratória Máxima (PIMáx) e a eficiência ventilatória, especialmente na modalidade de resistência (R-IMT). Contudo, a análise consistente dos dados revelou que essa melhora fisiológica nem sempre se traduz em benefícios clínicos adicionais superiores à RP isolada, particularmente no que se refere à dispneia e à capacidade de exercício em curto prazo.

As evidências apontam que a sustentabilidade dos resultados obtidos é um fator crítico. Programas de manutenção pós-RP, tanto comunitários quanto domiciliares, são fundamentais para preservar os ganhos de capacidade funcional ao longo do tempo. A eficácia dessas estratégias de longo prazo é significativamente condicionada pela adesão do paciente, que está intimamente ligada à tolerância ao exercício e à minimização do estresse fisiológico agudo durante as sessões.

Dessa forma, o sucesso da abordagem fisioterapêutica na DPOC reside na otimização da RP e na seleção de intervenções que maximizem a adesão e viabilizem a continuidade do treinamento no longo prazo. Futuras pesquisas devem focar na identificação de formatos de exercício e estratégias de suporte comportamental que garantam a melhor experiência afetiva e, consequentemente, a maior taxa de adesão para pacientes em fase de manutenção domiciliar ou comunitária.

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1 Discente do Curso de Fisioterapia do Centro Universitário do Norte – UNINORTE.
2 Doutorado em Reabilitação e Desempenho Funcional, Docente do Curso de Fisioterapia do Centro Universitário do Norte – UNINORTE e do Curso de Medicina da Afya Faculdade de Ciências Médicas Itacoatiara.
Endereço: Av. Joaquim Nabuco, 1365, Centro | Manaus | AM | CEP: 69020-030