OLHARES SOBRE O SEMIÁRIDO: TERRITÓRIO DE DESAFIOS E RESISTÊNCIA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202502131015


Vinícius Diego Sousa Colares
Mestrando do Programa de Pós Graduação em Política, Cultura e Ambiente
Universidade Federal do Vale do São Francisco


RESUMO

Este estudo examina o semiárido nordestino como um território marcado por desafios históricos, sociais e ambientais, mas também como espaço de resistência e inovação. Abordando desde a colonização até políticas contemporâneas, analisa o impacto das desigualdades estruturais e climáticas, destacando a ecosofia de Félix Guattari e iniciativas como a Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA). As práticas de convivência sustentável, a valorização de saberes locais e as resistências culturais das comunidades quilombolas são apresentadas como alternativas ao modelo hegemônico de desenvolvimento, propondo uma visão que prioriza justiça social e sustentabilidade ambiental.

Palavras-chave: Semiárido Nordestino; Resistência Cultural; Sustentabilidade Ambiental; Ecosofia; Saberes Locais.

ABSTRACT

This study examines the Northeastern semi-arid region as a territory marked by historical, social, and environmental challenges, yet also as a space of resistance and innovation. Spanning from colonization to contemporary policies, it analyzes the impacts of structural and climatic inequalities, highlighting Félix Guattari’s ecosophy and initiatives such as the Brazilian Semi-Arid Alliance (ASA). Sustainable living practices, the valorization of local knowledge, and the cultural resistance of quilombola communities are presented as alternatives to the dominant development model, advocating for a vision that prioritizes social justice and environmental sustainability.

Key-words: Brazillian Northeastern Semiarid Region; Cultural Resistance; Environmental Sustainability; Ecosophy; Local Knowledge.

Félix Guattari, em As Três Ecologias, apresenta uma visão interconectada sobre os problemas ecológicos contemporâneos, argumentando que a crise ambiental não pode ser dissociada das crises social e mental. O autor propõe sua ecosofia como uma nova articulação ético-política que conecta essas três dimensões em uma abordagem transversal e integrada. Guattari reconhece o impacto das transformações técnico-científicas e das forças capitalistas na degradação global:

“O planeta Terra vive um período de intensas transformações técnico-científicas, em contrapartida das quais engendram-se fenômenos de desequilíbrios ecológicos que, se não forem remediados, no limite, ameaçam a vida em sua superfície” (1990, p. 7).

A primeira dimensão entre as três ecologias, a ecologia ambiental, está relacionada à relação entre os seres humanos e seu entorno natural. Marcada pela exploração capitalista desenfreada que esgota os recursos e compromete a sustentabilidade planetária, e pelo impacto da industrialização em escala global: “Sem falar do caráter quase delirante da estocagem de milhares de ogivas nucleares que, à menor falha técnica ou humana, poderiam mecanicamente conduzir a um extermínio coletivo” (1990, p. 9).

A segunda dimensão, a ecologia social, aborda as relações humanas e a organização do socius. Guattari descreve como o capitalismo contemporâneo, que ele chama de Capitalismo Mundial Integrado (CMI), molda a subjetividade e reduz as relações sociais a trocas utilitárias e desumanizantes. Enquanto na terceira, a ecologia mental, trata da subjetividade e dos processos de singularização. Dessa vez, marcada pela homogeneização cultural promovida pela mídia e pelo consumo massivo, que infantilizam e alienam os indivíduos: “A subjetividade capitalística se esforça por gerar o mundo da infância, do amor, da arte, bem como tudo o que é da ordem da angústia, da loucura, da dor, da morte” (1990, p. 33).

Desta forma, sua ecosofia aponta para a criação de práticas transversais que articulem os níveis ambiental, social e mental, evitando compartimentalizações que fragmentam os problemas e suas soluções: “Não é justo separar a ação sobre a psique daquela sobre o socius e o ambiente” (1990, p. 23). Em última análise, Guattari vislumbra a ecosofia como uma forma de transformar tanto os indivíduos quanto as sociedades, promovendo modos de vida que sejam simultaneamente éticos, criativos e sustentáveis.

Antecipo o pensamento ecológico de Guattari que retomarei mais adiante como forma de pôr em perspectiva com outra discussão, a formação do Nordeste não como região geopolítica, mas como constructo de elementos de uma suposta falência política, econômica e social que adjetivam o semiárido brasileiro.

Mike Davis, em Holocaustos Coloniais, aborda as devastadoras fomes que ocorreram no final do século XIX em regiões sob influência ou controle colonial, argumentando que tais eventos não foram meramente acidentes naturais, mas resultados diretos de políticas econômicas e de poder das nações coloniais, em especial a Grã-Bretanha. Davis explora a interação complexa entre o colonialismo, políticas econômicas predatórias e fenômenos climáticos como o El Niño, revelando como esses fatores se entrelaçaram para inflacionar a miséria humana em escalas massivas. Ele argumenta que as verdadeiras causas dessas catástrofes devem ser vistas no contexto de políticas que favoreceram o desvio de recursos essenciais das economias locais para satisfazer a demanda dos mercados europeus.

Durante eventos climáticos extremos, essas políticas tornavam populações inteiras vulneráveis à fome e à doença, capazes de desestabilizar sistemas agrícolas anteriormente resilientes em diversas regiões semiáridas do mundo: “Os mercados de grãos da Índia foram manipulados para garantir que os interesses britânicos em estabilidade e lucratividade fossem mantidos, mesmo à custa de milhões de vidas indianas.” (DAVIS, 2022, p. 187).

Não à toa, o Nordeste brasileiro se torna um dos contextos chaves de discussão em seu livro. No capítulo 12, Brasil: Raça e Capital no Nordeste, ele detalha a influência de políticas econômicas e raciais no desenvolvimento desigual do Brasil. Davis descreve como a economia do Nordeste, antes prioridade para o governo, apesar da pouca complexidade, foi prejudicada pela hegemonia do café no Sul e por políticas raciais que buscavam “embranquecer” a população à custa da mão-de-obra local e da agricultura sustentável, também discute como o Nordeste, apesar de sua independência nominal, estava efetivamente sob o controle econômico de investidores britânicos, exemplificando o conceito de “colônia informal” (2022, p. 389), firmes em um projeto que desestrutura economias locais, amplia desigualdades sociais e preparara o terreno para futuras instabilidades políticas e econômicas.

Ainda nesse contexto histórico, é importante analisar as abordagens de Celso Furtado e Caio Prado Jr. sobre a formação do Nordeste. Furtado concentra-se na análise das políticas econômicas e suas repercussões nas estruturas de produção e nas relações de trabalho, entretanto, o faz moldado pelo pensamento desenvolvimentista, onde a transição para uma economia industrial é vista como crucial para a superação do subdesenvolvimento. Prado Jr., contudo, apresenta uma visão mais geográfica e estrutural das atividades econômicas, examinando como os aspectos físicos e a distribuição geográfica das atividades econômicas influenciam o desenvolvimento regional e a formação econômica do país.

Ambos exploram a expansão da pecuária como uma extensão da economia açucareira. Onde a abertura de pastos serviu como suporte para a produção de açúcar do litoral, fornecendo transporte e alimento, tendo assim, desempenhado um papel crucial na ocupação do interior do Nordeste: “A pecuária inseriu-se no sistema econômico colonial como atividade complementar à agricultura de exportação, mas foi também fundamental para a penetração territorial e a ocupação do sertão” (FURTADO, 2004, p. 67). Prado Jr. também enfatiza como a pecuária ajudou a criar uma base para a integração regional, conectando o interior ao litoral e povoando consideravelmente a região até o século XVIII, mas ao mesmo tempo, foi abandonado pelos governantes sem nenhuma cerimônia.

As secas prolongadas, que sempre foram aí periódicas, se multiplicam e estendem ainda mais, dizimando consideravelmente os rebanhos que se tornarão de todo incapazes de satisfazerem às necessidades de seus mercados consumidores. Serão substituídos pela carne-seca importada do Sul da colônia (PRADO JR, 1956, p. 46).

Outro texto importante do Celso Furtado é “Uma Política de Desenvolvimento Econômico para o Nordeste” (1959), um trabalho governamental que tentava apresentar um diagnóstico das disparidades regionais no Brasil, propondo diretrizes para impulsionar o desenvolvimento econômico do Nordeste. No entanto, embora o documento traga propostas abrangentes, enfrenta limitações significativas na compreensão e abordagem das especificidades do semiárido.

Reconhece a profundidade das disparidades econômicas entre o Nordeste e o Centro-Sul, atribuindo-as tanto a fatores estruturais quanto a políticas públicas inadequadas. Não reduzindo, portanto, a problemática do semiárido a questões físicas e climáticas, mas por outro lado, ignorando as dimensões sociopolíticas e históricas que perpetuam a vulnerabilidade da região, além de propor soluções por um viés desenvolvimentista que apostava suas fichas basicamente na industrialização. Nesse sentido, tanto as narrativas de Prado Jr. quanto de Furtado praticamente ignoram as violências sofridas pelos povos da região.

Tal abordagem, é o enfoque do livro de Eve Buckley que explora o papel dos tecnocratas no combate a seca e no desenvolvimento do semiárido nordestino brasileiro durante o século XX. A autora analisa como as políticas públicas e as intervenções tecnocráticas foram moldadas por uma combinação de ciência, tecnologia e interesses políticos, frequentemente limitadas em sua capacidade de resolver os problemas estruturais da região a disciplina de formação do técnico da vez, sejam engenheiros, sejam agrônomos, sejam economistas.

Buckley destaca que a criação do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS), em 1909, representou a tentativa mais significativa do governo federal de mitigar os impactos das secas no Nordeste. Contudo, as iniciativas do DNOCS se concentraram principalmente em projetos de infraestrutura, como barragens, estradas e sistemas de irrigação, que visavam reduzir a vulnerabilidade climática, confiando excessivamente em soluções técnicas e apolíticas, para enfrentar problemas que eram intrinsecamente políticos, que geraram efeitos colaterais, reforçando fraturas sociais: “Os projetos do século XX do DNOCS aumentaram a segurança e o poder dos proprietários de terras regionais sem melhorar significativamente a vida dos mais afetados pela seca” (BUCKLEY, 2022, p. 19).

Mas para além dessa introdução histórica sobre as secas na região Nordeste, cabe também tecer outras apreciações sobre o Sertão, Heloisa Maria Murgel Starling e Janaína Amado exploram esse conceito que evoluiu de uma mera designação geográfica para uma rica categoria cultural e simbólica, influenciando profundamente a literatura, o pensamento social e a identidade nacional. O sertão, mais do que uma localização física, é uma representação dos desafios, conflitos e características essenciais do país, permeando tanto a formação histórica quanto o imaginário social.

Heloisa Maria Murgel Starling, em seu artigo “A República e o Sertão” (2008), analisa como o sertão foi concebido dentro da imaginação literária e política do Brasil, destaca a obra de Euclides da Cunha, “Os Sertões”, como um ponto de inflexão, onde o sertão é retratado como um espaço de resistência e reflexão crítica sobre a identidade nacional e os valores republicanos, abalados pelo conflito de Canudos (o que lembra também Davis quando ele cita a criação de instabilidades futuras).

Uma poética da escassez capaz de retomar, no mundo público do Brasil, a consciência sobre a existência política dos brasileiros párias – uma gente anônima e insignificante, simples e obscura que, como já havia sido apontado por Euclides da Cunha, movimentava-se, precariamente, no vazio da nação, à mercê de uma República que não os reivindica nunca (STARLING, 2008, p. 138).

Janaína Amado, por outro lado, em “Ponto de Vista: Região, Sertão, Nação” (1995), aborda o sertão como uma categoria espacial e uma construção ao longo da colonização portuguesa. Ela destaca a persistência do termo “sertão” na consciência brasileira, enfatizando sua relevância em vários estados e como ele é fundamental para a construção de nossa história:

Enquanto isso, no Brasil, durante o século XIX, ocorria processo inverso: os brasileiros não apenas absorveram todos os significados construídos pelos portugueses a respeito de “sertão”, antes e durante a colonização, como, a partir da Independência, em especial a partir do último quartel do século XIX, acrescentaram-lhe outros, transformando “sertão” numa categoria essencial para o entendimento de “nação” (AMADO, 1995, p.150.).

Nesse sentido, o sertão transcende sua localização geográfica, atuando como um espelho da nação e um campo de tensões sociais, políticas e culturais. Enquanto Starling se concentra na representação literária e seu impacto na formação política, Amado explora o sertão como uma constante presença que molda a percepção social e histórica do Brasil.

O sertão, assim, é multifacetado: é tanto o espaço da exclusão e do esquecimento quanto um símbolo de resistência e uma fonte de identidade nacional profunda. Ele encapsula o paradoxo brasileiro de uma nação que é perpetuamente nova e antiga, urbana e rural, centralizada e fragmentada. Ambos os textos ilustram como o sertão, real e metafórico, é central para entender o Brasil, não apenas como um espaço físico, mas como uma condição existencial que define e desafia seus habitantes.

Em suma, a colonização portuguesa estruturou o Nordeste como uma economia voltada para a exportação, onde a monocultura da cana-de-açúcar, sustentada pelo trabalho escravo, concentrou riquezas no litoral e relegou o interior a uma economia acessória, marginal na lógica colonial, que estabeleceu uma base desigual para o desenvolvimento econômico. Essa estrutura desigual foi perpetuada no período pós-colonial, onde as crises climáticas, como as secas recorrentes, foram ampliadas por políticas econômicas que priorizavam a exportação de grãos e a manutenção das elites fundiárias. Expondo a vulnerabilidade do semiárido não apenas como uma questão climática, mas também resultado de uma gestão predatória dos recursos e da exclusão social das populações locais, com esforços em políticas públicas, que frequentemente reforçaram as hierarquias sociais existentes e beneficiaram as elites regionais.

Nesse sentido, a superação dos problemas da região exige um repensar das relações de poder e das prioridades econômicas. Trazendo de volta a ecosofia de Guattari, é necessário que o semiárido seja visto não como um espaço de carência, mas como um território com potencial para o desenvolvimento inclusivo e sustentável.

Atualmente, a região ainda enfrenta desafios significativos. As políticas recentes têm se focado mais em tecnologias de convivência com a seca e em estratégias de desenvolvimento sustentável, mas o legado de desigualdades e a falta de políticas efetivas de reforma agrária e de redistribuição de renda continuam a limitar essas ações, por outro lado, as reivindicações de territórios pelo povo se ampliam, eles se organizam e indicam caminhos.

Thiago Araujo Santos discute em sua tese, intitulada “Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA Brasil): A convivência com o semiárido e a construção de um regionalismo de resistência”, a maneira como a ASA Brasil tem trabalhado para construir um regionalismo baseado na resistência e na valorização das capacidades e da autonomia das comunidades locais do semiárido brasileiro.

Desde a sua fundação em 1999, a ASA Brasil tem se dedicado à criação e disseminação de tecnologias alternativas, como as cisternas de placas para a captação de água da chuva, que são de baixo custo e promovem a autonomia hídrica das famílias rurais. Santos descreve o programa “Um Milhão de Cisternas Rurais” (P1MC), uma parceria entre a ASA e o governo federal iniciada em 2003, como um marco na transformação dessa estratégia em política pública, destacando sua eficácia em ampliar o acesso à água e fortalecer as comunidades locais:

“Através das estratégias assumidas e das tecnologias alternativas desenvolvidas, as organizações e movimentos sociais ligados à ASA assumem uma posição política contrária às tradicionais ‘soluções hídricas’ assentadas nas grandes obras de açudagem e nas medidas paliativas de ‘combate à seca’, sobretudo por estas resultarem na concentração do abastecimento de água e abrirem espaço para a reprodução de relações de dominação político-clientelistas, sendo a troca de água por voto sua expressão mais evidente.” (SANTOS, 2016, p. 08).

Além disso, Santos destaca que a ASA busca inverter a imagem negativa frequentemente associada ao semiárido, promovendo uma visão de produtividade e resiliência, “em contraposição ao imaginário da miséria, por muitos anos vendidos ã população” (2016, p. 22). O que desafia os estereótipos sobre a região, mas também reforça a identidade e a coesão das comunidades, promovendo uma forma de regionalismo que valoriza o local e o comunitário em oposição aos interesses externos dominantes.

O que nos leva as abordagens do Livro A Terra dá, a terra quer, onde Antônio Bispo dos Santos explora a relação profunda entre linguagem, memória e identidade cultural. Ele reflete sobre como as palavras e as histórias ouvidas na infância continuam a reverberar em sua vida, moldando sua compreensão do mundo e fortalecendo sua identidade cultural e espiritual. Ele descreve a linguagem como um meio de resistência e reafirmação de práticas ancestrais contra o esquecimento imposto pelo colonialismo: “A partir daí, seguimos na prática das denominações dos modos e das falas, para contrariar o colonialismo. É o que chamamos de guerra das denominações: o jogo de contrariar as palavras coloniais como modo de enfraquecê-las.” (SANTOS, 2023, p. 03).

Também aborda como os processos de colonização buscaram submeter e reformatar as culturas indígenas e afro-brasileiras, impondo uma lógica de dominação e supressão de práticas culturais originais. Agindo na perda de autonomia e na erosão de identidades:

“Tanto o adestrador quanto o colonizador começam por desterritorializar o ente atacado quebrando-lhe a identidade, tirando-o de sua cosmologia, distanciando-o de seus sagrados, impondo-lhe novos modos de vida e colocando-lhe outro nome.” (SANTOS, 2023, p. 02)

Santos explora ainda a ideia de liberdade e contenção no manejo da terra e na criação de animais, traçando um paralelo com a resistência cultural contra as tentativas coloniais de confinamento e controle. Ele discute como as práticas agrícolas tradicionais incorporam uma compreensão profunda da terra como um ente vivo e como um espaço de resistência cultural:

Ecologia é uma palavra utilizada pelos acadêmicos. No quilombo, não existe ecologia, existe a roça de quilombo, a roça de aldeia, a roça de ribeirinho, a roça de marisqueiro, a roça de pescador, a roça de quebradeira de coco. Por que a academia usa a palavra ecologia, e não agricultura quilombola? Por que não usa roça indígena? As universidades são fábricas de transformar os saberes em mercadoria e a agricultura quilombola não é mercadoria. Mas os saberes considerados válidos são aqueles que a universidade converte em mercadoria (SANTOS, 2023, p. 65).

“Criar solto, plantar cercado”, pois mesmo dentro de limites físicos ou conceituais impostos, há sempre espaços de liberdade e autodeterminação. O que novamente nos traz a Guattari, onde em sua Ecologia Social, enfatiza que a lógica mercantil fragmenta a sociedade, alienando indivíduos e comunidades, e que essa dinâmica deve ser enfrentada por meio da reconstrução das relações humanas (SANTOS, 2023, p.33), promovendo solidariedade e diversidade. Ao passo que em sua Ecologia Mental, propõe a necessidade de reconfigurar a subjetividade para fomentar a criatividade: “A reconquista de um grau de autonomia criativa num campo particular invoca outras reconquistas em outros campos” (SANTOS, 2023, p.55), como romper com padrões impostos pelo colonialismo.

Dito isso, a etnografia de Suzane de Alencar Vieira, Entre risos e perigos: artes da resistência e ecologia quilombola no Alto Sertão da Bahia, trabalha essa ecosofia de Guattari ao mergulhar nas práticas cotidianas das comunidades quilombolas do Alto Sertão da Bahia, explorando as redes de parentesco, cooperação e pertencimento que sustentam a vida social e cultural dessas comunidades.

A autora descreve a “parentagem” como um tecido dinâmico que conecta as pessoas não apenas por laços de sangue, mas também por redes simbólicas, afetivas e práticas. Essas redes são continuamente atualizadas por meio de encontros, trocas e memórias: “A parenteza não se reduz a uma concepção genealógica do parentesco consanguíneo […] cria diferenciações adequadas sobre um fundo virtual de conexidade.” (VIEIRA, 2023, p. 38). Enfatiza as práticas de socialização, como as feiras e as celebrações religiosas, funcionam como espaços de reafirmação desses laços e de fortalecimento da comunidade. Nesse sentido, as brincadeiras surgem como uma prática cultural essencial para a sociabilidade quilombola. O humor e a troca de provocações são descritos como mecanismos de criação e manutenção de vínculos. “A arte da pirraça” é relevante porque “as pessoas criam a relacionalidade por critérios e mecanismos de produção próprios” (VIEIRA, 2023, p. 37).

Vieira amplia a discussão para conectar as práticas locais de resistência à noção de “ecologia quilombola”, uma prática de resistência cultural e política que se opõe à imposição de lógicas capitalistas e colonialistas sobre o semiárido:

“A arte de criar constitui o ponto através do qual a articulação ecológica quilombola formula e enuncia sua divergência ecológica. Ainda que as plantações sejam arrasadas pelo veneno, pelo atraso nas chuvas, pe1a quentura, insistir em plantar é manter-se na luta contra as formas de controle e sobrecodificação das potências criativas da vida.” (2023, p. 370)

A luta das comunidades quilombolas pela permanência em suas terras e pela valorização de seus saberes está intrinsicamente ligada à resistência contra projetos de desenvolvimento que frequentemente desconsideram a especificidade dos ecossistemas locais. A autora argumenta que a resistência quilombola não é apenas uma resposta aos desafios ambientais, mas também uma forma de contestação política e cultural.

A autora integra essas discussões dentro do contexto mais amplo de debates sobre desenvolvimento sustentável, autonomia regional e a importância de respeitar e valorizar os conhecimentos tradicionais e as práticas de gestão ambiental que essas comunidades oferecem, destacando a capacidade delas em criar soluções inovadoras e sustentáveis para esses desafios. A resistência e a ecologia se entrelaçam nas práticas diárias e na cosmovisão das comunidades quilombolas.

o que chamei de teoria etnográfica da resistência consistiu em um agendamento que interseciona os planos filosóficos e etnográficos para tentar acompanhar sinais e rastros de um movimento complexo e divergente, como o pensamento ecológico quilombola. O encontro etnográfico foi também um encontro com outra sensibilidade ecológica que busquei descrever na medida em que artes da resistência quilombola me afetaram e também me fizeram enunciar outra divergência no plano das práticas e saberes ambientais (VIEIRA, 2023, P. 370).

O semiárido não deve ser visto como um espaço de carência, mas como um território de potencialidade e inovação. A convivência sustentável, a valorização dos saberes locais e a resistência cultural emergem como elementos centrais para transformar o semiárido em um modelo de desenvolvimento alternativo, que priorize a justiça social e a sustentabilidade ambiental.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AMADO, Janaína. Região, sertão, nação. Estudos Históricos, vol.8, no 15, 1995. pp. 145- 52.

BUCKLEY, E. Tecnocratas e a política de seca e desenvolvimento no Brasil do século XX. Campinas. Editora Unicamp. 2022.

DAVIS, Mike. Holocaustos coloniais: a criação do terceiro mundo. São Paulo: Veneta, 2022.

FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. São Paulo. Companhia Editora Nacional, 2004.

_________________. A Operação Nordeste. Rio de Janeiro: ISEB, 1959. GRUPO DE TRABALHO DO DESENVOLVIMENTO DO NORDESTE. Uma política de desenvolvimento econômico para o Nordeste. Rio de Janeiro: Departamento de Imprensa Nacional, 1959. 97 p.

GUATTARI, Félix. As três ecologias. Campinas: Papirus, 1990.

PRADO JÚNIOR, Caio. História econômica do Brasil. São Paulo. Editora Brasiliense. 1956. SANTOS, Antônio Bispo dos. A terra dá, a terra quer. São Paulo: UBU, 2023.

SANTOS, Thiago Araujo. Articulação no semiárido brasileiro (ASA Brasil): a convivência com o Semiárido e a construção de um regionalismo de resistência. 2016. Tese. Universidade de São Paulo, São Paulo, 2016.

STARLING, Heloisa Maria Murgel. A República e o Sertão. Imaginação literária e republicanismo no Brasil. Revista Crítica de Ciências Sociais [Online], 82. 2008.

VIEIRA, Suzane de Alencar. Entre risos e perigos: artes da resistência e ecologia quilombola no Alto Sertão da Bahia. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2023.