CHILDHOOD OBESITY: A METABOLIC CONDITION THAT BEGINS DURING GESTATION.
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202511302103
Autores: Vanessa Lima Batista1
Gabriel Lenoir Bicalho1
Coautora: Andréa Maria de Lacerda2
RESUMO
Este relato apresenta uma paciente pediátrica com obesidade desde os primeiros anos de vida, evidenciando a influência de fatores gestacionais na origem da condição. A mãe, com sobrepeso pré-gestacional e diabetes gestacional, contribuiu para a programação metabólica fetal alterada, resultando em adiposidade precoce. Aos 7 anos, a criança desenvolveu pré-diabetes e, aos 8, iniciou quadro de dor articular nos joelhos, associado ao excesso de peso. O caso reforça a importância da avaliação individualizada e da prevenção desde a gestação, destacando o papel do ambiente intrauterino na predisposição a distúrbios metabólicos. Intervenções precoces, focadas na saúde materna e infantil, são essenciais para romper o ciclo intergeracional da obesidade e promover o desenvolvimento saudável.
PALAVRAS-CHAVE: Obesidade infantil. Programação fetal. Metabolismo. Gestação. Prevenção.
ABSTRACT
This case report describes a pediatric patient with early-onset obesity, highlighting the influence of maternal factors during pregnancy. The mother had pregestational overweight and gestational diabetes, which contributed to fetal adiposity and early metabolic alterations. By age 7, the child developed prediabetes, and by age 8, she experienced knee pain linked to excess weight. The case underscores the importance of individualized assessment and early prevention, emphasizing the role of the intrauterine environment in metabolic programming and future disease risk. Early interventions focused on maternal and child health are essential to break the intergenerational cycle of obesity and support healthy development.
KEYWORDS: Childhood obesity. Fetal programming. Metabolism. Pregnancy. Prevention.
CONTEXTO
A avaliação singularizada de crianças com obesidade é fundamental para a compreensão ampla e eficaz dessa condição, pois permite considerar a complexidade de fatores que a influenciam (Braga e silva, L. 2022).
Embora os hábitos alimentares desempenhem papel relevante no desenvolvimento da obesidade infantil, é imprescindível reconhecer que aspectos gestacionais, como o estado nutricional da mãe durante a gravidez, o ganho de peso gestacional e até mesmo o ambiente intrauterino, podem predispor a criança ao excesso de peso desde os primeiros anos de vida (SBP, 2019).
Ao tratar cada caso de forma individualizada, profissionais da saúde conseguem identificar causas específicas e propor intervenções mais adequadas, promovendo não apenas a redução do peso, mas também o bem-estar físico e emocional da criança. Essa abordagem personalizada é essencial para evitar generalizações que podem comprometer o sucesso do tratamento e o desenvolvimento saudável da criança. (Ministério da Saúde; Universidade Federal de Minas Gerais, 2024).
A incidência e a prevalência de obesidade em bebês classificados como GIG (grandes para a idade gestacional) têm aumentado nos últimos anos, despertando a atenção da comunidade científica. (Manual MSD, 2025).
Esses bebês apresentam maior risco de desenvolver obesidade infantil e síndromes metabólicas ao longo da vida. Estudos indicam que fatores como diabetes gestacional e ganho de peso excessivo da mãe durante a gravidez contribuem para esse cenário. (Febrasgo, 2023).
A identificação precoce desses casos é essencial para intervenções preventivas. Compreender essa relação ajuda a traçar estratégias de cuidado desde o pré-natal (SBP, 2019).
Estudos mostram que bebês GIG (grandes para a idade gestacional) têm maior risco de desenvolver obesidade infantil e síndromes metabólicas, com prevalência crescente nos últimos anos (SBP, 2019).
Segundo o Atlas da Obesidade Infantil no Brasil, publicado pelo Ministério da Saúde, três em cada dez crianças brasileiras entre 5 e 9 anos estão acima do peso, e o país pode ocupar o 5º lugar mundial em número de crianças com obesidade até 2030 na Anatel. Embora o documento não traga dados específicos apenas sobre bebês GIG, ele reforça que fatores gestacionais — como diabetes materna e ganho de peso excessivo na gravidez — estão diretamente associados ao nascimento de crianças com peso elevado, o que aumenta o risco de obesidade futura.
Além disso, uma revisão sistemática publicada na Revista de Gestão e Secretariado destaca que a obesidade pediátrica é uma doença crônica multifatorial, com repercussões sistêmicas, e que a incidência de casos tem crescido de forma preocupante (Ministério da Saúde. Atlas da Obesidade infantil no Brasil. 2019).
Esses achados reforçam a importância de monitorar o peso desde a gestação, especialmente em casos de bebês GIG, que já nascem com predisposição ao excesso de peso e complicações metabólicas. (SBP. 2019).
Este artigo destaca a relevância da gestação como fase inicial para o cuidado com o peso infantil. É nesse período que se estabelecem bases metabólicas que influenciam a saúde futura da criança. Fatores como nutrição materna e ganho de peso gestacional podem predispor à obesidade. Compreender essa relação é essencial para estratégias preventivas eficazes. Assim, o cuidado começa antes do nascimento, promovendo saúde desde o início da vida.
APRESENTAÇÃO DO CASO
Paciente do sexo feminino, 9 anos de idade, apresenta estatura de 1,59 m e peso de 81 kg, configurando índice de massa corporal (IMC) acima do percentil 97 para a faixa etária, compatível com obesidade grau II. Desde os primeiros anos de vida, a paciente apresentou crescimento linear acelerado, com altura e peso sempre superiores aos valores esperados para a idade. Aos 7 anos apresentou pré-diabetes com valores de glicemia entre 100 a 125 mg/dl. Atualmente, iniciou quadro de dor articular em joelhos e tornozelos, com limitação funcional progressiva, especialmente após atividades físicas. Exames laboratoriais revelam dislipidemia, com elevação de LDL-colesterol e triglicerídeos. A história clínica sugere associação entre o excesso de peso e o surgimento precoce de alterações osteoarticulares, além de risco aumentado para síndromes metabólicas. A abordagem terapêutica inclui acompanhamento multidisciplinar com foco em reeducação alimentar, atividade física adaptada e controle dos parâmetros metabólicos.
DADOS COMPLEMENTARES
Glicemia de jejum 100–109 mg/dL (limítrofe). Pode indicar resistência insulínica leve, pré diabetes.
PCR (Proteína C reativa) 3–5 mg/L (levemente elevada). Sugere inflamação leve associada ao tecido adiposo.
Lipidograma LDL: 100–129 mg/dL HDL: 40–50 mg/dL Triglicerídeos: 130–149 mg/Dl. Perfil lipídico alterado de forma leve, sem risco cardiovascular imediato.
DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL
A obesidade infantil é uma condição multifatorial que pode estar associada a diversas causas clínicas e genéticas. A forma mais comum é a obesidade primária (nutricional), resultante do desequilíbrio entre ingestão calórica excessiva e gasto energético reduzido. No entanto, outras condições devem ser consideradas na avaliação pediátrica. A síndrome metabólica pediátrica, por exemplo, envolve alterações como obesidade central, dislipidemia, resistência à insulina e hipertensão, exigindo atenção precoce.
Distúrbios endócrinos como hipotireoidismo e síndrome de Cushing também podem contribuir para o ganho de peso e alterações no crescimento. A puberdade precoce, caracterizada por desenvolvimento sexual antecipado e crescimento acelerado, pode estar relacionada ao excesso de peso. Doenças ortopédicas, como epifisiólise da cabeça femoral e doença de Osgood-Schlatter ou Sever, são frequentes em crianças obesas devido à sobrecarga mecânica.
Além disso, síndromes genéticas como Prader-Willi e Bardet-Biedl apresentam obesidade como manifestação clínica, geralmente acompanhada de outras alterações sistêmicas. A abordagem diagnóstica deve ser individualizada, considerando todas essas possibilidades para garantir intervenções eficazes e seguras.
TRATAMENTO
Na atenção primária, o manejo da dor articular em pacientes pediátricos com obesidade deve começar com Mudanças no Estilo de Vida (MEV), que são fundamentais para reduzir a sobrecarga nas articulações e prevenir a progressão de lesões. A abordagem inclui:
- Educação em saúde: orientação à família sobre os impactos da obesidade nas articulações e na qualidade de vida.
- Reeducação alimentar: encaminhamento para nutricionista visando redução gradual de peso e melhora do perfil inflamatório.
- Atividade física adaptada: incentivo à prática de exercícios de baixo impacto, como natação ou caminhada leve, evitando sobrecarga nos joelhos.
- Fisioterapia: quando disponível, pode ser indicada para fortalecimento muscular, melhora da postura e alívio da dor.
- Analgésicos leves e anti-inflamatórios não hormonais (AINEs): uso pontual, se necessário, conforme avaliação médica.
- Encaminhamento especializado: em casos persistentes ou com sinais de comprometimento funcional, pode ser necessário avaliação ortopédica ou reumatológica.
A MEV é a base do tratamento na UBS, pois atua na causa primária — o excesso de peso — e promove melhora global da saúde da criança.
Nos níveis secundário e terciário de atenção à saúde, como ambulatórios especializados em endocrinologia pediátrica ou centros de referência em obesidade, o tratamento da obesidade grave pode incluir abordagens intensivas, como uso de medicamentos, suporte psicológico e, em casos selecionados, cirurgia bariátrica.
A paciente descrita — 9 anos, com IMC elevado, dislipidemia e dor articular — não se enquadra nos critérios para cirurgia bariátrica, pois a idade mínima para cirurgia bariátrica recomendada é 14 anos, com maturidade física e emocional avaliada por equipe multidisciplinar.
O IMC deve ser ≥ 40 kg/m², ou ≥ 35 kg/m² com comorbidades graves, como diabetes tipo 2, apneia obstrutiva do sono, hipertensão arterial resistente ou esteatose hepática avançada.
É necessário que o paciente tenha passado por tratamento clínico intensivo por pelo menos 6 a 12 meses, sem sucesso na redução ponderal.
DISCUSSÃO
Este relato de caso evidencia como a obesidade infantil pode ter origem ainda no período gestacional, reforçando o papel da programação metabólica intrauterina na determinação da saúde futura. A associação entre sobrepeso materno, diabetes gestacional e o desenvolvimento de obesidade precoce observada na paciente demonstra, de maneira concreta, a influência direta dos fatores pré-natais sobre o risco de distúrbios metabólicos na infância. A evolução clínica — marcada por crescimento acelerado, pré-diabetes, dislipidemia e manifestações osteoarticulares — exemplifica o caráter progressivo e multifatorial da doença, chamando atenção para a necessidade de vigilância desde a gestação.
A importância deste trabalho reside na demonstração prática de que o cuidado materno-infantil deve ser contínuo e integrado, iniciando-se no pré-natal e estendendo-se ao longo da infância. Ao ilustrar a relação entre o ambiente intrauterino alterado e o surgimento de comorbidades em idade precoce, o caso reforça a urgência de estratégias preventivas que incluam educação nutricional, controle metabólico materno e acompanhamento pediátrico individualizado.
Além disso, o relato destaca a relevância da atuação multiprofissional e da adoção precoce de Mudanças no Estilo de Vida (MEV), apontando que intervenções oportunas podem reduzir complicações futuras e interromper o ciclo intergeracional da obesidade. Assim, este caso contribui para a literatura ao evidenciar, de forma aplicada, que a prevenção efetiva da obesidade infantil começa antes do nascimento e depende diretamente da qualidade do cuidado oferecido à gestante e à criança.
REFERÊNCIAS
ATLAS DA OBESIDADE INFANTIL NO BRASIL. Brasília – DF 2019. Dados do Ministério da Saúde. 2. World Obesity Federation. Atlas of Childhood Obesity. Outubro/2019. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/promocao-da-saude/programa-crescersaudavel/publicacoes/dados_atlas_obesidade.pdf
BRAGA E SILVA. FATORES QUE INFLUENCIAM A OBESIDADE INFANTIL: UMA REVISÃO DE LITERATURA. Braga e silva, L. 2022. Monografia Graduação – Universidade Estadual do Tocantins – Câmpus Universitário de Augustinópolis – Curso de Enfermagem. Orientador: Paulo Cesar Alves Paiva. 2022. Disponível em: https://unitins.br/RepositorioDigital/Publico/Home/BaixarPDF/292
FEBRASGO. Orientações sobre como monitorar o ganho de peso gestacional durante o pré-natal Número 2 – Fevereiro 2023 As Comissões Nacionais Especializadas em Assistência Pré-Natal e Gestação de Alto Risco da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). FEBRASGO POSITION STATEMENT. 2023. Disponível em: https://www.febrasgo.org.br/images/pec/FPS—N2—Fevereiro-2023—portugues.pdf
MANUAL MSD. Recém-nascidos grandes para a idade gestacional (GIG). Arcangela Lattari Balest, Alicia R. Pekarsky, Revisado/Corrigido: fev. 2025. Disponível em: https://www.msdmanuals.com/pt/casa/problemas-de-sa%C3%BAde-infantil/problemas-gerais-em-rec%C3%A9m-nascidos/rec%C3%A9m-nascidos-grandes-para-a-idade-gestacional-gig
MINISTÉRIO DA SAÚDE, Universidade Federal de Minas Gerais. Instrutivo de abordagem individual para o manejo da obesidade no SUS. Relatório. 2024. Disponível em: https://homologacao.painelobesidade.com.br/biblioteca/instrutivo-de-abordagem-individual-para-o-manejo-da-obesidade-no-sus/
SBP. Sociedade Brasileira de Pediatria, terceira edição do Manual de Orientação Obesidade na Infância e Adolescência produzido pelo Departamento Científico de Nutrologia. O livro da 39ª edição do Congresso Brasileiro de Pediatria (CBP). Porto Alegre (RS). 2019. Disponível em: https://www.sbp.com.br/imprensa/detalhe/nid/manual-de-orientacao-sobre-obesidade-na-infancia-e-adolescencia-esta-disponivel-para-os-associados-da-sbp/
1Estudante de medicina-Unifoa
2Professora do curso de medicina-Unifoa
