OBESIDADE E AUTOMEDICAÇÃO: IMPACTOS NA VIDA DOS ACADÊMICOS DE MEDICINA.

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/pa10202510191109


Guilherme Arthur Fatini Moreira1; Leonardo Mendonça Bezerra2; Afonso Leite Justino Pires3; Alexandre Gimenez Gonçalves4; Arthur Batistela Souza5; Felipe Gomes Cunha6; Larissa Mayumi Takeuti7; Lucas Mortari8; Maria Teresa Falkine Correa9; Vitor Manoel Rodrigues de Paula10


RESUMO

Trata-se de uma pesquisa realizada por meio de um estudo exploratório, utilizando questionários estruturados para coletar dados quantitativos. A amostra foi composta por acadêmicos de medicina da Uniderp do 1° ao 8° semestre letivo. Os participantes foram convidados a responder questões relacionadas ao uso de automedicação com antiobesogênicos, como por exemplo, os motivos que levam eles a recorrerem a esse método e os impactos por eles gerados. Os dados coletados foram analisados estatisticamente para determinar a prevalência da automedicação de antiobesogênicos entre acadêmicos de medicina, quanto a classificação do índice de massa corporal (IMC). Além disso, o estudo foi realizado para identificar os motivos que levam os estudantes a buscar esses medicamentos por conta própria, bem como as fontes de informação utilizadas. Nesse ínterim, foi observado que o principal motivo que levou ao uso de automedicação antiobesogênica foi a busca pela melhora da autoestima e/ou estética e, após interromper o uso, a maioria dos participantes parou de perder peso.

Palavras-Chave: Medicamentos para perda de peso, Estudantes de medicina, Comportamento do estudante, Imagem corporal, Saúde mental.

1. INTRODUÇÃO

A obesidade é uma doença crônica, que tem origem multifatorial e ocorre por um balanço energético positivo, o que leva o indivíduo ao excesso de gordura corporal. Dentre os fatores que acometem a obesidade, se destacam os genéticos, ambientais e comportamentais. Posto isso, é importante citar que apesar de possuir fatores genéticos envolvidos, a quantidade de obesos no mundo está aumentando principalmente por conta dos fatores ambientais, se destacando o aumento do sedentarismo e o aumento da ingesta calórica frente ao gasto energético (Sarzani et al., 2024).

A prevalência da obesidade vem apresentando um aumento acentuado nas últimas décadas e isso se torna um severo problema de saúde pública que afeta a população de todos os países do mundo. Desde 2010, nenhum país teve redução na prevalência dessa morbidade. Cerca de 38% da população mundial é obesa, e esse valor pode chegar até 50% em 2035 (Lobstein et al., 2023). Em relação ao Brasil, cerca de 57,54% da população está acima do peso, sendo que desses, 20,43% são obesos. As regiões mais afetadas são: Sudeste (22,32%), Sul (21,41%) e Centro-Oeste (21,34%) (Mainardes; Muller; Martins, 2023). O problema se torna ainda mais preocupante quando se percebe que esses números tendem a subir, pois de 2006 para 2023 o número de indivíduos adultos obesos mais do que duplicou (Brasil, 2024).

Além de muito prevalente, a obesidade oferece muitos riscos para a saúde do individuo. A obesidade aumenta a taxa de mortalidade por todas as causas, mas principalmente a taxa de mortalidade por doenças cardiovasculares (Liu et al., 2023). Há uma grande associação com doença arterial coronariana, aumento do risco de desenvolvimento de insuficiência cardíaca, aumento das taxas de dislipidemia e de hipertensão arterial sistêmica (Welsh et al., 2024.). Existem evidências atuais que demonstram grande impacto na saúde mental. Segundo Gale et al. (2023) há um aumento da dificuldade para iniciar o sono, aumento da prevalência de insônia e menor qualidade geral do sono. Indivíduos obesos também tem maior risco para desenvolver transtornos psiquiátricos como depressão e ansiedade (Nasser et al., 2024).

Ademais, a obesidade é um grande problema de saúde coletiva, representando um dos principais gastos com saúde publica (Okunogbe et al., 2022). A Organisation for Economic Co- operation and Development (2019) estima que de 2020 para 2050 os países diminuirão 3,26% de seu PIB por conta dos impactos diretos e indiretos da obesidade. Os impactos diretos representam de 12% a 39% dos gastos com saúde, enquanto os indiretos representam 61% a 88% (Okunogbe et al., 2022). No Brasil isso afeta principalmente a população mais pobre, que tem acesso limitado a alimentos saudáveis e menor nível de escolaridade, que implica escolha de alimentos processados mais frequentemente, resultando em padrões dietéticos menos saudáveis (Brasil, 2024).

O diagnóstico de obesidade é realizado de acordo o índice de massa corporal (IMC), que é calculado com os valores das medidas antropométricas do indivíduo, sendo esse cálculo a divisão do peso em quilogramas do indivíduo pelo quadrado de sua altura em metros. Sendo assim, é definido que a pessoa está acima do peso se o IMC for maior ou igual a 25 Kg/m² e está obesa se o IMC for maior ou igual a 30 Kg/m² (WHO, 1995).

O fator mais importante para o tratamento da obesidade é a mudança de hábito de vida, que engloba a prática de exercícios físicos e diminuição da ingesta calórica. Além das mudanças comportamentais, alguns pacientes podem necessitar de medicamentos antiobesogênicos, e para tanto é necessário o acompanhamento com um profissional médico capacitado (Halpern et al., 2023; Perez; Miguel, 2024). Entretanto, alguns indivíduos tomam esses medicamentos por conta própria, o que pode causar diversas complicações como dependência, anafilaxia, intoxicações e outros efeitos indesejados, com a ocorrência de óbito em alguns casos (Silva et al., 2023).

Apesar de todos os problemas que a obesidade pode causar o principal motivo para a busca do emagrecimento é a preocupação com a estética corporal (Alba et al., 2022). As redes sociais desempenham um papel critico no desenvolvimento de um estigma com o peso corporal em indivíduos obesos, principalmente por conta da exposição maciça a fotos ou vídeos de indivíduos com “corpos perfeitos”. Isso causa o desenvolvimento de distúrbios de autoimagem, baixa autoestima, depressão e ansiedade, o que incentiva a busca por “métodos milagrosos” de emagrecimento rápido e fácil, como a automedicação (Clark et al., 2021; Nobre; Yasmin; Ricardo, 2023).

Ademais, define-se automedicação por: uso de medicamentos por conta própria, sem orientação médica (Lima, et al., 2023). Muitas vezes quem realiza essa prática acredita que não haverá problemas em consumir tais medicamentos sem orientação, mas quaisquer medicamentos podem causar prejuízos a saúde do indivíduo se utilizados de maneira inadequada (Becker; Dias, 2023). Quanto a isso, muitas vezes acadêmicos de medicina, por acreditarem que tem conhecimento suficiente sobre o medicamento, podem estar mais propensos a realizar a automedicação. (Sena et al., 2023). A automedicação para tratar sintomas e doenças autorreferidas pode ocasionar graves consequências à saúde individual (Becker; Dias, 2023).

No Brasil a prevalência da automedicação é de 16,1%, que ocorre principalmente com medicamentos analgésicos, relaxantes musculares e anti-inflamatórios (Arrais et al., 2016). Entre acadêmicos de medicina esse valor aumenta exponencialmente. Estudos demonstram que os resultados variam em cada universidade, mas indicam que há uma alta prevalência de automedicação, e em alguns casos o valor pode chegar até 100% nesse grupo (Ramos et al., 2023; Delmondes et al., 2024).

A pesquisa sobre a automedicação entre acadêmicos de medicina é relevante, uma vez que esses estudantes serão futuros médicos e, como tal, suas atitudes e comportamentos em relação à automedicação podem influenciar suas práticas clínicas futuras (Medeiros et al., 2022). Em vista disso, é fundamental investigar como esses estudantes lidam com a automedicação, pois isso pode ter implicações na qualidade do atendimento médico que fornecerão.

Nesse sentido, tratando de futuros profissionais da área da saúde, espera- se que o uso aconteça em menor quantidade e de modo mais reflexivo, pois são pessoas que tem informações importantes para não fazerem uso de medicamentos sem prescrição de um profissional habilitado. Mas, é exatamente essa maior instrução que os estimula ao uso de forma inadequada (Medeiros et al., 2022).

Diante dessas características, a literatura acadêmica ainda carece de estudos que explorem a relação entre obesidade e automedicação, especialmente entre estudantes de medicina. Realizar essa pesquisa pode preencher uma lacuna no conhecimento e contribuir para uma compreensão mais aprofundada dos fatores que influenciam a automedicação neste grupo demográfico. Logo, este estudo pode contribuir significativamente para o entendimento da relação entre obesidade, automedicação e acadêmicos de medicina.

Portanto, o presente estudo teve por objetivo investigar o conhecimento dos acadêmicos de medicina sobre os riscos associados à automedicação, além de identificar a prevalência da automedicação entre indivíduos, podendo ser obeso e sobrepeso ou eutrófico, no curso de medicina da Uniderp. Ademais, identificar o impacto da automedicação na vida dos acadêmicos de medicina, considerando aspectos físicos, emocionais e sociais. Além disso, descrever os principais motivos que levam à automedicação com antiobesogênicos.

2. METODOLOGIA

Este estudo baseia-se em uma estratégia de pesquisa descritiva, transversal e com abordagem quantitativa, que contou com a participação de 35 acadêmicos, na faixa etária de 18 a 59 anos. Critérios de inclusão englobam alunos de ambos os sexos, matriculados do primeiro ao oitavo semestre do curso de medicina da Universidade Anhanguera-Uniderp, sobrepesos, obesos e eutróficos, que já fizeram e/ou fazem uso de medicamentos para emagrecer sem acompanhamento médico. Optou-se pela exclusão de grávidas, lactantes e daqueles que se recusaram a participar (autoexclusão).

Para a coleta dos dados, foi utilizado um questionário físico criado pelos próprios autores com base em outros questionários do mesmo tema. Além disso foi utilizado uma balança digital de vidro da marca Multilaser® com capacidade para até 180kg e uma fita métrica da marca Pa med®. Foram utilizados para coletar peso e altura dos participantes, visando a uma amostra probabilística.

Quanto ao convite para a pesquisa, foi feito de forma de forma coletiva nos diversos ambientes do Centro de Especialidades Médicas da Uniderp (CEMED). Foram convidados a participar alunos de medicina do primeiro ao oitavo semestre, após o término de suas atividades.

Os acadêmicos que aceitaram realizar a pesquisa foram encaminhados de forma individual por um dos pesquisadores para uma sala privativa, onde os pesquisadores aferiram peso e altura dos participantes, utilizando balança e fita métrica, para assim obter o IMC. Logo em seguida, os participantes preencheram o questionário. No total, 75 questionários foram coletados, e destes, 54 constavam que haviam feito uso de antiobesogenicos. Dos que fizeram uso de antiobesogenicos, 35 fizeram o uso sem acompanhamento médico, que foram incluídos na pesquisa. Nenhum participante incluído na pesquisa se enquadrou nos critérios de exclusão.

Nesse contexto, o questionário empregou variáveis para explorar questões psicossociais associadas ao uso de métodos de redução de peso, com ênfase na farmacoterapia (automedicação), além de analisar o perfil dos estudantes conforme os critérios de inclusão. Antes da aplicação do questionário, foi apresentado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), que permitia aos participantes a opção de se recusar a responder às perguntas.

2.1 QUESTÕES ÉTICAS

O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP). CAAE: 76193623.0.0000.0199

Os benefícios diretos da pesquisa podem estar relacionados com a autoconscientização sobre a automedicação e os efeitos gerados. Já os benefícios indiretos podem informar a importância de buscar um tratamento médico adequado para condições de saúde, promovendo um estilo de vida mais saudável, o que pode prevenir a obesidade e possíveis alterações metabólicas como doenças cardiovasculares, dislipidemia, diabetes.

Os riscos para os participantes podem estar associados ao constrangimento emocional, devido a perguntas sensíveis e pessoais que podem gerar um desconforto ou incômodo no participante após a medida do peso e/ou altura. Tais riscos foram minimizados informando ao participante que poderia encerrar a pesquisa quando desejasse, também foi orientado que poderia pular a pergunta caso fosse inconveniente e, em caso de qualquer desconforto, poderia buscar assistência psicológica no setor de psicologia da Universidade Anhanguera-Uniderp.

3. RESULTADOS

A pesquisa incluiu 35 participantes, sendo 15 do sexo masculino e 20 do sexo feminino. Foram analisadas diferentes faixas etárias, que se distribuíram da seguinte forma: 23 participantes tinham entre 18 e 25 anos, 10 entre 26 e 35 anos, 1 entre 36 e 45 anos e 1 entre 45 e 59 anos. Quanto ao semestre dos cursos, a amostra foi composta por 9 alunos do 4º semestre, 11 do 5º semestre, 4 do 6º semestre e 11 do 7º semestre. Além disso, foram coletados dados sobre o Índice de Massa Corporal (IMC) dos participantes, revelando que 37,1% estão dentro do peso ideal, 51,4% apresentam sobrepeso, 8,5% têm obesidade grau 1 e 2,8% apresentam obesidade grau 2.

Figura 3.1 – Prevalência dos acadêmicos de medicina quanto ao IMC. Universidade Uniderp, Campo Grande-MS– 2024

Tabela 3.1 – Conhecimento dos acadêmicos de medicina sobre as medicações que fizeram uso – Universidade Uniderp, Campo Grande-MS – 2024

A Tabela 3.1 diz respeito ao nível de conhecimento que os participantes relatam ter quanto ao princípio ativo e o mecanismo de ação do medicamento. Observa-se que uma parte (10 participantes) relatam ter conhecimento completo sobre o medicamento, enquanto a maioria (16 participantes) possuía apenas um entendimento parcial. Um número pequeno de pessoas (2) desconhecia essas informações por completo. Além disso, 7 participantes se preocuparam em buscar informações antes de iniciar a medicação, o que mostra a importância que uma parte significativa dá à informação prévia. Interessante notar que nenhum participante considerou as informações irrelevantes, o que reforça a percepção da relevância do conhecimento acerca do medicamento utilizado.

Tabela 3.2 – Relação de como os acadêmicos de medicina se informaram sobre as medicações que tomaram Universidade Uniderp, Campo Grande-MS – 2024.

*Cada participante poderia assinalar mais de uma resposta.

Figura 3.2 – Comparado com a época anterior ao uso de antiobesogenicos para perda de peso eu me sinto. Universidade Uniderp, Campo Grande-MS – 2024.

Figura 3.3 – Me sentia/sinto capaz de participar fisicamente em atividades. Universidade Uniderp, Campo Grande- MS – 2024.

Figura 3.4 – Estava/estou me relacionando socialmente. Universidade Uniderp, Campo Grande-MS – 2024.

Figura 3.5 – Era/sou capaz de realizar tarefas diárias. Universidade Uniderp, Campo Grande-MS – 2024.

Figura 3.6 – Minha disposição estava/está. Universidade Uniderp, Campo Grande-MS – 2024

Figura 3.7 – Após interromper o uso da automedicação. Universidade Uniderp, Campo Grande-MS – 2024.

Os gráficos apresentados acima possibilitam a avaliação dos impactos da automedicação na vida dos acadêmicos de medicina, ressaltando as mudanças comportamentais antes e durante o uso de medicamentos para emagrecimento.

Figura 3.8 – Quais motivos te fizeram recorrer a automedicação. Universidade Uniderp, Campo Grande-MS –2024.
*Cada participante poderia assinalar mais de uma resposta.

A Figura 3.8 revela as principais razões que levaram os participantes a recorrer à automedicação. Os dois motivos mais citados, com 22 menções cada, foram sobrepeso/obesidade e a busca por melhorar a autoestima ou a estética, seguidos pela obtenção de resultados rápidos (21 menções). Esses dados indicam que questões relacionadas à imagem corporal e à pressa por resultados são fatores predominantes. Outros motivos como falhas na prática de exercícios físicos, o desejo de retomar atividades físicas e a influência de relatos de sucesso na medicação também foram mencionados, embora em menor número. Motivos como necessidade para trabalho ou incentivo de amigos não foram relevantes.

4. DISCUSSÃO

Entre os resultados coletados, a maioria dos participantes não possuem conhecimento suficiente sobre a medicação antes de iniciá-la, o que contrasta com o estudo de Lima, Silva e Medeiros (2023), que aponta que 98,6% dos participantes (acadêmicos de enfermagem) afirmam conhecer os efeitos adversos dos medicamentos. O outro estudo feito por Sena, Freitas, Rodrigues e Rocha (2023) mostrou que a maioria das fontes de informação e interesse a cerca desses medicamentos veio de familiares (76,8%). Isso contrasta com o nosso resultado que mostrou busca pela internet. Porém, é digno de nota que esses estudos não restringiram a pesquisa à antiobesogênicos, o que muda as medicações utilizadas na pesquisa. Tendo em vista que, os principais medicamentos dessa outra pesquisa foram analgésicos e anti-inflamatórios, nossos resultados divergem, em grande parte, pois esses medicamentos são de ampla utilização e grande parte dos leigos apresentam conhecimentos acerca desses fármacos, o que não se aplica aos antiobesogênicos, já que fontes de conhecimento confiáveis são mais escassas.

Em comparação com o período anterior ao início da automedicação com antiobesogênicos, a maioria dos participantes afirmaram observar melhora ou nenhuma alteração na qualidade de vida. Em um estudo realizado pela Associação Brasileira para o Estudo de Obesidade e Síndrome Metabólica (ABESO), de 2022, foi evidenciado o mesmo parâmetro analisado na pesquisa, onde os indivíduos que perderam peso, ao longo do tratamento, apresentaram aumento de aproximadamente 20% na eficiência energética do músculo durante a prática de atividades físicas de baixa intensidade. Ademais, o estudo desenvolvido pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) em 2024, reforça uma melhora clara de vários indicadores de saúde e de qualidade de vida dentro os usuários de antiobesogênicos.

Verificou-se nesta pesquisa que a maioria dos acadêmicos do curso de Medicina recorreram à automedicação como principais motivos o sobrepeso/obesidade e a busca por melhorar a autoestima ou a estética, seguidos pela obtenção de resultados rápidos. Além de que, o principal meio de obtenção das informações dos medicamentos se sucedeu pela internet. Resultado similar foi descrito no estudo de Nobre, Yasmin e Ricardo (2023) o qual correlaciona a influência da mídia no processo de emagrecimento de mulheres obesas, quando relata que a busca pelo corpo ideal faz algumas pessoas colocarem essa obsessão à frente de tudo, aderindo a métodos não confiáveis e que podem ser prejudiciais a sua saúde. As mulheres obesas, em grande maioria sem perceber, sofrem a pressão que é imposta por meio de pessoas ou pela mídia e indústrias, no que diz respeito a busca pelo corpo considerado perfeito.

Além disso, no que se refere à continuidade dos resultados após a interrupção da medicação, poucos afirmam continuar perdendo peso, sendo que a grande maioria para de perder peso ou ainda retorna ao peso anterior. Esses dados levantam questionamentos sobre a efetividade da automedicação, que, apesar de apresentar melhoras aparentes, não garante redução de peso permanente, diferente do que ocorre quando o acompanhamento medico é realizado corretamente (Trabulsi et al., 2023). O estudo de Silva, Baiense e Andrade (2023) reforça essa perspectiva ao destacar que o tratamento farmacológico, por si só, não basta para o manejo eficaz da obesidade. A abordagem deve incluir mudanças nos hábitos de vida e acompanhamento profissional qualificado.

O presente estudo identificou que a automedicação com antiobesogênicos entre acadêmicos de medicina é motivada, em grande parte, por fatores estéticos e emocionais, como a busca por autoestima e insatisfação corporal. Tal realidade corrobora a citação de Lubeck et al., (2021) que apontam a depressão e a insatisfação com o corpo como principais desencadeadores do uso indiscriminado de medicamentos para emagrecimento, com consequências como efeito sanfona, dependência, transtornos alimentares e prejuízos psicossociais.

Além disso, os riscos associados a essa prática são amplamente reconhecidos na literatura. De acordo com Rezende e Pinto (2025), a automedicação é responsável por milhares de mortes anuais, muitas vezes decorrentes da ausência de avaliação médica ou do difícil acesso a serviços de saúde. Essa estatística reforça a gravidade do comportamento identificado na amostra estudada, onde a maioria recorreu à automedicação sem conhecimento pleno sobre os medicamentos utilizados.

Os resultados evidenciam, portanto, que mesmo entre estudantes de medicina que deveriam estar mais conscientes dos riscos a automedicação se mantém como uma prática comum, impulsionada por fatores sociais, emocionais e pela busca por soluções imediatas. Isso reforça a necessidade de uma formação médica que não apenas forneça conhecimento técnico, mas também promova o autocuidado e a reflexão ética sobre práticas inseguras.

5. CONCLUSÃO

Em suma, observa-se que o uso de antiobesogênicos por acadêmicos de medicina atinge o efeito desejado para perda de peso, promovendo melhora na autoestima e no bem-estar psicoemocional desses indivíduos a curto prazo.

Todavia, esses benefícios não se mantêm por muito tempo, uma vez que alguns participantes deixam de perder peso após interromper o uso do medicamento, enquanto outros retomam o peso anterior ou apresentam ganho ainda maior. Esses dados evidenciam a necessidade de mudanças nos hábitos de vida, bem como de uma formação mais crítica em relação ao uso dessas substâncias.

Embora a maioria dos acadêmicos de medicina possua algum grau de conhecimento sobre os medicamentos que utilizam, muitos dependem de fontes pouco confiáveis para obter as informações.

Isso evidencia a importância de reforçar a conhecimento acadêmico, usando fontes confiáveis como uso de materiais científicos e a procura de profissionais qualificados como forma de promover o uso racional e seguro dos medicamentos.

O estudo apresenta uma limitação importante, pois inclui apenas participantes que realizam a automedicação antiobesogênica, o que impede a correlação dos resultados com aqueles que utilizam antiobesogênicos prescritos por médicos. Essa limitação reduz a expectativa da amostra inicialmente calculada. Apesar disso, o número de participantes obtido permanece relevante e não compromete o resultado.

Conclui-se, portanto, que a educação em saúde deve orientar esses futuros profissionais quanto a práticas seguras e fundamentadas, tanto para a promoção do próprio bem-estar quanto para a conduta ética no exercício da medicina.

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1Doutorando em andamento em Neurociência e comportamento, Universidade de São Paulo, USP, Brasil. UNIDERP- Av. Ceará, 333 – Miguel Couto, Campo Grande- MS, 79003-010. Email: gfatini@gmail.com

2Acadêmico de medicina na Universidade Anhanguera – UNIDERP UNIDERP- Av. Ceará, 333- Miguel Couto, Campo Grande- MS, 79003-010. Email: leonardomendoncabezerra@gmail.com

3Acadêmico de medicina na Universidade Anhanguera – UNIDERP

4Acadêmico de medicina na Universidade Anhanguera – UNIDERP

5Acadêmico de medicina na Universidade Anhanguera – UNIDERP

6Acadêmico de medicina da UEMS

7Acadêmico de medicina na Universidade Anhanguera – UNIDERP

8Acadêmico de medicina na Universidade Anhanguera – UNIDERP

9Acadêmico de medicina na Universidade Anhanguera – UNIDERP

10Acadêmico de medicina na Universidade Anhanguera – UNIDERP