THE USE OF THE MANCHESTER TRIAGE PROTOCOL IN PRIORITIZING CARE IN EMERGENCY AND URGENT SERVICES
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202511101719
Fernanda Carneiro Antunes1
Lucas Ribeiro Gonçalves2
Jessica França Porto3
Rayane Lacerda de Almeida Barreto4
Lucinéia da Silva Toledo5
RESUMO
O presente artigo aborda o uso do Protocolo de Triagem de Manchester como instrumento essencial na priorização do atendimento em serviços de urgência e emergência. A pesquisa fundamenta-se em uma revisão integrativa da literatura, abrangendo estudos nacionais e internacionais publicados entre 2011 e 2025, disponíveis em bases como SciELO, PubMed e LILACS e Google Acadêmico. O objetivo foi analisar a importância do protocolo para a segurança do paciente, a humanização do cuidado e a eficiência da equipe de enfermagem na estratificação do risco clínico. Observou-se que o sistema, ao classificar os pacientes conforme o grau de urgência identificado por cores e tempos de espera, contribui para o ordenamento do fluxo de atendimento, reduzindo o tempo de espera e ampliando a resolutividade dos serviços. Além de padronizar a tomada de decisão, o protocolo confere respaldo ético e técnico ao enfermeiro, protagonista na triagem e no acolhimento. Entretanto, desafios persistem quanto à capacitação contínua, à adesão institucional e à sensibilização dos usuários quanto ao funcionamento do sistema. Conclui-se que o Protocolo de Manchester representa uma ferramenta segura, eficaz e humanização, fortalecendo o papel do enfermeiro como agente de cuidado e gestão no contexto das emergências.
Palavras-chave: Triagem de Manchester. Classificação de risco. Enfermagem em emergência. Acolhimento. Segurança do paciente.
1. INTRODUÇÃO
O aumento crescente da demanda por atendimentos em unidades de urgência e emergência tem se tornado um dos maiores desafios enfrentados pelos serviços de saúde, refletindo as transformações demográficas, epidemiológicas e sociais que caracterizam o contexto contemporâneo. O acesso imediato e qualificado a esses serviços é essencial para a redução de morbimortalidade e para a garantia do direito à saúde, previsto pela Constituição Federal de 1988. No entanto, a superlotação e a falta de organização no fluxo de atendimento comprometem a eficiência e a humanização do cuidado, exigindo estratégias que assegurem a priorização de casos conforme o grau de gravidade clínica (BRASIL, 2017).
Nesse cenário, a triagem surge como uma ferramenta indispensável na gestão da urgência e emergência, permitindo que os profissionais de enfermagem avaliem o risco de forma criteriosa e técnica. Entre os protocolos utilizados mundialmente, o Sistema de Triagem de Manchester (STM) se destaca por sua estrutura sistematizada e pela objetividade dos critérios clínicos, fundamentando-se na avaliação dos sinais e sintomas apresentados pelos pacientes. O protocolo classifica o risco em cinco categorias, representadas por cores que indicam a prioridade do atendimento, contribuindo para a organização do fluxo de pacientes e para a tomada de decisão clínica (ANZILIERO, 2011; COUTINHO et al., 2012; BOHN et al., 2015).
O enfermeiro, protagonista no processo de acolhimento e classificação de risco, assume papel decisivo ao aplicar o Protocolo de Manchester, pois além de priorizar a assistência de acordo com a gravidade do caso, atua como mediador da escuta qualificada, da empatia e da humanização no atendimento (CHABUDÉ, CÉSAR & SANTANA, 2019). De acordo com Borges et al. (2024), o uso do protocolo permite uma abordagem clínica mais precisa e ágil, ao mesmo tempo em que garante respaldo ético e legal à atuação do enfermeiro classificador, fortalecendo sua autonomia profissional e o reconhecimento da enfermagem como ciência do cuidado.
Entretanto, apesar dos benefícios comprovados, a implantação efetiva do protocolo ainda enfrenta desafios significativos. Farias et al. (2025) destacam que a falta de capacitação contínua e a resistência de parte das equipes médicas podem comprometer a padronização da triagem, dificultando o cumprimento dos tempos de espera estabelecidos. Além disso, a compreensão limitada da população sobre o funcionamento do sistema gera desconforto e impaciência, exigindo dos profissionais habilidades comunicativas e empáticas para garantir a adesão e a confiança dos usuários.
A relevância deste estudo reside, portanto, na necessidade de compreender o uso do Protocolo de Triagem de Manchester como ferramenta essencial para a priorização do atendimento e a segurança do paciente, destacando o protagonismo do enfermeiro nesse processo. Busca-se, assim, contribuir para o fortalecimento das práticas de acolhimento humanizado e para a consolidação de um modelo de atendimento centrado na equidade e na integralidade da assistência. O objetivo deste trabalho é analisar a aplicação e a importância do Protocolo de Manchester na priorização do atendimento em serviços de urgência e emergência, ressaltando sua contribuição para a gestão do cuidado e para a atuação do enfermeiro enquanto agente de humanização e segurança no ambiente hospitalar.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
A triagem e a classificação de risco representam marcos fundamentais no cuidado em saúde, sobretudo nos serviços de urgência e emergência, onde o tempo é fator determinante para a vida. Segundo Coutinho et al. (2012), o Sistema de Triagem de Manchester (STM) surgiu como resposta à crescente necessidade de organizar o fluxo de pacientes, garantindo atendimento prioritário aos casos de maior gravidade e racionalizando o uso dos recursos hospitalares. No Brasil, sua implementação foi iniciada em 2008, inspirada no modelo britânico, e desde então tem sido amplamente utilizada em unidades de pronto atendimento e hospitais de alta complexidade (COUTINHO et al., 2012).
Anziliero (2011) descreve o STM como um protocolo baseado em algoritmos clínicos que classificam o risco em cinco níveis, representados por cores (vermelho, laranja, amarelo, verde e azul), correspondendo à urgência do atendimento e ao tempo máximo de espera. A utilização desse sistema não apenas padroniza as condutas, mas oferece ao enfermeiro respaldo técnico e jurídico, conferindo maior segurança nas decisões clínicas. Essa padronização contribui para minimizar erros, reduzir o tempo de espera e direcionar adequadamente o cuidado, reforçando a importância da triagem como instrumento de gestão e segurança do paciente (ANZILEIRO, 2011).
No estudo de Bohn et al. (2015), observa-se que o Protocolo de Manchester promoveu uma reorganização positiva no atendimento hospitalar, permitindo que os profissionais priorizassem casos críticos de forma mais eficaz e fundamentada. Para os autores, o protocolo amplia a autonomia do enfermeiro e fortalece seu papel como protagonista no acolhimento, integrando técnica, empatia e escuta ativa. Esse aspecto é corroborado por Chabudé, César e Santana (2019), que afirmam que o sucesso da aplicação do Sistema de Triagem de Manchester depende diretamente da qualificação e da experiência do enfermeiro, que deve unir conhecimento científico à sensibilidade humana (BOHN et al., 2015; CHABUDÉ, CÉSAR e SANTANA, 2019).
Em complemento, Borges et al. (2024) destacam que a triagem de risco não se resume à aplicação de um instrumento técnico, mas constitui uma prática de cuidado que exige reflexão crítica, julgamento clínico e comunicação efetiva. O enfermeiro classificador atua como elo entre a equipe multiprofissional e o paciente, garantindo que as necessidades de saúde sejam atendidas de forma equitativa e humanizada. Essa atuação se torna ainda mais relevante diante da superlotação dos serviços de emergência, cenário que demanda agilidade sem perder a qualidade e o acolhimento no atendimento (BRASIL, 2019).
Farias et al. (2025) reforçam que a humanização é uma das dimensões mais desafiadoras e necessárias no contexto do protocolo de Manchester. O autor explica que o enfermeiro não apenas classifica o risco clínico, mas acolhe o sofrimento, interpreta expressões de dor e vulnerabilidade, e representa a primeira presença de cuidado percebida pelo paciente. Nessa perspectiva, a escuta qualificada e o olhar empático tornam-se tão importantes quanto o conhecimento técnico, sendo indispensáveis para um atendimento integral e ético. Assim, a prática de enfermagem na triagem transcende o caráter mecanicista e reafirma sua essência como ciência do cuidar (FARIAS et al., 2025).
No entanto, o uso do Protocolo de Manchester ainda enfrenta limitações e desafios operacionais. Estudos como o de Cota e Barreto (2022) apontam que a ausência de infraestrutura adequada, a escassez de recursos humanos e a resistência de parte da equipe médica à colaboração interdisciplinar comprometem a efetividade do processo de triagem. Além disso, a falta de compreensão da população quanto à lógica do sistema, que prioriza a gravidade e não a ordem de chegada, frequentemente gera desconforto e insatisfação. Para Oliveira e Lima (2020), a educação em saúde e a comunicação assertiva são ferramentas indispensáveis para sensibilizar os usuários e promover o entendimento sobre o funcionamento do protocolo (COTA; BARRETO 2022; OLIVEIRA; LIMA, 2020)
Dessa forma, o Sistema de Triagem de Manchester deve ser compreendido como uma tecnologia de cuidado que alia objetividade clínica e sensibilidade humana. De acordo com Anziliero (2011), sua aplicação bem-sucedida requer mais do que treinamento técnico: exige preparo emocional, ética e compromisso com a vida. O enfermeiro classificador assume o papel de mediador entre a urgência da clínica e a urgência do acolhimento, equilibrando protocolos com humanidade e ciência com empatia. Portanto, a fundamentação teórica que sustenta esta pesquisa evidencia que o Protocolo de Manchester, quando utilizado de forma qualificada e sensível, representa uma poderosa ferramenta de gestão, segurança e humanização no atendimento de enfermagem em serviços de urgência e emergência (ANZILIERO, 2011).
3. METODOLOGIA
Trata-se de uma pesquisa de abordagem qualitativa, com caráter descritivo e exploratório, fundamentada no método de revisão integrativa da literatura. Essa metodologia foi escolhida por possibilitar uma análise ampla e reflexiva sobre o uso do Protocolo de Triagem de Manchester na priorização do atendimento em serviços de urgência e emergência, permitindo identificar os avanços, limitações e contribuições do enfermeiro no processo de acolhimento e classificação de risco.
Definição do tema e do problema de pesquisa, estabelecimento dos critérios de inclusão e exclusão, busca nas bases de dados, categorização dos estudos, interpretação dos resultados e apresentação da revisão. O tema central delimitado foi “O uso do Protocolo de Triagem de Manchester na priorização do atendimento em serviços de urgência e emergência”, tendo como questão norteadora: qual a contribuição do Protocolo de Manchester para a organização do atendimento e a atuação do enfermeiro na triagem de risco?
A busca dos estudos foi realizada entre os meses de agosto e outubro de 2025 nas bases de dados SciELO, PubMed, LILACS e Google Acadêmico, utilizando os descritores combinados: “Triagem de Manchester”, “Classificação de risco”, “Enfermagem em emergência”, “Acolhimento com classificação de risco” e “Segurança do paciente”, em português. Foram incluídos artigos originais, revisões, dissertações e teses publicados entre 2011 e 2025, disponíveis na íntegra e gratuitos e que abordavam a atuação do enfermeiro, a aplicabilidade do protocolo e seus impactos na qualidade do atendimento. Foram excluídos estudos duplicados, relatos sem base científica e publicações que não tratavam diretamente da temática.
Após a seleção, foram identificadas e analisadas 10 produções científicas, das quais emergiram três eixos temáticos principais: a importância do Protocolo de Manchester na priorização do atendimento e segurança do paciente; a atuação do enfermeiro na classificação de risco e na humanização do cuidado; e os desafios e perspectivas para a consolidação do protocolo nos serviços de emergência brasileiros. A análise foi conduzida de forma descritiva e interpretativa, buscando evidenciar convergências, divergências e lacunas no conhecimento científico existente.
A presente pesquisa respeitou os princípios éticos previstos na Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde, por não envolver diretamente seres humanos, utilizando apenas fontes de domínio público. Assim, a metodologia adotada buscou garantir rigor científico, confiabilidade das informações e valorização da produção acadêmica da Enfermagem no campo da urgência e emergência, oferecendo subsídios para a prática profissional e a formação crítica dos futuros enfermeiros.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
4.1 Importância do Protocolo de Manchester na priorização do atendimento
Coutinho et al. (2012), o Sistema de Triagem de Manchester foi implantado no Brasil em 2008 com o intuito de reestruturar o atendimento nos serviços de emergência e reduzir os impactos da superlotação. O sistema, baseado em cinco níveis de prioridade codificados por cores, permite ao enfermeiro avaliar rapidamente a gravidade dos sinais e sintomas apresenta dos, definindo o tempo máximo de espera. Esse modelo trouxe maior objetividade ao processo de triagem, fortalecendo a segurança do paciente e a confiança na equipe de saúde (COUTINHO, et al., 2012);
Estudos de Borges et al. (2024) demonstram que a implementação do protocolo impacta diretamente na redução do tempo de espera e na otimização dos recursos assistenciais, especialmente em unidades de pronto atendimento (UPA). A padronização do processo, aliada à capacitação dos profissionais, promove resultados clínicos mais eficazes e melhora a satisfação do paciente. Segundo Bohn et al. (2015), o protocolo de Manchester não apenas organiza o fluxo, mas também serve como instrumento de gestão, permitindo o monitoramento de indicadores de qualidade e a análise dos tempos de resposta nos atendimentos emergenciais (BORGES et al., 2024).
Além dos aspectos organizacionais, o Sistema de Triagem de Manchester contribui para a democratização do acesso ao cuidado. Em contextos de alta demanda, a priorização baseada em critérios clínicos e não na ordem de chegada assegura que o paciente com maior risco receba atendimento prioritário, reforçando os princípios de equidade e integralidade do Sistema Único de Saúde (BRASIL, 2019). A uniformização da linguagem técnica e a padronização dos fluxogramas de atendimento reduzem conflitos e subjetividades, garantindo transparência e justiça no processo decisório (FARIAS et al., 2025).
Outro ponto importante diz respeito à percepção dos profissionais quanto à confiabilidade do protocolo. Pesquisas de Anziliero (2011) e Cota e Barreto (2022) apontam que a adesão ao Sistema de Triagem de Manchester fortalece a credibilidade do enfermeiro diante da equipe multiprofissional, consolidando sua posição como responsável técnico pela classificação de risco. Essa mudança cultural contribui para a valorização da Enfermagem e para a consolidação de uma prática fundamentada na evidência científica, promovendo segurança e autonomia no ambiente de trabalho (ANZILIERO, 2011; COTA;BARRETO, 2022).
4.2 A atuação do enfermeiro na classificação de risco e na humanização do cuidado
A literatura analisada evidencia que o enfermeiro é o principal responsável pela execução e condução da triagem, sendo seu julgamento clínico essencial para o êxito do Protocolo de Manchester. Chabudé, César e Santana (2019) destacam que o processo de acolhimento exige sensibilidade, empatia e escuta ativa, pois o primeiro contato com o paciente ocorre geralmente em momentos de dor e vulnerabilidade. Nessa perspectiva, o enfermeiro torna-se o elo entre a técnica e o acolhimento, unindo a precisão do diagnóstico com a delicadeza do cuidado humano (CHABUDÉ, CÉSAR E SANTANA, 2019).
Segundo Farias et al. (2025), a aplicação do protocolo ultrapassa a esfera técnica e se torna uma prática de humanização. Ao acolher o paciente, o enfermeiro deve compreender o contexto biopsicossocial em que ele está inserido, interpretando não apenas sintomas físicos, mas também emoções e expressões de sofrimento. Essa abordagem integral reflete a essência da Enfermagem e reafirma o compromisso ético com a vida e a dignidade humana. O uso do Sistema de Triagem de Manchester, portanto, não se resume a classificar por cores, mas a reconhecer prioridades humanas, cada uma com sua história e necessidade de cuidado (FARIAS et al. 2025).
A autonomia do enfermeiro também é reforçada pelo respaldo ético e científico do protocolo. De acordo com Bohn et al. (2015), o Sistema de Triagem de Manchester fornece critérios objetivos que sustentam as decisões clínicas, evitando julgamentos intuitivos e subjetivos. Tal autonomia, entretanto, exige constante atualização e domínio técnico. Anziliero (2011) e Borges et al. (2024) apontam que o treinamento contínuo é indispensável para que o enfermeiro possa aplicar o protocolo de maneira segura e assertiva, principalmente diante de casos atípicos que exigem discernimento rápido e sensibilidade (BOHN et al. 2015; ANZILIERO 2011; BOR GES et al. 2024).
Outro aspecto recorrente nos estudos refere-se ao papel comunicativo do enfermeiro durante a triagem. Farias et al. (2025) observam que a capacidade de explicar o funcionamento do protocolo e os motivos da priorização é fundamental para reduzir a insatisfação dos usuários e prevenir conflitos. A linguagem acolhedora, quando associada à clareza técnica, transforma o momento de espera em uma oportunidade educativa e empática. Assim, a comunicação torna se um componente terapêutico, fortalecendo o vínculo entre o paciente e a equipe de saúde, mesmo em situações de tensão (FARIAS et al., 2025).
4.3 Desafios e perspectivas para a consolidação do Protocolo de Manchester
Apesar de seus reconhecidos benefícios, a literatura aponta desafios significativos na consolidação do Protocolo de Manchester no Brasil. Cota e Barreto (2022) relatam que a escassez de profissionais, a sobrecarga de trabalho e a limitação estrutural das unidades de urgência ainda comprometem a execução plena do sistema. Farias et al. (2025) complementam que a falta de conhecimento da população sobre a lógica do protocolo gera resistência, o que pode impactar negativamente na aceitação e compreensão da priorização de atendimentos por gravidade (COTA;BARRETO, 2022; FARIAS et al., 2025).
Além disso, a implementação do Sistema de Triagem de Manchester requer um processo contínuo de educação permanente. Borges et al. (2024) ressaltam que as instituições de saúde precisam investir na capacitação técnica e emocional dos enfermeiros, pois o sucesso da triagem depende de sua confiança e segurança na tomada de decisão. Programas de treinamento devem incluir não apenas os aspectos clínicos, mas também habilidades comunicativas e estratégias de humanização, preparando o profissional para lidar com situações de estresse e grande demanda (BORGES et al., 2024).
Outro desafio apontado por Anziliero (2011) e Coutinho et al. (2012) diz respeito à adaptação do protocolo à realidade brasileira. O modelo original foi desenvolvido em contexto europeu, o que exige adequações culturais e estruturais para aplicação efetiva nos serviços nacionais. Em regiões com carência de recursos, a ausência de equipes multidisciplinares e de suporte tecnológico pode dificultar o cumprimento dos tempos de espera e prejudicar a fluidez do atendimento. Para superar essas barreiras, é fundamental que o Sistema de Triagem de Manchester seja integrado às políticas públicas e à Rede de Atenção às Urgências (ANZILIERO, 2011; COUTINHO et al., (2012).
A consolidação do Protocolo de Manchester no Brasil passa pela valorização da Enfermagem como ciência e profissão essencial à gestão do cuidado. Farias et al. (2025) afirmam que o enfermeiro é o guardião da triagem, aquele que acolhe o paciente em sua totalidade e transforma a espera em cuidado. A efetividade do Sistema de Triagem de Manchester, portanto, depende não apenas de estrutura física e fluxos operacionais, mas da sensibilidade, do compromisso ético e da formação humanista de quem o executa. O protocolo é, ao mesmo tempo, um instrumento de priorização clínica e de humanização da assistência duas dimensões indissociáveis da prática de enfermagem (FARIAS et al., 2025).
4.4 Impactos do Protocolo de Manchester na qualidade e segurança do paciente
Os estudos analisados apontam que o Protocolo de Manchester impacta diretamente na qualidade da assistência e na segurança do paciente, ao estabelecer critérios clínicos padronizados para a priorização do atendimento. Coutinho et al. (2012) observaram que, após sua implementação, houve redução significativa dos eventos adversos relacionados à demora no atendimento e aumento da eficiência no encaminhamento dos pacientes às áreas corretas. O Sistema de Triagem de Manchester, ao eliminar a subjetividade do julgamento clínico inicial, proporciona equidade no cuidado e maior previsibilidade dos resultados (COUTINHO et., 2012).
Para Bohn et al. (2015), a segurança do paciente é reforçada pela padronização dos fluxos e pela clareza nos tempos de resposta, o que minimiza falhas de comunicação e erros de triagem. Além disso, o protocolo estimula o raciocínio clínico e a tomada de decisão fundamentada, reforçando a importância do enfermeiro como primeiro avaliador do estado do paciente. Borges et al. (2024) destacam que a utilização do Sistema de Triagem de Manchester não apenas garante prioridade ao paciente grave, mas também oferece conforto e orientação ao usuário de menor risco, assegurando que todos recebam atenção dentro dos parâmetros de segurança e humanização definidos pelo SUS (BOHN et a., 2015).
Outro ponto relevante é a contribuição do Sistema de Triagem de Manchester para os indicadores de qualidade hospitalar. Farias et al. (2025) verificaram que instituições que adotaram o protocolo obtiveram melhorias em tempo de espera, satisfação do paciente e eficiência na alocação de recursos humanos. Essas melhorias refletem diretamente nos seis domínios da qualidade preconizados pela Organização Mundial da Saúde segurança, efetividade, eficiência, equidade, foco no paciente e oportunidade. Dessa forma, o Protocolo de Manchester consolida-se como uma tecnologia de cuidado essencial, que une ciência e humanização em benefício da vida (FARIAS et al., 2025).
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo conclui que o uso do Protocolo de Triagem de Manchester representa um avanço significativo na organização e na qualidade do atendimento em serviços de urgência e emergência, cumprindo plenamente o objetivo de analisar sua contribuição na priorização clínica e na atuação do enfermeiro. O protocolo demonstra-se eficaz na estratificação de risco, garantindo atendimento equitativo e direcionado às reais necessidades de cada paciente, além de promover segurança, eficiência e humanização no cuidado.
Constata-se que o enfermeiro desempenha papel essencial nesse processo, sendo o principal responsável pela aplicação do protocolo e pela mediação entre técnica e acolhimento. A autonomia profissional, quando aliada à capacitação contínua e ao domínio científico, consolida a triagem como uma prática baseada em evidências e sensibilidade humana. Essa atuação reafirma o protagonismo da Enfermagem como ciência do cuidar, transformando o momento de triagem em um ato de empatia, ética e decisão responsável.
Os achados indicam também que a consolidação do Protocolo de Manchester depende da estrutura institucional, da capacitação permanente e da valorização emocional dos profissionais envolvidos. Desafios como a sobrecarga de trabalho, a escassez de recursos e a falta de compreensão da população ainda dificultam a plena eficácia do sistema. No entanto, esses entraves reforçam a necessidade de políticas públicas que ampliem investimentos na Rede de Atenção às Urgências e na formação humanizada do enfermeiro classificador.
Conclui-se, que o Protocolo de Manchester não é apenas uma ferramenta técnica, mas uma tecnologia de cuidado humanizado, que equilibra ciência e compaixão. A pesquisa confirma que seus objetivos foram atingidos e que o protocolo contribui efetivamente para a reorganização dos serviços, a redução dos riscos e o fortalecimento da autonomia da Enfermagem. Recomenda-se que futuras investigações explorem novas metodologias de ensino, estratégias de apoio emocional aos profissionais e a integração do protocolo com sistemas digitais de gestão em saúde, de modo a ampliar a efetividade e a sustentabilidade dessa prática no cenário brasileiro.
REFERÊNCIAS
ANZILIERO, Francine. Acolhimento com classificação de risco: atuação do enfermeiro no processo de triagem em unidades de emergência. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília, 2011.
BOHN, Carla Cristina; FERREIRA, Simone Cristine; PEREIRA, Rosane Magali. Acolhimento com classificação de risco: percepção dos profissionais de enfermagem. Revista Gaúcha de Enfermagem, Porto Alegre, 2015.
BORGES, Larissa Cristina; SOUZA, Maria Eduarda; CARVALHO, Rafael Henrique. Aplicação do Protocolo de Manchester em unidades de pronto atendimento: desafios e avanços na enfermagem brasileira. Brazilian Journal of Health Review, Curitiba, 2024.
BRASIL. Ministério da Saúde. HumanizaSUS: acolhimento com avaliação e classificação de risco: um paradigma ético-estético no fazer em saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2017.
BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Humanização da Atenção e Gestão do SUS. Brasília: Ministério da Saúde, 2019.
CHABUDÉ, Tatiane Silva; CÉSAR, Mayara Pereira; SANTANA, Giselle Souza. A atuação do enfermeiro na classificação de risco de pacientes em unidades de emergência. Revista Eletrônica Acervo Saúde, Curitiba, 2019.
COTA, Franciele José; BARRETO, Lucas Barbosa. A atuação do enfermeiro na classificação de risco em unidades de urgência e emergência. Research, Society and Development, Itabira, 2022.
COUTINHO, Ana Carolina; TEIXEIRA, Maria Aparecida; RODRIGUES, Daniela Franco. Implantação do Protocolo de Manchester no Brasil: avanços e desafios na classificação de risco. Revista Latino-Americana de Enfermagem, Ribeirão Preto, 2012.
FARIAS, Tatiane Souza; LIMA, Carolina Martins; PEREIRA, Daniela Azevedo. A importância do enfermeiro no uso do Protocolo de Manchester: uma revisão integrativa. Revista Brasileira de Enfermagem e Saúde Coletiva, Salvador, 2025.
WHITTEMORE, Rebecca; KNAFL, Kathleen. The integrative review: updated methodology. Journal of Advanced Nursing, Oxford, 2005.
1Discente do Curso Superior de Enfermagem do Instituto FANORTE Campus Cacoal e-mail: fernandacarneiro.ant@gmail.com
2Discente do Curso Superior de Enfermagem do Instituto FANORTE Campus Cacoal e-mail: lucasribeirogoncalves22@gmail.com
3Discente do Curso Superior de Enfermagem do Instituto FANORTE Campus Cacoal e-mail: jessica_porto91@gmail.com
4Discente do Curso Superior de Enfermagem do Instituto FANORTE Campus Cacoal e-mail: rayanelacerda@outlook.com.br
5Esp. Em Docência do ensino Superior. Esp. Em Urgência e Emergência. Esp. Em unidade de terapia intensiva. Docente do Curso Superior de Enfermagem do Instituto FANORTE Campus Cacoal e-mail: luh7tolledo@gmail.com
