REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202508301804
NOGUEIRA, Gabriel Figueira¹
SANTANA, Larisse Negreiros¹
MELLO, Rosalina da Costa Bastos¹
BARBOSA, Elliza Emily Perrone²
RESUMO
O envelhecimento populacional no Brasil apresenta ritmo acelerado, resultando em aumento da prevalência de transtornos neurocognitivos, como as demências, que comprometem a autonomia e a qualidade de vida dos idosos. O objetivo principal deste estudo foi subsidiar a comunidade científica e a prática clínica com informações sobre métodos e instrumentos adequados para o psicodiagnóstico precoce. Este estudo, de natureza exploratório-descritiva e abordagem qualitativa, foi desenvolvido por meio de revisão bibliográfica em bases como Google Acadêmico e SciELO, utilizando critérios de inclusão relacionados ao tema “avaliação neuropsicológica de idosos”. Constatou-se que a melhoria e a padronização de procedimentos, além da capacitação profissional, são cruciais para a detecção precoce e o manejo eficaz de demências. Investir em métodos estruturados e culturalmente apropriados garante um envelhecimento saudável, focado na preservação da funcionalidade e bem-estar de idosos.
Palavras-chave: – Avaliação neuropsicológica, Idosos, Transtornos neurocognitivos, Instrumentos de avaliação.
INTRODUÇÃO
O envelhecimento é um processo natural que todo ser humano enfrenta e pode ser classificado em dois tipos de envelhecimento o primário que se define por ser um processo de deterioração física gradual e inevitável, e o secundário marcado pelo aparecimento de doenças genéticas e/ou decorrentes de maus hábitos físicos e que muitas vezes poderiam ser evitados (Papalia, 2022).
No Brasil o envelhecimento populacional está em ritmo acelerado, e projeta-se que, até 2031, o número de idosos superará o de crianças. Essa transição demográfica tem alterado o perfil de saúde do país, com um notável aumento de Doenças Crônicas Não Transmissíveis na população idosa (Oliveira e Leite, 2025).
De acordo com Bastos et al. (2023) com o avançar da idade, a saúde mental e a composição corporal se alteram, a combinação de problemas físicos e doenças crônicas contribui para o declínio cognitivo, refletindo diretamente na perda de memória e na redução do desempenho em atividades diárias.
Dentre as principais condições enfrentadas por idosos, encontram-se os transtornos neurocognitivos que são definidos pelo comprometimento das funções intelectuais causadas por danificação natural no cérebro ou doença (Berger, 2017). Contudo, sua identificação e intervenção precoce podem reverter a condição ou atrasar a sua progressão para a demência (Pereira, 2020).
Assim, se ressalta que a avaliação neuropsicológica é uma ferramenta essencial para diagnosticar transtornos neurocognitivos. Seus procedimentos investigam o desempenho das funções cognitivas, que são cruciais para a autonomia e o bem-estar dos idosos (Dias e Melo, 2020). É importante destacar que a avaliação psicológica em idosos tem um papel amplo, ajudando em diagnósticos precisos e na escolha de tratamentos psicoterapêuticos e farmacológicos, além disso, a prática serve para orientar pacientes e seus cuidadores, oferecendo estratégias que promovem a funcionalidade e o bem-estar (Hutz, 2016).
Desse modo, torna-se necessário desenvolver métodos que avaliem o desempenho cognitivo com precisão para verificar a existência de doenças do sistema nervoso central responsáveis por um possível declínio (Almondes, 2022).
Desta maneira, este estudo reflete a necessidade dos profissionais da área de avaliação psicológica buscarem o aprimoramento de sua prática profissional pautada em métodos e instrumentos adequados no processo psicodiagnóstico de idosos, visto a crescente demanda da população.
Portanto, esta pesquisa tem como objetivo principal subsidiar a comunidade científica e o trabalho clínico a respeito da avaliação neuropsicológica de idoso. De forma contribuir com metodologias para o psicodiagnóstico precoce de transtornos neurocognitivos, com a intenção de tornar o processo mais assertivo, contribuindo diretamente para a reabilitação da população idosa.
METODOLOGIA
Este artigo foi realizado através de uma revisão bibliográfica, tendo sua natureza caracterizada como exploratório-descritivo e sua análise de dados qualitativa.
As informações serão coletadas através de capítulos de livros e artigos indexados da plataforma eletrônica, Google Acadêmico e SciELO (Scientific Eletronic Library Online), monografías, periódicos e revistas científicas no idioma português-brasileiro e/ou textos traduzidos de outros idiomas como o inglês e o espanhol direcionados ao tema “avaliação neuropsicológica de idosos”.
Como critérios de inclusão foram selecionados artigos científicos que discorrem a respeito da avaliação neuropsicológica de idosos. Estes foram divididos em categorias temáticas: envelhecimento, transtornos neurocognitivos, instrumentos psicológicos, e neuropsicologia. Enquanto, que pesquisas teóricas que não se enquadraram na definição de tempo (máxima de dez anos) estabelecida e que não se relacionaram ao tema em questão foram consideradas inválidas para o presente estudo.
O PROCESSO DE ENVELHECIMENTO
O envelhecimento é um fenômeno que provoca mudanças demográficas no mundo todo. Em 2022, um estudo no Brasil, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou que a população brasileira com 65 anos ou mais chegou a 10,9% da população, com alta de 57,4% em 12 anos. Já a população idosa chegou a 32,1 milhões de pessoas, 15,8% da população do país. Esse grupo etário saltou de 14.081.477 pessoas (7,4% da população) em 2010 para 22.169.101 pessoas em 2022. Há um acelerado processo de envelhecimento das pessoas no país. O envelhecimento da população brasileira é um fenômeno acelerado, que requer atenção e planejamento para garantir que as necessidades da população idosa sejam atendidas de forma eficaz.
De acordo com Romanoski et al. (2024) o envelhecimento global da população tem levado a mudanças nos padrões de morbimortalidade. Nesse contexto, as demências ou transtornos neurocognitivos se destacam como uma das condições crônicas mais prevalentes em idosos, resultando em incapacidades severas e prejuízos na qualidade de vida.
A pesquisa de Bastos et al. (2023) indica que há variados fatores que contribuem para o comprometimento cognitivo em idosos, entre eles: nível de escolaridade, a renda, a prática de atividades físicas, a socialização e o local de moradia (rural ou urbano) são determinantes, além disso, idosos de baixa escolaridade, com menor renda, que moram em zonas rurais e não praticam atividades físicas nem socializam, apresentam maior risco.
TRANSTORNOS NEUROCOGNITIVOS
Os Transtornos Neurocognitivos incluem condições neurológicas e psiquiátricas referidas no DSM-IV-TR em Delirium, Demência, Transtorno Amnéstico e Outros Transtornos Cognitivos. No DSM-5 e cid 10, o capítulo reúne os diagnósticos de Delirium, Transtorno Neurocognitivo Leve e Transtorno Neurocognitivo Maior. O termo demência ainda pode ser aplicado aos subtipos específicos de Transtornos Neurocognitivos. Os Transtornos Neurocognitivos (TNCs) no DSM-5 são caracterizados por declínio cognitivo significativo em relação ao nível prévio de desempenho em um ou mais domínios cognitivos, como memória, linguagem, atenção e funções executivas.
Eles podem ser classificados em três categorias principais: American Psychiatric Association, 2023. Os critérios para o diagnóstico de Transtornos Neurocognitivos são baseados na evidência de um declínio de uma ou mais áreas de domínio cognitivo relatado e documentado através de testes padronizados, causando prejuízo na independência do indivíduo para as suas atividades da vida diária.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (2017), a demência é a principal causa de incapacidade e dependência em adultos em todo o mundo, afetando memória, habilidades cognitivas e comportamento, o que prejudica a capacidade de realizar atividades básicas diárias. Além disso, a demência tem impactos significativos tanto financeiros quanto humanos, afetando não apenas os indivíduos, mas também suas famílias e sociedades.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde OMS (2021) a demência é uma das principais causas de dependência e incapacidade no envelhecimento, especialmente em pessoas com 60 anos ou mais, figurando entre as dez doenças que mais causam incapacidade nesse grupo etário. 8,1% são mulheres e 5,4% são homens.
Conforme Bastos et al., (2023) a partir da identificação do comprometimento cognitivo, torna-se possível a implementação de projetos de tratamento que auxiliam o paciente e permite que o idoso desfrute de uma vida mais saudável e com mais qualidade.
AVALIAÇÃO NEUROPSICOLÓGICA DO IDOSO
A avaliação neuropsicológica investiga a relação entre o cérebro e o comportamento para medir diversas funções. Por ser um tipo de avaliação psicológica, deve ser feita por um(a) psicólogo(a) e seguir as normas do Conselho Federal de Psicologia (CFP, 2022).
Conforme a Resolução CFP nº 09/2018, a avaliação psicológica é definida como um processo estruturado que usa métodos e instrumentos específicos para investigar fenômenos psicológicos. Seu objetivo é fornecer dados para a tomada de decisões em contextos individuais, de grupo ou institucionais, dependendo de necessidades e objetivos particulares (CFP, 2018).
A avaliação psicológica é uma ferramenta essencial no cuidado a idosos, pois com ela é possível analisar o estado cognitivo, afetivo e social do indivíduo, além de identificar alterações mínimas e diagnosticar disfunções em seus estágios iniciais, servindo para orientar a equipe de saúde e os familiares a planejarem tratamentos e cuidados mais efetivos, garantindo uma abordagem completa e precisa. (Hutz, 2016).
Conforme Michalick-Triginelli (2018), a avaliação neuropsicológica utiliza uma variedade de instrumentos para analisar os domínios cognitivos. A avaliação inclui ferramentas comuns a diversos profissionais de saúde, tais como entrevistas, observações e tarefas neuropsicológicas.
No entanto, quando a Avaliação Neuropsicológica é realizada por neuropsicólogo com formação em psicologia, acrescenta – se a possibilidade de utilização de testes psicológicos. Conforme o § 1º do Art. 13 da Lei nº 4.119/62, testes psicológicos são de uso exclusivo de psicólogos. A regulamentação sobre seu uso foi publicada na Resolução CFP Nº 002/2003. Essa resolução determina as normas sob as quais os testes são criados, utilizados e comercializados (MICHALICK-TRIGINELLI, 2018).
A avaliação neuropsicológica, conforme descrito por Mader-Joaquim (2018), é um exame minucioso essencial para compreender as funções cerebrais e identificar possíveis déficits cognitivos, linguísticos, perceptuais e psicomotores. Ao utilizar técnicas de entrevistas e exames qualitativos e quantitativos, essa avaliação fornece uma visão detalhada e refinada das condições funcionais e estruturais do cérebro, permitindo uma abordagem mais precisa e eficaz no diagnóstico e tratamento de transtornos neurocognitivos.
Dias e Melo (2020) reforçam que a melhoria e a uniformização dos procedimentos de avaliação neuropsicológica corroboram positivamente para detecção precoce das demências, auxiliando no planejamento e implementação das intervenções necessárias para redução dos impactos na qualidade de vida do idoso.
ENTREVISTA CLÍNICA
A entrevista clínica com idosos exige uma abordagem cuidadosa e adaptada às suas necessidades e características específicas. Ao considerar fatores sociodemográficos e alterações sensoriais, motoras e cognitivas, os profissionais de saúde podem realizar avaliações mais precisas e eficazes, promovendo uma melhor qualidade de vida para os idosos (Hutz, 2016).
Almondes (2022) ressalta que primeiramente é necessário explicar o processo a todos os envolvidos, em seguida, conduzir as entrevistas formais. Uma abordagem possível é entrevistar o paciente e um acompanhante juntos, mas a preferência é por sessões individuais, permitindo que cada um escolha ser entrevistado separadamente. Embora alguns neuropsicólogos prefiram uma abordagem estruturada (incluindo um exame formal do estado mental), uma alternativa mais flexível pode ser mais eficaz.
Segundo Dalgalarrondo (2019), a entrevista inicial inclui a anamnese, que é a coleta de dados para um diagnóstico completo do paciente. Essa coleta abrange informações sociodemográficas, a queixa principal e sua história, antecedentes médicos e psiquiátricos, hábitos, uso de substâncias, histórico familiar de doenças, e a história de vida do paciente em suas diversas fases de desenvolvimento. A anamnese também avalia as interações familiares e sociais.
Hutz (2025) afirma que avaliar as atividades prévias e atuais do idoso é um passo crucial na detecção e no manejo de transtornos neurocognitivos. Ao considerar essas informações, os profissionais de saúde podem realizar avaliações mais precisas e desenvolver planos de cuidado mais eficazes para promover a saúde e o bem-estar dos idosos.
INSTRUMENTOS DE AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA
Os testes ou instrumentos de avaliação neuropsicológica costumam ser a parte principal e mais demorada da avaliação, uma vez que a abordagem psicométrica envolve quebrar todos os domínios cognitivos em partes que são mensuráveis e compreensíveis (Almondes, 2022).
De acordo com o Conselho Federal de Psicologia (2022), os testes psicológicos buscam identificar, descrever, qualificar e mensurar características psicológicas. Eles fazem isso por meio de procedimentos sistemáticos de observação e descrição do comportamento humano, seguindo as diretrizes da comunidade científica.
Hutz (2016) oferece sugestões de ferramentas para avaliação cognitiva de idosos, sendo eles divididos em instrumentos de rastreio breve e instrumentos de avaliação cognitiva ampla. As ferramentas de rastreio são usadas para identificar quais funções precisam de maior atenção, porém quando uma avaliação psicológica completa é necessária, a escolha ideal é por instrumentos mais abrangentes.
É importante ressaltar que os testes psicológicos não aprovados pelo CFP – ou que não foram submetidos à avaliação do Satepsi (Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos) – não podem ser considerados fontes complementares de informação. Segundo a Resolução CFP nº 9/2018, os testes psicológicos são fontes fundamentais e seu uso profissional é restrito àqueles aprovados pelo Satepsi.
Portanto, baseando-se no trabalho de Martins et al,. (2019) que realizou um levantamento dos principais instrumentos utilizados na avaliação cognitiva de idosos no período de 2014 a 2019, serão a seguir descritos os três testes mais utilizados em avaliações de funções cognitivas em idosos, sendo eles: Mini Exame Estado Mental – MEEM 2; Instrumento De Avaliação Neuropsicológica Breve – Neupsin Adulto; e Escalas Wechsler De Inteligência – WAIS-III.
Mini Exame Estado Mental – MEEM-2
O Mini Exame do Estado Mental (MEEM-2) é um questionário amplamente utilizado por médicos para identificar rapidamente possíveis quadros de demência. Trata-se de um teste padronizado que, por meio de perguntas e tarefas, avalia diversas áreas cognitivas, como orientação no tempo e no espaço, memória, atenção, cálculo, linguagem e habilidades construtivas (Bastos et al, 2023).
Embora não abranja todos os domínios cognitivos, o MEEM se destaca por ser o instrumento de rastreio cognitivo global mais pesquisado mundialmente, incluindo o Brasil. Com sua rápida aplicação, ele se estabeleceu como referência para validar outras avaliações desde sua primeira adaptação brasileira, feita há quase 23 anos (Cordel et al, 2013 apud Martins et al, 2019).
Portanto, o MEEM-2, mostra-se eficaz como método de avaliação inicial. Sua aplicação é fácil e permite identificar claramente fatores que afetam a qualidade de vida de idosos, como o comprometimento cognitivo. (Bastos et al., 2023)
Instrumento De Avaliação Neuropsicológica Breve – Neupsilin Adulto
O Neupsilin Adulto é uma ferramenta de avaliação neuropsicológica que investiga de maneira breve diversas funções cognitivas, incluindo atenção, memória, linguagem oral e escrita, habilidades visuoespaciais e funções executivas, orientação temporal e espacial, divididas em 32 tarefas, em um tempo estimado entre 30 e 50 minutos, sendo uma ferramenta útil para identificar déficits cognitivos e monitorar a progressão de doenças neurológicas (Salles e Fonseca, 2018).
Na prática clínica com idosos, o Neupsilin tem se destacado por contemplar diversos domínios da cognição, o que o torna uma ferramenta importante para obter uma visão clara do status cognitivo desses pacientes (Coimbra et al, 2020).
Escalas Wechsler De Inteligência – WAIS-III
De acordo com Fraga (2018), as Escalas Wechsler de Inteligência contêm subtestes que avaliam várias habilidades. Esses subtestes incluem: vocabulário, semelhanças, aritmética, memória de dígitos, informação, compreensão, sequências de letras e números, gravuras, códigos, cubos, matrizes, disposição de gravuras, pesquisa de símbolos e composição de objetos.
Portanto, como uma ferramenta-chave na avaliação cognitiva, o WAIS-III permite que profissionais compreendam melhor as capacidades intelectuais de adultos e elaborem intervenções mais adequadas (Hutz, 2018).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Neste estudo foram selecionados 32 artigos, os quais foram selecionados 24 para o processo de revisão de processo de transtorno neuropsicológico em idosos e 7 de revisão Instrumentos de avaliação cognitiva (Figura 1).

Figura 1. Artigos coletados no processo de seleção.
Os resultados deste estudo demonstram que a população brasileira com 65 anos ou mais chegou a 10,9% da população em 2022, com alta de 57,4% em 12 anos. Esta análise revelou que os Transtornos Neurocognitivos são caracterizados por declínio cognitivo significativo em relação ao nível prévio de desempenho em um ou mais domínios cognitivos. A avaliação neuropsicológica utiliza uma variedade de instrumentos para analisar os domínios cognitivos, incluindo testes psicológicos aprovados pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP).
Os dados coletados indicaram que os três testes mais utilizados em avaliações de funções cognitivas em idosos são: Mini Exame Estado Mental (MEEM-2), Instrumento de Avaliação Neuropsicológica Breve (Neupsilin Adulto) e Escalas Wechsler de Inteligência (WAIS-III).
Os resultados desta pesquisa mostram que o artigo científico discutido aborda a importância da avaliação neuropsicológica em idosos, especialmente em relação ao diagnóstico e tratamento de transtornos neurocognitivos. O envelhecimento populacional é um fenômeno rápido e irreversível, no Brasil e no mundo, tem intensificado a necessidade de estratégias diagnósticas mais eficazes para identificação precoce de comprometimentos cognitivos.
Os dados do IBGE (2022) evidenciam que a proporção de idosos no país aumentou substancialmente nos últimos anos, acompanhada por um aumento na prevalência de doenças crônicas e transtornos neurocognitivos, corroborando as observações de Romanoski (2024) e Bastos et al. (2023). que relaciona o envelhecimento global às mudanças nos padrões de morbimortalidade e ao aumento de doenças crônicas como as demências.
A revisão de literatura mostra que a identificação de Transtornos Neurocognitivos (TNCs) ainda enfrenta desafios, principalmente devido à sobreposição de sintomas com o processo de envelhecimento natural. Conforme destacado pela Organização Mundial da Saúde (2017), a demência é uma das principais causas de incapacidade em adultos, afetando não apenas o indivíduo, mas também seu contexto familiar e social. Esse impacto social e econômico torna evidente a importância de métodos de rastreio e avaliação mais precisos e acessíveis.
A revisão bibliográfica evidenciou que a avaliação neuropsicológica em idosos é uma ferramenta indispensável para a detecção precoce de transtornos neurocognitivos, destacando-se o papel do psicodiagnóstico na diferenciação entre envelhecimento saudável e condições patológicas, como a demência. Hutz, 2016
No plano clínico-metodológico, os dados reforçam que a avaliação psicológica e neuropsicológica é elemento central para detecção precoce, diagnóstico diferencial e planejamento de cuidados, em consonância com a Resolução CFP nº 9/2018 estabelece que a avaliação psicológica seja conduzida por meio de métodos e instrumentos padronizados, de modo a garantir a validade e fidedignidade dos resultados.
A literatura demonstra que o declínio cognitivo em idosos é influenciado por alterações sensoriais, motoras e cognitivas decorrentes do envelhecimento, bem como baixa escolaridade, renda, hábitos de vida e contexto social (Bastos et al., 2023). Nesse sentido, torna-se evidente que a avaliação neuropsicológica não deve ser apenas um instrumento diagnóstico, mas também um recurso de prevenção e monitoramento, permitindo intervenções precoces e direcionadas (Dias e Melo, 2020).
Além disso, estudos apontaram para a importância da entrevista clínica como etapa inicial e imprescindível do processo avaliativo, permitindo a contextualização dos resultados obtidos em testes e a compreensão mais ampla da vida do idoso, incluindo histórico ocupacional, atividades prévias e rede de apoio. A abordagem integral, que inclui a entrevista clínica e os testes, pode melhorar o diagnóstico e ajudar a identificar possíveis quadros demenciais ou outros transtornos neurocognitivos. Essa perspectiva reforça a importância da entrevista clínica como etapa preliminar para contextualizar as queixas e traçar um perfil funcional do paciente. Conforme os autores Huts (2025) e Dalgalarrondo (2019) ressalta que avaliar as atividades prévias e atuais do idoso é fundamental para detectar e manejar transtornos neurocognitivos de forma eficaz.
Outro aspecto relevante de nossos resultados, foi a escolha de instrumentos adequados é um dos fatores determinantes para a validade e a fidedignidade de uma avaliação neuropsicológica em idosos.
Conforme apontam Almondes (2022) e o Conselho Federal de Psicologia (2022), os testes devem seguir parâmetros psicométricos reconhecidos e ser aplicados de forma sistemática, considerando as particularidades do envelhecimento cognitivo. Nesse sentido, o levantamento realizado por Martins et al (2019) evidencia que, no contexto brasileiro, o Mini Exame do Estado Mental – MEEM 2, o Instrumento de Avaliação Neuropsicológica Breve – Neupsilin Adulto e as Escalas Wechsler de Inteligência – WAIS-III se destacam como ferramentas amplamente utilizadas na prática clínica e em pesquisas.
De forma geral, observa-se que a escolha do instrumento deve estar alinhada ao objetivo da avaliação: enquanto o MEEM 2 cumpre papel eficiente na triagem inicial, o Neupsilin oferece uma avaliação mais detalhada sem exigir o tempo de aplicação da WAIS-III, que, por sua vez, fornece a análise mais aprofundada, embora com maior demanda logística. Assim, o uso integrado e criterioso dessas ferramentas potencializa a precisão diagnóstica, favorecendo intervenções personalizadas e baseadas em evidências.
Em síntese, a discussão aqui apresentada reforça que a avaliação neuropsicológica é um pilar central no cuidado ao idoso, não apenas no diagnóstico, mas também na prevenção, intervenção e orientação de familiares e cuidadores. O aprimoramento constante das práticas avaliativas, associado a um olhar integral sobre o envelhecimento, representa um caminho promissor para enfrentar os desafios impostos pela crescente demanda dessa população no Brasil.
Portanto, um procedimento técnico, de avaliação neuropsicológica do idoso é um ato estratégico de cuidado, capaz de transformar dados clínicos em ações concretas que preservam memórias, histórias e a dignidade humana ao longo do envelhecer.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Devido ao rápido envelhecimento da população brasileira, é crucial focar na saúde e bem-estar dos idosos. A pesquisa destaca a importância da avaliação neuropsicológica para detectar precocemente transtornos neurocognitivos, como a demência e aponta a necessidade de ferramentas apropriadas para avaliar a cognição, ajudando cientistas e clínicos a diagnosticar e tratar condições que impactam a vida dos idosos.
Portanto, para garantir um envelhecimento saudável e digno para a população idosa é necessário haver investimento em profissionais qualificados, instrumentos atualizados e a expansão do acesso à avaliação neuropsicológica. Assim, atender integralmente às demandas dessa população em crescimento, promovendo um envelhecimento que seja, de fato, saudável e digno, e não apenas longo.
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¹Acadêmicos de Especialização em Avaliação Psicológica – Centro Universitário FAMETRO
²Orientadora de Trabalhos de Conclusão de Curso – Centro Universitário FAMETRO
