REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202512291212
Ernando de Brito Melo1
Ivina Rhaissy Ximenes de Mesquita2
Maria Antônia dos Santos Fontoura3
Grazielle Dantas Bezerra Duarte4
Gabriela Rodrigues Silva de Morais5
Italo Yago Cardoso de Oliveira6
Laísa Ana Rodrigues7
Marcela Guerra do Valle8
Vinicius Fontenele Mesquita9
Alexandre Maslinkiewicz10
Resumo
O microbioma intestinal, composto por trilhões de microrganismos, exerce papel fundamental na manutenção da saúde humana, influenciando sistemas imunológico, metabólico e neurológico. Avanços recentes na biologia molecular e na metagenômica demonstram que esse ecossistema microbiano atua não apenas na digestão, mas também na regulação da inflamação, na produção de metabólitos essenciais e na comunicação com o sistema nervoso central por meio do eixo intestino-cérebro. Alterações em sua composição, conhecidas como disbiose, estão associadas ao desenvolvimento de diversas doenças crônicas, como obesidade, diabetes, doenças autoimunes, distúrbios psiquiátricos e neurodegenerativos. Este estudo teve como objetivo analisar criticamente a influência do microbioma intestinal nos diferentes sistemas do organismo humano, destacando seus mecanismos de ação, impactos na saúde e implicações clínicas. Para isso, foi realizada uma revisão narrativa da literatura, com base em estudos publicados entre 2016 e 2024 nas bases PubMed, SciELO e Google Scholar. Os resultados indicam que a microbiota desempenha papel central na modulação da imunidade, no controle do metabolismo energético e na regulação do humor e da cognição. Estratégias de modulação da microbiota, como alimentação rica em fibras, uso de probióticos, redução de antibióticos e, em casos específicos, o transplante de microbiota fecal, apresentam potencial terapêutico relevante. Conclui-se que a promoção da saúde intestinal é essencial para a prevenção de doenças e para a melhoria da qualidade de vida, consolidando o microbioma como uma das fronteiras mais promissoras da medicina contemporânea.
Palavras-chave: Microbioma, saúde intestinal, terapia microbioma.
1. Introdução
Nas últimas décadas, avanços significativos na biologia molecular e na metagenômica têm transformado a compreensão sobre o papel do microbioma humano. A comunidade de trilhões de microrganismos que habita o trato gastrointestinal exerce influência profunda sobre diversos sistemas corporais, incluindo imunidade, metabolismo, sistema nervoso e saúde mental (Lynch e Pedersen, 2016). Conforme ressaltam Thursby e Juge (2017), o intestino funciona como um “órgão imune estendido”, capaz de modular respostas inflamatórias e proteger o organismo contra patógenos.
Além de sua atuação local, evidências mostram que o microbioma tem impacto sistêmico. Alterações em sua composição, condição conhecida como disbiose, estão associadas a doenças metabólicas, autoimunes, cardiovasculares e até psiquiátricas (Zmora, Suez e Elinav, 2019). Estudos recentes demonstram, por exemplo, que o eixo intestino-cérebro é mediado por metabólitos bacterianos que influenciam sinais neurais, humor e cognição (Cryan et al., 2019).
Diante desse cenário, compreender como a saúde intestinal integra-se ao funcionamento global do organismo torna-se essencial para o desenvolvimento de estratégias preventivas, terapêuticas e de promoção da saúde. Como apontam Hooks e O’Malley (2020), o microbioma representa uma das fronteiras mais promissoras da medicina contemporânea, capaz de transformar abordagens clínicas e políticas de saúde mucosa e sistêmica.
2. Objetivo
Analisar de forma crítica como o microbioma intestinal influencia diferentes sistemas do corpo humano, destacando mecanismos de ação, impactos na saúde e na doença, e as implicações clínicas da manutenção ou restauração da saúde intestinal.
3. Metodologia
Trata-se de uma revisão narrativa baseada em artigos científicos publicados entre 2016 e 2024, incluindo revisões sistemáticas, ensaios clínicos e estudos experimentais. As buscas foram realizadas em PubMed, SciELO e Google Scholar utilizando os descritores: gut microbiome, intestinal health, gut-brain axis, dysbiosis, immune modulation e microbiota therapy.
Foram incluídos estudos que abordassem:
- Composição e funções do microbioma intestinal;
- Influências do microbioma sobre sistemas imunológico, metabólico e neurológico;
- Evidências clínicas de impacto da disbiose em doenças;
- Intervenções voltadas para modulação da microbiota.
A análise seguiu abordagem qualitativa, com organização temática segundo os principais achados dos estudos selecionados.
4. Resultados e Discussão
4.1. Composição e Funções do Microbioma Intestinal
O microbioma é composto principalmente por bactérias dos filos Firmicutes e Bacteroidetes, além de arqueias, vírus e fungos (Thursby & Juge, 2017). Sua atuação inclui fermentação de fibras, produção de vitaminas, modulação imunológica e manutenção da barreira intestinal.
De acordo com Lynch e Pedersen (2016), o equilíbrio entre espécies benéficas e patogênicas define o estado de eubiose, fundamental para o funcionamento fisiológico adequado. Qualquer ruptura desse equilíbrio, disbiose, pode desencadear inflamação sistêmica de baixo grau e alterações metabólicas.
4.2. Microbioma e Sistema Imunológico
Cerca de 70% das células imunes do corpo humano estão concentradas no intestino. A microbiota participa do desenvolvimento e regulação da imunidade, estimulando células T reguladoras e produzindo metabólitos anti-inflamatórios, como ácidos graxos de cadeia curta (SCFAs) (Koh et al., 2016).
Segundo Belkaid e Hand (2014), a disbiose prejudica a homeostase imune e está relacionada ao aumento da incidência de doenças autoimunes, como artrite reumatoide e doença inflamatória intestinal. A permeabilidade intestinal aumentada, o chamado leaky gut, permite a entrada de endotoxinas na circulação, intensificando respostas inflamatórias sistêmicas.
4.3. Influência no Metabolismo e Doenças Crônicas
A microbiota desempenha papel crucial no metabolismo energético. Alterações em sua composição influenciam a capacidade de extrair calorias dos alimentos e regular hormônios relacionados à saciedade, como GLP-1 e leptina (Turnbaugh et al., 2018).
Zmora, Suez e Elinav (2019) evidenciam que a disbiose está associada à obesidade, resistência à insulina, diabetes tipo 2 e dislipidemia. A flora intestinal de indivíduos obesos apresenta maior proporção de Firmicutes, que favorecem maior absorção calórica.
Em estudos clínicos, o transplante de microbiota fecal (TMF) mostrou-se capaz de melhorar a sensibilidade à insulina em indivíduos com síndrome metabólica (Vrieze et al., 2016), sugerindo papel terapêutico relevante.
4.4. O Eixo Intestino-Cérebro e a Saúde Mental
O intestino e o cérebro se comunicam por vias imunológicas, hormonais e neurais, constituindo o chamado eixo intestino-cérebro. De acordo com Cryan et al. (2019), microrganismos intestinais produzem neurotransmissores como serotonina, GABA e dopamina, influenciando humor, comportamento e cognição.
Alterações no microbioma estão relacionadas a ansiedade, depressão, transtorno do espectro autista e doenças neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson (Sharon et al., 2019). Ensaios clínicos indicam que probióticos podem reduzir sintomas depressivos leves, reforçando a influência da microbiota na saúde mental (Wallace e Milev, 2021).
4.5. Estratégias de Modulação da Microbiota
A literatura aponta diferentes estratégias para promover a saúde intestinal:
-Alimentação rica em fibras, prebióticos e alimentos fermentados (Gibson et al., 2017);
-Probióticos, cuja eficácia depende da cepa utilizada;
-Transplante de microbiota fecal, indicado principalmente para infecções recorrentes por Clostridioides difficile;
-Redução de fatores agressivos, como uso indiscriminado de antibióticos, ultraprocessados e estresse crônico.
Hooks e O’Malley (2020) destacam que a medicina personalizada baseada em perfis microbianos tende a se tornar tendência, permitindo terapias direcionadas e maior eficácia clínica.
5. Conclusão
O microbioma intestinal é um elemento central na manutenção da saúde humana. Sua influência estende-se muito além do sistema digestivo, alcançando imunidade, metabolismo, cérebro e diversas funções sistêmicas. Evidências demonstram que a disbiose está associada a diversas patologias crônicas e interfere diretamente na resposta inflamatória, no equilíbrio hormonal e no funcionamento neurológico.
Como apontam Cryan et al. (2019), compreender o poder do microbioma representa uma nova fronteira na medicina, capaz de transformar tanto a prevenção quanto o tratamento de doenças. Assim, investir na saúde intestinal por meio de estratégias alimentares, terapias probióticas e políticas de promoção da saúde é essencial para garantir bem-estar global e qualidade de vida.
REFERÊNCIAS
BELKAID, Y.; HAND, T. W. Role of the microbiota in immunity and inflammation. Cell, v. 157, n. 1, p. 121–141, 2014. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.cell.2014.03.011 Acesso em: 30 nov. 2025.
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GIBSON, G. R. et al. The concept of prebiotics revisited. Gut, v. 66, n. 5, p. 1–12, 2017. Disponível em: https://doi.org/10.1136/gutjnl-2016-313964 Acesso em: 30 nov. 2025.
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LYNCH, S. V.; PEDERSEN, O. The human intestinal microbiome in health and disease. The New England Journal of Medicine, v. 375, p. 2369–2379, 2016. Disponível em: https://doi.org/10.1056/NEJMra1600266 Acesso em: 30 nov. 2025.
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VRIEZE, A. et al. Transfer of intestinal microbiota improves insulin sensitivity in metabolic syndrome. Gastroenterology, v. 143, n. 4, p. 913–916, 2012. Disponível em: https://doi.org/10.1053/j.gastro.2012.06.031 Acesso em: 30 nov. 2025.
WALLACE, C. J. K.; MILEV, R. The effects of probiotics on depressive symptoms. Nutrients, v. 13, n. 1, 2021. Disponível em: https://doi.org/10.3390/nu13010172 Acesso em: 30 nov. 2025.
ZMORA, N.; SUEZ, J.; ELINAV, E. You are what you eat: diet, health and the gut microbiota. Nature Reviews Gastroenterology & Hepatology, v. 16, p. 35–56, 2019. Disponível em: https://doi.org/10.1038/s41575-018-0061-2. Acesso em: 30 nov. 2025.
1Graduando em Enfermagem, Centro Universitário Planalto do Distrito Federal, UNIPLAN, e-mail: meloernando52@gmail.com
2Graduanda de farmácia no Centro Universitário INTA – UNINTA, e-mail: ivinarha@gmail.com
3Graduanda em enfermagem pela Universidade Federal de Pelotas.
4Fisioterapia pela unirv (universidade de rio verde), e-mail: grazydantas@yahoo.com.br
5Cirurgiã-dentista, Universidade Federal de Goiás, e-mail: gabrielamorais@discente.ufg.br
6Médico formado pela Universidade Federal de Goiás, e-mail: yago.italo@gmail.com
7Graduanda em Medicina. Faculdade de Medicina de Uberlândia (FAMEU), Centro Universitário UNIFATRA, e-mail: laisaana19@outlook.com
8Médica pela Universidade de Rio Verde – UNIRV, e-mail: marcelaguerra_v@outlook.com
9Graduando em farmácia. Centro universitário Uninta, e-mail: viniciusfontenele.mesquita@gmail.com
10Farmácia / Especialização em Vigilância e Cuidado em Saúde no Enfrentamento da COVID-19 e outras Doenças pela Universidade Federal do Piauí, e-mail: alexmaslin@ufpi.edu.br
