THE ROLE OF THE PEDIATRIC DENTIST IN THE MONITORING OF CHILDREN WITH CLEFT LIP AND PALATE – LITERATURE REVIEW
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202510120652
Gláuquia Verônica Silva Mota1
Dra. Lidia Regina da Costa Hidalgo2
RESUMO
A fissura labiopalatina (FLP) é uma malformação congênita resultante da ausência de fusão do lábio e/ou palato durante o desenvolvimento embrionário, cuja etiologia envolve fatores genéticos, ambientais e maternos, como consanguinidade, deficiências nutricionais, tabagismo, uso de álcool e exposição a teratógenos. No Brasil, a prevalência estimada varia entre 0,47 e 1,54 a cada 1000 nascimentos, configurando-se como um relevante problema de saúde pública. Crianças portadoras de FLP apresentam maior incidência de anomalias dentárias, como agenesia, microdontia e dentes ectópicos, além de elevada predisposição à cárie, má oclusão e comprometimento periodontal, fatores que impactam diretamente a mastigação, a fonação, a estética e a qualidade de vida. Diante disso, o acompanhamento odontopediátrico precoce se mostra essencial, atuando na prevenção de doenças bucais, monitoramento do desenvolvimento dentário, orientação familiar e integração com a equipe multiprofissional. Esta revisão de literatura, baseada em publicações nacionais e internacionais entre 2002 e 2025, analisou estudos disponíveis nas bases PubMed, Scielo, Lilacs e Google Scholar. Os resultados apontam que protocolos preventivos individualizados, cuidados perioperatórios, intervenções ortodônticas coordenadas e educação dos cuidadores são fundamentais para reduzir complicações e potencializar os resultados cirúrgicos e funcionais. Conclui-se que a atuação do odontopediatra, integrada ao contexto multiprofissional, é indispensável para a reabilitação global do paciente com fissura labiopalatina, embora ainda existam lacunas de pesquisa em estudos longitudinais e na padronização de indicadores de saúde bucal e qualidade de vida.
Palavras-chave: fissura labiopalatina; odontopediatria; saúde bucal; anomalias dentárias; tratamento multiprofissional.
ABSTRACT
Cleft lip and palate (CLP) is a congenital malformation resulting from the lack of fusion of the lip and/or palate during embryonic development, with a multifactorial etiology involving genetic, environmental, and maternal factors such as consanguinity, nutritional deficiencies, smoking, alcohol consumption, and exposure to teratogens. In Brazil, its prevalence ranges from 0.47 to 1.54 per 1,000 live births, making it an important public health concern. Children with CLP present a higher incidence of dental anomalies, such as agenesis, microdontia, and ectopic teeth, in addition to an increased susceptibility to caries, malocclusion, and periodontal disease, which directly impact mastication, speech, aesthetics, and quality of life. Early pediatric dental care is therefore essential, focusing on disease prevention, monitoring of dental development, family guidance, and integration with a multidisciplinary team. This literature review, based on national and international studies published between 2002 and 2025, analyzed publications available in PubMed, Scielo, Lilacs, and Google Scholar. Findings highlight the importance of individualized preventive protocols, perioperative care, coordinated orthodontic interventions, and caregiver education in reducing complications and improving surgical and functional outcomes. It is concluded that the pediatric dentist’s role, integrated within the multidisciplinary context, is indispensable for the comprehensive rehabilitation of patients with cleft lip and palate, although research gaps remain regarding longitudinal studies and the standardization of oral health and quality of life indicators.
Keywords: cleft lip and palate; pediatric dentistry; oral health; dental anomalies; multidisciplinary treatment.
1. INTRODUÇÃO
A fissura lábio palatina (FLP) é uma malformação congênita facial caracterizada pela ausência de fechamento do lábio e/ou palato durante o desenvolvimento embrionário, ocorrendo geralmente por volta da sexta semana de gestação (NEVES et al., 2002; RIBEIRO; MOREIRA, 2005; KUHN, 2012). Trata-se de uma condição que apresenta prevalência de 1:500 a 1:2500 nascidos vivos, sendo no Brasil a incidência estimada entre 0,47 a 1,54 por 1000 nascimentos (MORAIS, 2020).
A etiologia da FLP é complexa e multifatorial, envolvendo fatores genéticos, ambientais e maternos, como consanguinidade, deficiência nutricional, exposição a agrotóxicos, tabagismo, uso de álcool e determinados medicamentos durante a gestação (KIANIFAR, 2015; MARTELLI, 2012; NERES, 2022). Essa condição pode gerar comprometimentos significativos no desenvolvimento da criança, afetando não apenas a estética facial, mas também a fonética, deglutição, mastigação, respiração e audição, o que reforça a necessidade de intervenção precoce e acompanhamento especializado (GRACIANO, 2007).
O manejo clínico de pacientes com FLP exige abordagem multiprofissional, que deve iniciar ainda no período neonatal e se estender até a vida adulta, envolvendo médicos, fonoaudiólogos, nutricionistas, psicólogos, enfermeiros e, especialmente, o odontopediatra (Luzzi, 2021; RIBEIRO, 2010). O odontopediatra desempenha papel crucial, uma vez que essas crianças apresentam maior predisposição à cárie dental, má oclusão, agenesia dentária, microdontia e giroversão dentária em direção à fissura, necessitando de acompanhamento contínuo e preventivo desde os primeiros meses de vida (SILVA, 2006; SETC, 2007; HANAYAMA, 2009; SOUZA, 2013).
Além disso, o acompanhamento odontológico integrado ao plano de tratamento cirúrgico e reabilitador contribui para reduzir complicações orais e melhorar a qualidade de vida dessas crianças, promovendo saúde bucal, desenvolvimento funcional e social adequado. O objetivo deste estudo é realizar uma revisão de literatura sobre a importância do odontopediatra no atendimento de pacientes com fissura labiopalatina, destacando sua relevância na assistência e no processo de reabilitação desses indivíduos
2. OBJETIVOS
Realizar uma revisão de literatura sobre a importância do acompanhamento odontológico em crianças com fissura labiopalatina desde o nascimento, destacando o papel essencial do odontopediatra na prevenção de doenças bucais, correção de alterações dentárias e integração com a equipe multiprofissional, visando à melhoria da saúde, funcionalidade e qualidade de vida desses pacientes.
3. METODOLOGIA
Esta revisão de literatura foi conduzida de forma sistemática, com o objetivo de compreender e destacar a importância do acompanhamento odontopediátrico em crianças com fissura labiopalatina (FLP). A escolha da revisão de literatura se deu pela necessidade de reunir, analisar e sintetizar estudos que evidenciem práticas odontológicas eficazes e integradas à abordagem multiprofissional desses pacientes.
Critérios de Inclusão:
Foram selecionados artigos publicados entre 2002 e 2025, considerando a relevância contemporânea das práticas odontopediátricas. Incluíram-se:
• Estudos originais, revisões de literatura, relatos de casos e diretrizes clínicas que abordem fissura labiopalatina e acompanhamento odontológico infantil; • Publicações em português e inglês, com texto completo disponível;
• Estudos que discutam a atuação do odontopediatra na prevenção de doenças bucais, acompanhamento ortodôntico, orientação familiar e integração com a equipe multiprofissional.
Critérios de Exclusão:
Foram excluídos:
• Estudos sem foco odontopediátrico ou que abordem exclusivamente cirurgias reconstrutivas sem discussão odontológica;
• Artigos sem rigor metodológico, sem revisão por pares ou com dados incompletos; • Publicações anteriores a 2002, devido à evolução das técnicas odontopediátricas e protocolos clínicos.
Bases de Dados Utilizadas:
Para garantir a abrangência e qualidade científica, a pesquisa foi realizada nas seguintes bases:
• PubMed: principal base internacional de artigos médicos e odontológicos; • Scielo: base nacional com foco em publicações brasileiras de relevância; • Lilacs: literatura latino-americana em ciências da saúde;
• Google Scholar: utilizado como base complementar para localizar artigos relevantes que poderiam não estar indexados nas demais bases.
Estratégia de Busca:
Foram utilizados termos-chave em português e inglês, combinados com operadores booleanos, conforme abaixo:
• “Fissura Labiopalatina” OR “Cleft Lip and Palate”
• “Odontopediatria” OR “Pediatric Dentistry”
• “Acompanhamento odontológico” OR “Dental care in cleft patients”
As buscas foram refinadas por filtros de data, idioma e tipo de publicação. Após a identificação inicial, os artigos foram avaliados quanto ao título e resumo. Estudos relevantes foram lidos na íntegra e avaliados quanto à qualidade metodológica, relevância clínica e consistência dos resultados.
Procedimento de Análise:
Os artigos selecionados foram organizados em um quadro contendo: autores, ano de publicação, tipo de estudo, principais achados e recomendações clínicas. Essa organização permitiu identificar tendências, lacunas de conhecimento e práticas odontológicas eficazes no acompanhamento de pacientes com FLP.
A análise focou na integração da odontopediatra na equipe multiprofissional, prevenção de cáries, manutenção da saúde bucal, suporte à reabilitação ortodôntica e orientação familiar. Assim, foi possível consolidar informações que apoiem a importância do papel da odontopediatra desde o nascimento até a adolescência. Sendo estrategicamente distribuída em tópicos.
Quadro – Síntese dos artigos selecionados sobre o acompanhamento odontológico em pacientes com FLP
| Autores (Ano) | Tipo de Estudo | Principais Achados | Recomendações Clí nicas |
| PINHEIRO et al. (2019) | Revisão de literatura | Origem multifatorial da FLP; impacto de anomalias dentárias e alterações ortodônticas. | Monitoramento precoce; investigação de fatores maternos/ambientais; integração ortodôntica. |
| UCPEL; MOURA; PINTO (2021) | Revisão de literatura | Alta prevalência de agenesia, microdontia e dentes ectópicos. | Planejamento longitudinal; vigilância da erupção; integração com ortodontia e cirurgia. |
| LESSA et al. (2020) | Revisão de literatura | Variações regionais na epidemiologia da FLP; influência do SUS no acesso ao cuidado. | Estudos populacionais locais; articulação multiprofissional; fortalecimento de políticas públicas. |
| LEITE (2021) | Revisão de literatura | Barreiras do SUS comprometem o acesso precoce ao tratamento especializado. | Melhorar fluxos de atendimento e coordenação multiprofissional. |
| BATISTA et al. (2022) | Revisão de literatura | Elevada prevalência de anomalias dentárias e risco aumentado de cárie e doença periodontal. | Protocolos preventivos precoces (flúor, selantes, dieta); vigilância periodontal; integração multiprofissional. |
| MIRANDA et al. (2024) | Revisão de literatura | Crianças com FLP apresentam maior risco de cárie, dificuldades de higiene e vulnerabilidade periodontal. | Protocolos de higiene perioperatória; consultas regulares desde a lactância; educação de cuidadores. |
| NEVES et al. (2002) | Estudo clínico | Caracterização clínica de pacientes com fissura labiopalatina. | Diagnóstico precoce e intervenção especializada. |
| RIBEIRO; MOREIRA (2005) | Livro | Aspectos clínicos e terapêuticos da fissura labiopalatina. | Abordagem multidisciplinar e manejo cirúrgico. |
| KUHN (2012) | Livro | Etiologia, diagnóstico e tratamento da fissura labiopalatina. | Intervenção precoce e acompanhamento ao longo da vida. |
| KIANIFAR et al. (2015) | Estudo de caso – controle | Fatores de risco maternos, como consanguinidade e deficiência de ácido fólico. | Conscientização sobre fatores de risco maternos. |
| GRACIANO (2007) | Artigo | Aspectos psicossociais em crianças com fissura labiopalatina. | Suporte psicológico e social para pacientes e famílias. |
| MARTELLI et al. (2012) | Estudo epidemiológico | Prevalência e epidemiologia da fissura labiopalatina em Mi nas Gerais. | Mapeamento de casos para otimizar o trata mento. |
| MORAIS (2020) | Revisão sistemática | Prevalência de fissuras labiopalatinas no Brasil. | Padronização de da dos para políticas públicas de saúde. |
| NERES (2022) | Revisão narrativa | Fatores ambientais associados à fissura labiopalatina. | Prevenção através da orientação de gestantes. |
4. REVISÃO DE LITERATURA
4.1 Etiologia, epidemiologia e contexto do atendimento
As revisões analisadas enfatizam que a fissura labiopalatina (FLP) é resultado de uma complexa interação entre fatores genéticos e ambientais, sendo classificada como uma condição multifatorial que exige investigação clínica detalhada (PINHEIRO et al., 2019; UCPEL; MOURA; PINTO, 2021). Os autores discutem que além das causas genéticas, fatores maternos e ambientais — como carência nutricional, uso de substâncias teratogênicas, exposição ocupacional a toxinas e determinantes socioeconômicos — aparecem de forma recorrente na literatura como potenciais contribuintes para a manifestação das fissuras (PINHEIRO et al., 2019).
No âmbito epidemiológico, as revisões apontam variações regionais na incidência e prevalência da FLP, relacionadas tanto às diferenças populacionais quanto às metodologias de registro e notificação adotadas pelos serviços de saúde. Essa heterogeneidade epidemiológica reforça a necessidade de vigilância local e estudos populacionais consistentes para subsidiar políticas públicas (LESSA et al., 2020; PINHEIRO et al., 2019).
Além disso, as publicações destacam que o contexto do sistema de saúde (por exemplo, organização do serviço público no Brasil) influencia o acesso precoce aos serviços especializados, o que por sua vez impacta prognóstico funcional e resultados estéticos a longo prazo (LESSA et al., 2020; LEITE, 2021). Em síntese, os estudos selecionados convergem para a necessidade de abordagens preventivas que incluam atenção pré-natal, rastreamento epidemiológico e articulação de serviços para resposta clínica eficiente.
4.2 Malformações dentárias: tipos, frequência e implicações clínicas
As revisões selecionadas ressaltam que pacientes com FLP apresentam prevalência aumentada de anormalidades dentárias em comparação à população sem fissura, com destaque para agenesias (ausência de dentes), microdontia, presença de dentes ectópicos e alterações morfológicas, especialmente nas regiões próximas à fissura (UCPEL; MOURA; PINTO, 2021; PINHEIRO et al., 2019). Esses estudos discutem a relevância clínica dessas alterações: além do impacto estético, há implicações funcionais — como comprometimento da oclusão, dificuldades mastigatórias e necessidade de intervenções protéticas e ortodônticas ao longo do desenvolvimento.
Os autores também abordam que as anomalias dentárias demandam planejamento longitudinal, pois decisões precoces (por exemplo, sobre espaço protético temporário ou condutas ortodônticas interceptativas) influenciam o desfecho estético e funcional. Em trabalhos de revisão, recomenda-se que o odontopediatra mantenha vigilância constante sobre erupção e morfologia dental nesses pacientes e articule o tratamento com ortodontia e cirurgia quando necessário (BATISTA et al., 2022; UCPEL; MOURA; PINTO, 2021).
4.3 Saúde bucal e predisposição à cárie
As revisões analisadas convergem em afirmar que crianças com FLP frequentemente apresentam condições de saúde bucal mais vulneráveis, com maior risco de acumulação de placa e desenvolvimento de cárie, especialmente em áreas adjacentes à fissura, onde a anatomia dificulta a higiene (BATISTA et al., 2022; MIRANDA et al., 2024). Os autores sublinham fatores contribuintes: limitação mecânica para escovação eficaz, dietas adaptadas que podem ser ricas em carboidratos de fácil fermentação e menor frequência de acompanhamento odontológico em alguns serviços.
Diante desse cenário, as revisões enfatizam intervenções preventivas baseadas em evidência: programas de orientação familiar, aplicação tópica de flúor, uso estratégico de selantes quando indicado, e consultas regulares com enfoque preventivo desde a lactância. BATISTA et al. (2022) destacam que a prevenção primária, conduzida por odontopediatras com protocolos específicos para crianças com FLP, é essencial para reduzir a carga de cárie e evitar tratamentos restauradores complexos que podem comprometer a reabilitação global.
4.4 Condição periodontal e higiene oral
Embora a literatura nacional sobre periodontalidade em pacientes com FLP seja menos volumosa que a sobre anomalias dentárias, as revisões indicam preocupação com a saúde gengival desses pacientes, sobretudo em função de dificuldades de higiene e alterações anatômicas locais (MIRANDA et al., 2024; BATISTA et al., 2022). Relatos e revisões apontam que o controle de biofilme e a vigilância periodontal devem ser prioridades no plano de cuidado, com ênfase em educação dos cuidadores, instruções de higiene adaptadas e acompanhamento profissional regular para detecção precoce de sinais de inflamação gengival.
As revisões também abordam a necessidade de protocolos específicos de higiene em fases perioperatórias (pré e pós-cirúrgicas), para reduzir riscos de infecção e otimizar cicatrização, reforçando a interface entre odontologia e cirurgia reconstrutiva.
4.5 Alterações ortodônticas e manejo interdisciplinar
Os trabalhos revisados indicam que problemas ortodônticos são comuns em pacientes com FLP: desalinhamentos, mordida cruzada, discrepâncias transversais e alterações do crescimento maxilar estão entre as manifestações que exigem planejamento ortodôntico integrado (PINHEIRO et al., 2019; BATISTA et al., 2022). As revisões sublinham que a cicatrização de suturas cirúrgicas, a ausência/agenesia de elementos dentários e a assimetria alveolar contribuem para padrões oclusais complexos.
Dessa forma, a literatura recomenda intervenções ortodônticas interceptativas coordenadas com as fases cirúrgicas, com participação ativa do odontopediatra no monitoramento inicial e encaminhamento oportuno ao ortodontista especializado em pacientes com fissura. A coordenação prévia entre cirurgião, ortodontista e odontopediatra é descrita como fator que potencializa resultados estéticos e funcionais a médio e longo prazo (BATISTA et al., 2022; PINHEIRO et al., 2019).
4.6 Integração multiprofissional: organização do cuidado e papel do odontopediatra
Um ponto de consenso nas revisões é que a reabilitação do paciente com FLP só se torna efetiva quando há coordenação multiprofissional. LESSA et al. (2020) e LEITE (2021) discutem o papel do sistema de saúde (contexto do SUS) na articulação de serviços especializados, destacando que fila de espera, distribuição desigual de centros de referência e dificuldades logísticas impactam o acesso e a continuidade do cuidado.
Nesse modelo integrado, o odontopediatra assume funções críticas: (1) avaliação e monitoramento precoce da cavidade bucal; (2) prevenção de doenças bucais; (3) orientação e capacitação dos cuidadores; (4) participação no planejamento pré-cirúrgico e no acompanhamento pós-operatório; (5) encaminhamento e coordenação com ortodontia, cirurgia e fonoaudiologia (BATISTA et al., 2022; MIRANDA et al., 2024). MIRANDA et al. (2024) reforçam que a presença do odontopediatra desde os primeiros meses promove adesão ao plano terapêutico e melhor preparo para procedimentos reconstrutivos.
4.7 Evidências sobre resultados clínicos e qualidade de vida
As revisões sintetizadas sugerem que programas que incluem acompanhamento odontopediátrico contínuo resultam em melhora nos indicadores de saúde bucal (redução de cárie e de problemas gengivais), bem como em desfechos funcionais (melhor mastigação e encaminhamento adequado para intervenções fonoaudiológicas e cirúrgicas). MIRANDA et al. (2024) e BATISTA et al. (2022) discutem ainda efeitos indiretos sobre a qualidade de vida da criança e da família — por exemplo, diminuição de procedimentos de emergência e melhoria do bem-estar psicossocial — quando existe cuidado integrado e orientado.
No entanto, as revisões também destacam que as evidências disponíveis em âmbito nacional ainda apresentam variabilidade metodológica e que faltam estudos longitudinais controlados que quantifiquem o impacto isolado do acompanhamento odontopediátrico sobre desfechos funcionais e sociais. Essa limitação evidencia uma lacuna de pesquisa que os autores recomendam preencher com estudos prospectivos e avaliações padronizadas.
4.8 Recomendações práticas emergentes a partir da literatura
Com base na síntese das revisões, emergem recomendações práticas que podem ser incorporadas aos protocolos clínicos:
• Instituir consultas odontopediátricas precoces e periódicas desde a primeira infância; • Implantar protocolos preventivos padronizados (aplicação controlada de flúor, orientação dietética, selantes quando indicado);
• Promover educação continuada para cuidadores com material adaptado à realidade local;
• Estabelecer fluxos de encaminhamento claros entre odontopediatria, ortodontia, cirurgia e fonoaudiologia;
• Priorizar monitoramento periodontal e cuidados perioperatórios para cirurgia reconstrutiva (BATISTA et al., 2022; MIRANDA et al., 2024; LESSA et al., 2020).
4.9 Lacunas identificadas e sugestões para pesquisas futuras
As revisões consensualmente apontam lacunas: escassez de estudos longitudinais brasileiros que avaliem os efeitos a longo prazo do acompanhamento odontopediátrico; heterogeneidade metodológica entre estudos; falta de padronização de indicadores de saúde bucal e qualidade de vida; e necessidade de pesquisas que avaliem custo-efetividade de programas integrados no contexto do SUS (LESSA et al., 2020; PINHEIRO et al., 2019; MIRANDA et al., 2024). Esses pontos reforçam a necessidade de agendas de pesquisa orientadas para gerar evidência robusta que oriente políticas públicas e protocolos clínicos locais.
5. DISCURSÃO
O início precoce do acompanhamento odontológico em crianças com fissura labiopalatina (FLP) é reiteradamente apontado como um fator determinante para a efetividade da reabilitação integral. A literatura converge no sentido de que a janela crítica dos primeiros anos de vida deve ser aproveitada para instaurar medidas preventivas, estabelecer vínculos familiares e alinhar o tratamento odontológico com o cronograma cirúrgico (PINHEIRO et al., 2019; BATISTA et al., 2022; MIRANDA et al., 2024).
Pinheiro et al. (2019, p. 4) destacam que “o diagnóstico precoce das anomalias dentárias associadas à fissura permite delinear um planejamento longitudinal, evitando intervenções emergenciais e melhorando os resultados estéticos e funcionais”. Esse argumento é reforçado por Batista et al. (2022), que ao analisarem pacientes acompanhados desde a fase de lactância, observaram menores índices de cárie e maior adesão dos cuidadores às orientações preventivas.
No contexto brasileiro, esse acompanhamento precoce adquire relevância ainda maior devido às desigualdades no acesso ao sistema de saúde. Lessa et al. (2020) discutem que a distribuição desigual dos centros de referência em fissura labiopalatina, aliada às longas filas de espera no Sistema Único de Saúde (SUS), compromete a possibilidade de um atendimento precoce e contínuo. Isso evidencia uma discrepância entre a recomendação da literatura e a realidade vivida por muitas famílias brasileiras.
Outro ponto de destaque é a interface do acompanhamento odontológico precoce com as intervenções cirúrgicas. Como ressaltam Miranda et al. (2024), crianças que iniciam protocolos de higiene oral antes da queiloplastia apresentam melhores condições de cicatrização e menor risco de infecções. Essa relação demonstra que o papel da odontopediatria transcende a esfera preventiva, impactando diretamente no sucesso das cirurgias reconstrutivas.
Portanto, o acompanhamento precoce deve ser compreendido como estratégia essencial não apenas para reduzir a incidência de cáries e doenças periodontais, mas também para potencializar os resultados de outras especialidades da equipe multiprofissional. Contudo, permanece a necessidade de políticas públicas que garantam acesso igualitário a esse tipo de acompanhamento desde os primeiros meses de vida, a fim de alinhar a prática clínica às evidências científicas (LESSA et al., 2020).
O papel do odontopediatra no acompanhamento da criança com fissura labiopalatina vai além da prevenção de doenças bucais. Trata-se de um profissional que atua como eixo integrador da equipe multiprofissional, acompanhando o paciente desde o nascimento até a adolescência, com responsabilidades clínicas, preventivas, educativas e emocionais (BATISTA et al., 2022; MIRANDA et al., 2024).
Segundo Batista et al. (2022), “o odontopediatra é o profissional que mais tempo acompanha o paciente com fissura, sendo responsável por monitorar a saúde bucal em todas as fases da reabilitação”. Esse acompanhamento contínuo permite detectar precocemente anomalias dentárias como agenesias, microdontia ou dentes supranumerários, que podem comprometer estética, mastigação e fala.
Pinheiro et al. (2019) ressaltam que essas anomalias exigem decisões clínicas antecipadas — como manutenção de espaços, reabilitações temporárias ou encaminhamento ortodôntico — que impactam diretamente nos resultados estéticos e funcionais a longo prazo. Assim, o odontopediatra assume papel estratégico no planejamento terapêutico global.
Além disso, sua atuação envolve suporte educativo e psicológico. Lessa et al. (2020) relatam que famílias de crianças com FLP frequentemente enfrentam ansiedade e insegurança frente às múltiplas intervenções cirúrgicas. O vínculo estabelecido com o odontopediatra, que acompanha de forma longitudinal, contribui para maior adesão ao tratamento e para redução do impacto psicossocial da condição.
Outro ponto de destaque é o manejo perioperatório. Miranda et al. (2024) enfatizam que a adoção de protocolos de higiene bucal específicos antes e após as cirurgias reconstrutivas reduz complicações infecciosas e favorece uma cicatrização mais adequada. Nesses casos, o odontopediatra atua diretamente no sucesso cirúrgico, reforçando sua posição de profissional indispensável dentro da equipe.
Entretanto, ainda existem lacunas na literatura sobre a padronização da atuação do odontopediatra no Brasil. Lessa et al. (2020) e Miranda et al. (2024) apontam que faltam estudos longitudinais que quantifiquem os benefícios do acompanhamento odontopediátrico em termos de qualidade de vida, custo-efetividade e redução de procedimentos invasivos. Isso demonstra a necessidade de ampliar a produção científica nacional sobre o tema, consolidando a importância do odontopediatra não apenas na prática clínica, mas também nas políticas públicas de saúde.
Em síntese, o odontopediatra deve ser compreendido como figura central no tratamento da fissura labiopalatina, pois sua atuação garante a saúde bucal, fortalece a adesão familiar, integra diferentes especialidades e contribui para o sucesso funcional e estético do paciente a médio e longo prazo (BATISTA et al., 2022; PINHEIRO et al., 2019; MIRANDA et al., 2024).
6. CONCLUSÃO
Com base na revisão de literatura, evidencia-se que o acompanhamento odontopediátrico precoce e contínuo é essencial na reabilitação de pacientes com fissura labiopalatina (FLP), uma vez que o odontopediatra atua como eixo central da equipe multiprofissional, promovendo prevenção, diagnóstico precoce de anomalias dentárias e suporte educativo às famílias. Sua atuação desde os primeiros anos de vida favorece a adoção de protocolos de higiene pré e pós operatórios, reduzindo infecções e otimizando os resultados funcionais e estéticos. Entretanto, persistem lacunas científicas e estruturais, como a escassez de estudos longitudinais e a desigualdade no acesso aos centros especializados, o que dificulta a efetivação do cuidado integral. Assim, o fortalecimento das práticas clínicas e das políticas públicas mostra-se fundamental para assegurar uma reabilitação completa, equitativa e baseada em evidências.
7. REFERÊNCIAS
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1Discente do Curso Superior de odontologia no Centro Universitário Tocantinense Presidente Antônio Carlos – Unitpac. e-mail: glauquiaveronica.mota@gmail.com
2Docente do Curso Superior de odontologia no Centro Universitário Tocantinense Presidente Antônio Carlos – UNITPAC. Doutora em odontopediatria (FORP-USP). e-mail: lidia.hidalgo@unitpac.com
