O PAPEL DO FARMACÊUTICO NO DIABETES MELLITUS TIPO 2: REVISÃO NARRATIVA SOBRE O USO DA METFORMINA E A DEFICIÊNCIA DA VITAMINA B12

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202509300806


Cristiane Maria Vicente Venceslau1
Enaianny Ribeiro dos Santos Frankenberger2
Bruna Gerlane Marques Florentino3
Silvânia Narielly Araújo Lima4


Resumo

Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2) é uma condição crônica, caracterizada pela resistência à insulina e disfunção das células β, com impactos significativos na saúde pública e na qualidade de vida dos pacientes. O acompanhamento farmacêutico torna-se essencial na promoção da adesão ao tratamento e monitoramento de possíveis efeitos adversos. O estudo tem como objetivo analisar os benefícios dos cuidados farmacêuticos a portadores de diabetes mellitus tipo 2 em uso da metformina e sua relação com a cobalamina (vitamina B12). Foram realizadas buscas sistematizadas de artigos nas bases Scielo, Pubmed e revistas científicas, resultando na seleção de 20 artigos, sendo 7 essenciais para a fundamentação da pesquisa, publicados entre 2016 e 2024. Os achados indicam que o uso prolongado de metformina, principalmente em doses elevadas, está associado a uma maior prevalência de deficiência ou uma possível deficiência de vitamina B12, em pacientes com DM2. Um elo evidente entre a dose do medicamento e a deficiência de B12. Doses mais elevadas da metformina estavam associadas a taxas mais altas de deficiência. Além disso, a deficiência de vitamina B12, muitas vezes assintomática em estágios iniciais, pode resultar em complicações graves, como neuropatia periférica e anemia megaloblástica, que se tornam mais evidentes ao longo do tempo. Assim, a atenção farmacêutica desempenha um papel essencial na gestão de pacientes com DM2 em tratamento com metformina, com foco na prevenção e monitoramento da deficiência de vitamina B12. A abordagem interdisciplinar é recomendada para garantir manejo seguro e eficaz da condição, reforçando o papel central do farmacêutico na prática clínica de pacientes com DM2.

Palavras-chave: Diabetes Mellitus tipo 2. Metformina. Vitamina B12. Atenção farmacêutica.

1   INTRODUÇÃO

Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2) é uma condição crônica que corresponde a mais de90 % de todos os casos de Diabetes, possui etiologia envolvida em componentes genéticos e ambientais; com forte herança familiar, associada a hábitos alimentares e inatividade física que contribuem significativamente para a obesidade, como um dos principais fatores de risco (Sociedade brasileira de diabetes, 2019).

O DM2 é marcado por um conjunto de alterações metabólicas, responsáveis pelo aumento e manutenção dos níveis de glicemia. Na doença crônica, a forma como o corpo processa a glicose sanguínea gera um distúrbio, resultando em uma homeostase perturbada com quadros hiperglicêmicos. A disfunção das células β e a resistência à insulina são as duas principais características do DM2 (Borse et al., 2020).

O impulsionamento de novas diretrizes propõe mudanças consideráveis, antecipando o início do rastreamento para adultos a partir dos 35 anos, com o objetivo de identificar precocemente, por meio de exames de glicemia de jejum e hemoglobina glicada (HbA1c), casos assintomáticos e os chamados pré-diabetes (Tabela 1). De acordo com os critérios laboratoriais, valores de glicemia de jejum entre 100 e 125 mg/dl e HbA1c entre 5,7 e 6,4% caracterizam o estado de pré-diabetes, enquanto resultados iguais ou superiores a 126 mg/dl na glicemia de jejum ou HbA1c ≥ 6,5% confirmam o diagnóstico de diabetes mellitus. Além disso, também são utilizados como parâmetros a glicemia ao acaso ≥ 200 mg/dl na presença de sintomas e o teste de tolerância oral à glicose (TTGO), em que valores de 140 a 199 mg/dl após 2 horas indicam pré-diabetes e ≥ 200 mg/dl confirmam diabetes. Esses cuidados com a saúde contribuem para um rastreio direcionado, capaz de impedir o comprometimento da qualidade de vida e a elevação da mortalidade (Da Silva et al., 2025; Rodacki et al., 2024; Sociedade Brasileira de Diabetes, 2025).

Tabela 1: Critérios laboratoriais para diagnóstico de DM e pré-diabetes.

CritériosNormalPré-diabetesDM
Glicemia de jejum (mg/dl)< 100100–125≥ 126
Glicemia ao acaso (mg/dl) + sintomas≥ 200
Glicemia de 1 hora no TTGO (mg/dl)< 155155–208≥ 209
Glicemia de 2 horas no TTGO (mg/dl)< 140140–199≥ 200
HbA1c (%)< 5,75,7–6,4≥ 6,5

Fonte: Rodacki et al., 2024.

O crescimento da incidência e a gravidade do DM2 configura um grave problema de saúde pública. Para prevenção e controle, medidas não farmacológicas e intervenções farmacológicas devem ser tomadas com base na melhora da qualidade de vida do paciente. As mudanças no estilo de vida incluem, alterações na dieta alimentar e a prática de atividade física, adotando um estilo de vida saudável, bem como o uso de medicamentos (Teixeira et al., 2024). A aceitação e o diagnóstico prévio são essenciais para que o paciente inicie a terapêutica o mais rápido possível. Sendo importante o monitoramento por profissionais capacitados, neste caso, o farmacêutico e a equipe multidisciplinar (Rodacki et al., 2025).

Dentre os fármacos utilizados na terapêutica da DM2, a metformina é considerada o medicamento de primeira escolha, resultando no anti-hiperglicemiante oral mais prescrito, devido a sua eficiência na diminuição da resistência à insulina. Com o perfil de segurança favorável e sua eficácia conhecida, a existência de efeitos colaterais como a má absorção da cobalamina (vitamina B12) não deve ser desprezada (Damião et al., 2016; American Diabetes Association, 2023). Presente em alimentos de origem animal, a vitamina B12 ou a cianocobalamina tem papel essencial na estabilidade do DNA e em várias reações químicas, como cofator para enzimas responsáveis pela síntese de nucleotídeos, além de apresentar propriedades antioxidantes (Halczuk et al., 2023). 

A hipovitaminose de vitamina B12 (ou deficiência de vitamina B12) é causada pela ingestão alimentar deficiente, gastrite, síndrome de má absorção, ingestão de medicamentos antiácidos e pela metformina em uso prolongado. A identificação da deficiência da vitamina B12 é clinicamente de grande importância, tendo em vista que, pode estar associada à piora ou a indução da perda de memória, neuropatia, irritabilidade, demência, aumento do risco de osteoporose e disfunção da cognição (Ahmed et al., 2017). Por ser uma doença silenciosa e assintomática, em muitos casos o primeiro contato do paciente é com a farmácia, sendo necessário esforços que envolvam o monitoramento glicêmico para que esses níveis de glicemia no sangue se mantenham próximos dos níveis normais.

Diante do exposto, o farmacêutico, enquanto especialista em farmacoterapia atua de forma individualizada ou integrada com a equipe de saúde; monitorando e projetando planos terapêuticos com intuito de melhorar o estado clínico do paciente. Por meio dos cuidados farmacêuticos, é possível identificar problemas relacionados aos medicamentos, avaliar a efetividade da terapia, detectar polifarmácia e prevenir reações adversas. Ao fornecer informações claras sobre os riscos e benefícios dos tratamentos, o farmacêutico contribui para o aumento da adesão e para melhores desfechos clínicos (Nogueira, 2019; Silva et al., 2025).

Neste contexto, o rastreamento laboratorial, por meio de exames de rotina como glicemia em jejum, HbA1c e dosagem sérica de vitamina B12, associado ao acompanhamento farmacêutico integrado à equipe multidisciplinar, possibilita um tratamento mais assertivo e seguro em pacientes que fazem utilizam a metformina. Destaca-se a relevância do cuidado farmacêutico, bem como a orientação sobre a influência dos hábitos alimentares inadequados e da inatividade física sobre a progressão da doença. Dessa forma, o paciente é estimulado a compreender sua condição clínica, promovendo a melhora dos parâmetros metabólicos e desfechos clínicos (American Diabetes Association, 2023; Silva et al., 2025).

2   METODOLOGIA 

A pesquisa trata-se de uma revisão narrativa da literatura com foco na atenção farmacêutica em pacientes que utilizam metformina e sua influência na qualidade de vida de pessoas com DM2, destacando a relevância do acompanhamento dos níveis de vitamina B12. Para a construção do trabalho, foram realizadas buscas sistematizadas nas bases de dados SciELO, PubMed e periódicos especializados, além das bases de dados especializadas também foram consultadas diretrizes clínicas. A seleção dos artigos seguiu critérios de inclusão previamente estabelecidos: publicação entre 2016 e 2024; idiomas português e inglês, contemplando estudos transversais e revisões sistemáticas. Foram excluídos os artigos com conteúdo duplicado e que não abordassem especificamente sobre o tema, ao final das buscas foram encontradas 94 publicações, 16 artigos foram excluídos, por duplicidade e 58 não atenderam aos critérios de inclusão, resultando na seleção de 20 artigos, sendo 7 deles essenciais para fundamentação da pesquisa.

3   RESULTADOS E DISCUSSÃO

O DM2 no Brasil, ocupa o quinto lugar em relação à prevalência, com cerca de 10,6% de prevalência de diabetes em adultos, segundo a International Diabetes Federation (Brazil, 2024). Com etiologia complexa e grandes fatores envolvidos, o quadro de assintomáticos é permanecido por longos períodos ao avançar da idade (Silva et al., 2025). 

A metformina é amplamente utilizada como tratamento de primeira linha para pacientes com DM2 devido à sua eficácia e baixo custo (Bailey, 2024). No entanto, surgiram preocupações sobre uma possível relação entre o uso de metformina e a deficiência de vitamina B12. Esta deficiência pode ter sérias implicações para a saúde dos pacientes, incluindo neuropatia periférica e anemia megaloblástica (Aroda et al., 2016; Ahmed et al., 2017; Lima et al., 2024). 

3.1  Correlação entre o uso da metformina e a deficiência de vitamina B12

A deficiência de B12 pode acarretar problemas de saúde significativos, como neuropatia periférica e anemia megaloblástica (Aroda et al., 2016; Ahmed et al., 2017). Evidências mostram que pacientes que fizeram o uso de metformina apresentaram deficiência de B12 (Damião et al., 2016), com relação dose-dependente. Enfatizando a importância de considerar a dose do medicamento ao avaliar o risco de deficiência de vitamina B12. Embora esses problemas possam não ser imediatamente perceptíveis em curtos períodos de uso da metformina, os estudos demonstraram que os riscos se tornam mais evidentes ao longo do tempo (Lima et al., 2024). É fundamental compreender o mecanismo pelo qual a metformina pode estar relacionada à deficiência de vitamina B12 (Aroda et al., 2016). 

A explicação mais amplamente reconhecida do mecanismo da deficiência de B12 é que a metformina interfere na função da membrana dependente de cálcio no íleo terminal, o que é responsável pela absorção do fator intrínseco da vitamina B12. Essa interferência pode levar a uma diminuição na absorção de vitamina B12 pelo organismo (Aroda et al., 2016). A neuropatia periférica, uma complicação comum do DM2, torna-se mais aparente em pacientes com deficiência de vitamina B12, muitas vezes associada ao uso da metformina (Lima et al., 2024). No entanto, esse efeito não é prontamente observado clinicamente em curtos períodos de tratamento, pois a deficiência de vitamina B12 e suas consequências tendem a se desenvolver de forma gradual e prolongada ao longo do tempo. 

No que se refere ao monitoramento dos níveis de vitamina B12, é importante destacar que exames laboratoriais desempenham um papel vital nesse processo. Pacientes em tratamento com metformina devem ser submetidos a exames de sangue regulares, como a dosagem de vitamina B12 sérica, a fim de avaliar seus níveis de vitamina B12. É importante que os farmacêuticos, juntamente com outros profissionais de saúde, estejam atentos a esses resultados para identificar precocemente qualquer deficiência e tomar as medidas necessárias para corrigi-la. Esses exames devem ser incorporados à rotina de acompanhamento de pacientes com DM2 que fazem uso da metformina, a fim de garantir um tratamento seguro e eficaz (American Diabetes Association, 2023).

O monitoramento regular dos níveis de vitamina B12 em pacientes em uso de metformina é crucial e o farmacêutico desempenha um papel fundamental na gestão dessas questões de saúde, monitorando os níveis de vitamina B12 em pacientes com DM2 que fazem uso da metformina. Além disso, auxilia na educação dos pacientes, informando sobre os riscos associados à deficiência de vitamina B12 e a importância de seguir corretamente o tratamento, educando os pacientes sobre os riscos, monitorando os níveis de B12 e fornecendo orientações sobre a suplementação quando necessário. 

A detecção precoce e a intervenção adequada são essenciais para prevenir problemas de saúde relacionados à deficiência de vitamina B12 em pacientes com DM2 tratados com metformina. Além disso, a redução dos sintomas pelo uso do medicamento pode ser alcançada através de uma abordagem gradual no aumento da dose, iniciando o tratamento com quantidades menores do medicamento, sendo o farmacêutico indispensável na orientação e auxílio desses pacientes. 

A prevalência do DM2 no Brasil, ocupando o quinto lugar em relação à prevalência de doenças crônicas, é um indicador relevante da magnitude desse problema de saúde pública. Os achados destacam a preocupação significativa com as interações medicamentosas e a associação entre o uso da metformina e a deficiência de vitamina B12, sublinhando a necessidade de um acompanhamento cuidadoso desses pacientes. O acompanhamento farmacoterapêutico é crucial para os pacientes compreenderem os benefícios do tratamento e estejam cientes de como minimizar os efeitos colaterais, levando uma maior qualidade de vida aos pacientes.

3.2  Acompanhamento farmacoterapêutico no tratamento do DM2 

O farmacêutico desempenha um papel crucial no gerenciamento da terapia com metformina e na monitorização dos níveis de vitamina B12. Os resultados obtidos a partir da análise, ressaltam a importância da atenção farmacêutica no contexto do tratamento de pacientes com DM2 que fazem uso da metformina. 

Em um estudo transversal realizado em Curitiba, Paraná, foram analisados 290 prontuários de pacientes do ambulatório de endocrinologia. Os pacientes incluídos no estudo usavam metformina por pelo menos 12 meses, e aqueles que fizeram suplementação de vitamina B12 ou gastrectomia foram excluídos. Os resultados mostraram que 32,8% dos pacientes apresentaram níveis séricos de vitamina B12 abaixo de 200 pg/ml, indicando deficiência, enquanto 36,9% tinham níveis entre 200 e 300 pg/ml, o que é classificado como possível deficiência. Somente 30,3% foram diagnosticados com improvável déficit (Nazário et al., 2018). 

Uma pesquisa realizada em um hospital universitário no sudeste do Brasil, incluiu um total de 462 indivíduos, divididos em um grupo controle (231 participantes) e um grupo de pacientes com DM2 em uso de metformina (231 pacientes). A deficiência de B12 (considerada <170 pg/ml neste estudo) foi encontrada em 22,5% dos pacientes do grupo que usou metformina, enquanto no grupo controle foi de 7,4% (Damião et al., 2016). 

Um ensaio clínico multicêntrico nos Estados Unidos envolveu pacientes randomizados em três grupos: tratamento com placebo, medidas de mudanças no estilo de vida e utilização de metformina 850 mg duas vezes ao dia. Os níveis de B12 foram avaliados em 5 anos e em 13 anos. O resultado foi um aumento do risco de 13% de desenvolver deficiência de vitamina B12 por ano de uso total de metformina (Aroda et al., 2016).

O rastreamento é um procedimento utilizado na identificação do DM2 ou pré-diabetes em pessoas que não apresentam sintomas aparentes. No Brasil, cerca de 50% dos 14 milhões de pacientes com diabetes desconhecem sua condição, a triagem deve ser realizada a cada três anos ou com intervalo de tempo menor quando necessário, em pré-diabéticos é recomendado uma avaliação anual, segundo a American Diabetes Association (2019). 

De acordo com as diretrizes nacionais (Quadro 1), o rastreamento deve ser universal a partir dos 35 anos de idade, e também indicado para indivíduos mais jovens com sobrepeso ou obesidade associados a pelo menos um fator de risco, como histórico familiar de DM2, doença cardiovascular, hipertensão arterial, dislipidemias (HDL < 35 mg/dl ou triglicerídeos > 250 mg/dl), síndrome dos ovários policísticos, acantose nigricans ou sedentarismo. Ainda, recomenda-se a triagem em casos de histórico de pré-diabetes, antecedentes de diabetes gestacional ou quando o escore de risco FINDRISC for classificado como alto ou muito alto (Rodacki et al., 2024; Sociedade Brasileira de Diabetes, 2025).

Durante um processo de acompanhamento farmacoterapêutico de uma paciente diabética e hipertensa, atendida dentro do escopo das atividades de atenção farmacêutica em um Centro de Saúde na localidade de João Pessoa, Paraíba. O resultado do acompanhamento forneceu que a paciente estava seguindo as diretrizes estabelecidas no plano terapêutico pelo farmacêutico, exibindo leituras da pressão arterial de 120/100 mmHg e um nível de glicemia capilar pós-prandial de 110 mg/dL, com uso da metformina. Durante a consulta mais recente, o plano de cuidados foi mantido, uma vez que a paciente informou não apresentar efeitos indesejáveis relacionados à administração dos medicamentos (Campos et al., 2020).

Os problemas relacionados à terapia da paciente no início do acompanhamento no estudo de Campos et al. (2020), foram: esquecimento da tomada do medicamento e cessação do uso dos medicamentos devido às reações adversas. Também foi mencionada a ocorrência de episódios de hipoglicemia, caracterizados por tremores, taquicardia e sudorese, que estavam diretamente relacionados ao uso da glibenclamida, bem como problemas gastrointestinais associados à metformina.

Quadro 1 – Indicação para rastreamento de DM2 em indivíduos assintomáticos.

CritérioIndicação
IdadeAcima de 35 anos (universal)
Idade < 35 anosPresença de sobrepeso ou obesidade e mais um fator de risco
Fatores de risco–  História familiar de DM2 em parente de 1º grau
–  História de doença cardiovascular
–  Hipertensão arterial
–  HDL < 35 mg/dl
–  Triglicerídeos > 250 mg/dl
–  Síndrome dos ovários policísticos
–  Acantose nigricans
–  Sedentarismo
Histórico clínicoPré-diabetes em exame prévio
GestacionalDiabetes gestacional prévio ou recém-nato grande para idade gestacional
Escore de riscoFINDRISC alto ou muito alto

Fonte:  Rodacki et al., 2024.

Os efeitos adversos no sistema gastrointestinal causados pela metformina costumam melhorar com a continuidade do tratamento farmacoterapêutico. Isso pode ser facilitado ao tomar o medicamento durante ou imediatamente após as refeições, ou optar pelo uso da formulação de liberação prolongada (Nabrdalik et al., 2024). 

A metformina possui cerca de vinte horas de meia-vida, sendo eliminada através da filtração glomerular sem alterações, com aproximadamente 3 horas para fazer efeito (Corcoran; Jacobs, 2023). Embora o mecanismo de ação das biguanidas não sejam totalmente compreendidos em termos de seus alvos moleculares, seus efeitos no organismo incluem a redução da produção de glicose pelo fígado (gliconeogênese), diminuição da resistência à insulina, redução da absorção de carboidratos pelo intestino, controle da hiperlipidemia, aumento da captação de glicose e sua utilização no músculo esquelético, além da oxidação de ácidos graxos (Nazário et al., 2018). A metformina contribui na redução do peso, reduz os riscos cardiovasculares e aumenta a sensibilidade à insulina, prevenindo a DM2 (Bailey, 2024).

A explicação mais amplamente reconhecida para a deficiência de vitamina B12 relacionada ao uso da metformina é que o medicamento interfere com a função da membrana dependente de cálcio, que é responsável pela absorção do fator intrínseco da vitamina B12 no íleo terminal (Aroda et al., 2016; Sayedali; Yalin; Yalin, 2023). A deficiência na vitamina B12 a longo prazo, pode desenvolver neuropatias e anemias megaloblásticas (Nazário et al., 2018).

Neuropatia periférica é uma complicação principal do DM2 e torna-se mais aparente em pacientes diabéticos com deficiência de vitamina B12, muitas vezes associada ao uso da metformina. No entanto, esse efeito não é prontamente observado clinicamente em curtos períodos de tratamento, pois a deficiência de vitamina B12 e suas consequências tendem a se desenvolver de forma gradual e prolongada ao longo do tempo. Na anemia megaloblástica a causa principal é a diminuição na síntese de DNA durante a formação das hemácias, um dos impactos significativos da deficiência de vitamina B12 (Ahmed, 2017; Lima et al., 2024). 

Em síntese, os resultados deste estudo corroboram a importância da atenção farmacêutica na gestão de pacientes com DM2 que utilizam metformina, enfatizando a necessidade de monitorar os níveis de vitamina B12 e educar os pacientes sobre a associação entre o medicamento e a deficiência de vitamina B12. Os achados destacam a necessidade de uma abordagem interdisciplinar para garantir um tratamento eficaz e a melhoria da qualidade de vida desses pacientes, com o farmacêutico desempenhando um papel central nesse processo. 

4    CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante desse cenário crescente em relação às pessoas portadoras de DM2, é imprescindível a atuação dos profissionais de saúde nos cuidados com os pacientes que já possuem a doença, como também com aqueles que possuem os fatores de risco de desenvolvê-la e já se encontram na condição de pré-diabéticos. Deste modo, é imperativo que se estabeleça um suporte sólido para o paciente, visando assegurar um tratamento preciso e eficaz. Uma área de extrema importância nesse contexto é a monitorização dos níveis séricos de vitamina B12 em pacientes que estão sendo tratados com metformina para DM2.

O profissional mais qualificado para desempenhar essa tarefa é o farmacêutico, devido ao seu amplo conhecimento sobre medicamentos e interações medicamentosas, dispensação e orientação do uso racional de medicamentos. Promovendo os cuidados com a saúde e intervenção terapêutica como: educação do paciente sobre a importância do tratamento; a identificação e prevenção de possíveis interações medicamentosas; a revisão das prescrições para evitar duplicações ou riscos e a promoção do uso adequado dos medicamentos. 

Este acompanhamento farmacoterapêutico permite a busca da melhor farmacoterapia a ser adotada para cada portador de DM2, contribuindo para uma melhoria significativa na qualidade de vida. Portanto, é vital que os pacientes compreendam a relevância de incluir profissionais de saúde, como farmacêuticos, no seu tratamento, com o intuito de otimizar os resultados e minimizar os riscos associados às interações medicamentosas e aos efeitos colaterais.

REFERÊNCIAS

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1 Bacharela em Farmácia pela Universidade Maurício de Nassau e-mail: sougratosim@gmail.com
2 Bacharela em Farmácia pela Universidade Maurício de Nassau e-mail: enaiannyribeiro@hotmail.com
3 Mestranda em Ciências Naturais e Biotecnologia pela Universidade Federal de Campina Grande – Campus Cuité e-mail: brunagerlany16@gmail.com
4 Bacharela em Farmácia pela Universidade Federal de Campina Grande – Campus Cuité e-mail: silvanianarielly@outlook.com