O PAPEL DO ENFERMEIRO DE URGÊNCIA E EMERGÊNCIA NO ACOLHIMENTO AO PACIENTE EM CRISE SUICIDA

THE ROLE OF EMERGENCY AND URGENT CARE NURSES IN THE RECEPTION OF PATIENTS IN SUICIDAL CRISIS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510311500


Lorena Menezes Pimenta1
Ma. Kennia Rodrigues Tassara2


Resumo 

O aumento dos casos de comportamento suicida representa um grave problema de saúde pública e requer atenção imediata dos profissionais que atuam nos serviços de urgência e emergência. Nesses contextos, o enfermeiro desempenha um papel essencial no acolhimento e na primeira escuta do paciente em crise, sendo responsável por identificar sinais de risco, prestar apoio emocional e garantir encaminhamento seguro para atendimento especializado. Diante dessa relevância, compreender a atuação e a preparação desses profissionais torna-se fundamental para aprimorar a qualidade do cuidado e prevenir desfechos fatais. O estudo tem como objetivo avaliar a preparação dos enfermeiros que atuam em urgência e emergência no atendimento de pacientes em crise suicida, considerando a capacitação profissional e as condições disponíveis para o manejo adequado. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, realizada nas bases PubMed, SciELO, LILACS e BDENF, incluindo estudos publicados entre 2013 e 2025. A análise dos 13 artigos selecionados revelou que os enfermeiros de urgência e emergência possuem papel fundamental no acolhimento, triagem, escuta ativa e encaminhamento de pacientes em risco de suicídio. Entretanto, persistem lacunas na formação, ausência de protocolos padronizados e sobrecarga emocional. Os resultados indicam a necessidade de investimentos em capacitação contínua, educação permanente e políticas institucionais que fortaleçam a atuação da enfermagem. Conclui-se que o aprimoramento das práticas assistenciais e da formação profissional é essencial para a redução das taxas de suicídio e melhoria da qualidade do cuidado em saúde mental. 

Palavras-chave: Suicídio. Enfermagem de Urgência. Acolhimento.  

ABSTRACT 

The study aims to assess the preparedness of nurses working in emergency and urgent care to attend patients in suicidal crisis, considering their professional training and the conditions available for appropriate management. This is an integrative literature review carried out in the PubMed, SciELO, LILACS, and BDENF databases, including studies published between 2013 and 2025. The analysis of the 13 selected studies revealed that emergency nurses play a fundamental role in reception, triage, active listening, and referral of patients at risk of suicide. However, there are still gaps in training, lack of standardized protocols, and emotional overload. The results indicate the need for continuous training, permanent education, and institutional policies that strengthen nursing practice. It is concluded that improving professional training and care practices is essential to reduce suicide rates and enhance mental health care quality. 

Keywords: Suicide . Emergency Nursing. Initial assessment.

1. INTRODUÇÃO 

O suicídio é um incidente complexo e multifatorial, definido pela Organização Mundial da Saúde (OMS, 2021) como o ato intencional de tirar a própria vida, sendo reconhecido como grave problema de saúde pública global. A crise suicida caracteriza-se por um estado agudo de intensa ideação suicida, sofrimento emocional elevado, perda de controle dos impulsos e risco iminente de tentativa, o que exige intervenção imediata e suporte especializado (Brasil, 2024). 

No Brasil, os indicadores de mortalidade e morbidade por suicídio têm apresentado crescimento nas últimas décadas. Entre 2011 e 2022, foram registrados 147.698 óbitos por suicídio e 104.458 notificações de autolesão, com aumentos médios anuais de 3,7% e 21%, respectivamente (Alves et al., 2024). Na faixa etária de 10 a 24 anos, esses índices preocupantes ainda mais, crescendo 6% ao ano nos suicídios e 29% nas lesões autoprovocadas ((Fundação Oswaldo Cruz, 2024). Em 2023, o Sistema Único de Saúde registrou 11.502 internações por lesões autoprovocadas, com maior incidência entre jovens de 20 a 29 anos (Agência Brasil, 2024). 

As taxas apresentam variações regionais específicas. A Região Sul lidera os índices, destacando-se o Rio Grande do Sul, com 14,4 óbitos por 100 mil habitantes em 2022 (Governo do Rio Grande do Sul, 2024). O Sudeste apresenta valores intermediários, com crescimento expressivo em Minas Gerais e Rio de Janeiro (Agência Brasil, 2024). No Nordeste, os estados de Alagoas e Ceará registram taxas elevadas, especialmente em áreas rurais (Fiocruz, 2024). Já no Centro-Oeste, Mato Grosso do Sul apresenta os maiores índices, enquanto a Região Norte apresenta taxas mais baixas, possivelmente devido à subnotificação e dificuldades de acesso aos serviços de saúde mental (Brasil, 2024). 

Diante do aumento consistente dos indicadores epidemiológicos e das preocupantes tendências observadas em grupos vulneráveis ao suicídio, torna-se imprescindível analisar as estratégias coletivas empreendidas para enfrentar essa realidade. Nesse sentido, as políticas públicas em saúde mental assumem papel fundamental, estabelecendo diretrizes, ampliando o acesso à atenção psicossocial e fortalecendo iniciativas de prevenção em âmbito nacional e regional. 

Para enfrentar esse cenário, o Brasil conta com políticas públicas estruturadas, como a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que organizam os serviços de saúde mental pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O Centro de Valorização da Vida (CVV) também desempenha papel fundamental ao oferecer apoio emocional gratuito e sigiloso por meio do telefone 188 e canais digitais (CVV, 2024). Campanhas como o Setembro Amarelo ampliam a conscientização sobre sinais de alerta, combate ao estigma e divulgação de canais de ajuda (Brasil, 2024). Contudo, persistem desafios como subnotificação, desigualdade no acesso e carência de capacitação profissional, evidenciando a necessidade de ações regionais adaptadas. 

Sob a ótica sociológica, Durkheim (1897) ressaltou que o suicídio não pode ser compreendido apenas individualmente, pois reflete níveis de integração e regulação social, classificando-o em tipos: egoísta, altruísta, anômico e fatalista. Sob perspectiva psicológica, transtornos como depressão, bipolaridade e esquizofrenia estão entre os principais fatores de risco, juntamente com experiências traumáticas, uso abusivo de substância e experiência prévia (Botega, 2015; Brasil, 2023). Fatores socioculturais, como pobreza, violência, discriminação e vulnerabilidade social ampliam o risco, especialmente para jovens, idosos, indígenas e pessoas LGBTQIA+ (Minayo; Cavalcante, 2013).   

Diante dessa complexidade, o enfrentamento do suicídio exige uma abordagem interdisciplinar que integre profissionais de saúde, políticas públicas e suporte social (Werlang et al., 2018). Nesse contexto, os enfermeiros de urgência e emergência têm papel essencial, pois muitas vezes são o primeiro contato do paciente em crise suicida com o sistema de saúde. A condução eficaz inclui avaliação de risco, escuta de comprometimento, comunicação clara, vínculo terapêutico e encaminhamento adequado (Baldaçara et al., 2025; Santos et al., 2023). Entretanto, limitações estruturais e lacunas na formação específica da enfermagem ainda comprometem a prática (Fontão et al., 2020). 

Assim, o presente estudo tem como objetivo avaliar a preparação dos enfermeiros que atuam em urgência e emergência para o atendimento de pacientes em crise suicida, considerando sua capacitação e as condições disponíveis para o manejo adequado. A compreensão desse tema é fundamental para aprimorar a assistência prestada, contribuindo para a redução das taxas de suicídio e o fortalecimento da atuação da enfermagem no enfrentamento desse grave problema de saúde pública. 

A relevância deste estudo reside no papel estratégico dos enfermeiros que atuam em urgência e emergência no enfrentamento do suicídio. Esses profissionais representam frequentemente a primeira linha de acolhimento em situações críticas, e a qualidade do atendimento prestado pode ser decisiva para a preservação da vida, redução do sofrimento psíquico imediato e prevenção de novos episódios de autolesão. Avaliar seu nível de preparação permite identificar lacunas na formação e nas condições estruturais, fornecendo subsídios para o desenvolvimento de políticas públicas e programas de capacitação específicos. 

2. METODOLOGIA  

Este estudo trata-se de uma revisão integrativa da literatura, escolhida por possibilitar a síntese e a análise crítica de estudos relevantes sobre o tema em questão, integrando evidências de diferentes delineamentos metodológicos. Segundo Whittemore e Knafl (2005), a revisão integrativa permite reunir informações de modo sistematizado, contribuindo para a compreensão do estado atual do conhecimento científico e para a identificação de lacunas que orientem futuras pesquisas. 

Para garantir a qualidade e a transparência metodológica, foram seguidas as recomendações do PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta Analyses), conforme descrito por Moher et al. (2009). Assim, a busca, seleção, elegibilidade e inclusão dos estudos foram conduzidas de maneira estruturada e reprodutível. A pergunta norteadora que guiou a pesquisa foi: “Os enfermeiros de urgência e emergência estão preparados para manejar adequadamente pacientes em crise suicida?” 

A busca foi realizada nas bases de dados PubMed, SciELO, LILACS e BDENF.  Para a construção da estratégia de busca, utilizaram-se descritores controlados do DeCS/MeSH: “Suicídio” (Suicide), “Enfermagem de Urgência” (Emergency Nursing) e “Acolhimento” (Initial assessment), combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR, de modo a ampliar e refinar os resultados. 

Os critérios de inclusão foram: artigos publicados em português, inglês e espanhol; textos completos disponíveis gratuitamente; estudos que abordassem a atuação, capacitação ou estratégias utilizadas por enfermeiros de urgência e emergência no acolhimento a pacientes em crise suicida; pesquisas desenvolvidas em serviços hospitalares e pré-hospitalares. 

Foram definidos como critérios de exclusão: artigos de opinião, editoriais, cartas ao editor, duplicados e estudos que não apresentassem relação direta com o objeto da pesquisa. A seleção dos estudos foi realizada em três etapas: inicialmente, realizou-se a triagem por meio da leitura dos títulos e resumos; em seguida, os textos completos foram avaliados para verificar a conformidade com os critérios de inclusão; por fim, foram incorporados ao estudo apenas os artigos que atenderam a esses critérios. 

Foram inicialmente identificados 70 registros, sendo 25 na PubMed/PMC, 15 na SciELO, 15 na LILACS/BVS e 15 na BDENF. Após a exclusão de 10 estudos devido a duplicidades ou indisponibilidade, permaneceram 60 artigos para triagem (22 da PubMed/PMC, 13 da SciELO, 12 da LILACS/BVS e 13 da BDENF). Nessa etapa, 35 trabalhos foram excluídos, resultando em 25 textos completos avaliados para elegibilidade. Após a leitura integral, 12 artigos foram excluídos, culminando na inclusão de 13 estudos na amostra final, distribuídos da seguinte forma: 4 da PubMed/PMC, 3 da SciELO, 3 da LILACS/BVS e 3 da BDENF. 

O resumo do procedimento de pesquisa e seleção usado nesse artigo é apresentado no fluxograma abaixo: 

Figura 1: Fluxograma de procedimento de pesquisa e seleção usado nesse artigo:

Fonte: Elaborado pela própria autora 

3. RESULTADOS E DISCUSSÕES  

O suicídio é um grave problema de saúde pública global, apresentando aumento significativo da mortalidade e morbidade no Brasil nas últimas décadas. Observa-se crescimento expressivo em diversas faixas etárias, sendo particularmente relevante entre os jovens, sem que isso exclua outros grupos populacionais (Wünsch et al., 2022). 

Políticas públicas, como a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), desempenham papel central no enfrentamento do suicídio, fornecendo estrutura e protocolos para o atendimento de pacientes em crise (Fontão, 2020). A atuação dos enfermeiros de urgência e emergência é fundamental nesse contexto, incluindo acolhimento, triagem para suicidalidade oculta, apoio emocional e encaminhamento adequado. 

A análise dos 13 artigos selecionados na revisão integrativa reforça que a prática do enfermeiro requer capacitação técnica e emocional, supervisão contínua e abordagens interdisciplinares. Destacam-se ainda a importância de adaptar as estratégias ao contexto regional, a fim de maximizar a eficácia das intervenções. Entre os aspectos destacados estão a formação específica para manejo de crises suicidas, protocolos padronizados de triagem, comunicação terapêutica eficaz e estratégias de encaminhamento pós-crise. 

Os resultados indicam que a atuação qualificada dos enfermeiros, aliada a políticas públicas estruturadas e intervenções contextualizadas, é essencial para reduzir a mortalidade e morbidade por suicídio em diferentes faixas etárias, garantindo atendimento adequado nos serviços de urgência e emergência. 

Tabela 1 — Artigos incluídos na revisão integrativa

Título do artigo (traduzido) Autor(es) e Ano Tipo de Estudo  Objetivo Conclusão / Achado principal 
Experiências de enfermeiros na assistência a pessoas com comportamento suicida em serviços de emergência Vedana, K.G.G. et al. (2017) Estudo qualitativo  Descrever experiências e percepções de enfermeiros na assistência a pacientes suicidas Necessidade de suporte emocional, formação continuada e protocolos específicos para manejo da crise suicida 
Avaliação da suicidalidade oculta durante a triagem em serviços de emergência Wolf, L.A. et al. (2018) Estudo quantitativo Analisar importância da triagem inicial na identificação de riscos suicidas não declarados Triagem estruturada facilita detecção precoce e direciona intervenções adequadas 
Aconselhamento de pacientes suicidas sobre o acesso a meios letais: uma revisão Betz, M.E. et al. (2018) Revisão integrativa Revisar estratégias para limitar acesso a meios letais em pacientes com ideação suicida Reforça comunicação terapêutica e capacitação de enfermeiros para abordagem preventiva 
Triagem universal de suicidalidade em departamento de emergência pediátrica Do, L. et al. (2024) Estudo quase experimental Avaliar eficácia da triagem universal para identificar risco suicida em crianças e adolescentes Triagem universal aumentou significativamente a identificação precoce de jovens em risco 
Cuidado de enfermagem em urgência e emergência à pessoa em tentativa de suicídio: uma revisão integrativa Fontão, M.C. (2020) Revisão integrativa Analisar evidências sobre assistência de enfermagem a pacientes em tentativa de suicídio Identificou lacunas na formação e necessidade de padronização dos protocolos assistenciais 
Atuação do enfermeiro na prevenção do suicídio em serviços de saúde mental Silva, A.R. et al. (2019) Estudo exploratório descritivo Compreender papel do enfermeiro nas ações de prevenção e promoção da saúde mental Importância da escuta ativa, acolhimento humanizado e articulação com a RAPS 
Capacitação e educação permanente em saúde mental: desafios na prática do enfermeiro Vargas, P.R. et al. (2023) Estudo qualitativo Investigar desafios na educação permanente em saúde mental para enfermeiros Formação continuada é essencial para segurança e qualidade do cuidado em crises suicidas 
Acolhimento humanizado e prevenção do suicídio em unidades de urgência e emergência Wünsch, L. et al. (2022) Estudo qualitativo Analisar impacto do acolhimento humanizado na prevenção do suicídio Acolhimento empático e comunicação eficaz reduzem risco de revitimização e favorecem vínculo terapêutico 
Abordagem multiprofissional em situações de crise suicida: o papel da enfermagem Santos, M.L. et al. (2023) Estudo descritivo Avaliar importância da atuação multiprofissional no manejo da crise suicida Necessidade de integração entre saúde, assistência social e educação 
Sobrecarga emocional de enfermeiros diante de pacientes com comportamento suicida Baldaçara, L. et al. (2021) Estudo quantitativo Investigar impactos psicológicos no trabalho com pacientes em risco Suporte psicológico institucional é essencial para evitar desgaste emocional e afastamento 
Rede de Atenção Psicossocial e políticas públicas de prevenção do suicídio no Brasil Ministério da Saúde (Brasil, 2024) Relatório técnico e análise Descrever ações da RAPS e políticas públicas para prevenção do suicídio Políticas da RAPS e CAPS fortalecem cuidado integral, enfrentando desafios regionais 
Integração do Centro de Valorização da Vida (CVV) e das campanhas de prevenção no Sistema Único de Saúde Agência Brasil (2024) Relatório oficial Analisar contribuição do CVV e campanhas na prevenção ao suicídio Suporte gratuito e sigiloso do CVV auxilia prevenção e amplia acesso ao apoio emocional 
Desafios da enfermagem no atendimento de jovens em crise suicida na urgência Werlang, B.S.G. et al. (2018) Estudo qualitativo Identificar desafios enfrentados por enfermeiros na assistência a jovens em crise suicida Necessidade de formação específica, apoio institucional e trabalho interdisciplinar contínuo 

Fonte: Elaborado pela própria autora 

3.1 Discussão 

A análise integrativa dos estudos evidencia que o atendimento ao paciente em crise suicida nos serviços de urgência e emergência constitui um desafio complexo, exigindo dos enfermeiros preparo técnico, emocional e ético. Em consonância com Vedana et al. (2017) e Freitas (2017), o acolhimento inicial representa um ponto decisivo, pois a escuta sensível e a empatia podem reduzir o risco imediato e estabelecer vínculo terapêutico. O enfermeiro, ao reconhecer sinais verbais e não verbais de ideação suicida, torna-se o elo entre a crise e a possibilidade de intervenção eficaz.  

Contudo, diversos autores ressaltam lacunas na formação acadêmica e profissional para o manejo de situações de risco de suicídio. Estudos apontam que a temática do suicídio ainda é abordada de forma superficial nos cursos de enfermagem, comprometendo a segurança do atendimento e gerando insegurança profissional diante da crise. Nesse sentido, Fontão et al. (2020) enfatizam a necessidade de qualificação específica para o cuidado em urgência e emergência, enquanto Dantas et al. (2022) destacam a percepção dos profissionais de enfermagem sobre a importância de estratégias de acolhimento e intervenção adequadas para pacientes em risco de suicídio. Essa realidade reforça a necessidade de educação permanente e capacitação continuada, conforme defendem Vargas et al. (2023) e Betz et al. (2018), com o objetivo de desenvolver competências clínicas, comunicacionais e psicossociais. 

A literatura analisada também aponta a ausência ou fragilidade de protocolos específicos nos serviços de urgência, o que dificulta a triagem estruturada e o registro adequado das ocorrências. Wolf et al. (2018) e Wünsch et al. (2022) evidenciam que a padronização de condutas e o uso de instrumentos validados de avaliação de risco suicida permitem maior precisão diagnóstica, rapidez na tomada de decisão e melhor encaminhamento pós-

atendimento. Essa sistematização contribui para evitar a revitimização do paciente e favorece a continuidade do cuidado na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). 

Outro ponto recorrente nas publicações é a sobrecarga emocional dos profissionais, especialmente dos enfermeiros que lidam com casos repetidos de autolesão e tentativas de suicídio. Baldaçara et al. (2025) apontam que o suporte institucional e psicológico ao profissional é indispensável, visto que o desgaste emocional pode levar à desumanização do cuidado e ao afastamento laboral. Portanto, a criação de espaços de escuta e supervisão clínica é essencial para sustentar práticas seguras e compassivas.  

Além disso, os estudos revisados convergem na necessidade de fortalecer a articulação intersetorial entre os serviços de saúde, assistência social e educação, promovendo intervenções comunitárias preventivas e de reinserção social. Santos et al. (2023) e Werlang et al. (2018) destacam que o cuidado à pessoa em sofrimento psíquico não se encerra no atendimento emergencial, devendo ser integrado às políticas públicas de saúde mental, como a RAPS, os CAPS e o Centro de Valorização da Vida (CVV). Essa integração é fundamental para garantir acompanhamento longitudinal e redução das reincidências. 

Em síntese, os achados indicam consenso entre os autores quanto à necessidade de educação permanente, triagem estruturada, protocolos padronizados, escuta qualificada e articulação intersetorial. O enfermeiro, como profissional na linha de frente do cuidado à pessoa em sofrimento psíquico, desempenha papel central na redução do risco de suicídio e na promoção de cuidado seguro e humanizado. 

4. CONCLUSÃO 

Os enfermeiros de urgência e emergência desempenham papel essencial no acolhimento e manejo de pacientes em crise suicida, frequentemente constituindo o primeiro ponto de contato com o sistema de saúde. Sua atuação envolve avaliação de risco, escuta ativa, encaminhamento adequado e cuidado humanizado, sendo determinante para a prevenção do suicídio e para a qualidade da assistência prestada. 

Entretanto, persistem desafios significativos, como lacunas na formação profissional, ausência de protocolos específicos e sobrecarga nos serviços, que limitam a efetividade do cuidado. Esses fatores evidenciam a necessidade de capacitação contínua, desenvolvimento de protocolos claros e adequação da infraestrutura, garantindo que os enfermeiros possam atuar de forma segura e eficaz. 

Por fim, recomenda-se que gestores de saúde e instituições educacionais considerem as evidências apresentadas para promover políticas e práticas que fortaleçam a atuação dos enfermeiros na rede de urgência e emergência. O aprimoramento da formação profissional e das estratégias de atendimento empático contribui significativamente para a redução das taxas de suicídio, destacando a relevância social e acadêmica do tema e incentivando novas pesquisas e investimentos no campo. 

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1Discente do Curso Superior de Enfermagem do Centro Universitário de Goiatuba – Unicerrado. E-mail: Lorenamenezes0401@gmail.com
2Docente do Curso Superior de Enfermagem do Centro Universitário de Goiatuba – Unicerrado. Mestre Enfermagem, Mestra em Ambiente e Sociedade. E-mail: kenniatassara@unicerrado.edu.br