O PAPEL DO CIRURGIÃO DENTISTA NAS UNIDADES DE TERAPIA INTENSIVA (UTI)

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202510261350


Edilaine Da Costa Oliveira
Luciana De Mello Da Cunha
Orientador: Ednaldo Silva


RESUMO

Este trabalho analisa o papel do cirurgião-dentista nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) com foco na prevenção de infecções hospitalares, especialmente a pneumonia associada à ventilação mecânica (PAV). A presença odontológica contribui para a promoção da saúde bucal, redução da PAV, menor tempo de internação e melhora do prognóstico clínico. Apesar dos benefícios comprovados, a atuação ainda enfrenta desafios legais e estruturais no Brasil.

Palavras-chave: odontologia hospitalar, UTI, pneumonia, ventilação mecânica, saúde bucal

ABSTRACT

This study analyzes the role of the dentist in Intensive Care Units (ICUs), focusing on the prevention of hospital-acquired infections, especially ventilator-associated pneumonia (VAP). Dental care contributes to oral health promotion, reduction of VAP incidence, shorter hospital stays, and improved clinical outcomes. Despite the proven benefits, dental practice in Brazilian ICUs still faces legal, structural, and educational challenges.

Keywords: hospital dentistry, ICU, pneumonia, mechanical ventilation, oral hea

1. INTRODUÇÃO

A presença do cirurgião-dentista nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) tem se mostrado essencial na promoção da saúde bucal e na prevenção de infecções hospitalares, especialmente a pneumonia associada à ventilação mecânica (PAV). Pacientes internados em UTIs, frequentemente submetidos à ventilação mecânica e com comprometimento do sistema imunológico, estão mais suscetíveis à colonização por microrganismos patogênicos na cavidade oral, o que pode levar a infecções respiratórias graves (1).

Estudos demonstram que a atuação do cirurgião-dentista na UTI contribui significativamente para a redução da incidência de infecções respiratórias. De acordo com dados da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP), a presença desse profissional pode reduzir em até 60% as chances de desenvolvimento de infecções respiratórias em pacientes internados (2). Além disso, a implementação de protocolos de higiene bucal, como o uso de clorexidina 0,12%, tem se mostrado eficaz na redução da colonização bacteriana na cavidade oral, diminuindo o risco de infecções sistêmicas (3).

A atuação do cirurgião-dentista na UTI não se limita à higiene bucal. Esse profissional também é responsável pela avaliação e tratamento de lesões orais, controle de focos infecciosos, orientação da equipe de enfermagem quanto aos cuidados bucais e participação nas discussões clínicas multidisciplinares (4). A integração do cirurgião-dentista à equipe da UTI promove uma abordagem mais abrangente e humanizada, contribuindo para a melhora do estado geral do paciente e para a redução do tempo de internação (5).

Apesar das evidências científicas que respaldam a importância da atuação odontológica nas UTIs, muitos hospitais ainda não contam com a presença regular de cirurgiões-dentistas em suas equipes. A falta de regulamentação específica e a escassez de profissionais capacitados para atuar nesse ambiente são alguns dos desafios a serem enfrentados para a consolidação da odontologia hospitalar (6).

2 REVISÃO DE LITERATURA 

2.1. Atuação odontológica na UTI como parte da equipe multidisciplinar

A incorporação do cirurgião-dentista na UTI possibilita intervenções regulares de higiene bucal e identificação precoce de focos infecciosos, colaborando com a equipe multiprofissional na promoção da saúde oral e na prevenção de infecções respiratórias (7) . Além disso, protocolos formalizados de higiene bucal conduzidos por dentistas estão associados a redução significativa da incidência de pneumonia nosocomial em pacientes críticos (8) .

2.2. Relação entre presença odontológica e redução da pneumonia associada à ventilação mecânica (PAV)

Intervenções odontológicas profissionais demonstram redução marcante na incidência de infecções respiratórias inferiores, com taxas de 8,7 % em contraste com 18,1 % na ausência desse cuidado. A densidade de PAV também reduziu de 16,5 para 7,6 casos por 1.000 VM‑dias (9) . Em outra casuística envolvendo mais de 4.000 pacientes, a PAV caiu de 21,1 % para 3,6 % e a mortalidade por VAP diminuiu de 48,9 % para 20 % após implementação de protocolo odontológico (10) .

2.3. Protocolos e rotinas de higiene oral em UTIs com atuação odontológica regular

UTIs brasileiras com serviços odontológicos à beira-leito tendem a implantar protocolos de higiene bucal mais consistentes e treinamento contínuo da equipe de enfermagem (11) . A estratégia mais eficaz combina escovação mecânica comclorexidina 0,12 %, superando métodos isolados baseados apenas em antissépticos (12) .

2.4. Impactos na redução do tempo de internação e melhora do prognóstico clínico

Intervenções odontológicas regulares resultaram em queda da mortalidade geral na UTI de aproximadamente 32 % para 28,7 %, independentemente da estabilidade na incidência de PAV (13) . Em contexto oncológico, com higiene oral sob supervisão dentária, a densidade de PAV diminuiu de 10 para 0,8 casos por 1.000 VM‑dias, com redução da mortalidade de 70,7 % para 35 % (14) .

2.5. Avaliação da eficácia da escovação odontológica com clorexidina

Um estudo brasileiro randomizado envolvendo 90 pacientes ventilados concluiu que a escovação com sucção associada ao gel de clorexidina 0,12 % reduziu significativamente a carga de microrganismos patogênicos bucais em relação ao uso de gaze embebida em clorexidina (15) . Esses resultados sustentam a adoção de higiene bucal profissional em UTIs como forma efetiva de reduzir a colonização oral e potencial risco de pneumonia associada à ventilação.

2.6. Condições para implementação de práticas odontológicas na UTI

Projetos implementados em hospitais brasileiros mostraram que auditorias clínicas associadas à educação continuada da equipe aumentam significativamente a adesão a práticas recomendadas de higiene oral, com mais de 80 % de cumprimento de protocolos em pacientes ventilados (16) .

2.7. Desafios e perspectivas no cenário nacional

Apesar dos benefícios observados, a presença sistemática do cirurgião-dentista em UTIs ainda é irregular no Brasil, em parte devido à falta de regulamentação formal e à carência de capacitação específica para atuação em ambiente hospitalar (17) . Ademais, os aspectos legais e estruturais que garantem a inclusão institucional do dentista no núcleo da UTI ainda carecem de avanços concretos para consolidar a odontologia hospitalar como prática padrão (18)

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A atuação do cirurgião-dentista em Unidades de Terapia Intensiva se revela como um componente essencial na abordagem multiprofissional voltada ao cuidado integral do paciente crítico. Evidências recentes demonstram que a presença desse profissional está diretamente relacionada à redução de infecções hospitalares, especialmente a pneumonia associada à ventilação mecânica, além de contribuir para a diminuição do tempo de internação e da mortalidade em pacientes graves. A aplicação de protocolos de higiene bucal bem estruturados, aliados à capacitação das equipes de saúde, mostra-se eficaz na promoção da saúde oral e sistêmica dentro do ambiente intensivo. Contudo, desafios persistem no cenário brasileiro, como a ausência de regulamentações específicas e a limitação de políticas públicas que garantam a inclusão sistemática do cirurgião-dentista nas UTIs. Superar essas barreiras exige esforços conjuntos entre instituições de saúde, gestores, órgãos reguladores e instituições formadoras. Assim, consolidar a odontologia hospitalar como parte integrante da equipe de cuidados intensivos é um passo necessário para qualificar o atendimento e humanizar a assistência ao paciente em estado crítico.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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