O PAPEL DA ENFERMAGEM EM PACIENTES PEDIÁTRICOS COM LEUCEMIA LINFOIDE AGUDA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510281834


Leticia Ramos Patrocinio1
Monaliza Alves Godoy2
Orientadora: Profa. Lucia Helena Ferreira Viana3
Fernanda Carini4


RESUMO: O objetivo do estudo é relatar o papel da enfermagem em pacientes pediátricos com leucemia linfoide aguda, a metodologia utilizada trata-se de estudo exploratório de revisão da literatura nas bases de dados BVS, LILACS, BDENF E SCIELO. Os resultados encontrados abordam a predominância das leucemias como o tipo mais frequente na infância. As leucemias, de maneira geral, são caracterizadas pelo crescimento desordenado de leucócitos malignos na medula óssea e no sangue. O desafio da leucemia linfoide aguda (LLA) é sua apresentação clínica de forma inespecífica, sobrepondo-se sintomatologicamente a diversas patologias, o que pode resultar em diagnósticos equivocados e atraso na identificação precoce da doença. Atualmente, o manejo da leucemia linfoide aguda (LLA) divide-se em tratamento de suporte e tratamento específico, sendo assim quanto antes identificado e iniciado o tratamento adequado proporciona uma evolução positiva para cura de até 90%. Concluindo se que o impacto psicológico do câncer pediátrico é significativo, gerando instabilidades emocionais tanto para o paciente quanto para sua família. A abordagem multidisciplinar tem permitido uma assistência mais abrangente, não apenas visando a cura, mas também promovendo qualidade de vida durante o tratamento. O plano de cuidado de enfermagem voltado à criança oncológica abrange um conjunto de intervenções complexas, que vão além da assistência clínica direta, integrando suporte psicológico ao paciente e sua família, além de medidas específicas relacionadas ao protocolo terapêutico, essas ações são fundamentais para reduzir os impactos da doença e aperfeiçoar o tratamento, favorecendo a evolução clínica dos pacientes.  

Palavras-chave: Enfermagem, Pediatria, Leucemia linfoide aguda. 

Introdução  

O câncer é um dos grandes problemas de saúde pública no mundo com estimativa de incidência crescente a cada ano e umas das principais causas de morte (DANTAS et al., 2025). Hipócrates, considerado o pai da medicina, foi o primeiro a utilizar a palavra de origem grega “Karkinos” que em latim significa câncer, devido às características das lesões que se assemelhavam ao comportamento do caranguejo, ou seja, com penetração profunda na pele (SANTOS et al., 2023). 

O termo “câncer” é bastante abrangente, pois refere-se a um grupo de mais de 100 doenças, caracterizada pela proliferação descontrolada de células anormais e que podem ocorrer em qualquer órgão, além de aspectos biológicos diferenciados (GONÇALVES, 2023). A neoplasia é o crescimento anormal e descontrolado de células que formam um novo tecido (tumor), que por sua vez podem apresentar um crescimento lento ou, em sua forma mais agressiva, expandir-se rapidamente no organismo humano. Seu surgimento ocorre a partir do mesmo material (células) que se multiplica para criar ou regenerar tecidos. Nesse processo de divisão celular, são geradas células idênticas à original, que passam por diversos pontos de checagem para manter suas características iniciais. No entanto, se durante esse processo ocorrer um erro, a célula ‘defeituosa’ pode se dividir de forma descontrolada, causando danos aos tecidos do organismo. Essa expansão desordenada e ilimitada pode gerar um desequilíbrio no corpo, destruindo-o de dentro para fora (BITENCOURT, 2023).  

As neoplasias malignas podem surgir em indivíduos de qualquer idade, sexo ou raça. No entanto, a ocorrência de câncer em crianças é significativamente menor quando comparada à dos adultos, representando entre 1% e 3% de todos os tumores malignos na maioria das populações. Apesar de sua raridade, o câncer infantil exige um estudo individualizado devido às suas características específicas, como os locais primários de desenvolvimento, as origens histológicas e os variados comportamentos clínicos (BITENCOURT, 2023).  

Entre as diversas particularidades do câncer infantil, destaca-se a predominância das leucemias como o tipo mais frequente na infância e adolescência. As neoplasias que afetam os tecidos hematopoiéticos apresentam maior prevalência nessa faixa etária (GONÇALVES, 2023). Dados publicados pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA) em 2023 indicam a estimativa de aproximadamente 7,9 mil novos casos de câncer pediátrico no Brasil, englobando todos os tipos, incluindo as leucemias (SANTOS et al., 2023).  

As leucemias, de maneira geral, são caracterizadas pela proliferação desordenada de leucócitos malignos na medula óssea e no sangue. Essas neoplasias podem ser classificadas como crônicas, de evolução lenta, ou aguda, geralmente mais agressiva, embora frequentemente apresentem melhores perspectivas de cura em comparação às crônicas. Nos dois grandes grupos, as leucemias são diferenciadas pelo tipo celular de origem, podendo ser mieloides e linfoides (DANTAS et al., 2025).  

A leucemia mieloide, também denominada mieloblástica, caracteriza-se pela malignidade dos leucócitos originados da linhagem mielóide. Essa neoplasia apresenta duas formas principais: a crônica, com evolução lenta e predominância em adultos, e a aguda, caracterizada por rápido avanço, acometendo tanto crianças quanto adultos. Por outro lado, a leucemia linfóide, ou linfoblástica, é composta por células malignas de linhagem linfóide. Enquanto a sua forma crônica dessa leucemia tem desenvolvimento gradual, afetando majoritariamente indivíduos acima de 55 anos e raramente crianças. A forma aguda progride rapidamente, sendo o tipo mais comum em crianças, embora também ocorra em adultos. Dados apresentados por Canevarolo (2025) indicam que a leucemia linfóide aguda (LLA) corresponde a cerca de 80% das leucemias diagnosticadas em pacientes com até 15 anos de idade.  

O mesmo autor descreve que a LLA, apesar de sua evolução agressiva, apresenta uma taxa de cura em crianças de até 90%, quando diagnosticada e tratada precocemente. O diagnóstico precoce é essencial, pois permite o início de quimioterapias atualizadas em condições de carga tumoral reduzida, resultando em melhor prognóstico e maior probabilidade de remissão (CANEVAROLO, 2025). 

O impacto emocional associado ao diagnóstico de LLA é significativo, desestabilizando não apenas o paciente, mas também seus familiares e cuidadores. No caso de crianças, esse impacto é ainda mais profundo devido às perspectivas interrompidas de futuro, associado ao estigma de finitude precoce (SANTOS et al., 2024). Nesse contexto, a atuação dos profissionais de saúde torna-se fundamental, especialmente da equipe de enfermagem, que desempenha um papel crucial ao proporcionar assistência integral ao paciente durante todas as fases do tratamento. Segundo Bitencourt (2023), a enfermagem, como parte da equipe multidisciplinar, é indispensável no cuidado à criança com câncer, promovendo a humanização do atendimento e contribuindo para o aumento das taxas de cura.  

Diante desse cenário, este estudo propõe-se a explorar as principais características da LLA, a forma mais prevalente de câncer na infância, com enfoque na contribuição da enfermagem no atendimento oncológico, destacando sua relevância na garantia de um cuidado contínuo e individualizado ao paciente pediátrico. 

Metodologia  

Trata-se de um estudo de revisão bibliográfica, de natureza descritiva e exploratória. 

A coleta dos dados foi realizada por meio de consulta informatizada no banco de dados bibliográficos da Biblioteca Virtual de Saúde (BVS) e incluiu os artigos indexados nas bases de dados: Literatura Latino-Americana em Ciências de Saúde (LILACS), Base de Dados Bibliográficos 

Especializada na Área de Enfermagem do Brasil (BDENF) e Scientific Eletronic Library Online(SCIELO). Os descritores utilizados nesta pesquisa foram consultados na lista de descritores em Ciências da Saúde (DECs). Para identificação dos artigos, foram utilizados os descritores “SCIELO” and “BVS”. Na etapa subsequente, foram selecionados os artigos de interesse para o trabalho, considerando-se como critérios: artigos da área da saúde, ser um trabalho desenvolvido no âmbito nacional; ter sido publicado nos últimos cinco anos, estar disponível na íntegra em português online, abordar no resumo e/ou no título características e/ou aspectos sobre: O papel de enfermagem em pacientes pediátricos com leucemia linfóide aguda. 

Método e técnica de coleta dos dados. A partir dessa busca, realizou-se leitura exploratória que se constitui na verificação dos resumos com a finalidade de selecionar os artigos relacionados ao objeto de estudo, após foi realizada uma leitura do artigo na íntegra e posterior análise e discussão do mesmo, de acordo com seus resultados e parâmetros, além de síntese dos resultados apresentados nas publicações. 

Revisão de Literatura  

Atualmente, os estudos apontam que o câncer é uma enfermidade caracterizada pela proliferação descontrolada de uma célula, desencadeada por mutações no DNA. Essas mutações afetam especificamente genes associados à regulação do ciclo celular, promovendo um crescimento celular desordenado e potencialmente invasivo (RODRIGUES & OLIVEIRA, 2023). 

Embora o conceito de crescimento celular possa parecer simples, a complexidade envolvida no seu controle desafia a ciência, levando-a a reconhecer a profundidade e o impacto desse fenômeno biológico. Bitencourt (2023) destaca que o crescimento celular é essencial à manutenção da vida, uma vez que o organismo humano consiste fundamentalmente em um conglomerado de células em constante adaptação e proliferação. No entanto, os mesmos mecanismos que asseguram a homeostase fisiológica também podem desencadear processos patológicos, dado que células neoplásicas apresentam capacidades de crescimento, adaptação e reparação significativamente ampliadas, tornando o câncer uma condição de alta agressividade (BITENCOURT et al., 2023). 

Nas últimas décadas, o aumento da prevalência do câncer e sua relevância epidemiológica consolidaram essa enfermidade como uma das principais preocupações em saúde pública. Projeções da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que, até 2030, a incidência global de câncer poderá atingir 27 milhões de casos anuais, com aproximadamente 17 milhões de óbitos e 75 milhões de indivíduos convivendo com essa condição (OMS, 2025). 

A análise da distribuição etária das neoplasias revela uma menor incidência de câncer em crianças e adolescentes comparadas à população adulta, o que pode levar a uma percepção equivocada sobre sua relevância epidemiológica. Contudo, esses casos representam um percentual significativo. De acordo com Gonçalves et al. (2023), os cânceres pediátricos correspondem a cerca de 2 a 3% do total de neoplasias diagnosticadas em adultos, com estimativas apontando aproximadamente 400.000 casos anuais no Brasil. Segundo o INCA 2025, a leucemia é a neoplasia predominante em populações pediátricas, correspondendo 25 a 35% dos casos diagnosticados, sendo a Leucemia Linfoide Aguda (LLA) a forma mais incidente em crianças entre 0 e 14 anos. 

A leucemia é uma neoplasia hematológica caracterizada pela proliferação descontrolada de leucócitos, sendo objeto de intensas especulações científicas desde o século XIX. O termo “leucemia” foi introduzido pelo médico escocês John Bennett, derivado do grego leukos, que significa “branco”, em referência à hiperprodução de células leucocitárias no sangue periférico (SILVA & LATORRE, 2020). O crescimento exacerbado das células neoplásicas compromete a hematopoiese normal, suprimindo a produção de elementos figurados do sangue na medula óssea por competição metabólica e depleção de nutrientes essenciais (CANEVAROLO, 2025). 

A classificação das leucemias baseia-se na linhagem celular predominante no processo proliferativo, dividindo-se em mieloide (ou mielocítica) e linfoide (ou linfocítica), conforme a célula envolvida na patogênese da doença (BITENCOURT et al., 2023). Adicionalmente, distinguem-se as formas aguda e crônica, conforme o grau de diferenciação celular e a velocidade de progressão da doença. A leucemia crônica evolui de maneira mais lenta devido à presença de células mais diferenciadas que mantêm certa funcionalidade fisiológica, resultando em um quadro clínico menos agressivo. Por outro lado, a leucemia aguda caracteriza-se pela rápida proliferação de células imaturas, incapazes de desempenhar funções hematológicas normais, levando à disfunção severa da medula óssea e a um quadro clínico grave, potencialmente fatal sem intervenção terapêutica precoce (RODRIGUES & OLIVEIRA, 2023). 

A LLA é caracterizada pela expansão descontrolada de linfoblastos na medula óssea, onde essas células imaturas competem com os elementos normais da hematopoiese, ocupando o microambiente medular (PEDRAZA et al., 2022). Essa variante da leucemia é prevalente na infância, embora os fatores etiológicos específicos que justificam sua maior incidência nesta faixa etária ainda não estejam completamente elucidados (RODRIGUES & OLIVEIRA, 2023). 

Estudos indicam uma associação entre predisposição genética e exposição ambiental, com aumento da incidência em indivíduos portadores de defeitos cromossômicos constitucionais e em filhos de gestantes expostas à radiação ionizante durante o primeiro trimestre da gravidez (DANTAS et al., 2025). De acordo com Amaral & Juvenale (2020), as manifestações clínicas da LLA decorrem principalmente da insuficiência medular e da infiltração de órgãos. O comprometimento da hematopoiese pode resultar em anemia (palidez, fadiga, dispneia), neutropenia (febre, infecções recorrentes) e trombocitopenia (equimoses espontâneas, púrpura, sangramentos mucocutâneos). Já a infiltração de tecidos pode levar a dor óssea, linfonodomegalia, esplenomegalia moderada, hepatomegalia e sintomas neurológicos como cefaleia, náuseas, vômitos, visão turva e diplopia, caracterizando a síndrome meníngea (SANTOS et al., 2024). 

Conforme Amaral & Juvenale (2020), o diagnóstico da leucemia aguda é estabelecido clinicamente quando há presença de mais de 20% de blastos no sangue periférico ou na medula óssea. Contudo, nos casos em que há anormalidades genético-moleculares específicas associadas à leucemia, a confirmação pode ocorrer mesmo com índices inferiores a 20% de blastos. Segundo Basquiera (2023), os exames laboratoriais desempenham papel crucial no diagnóstico da LLA, sendo a imunofenotipagem por citometria de fluxo uma técnica essencial para a caracterização dos subtipos da doença, possibilitando a definição de estratégias terapêuticas mais adequadas. Além disso, Rodrigues & Oliveira (2023) aponta que outras metodologias, como análise citogenética, mielograma e exames bioquímicos, também são empregadas na avaliação diagnóstica da LLA, auxiliando na escolha da terapia mais apropriada para cada paciente.  

Basquiera (2023) destacam que a punção lombar para análise do líquor, embora tenha sido amplamente utilizada no passado, tornou-se menos frequente, pois estudos demonstraram o risco de disseminação de células leucêmicas para o sistema nervoso central (SNC) decorrente da técnica. Dessa forma, a abordagem diagnóstica da LLA evoluiu significativamente, permitindo um manejo mais preciso e seguro da doença. Desde então, as pesquisas oncológicas continuam avançando, buscando abordagens terapêuticas mais eficazes e menos citotóxicas. Estudos em farmacologia e biotecnologia têm sido conduzidos para o desenvolvimento de agentes antineoplásicos inovadores, estratégias para prevenir mutações celulares, e mecanismos para eliminar células malignas sem comprometer a homeostase do organismo (ARANTES et al., 2023). 

Atualmente, o manejo da LLA divide-se em tratamento de suporte e tratamento específico. O primeiro visa mitigar os efeitos da insuficiência medular por meio de um cateter venoso central, facilitando a administração de quimioterápicos, hemoterápicos e nutrição parenteral, além de permitir a realização de exames laboratoriais frequentes (BITENCOURT et al., 2023). O tratamento específico, por sua vez, é baseado em protocolos quimioterápicos ajustados conforme a avaliação clínica e laboratorial do paciente, visando minimizar toxicidades e maximizar a resposta terapêutica (CANEVAROLO, 2025). 

A quimioterapia pode ser complementada pela irradiação craniana e segue quatro fases: indução, profilaxia do sistema nervoso central (SNC), intensificação (consolidação) e manutenção (DANTAS et al., 2025). A fase de indução objetiva a rápida redução da carga tumoral, promovendo a remissão completa (<5% de blastos na medula). A profilaxia do SNC visa impedir a infiltração leucêmica no sistema nervoso central. A fase de intensificação foca na erradicação de células neoplásicas residuais e na contenção de clones malignos resistentes. Já a terapia de manutenção busca preservar a remissão, utilizando esquemas cominados de quimioterapia e/ou radioterapia, conforme o quadro clínico do paciente (BONASSA et al., 2022). 

Embora a radioterapia seja uma modalidade terapêutica relevante no tratamento da leucemia, seu uso pediátrico é cercado de desafios devido às especificidades fisiológicas dos pacientes. A redução progressiva das doses e o avanço das tecnologias de radioterapia pediátrica têm sido fundamentais para minimizar efeitos adversos e aumentar a eficácia terapêutica (BONASSA et al., 2022). Outra alternativa terapêutica de grande impacto é o transplante de medula óssea (TMO), que consiste na infusão intravenosa de células progenitoras hematopoéticas para restaurar a funcionalidade da medula óssea comprometida. Essas células podem ser obtidas do sangue periférico, medula óssea ou cordão umbilical do doador. No entanto, barreiras imunológicas, como a doença do enxerto contra o hospedeiro, limitam a ampla utilização dessa abordagem (PEDRAZA et al., 2022). 

Perante os intervalos entre diagnóstico e tratamento, o impacto psíquico/emocional do câncer pediátrico é significativo, gerando instabilidades emocionais tanto para o paciente quanto para sua família. Portanto o mundo lúdico carregado de inocência e entusiasmo é abalado pelos procedimentos invasivos, hospitalização prolongada e efeitos colaterais comprometem o bem-estar da criança, rompendo vínculos sociais e escolares, além de gerar uma experiência traumática para a criança e familiares (ARANTES et al., 2023). 

Nesse momento o enfermeiro é o profissional mais capacitado e presente para apoiar e orientar o paciente e sua família durante o processo de adoecimento, tratamento e reabilitação, influenciando diretamente na qualidade de vida futura (BONASSA et al., 2022). Humanizar é oferecer condições para que o ser humano se desenvolva em sua totalidade, com afeto e respeito. Isso significa tornar o cuidado mais sensível e centrado na pessoa (GONÇALVES et al., 2023). Prestar uma assistência de qualidade vai além de tratar a doença — é enxergar o indivíduo como um ser integral, considerando suas dimensões físicas, emocionais e sociais. 

Na assistência de enfermagem, é essencial que o profissional compreenda que o cuidado não se limita ao corpo físico. É necessário valorizar também os aspectos biológicos, psicológicos e sociais, especialmente no caso das crianças. O bem-estar emocional infantil contribui significativamente para o sucesso do tratamento e da recuperação. Por isso, a enfermagem deve adotar atitudes que preservem os valores da vida humana e ofereçam um cuidado diferenciado, respeitando as necessidades específicas da criança e promovendo uma rotina que se aproxime ao máximo da sua vida cotidiana (RODRIGUES & OLIVEIRA, 2023). 

A enfermagem desempenha um papel fundamental na assistência à criança com câncer, atuando tanto no apoio ao paciente quanto à família. Sua presença constante contribui para o enfrentamento do tratamento e para a promoção da recuperação, tornando o cuidado mais humano, acolhedor e eficaz (SANTOS et al., 2024).  

A criança diagnosticada com LLA enfrenta não apenas os desafios físicos impostos pelo tratamento, mas também profundas repercussões emocionais e sociais que afetam sua rotina, identidade e vínculos familiares. O enfermeiro como profissional que mantém contato direto e contínuo com o paciente pediátrico, deve compreender de forma sensível e aprofundada os aspectos psicológicos, emocionais e sociais vivenciados pela criança e sua família, respeitando suas dificuldades específicas e inserindo essa criança/adolescente em desenvolvimento em seu contexto sociocultural e religioso, de modo a garantir uma assistência integral (CANEVAROLO, 2025). 

Durante o tratamento, o enfermeiro desempenha papel fundamental na mediação das mudanças físicas, como a perda de cabelo decorrente da quimioterapia, que pode gerar sofrimento e impacto na autoestima da criança. O futuro incerto, as alterações no estilo de vida e o afastamento do convívio social, muitas vezes promovido pela própria família como forma de proteção diante do medo da rejeição, exigem do profissional atitudes acolhedoras e estratégias que favoreçam a aceitação e adaptação da criança ao novo cenário (ARANTES et al., 2023). 

A comunicação clara e empática é essencial. Cabe ao enfermeiro explicar os procedimentos a serem realizados, utilizando uma linguagem acessível à criança e ao acompanhante. Diante da natureza invasiva e dolorosa de intervenções como biópsias de medula, venopunções e punções lombares, o uso de brinquedos e materiais lúdicos pode facilitar o entendimento e reduzir a ansiedade, promovendo maior segurança e cooperação por parte da criança (ARANTES et al., 2023). 

A humanização da assistência vai além da competência técnica e científica. Ela se manifesta por meio de atitudes que dignificam a vida humana, reconhecendo a criança como um ser integral. O cuidado deve contemplar não apenas o corpo biológico, mas também o universo psicossocial infantil, oferecendo um tratamento diferenciado do aplicado aos adultos, com ações voltadas para o cotidiano da criança e atividades que recriem um ambiente favorável à sua vivência (RODRIGUES & OLIVEIRA, 2023). 

A internação hospitalar representa uma ruptura significativa na vida da criança, especialmente diante de um diagnóstico grave como a LLA. O tempo prolongado de tratamento, os procedimentos invasivos, os traumas físicos e psíquicos, a alteração da imagem corporal, a alta taxa de mortalidade e os conflitos familiares tornam essa experiência particularmente complexa (RODRIGUES & OLIVEIRA, 2023). 

Nesse contexto, o brinquedo terapêutico surge como uma ferramenta valiosa para a equipe de saúde. Ele permite à criança expressar sentimentos, compreender o ambiente hospitalar e se preparar para os procedimentos, contribuindo para a redução da ansiedade e promovendo relaxamento e bem-estar. Além disso, favorece a comunicação entre a criança e os profissionais, potencializando o cuidado humanizado (BITENCOURT et al., 2023). 

É imprescindível que toda a equipe compreenda o valor do brincar no ambiente hospitalar. As brincadeiras não apenas humanizam o atendimento, mas também estimulam o desenvolvimento neuropsicomotor e atuam como aliados na prevenção de crises de saúde mental em crianças com leucemia (RODRIGUES & OLIVEIRA, 2023). 

A necessidade de brincar permanece mesmo diante da doença e da hospitalização. Trata-se de uma atividade essencial para o bem-estar infantil, pois contribui para o desenvolvimento físico, emocional, mental e social. O brincar torna-se, assim, um instrumento terapêutico poderoso, capaz de auxiliar na adaptação à doença e no enfrentamento do tratamento, sendo reconhecido como uma via legítima de recuperação da saúde e formação da criança frente à sua nova realidade. 

Em relação ao plano de cuidado de enfermagem voltado especificamente durante tratamento da criança com LLA, destaca-se o alívio da dor, prevenção de complicações da mielossupressão, precauções na administração e no manuseio de agentes quimioterápicos e manejo da toxicidade dos quimioterápicos. 

Relacionado ao manejo da dor em crianças com câncer exige uma abordagem sensível e personalizada. Pacientes pediátricos nem sempre conseguem verbalizar seu sofrimento, tornando a observação de sinais clínicos uma ferramenta indispensável para avaliar a intensidade da dor e determinar a melhor estratégia de intervenção. Além do uso de fármacos analgésicos, o enfermeiro pode recorrer a medidas não farmacológicas, como massagens terapêuticas, o uso de compressas mornas ou frias, musicoterapia e técnicas de respiração, buscando proporcionar maior conforto ao paciente (GONÇALVES et al., 2023).  

Quanto a mielossupressão a base o tratamento da leucemia é o uso de quimioterápicos que induzem a redução significativa de leucócitos, hemácias e plaquetas. Essa condição aumenta a vulnerabilidade da criança a infecções oportunistas, hemorragias e episódios de anemia severa. O enfermeiro deve estabelecer medidas preventivas rigorosas, incluindo a adoção de protocolos de isolamento protetor, cuidados com higiene e profilaxia antimicrobiana. Além disso, a monitorização contínua de sinais de sangramento e infecção se torna fundamental para a rápida identificação e manejo de intercorrências, prevenindo complicações mais graves (BONASSA et al., 2022).  

Concomitante ao uso de quimioterápicos é verificado sua toxicidade como náuseas, vômitos, anorexia, mucosite, neuropatia periférica, cistite hemorrágica, alopecia, alterações metabólicas e distúrbios emocionais, como mudanças de humor e ansiedade. O profissional de enfermagem deve estar atento à manifestação desses sintomas, intervindo precocemente para minimizar o impacto na qualidade de vida do paciente. A adoção de protocolos para controle de náusea e vômito, suporte nutricional adequado, uso de agentes citoprotetores e intervenções psicossociais são estratégias essenciais para mitigar a toxicidade da terapia (RODRIGUES & OLIVEIRA, 2023). 

E finalmente os fármacos utilizados na quimioterapia apresentam riscos tanto para o paciente quanto para os profissionais que os manuseiam. Muitos desses agentes são vesicantes, capazes de causar lesões teciduais severas se extravasados para o espaço perivascular. Para minimizar riscos, o enfermeiro deve seguir protocolos de segurança, garantindo a correta diluição e administração dos fármacos, além de utilizar equipamentos adequados, como sistemas fechados de infusão e luvas de proteção para evitar contaminação. O treinamento contínuo da equipe sobre normas de biossegurança também é essencial para reduzir a exposição ocupacional a agentes citotóxicos (BONASSA et al., 2022 ; RODRIGUES & OLIVEIRA, 2023 ; GONÇALVES et al., 2023). 

Conclusão 

O desenvolvimento desta pesquisa possibilitou ampliar o conhecimento sobre a leucemia linfóide aguda infantil e evidenciar o papel essencial da enfermagem na assistência oncológica. Diante da complexidade da doença e dos impactos físicos, emocionais e sociais que ela provoca, torna-se evidente que o cuidado ao paciente pediátrico oncológico exige do profissional de enfermagem não apenas domínio técnico, mas também sensibilidade, empatia e preparo emocional. 

A atuação da enfermagem, pautada na humanização, é fundamental para garantir um ambiente acolhedor, seguro e adaptado às necessidades da criança e de sua família. Estratégias como o uso do brinquedo terapêutico, a comunicação clara e o respeito à individualidade do paciente contribuem significativamente para a adesão ao tratamento e para a promoção do bem-estar. 

Além disso, destaca-se a importância da formação acadêmica voltada para a oncologia pediátrica, considerando que o câncer infantil é um problema de saúde pública crescente. O aprimoramento contínuo dos profissionais é indispensável para atender às exigências do mercado de trabalho e oferecer uma assistência qualificada, ética e centrada no paciente. 

Assim, espera-se que este estudo contribua para ampliar a visão dos profissionais de enfermagem sobre a leucemia linfóide aguda infantil e incentive práticas que valorizem a vida, promovam o cuidado integral e fortaleçam a atuação da enfermagem na oncologia pediátrica. 

Referências 

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1Graduanda: Enfermagem leeh.ramoos00@outlook.com – Centro Universitário – UNIPIAGET
2Graduanda: Enfermagem monalizagodoy96@gmail.com – Centro Universitário – UNIPIAGET
3Orientadora e Docente de Enfermagem luciahelena@unipiaget.edu.br – Centro Universitário – UNIPIAGET
4Coordenadora de Enfermagem enfermagem@unipiaget.edu.br – Centro Universitário – UNIPIAGET