O MICROBIOMA BUCAL E SUA ASSOCIAÇÃO COM O RISCO DE CÂNCER ORAL

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202511232136


Andrey Setúbal Swinka Ferreira
Orientador: Prof. Me. Leopoldo Luiz Rocha Fujii


RESUMO

O carcinoma espinocelular oral (CEC) é uma neoplasia maligna de grande relevância em saúde pública, caracterizada por alto potencial de invasão local e metástase, além de estar fortemente associado a fatores de risco como tabagismo, etilismo e infecções microbianas. Nos últimos anos, a influência da microbiota oral sobre o desenvolvimento e progressão do CEC tem sido alvo de crescente interesse científico, uma vez que evidências apontam para o papel de bactérias, fungos e vírus na modulação do microambiente tumoral. Este trabalho teve como objetivo revisar e analisar as principais evidências científicas acerca da associação entre microbiota oral e o carcinoma espinocelular oral, identificando possíveis mecanismos patogênicos e potenciais biomarcadores de diagnóstico e prognóstico. Foi realizada uma revisão narrativa de literatura nas bases de dados PubMed, Scielo e ScienceDirect, contemplando artigos publicados entre 2000 e 2025. Foram incluídos estudos originais, revisões sistemáticas e metanálises que abordassem a presença, a diversidade e os efeitos de microrganismos orais em amostras de saliva, mucosa e tecido tumoral de pacientes com CEC. Os resultados demonstraram aumento da abundância relativa de bactérias anaeróbias Gram-negativas, principalmente Fusobacterium nucleatum, Porphyromonas gingivalis e Prevotella intermedia, associadas à inflamação crônica, evasão imune e resistência a quimioterápicos. Fungos do gênero Candida, especialmente C. albicans, também apresentaram maior prevalência em pacientes com CEC, podendo atuar sinergicamente com patógenos periodontais na progressão tumoral. Além disso, foi observada a participação viral, como a do papilomavírus humano (HPV), que interagem com metabólitos bacterianos, potencializando a expressão de oncogenes. Os estudos analisados reforçam que a disbiose oral contribui para a ativação de vias moleculares relacionadas à proliferação celular, angiogênese e inibição da apoptose, configurando um ambiente favorável à carcinogênese. Conclui-se que a compreensão do papel da microbiota oral no CEC pode oferecer subsídios para o desenvolvimento de novas estratégias diagnósticas e terapêuticas, bem como para a identificação de marcadores microbiológicos de risco e prognóstico. Ademais, a padronização de protocolos de coleta e análise do microbioma oral é essencial para a consolidação de resultados comparáveis entre estudos futuros, favorecendo avanços no entendimento da etiopatogênese do câncer oral.

Palavras-chave: Microbiota Bucal; Carcinoma de Células Escamosas; Disbiose; Infecção Bacteriana; Oncogênese.

1. INTRODUÇÃO

    A microbiota oral humana desempenha um papel essencial na manutenção da funcionalidade fisiológica da cavidade bucal, compreendendo mais de 700 espécies microbianas, incluindo bactérias, fungos, vírus, entre outros. (Su et al.,2021;Lamont et al., 2018) Esses microrganismos coexistem em equilíbrio, numa relação simbiótica, contribuindo para funções benéficas ao organismo, como a modulação das respostas imunológicas, a manutenção da homeostase do sistema estomatognático e a proteção contra patógenos externos, entre outras funções.(Chattopadhyay et al.,2019; Sami et al.,2020) No entanto, quando esse equilíbrio é rompido, condição conhecida como disbiose (Gao et al.,2018; Dewhirst et al., 2010), em decorrência de fatores como doenças sistêmicas, condições ambientais, estilo de vida e predisposição genética, a microbiota passa a desempenhar um papel patogênico, contribuindo para o desenvolvimento de enfermidades, tais como cárie, gengivite, periodontite e doenças da mucosa oral (Sun et al.,2020; Zaura et al., 2009; Yost et al., 2015). 

    Ademais, o desequilíbrio da flora bacteriana oral, está relacionada à infecções e desordens sistêmicas como por exemplo: endocardite bacteriana, doenças cardiovasculares, osteomielite, pneumonia por aspiração. Dessa maneira, devido a inflamação crônica e supressão da resposta imunológica, junto com higiene oral deficiente, sugere-se que bactérias, fungos e vírus presentes na cavidade bucal, quando em desordem, tem relação com o carcinoma de células escamosas (CEC) (Zhang et al,2019; Abati et al., 2020). 

    O CEC é um dos principais cânceres presentes na cavidade oral, tendo anualmente 405 mil novos casos diagnosticados em todo o mundo. Os principais fatores etiológicos são o consumo de álcool e tabaco, e outros fatores, como mascar Betel (tipo de noz mascada por povos asiáticos) (Hernandez et al.,2017) e higiene oral precária (Sun et al.,2020; Karpiński,2019). Vírus como o Papilomavirus humano (HPV) também possui papel direto na geração do câncer oral, uma vez que age na supressão de genes supressores tumorais como o P53, que tem papel fundamental na inibição de células tumorais. (Al-hebshi et al.,2019) Treponema denticola, Porphyromonas gengivalis, Fusobacterium nucleatum são algumas bactérias que geram inflamações crônicas e a formação de locais suscetíveis à transformação maligna, a chamada “cancerização de campo”, que induz o surgimento e desenvolvimento de lesões malignas (Zhang et al.,2019; Smedra et at.,2021, Kakabadze et al.,2020).

    Desse modo, esta pesquisa busca explorar quais microrganismos estão envolvidos na contribuição e, até mesmo indução, de neoplasias orais, com ênfase no carcinoma de células escamosas, e por quais mecanismos estes desencadeiam a tumorigênese, para dessa forma, ampliar as terapias de tratamento, paralisação do crescimento tumoral e prevenir recidivas. 

    2. OBJETIVOS

    2.1 Objetivo Geral

      Identificar os microrganismos que exercem papel na oncogênese, de modo a entender, por quais mecanismos desencadeiam alteração no código genético e, consequentemente, geração de células defeituosas e de crescimento descontrolado.

      2.2 Objetivos Específicos

        • Apontar os mecanismos de ação microbiana na indução da tumorigênese;
        • Demonstrar quais infecções tem relação com o desenvolvimento de desordens potencialmente malignas ou de induzir lesões malignas;
        • Propor alternativas de terapias antineoplásicas;

        3. REFERENCIAL TEÓRICO

          A microbiota oral humana compreende mais de 700 espécies microbianas como fungos, bactérias, vírus, protozoários e outros micro-organismos, sendo considerada a segunda comunidade microbiana mais diversa do corpo humano ficando atrás apenas do intestino. (Karpinski et al, 2019; Su et al.,2021). 

          O papel da microbiota oral nos seres humanos transita entre benefícios e malefícios dependendo de seu equilíbrio, chamado de simbiose onde os microrganismos presentes na cavidade bucal, em uma relação simbiótica, exercem funções importantes ao corpo humano como, modulação de respostas imunológicas, proteção contra agentes exógenos, manutenção da homeostase, entre outros. (Zhang et al,2019; Su et al.,2021). 

          Estes microrganismos também podem entrar em desequilíbrio, chamado de disbiose, por fatores externos como: estilo de vida, condições ambientais, doenças sistêmicas e predisposição genética, estes microrganismos antes benéficos, passam a desempenhar funções patológicas induzindo o desenvolvimento de patologias locais (voltadas a cavidade oral) como cáries, gengivite, periodontite, candidíase oral (Tuominen et al,2020, Gholizadeh et al.,2016), e também patologias sistêmicas como Alzheimer, osteomielite, pneumonia por aspiração, doenças cardiovasculares e neurológicas, entre outras(Karpiński et al.,2019). Portanto, especula-se que microrganismos orais estejam relacionados com a indução ou até mesmo a causa de Carcinoma espinocelular (CEC).

          O carcinoma espinocelular é um dos cânceres mais comuns da atualidade, estando em sexto lugar na ocorrência de cânceres mais comuns. Tendo como fatores etiológicos o consumo de álcool e tabaco, higiene oral precária, mascagem de betel (tipo de fumo comum em países asiáticos) (Sarkar et al, 2021; Meurman, J. H.,2010). Nesse sentido, tem se observado que, devido a inflamação crônica e supressão de respostas imunes ocasionada pelos microrganismos da microbiota oral em disbiose, associado aos principais fatores etiológicos do CEC, a microbiota oral desempenha papel fundamental no desenvolvimento do Carcinoma de células escamosas (Kakabadze et al.,2020).

          Bactérias orais como Prevotella gingivalis, Fusobacterium nucleatum e Treponema denticola, presentes geralmente na doença periodontal, são apontadas como potenciais agentes etiológicos do câncer oral (Zhang et al.,2019; Galvão-moreira et al.,2016; Irfan et al.,2020), um estudo obteve amostras de 40 chineses com CEC, coletando amostras de superfícies acometidas pela neoplasia maligna e amostras de superfícies saudáveis, sendo observado que nas superfícies patológicas havia uma maior abrangência de espécies bacterianas, com ênfase em bactérias relacionadas à periodontite. (Zhao et al.,2017; Zhang et al.,2020). Estes microrganismos geram infecções constantes e inflamação crônica, afetando vias de sinalização celular específicas, promovendo a sobrevivência de células defeituosas, aumentando a multiplicação e invasão celular, e inibindo a apoptose celular (Tuominen et al,2020).

           O vírus do papiloma humano (HPV) é reconhecido também como agente oncogênico, pois afeta o processo do ciclo celular, uma vez que possui oncoproteínas, especialmente a E7 e E6, que invadem o DNA e alteram genes antitumorais, como o p53, o “guardião” do genoma humano. (Oliveira et al,2003, Healy et al,.2019)

          Conclui-se que, entender os mecanismos por quais estes microrganismos podem induzir transformações malignas é fundamental, uma vez que, estes conceitos podem contribuir para o desenvolvimento de novos estudos de prevenção e tratamento, por meio de agentes antimicrobianos e até mesmo uso de probióticos para que, dessa forma seja possível controlar comunidades microbianas, paralisar o desenvolvimento tumoral e prevenir recidivas. 

          4. METODOLOGIA

            A presente revisão de literatura foi conduzida com o objetivo de investigar a associação entre o microbioma bucal e o risco de desenvolvimento de câncer oral, adotando uma natureza básica, pois buscou gerar conhecimento que pudesse ser utilizado para o entendimento da oncogênese. O método de raciocínio seguiu uma abordagem hipotético-dedutiva, partindo de hipóteses sobre a possível relação do microbioma oral e o câncer bucal.

            Os objetivos desta pesquisa foram de caráter exploratório, buscando compreender e descrever a associação dos microrganismos presentes na cavidade bucal e o câncer oral.

            Para tanto, foram selecionados artigos científicos publicados entre os anos de 2000 e 2025, nas línguas inglesa e portuguesa, que abordam a composição microbiana da cavidade oral e sua relação com a oncogênese oral, especialmente o carcinoma de células escamosas (CEC). As bases de dados utilizadas para a busca dos estudos foram PubMed, Scopus, Web of Science e Google Scholar. As palavras-chave utilizadas nas pesquisas incluíram: “microbioma bucal”, “câncer oral”, “oncogênese”, “carcinoma de células escamosas”, em diferentes combinações.

            A inclusão dos estudos seguiu critérios: foram selecionados artigos originais, revisões sistemáticas e meta-análises publicados em revistas científicas. Os artigos abordaram o papel do microbioma bucal ou de microrganismos específicos na progressão de doenças malignas orais. Foram excluídos estudos que não apresentaram foco direto na oncogênese oral ou que abordaram apenas condições benignas da cavidade oral, assim como pesquisas sem dados quantitativos ou qualitativos relevantes.

            Após a aplicação dos critérios de seleção, os artigos foram analisados por meio de uma abordagem qualitativa. Inicialmente, realizou-se a leitura dos resumos para verificar a pertinência de cada estudo ao tema. Em seguida, os artigos completos foram avaliados para extrair informações detalhadas sobre as interações entre o microbioma bucal e o risco de câncer oral. A análise concentrou-se em identificar as principais espécies microbianas associadas à disbiose e suas possíveis funções na modulação de processos inflamatórios e imunológicos relacionados ao desenvolvimento tumoral.

            Os dados extraídos dos estudos incluídos foram organizados e apresentados de forma a permitir a síntese dos principais achados, buscou-se compreender os mecanismos biológicos envolvidos na interação entre o microbioma bucal e a oncogênese por meio de gráficos e tabelas. Além disso, foram discutidas as limitações dos estudos revisados e as lacunas existentes na literatura, a fim de sugerir direcionamentos futuros para o tema.

            5. RESULTADOS E DISCUSSÃO 

              O quadro abaixo expõe os principais microorganismos apontados como participantes no processo de carcinogênese, bem como os mecanismos sugeridos:

              Autor/Ano Tipo de EstudoMicrorganismos RelacionadosPrincipais AchadosMecanismos Sugeridos
              Tuominen et al, 2020.Artigo de Revisão Porphyromonas Gengivalis, Fusobacterium Nucleatum.Potencialmente cancerígenosProdução de interleucinas, fator de necrose tumoral (TNF)-α e metaloproteinases da matriz (MMP),citocinas pro-inflamatórias, endotoxinas(LPS)  e inibição da apoptose; Inibição do  gene supressor de tumor p53.
              MAGER et al, 2005.Estudo descritivo, não randomizadoCapnocytophaga Gingivalis, Prevotella Melaninogenica e Estreptococos MitisPossíveis biomarcadores de CECMecanismo incerto, especula-se ser por alterações nos receptores das células tumorais que favorecem a adesão de certas bactérias.
              Gholizadeh et al, 2016.Artigo de RevisãoPorphyromonas GengivalisInduz metástasesDegradação da membrana basal, promovendo migração e invasão de células tumorais.
              Zhang et al, 2019.Artigo de revisão Treponema DenticolaAlta incidência em pacientes com câncer bucal, sugerindo sua ligação com a carcinogênese  Atua contra proteínas imunomoduladoras, modulando o microambiente tumoral e a inflamação, contribuindo para a progressão do câncer orodigestivo.
              Sasaki et al, 2005.Ensaio clínico Estreptococos AnginosusOcorre com frequência no carcinoma espinocelular oralEspecula-se que, S. Anginosus presente na placa dentária, infecta a mucosa oral, induzindo a expressão de óxido nítrico e COX-2 que, em altas taxas, podem causar danos ao DNA e induzir a carcinogênese dos tecidos infectados.

              Wang et al., 2025
              Estudo caso-controle em camundongosCandida albicansPode promover, e não induzir, a tumorigênese Apresentou genotoxicidade e indução de proliferação celular anormal, porém não induziu a carcinogênese isoladamente.

              Cunha et al., 2024
              Revisão de literaturaVírus do papiloma humano(HPV)Induz a transformação maligna de suas lesões, principalmente o tipo HPV-16 Principalmente através dos oncogenes virais como o E6 e E7 que, inibem supressores tumorais como a p53 e pRb, promovendo a proliferação de células tumorais e progressão de malignidade.
              Pantanowitz et al., 2013Artigo de revisão Vírus Da Imunodeficiência Humana(HIV)/ Herpes Vírus Humano tipo 8(HHV-8)Promove o desenvolvimento de Sarcoma de Kaposi (SK) associado a AIDS.O HHV-8 por si só não induz a transformação maligna, necessitando de co-fatores, um deles é a imunossupressão causada pelo HIV, que não só promove o SK como aumenta a sua agressividade, através de sua atividade imunossupressora e desregulação de citocinas e proteínas que, estimulam a replicação do HHV-8.

              Conforme mostrado acima, alguns dos principais microrganismos envolvidos na tumorigênese são os presentes na patogênese da doença periodontal, uma vez que, estes promovem inflamação crônica, produção de citocinas pro-inflamatórias e proteínas citotóxicas que, inibem mecanismos apoptóticos e causam danos ao código genético estimulando uma proliferação exacerbada de células anormais, driblando a vigilância imunológica e iniciando processos cancerosos (Olsen et al.,2019). Sugere-se que, possivelmente uma melhoria nos quadros de doença periodontal, juntamente com uma melhora da higiene pode limitar o desenvolvimento e progressão de tumores(Whitmore et al.,2014).

              Pesquisas recentes mostram que o microambiente tumoral do carcinoma espinocelular oral (OSCC) abriga uma microbiota própria, composta por bactérias, fungos e vírus que podem influenciar o desenvolvimento e a progressão do câncer. Isso indica que o tumor cria condições adequadas para a sobrevivência de bactérias anaeróbias e anaeróbias facultativas, em sua maioria sacarolitica e resistentes à meios mais ácidos (Hopper et al.,2006).

              A microbiota oral pode inicialmente atuar como “passageira”, apenas coexistindo com o hospedeiro. Contudo, quando há inflamação, mutações e alterações no microambiente, essa microbiota se torna “motorista”, produzindo toxinas, fatores de virulência e mediadores inflamatórios que favorecem a carcinogênese e mantêm o processo tumoral (Al-hebshi et al.,2019;Gao et al.,2018; Dewhirst et al.,2010).

              Dentre os principais tipos de microrganismos envolvidos temos: 

              Bactérias: Porphyromonas gingivalis, Fusobacterium nucleatum, Treponema denticola, Capnocytophaga Gingivalis, Prevotella Melaninogenica e Estreptococos Mitis, que são encontradas em maior abundância em pacientes com OSCC e em lesões pré-malignas (Sukmana et al.,2024; Mager et al.,2005;Zhang et al.,2019). Essas espécies estão associadas à inflamação crônica, produção de citocinas e inibição à apoptose celular (Tuominen et al.,2020). Além disso, algumas espécies bacterianas podem não só promover e induzir a transformação maligna como tambem podem alterar a resposta a quimioterápicos, células tumorais infectadas por P. gingivalis mostraram resistência ao paclitaxel e maior potencial metastático (Woo et al.,2017). 

              Fungos: Principalmente a Candida albicans aparece em maior quantidade em saliva e tecidos tumorais, porém isoladamente não induz a transformação maligna. Essa espécie interage com P. gingivalis, protegendo a bactéria da resposta imune e favorecendo infecção persistente. Também atua de forma sinérgica com estreptococos comensais, aumentando seu potencial patogênico(Bartnicka et al.,2020; Wang et al., 2025) e apresenta potencial para transformar álcool em acetaldeído, substância  carcinógena (Stasiewicz et al.,2022).

              Vírus: HPV, é bem estabelecido como indutor do CEC, uma vez que, o tipo HPV-16 induz a transformação maligna de células, através da expressão de oncogenes, que invadem células saudáveis e inativam proteínas supressoras tumorais, alteram o código genético e promovem sua multiplicação (Cunha et al., 2024). 

              O HIV, também é reconhecido como indutor de câncer, porém  de outra linhagem celular, o Sarcoma de Kaposi (Pantanowitz et al., 2013) mas que não será abordado neste artigo.

              Além disso o HPV interage com bactérias orais como P. gingivalis e F. nucleatum que, aumentam a expressão dos oncogenes virais (E6/E7) do HPV. Essas interações alteram modificações de histonas e facilitam a ativação de genes cancerígenos, potencializando seus efeitos carcinogênicos(Vyhnalova et al.,2021).

               Assim a microbiota oral coopera sinergicamente para o surgimento e progressão de lesões malignas utilizando mecanismos de ação como a proliferação celular e angiogênese tumoral; Inibição da apoptose (morte celular programada); Indução da inflamação crônica persistente; Produção de oncometabólitos que danificam o DNA; ativação de vias de sinalização como NF-κB, STAT3, VEGF, MMP-9/13, TGF-β1 e TNF-α, associado também, a fatores do hospedeiro visto que, o sistema imunológico e o estado nutricional regulam a microbiota oral. Assim, o equilíbrio entre imunidade e microbiota é essencial para evitar esse ciclo patológico. (Andrews et al.,2018; Zhang et al.,2019;Tuominen et al,2020;Gholizadeh et al,2016). 

              A microbiota oral é parte ativa do ecossistema tumoral, influenciando diretamente: o início, a progressão e a resposta terapêutica do câncer oral. (Andrews et al.,2018). Portanto, compreender as interações entre bactérias, fungos, vírus e o hospedeiro, associado aos fatores etiológicos do CEC como, consumo de álcool e tabaco, mascagem de betel e higiene oral precária(Kakabadze et al.,2020), é fundamental para desenvolver novas estratégias de diagnóstico precoce, prevenção e tratamento personalizado do carcinoma espinocelular oral.

              6. CONCLUSÃO

              A revisão permitiu identificar que o microbioma bucal desempenha um papel relevante na oncogênese oral, especialmente pela associação de determinadas espécies microbianas com processos inflamatórios e alterações imunológicas. Apesar disso, ainda existem divergências entre os estudos e limitações metodológicas que dificultam conclusões definitivas. Conclui-se, portanto, que o tema apresenta grande potencial de investigação, sendo necessário o desenvolvimento de pesquisas mais robustas e padronizadas, capazes de esclarecer os mecanismos envolvidos e de subsidiar estratégias de diagnóstico precoce e prevenção do câncer oral.


              LISTA DE SIGLAS

              CEC – Carcinoma Espinocelular

              HPV – Vírus do Papiloma Humano

              LPS Lipopolissacarídeos

              HHV Herpes vírus humano

              HIV Vírus da imunodeficiência humana

              AIDS Síndrome da imunodeficiência adquirida

                REFERÊNCIAS

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