REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/fa10202510261801
Desireê Dias Abreu1
Maria Luiza Teixeira Carvalho2
Ainá Barbosa Feitosa3
RESUMO
A perda perinatal significa uma experiência emocional intensa e que gera muita dor para os pais nesse processo de luto, solicitando cuidados além do físico. Nesse contexto, enquanto psicólogo hospitalar, o profissional possui um papel fundamental, oferecendo suporte emocional, acolhimento e escuta ativa durante o luto de forma apropriada e empática. A atuação agrega para a validação do sofrimento que os pais vivenciam, propicia ferramentas de enfrentamento e fornece orientação para a equipe atuante, proporcionando um ambiente humanizado e seguro para o trabalho. Sendo assim, o presente artigo teve como objetivo geral, analisar se a atuação do psicólogo hospitalar é eficaz no apoio aos pais enlutados em casos de perda perinatal. Como objetivos específicos, procurou-se evidenciar o papel do psicólogo hospitalar dentro do hospital nesse enfrentamento, analisar sua capacidade de criar um espaço seguro e descrever como o acompanhamento psicológico auxilia os pais no reconhecimento, expressão e elaboração de suas emoções. O estudo foi realizado através de uma revisão sistemática com abordagem qualitativa, sintetizando publicações compatíveis com o tema proposto, a fim de verificar o manejo do psicólogo hospitalar.
Palavras-chave: luto perinatal; psicólogo hospitalar; manejo; pais; acolhimento.
ABSTRACT
Perinatal loss is an intense emotional experience that causes significant pain for parents during the grieving process, requiring care beyond the physical. In this context, hospital psychologists play a fundamental role, offering emotional support, support, and active listening during the grieving process in an appropriate and empathetic manner. This work validates the suffering experienced by parents, provides coping tools, and provides guidance for the team, creating a humane and safe working environment. Therefore, the general objective of this project was to analyze whether hospital psychologists’ work is effective in supporting grieving parents in cases of perinatal loss. Specific objectives included highlighting the role of hospital psychologists within the hospital in this process, analyzing their ability to create a safe space, and describing how psychological support helps parents recognize, express, and process their emotions. The study was conducted through a systematic review with a qualitative approach, synthesizing publications relevant to the proposed theme to assess the hospital psychologist’s approach.
Keywords: Perinatal grief; hospital psychologist; management; parents; reception;
1 INTRODUÇÃO
O luto perinatal é um processo de sofrimento intenso vivido, sobretudo, pelas mães após a perda de um filho durante a gestação ou pouco tempo após o nascimento. Essa experiência é marcada por uma sensação física e emocional de vazio, frequentemente percebida como insuperável. Nesse contexto delicado, o psicólogo hospitalar desempenha um papel fundamental, oferecendo suporte especializado e contribuindo para a elaboração do luto de forma acolhedora e humanizada.
Apesar de muitas vezes invisibilizadas socialmente, as perdas gestacionais e neonatais são eventos significativos. De acordo com o Painel de Monitoramento da Mortalidade Infantil e Fetal (Ministério da Saúde, 2024), foram registrados 28.268 óbitos perinatais no Brasil, sendo 3.912 apenas na região Norte. Esses dados evidenciam a relevância de um olhar profissional e sensível diante de situações de perda.
O psicólogo hospitalar atua não apenas no acolhimento imediato dos pais enlutados, mas também na orientação sobre o processo de luto, explicando suas fases, possíveis reações emocionais e comportamentais, além de auxiliar a equipe de saúde a agir de forma empática e respeitosa. Essa atuação é regulamentada pela Resolução nº 13/2007 do Conselho Federal de Psicologia, que reconhece a especialidade de Psicologia Hospitalar e sua importância no cuidado diante de situações de adoecimento, sofrimento e morte (Conselho Federal de Psicologia, 2007).
Diante disso, este estudo teve como objetivo analisar, por meio de uma revisão sistemática da literatura, a atuação do psicólogo hospitalar frente à perda perinatal, investigando as estratégias utilizadas, os impactos de sua intervenção e os desafios encontrados com famílias enlutadas.
Diante do contexto, a pergunta disparadora da pesquisa se deu a partir da questão: “O manejo que psicólogo hospitalar utiliza é apropriado durante o processo de luto perinatal com os pais?”. Nesse sentido, o objetivo geral foi analisar se o manejo abordado pelo psicólogo hospitalar no processo de luto perinatal é adequado, no que tange a prática da utilização de ferramentas de enfrentamento, e se nesse ambiente inserido, o psicólogo cria um espaço seguro para auxiliar os pais no momento de vulnerabilidade emocional, após uma perda delicada durante o processo de luto perinatal no hospital.
2 REFERENCIAL TEÓRICO
O luto provocado pelo óbito gestacional ou no período neonatal ocasiona uma reação esperada significativamente de tristeza e impressão de perda. Mas, além disso, esses mesmos sentimentos podem se tornar incomuns e exacerbados, os tornando também sentimentos insuportáveis (Lemos; Cunha, 2015). Os autores (Kersting; Wagner, 2012) acharam em uma literatura sobre luto e perda perinatal dois pontos que podem ser associados com luto intenso e difícil após a perda.
O primeiro ponto nada mais é do que a pequena rede de apoio, tanto familiares, como de amigos. O segundo, o contexto breve de um transtorno de saúde mental como depressão, que é considerado um luto mais intenso. Mas, quando se refere a um óbito perinatal, os pais acabando tendo uma relação rasa e curta com o filho, que acarreta muitas vezes num processo de luto mais complexo que os outros, já que além de vivenciar o luto do filho, acaba vivenciando a perda de expectativas. têm contato por poucos momentos com o filho, o que gera, muitas vezes, um processo de luto mais complexo que os demais, pois além do luto do filho real há também a perda de um filho que ficou apenas no campo das expectativas dos pais (Paris; Montigny; Pelloso, 2017). Muza et al. afirmam que quando as famílias passam por um luto, acabam evitando o assunto e preferindo o silêncio no consolo de minimizar o sofrimento.
Estudos apontam que no Brasil no espaço de tempo de 2000 a 2016, a taxa de óbitos fetais foi de 5,3 para 1000 nascidos vivos. (Barbeiro et al., 2015) Ainda nessa linha, os autores também reforçam que assuntos como esse, vivenciam a invisibilidade, ainda que esse cenário seja experienciado por um número alto de pessoas. (Barbeiro et al., 2015). O gestar na maioria das vezes é vivido com momentos de felicidade e afeto. Porém, algumas situações inesperadas podem gerar interrupção e mudar o trajeto considerado natural da vida, como a morte perinatal que é uma vivência dolorosa e traz com ela, sentimentos de angústia, medo e revolta (Lopes et al., 2019). A morte perinatal é um evento que acontece com assiduidade e por esse motivo os pais merecem atenção dos profissionais no momento em que vivenciam a perda. (Guimarães; Faria, 2024). Nessa situação, toda mãe que perde seu filho, necessita de tempo e auxílio para dar um novo significado a sua perda, pois sonhar com um filho e as expectativas sobre o mesmo se desenvolver são interrompidos junto com sua identidade. Nesse momento, a mãe não sabe se ainda é mãe ou deixou de ser. (Wonch Hill et al., 2017)
No geral, os profissionais da área da saúde acabam a invalidar o luto quando a perda acontece no primeiro trimestre da gravidez, não compreendendo e proporcionando a devida importância a esse quadro (Pucci et al., 2021). Segundo Vescovi e Levandowski (2023), no âmbito da organização dos serviços, foram percebidas dificuldades na inclusão de profissionais da área de saúde mental, o que foi interpretado como uma maneira de desvalorização no impacto da perda gestacional. Além disso, as autoras ainda contribuem fazendo um apontamento referente ao acompanhamento prestado pelos psiquiatras, psicólogos e assistentes sociais, colocando como limitado e que esse atendimento e intervenções foram superficiais e inadequados para as necessidades (Vescovi & Levandowski, 2023). Ainda tratando dessa invalidação, os autores apontam fragilidades na assistência oferecida às mulheres que vivenciam a perda fetal, frequentemente associadas à atuação dos profissionais de saúde. Em diversos casos, o atendimento é percebido como insatisfatório, marcado por atitudes que minimizem ou descaracterizam a experiência da perda, além de envolver condutas banalizadas e por vezes, prejudiciais (Rosa et al. 2022).
Muitas vezes depois do óbito, a própria equipe de saúde não possui o manejo adequado para conduzir a situação de morte, podendo aumentar o trauma psicológico já existente. Dessa forma, é essencial que as equipes recebam capacitação, garantindo um cuidado ofertado de maneira adequada, respeitosa, empática e humanizada (Guimarães; Faria, 2024)
É importante frisar que a validação do luto e acolhimento com os enlutados, torna o processo de elaboração mais eficaz e saudável para ambos. O acompanhamento de uma equipe capacitada junto com o apoio dos familiares contribui para a redução dos sentimentos negativos que as mães enfrentam. A colaboração dos mesmos minimiza fatores estressores e possíveis sintomas de depressão. Os profissionais enquanto atuantes devem prestar acolhimento com falas empáticas e também esclarecer dúvidas e dar informações com clareza e verdade, mantendo o respeito e promovendo compreensão Lopes et al. (2017). Os autores Homer e Hoope-Bender (2016) esclarecem que são os profissionais de saúde que podem propiciar apoio emocional e social à família durante todo esse processo do nascimento e óbito e assim facilitar os processos de elaboração do luto.
De acordo com Vescovi e Levandowski (2023) ao realizarem sua pesquisa, apontaram a percepção das pessoas sobre a falta de capacitação para o manejo da perda gestacional que influenciou de forma negativa vivenciar esse momento, denunciando falhas na atuação profissional.
Para Silva et al. (2021) os estudos sobre a compreensão dos profissionais de saúde referente às mortes perinatais apontam que há dificuldade para lidar com essa situação nos diferentes momentos da hospitalização. Assis, Motta e Soares (2019) relatam que o luto se manifesta de maneiras distintas em cada indivíduo, podendo variar de acordo com o nível de vínculo, crenças pessoais e a trajetória da vida da pessoa enlutada.
Com isso, a literatura mostra alguns pontos fundamentais para tornar essa vivência saudável, reconhecer e acolher a própria dor entendendo seus limites, se adaptar ao contexto atual e assim conseguir desenvolver a capacidade de ressignificar, mantendo e estabelecendo novas relações interpessoais. Segundo Kübler-Ross (2017), o processo de luto apresenta cinco fases: negação, raiva (revolta pela morte), barganha (possível negociação com alguma entidade religiosa para ter o ente de volta), depressão (tristeza profunda e sensação de vazio pela perda) e aceitação (conformidade e capacidade de seguir em frente).
As autoras Guimarães e Faria (2024) apontam que nesse momento doloroso que a pessoa é acometida, é crucial que o comunicado seja verbalizado de maneira direta, leve e acolhedora, que o profissional esclareça as dúvidas, para que os pais não sejam atravessados e desrespeitados nesse momento de dor, fazendo com que esse episódio se torne mais saudável. Pensando nisso, Salgado e Polido (2018) destacam que cabe ao psicólogo buscar estratégias e propiciar intervenções psicológicas adequadas para essa demanda. Os autores Almeida, Moraes e Cunha (2016), disparam a importância e relevância da atuação do profissional psicólogo para ajudar nos sintomas que o luto pode gerar, pensando na importância da superação, no contato respeitoso e empático que o profissional pode estabelecer com as famílias. Nesse sentido, torna-se imprescindível o acompanhamento da saúde emocional dos enlutados, atendimento e ação multidisciplinar em saúde no enfrentamento ao óbito neonatal.
Rosa et al. (2022) identificam nas literaturas as condutas adotadas pelos profissionais da saúde nos cuidados às famílias diante das experiências vividas no óbito neonatal são, fundamentalmente, atos empíricos e intuitivos, resultado da condição de empatia ou distanciamento na qual o profissional está inserido. É importante frisar que a dor decorrente da perda gestacional é minimizada pela sociedade. A presença de uma equipe de saúde preparada e capacitada nesse contexto promove efeitos efetivos na vida da família enlutada, favorecendo o acolhimento e o apoio na elaboração do luto de maneira humanizada (Rosa et al. 2022.)
Bakhbakhi et al. (2017) apontam que o treinamento precisa abranger práticas de cuidado e gestão baseadas em evidências no contexto de apoio ao luto, agregando os desafios frequentes e as formas de enfrentá-los, além de incluir teorias psicológicas e boas práticas de comunicação. Para isso, é essencial adotar uma abordagem multidisciplinar, promovendo uma maior integração entre os cuidados primários e secundários. As autoras Brigagão, Gonçalves & Silva (2022) trazem relato de duas psicólogas que informaram ter feito a graduação há muito tempo e estudado a morte apenas de modo genérico: “É algo genérico na formação, né?”. Observa-se a partir desse relato, que a instituição traz falhas significativas no que tange o trabalho com o luto.
É importante evidenciar a escassez de estudos que avaliem o impacto da comunicação de óbito perinatal nos diferentes períodos da gestação e no puerpério, o que demonstra a relevância aos cuidados voltados para esse momento de sofrimento psicoemocional e condutas que vão ao encontro dos cuidados adequados às mulheres em luto perinatal, tais como acolhimento das emoções e sentimentos, escuta ativa compassiva e suporte psicoemocional a essas mulheres. Pensando em melhorar o atendimento às famílias enlutadas por perda gestacional, é essencial avançar na capacitação dos profissionais, ampliar a conscientização a respeito da temática entre as pessoas como famílias, sociedade em geral e gestores e promover a reestruturação dos serviços.
Essa reorganização deve ser seguida e orientada por uma diretriz clínica voltada ao cuidado no luto perinatal, com destaque no fortalecimento da atuação das equipes de saúde mental e na presença do psicólogo no ambiente hospitalar. (Vescovi & Levandowski, 2023). Nesse ponto, é importante destacar que o treinamento para sistematização é favorável no enfrentamento do luto e das trocas multiprofissionais (Rosa et al. 2022). A autora Rosa et al. (2022) ainda traz a relevância do treinamento, para sistematização e padronização de condutas favoráveis ao enfrentamento do luto; das trocas multiprofissionais; e da formação de comitês de mortalidade para investigar as causas do óbito e promover ações preventivas.
De acordo com Rosa et al. (2022), o cuidado nessa área requer conhecimento e estrutura emocional por parte dos profissionais de saúde. Além disso, esses mesmos profissionais exercem um papel importante no acolhimento da mulher e família diante da perda fetal. Então, entender os desafios que envolvem essas circunstâncias e oferecer um espaço de escuta e expressão emocional à mulher, contribui para que o cuidado prestado seja mais sensível e adequado às necessidades de todos os envolvidos nesse momento (Amthauer, 2017).
Uma intervenção importante e que é de responsabilidade do profissional da Psicologia, é propiciar e assegurar a esses pais um local de escuta e apoio psicológico, sem julgamentos, como Gesteira et al., citada por Muza et al., ressalta: “[…] para dissipar a dor psíquica de uma perda, é necessário que ela seja dita, vivida, sentida, refletida e elaborada, mas nunca negada”. Assim, é importante proporcionar esse espaço, sem restrições aos sentimentos desses pais. A melhoria da assistência prestada, representa um desafio frente a demanda por um acompanhamento mais sensível durante e após a vivência deste evento. Esses achados podem favorecer avanços na qualidade do cuidado em saúde e também servir como método de aprendizado para estudantes da área da saúde em contextos envolvendo morte fetal. (Alvarenga et al., 2023). Lima e Andrade (2017) destacam que as estruturas tradicionais dos currículos na área da saúde, organizadas de forma setorizada, não correspondem às exigências do exercício profissional, que necessita de uma abordagem ética, sensível e centrada no indivíduo. Nesse sentido, Kovács (2016) sugere cursos de educação para a morte, tanto para estudantes quanto para profissionais.
3 METODOLOGIA
O presente projeto de pesquisa se configurou como revisão sistemática sendo qualitativa, com a finalidade de investigar a atuação do psicólogo hospitalar no manejo do luto perinatal, com foco no domínio adequado e prática apropriada do profissional, além da criação de um espaço seguro e acolhedor para os pais enlutados. De acordo com Cordeiro (2007), a revisão sistemática é considerada uma análise científica que tem como finalidade analisar e conduzir uma síntese de resultados dos estudos. Complementando essa visão, o protocolo PRISMA aponta que a Revisão Sistemática (Systematic Review), utiliza métodos sistemáticos para sintetizar os resultados de estudos que possuem uma questão formulada (Page, 2021, p. 3)
A revisão busca a identificação, triagem e critérios de inclusão e exclusão, sendo os incluídos os artigos no idioma português e espanhol, com o tema de luto perinatal, intervenções realizadas durante esse processo e o manejo do psicólogo hospitalar enquanto atuante, e em contrapartida, nos critérios de exclusão foi levado em consideração artigos em outros idiomas, pesquisas que retratam outros assuntos além do luto perinatal e artigos repetidos. A pergunta que norteou esta pesquisa de estudo foi: “O manejo que o psicólogo hospitalar utiliza é apropriado durante o processo de luto perinatal com os pais?“.
A coleta de dados para realizar os estudos foram feitas a partir de março de 2025 nas seguintes bases de dados: SciELO, BVS e PUBMED, no que se refere aos descritores, os utilizados foram: “luto perinatal”, “psicologia hospitalar”, “perda gestacional”, “pais enlutados”, “acolhimento psicológico” e “manejo psicológico”, estando em conexão com os operadores booleanos AND e OR. O desenvolvimento da seleção se deu em três etapas: leitura dos títulos e resumos, leitura integral dos artigos importantes e análise crítica dos textos para extração da temática escolhida. Os artigos selecionados foram estruturados por classes temáticas relacionadas à atuação do psicólogo hospitalar, ferramentas apropriadas utilizadas no manejo do luto e impacto das intervenções na vivência emocional dos pais durante o processo de luto.
Para compreender as percepções dos docentes e discentes no contexto em análise, foi adotada a estratégia de revisão de sistemática de estudos publicados acerca da temática e/ou coleta de dados. O estudo se insere no âmbito da pesquisa qualitativa, do tipo descritiva e exploratória ao buscar explorar as avaliações, experiências e percepções dos atores envolvidos no contexto analisado (Minayo, 2012).
Tabela 1 – Descrição dos artigos selecionados para a revisão de literatura
| Ordem | Tipo | Autor (a) | Objetivo | Instituição / Revista / Periódico |
| 01 | Artigo | Almeida, Moraes & Cunha (2016) | Destacar a relevância da atuação do psicólogo hospitalar no enfrentamento do luto e na saúde emocional dos pais. | Revista da Escola de Enfermagem |
| 02 | Artigo | Muza, J.C.; Souza, E.N.; Arrais, A. R.; Iaconelli, V. (2023) | Analisar o papel do psicólogo hospitalar na escuta e atendimento dos pais enlutados frente a perda perinatal, destacando estratégias de manejo e humanização do cuidado. | Psicologia: Teoria e Prática |
| 03 | Artigo | Vescovi & Lewandowski (2023) | Revisar práticas e saúde mental no luto gestacional e neonatal, apontando falhas e possibilidades de atuação. | Psicologia: Ciência e Profissão |
Figura 1 – Fluxograma de Seleção dos Artigos

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES
Baseado nos estudos, a análise mostra que o luto perinatal é um evento complexo, que necessita de uma abordagem atenciosa e humanizada por parte dos profissionais de saúde. Em Guimarães & Faria (2024), percebe-se que o sofrimento vivido pelas mães é significativo e com frequência permeado por sensações de vazio e perda de identidade, o que reforça e traz a necessidade de um acompanhamento psicológico especializado. Com isso, Rosa et al. (2022) apontam que o manejo adotado pelos atuantes de saúde diante do óbito neonatal ainda são na maior parte intuitivas, com a ausência de protocolos claros e treinamento adequado. A falta de preparo e capacitação impacta diretamente na maneira como os pais vivenciam o processo de luto, muitas vezes se sentindo desamparados.
A vulnerabilidade na inclusão de psicólogos nos hospitais também é destacada por Vescovi & Levandowski (2023), que evidenciam a desvalorização da saúde mental nesse cenário. Essa brecha institucional atrapalha a construção de um ambiente seguro para a expressão das emoções, o que entra em contradição à importância reforçada por Lopes et al. (2017), que defendem que acolhimento e validação são pontos centrais para a elaboração saudável do luto.
No entanto, Almeida, Moraes & Cunha (2016) fortalecem a relevância do papel do psicólogo hospitalar, apontando que a intervenção do profissional pode diminuir sintomas de depressão, reduzir sentimentos de isolamento e favorecer a ressignificação frente à perda. Esses estudos se conectam com a percepção no lado teórico apresentada no referencial, em que o psicólogo é enxergado como mediador no processo de elaborar o luto, contribuindo para o fortalecimento emocional dos pais.
De maneira geral, os resultados se concentram ao indicar que o manejo do psicólogo hospitalar no luto perinatal é essencial para o acolhimento, a validação da dor dos familiares e as possibilidades de estratégias de enfrentamento. Porém, os estudos também mostram desafios relevantes, como a falta de capacitação assertiva, a ausência de protocolos institucionais e a invisibilidade social da perda perinatal, pontos esses que dificultam uma atuação mais efetiva.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo demonstrou que o luto perinatal é uma experiência de dor intensa, permeada por sentimentos de vazio, perda de identidade e fragilidade emocional, que necessitam de atenção especializada. Nesse sentido, a presença e atuação do psicólogo hospitalar mostrou-se fundamental, não apenas no acolhimento imediato dos pais, mas também na condução de estratégias de intervenção que favorecem a expressão das emoções, a validação da dor e o desenvolvimento de recursos de enfrentamento diante da perda.
Os achados apontam que a intervenção psicológica trabalha de forma significativa e positiva para reduzir sintomas de sofrimento psíquico como depressão, além de fortalecer o processo de ressignificação do luto. Sendo assim, o manejo do psicólogo hospitalar vai além de um suporte momentâneo, mas também como prática essencial para a humanização da assistência em saúde.
Contudo, foi possível identificar falhas na estrutura hospitalar que em vários cenários a atuação do psicólogo ainda é invisibilizada, sendo substituída ou minimizada por outros profissionais sem formação voltada para lidar com esse tema. Essa realidade mostra a falha institucional, que limita o cuidado e também compromete a dignidade do processo vivido pelas famílias.
Diante disso, é importante rever a organização dos serviços hospitalares, para garantir a presença efetiva do psicólogo nas equipes multidisciplinares, garantindo que sua função não seja repassada, mas valorizada como parte integrante do cuidado em saúde. Investir em capacitação profissional, protocolos institucionais e políticas de fortalecimento da saúde mental são medidas fundamentais para que o atendimento aos pais enlutados seja ético, humanizado e coerente com a complexidade dessa experiência.
No mais, este estudo reforça que a atuação do psicólogo hospitalar não deve ser vista como complementar, mas como elemento indispensável no cuidado integral, sendo o profissional capaz de mediar a dor, possibilitar novos significados e contribuir para um processo de luto mais saudável e respeitoso.
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1Faculdade Católica de Rondônia, desiree.abreu@sou.fcr.edu.br
2Faculdade Católica de Rondônia, maria.teixeira@sou.fcr.edu.br
3Faculdade Católica de Rondônia, aina.feitosa@fcr.edu.br
