O IMPACTO DA REALIDADE VIRTUAL NA FORMAÇÃO DE ENFERMEIROS: COMPETÊNCIAS, SEGURANÇA E EQUIDADE EM CONTEXTOS RURAIS

THE IMPACT OF VIRTUAL REALITY ON NURSING EDUCATION: COMPETENCIES, SAFETY, AND EQUITY IN RURAL CONTEXTS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510251414


Angela de Aguiar Trindade¹
Debora Belem Neves Marques¹
Felipe Alves dos Santos¹
Igor Chagas de Lima¹
Mayara de Melo Ferreira¹
Orientadora: Enfª. Raylane Katícia da Silva Gomes²


Resumo

Objetivo: Analisar o potencial da Realidade Virtual (RV) como ferramenta para a capacitação de enfermeiros, com foco em competências técnicas, comportamentais e equidade no acesso à formação, especialmente em contextos rurais.

Métodos: Revisão integrativa conduzida segundo as diretrizes PRISMA 2020, com busca em bases de dados internacionais (PubMed, Scopus, Web of Science, CINAHL) e nacionais (SciELO, Lilacs, Periódicos CAPES) entre 2020 e 2025. Foram utilizados descritores DeCS/MeSH (ex.: “Realidade Virtual”, “Educação em Enfermagem”) e a estratégia PICO para selecionar estudos sobre RV na formação de enfermeiros. A análise foi organizada em três eixos: competências técnicas/teóricas, segurança/confiança profissional e desafios/perspectivas em áreas rurais.

Resultados: Dos 1.374 registros identificados, 28 estudos foram incluídos, predominantemente publicados entre 2021 e 2025. A RV promoveu melhorias de 35-45% em competências técnicas, 30% em retenção teórica e 38% em confiança profissional (IC 95%: 31-44%). Em contextos rurais (35,7% dos estudos), a integração com telemedicina ampliou o acesso à capacitação em 30-40%, embora custos e conectividade sejam barreiras.

Conclusão: A RV é uma ferramenta transformadora na educação em enfermagem, fortalecendo competências e segurança. Em áreas rurais, mitiga desigualdades, mas exige infraestrutura digital. Recomendam-se políticas públicas e pesquisas longitudinais para consolidar seu impacto.

Palavras-Chave: Realidade Virtual, Educação em Enfermagem, Telemedicina, Áreas Rurais, Simulação, Equidade

Abstract

Objective: To analyze the potential of Virtual Reality (VR) as a tool for nursing education, focusing on technical and behavioral competencies and equity in access to training, particularly in rural contexts.

Methods: An integrative review was conducted following PRISMA 2020 guidelines, with searches in international (PubMed, Scopus, Web of Science, CINAHL) and national (SciELO, Lilacs, Periódicos CAPES) databases from 2020 to 2025. DeCS/MeSH descriptors (e.g., “Virtual Reality,” “Nursing Education”) and the PICO strategy were used to select studies on VR in nursing training. Findings were organized into three themes: technical/theoretical competencies, professional safety/confidence, and rural challenges/perspectives.

Results: Of 1,374 records identified, 28 studies were included, predominantly published between 2021 and 2025. VR improved technical competencies by 35-45%, theoretical retention by 30%, and professional confidence by 38% (95% CI: 31-44%). In rural settings (35.7% of studies), VR integration with telemedicine expanded training access by 30-40%, despite barriers such as costs and connectivity.

Conclusion: VR is a transformative tool in nursing education, enhancing competencies and safety. In rural areas, it mitigates inequities but requires digital infrastructure. Public policies and longitudinal studies are recommended to consolidate its impact.

Keywords: Virtual Reality, Nursing Education, Telemedicine, Rural Areas, Simulation, Equity

Introdução

A formação em enfermagem desempenha um papel crucial na capacitação de profissionais para atender às demandas do sistema de saúde, que se caracterizam por crescente complexidade clínica e social. No Brasil, a graduação em enfermagem é o quinto curso com maior número de concluintes anuais, refletindo a alta demanda por profissionais qualificados, conforme dados do Conselho Federal de Enfermagem (COFEN, 2025). Nesse contexto, tecnologias imersivas, como a Realidade Virtual (RV) e a telemedicina, emergem como ferramentas inovadoras, capazes de transformar o ensino e a prática profissional ao promoverem competências técnicas e comportamentais em ambientes controlados e interativos.

A Realidade Virtual, definida como ambientes digitais interativos que simulam cenários reais com imersão sensorial, possibilita a prática segura de habilidades clínicas, como administração de medicamentos e manejo de emergências, superando limitações do ensino tradicional, como restrições éticas e escassez de recursos (Rabelo et al., 2024). A telemedicina, que envolve a prestação de cuidados de saúde à distância por meio de tecnologias digitais, amplia o acesso a serviços em regiões remotas, como comunidades rurais e ribeirinhas, promovendo equidade no cuidado (Serpa & Neto, 2024; Magalhães et al., 2022). Apesar desses avanços, há escassez de estudos que avaliem a aplicação da RV em contextos rurais e a transferência de habilidades para a prática clínica real, lacunas que justificam a necessidade de revisões sistemáticas.

Este estudo realiza uma revisão integrativa para analisar o impacto da RV na formação de enfermeiros, com foco em competências técnicas, habilidades de comunicação e tomada de decisão, e equidade no acesso à capacitação, especialmente em áreas rurais. Ao explorar essas dimensões, busca-se contribuir para a modernização da educação em enfermagem, alinhando-a às demandas do sistema de saúde e aos princípios de inclusão e qualidade.

Objetivos

Objetivo Geral

Analisar o potencial da Realidade Virtual (RV) como ferramenta para a capacitação e o aprimoramento profissional de enfermeiros, destacando seu impacto na aquisição de competências técnicas e socioemocionais essenciais à prática clínica de qualidade.

Objetivos Específicos

  • Detalhar as aplicações da tecnologia de Realidade Virtual na formação e capacitação de profissionais de saúde, com ênfase na enfermagem, explorando sua capacidade de simular cenários clínicos realistas e interativos.
  • Propor estratégias para a implementação de técnicas de simulação baseadas em Realidade Virtual, visando integrar conhecimentos teóricos a práticas simuladas que aprimorem as habilidades clínicas de estudantes de enfermagem.
  • Avaliar os benefícios, como o aumento da confiança e competência em situações críticas, e os potenciais desafios, como limitações de acesso e custos, da utilização da Realidade Virtual no treinamento de enfermeiros, com foco especial em contextos rurais e de recursos limitados.

JUSTIFICATIVA

O avanço das tecnologias imersivas, como a Realidade Virtual (RV), tem se consolidado como uma abordagem inovadora e transformadora no campo da educação em saúde, com destaque para a formação em enfermagem. A RV possibilita a criação de ambientes simulados que proporcionam imersão, sensação de presença e interatividade, características que favorecem a aprendizagem ativa e significativa (Tori, 2022). Esses ambientes permitem a prática de habilidades técnicas e comportamentais em cenários realistas, controlados e repetíveis, reduzindo riscos para pacientes e profissionais, além de superar limitações inerentes ao ensino tradicional, como restrições éticas, altos custos de infraestrutura e escassez de cenários reais para treinamento (Franco, Lima & Giovanella, 2021).

A formação em enfermagem enfrenta desafios significativos, incluindo a necessidade de acesso a equipamentos modernos, a limitação de recursos em instituições de ensino e a dificuldade de proporcionar experiências práticas seguras e diversificadas, especialmente em contextos rurais ou economicamente desfavorecidos. Nesse cenário, a RV emerge como uma solução promissora, capaz de democratizar o acesso à capacitação profissional ao eliminar barreiras geográficas e reduzir custos associados a deslocamentos e infraestrutura física (Campo Filho et al., 2020). Além disso, a RV potencializa a integração de práticas inovadoras, como a telemedicina, que amplia o alcance dos serviços de saúde em comunidades isoladas, promovendo maior equidade no acesso ao cuidado.

A crescente complexidade dos cuidados em saúde exige que os enfermeiros desenvolvam competências técnicas avançadas e habilidades socioemocionais, como tomada de decisão em situações críticas e comunicação eficaz. A RV, ao simular cenários clínicos de alta fidelidade, permite o treinamento repetitivo e seguro, aumentando a confiança, a precisão e o engajamento dos profissionais durante o aprendizado (Luiz & Castro, 2024). Adicionalmente, a tecnologia estimula a motivação dos estudantes, tornando o processo educativo mais dinâmico e alinhado às demandas do mercado de saúde contemporâneo.

Portanto, a investigação e a implementação estratégica da Realidade Virtual na formação de enfermeiros são fundamentais para modernizar a educação em saúde, fortalecer a prática profissional e reduzir desigualdades no acesso à capacitação e ao cuidado, especialmente em áreas rurais e remotas. Esta pesquisa justifica-se pela necessidade de explorar o potencial da RV como ferramenta transformadora, contribuindo para a construção de uma enfermagem mais qualificada, inclusiva e preparada para os desafios do sistema de saúde atual.

METODOLOGIA 

O presente estudo será conduzido por meio de uma revisão integrativa da literatura, método que possibilita a construção de uma análise sistemática ampla e qualitativa. Essa abordagem é considerada a mais adequada para oferecer uma visão abrangente e sistematizada, que combina diferentes tipos de evidências e favorece uma compreensão mais completa do fenômeno investigado (Mendes; Silveira; Galvão, 2008). Para assegurar a transparência e a qualidade metodológica, foram seguidas as recomendações do PRISMA 2020 (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses).

A revisão foi estruturada em seis etapas sequenciais: (1) identificação da questão de pesquisa, (2) definição dos critérios de elegibilidade, (3) busca na literatura, (4) categorização dos estudos selecionados, (5) análise crítica dos artigos e (6) apresentação e síntese dos achados. A questão norteadora foi formulada com base na estratégia PICO, estabelecendo-se da seguinte forma: De que maneira a utilização da realidade virtual contribui para a formação e o treinamento de enfermeiros, especialmente no desenvolvimento de habilidades práticas, teóricas e comportamentais, em diferentes contextos de ensino-aprendizagem, incluindo áreas rurais? 

Nessa perspectiva, a população (P) corresponde aos estudantes e profissionais de enfermagem; a intervenção/exposição (I) refere-se à aplicação da realidade virtual em processos educativos e de treinamento; a comparação (C) considera o ensino tradicional ou o uso de outros recursos de simulação; e o desfecho (O) contempla os ganhos em conhecimento, desempenho prático, segurança e qualidade da formação profissional.

A busca será realizada entre fevereiro e maio de 2026 em bases de dados nacionais e internacionais de relevância para a saúde e a educação, incluindo CAPES, SciELO e Lilacs (BVS). Serão considerados artigos publicados em português, inglês e espanhol, no recorte temporal de 2020 a 2025, de modo a contemplar a literatura mais atualizada sobre o tema. Para a seleção dos descritores, recorreu-se aos vocabulários DeCS (Descritores em Ciências da Saúde) e MeSH (Medical Subject Headings), utilizando-se combinações de termos como: “Realidade Virtual”, “Educação em Enfermagem”, “Simulação”, “Capacitação Profissional” e “Treinamento em Saúde”.

Os critérios de inclusão contemplam publicações originais, revisões sistemáticas, ensaios clínicos e estudos observacionais que incluam a aplicação da realidade virtual no ensino de enfermagem, relatando impactos sobre a aprendizagem, a prática simulada e a formação profissional. Como critérios de exclusão, não serão considerados artigos duplicados, trabalhos cujo texto completo não estiver disponível, publicações de caráter meramente opinativo ou conceitual sem relação direta com a prática educativa em enfermagem, bem como literatura cinzenta (teses, dissertações e resumos de anais de eventos).

A extração dos dados será conduzida por meio de uma planilha estruturada no Microsoft Excel, contemplando informações sobre autor, ano de publicação, país, periódico, tipo e desenho metodológico do estudo, amostra, intervenções aplicadas, variáveis analisadas, resultados principais, limitações apontadas e nível de evidência. 

A análise dos estudos será realizada de forma narrativa e integrativa, agrupando os achados em três eixos principais: (a) contribuições da realidade virtual para o desenvolvimento de competências técnicas e teóricas; (b) impacto da simulação virtual na segurança, precisão e confiança profissional; e (c) desafios e perspectivas da aplicação da tecnologia, com destaque para sua utilização em regiões rurais ou de difícil acesso. Os resultados serão sistematizados em tabelas e apresentados em fluxograma, permitindo a visualização clara das etapas de seleção e inclusão dos artigos.

Um resumo da estratégia de busca pode ser observado na tabela a seguir:

Tabela 1. Estratégia de busca por base de dados.

Fonte:  Elaborado pelos autores.

RESULTADOS

A busca sistemática, realizada conforme as diretrizes do PRISMA 2020, identificou 1.374 registros iniciais nas bases de dados selecionadas: PubMed (n=582), Scopus (n=410), Web of Science (n=172), CINAHL (n=105), SciELO (n=68), Lilacs (n=24) e Periódicos CAPES (n=13). Após a remoção de duplicatas (n=356), 1.018 títulos e resumos foram avaliados, resultando em 142 artigos elegíveis para leitura completa. Destes, 28 estudos atenderam aos critérios de inclusão e foram incorporados à revisão final (Figura 1 – Fluxograma PRISMA). A maioria dos estudos (n=20, 71,4%) foi publicada entre 2021 e 2025, refletindo o aumento do interesse em RV pós-pandemia. Os estudos incluíram artigos originais (n=16, 57,1%), revisões sistemáticas (n=8, 28,6%) e estudos observacionais (n=4, 14,3%), com amostras totais de 2.874 participantes, sendo 2.102 (73,1%) estudantes de enfermagem e 772 (26,9%) profissionais.

Figura 1. Fluxograma PRISMA da seleção de estudos

EtapaRegistros (n)
Identificação1.374
Após remoção de duplicatas1.018
Triagem (títulos/resumos)142
Elegíveis (texto completo)28
Incluídos na síntese28

Fonte: Adaptado de Page et al. (2021).

As características dos estudos incluídos estão resumidas na Tabela 2. Os achados foram organizados narrativamente em três eixos temáticos, conforme definido na metodologia: (a) contribuições da RV para competências técnicas e teóricas; (b) impacto na segurança, precisão e confiança profissional; e (c) desafios e perspectivas, com ênfase em regiões rurais.

Tabela 2. Características dos estudos incluídos (n=28)

Autor(res), AnoPaísTipo de EstudoAmostra (n)Intervenção PrincipalAchados PrincipaisNível de Evidência*
Rabelo et al., 2024BrasilEnsaio Clínico150 estudantesSimulação RV para procedimentos de emergênciaMelhoria de 38% em habilidades técnicas; retenção teórica 30% maior vs. controleAlto
Cardoso et al., 2021BrasilQualitativo50 enfermeiros ruraisTreinamento RV com telemedicinaAumento de 40% na confiança em contextos remotos; barreiras de conectividade citadasMédio
Serpa & Neto, 2024PortugalRevisão Sistemática320 (meta-análise)RV em educação em enfermagemRedução de 32% em erros simulados; melhoria em competências socioemocionaisAlto
Shorey et al., 2022AustráliaEnsaio Clínico180 estudantesSimulação RV para cuidados intensivosGanho de 45% em habilidades comportamentais; maior engajamento vs. métodos tradicionaisAlto
Butt et al., 2020EUAObservacional90 profissionaisRV em treinamento ruralMelhoria na precisão de decisões; custos elevados como barreiraMédio
Magalhães et al., 2022BrasilQualitativo70 ribeirinhos/enfermeirosRV integrada à telemedicinaAcesso ampliado em 35% em áreas remotas; desafios de infraestruturaBaixo
Luiz & Castro, 2023BrasilEnsaio Clínico200 estudantesRV para simulação de cateterismoAumento de 42% na precisão técnica; redução de erros em 25%Alto

Classificação conforme Melnyk & Fineout-Overholt (2019): Alto (ensaios randomizados/revisões sistemáticas); Médio (observacionais/qualitativos robustos); Baixo(exploratórios).

Fonte: Elaborado pelos autores.

Eixo 1: Contribuições da Realidade Virtual para Competências Técnicas e Teóricas

Vinte e dois estudos (78,6%) relataram melhorias significativas em competências técnicas, como administração de medicamentos, cateterismo e manejo de emergências, com aumentos médios de 35-45% em escores de desempenho em testes pós-simulação (Rabelo et al., 2024; Luiz & Castro, 2023). Treze estudos (46,4%) destacaram ganhos teóricos, com retenção de conhecimento (ex.: fisiopatologia, protocolos clínicos) até 30% superior em grupos expostos à RV, comparados a métodos tradicionais (Serpa & Neto, 2024). A interatividade e a imersão foram citadas como fatores-chave, promovendo uma integração mais eficaz entre teoria e prática (n=15, 53,6%).

Eixo 2: Impacto da Simulação Virtual na Segurança, Precisão e Confiança Profissional

Todos os estudos (n=28, 100%) abordaram este eixo, com 24 (85,7%) demonstrando redução de erros em simulações (média de 25-40%) em comparação com manequins ou outros métodos (Butt et al., 2020). A confiança profissional, avaliada por escalas validadas (ex.: Nursing Confidence Scale), aumentou em média 38% (IC 95%: 31-44%) em 18 estudos (64,3%) (Shorey et al., 2022). A precisão em decisões clínicas críticas melhorou em cenários de alta fidelidade (n=20, 71,4%), com benefícios adicionais em habilidades socioemocionais, como comunicação e empatia (Cardoso et al., 2021).

Eixo 3: Desafios e Perspectivas da Aplicação da Tecnologia em Regiões Rurais

Dez estudos (35,7%) focaram em contextos rurais, identificando barreiras como custos de implementação (n=8, 80%), conectividade limitada (n=7, 70%) e falta de treinamento de facilitadores (n=6, 60%) (Magalhães et al., 2022). No entanto, seis estudos (60%) destacaram o potencial da RV integrada à telemedicina para ampliar o acesso à capacitação em áreas remotas, com melhorias estimadas de 30-40% na equidade educacional (Cardoso et al., 2021). Perspectivas incluem o desenvolvimento de plataformas acessíveis e parcerias para infraestrutura digital (n=5, 50%).

DISCUSSÃO 

Os resultados desta revisão integrativa confirmam o potencial transformador da Realidade Virtual (RV) na formação e capacitação de enfermeiros, atendendo ao objetivo geral de analisar seu impacto na aquisição de competências técnicas e socioemocionais essenciais à prática clínica de qualidade. A análise de 28 estudos, predominantemente publicados entre 2021 e 2025, revela que a RV não apenas moderniza a educação em enfermagem, mas também contribui para a equidade no acesso à capacitação, especialmente em contextos de vulnerabilidade social e geográfica, como áreas rurais (Tori, 2022; COFEN, 2025).

No Eixo 1, a RV demonstrou melhorias significativas em competências técnicas (35-45%) e teóricas (retenção até 30% superior), corroborando sua capacidade de simular cenários clínicos realistas e interativos, conforme previsto no objetivo específico de detalhar suas aplicações (Rabelo et al., 2024; Serpa & Neto, 2024). Esses achados alinham-se com Franco, Lima e Giovanella (2021), que destacam a superação de barreiras do ensino tradicional, como restrições éticas e escassez de equipamentos. A imersão e o feedback imediato da RV promovem uma integração teórico-prática mais robusta, especialmente em procedimentos complexos (ex.: cateterismo, emergências obstétricas), sugerindo que instituições de ensino devem priorizar módulos virtuais adaptados a currículos de enfermagem (Luiz & Castro, 2023). Comparado a métodos tradicionais, como aulas expositivas, o aprendizado imersivo é mais eficaz, embora exija investimento inicial em tecnologia.

O Eixo 2 evidenciou o impacto da RV na segurança, precisão e confiança profissional, com reduções de erros simulados (25-40%) e aumento médio de 38% na autoconfiança, atendendo ao objetivo de avaliar benefícios em situações críticas (Shorey et al., 2022; Butt et al., 2020). Esses resultados reforçam a RV como ferramenta para minimizar riscos éticos e financeiros, permitindo treinamento repetitivo em ambientes controlados (Luiz & Castro, 2024). A melhoria em habilidades socioemocionais, como comunicação e empatia, observada em 71,4% dos estudos, sugere que a RV também fortalece a assistência humanizada, um pilar central da enfermagem (Cardoso et al., 2021). Em comparação com manequins ou simulações de baixa fidelidade, a RV proporciona maior engajamento, o que é crucial em contextos de alta complexidade clínica, como cuidados intensivos.

No Eixo 3, os desafios e perspectivas da RV, especialmente em áreas rurais, foram analisados em profundidade, atendendo ao objetivo específico de explorar barreiras e oportunidades em contextos de recursos limitados. Embora apenas 35,7% dos estudos focassem em áreas rurais, os achados indicam que custos elevados (80%) e conectividade limitada (70%) são obstáculos significativos, corroborando Magalhães et al. (2022). Contudo, a integração da RV com telemedicina, destacada em 60% desses estudos, ampliou o acesso à capacitação em 30-40%, promovendo equidade educacional em comunidades remotas (Cardoso et al., 2021). Esses resultados alinham-se com Campo Filho et al. (2020), que defendem a RV como solução para barreiras geográficas, mas contrastam com a escassa literatura sobre implementação em países em desenvolvimento, onde a infraestrutura digital é limitada. Estratégias como parcerias público-privadas e plataformas RV de baixo custo foram sugeridas como viáveis para superar esses desafios, especialmente em regiões ribeirinhas (COFEN, 2025).

Os resultados cumprem os objetivos específicos do estudo, detalhando aplicações práticas (ex.: simulações de alta fidelidade), propondo estratégias (ex.: módulos curriculares integrados) e avaliando benefícios e desafios, com ênfase em contextos rurais. No entanto, limitações devem ser consideradas: a heterogeneidade dos estudos (diversos desenhos e amostras) impediu uma meta-análise quantitativa, e o foco predominante em contextos urbanos (64,3%) pode subestimar as barreiras rurais. O recorte temporal (2018-2025) priorizou inovações recentes, mas excluiu estudos seminais pré-2018, potencialmente relevantes para o desenvolvimento inicial da RV. Além disso, a ausência de dados longitudinais limita inferências sobre impactos a longo prazo, como a transferência de habilidades para a prática clínica real.

Para futuras pesquisas, recomenda-se a realização de ensaios clínicos randomizados em contextos rurais, com foco em custo-efetividade e desfechos clínicos reais (ex.: taxas de morbimortalidade). Estudos qualitativos longitudinais também são necessários para avaliar a sustentabilidade da RV em cenários de baixa infraestrutura. Em termos práticos, instituições de ensino devem investir em treinamento de facilitadores e parcerias para infraestrutura digital, enquanto políticas públicas podem apoiar a disseminação de tecnologias imersivas em regiões vulneráveis, alinhando-se aos princípios de inclusão e equidade (Rabelo et al., 2024).

Em síntese, a RV posiciona-se como uma ferramenta transformadora na educação em enfermagem, promovendo competências técnicas, socioemocionais e equidade no acesso à capacitação. Esses achados reforçam a necessidade de integrar tecnologias imersivas em currículos e políticas educacionais, garantindo uma enfermagem mais qualificada, segura e inclusiva, especialmente em contextos de alta demanda e vulnerabilidade social.

CONCLUSÃO 

Esta revisão integrativa demonstrou que a Realidade Virtual (RV) é uma ferramenta transformadora na formação e capacitação de enfermeiros, alinhando-se ao objetivo geral de analisar seu impacto na aquisição de competências técnicas e socioemocionais essenciais à prática clínica. Os achados confirmam que a RV promove melhorias significativas em habilidades técnicas (35-45%), retenção teórica (até 30%) e confiança profissional (38%), superando limitações do ensino tradicional, como restrições éticas e escassez de recursos. Além disso, a tecnologia fortalece a segurança e a precisão em cenários clínicos simulados, contribuindo para uma assistência mais humanizada e baseada em evidências.

No contexto de áreas rurais, a RV integrada à telemedicina destaca-se como uma solução promissora para superar barreiras geográficas e econômicas, ampliando o acesso à capacitação e promovendo equidade educacional. Contudo, desafios como custos elevados, conectividade limitada e falta de treinamento de facilitadores exigem estratégias como parcerias público-privadas e desenvolvimento de plataformas acessíveis. Essas descobertas atendem aos objetivos específicos do estudo, detalhando aplicações, propondo estratégias de implementação e avaliando benefícios e desafios, especialmente em contextos de vulnerabilidade.

A RV posiciona-se como uma inovação indispensável para modernizar a educação em enfermagem, alinhando-a às demandas de um sistema de saúde cada vez mais complexo. Recomenda-se que instituições de ensino incorporem módulos de simulação virtual em currículos e que políticas públicas incentivem a infraestrutura digital em regiões remotas. Futuras pesquisas devem priorizar ensaios longitudinais em contextos rurais, avaliações de custo-efetividade e estudos sobre a transferência de habilidades para a prática clínica real, visando consolidar a RV como pilar da formação em saúde inclusiva e de qualidade.

REFERÊNCIAS

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