O DESPERTAR BILÍNGUE NA PRIMEIRA INFÂNCIA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202509122358


Viviane Brykcy Vicente


RESUMO

Esse artigo objetiva uma Revisão Bibliográfica, refletindo sobre os conceitos do desenvolvimento cognitivo da linguagem na primeira infância, à luz da teoria de Chomsky, especificamente a Teoria do Gerativismo e a hipótese do Inatismo Linguístico. O presente artigo tem como objetivo levantar e observar dados bibliográficos sobre o processo de aquisição precoce de segunda língua e sua caracterização em contextos brasileiros de Educação Bilíngue, mediados por ferramentas tecnológicas na perspectiva da Teoria Gerativa, em uma tentativa de expandir os conhecimentos  sobre a natureza da aquisição de uma segunda língua. Se entendermos o que faz os alunos aprenderem mais rápido e progredirem ainda mais, talvez possamos ser melhores professores e melhores alunos. O bilinguismo é uma força positiva que promove o desenvolvimento de processos executivos e cognitivos. A alternância de códigos no uso da língua materna e da língua adicional fortalece a habilidade cerebral, além disso, é uma grande oportunidade para aprender com as diferenças, potencializando assim a capacidade de aceitar e celebrar a diversidade.

Palavras-chave: Linguística do Inglês. Aquisição de L2. Bilinguismo. Linguística Cognitiva.

ABSTRACT

This project aims at a Bibliographic Revision figuring the concepts of cognitive language development in early childhood, in the light of Chomsky’s theory, specifically the Theory of Gerativism and the Linguistic Innateness Hypothesis. This project aims to collect and observe bibliographic data on the process of early acquisition of second language and its characterization in Brazilian contexts of Bilingual Education, mediated by technological tools from the perspective of gerativa theory, in an attempt to expand knowledge about the nature of the acquisition of a second language. If we understand what makes students learn faster and progress even more, maybe we can be better teachers and better students. Bilingualism is a positive force that promotes the development of executive and cognitive processes. The alternation of codes in the use of the mother tongue and the additional language strengthens the brain’s ability, in addition, it is a great opportunity to learn from differences, thus enhancing the capacity to accept and celebrate diversity.

Keywords: English Linguistics. L2 Acquisition. Bilingualism. Cognitive Linguistics.

Na história global as pandemias sempre exercem forte influência na humanidade, que inesperadamente se vê obrigada a repensar e recriar novos padrões de comportamento.

A pandemia Covid-19 e o distanciamento social afetou fortemente a rotina de cerca de 1,5 bilhão de alunos – mais de 90% da população estudantil. Com o fechamento das instituições de ensino, imposto como uma medida de segurança, o ensino e a aprendizagem mediada por ferramentas tecnológicas passaram a ser usados em uma escala sem precedentes. 

Toda a dinâmica de aulas, exercícios e avaliações foram repassados ao ambiente virtual e as crianças foram instruídas a assistir aulas on-line de suas casas em uma tentativa de assegurar a continuidade da aprendizagem formal. 

Com o advento da pandemia de Covid-19 foi constatada uma crise na educação pela falta de treinamento dos professores que foram obrigados a exercer ensino a distância, devido o fechamento das escolas, conforme dados da UNICEF. Dos professores afetados, cerca de 15% não foram treinados nessa área e têm dificuldade em adaptar-se a nova sistemática.

Pensando na dificuldade dos pais, no acompanhamento mais direto com seus filhos, que demonstravam falta de concentração frente ao computador, muitas escolas bilíngues passaram a oferecer aulas síncronas de 30 minutos, na tentativa de manter uma rotina para não interromper o desenvolvimento linguístico que a criança estava recebendo nas aulas presenciais. 

A primeira infância (período edipiano) é um ótimo período para a criança desenvolver a linguagem. A infância a partir da concepção, especialmente nos primeiros 1.000 dias de vida, é o período em que ocorre 90% do desenvolvimento cerebral. Sendo assim uma exposição robusta também na L2, nesse período fértil para a aquisição, seria desejável. 

O presente artigo tem como objetivo refletir acerca do processo de aquisição precoce de segunda língua e sua caracterização em contextos brasileiros de Educação Bilíngue, mediado por ferramentas tecnológicas na perspectiva da Teoria Gerativa.

O bilinguismo é uma força positiva que promove o desenvolvimento de processos executivos e cognitivos. A alternância de códigos no uso da língua materna e da língua adicional fortalece a habilidade cerebral. Além disso, é uma grande oportunidade para aprender com as diferenças, potencializando assim a capacidade de aceitar e celebrar a diversidade.

O gerativismo frisa que a língua não é um produto externo e sim uma capacidade biológica. 

Todas as crianças começam a desenvolver a fala praticamente na mesma idade, (por volta de um a dois anos de idade) seja qual for o seu local de convívio, bastando para isso apenas algum contato social com a criança. Contato esse que vai definir o idioma que ela vai adquirir.

Segundo Chomsky, a habilidade de entender e produzir a linguagem deriva de princípios universais, também conhecidos como Gramática Universal (GU). A competência linguística desta gramática propicia aquisição da linguagem em uma velocidade muito rápida para as crianças. 

A Gramática Universal, para Chomsky, compreende princípios e parâmetros dentro do dispositivo da aquisição da linguagem (LAD Language Acquisition Device). 

“(…) uma criança pode aprender boa parte de seu vocabulário e “sensibilidade” para as estruturas da sentença a partir da televisão, da leitura, da fala dos adultos, etc. Até mesmo uma criança pequena (…) pode imitar bastante bem uma palavra, numa primeira tentativa, sem qualquer esforço por parte de seus pais para ensiná-la. Também é absolutamente óbvio, que em estágios posteriores, uma criança será capaz de construir e entender vocalizações totalmente novas que ao mesmo tempo, sejam aceitáveis em sua língua (…) Deve haver processos fundamentais, operando independentemente do feedback de seu ambiente” (Chomsky, 1986).

Marcello Marcelino levanta alguns pontos a serem observados sobre o processo de aquisição precoce de L2 e afirma que:

“(…) pouco tempo de exposição, e com qualidade duvidável de input (música e vocabulário), não promove a aquisição da L2. O ensino de vocabulário, como cores, animais, objetos e músicas parece ter algum efeito sobre o desenvolvimento dos fonemas da L2 e da pronúncia, mas saber palavras e pendurá-las na estrutura da L1 não caracteriza aquisição e tampouco a estrutura da L2. Há de se observar a diferença entre a L2 em uso e a L2 sendo parafraseada com a estrutura da L1 com algumas palavras da L2 inseridas. (Marcello Marcelino, 2017)

Chomsky ressalta que 

“(…) no caso da linguagem deve-se explicar como um indivíduo, a partir de dados muito limitados, desenvolve um saber extremamente rico: a criança, imersa numa comunidade linguística, confronta-se com um conjunto muito limitado de frases, na maioria das vezes imperfeitas, inacabadas etc… (…) entretanto, ela chega, num tempo relativamente curto a “construir”, a interiorizar a gramática de sua língua, a desenvolver um saber bastante complexo e que não pode ser induzido só dos dados e de sua experiência.” (Chomsky, 1995)

Através da observação do fenômeno de aquisição de segunda língua em um bilíngue de infância, podemos tentar entender as características de Interlíngua e da gramática nuclear. 

Os estudos experimentais, especialmente os aliados à Teoria Linguística considerada por Chomsky, buscam investigar, principalmente, a percepção e a compreensão linguística da criança. 

Para entender a aquisição de uma segunda língua (SLA), precisamos saber não apenas como é o sistema construído pelos alunos, mas também os procedimentos que permitem o uso eficiente desse sistema e como os dois interagem em tempo real, bem como se desenvolvem ao longo do tempo.

A neuroplasticidade cerebral nesses primeiros momentos da vida oferece uma janela de oportunidade para impulsionar o desenvolvimento físico, cognitivo, emocional e social das crianças. Seria então possível desenvolver uma atmosfera que favoreça a aquisição em tão curto espaço de tempo e sem estruturação ou treinamento prévio dos professores?

“(…) A crença de que a criança desenvolverá e se tornará falante da língua simplesmente por estar exposta à língua não garante que isso ocorra. Comumente a criança é capaz de entender tudo, mas não responde em L2, utilizando-se apenas de sua L1, e eventualmente recorrendo a vocabulário e expressões adquiridas. (Marcello Marcelino, 2017)

Entender o caminho que os alunos seguem e, portanto, ter expectativas claras sobre o que os alunos podem alcançar em determinados pontos sobre o contínuo desenvolvimento, é crucialmente importante tanto para os alunos quanto para os professores. 

Compreender esse caminho está inseparavelmente vinculado ao esclarecimento da questão do ensino rápido e eficaz. Se entendermos o que faz os alunos aprenderem mais rápido e progredirem ainda mais, talvez possamos ser melhores professores e melhores alunos. 

Estudar aquisição da linguagem significa vislumbrar uma das maiores, senão a maior proeza do ser humano. O reconhecimento da linguagem se dá através de estímulos e uma vez adquirida se estende para toda sua vida. 

E para que o bilinguismo ocorra é necessário que ocorra a mesma quantidade de estímulos das duas línguas. 

“(…) a aquisição da linguagem tenta explicar, entre outras coisas, o fato de as crianças, por volta dos 3 anos, serem capazes de fazer o uso produtivo de suas línguas”. (Maingueneau, 2015)

O bilinguismo é uma força positiva, que promove o desenvolvimento de processos executivos e cognitivos. Além disso, é uma grande oportunidade para aprender com as diferenças, potencializando assim a capacidade de aceitar e celebrar a diversidade.

Há três resultados principais desta pesquisa. Em primeiro lugar, para a proficiência em língua geral, as crianças bilíngues tendem a ter um vocabulário menor em cada língua do que as crianças monolíngues em sua língua. No entanto, sua compreensão da estrutura linguística, chamada consciência metalinguística, é pelo menos tão boa e muitas vezes melhor do que a de monolíngues comparáveis.

Em segundo lugar, a aquisição de habilidades de alfabetização nessas crianças depende da relação entre os dois idiomas e o nível de proficiência na segunda língua. 

Especificamente, às crianças que aprendem a ler em dois idiomas que compartilham um sistema de escrita (por exemplo, inglês e francês) mostram progresso acelerado na aprendizagem para ler; crianças cujas duas línguas são escritas em sistemas diferentes (por exemplo, inglês e chinês) não mostram nenhuma vantagem especial, mas também não demonstram qualquer déficit em relação aos monolíngues.

“(…) Em um ambiente natural, a criança é exposta a um input robusto e rico em dados linguísticos primários para que desenvolva a gramática da língua. Estritamente do ponto de vista da aquisição e input ofertado, em um contexto de educação bilíngue, a criança é frequentemente exposta à L2 através da Interlíngua de seus professores, que pode não conter todos os dados necessários para que a aquisição ocorra de forma natural.” (Marcello Marcelino, 2017)

O benefício de aprender a ler em duas línguas, no entanto, exige que as crianças sejam bilíngues e não aprendizes de segunda língua cuja competência em uma das línguas é fraca. 

Em terceiro lugar, crianças bilíngues entre quatro e oito anos de idade demonstram uma grande vantagem sobre monolíngues, comparáveis na resolução de problemas que requerem o controle da atenção, a aspectos específicos de uma exibição e inibição da atenção a aspectos enganosos que são salientes, mas associados a uma resposta incorreta. 

Essa vantagem não se limita ao processamento da linguagem, mas inclui uma variedade de tarefas não verbais que requerem atenção e seletividade controladas em problemas, como formar categorias conceituais, ver imagens alternativas em figuras ambiciosas e entender a diferença entre a aparência e a realidade funcional de um objeto enganoso. 

Essas diferenças persistem ao longo das vidas conferindo benefícios cognitivos a bilíngues em todas as idades e até mesmo fornecer reserva de cognitivo que permite que os bilíngues funcionem independentemente, mesmo através dos estágios iniciais da demência.

O bilinguismo infantil é uma experiência significativa que tem o poder de influenciar o curso e a eficiência do desenvolvimento das crianças. 

O resultado mais surpreendente é que essas influências não se limitam ao domínio linguístico, onde tal influência seria esperada, mas se estendem também às habilidades cognitivas não verbais. 

Na maioria dos casos, o grau de envolvimento da criança com uma segunda língua, definida como a diferença entre bilinguismo e aquisição de segunda língua, é uma variável importante que determina tanto o grau quanto o tipo de influência encontrada. 

Três padrões de influência foram observados nesses estudos. Um resultado é que o bilinguismo não faz diferença e as crianças monolíngues e bilíngues se desenvolvem da mesma forma e na mesma taxa. 

Isso foi encontrado para problemas cognitivos, como desenvolvimento de memória e problemas linguísticos, como a consciência fonológica. 

A segunda é que o bilinguismo desfavorece as crianças de alguma forma. O principal exemplo disso está no desenvolvimento do vocabulário em cada língua. 

O terceiro padrão, e o mais prevalente em nossos estudos, é que o bilinguismo é uma força positiva que melhora o desenvolvimento cognitivo e linguístico das crianças, melhorando o acesso à alfabetização se os dois sistemas de escrita corresponderem ao desenvolvimento de processos executivos gerais para todas as crianças bilíngues, resolvendo uma ampla gama de problemas não verbais que requerem atenção e controle. 

Essas habilidades de controle executivo estão no centro do pensamento inteligente.

O sucesso das crianças na escola depende fortemente de sua proficiência na linguagem da instrução. Uma relação que se mantém para importantes atividades linguísticas (por exemplo, aprender a ler), disciplinas computacionais não verbais (por exemplo, matemática) e currículos baseados em conteúdo (por exemplo, estudos sociais). 

Em todos esses casos, as crianças devem ser qualificadas nas formas e significados da linguagem escolar e serem leitores competentes dessa língua. 

Crianças bilíngues podem não estar no mesmo nível de seus pares monolíngues, e alunos de segunda língua para os quais o inglês ou o francês não é sua língua natal podem não ter construído habilidades adequadas na língua instrutiva para ter sucesso nas escolas. 

Embora a lacuna de vocabulário entre crianças monolíngues e bilíngues desapareça se apenas palavras escolares forem consideradas. 

As evidências para o benefício positivo esmagador do bilíngue, juntamente com evidências de que as crianças bilíngues não são cognitivamente deficientes, indica um papel importante para as escolas.

As escolas devem fornecer um meio para que essas crianças construam suas habilidades linguísticas na língua escolar, para que possam ser participantes completos em sala de aula e colher o benefício mais positivo de sua experiência educacional.

 REFERÊNCIAS

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BIBER, D. & REPPEN, R. (2015) The Cambridge Handbook of English Corpus Linguistics. Cambridge: Cambridge University Press.

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CHOMSKY, Noam. Knowledge of Language: Its Nature, Acquisition and use. Nova York: Praeger, 1986.

CHOMSKY, Noam. The Minimalist Program. Cambridge Mass: MIT Press, 1995.

FERRARI, Lilian. Introdução à Linguística Cognitiva. São Paulo: Contexto, 2011.

MAINGUENEAU, Dominique. Discurso e Análise do Discurso. Trad. Sírio Possenti. São Paulo: Parábola, 2015.

MARCELINO, Marcello. Aquisição de Segunda Língua e Bilinguismo. Revista Intercâmbio, v. XXXV: 38-67, 2017. São Paulo: LAEL/PUCSP. ISNN 2237-759X

MUSSALIM, Fernanda; BENTES, Anna (org.). Introdução à Linguística. V. 1: Domínios e Fronteiras. São Paulo: Cortez, 2001, cap. 4, 5 e 6. 

MUSSALIM, Fernanda; BENTES, Anna (org.). Introdução à Linguística. V. 2: Domínios e Fronteiras. São Paulo: Cortez, 2006, cap. 5, 6 e 7. 

UNICEF, Impactos Primários e Secundários da COVID-19 em Crianças e Adolescentes Relatório de análise 1ª Onda. Disponível em: https://www.unicef.org/brazil/media/11331/file/relatorio-analise-impactos-primarios-e-secundarios-da-covid-19-em-criancas-e-adolescentes.pdf (acessado em 11/08/2022)