O CUIDADO DO ENFERMEIRO NA PROMOÇÃO DA SAÚDE MENTAL MATERNA E O IMPACTO NA SAÚDE FETAL

NURSING CARE IN PROMOTING MATERNAL MENTAL HEALTH AND IMPACT ON FETAL HEALTH

O CUIDADO DO ENFERMEIRO NA PROMOCIÓN DA SAÚDE MENTAL MATERNAL E O IMPACTO NA SAÚDE FETAL

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202512131702


Ana Clara Dantas Queiroz Viana; Gabriella Vitória Soares Aragão; Gabrielle da Silva Sousa; Géssica Ivyla Moura Lima; Jonathan Wedson da Silva; Laila Prudêncio de Andrade; Maria Ellen Sousa Morais.


Resumo

Analisar o papel do enfermeiro na promoção da saúde mental materna e seus impactos na saúde fetal, com foco em um cuidado humanizado e qualificado. Realizada por meio de revisão integrativa da literatura (PRISMA e PICO), a pesquisa incluiu estudos de 2020 a 2025, nas bases PubMed e ScienceDirect. O enfermeiro desempenha papel central na triagem, acolhimento e encaminhamento das gestantes com transtornos psíquicos, utilizando estratégias como a Escala de Depressão Pós-Parto, visitas domiciliares e apoio psicossocial. Essas abordagens mostram eficácia no rastreamento precoce de sintomas e no fortalecimento do vínculo mãe-bebê. No entanto, limitações como a falta de protocolos, tempo insuficiente nas consultas e estigmas sociais comprometem a assistência. A escuta ativa, a empatia e a educação em saúde são essenciais para reduzir o estresse materno e proteger o neurodesenvolvimento fetal. Políticas públicas e a padronização de práticas são cruciais para um cuidado integral e baseado em evidências.

Descritores: Saúde Mental Perinatal; Promoção da Saúde; Enfermeiros.

Abstract

Analyze the role of nurses in promoting maternal mental health and its impacts on fetal health, focusing on humanized and qualified care. Carried out through a integrative literature review (PRISMA and PICO), the research included studies from 2020 to 2025, in the PubMed and ScienceDirect databases. The nurse plays a central role in the triage, support and management of pregnant women with psychological disorders, using strategies such as the Postpartum Depression Scale, home visits and psychosocial support. These approaches show effectiveness in early detection of symptoms and strengthening of the mother-baby bond. However, limitations such as lack of protocols, insufficient time in consultations and social stigmas compromise assistance. Active listening, empathy and health education are essential to reduce maternal stress and protect fetal neurodevelopment. Public policies and the standardization of crucial practices for comprehensive, evidence-based care.

Descriptors: Perinatal Mental Health; Health Promotion; Nurses

Resumen

Analizar el papel del enfermero en la promoción de la salud mental materna y sus impactos en la salud fetal, con foco en un cuidado humanizado y calificado. Realizada por meio de revisión integradora da literatura (PRISMA e PICO), a pesquisa incluiu estudos de 2020 a 2025, nas bases PubMed e ScienceDirect. El enfermeiro desempenha papel central na triagem, acolhimento e encaminhamento das gestantes com transtornos psíquicos, utilizando estrategias como una Escala de Depresión Pós-Parto, visitas domiciliares e apoio psicossocial. Essas abordagens mostram eficácia no rastreamento precoce de sintomas e no fortalecimento do vínculo mãe-bebê. Sin embargo, las limitaciones como la falta de protocolos, el tiempo insuficiente en las consultas y los estigmas sociales comprometen la asistencia. La piel activa, la empatía y la educación en la salud son esenciales para reducir el estrés materno y proteger el neurodesenvolvimento fetal. Las políticas públicas y la padronización de prácticas son cruciales para un cuidado integral y basado en evidencias.

Descriptores: Salud Mental Perinatal; Promoción de la Salud; Enfermeras.

Introdução

O cuidado com a saúde mental perinatal é um desafio crescente e o papel dos profissionais de saúde, especialmente dos enfermeiros, é fundamental para garantir um suporte adequado às gestantes que enfrentam transtornos psicológicos1. Embora a Escala de Depressão Pós-Parto de Edimburgo (EDS) seja uma ferramenta amplamente utilizada para rastrear sintomas depressivos em mulheres grávidas e puérperas, muitas ainda não recebem a assistência necessária2.

Entre os principais obstáculos, estão a dificuldade de reconhecimento dos próprios sintomas, o medo do estigma e a percepção de que os profissionais de saúde não dispõem do tempo ou da sensibilidade adequados para um atendimento humanizado3. Esse cenário mostra a necessidade de um olhar mais atento e acolhedor por parte da equipe multidisciplinar, em especial de enfermagem, que está frequentemente na linha de frente do atendimento e pode desempenhar um papel essencial na identificação precoce e no encaminhamento dessas pacientes1.

A gestação é um período de intensas transformações físicas, hormonais, emocionais e sociais, que podem impactar significativamente a saúde mental das mulheres4. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), aproximadamente 20% das gestantes e puérperas enfrentam algum transtorno mental, como depressão, ansiedade ou estresse pós-traumático. Fatores como histórico de problemas psicológicos, falta de suporte social, violência doméstica e condições socioeconômicas desfavoráveis aumentam a vulnerabilidade das mulheres nesse período5. Além disso, transtornos mentais não tratados durante a gestação podem resultar em complicações obstétricas, como parto prematuro e baixo peso ao nascer, além de prejudicar o vínculo mãe-bebê e o desenvolvimento infantil6

Diante desse cenário, o diagnóstico precoce e o suporte adequado são essenciais para minimizar os impactos negativos na saúde materna e neonatal. A atenção primária deve incluir o rastreamento de sintomas depressivos e ansiosos durante o pré-natal, garantindo intervenções eficazes, como acompanhamento psicológico e, quando necessário, tratamento medicamentoso seguro7. Existem fortes barreiras ao engajamento dessas mulheres no tratamento; o enfermeiro pode atuar como um elo essencial entre a gestante e a rede de cuidados, promovendo um acompanhamento contínuo e individualizado 1-8

O enfermeiro, ao atuar como um facilitador no processo de acolhimento e educação em saúde, contribui para a construção de um ambiente seguro e saudável para o desenvolvimento fetal. O olhar deste profissional deve estar atento aos sinais precoces de transtornos mentais na gestante, como alterações no humor, apatia ou comportamento ansioso9, que podem impactar negativamente a saúde do bebê. A literatura destaca a importância de intervenções precoces e do suporte contínuo para prevenir condições como depressão pós-parto e seus efeitos a longo prazo tanto para a mãe quanto para o bebê7,9

A escassez de serviços especializados em saúde mental perinatal em diversas regiões, que têm um acesso à saúde mais complexo, destaca ainda mais a importância do enfermeiro como um facilitador do cuidado. Muitas gestantes que necessitam de suporte psicológico enfrentam dificuldades financeiras ou burocráticas para acessar psicólogos e psiquiatras dentro dos programas de saúde pública, ficando limitadas a serviços terciários que priorizam casos de alta gravidade10

Diante desse contexto, esta pesquisa tem como objetivo analisar, à luz da literatura, o papel do enfermeiro na promoção da saúde mental materna e seu impacto na saúde fetal, destacando a importância de uma assistência qualificada e humanizada durante a gestação e o pós-parto. Para isso, o estudo traz a seguinte pergunta norteadora: como acontece o processo de cuidado com a saúde mental materna e os impactos na saúde fetal?

Metodologia

O presente estudo caracteriza-se como uma revisão integrativa, utilizando a estratégia PICO (População, Intervenção, Comparação e Desfecho), uma abordagem estruturada e utilizada em revisões sistemáticas para guiar a busca por evidências. A revisão integrativa permite a síntese de estudos previamente publicados, proporcionando uma análise detalhada e fundamentada sobre o tema investigado. A utilização da estratégia PICO facilita a definição clara dos componentes da pesquisa, possibilitando uma busca mais precisa e orientada11.

O processo de pesquisa inicia-se com a formulação de uma questão norteadora, baseada na estratégia PICO. O estudo foca na população de enfermeiros atuando na área da saúde mental materna (P). A intervenção investigada refere-se à prática do cuidado, com ênfase no atendimento à saúde mental de gestantes (I). Para compreender a eficácia do cuidado, realizase uma comparação entre diferentes abordagens e práticas utilizadas na assistência à saúde mental materna (C). O desfecho esperado envolve a análise do impacto dessas práticas no estado de saúde mental das gestantes e nos resultados do cuidado materno (O).

Com a questão de pesquisa definida, iniciou-se a busca por estudos primários nas principais bases de dados acadêmicas, utilizando descritores específicos e operadores booleanos para garantir a abrangência e precisão da pesquisa. Os descritores utilizados foram:

“Enfermeiro” AND “Saúde mental” AND “materna” OR (Gestante) AND “Papel” OR (cuidado), em português, e “Nurse” AND “Mental health” AND “maternal” OR (Pregnant) AND “Role” OR (Care), em inglês. A escolha dos descritores foi realizada de forma a garantir a inclusão de estudos relevantes à temática do cuidado de enfermeiros na saúde mental de gestantes.

Os critérios de inclusão e exclusão foram estabelecidos para assegurar a qualidade dos estudos selecionados. Foram incluídos artigos primários publicados entre 2020 e 2025, nos idiomas português e inglês, que abordassem especificamente o papel do enfermeiro no cuidado à saúde mental materna. Foram excluídos estudos secundários, teses, monografias, duplicatas e artigos cujos conteúdo ou metadados não se adequassem ao foco da pesquisa.

O processo de seleção dos estudos foi realizado de maneira sistemática, utilizando um fluxograma que detalha todas as etapas da busca, análise e inclusão dos artigos, conforme os critérios estabelecidos. A figura 1 ilustra o fluxo de seleção dos estudos nas bases de dados consultadas, garantindo que apenas os artigos mais relevantes e com maior rigor metodológico fossem incluídos.

Figura 1 – Fluxograma dos resultados de busca das publicações segundo os objetivos do
presente estudo.

Autoras: Viana; Sousa; Lima (2025).

Resultados e discussão

As buscas foram realizadas nas bases de dados ScienceDirect e PubMed, selecionando publicações dos últimos cinco anos. Ao todo, identificou-se 197 artigos, sendo 108 da base ScienceDirect e 89 da PubMed, conforme detalhado na Figura 1. Após aplicação dos critérios de inclusão, 28 estudos atenderam aos objetivos da pesquisa, enquanto 18 foram excluídos por não abordarem de forma direta a relação entre o cuidado do enfermeiro e a saúde mental perinatal. 

Dentre os artigos incluídos, foram priorizados estudos que discutem intervenções práticas, estratégias de acolhimento e rastreamento de sintomas. A análise dos resultados permitiu identificar que o enfermeiro, ao atuar de forma sensível e capacitada, é um elo fundamental na detecção precoce de sintomas psíquicos e no encaminhamento adequado das gestantes, contribuindo significativamente para a prevenção de complicações obstétricas e para o fortalecimento do vínculo mãe-bebê. 

Categoria 1- Os principais achados dos artigos selecionados propõem que, entre as principais intervenções práticas identificadas na literatura, destaca-se o protagonismo do enfermeiro no rastreamento ativo de sintomas de sofrimento psíquico durante o pré-natal e o puerpério. A aplicação de escalas padronizadas, como a Edinburgh Postnatal Depression Scale (EPDS), aliada a entrevistas abertas e escuta qualificada, constitui uma abordagem eficaz para a detecção precoce de quadros de depressão e ansiedade perinatal. Entretanto, a eficácia dessas estratégias depende da formação adequada do profissional de enfermagem e da existência de fluxos assistenciais bem definidos para o encaminhamento e acompanhamento da gestante. 

Categoria 2- No cenário do acolhimento, a atuação da enfermagem tem se mostrado essencial para estabelecer vínculo terapêutico com a gestante, especialmente no contexto da primeira visita pós-natal. A comunicação sensível, a escuta sem julgamentos e a adaptação das orientações às realidades individuais são estratégias valorizadas pelas mulheres e reconhecidas pelos profissionais como centrais para a construção da confiança. A prática do acolhimento requer que o enfermeiro seja capaz de reconhecer sinais sutis de vulnerabilidade emocional e ajustar sua conduta de forma responsiva, respeitando o tempo, a cultura e as expectativas da mulher. 

Categoria 3- Além do rastreamento, ações de educação em saúde e promoção do autocuidado são componentes estratégicos da prática de enfermagem no enfrentamento da depressão perinatal. A oferta de informações claras sobre sinais de alerta, autocuidado pós-parto e cuidados com o recém-nascido contribui para o fortalecimento da confiança materna e 13 reduz sentimento de insegurança. O envolvimento ativo da mulher durante a avaliação do bebê, bem como a disponibilização de materiais educativos e contatos da rede de apoio, configuramse como intervenções efetivas. 

Quadro 1: Amostra de artigos selecionados para análise, dividida em informações como autor, objetivos, faixa etária dos participantes da pesquisa, local de pesquisa e principais resultados.

AUTOR (ANO)OBJETIVOMETODOLOGIAPRINCIPAIS ACHADOS
Kiraly et al., (2024)12 Explorar o papel de obstetras, enfermeiros e outros profissionais de saúde materna e infantil na detecção, triagem e encaminhamento de mulheres durante o período perinatal identificadas como deprimidas, ansiosas ou apresentando outros sintomas de transtornos mentais. Quantitativo, descritivo e comparativo. As comparações entre os grupos foram ajustadas por tempo de atuação profissional. Com mais frequência sobre a rede de apoio da mãe (p = 0,011) e abordaram mães com sinais de tristeza (p = 0,044). Já outros profissionais de atenção primária encaminharam mais para serviços de saúde mental (p = 0,005), forneceram mais materiais informativos sobre PND (p = 0,008) e utilizaram mais a EPDS (p = 0,027).
Robinson; Robinson (2022)13 Investigar a atenção e a experiência de luto sentida pelos pais diante da perda perinatal. O luto e a perda paterna são frequentemente ignorados e subestimados pelos profissionais de saúde, que habitualmente atendem apenas às necessidades das mães. Qualitativo, descritivo e narrativo. Os autores destacam que os profissionais de saúde, especialmente enfermeiros, costumam focar exclusivamente nas mães, invisibilizando o sofrimento dos pais. Essa omissão pode agravar o luto masculino, gerando impactos emocionais duradouros. O artigo ressalta o papel essencial do enfermeiro de saúde mental na escuta ativa, identificação precoce do sofrimento e encaminhamento adequado. O cuidado integral deve contemplar ambos os genitores, prevenindo complicações futuras e fortalecendo o vínculo familiar.
Qutishat (2025)14 Examinar criticamente os desafios da assistência à saúde materna no conflito de Gaza e suas implicações para as funções de enfermagem, destacando a necessidade de intervenções baseadas em evidências para melhorar os resultados de saúde das pacientes. Estudo observacional. O conflito prejudicou a qualidade e a disponibilidade dos serviços de saúde materna, expondo as gestantes a maiores riscos à saúde e sobrecarregando os enfermeiros com cargas de trabalho insustentáveis e estresse emocional.
Stevens et al., (2023) 15 Investigar como enfermeiras de saúde materno-infantil incorporam a promoção da saúde mental infantil (IMH) em sua prática clínica e como compartilham esse conhecimento com os cuidadores. Estudo qualitativo, descritivo e exploratório realizado com dez enfermeiras em um município australiano. As enfermeiras demonstraram confiança na promoção da saúde física, mas relataram barreiras na integração da saúde mental infantil, como limitação de tempo, pouca familiaridade com linguagem técnica e falta de supervisão reflexiva qualificada. Apesar de reconhecerem a importância da IMH, poucas a trataram como atividade promocional formal. A maioria utilizava estratégias indiretas, como modelagem de interações e destaque para a comunicação do bebê, mas mostraram insegurança ao abordar aspectos emocionais e relacionais do desenvolvimento infantil.
Giltenane et al., (2021) 16 Explorar a percepção de enfermeiras de saúde pública e mães sobre a qualidade do cuidado oferecido durante a primeira visita pós-natal na Irlanda. Design exploratório e qualitativo. A visita pós-natal é fundamental para construir vínculo, promover a autoconfiança materna e fornecer educação em saúde. Mães relataram apoio prático e emocional, mas destacaram inconsistências nos cuidados, especialmente em relação a orientações sobre aleitamento, alimentação com fórmula e autocuidado. As enfermeiras enfatizaram a importância da escuta ativa, comunicação sensível e oferta de informações individualizadas. A ausência de padronização nos procedimentos e lacunas na comunicação entre serviços hospitalares e comunitários comprometeram a continuidade e a efetividade do cuidado.
Kiraly; BoyleDuke; Shklarski (2024) 17 Explorar o papel de obstetras e outros profissionais de saúde (enfermeiros) materna e infantil na detecção, triagem e encaminhamento de mulheres durante o período perinatal identificadas como deprimidas, ansiosas ou apresentando outros sintomas de transtornos mentais. Pesquisa quantitativa de caráter descritivo. Enfermeiros, enquanto prestadores primários de cuidados materno-infantis, destacaram-se no estudo por utilizarem com maior frequência a Escala de Depressão Pós-Parto de Edimburgo (EPDS), disponibilizarem informações sobre saúde mental nas salas de espera e realizarem encaminhamentos a serviços especializados, como terapia e psiquiatria. No entanto, apresentaram menor frequência na identificação de sintomas clássicos da depressão perinatal — como desesperança, sentimentos de fracasso e choro excessivo — quando comparados aos obstetras.
Giltenane et al., (2021) 18 Explorar as visões e experiências sobre a qualidade do atendimento prestado durante a primeira consulta pós-parto, a partir das perspectivas das mães e enfermeiras de saúde pública. Qualitativa. Mães e enfermeiras de saúde pública identificaram que as enfermeiras de saúde pública foram cruciais para fornecer apoio durante a primeira consulta pós-parto, visto que as mães necessitavam de cuidados e aconselhamento sobre o bem-estar físico, psicológico e social para si mesmas e para o seu recém-nascido. As enfermeiras identificaram a construção de relacionamentos, o empoderamento e a promoção da saúde como essenciais para o papel das enfermeiras de saúde pública.
Navarrete et al., (2022) 19 Explorar as percepções e o conhecimento sobre depressão perinatal em profissionais de saúde e analisar as barreiras ao seu tratamento em centros de atenção primária na Cidade do México. Estudo exploratório com abordagem qualitativa. A maioria dos profissionais de atenção primária desconhece a Norma Oficial que recomenda a prestação de cuidados de saúde mental materna durante o período perinatal. Não há iniciativa para sua incorporação na rotina de atendimento. Uma barreira significativa à sua implementação é a percepção tendenciosa e estereotipada dos profissionais de saúde sobre depressão perinatal, maternidade e o papel da mulher. Outras barreiras incluem a carga de trabalho dos profissionais de saúde, a divisão do cuidado entre os profissionais e a falta de comunicação entre estes.
Loutfy et al., (2024) 20 Examinar o efeito mediador do FCC na relação entre o apoio dos enfermeiros aos pais e o estresse parental em UTINs. Observacional transversal. O apoio da enfermeira associou-se positivamente ao apoio parental (β = 0,81, p < 0,001) e negativamente ao estresse parental (β = -1,156, p < 0,001). Verificou-se que o apoio parental reduziu o estresse parental (β = -0,18, p < 0,001). A análise de mediação confirmou que o apoio parental mediou parcialmente a relação entre o apoio da enfermeira e o estresse parental (efeito indireto β = 0,145, IC 95%: 0,055-1,007).
Nkurunziza et al., (2024) 21 Explorar as experiências de enfermeiras e parteiras que trabalham com mães adolescentes em ambientes selecionados de assistência primária à saúde em Ruanda para informar a prestação de cuidados informados sobre traumas e violência. Abordagem qualitativa de descrição interpretativa. A análise revelou três temas principais e 11 (subtemas): (a) prática relacional (ser criativo e flexível, “emprestar-lhes nossos ouvidos”); (b) desafios individuais de fornecer cuidados a mães adolescentes (falta de conhecimento para fornecer cuidados relacionados à violência de gênero e experiência de gênero); (c) fatores que contribuem para soluções alternativas (diretrizes inflexíveis, falta de protocolo e procedimentos, falta de treinamento de enfermeiros e parteiras em serviço e a estrutura física do ambiente perinatal).

A promoção da saúde mental materna representa uma dimensão essencial da prática do enfermeiro durante o ciclo gravídico-puerperal, exercendo impacto direto sobre o desenvolvimento fetal e a qualidade da relação mãe-bebê. Estudos apontam que a atuação do enfermeiro, pautada no modelo de Cuidado Centrado na Família (CCF), transcende o cuidado técnico, estabelecendo um suporte emocional, informacional e prático que é capaz de reduzir significativamente o estresse parental e promover resiliência emocional nas mães. 

Segundo Loutfy et al.20, a implementação efetiva do CCF nas unidades neonatais mediou positivamente a relação entre o apoio de enfermeiros e a diminuição do estresse parental, evidenciando que o fortalecimento da comunicação compassiva e da participação familiar na assistência neonatal gera efeitos benéficos tanto para a mãe quanto para o recémnascido. Entretanto, a literatura também revela que, apesar da existência de diretrizes e normativas sobre a saúde mental perinatal, ainda há lacunas relevantes na prática assistencial. 

Navarrete et al.19 demonstram que, nos centros de saúde da Cidade do México, muitos profissionais desconhecem protocolos oficiais sobre depressão perinatal e, frequentemente, reproduzem percepções estereotipadas sobre a maternidade, o que inviabiliza o acolhimento humanizado das mulheres em sofrimento psíquico. A ausência de uma abordagem sistematizada, associada à sobrecarga de trabalho e à fragmentação entre serviços, perpetua o não reconhecimento de quadros depressivos, retardando intervenções necessárias e comprometendo, por consequência, a saúde fetal e a qualidade do vínculo afetivo inicial. 

Quando se dialoga com o contexto da atuação do enfermeiro na detecção precoce de sinais de sofrimento emocional e no fortalecimento do empoderamento materno, a primeira visita domiciliar é um momento estratégico, não apenas para orientações técnicas, mas, sobretudo, para a construção de uma relação de confiança, capaz de validar as emoções maternas e de oferecer suporte adaptado. A ausência de julgamentos e a capacidade de escuta ativa por parte do enfermeiro emergem como elementos indispensáveis para que a mulher se sinta acolhida, fortalecida e apta a cuidar de si e do seu filho16

Durante o pré-natal, os enfermeiros desempenham um papel essencial na identificação precoce de sinais de sofrimento psíquico, como ansiedade e depressão, por meio de uma escuta qualificada e acolhedora. Essa abordagem permite intervenções oportunas e encaminhamentos adequados, contribuindo para a prevenção de complicações durante a gestação e o puerpério16. Além disso, a integração de práticas como grupos de apoio e atividades educativas fortalece a rede de suporte emocional das gestantes, promovendo uma experiência gestacional mais saudável e segura. 

A importância de uma triagem sistemática para transtornos mentais perinatais também foi reforçada no estudo de Kiraly et al.12, que comparou práticas de obstetras e demais profissionais de atenção primária. Para o autor, enfermeiros e profissionais da atenção primária demonstraram maior propensão a realizar encaminhamentos para suporte psicológico e a disponibilizar materiais educativos nos ambientes de espera, enquanto obstetras se mostraram mais sensíveis à identificação de manifestações clínicas da depressão perinatal. Todavia, lacunas persistem, como a falta de uniformização no uso de instrumentos de triagem e o desconhecimento de protocolos de acompanhamento pós-diagnóstico, o que limita o alcance de ações preventivas eficazes. 

Constituindo esse diálogo, o enfermeiro emerge como figura central na assistência humanizada e qualificada, pois é capaz de integrar o cuidado técnico e o cuidado emocional de maneira contínua e estratégica. A aplicação prática da Teoria das Relações Interpessoais de Peplau consolida que a construção de vínculos terapêuticos baseados na empatia, comunicação aberta e respeito mútuo é capaz de criar um ambiente de segurança emocional que favorece não apenas o enfrentamento do estresse materno, mas também o fortalecimento da autoestima e da autonomia da mulher na transição para a maternidade20

Navarrete et al.19 revelam que fatores institucionais, como a falta de articulação entre setores da saúde, a ausência de treinamentos sistemáticos em saúde mental para enfermeiros e médicos e a escassez de recursos humanos qualificados constituem barreiras estruturais que potencializam a negligência da dimensão psíquica nos cuidados maternos. Essa realidade evidencia a necessidade urgente de políticas públicas que garantam a formação contínua dos enfermeiros em saúde mental perinatal e a inserção de práticas humanizadas como eixo norteador da assistência à mulher. 

Para Giltenane et al.17 ainda demonstra que a atuação do enfermeiro no fortalecimento da saúde mental materna não se limita à prevenção da depressão pós-parto, mas se estende ao suporte na construção do vínculo mãe-bebê, elemento fundamental para o desenvolvimento afetivo, social e cognitivo da criança. A escuta ativa, a validação das dificuldades da mulher e o reforço positivo de suas competências parentais contribuem para a criação de um ambiente emocionalmente seguro, tanto para a mãe quanto para o bebê. 

O uso articulado de ferramentas padronizadas de triagem, como a Edinburgh Postnatal Depression Scale (EPDS), associado a entrevistas abertas e acolhedoras, amplia a capacidade dos enfermeiros de detectar precocemente sinais 20 de transtornos psíquicos, favorecendo o encaminhamento oportuno e a adesão das gestantes ao tratamento. A sensibilidade no manejo da entrevista clínica e a criação de um espaço de fala sem julgamentos constituem pilares essenciais para que a mulher reconheça suas vulnerabilidades e busque apoio12

O estresse psicológico durante a gestação está diretamente associado a alterações neurobiológicas no cérebro fetal, mediadas principalmente por processos inflamatórios. O estresse materno ativo o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA) e promove elevação sustentada de cortisol e de citocinas pró-inflamatórias como IL-6, que podem atravessar a barreira placentária e impactar a neurogênese, sinaptogênese e mielinização 22. Estudos de neuroimagem revelam que essas alterações influenciam o desenvolvimento de estruturas como o hipocampo e a amígdala, regiões relacionadas à regulação emocional, com implicações duradouras para a saúde mental infantil, incluindo risco aumentado para ansiedade, depressão e dificuldades cognitivas22

O autor destaca que estratégias como psicoterapia breve, atenção plena (mindfulness) e suporte psicoeducativo são eficazes na redução de marcadores inflamatórios e sintomas emocionais durante a gestação. Ao reconhecer sinais precoces de sofrimento psíquico e articular o cuidado interdisciplinar, o enfermeiro contribui não apenas para o bem-estar materno, mas também para a proteção do neurodesenvolvimento fetal, consolidando seu papel na interface entre a saúde mental perinatal e a saúde infantil. 

A partir da busca por evidências que contemplassem os desafios da enfermagem nesses contextos de estudos, refletir sobre o papel do enfermeiro na promoção da saúde mental materna em territórios marcados por crise humanitária, como a Faixa de Gaza14. O estudo evidencia que as gestantes estão expostas a uma somatória de fatores de risco, incluindo traumas, insegurança alimentar, medo constante e acesso precário aos serviços de saúde, que comprometem severamente sua saúde física e mental. 

As condições de guerra e a destruição da infraestrutura hospitalar dificultam o acompanhamento pré-natal e interrompem a continuidade do cuidado, ao mesmo tempo em que os enfermeiros são sobrecarregados com tarefas emergenciais, atuando muitas vezes sem apoio técnico, psicológico ou institucional. Nessa realidade, o enfermeiro assume uma função multifacetada, que vai além da assistência biomédica convencional. Ele se torna ponte entre o cuidado clínico e o suporte psicossocial, acolhendo o sofrimento das gestantes e articulando formas possíveis de cuidado dentro das limitações impostas pelo cenário de conflito14.

Mesmo em condições extremas, os enfermeiros desempenham papel central na escuta, no reconhecimento de sinais de sofrimento mental e na busca de soluções comunitárias para garantir algum nível de suporte à mulher19. Para Nkurunziza et al.21 apontam que intervenções baseadas em escuta qualificada, vínculo terapêutico e flexibilidade nas condutas clínicas favorecem o engajamento dessas pacientes e reduzem riscos de retraumatização. 

Diante da escassez de protocolos específicos para o rastreamento de sofrimento psíquico nesse grupo, estratégias viáveis incluem a capacitação contínua das equipes e o uso de ferramentas simples e validadas, como questionários breves adaptados à realidade local21. Apesar das contribuições significativas, os estudos também apontam limites na atuação da enfermagem. Barreiras como tempo reduzido de consulta, falta de protocolos específicos e ausência de supervisão clínica comprometem a efetividade do cuidado emocional à gestante. Além disso, observa-se uma tendência à fragmentação entre saúde física e mental no atendimento pré-natal, o que dificulta a abordagem integral proposta pelas diretrizes da atenção humanizada ao parto e nascimento12

Diante dessas constatações, é possível afirmar que o papel do enfermeiro na promoção da saúde mental materna é reconhecido e valorizado, mas ainda carece de institucionalização plena. A atuação desse profissional se mostra essencial tanto na dimensão assistencial quanto na educativa, favorecendo a autonomia das gestantes e contribuindo para desfechos positivos na saúde da díade mãe-bebê. No entanto, a efetivação desse cuidado exige investimento em capacitação contínua, criação de protocolos específicos, suporte interdisciplinar e políticas públicas voltadas para o cuidado emocional no ciclo gravídico-puerperal15-23

Considerações finais

Considerando o conjunto de evidências analisadas, torna-se evidente que o cuidado em saúde mental materna prestado pelo enfermeiro deve ser compreendido como parte indissociável da assistência perinatal. Sua prática exige sensibilidade clínica, conhecimento técnico e articulação com múltiplos setores para que se concretize em ações efetivas tanto preventivas quanto interventivas. O desenvolvimento de vínculos terapêuticos, a escuta ativa e a validação das experiências emocionais das gestantes despontam como pilares fundamentais para a construção de um cuidado humanizado. No entanto, para que esse modelo se consolide, é indispensável que o enfermeiro tenha condições estruturais e formativas adequadas para exercer esse papel, o que envolve não apenas capacitação contínua, mas também a valorização institucional da dimensão psíquica da maternidade como parte central da atenção à saúde.

É necessário, portanto, que os sistemas de saúde avancem na incorporação de estratégias sistematizadas de triagem e acompanhamento em saúde mental perinatal, contemplando a atuação do enfermeiro como protagonista neste processo. Protocolos clínicos, integração interprofissional, supervisão em serviço e a valorização do cuidado relacional são elementoschave para transformar a prática cotidiana em uma assistência mais resolutiva, empática e equitativa. Além disso, reconhecer e fortalecer o papel do enfermeiro em contextos de vulnerabilidade, como situações de pobreza, violência ou conflito, amplia as possibilidades de acesso ao cuidado emocional e protege a saúde da mãe-bebê. Assim, reafirma-se que investir na saúde mental materna é investir na base do desenvolvimento humano e o enfermeiro ocupa posição estratégica nessa missão coletiva.

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