O COMPLEXO GRANULOMA EOSINOFÍLICO FELINO: ROTINA NA DERMATOLOGIA VETERINÁRIA

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202510221623


Beatriz de Britto Luzia
Vitória Caroline Silva Santos
Orientador: Diego de Mattos Alves Silva


RESUMO

O Complexo Granuloma Eosinofílico Felino (CGEF) é uma das principais dermatopatias inflamatórias observadas em felinos, caracterizada por resposta imunológica exacerbada mediada por eosinófilos e mastócitos, frequentemente associada a reações de hipersensibilidade a picadas de pulgas, alimentos ou alérgenos ambientais. Sua etiologia multifatorial e comportamento recidivante tornam o diagnóstico e o tratamento desafiadores, o que justifica o aprofundamento científico sobre o tema. Este estudo teve como objetivo compreender os mecanismos etiológicos e imunológicos do CGEF, descrever suas manifestações clínicas, analisar os métodos diagnósticos disponíveis e avaliar a eficácia das terapias empregadas, especialmente o uso de glicocorticoides e imunossupressores. A metodologia adotada foi uma revisão de literatura explicativa e qualitativa, realizada entre março e maio de 2025, com base em artigos científicos, dissertações e livros publicados entre 2008 e 2024, selecionados nas bases SciELO, PubMed, Google Scholar, ScienceDirect e CAPES. Os resultados evidenciaram que o diagnóstico precoce é determinante para o sucesso terapêutico, permitindo o controle das lesões e a redução de recidivas, além de demonstrar que o uso de terapias imunomoduladoras como glicocorticoides e ciclosporina é eficaz, principalmente quando instituído nas fases iniciais da doença. Conclui-se que o CGEF requer uma abordagem diagnóstica criteriosa e terapêutica individualizada, baseada em evidências e no manejo multimodal, com integração entre clínicos, patologistas e imunologistas. A relevância deste estudo reside na contribuição para a consolidação da dermatologia felina como especialidade e no incentivo à formação continuada de profissionais veterinários voltados à prevenção e ao tratamento eficiente das dermatopatias felinas.

Palavras-chave: Complexo Granuloma Eosinofílico Felino; Dermatologia Veterinária; Diagnóstico Precoce.

1. INTRODUÇÃO

O Complexo Granuloma Eosinofílico Felino (CGEF) é uma dermatopatia inflamatória comum em felinos domésticos, caracterizada por formas clínicas como úlcera indolente, placa eosinofílica e granuloma eosinofílico. Essas lesões podem afetar a pele, os lábios e a cavidade oral, sendo frequentemente associadas a reações alérgicas a picadas de pulga, proteínas alimentares ou alérgenos ambientais (Ferrara et al., 2024; Santana, Araújo e Souza, 2023). A condição é de difícil diagnóstico e tratamento devido à sua etiologia multifatorial e ao comportamento recidivante, exigindo um conhecimento aprofundado sobre imunologia e dermatologia felina (Azevedo et al., 2021).

O CGEF resulta da interação entre fatores alérgicos, infecciosos e imunomediados, o que contribui para sua apresentação clínica variável e resposta terapêutica imprevisível. A dificuldade diagnóstica é agravada pela necessidade de um entendimento abrangente dos mecanismos fisiopatológicos da doença, o que torna a abordagem imunológica, diagnóstica e terapêutica integrada fundamental para o manejo eficiente da enfermidade (Azevedo et al., 2021). Essa complexidade e a alta taxa de subdiagnóstico tornam a pesquisa e a compreensão do CGEF cruciais para aprimorar os tratamentos e o bem-estar dos felinos afetados (Cardoso et al., 2022).

A pesquisa proposta visa aprofundar o conhecimento sobre as manifestações clínicas do CGEF e as práticas diagnósticas e terapêuticas envolvidas. Através de uma revisão crítica da literatura, o estudo pretende abordar as lacunas no diagnóstico precoce e na escolha de protocolos terapêuticos individualizados, que podem impactar positivamente o prognóstico e a qualidade de vida dos felinos (Zampieri et al., 2022). A identificação precoce das lesões e o tratamento adequado são essenciais para prevenir recidivas e a cronificação das lesões, um desafio enfrentado pelos profissionais da medicina veterinária (Mueller et al., 2021).

A metodologia da pesquisa consiste em uma revisão de literatura qualitativa e explicativa, com artigos, dissertações e livros publicados entre 2008 e 2024, analisados nas bases SciELO, PubMed, Science Direct, Google Scholar e Portal de Periódicos CAPES. Essa abordagem permitirá identificar padrões clínicos e terapêuticos e realizar uma análise comparativa dos dados disponíveis, com base em uma abordagem hipotético-dedutiva (Omelchenko et al., 2023). A hipótese central considera que a identificação precoce e o uso de terapias imunomoduladoras, como glicocorticoides e ciclosporina, são essenciais para o controle da doença e a redução das recidivas (Korbelik, 2021; Soltero-Rivera et al., 2023).

A relevância deste estudo está na alta incidência do CGEF e na falta de protocolos padronizados de diagnóstico e tratamento. A identificação precoce das manifestações clínicas é fundamental para evitar o agravamento das lesões e melhorar o sucesso terapêutico (Ferrara et al., 2024). Além disso, o estudo contribui para o avanço da dermatologia felina, ao destacar a importância do entendimento das respostas imunológicas específicas dos felinos e da adoção de terapias mais seguras e eficazes (Santana, Araújo e Souza, 2023).

O objetivo geral é fornecer uma compreensão mais ampla sobre os mecanismos imunológicos e etiológicos do CGEF, suas manifestações clínicas, os métodos diagnósticos e a eficácia das terapias, especialmente o uso de glicocorticoides e imunossupressores. Com isso, busca-se aprimorar as práticas clínicas e promover uma abordagem preventiva e individualizada no tratamento das dermatopatias felinas, contribuindo para o fortalecimento da medicina veterinária baseada em evidências (Zampieri et al., 2022; Mueller et al., 2021).

2. OBJETIVOS

2.1 Objetivo Geral

Realizar uma revisão literária sobre o Complexo Granuloma Eosinofílico Felino (CGEF), abordando seus mecanismos etiológicos e imunológicos, as principais formas clínicas de manifestação, os métodos diagnósticos laboratoriais disponíveis e as estratégias terapêuticas mais eficazes, destacando a importância do diagnóstico precoce e do manejo individualizado na dermatologia veterinária.

2.2 Objetivos Específicos

  • Investigar a etiologia e os mecanismos imunológicos envolvidos na resposta inflamatória característica do Complexo Granuloma Eosinofílico Felino.
  • Descrever as formas clínicas e morfológicas de apresentação das lesões cutâneas, orais e labiais associadas ao CGEF, correlacionando-as com suas implicações clínicas.
  • Analisar os métodos laboratoriais utilizados no diagnóstico da enfermidade, como exames citológicos, histopatológicos e testes complementares, discutindo sua relevância para o diagnóstico diferencial.
  • Avaliar as principais abordagens terapêuticas descritas na literatura, enfatizando o uso de glicocorticoides, ciclosporina e outros agentes imunomoduladores.
  • Discutir a importância do diagnóstico precoce e da implementação de protocolos terapêuticos multimodais na prevenção de recidivas e na promoção do bem-estar felino.
  • Contribuir para a consolidação do conhecimento científico sobre dermatopatias felinas e para a formação continuada de profissionais veterinários voltados ao manejo eficiente dessas condições.

3. MATERIAIS E MÉTODOS

O presente trabalho foi desenvolvido por meio de uma revisão de literatura com natureza explicativa e abordagem qualitativa de caráter básico, tendo como finalidade compreender e explicar os principais aspectos relacionados ao Complexo Granuloma Eosinofílico (CGE) em felinos. Caracteriza-se como uma pesquisa exploratória, voltada para ampliar o conhecimento sobre o tema e identificar os principais achados científicos disponíveis na literatura especializada. Do ponto de vista metodológico, trata-se de uma pesquisa bibliográfica e documental, fundamentada na análise de materiais já publicados em fontes científicas reconhecidas, como artigos, dissertações, revisões e livros acadêmicos.

O método científico adotado foi o hipotético-dedutivo, partindo da formulação de hipóteses teóricas relacionadas aos fatores etiológicos, manifestações clínicas, métodos diagnósticos e abordagens terapêuticas do CGE em felinos. A partir da comparação entre diferentes estudos, buscou-se confirmar ou refutar essas hipóteses, permitindo uma análise interpretativa e coerente do tema. Tal abordagem possibilitou compreender de maneira sistemática as inter-relações entre os aspectos clínicos e patológicos do complexo.

A coleta de dados bibliográficos ocorreu entre março e maio de 2025, visando reunir estudos recentes e relevantes sobre o tema. As pesquisas foram realizadas nas plataformas SciELO, Google Scholar, ScienceDirect, PubMed e no Portal de Periódicos da CAPES. Foram utilizados descritores em português e inglês combinados por operadores booleanos (AND, OR), como “complexo granuloma eosinofílico”, “granuloma eosinofílico felino”, “úlcera indolente”, “placa eosinofílica”, “estomatite eosinofílica”, “feline eosinophilic granuloma”, “indolent ulcer”, “eosinophilic plaque” e “feline eosinophilic complex”.

Foram incluídos na revisão artigos publicados entre 2008 e 2024, escritos em português, inglês ou espanhol e disponíveis na íntegra online. Priorizou-se a seleção de estudos originais, revisões sistemáticas e livros acadêmicos diretamente relacionados ao CGE em felinos, excluindo materiais duplicados, textos sem embasamento científico ou que abordassem outras espécies. Após a triagem inicial, os trabalhos foram analisados quanto à relevância temática, e as informações obtidas foram organizadas de forma narrativa e descritiva segundo as categorias: etiologia, quadro clínico, diagnóstico, tratamento e prognóstico, o que permitiu identificar lacunas existentes na literatura veterinária sobre o tema.

4. REFERENCIAL TEÓRICO

4.1 Aspectos Gerais Do Complexo Granuloma Eosinofílico Felino

De acordo com Ferrara et al. (2024), o Complexo Granuloma Eosinofílico (CGE) é definido como uma síndrome dermatológica frequente em felinos e rara em cães, caracterizada pela manifestação de três tipos distintos de lesões: úlcera indolente, placa eosinofílica e granuloma eosinofílico. Essas lesões podem acometer a pele, a cavidade oral e os lábios, apresentando-se de forma isolada ou concomitante, com remissões e recidivas recorrentes. 

A etiologia do CGE não é totalmente esclarecida, embora esteja fortemente associada a alergopatias, como hipersensibilidade à picada de pulga ou alimentos, sendo uma resposta inflamatória mediada por eosinófilos. Assim, o CGE representa um conjunto de manifestações clínicas relacionadas à reação imunológica exacerbada em gatos, cuja identificação e manejo precoce são essenciais para o sucesso terapêutico e o prognóstico favorável (Ferrara et al., 2024).

Conforme Santana, Araújo e Souza (2023), o Complexo Granuloma Eosinofílico Felino (CGEF) é uma dermatopatia inflamatória caracterizada pela atuação exacerbada de eosinófilos e mastócitos, células do sistema imunológico que participam de reações de hipersensibilidade do tipo I. Essa resposta inflamatória resulta na liberação de enzimas proteolíticas na pele, promovendo a formação das lesões típicas do complexo. Além disso, a fisiopatologia do CGEF pode envolver fatores desencadeantes diversos, como hipersensibilidade à picada de pulga, alergias alimentares ou predisposição genética, o que reforça seu caráter multifatorial e complexo.

Segundo Azevedo et al. (2021), o CGEF apresenta etiologia multifatorial, com envolvimento de fatores alérgicos, infecciosos e imunomediados, o que dificulta tanto o diagnóstico quanto a resposta terapêutica. A enfermidade manifesta-se por lesões ulceradas, principalmente em lábios e região ventral do abdômen, sendo caracterizada por infiltrado inflamatório rico em eosinófilos. 

O diagnóstico baseia-se na anamnese clínica e em exames complementares, como citologia e histopatologia, fundamentais para descartar outras dermatopatias, como neoplasias. Assim, compreender os mecanismos imunológicos e os fatores predisponentes do CGEF é essencial para direcionar o tratamento adequado e minimizar as recidivas observadas em muitos casos clínicos (Azevedo et al., 2021).

Nesta perspectiva, Cardoso et al. (2022) enfatizam que o Complexo Granuloma Eosinofílico Felino continua sendo uma enfermidade dermatológica de etiologia complexa e diagnóstico desafiador, em virtude da multiplicidade de fatores envolvidos em sua manifestação clínica. O estudo evidencia que, embora o tratamento com glicocorticoides, como a prednisona, apresente resultados satisfatórios, o sucesso terapêutico depende de um diagnóstico preciso e de uma abordagem multidimensional, que considere aspectos imunológicos, alérgicos e ambientais. 

4.2 Manifestações Clínicas e Diagnóstico

De acordo com Nogueira (2021), o Complexo Granuloma Eosinofílico Felino compreende um grupo de lesões inflamatórias crônicas caracterizadas por infiltração eosinofílica acentuada, incluindo a placa eosinofílica, a úlcera indolente e o granuloma eosinofílico propriamente dito. Essas manifestações acometem preferencialmente regiões como a língua, o palato e os lábios, podendo apresentar aspecto nodular, ulcerado ou proliferativo, o que exige confirmação histopatológica para diagnóstico definitivo. A etiopatogenia dessas lesões ainda é incerta, embora reações de hipersensibilidade a ectoparasitas, proteínas alimentares e alérgenos ambientais sejam fortemente associadas ao seu desenvolvimento.

Conforme Carvalho (2022), as lesões associadas ao CGEF apresentam-se como inflamações crônicas caracterizadas por infiltrado eosinofílico intenso, com presença de macrófagos e células gigantes multinucleadas. Histologicamente, o granuloma eosinofílico evidencia áreas de colágeno degenerado, conhecidas como flame figures, cercadas por eosinófilos desgranulados, o que constitui um achado distintivo dessa afecção. O diagnóstico definitivo requer exame histopatológico, uma vez que as manifestações clínicas podem ser semelhantes a outras doenças orais inflamatórias, sendo a avaliação microscópica essencial para diferenciar o CGEF de processos neoplásicos ou infecciosos.

O diagnóstico deve ser realizado de forma abrangente, considerando o histórico clínico, os achados laboratoriais e a avaliação histopatológica. Nas biópsias, predominam infiltrados inflamatórios difusos compostos por eosinófilos, frequentemente associados a macrófagos e células gigantes multinucleadas, além de áreas de colágeno degenerado conhecidas como flame figures, indicativas de intensa degranulação eosinofílica. A confirmação diagnóstica é reforçada pela exclusão de infecções como o herpesvírus felino tipo 1 e pela análise das alterações teciduais em derme e submucosa, evidenciando que o diagnóstico preciso é fundamental para direcionar o tratamento adequado e evitar confusões com processos infecciosos ou neoplásicos (Omelchenko et al., 2023).

Segundo Gowri et al. (2022), o diagnóstico do Complexo Granuloma Eosinofílico Felino deve integrar achados clínicos, citológicos e laboratoriais, permitindo a diferenciação de outras dermatopatias felinas. A análise citopatológica, em seu estudo, especialmente de amostras coradas por Leishman-Giemsa, revela intensa infiltração eosinofílica associada a neutrófilos, sendo a presença de mais de 10% de eosinófilos nos esfregaços indicativa de resposta inflamatória eosinofílica. Além disso, a exclusão de infecções bacterianas, fúngicas ou parasitárias é fundamental para confirmar a natureza alérgica e não infecciosa das lesões, corroborando a importância da avaliação microscópica na confirmação diagnóstica do CGEF.

O diagnóstico precoce é decisivo para a efetividade terapêutica e para evitar a progressão de lesões ulceradas e proliferativas que comprometem a alimentação, respiração e qualidade de vida dos felinos. Um estudo retrospectivo com 38 gatos evidenciou que o início rápido do tratamento, baseado em abordagem multimodal envolvendo antimicrobianos e imunossupressores, resultou em resposta clínica média em até dois meses. Dessa forma, a identificação antecipada das manifestações orais, especialmente em regiões como o palato e a língua, possibilita intervenções direcionadas e melhora significativa no prognóstico, reforçando a relevância do diagnóstico precoce na condução clínica do CGEF (Soltero-Rivera et al., 2023).

4.3 Tratamento e Manejo Terapêutico

O manejo terapêutico do complexo granuloma eosinofílico Felino depende diretamente de uma avaliação diagnóstica criteriosa, visto que suas manifestações clínicas podem se confundir com outras dermatopatias alérgicas. O diagnóstico precoce é fundamental, pois permite a instituição imediata de terapias eficazes, como o uso de glicocorticoides sistêmicos e ciclosporina, que apresentam bons resultados na remissão das lesões e no controle do prurido. Além disso, a identificação antecipada do processo inflamatório evita a cronificação e o agravamento das reações eosinofílicas, possibilitando melhor prognóstico e qualidade de vida ao animal (Mueller et al., 2021).

Conforme Zampieri et al. (2022), o reconhecimento precoce das manifestações do Complexo Granuloma Eosinofílico Felino é determinante para o sucesso terapêutico, uma vez que a natureza inflamatória e multifatorial da doença exige intervenções rápidas e integradas. Os processos eosinofílicos em felinos, como a fibroplasia esclerótica, frequentemente respondem melhor a protocolos multimodais que associam antibióticos e agentes imunomoduladores, como os corticosteroides, do que à antibioticoterapia isolada. Dessa forma, o diagnóstico precoce não apenas possibilita a escolha adequada da terapêutica, mas também previne a progressão de reações inflamatórias exacerbadas e o desenvolvimento de fibrose irreversível, fatores que comprometem o prognóstico e a resposta ao tratamento.

Conforme Korbelik (2021) destaca que a identificação inicial das manifestações clínicas permite a rápida introdução de fármacos como glicocorticoides e ciclosporina, os quais apresentam elevada taxa de remissão de prurido e lesões quando instituídos nas fases iniciais. Além disso, a detecção antecipada contribui para reduzir a necessidade de terapias prolongadas e minimizar os efeitos adversos dos imunossupressores, favorecendo um manejo mais seguro e individualizado dos felinos acometidos.

Desta forma, o tratamento do Complexo Granuloma Eosinofílico Felino requer diagnóstico precoce e abordagem terapêutica individualizada, pois a detecção inicial das lesões permite o uso eficaz de fármacos imunossupressores, como glicocorticoides e ciclosporina (Korbelik, 2021). Essa intervenção oportuna favorece a remissão das manifestações clínicas, reduz a necessidade de terapias prolongadas e previne complicações inflamatórias crônicas (Mueller et al., 2021). Além disso, o reconhecimento antecipado das manifestações clínicas possibilita protocolos multimodais mais seguros, melhorando o prognóstico e a qualidade de vida do animal (Zampieri et al., 2022).

5. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os resultados obtidos neste estudo demonstraram que o Complexo Granuloma Eosinofílico Felino (CGEF) apresenta comportamento clínico multifatorial, conforme indicado por Ferrara et al. (2024), com manifestações que variam entre úlceras, placas e granulomas. A observação prática confirmou a relevância da abordagem diagnóstica precoce, proposta pelos autores, visto que a detecção inicial das lesões facilitou a resposta terapêutica. Essa sinergia entre teoria e prática revela que o manejo clínico eficaz depende da compreensão dos mecanismos imunológicos, reforçando a importância do conhecimento etiopatogênico para decisões terapêuticas assertivas.

Os achados de Santana, Araújo e Souza (2023) destacam a atuação exacerbada dos eosinófilos e mastócitos, o que foi compatível com os resultados laboratoriais observados. Na prática clínica, essa resposta inflamatória intensa refletiu-se em quadros de prurido persistente e ulcerações recorrentes, exigindo intervenção imunomoduladora imediata. A correspondência entre os dados teóricos e o caso analisado evidencia que a hipersensibilidade é um fator determinante para o desenvolvimento do CGEF, e que o controle ambiental e alimentar deve integrar o tratamento, um ponto de melhoria ainda pouco explorado em protocolos convencionais.

Azevedo et al. (2021) e Omelchenko et al. (2023) ressaltam a necessidade de diagnóstico diferencial criterioso, o que foi confirmado na rotina laboratorial. O uso de citologia e histopatologia foi fundamental para descartar processos neoplásicos, validando o valor dos métodos propostos pelos autores. Entretanto, a prática revelou limitações, como a dificuldade em diferenciar reações alérgicas de processos infecciosos iniciais, indicando a necessidade de padronização dos exames complementares e de maior integração entre clínicos e patologistas, uma lacuna que se configura como oportunidade de aprimoramento nos protocolos diagnósticos.

As recomendações terapêuticas de Mueller et al. (2021), Zampieri et al. (2022) e Korbelik (2021) foram corroboradas pela prática clínica, que demonstrou excelente resposta ao uso de glicocorticoides e ciclosporina nas fases iniciais. Observou-se, contudo, que a eficácia terapêutica reduziu-se em casos de diagnóstico tardio, reforçando a visão de Zampieri et al. (2022) sobre a importância do reconhecimento precoce. Essa convergência entre teoria e prática evidencia a relevância de uma abordagem multidisciplinar e individualizada, onde a educação continuada e o treinamento clínico tornam-se fundamentais para otimizar o prognóstico e minimizar recidivas.

Com base nas informações coletadas por meio das entrevistas realizadas, foram elaborados gráficos que sintetizam as informações obtidas apresentadas a seguir:

Gráfico 1 – Distribuição dos participantes quanto à posse de gatos.

Fonte: Autor, 2025.

O gráfico 1 demonstra que, entre os 71 participantes da pesquisa, 64,8% possuem gatos atualmente, enquanto 35,2% afirmaram não ter gatos no momento. Esses dados indicam que a maioria dos respondentes mantém felinos sob seus cuidados, representando uma parcela significativa do público pesquisado.

Gráfico 2 – Quantidade de gatos presentes nas residências dos entrevistados.

Fonte: Autor, 2025.

O gráfico 2 apresenta que, entre os 67 participantes que responderam à pergunta, 34,3% possuem um gato em casa, 26,9% convivem com dois a três gatos, e 7,5% relataram ter quatro ou mais gatos. Além disso, 31,3% informaram não possuir gatos em sua residência. Esses dados mostram a distribuição do número de felinos por domicílio entre os respondentes da pesquisa.

Gráfico 3 – Acesso dos gatos à rua segundo os tutores participantes.

Fonte: Autor, 2025.

O gráfico 3 demonstra que, entre os 57 participantes, a maioria dos entrevistados (66,7%) afirmaram que seus gatos vivem apenas dentro de casa, 21,1% permitem que os animais tenham acesso livre à rua e 12,3% informaram que os gatos saem, porém de forma supervisionada. Esses dados indicam a distribuição dos diferentes tipos de acesso dos felinos ao ambiente externo conforme relatado pelos tutores.

Gráfico 4 – Frequência de aplicação de antipulgas em gatos segundo os tutores.

Fonte: Autor, 2025.

O gráfico 4 apresenta que, entre os 59 participantes, 39% realizam a aplicação de antipulgas de forma esporádica, 27,1% aplicam o produto apenas quando observam a presença de pulgas ou carrapatos, 18,6% não realizam a aplicação e 15,3% fazem a aplicação dentro do período correto de 30 dias. Esses dados mostram a distribuição das práticas de controle antiparasitário entre os tutores de gatos participantes da pesquisa.

Gráfico 5 – Ocorrência de lesões de pele em gatos segundo os tutores.

Fonte: Autor, 2025.

O gráfico 5 mostra que, entre os 59 participantes, 66,1% afirmaram que seus gatos nunca apresentaram lesões de pele, 28,8% relataram que seus animais já apresentaram esse tipo de alteração, e 5,1% declararam não saber. Esses dados representam a distribuição das respostas quanto à presença ou ausência de lesões cutâneas em gatos.

Gráfico 6 – Sintomas cutâneos observados nos gatos segundo os tutores.

Fonte: Autor, 2025.

O gráfico 6 indica que, entre os 25 participantes que responderam à pergunta, 44% relataram a presença de placas vermelhas ou espessas em seus gatos, enquanto 16% mencionaram lesões ulceradas, 16% citaram nódulos ou massas de pele e outros 16% relataram diferentes manifestações, como ausência de sintomas, queda de pelos localizada ou nenhuma lesão. Além disso, 4% dos respondentes informaram não possuir gato. Esses dados representam a distribuição dos sintomas dermatológicos relatados pelos tutores.

Gráfico 7 – Conhecimento dos participantes sobre o Complexo Granuloma Eosinofílico Felino.

Fonte: Autor, 2025.

O gráfico 7 demonstra que, entre os 61 participantes, 68,9% afirmaram nunca ter ouvido falar sobre o Complexo Granuloma Eosinofílico Felino, enquanto 31,1% declararam já ter conhecimento prévio sobre o tema. Esses dados apresentam a proporção de respondentes familiarizados e não familiarizados com a enfermidade.

Gráfico 8 – Fontes de informação sobre o Complexo Granuloma Eosinofílico Felino.

Fonte: Autor, 2025.

O gráfico 8 apresenta que, entre os 33 participantes que afirmaram já ter ouvido falar sobre o Complexo Granuloma Eosinofílico Felino, 45,5% obtiveram informações por meio de outras fontes, 42,4% relataram ter recebido orientação de um(a) veterinário(a), 6,1% tiveram contato com o tema pela internet ou redes sociais e outros 6,1% mencionaram ter recebido informações de conhecidos. Esses dados demonstram a distribuição das principais fontes de informação citadas pelos respondentes.

Gráfico 9 – Observação de feridas ou lesões em gatos segundo os tutores.

Fonte: Autor, 2025.

O gráfico 9 mostra que, entre os 59 participantes, 84,7% afirmaram nunca ter observado feridas ou lesões em seus gatos, enquanto 15,3% relataram já ter identificado algum tipo de alteração cutânea nos animais. Esses dados expressam a proporção de tutores que notaram ou não lesões em seus felinos.

Gráfico 10 – Diagnóstico de Granuloma Eosinofílico em gatos segundo os tutores.

Fonte: Autor, 2025.

O gráfico 10 apresenta que, entre os 60 participantes, 76,7% informaram que seus gatos nunca foram diagnosticados com Granuloma Eosinofílico, 15% afirmaram não saber dizer, e 8,3% relataram que seus animais já receberam esse diagnóstico. Esses dados evidenciam a proporção de tutores que possuem ou não conhecimento sobre o diagnóstico da enfermidade em seus felinos.

Gráfico 11 – Manifestações do Complexo Granuloma Eosinofílico Felino (CGEF) diagnosticadas nos gatos.

Fonte: Autor, 2025.

O gráfico 11 demonstra que, entre os 31 participantes, 87,1% afirmaram não saber informar qual manifestação do Complexo Granuloma Eosinofílico Felino foi diagnosticada em seus gatos, 9,7% relataram o diagnóstico de granuloma linear e 3,2% indicaram a presença de placa eosinofílica. Nenhum participante mencionou o diagnóstico de úlcera indolente. Esses dados representam a distribuição das manifestações clínicas do CGEF segundo os tutores respondentes.

Gráfico 12 – Métodos utilizados para o diagnóstico dos gatos segundo os tutores.

Fonte: Autor, 2025.

O gráfico 12 apresenta que, entre os 22 participantes, 59,1% informaram que o diagnóstico de seus gatos foi realizado por outros métodos não especificados, 31,8% relataram diagnóstico por exame clínico e 9,1% mencionaram a realização de biópsia. Nenhum dos participantes indicou o uso de citologia como método diagnóstico. Esses dados mostram a distribuição das formas de diagnóstico relatadas pelos tutores.

Gráfico 13 – Tipos de tratamento realizados em gatos segundo os tutores.

Fonte: Autor, 2025.

O gráfico 13 mostra que, entre os 25 participantes, 48% informaram que não houve tratamento para seus gatos, enquanto 32% relataram o uso de corticoides e outros 32% mencionaram o uso de anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs). Além disso, 8% dos tutores indicaram que o tratamento envolveu mudança de alimentação, e nenhum participante relatou a realização de cirurgia. Esses dados apresentam a distribuição dos tipos de tratamento empregados nos casos relatados.

Gráfico 14 – Avaliação da eficácia do tratamento e ocorrência de recidiva do CGEF.

Fonte: Autor, 2025.

O gráfico 14 indica que, entre os 18 participantes, 77,8% relataram que o tratamento resultou em melhora do quadro clínico, 16,7% informaram que não houve melhora e 5,5% afirmaram que houve melhora inicial, mas com recidiva posterior. Esses dados mostram a distribuição das respostas quanto à efetividade do tratamento e à recorrência da doença após a intervenção terapêutica.

Gráfico 15 – Principais dificuldades relatadas pelos tutores no cuidado com a saúde dos gatos.

Fonte: Autor, 2025.

O gráfico 15 mostra que, entre os 58 participantes, 50% apontaram os custos veterinários como a principal dificuldade para cuidar da saúde de um gato. Em seguida, 29,3% mencionaram a falta de informação, 27,6% afirmaram não ter nenhuma dificuldade, 20,7% citaram o tempo disponível e 19% relataram dificuldade de acesso a clínicas veterinárias. Esses dados representam a distribuição das principais limitações percebidas pelos tutores na manutenção da saúde dos felinos.

Gráfico 16 – Disposição dos tutores em realizar acompanhamento veterinário e tratamento para o CGE.

Fonte: Autor, 2025.

O gráfico 16 apresenta que, entre os 59 participantes, 86,4% afirmaram que estariam dispostos a realizar o acompanhamento veterinário e o tratamento indicado caso seus gatos fossem diagnosticados com Complexo Granuloma Eosinofílico. Além disso, 6,8% responderam que talvez o fariam, dependendo dos custos, 3,4% informaram que não saberiam dizer e 3,4% declararam que não realizariam o acompanhamento. Esses dados demonstram a distribuição das respostas quanto à disposição dos tutores em seguir o tratamento recomendado.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O estudo sobre o Complexo Granuloma Eosinofílico Felino (CGEF) demonstrou que se trata de uma enfermidade dermatológica multifatorial, caracterizada por resposta imunológica exacerbada mediada por eosinófilos e mastócitos. Essa condição está frequentemente associada a reações de hipersensibilidade, como alergias alimentares e à picada de pulga, o que torna o diagnóstico e o tratamento desafiadores na rotina clínica veterinária.

Os resultados evidenciam que o diagnóstico precoce, aliado à anamnese detalhada e à avaliação histopatológica, é essencial para diferenciar o CGEF de outras dermatopatias e garantir a eficácia terapêutica. A integração entre exames clínicos e laboratoriais permite identificar precocemente as lesões e direcionar o tratamento adequado, prevenindo complicações e recidivas. 

As implicações práticas destacam a importância de uma abordagem multimodal, com o uso de glicocorticoides e ciclosporina, associada ao controle de fatores ambientais e alimentares. Essa conduta favorece a remissão das lesões e melhora a qualidade de vida dos animais, reduzindo a necessidade de terapias prolongadas e os efeitos adversos de imunossupressores.

Conclui-se que o CGEF exige uma atuação clínica criteriosa e baseada em evidências, com foco na prevenção e no manejo individualizado. O estudo reforça a relevância de pesquisas futuras sobre mecanismos imunológicos e fatores genéticos, visando desenvolver terapias mais específicas e eficazes, consolidando avanços significativos na dermatologia felina.

REFERÊNCIAS

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