FUNCTIONAL NUTRITION IN THE PREVENTION AND CONTROL OF TYPE 2 DIABETES MELLITUS
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202509292226
Jocélia da Rocha Barreto1
Ingrid Mayara Calvet Maquiné2
Orientadora: Rebeca Sakamoto Figueiredo3
Coorientador: David Silva dos Reis4
RESUMO
Introdução: O Diabetes Mellitus tipo 2 é um desafio crescente de saúde pública, caracterizada por hiperglicemia crônica devido a defeitos na secreção ou ação da insulina. Sua prevalência aumenta com o envelhecimento populacional, sobrepeso, obesidade e sedentarismo, levando a complicações graves como doenças cardiovasculares, nefropatias, retinopatias e neuropatias. Nesse contexto, a nutrição funcional emerge como um pilar fundamental, buscando otimizar a saúde através de alimentos com propriedades bioativas que superam o valor nutricional básico. A resistência à insulina, mecanismo fisiopatológico central do DM2, pode ser modulada pela qualidade dos carboidratos e pelo consumo de alimentos funcionais ricos em compostos bioativos. Fatores externos, como o ambiente alimentar moderno e a disponibilidade de ultraprocessados, impactam negativamente o controle glicêmico, reforçando a importância da alimentação consciente e do papel dos alimentos funcionais na prevenção de complicações metabólicas. Objetivo: analisar a influência da nutrição funcional na prevenção e no controle do Diabetes Mellitus tipo 2, verificando os mecanismos fisiopatológicos da resistência à insulina, o papel dos alimentos funcionais no controle glicêmico, os fatores ambientais e a adesão comportamental, e o papel do nutricionista e estratégias clínicas modernas. Métodos: Trata-se de uma revisão integrativa da literatura de caráter qualitativo e exploratório. A busca bibliográfica foi realizada entre fevereiro e setembro de 2025, em bases de dados nacionais e internacionais (BVS, Pubmed, SciElo e Google Acadêmico) utilizando descritores como: alimentos funcionais, diabetes mellitus tipo 2, resistência à insulina e hiperglicemia em português e inglês. Inicialmente, 2.138 artigos foram identificados. Após a exclusão de 2.031 artigos pelo título e 61 duplicados, 25 artigos foram selecionados para leitura integral. Destes, foram excluídos por objetivos divergentes, indisponibilidade do texto completo ou foco fora da temática principal, resultando em 4 artigos incluídos na amostra final. Resultados: Os resultados analisados sugerem que a resistência insulínica é o principal mecanismo fisiopatológico do DM2, sendo modulada por processos inflamatórios, oxidativos e pela ação de compostos bioativos. A integração de alimentos funcionais na dieta contribui para a redução de processos inflamatórios, melhora da sinalização insulínica e prevenção da progressão da doença. Alimentos como canela, gengibre, cúrcuma, lentilha, soja, cacau, café, mirtilos e castanha-do-brasil demonstraram efeitos hipoglicemiantes e anti-inflamatórios. Fatores ambientais, como a exposição a ultraprocessados, impactam negativamente o controle glicêmico, enquanto o consumo de alimentos in natura e minimamente processados, juntamente com estratégias de alimentação consciente, promovem melhores indicadores. O papel do nutricionista é central na prescrição segura de alimentos funcionais e fitoterápicos, e a utilização de tecnologias modernas como o monitoramento contínuo da glicose (CGM) otimiza o manejo clínico. Conclusão: A nutrição funcional é um pilar estratégico no manejo do DM2, integrando aspectos fisiopatológicos, nutricionais, comportamentais e clínicos, embora ainda existam lacunas em relação à padronização de doses e efeitos a longo prazo, necessitando de mais estudos científicos. A integração entre alimentação funcional, ambiente saudável e tecnologias de monitoramento representa um caminho promissor para o cuidado multidisciplinar.
Palavras-chave: alimentos funcionais, diabetes mellitus tipo 2, resistência insulina, hiperglicemia.
ABSTRACT
Introduction: Type 2 diabetes mellitus is a growing public health challenge, characterized by chronic hyperglycemia due to defects in insulin secretion or action. Its prevalence increases with population aging, overweight, obesity, and sedentary lifestyles, leading to serious complications such as cardiovascular disease, nephropathies, retinopathies, and neuropathies. In this context, functional nutrition emerges as a fundamental pillar, seeking to optimize health through foods with bioactive properties that go beyond basic nutritional value. Insulin resistance, a central pathophysiological mechanism of T2DM, can be modulated by carbohydrate quality and the consumption of functional foods rich in bioactive compounds. External factors, such as the modern food environment and the availability of ultra-processed foods, negatively impact glycemic control, reinforcing the importance of mindful eating and the role of functional foods in preventing metabolic complications. Objective: To analyze the influence of functional nutrition on the prevention and control of type 2 diabetes mellitus, assessing the pathophysiological mechanisms of insulin resistance, the role of functional foods in glycemic control, environmental factors and behavioral adherence, and the role of nutritionists and modern clinical strategies. Methods: This is an integrative, qualitative, and exploratory literature review. The literature search was conducted between February and September 2025 in national and international databases (BVS, PubMed, SciELO, and Google Scholar) using descriptors such as functional foods, type 2 diabetes mellitus, insulin resistance, and hyperglycemia in Portuguese and English. Initially, 2,138 articles were identified. After excluding 2,031 articles by title and 61 duplicates, 25 articles were selected for full reading. Of these, four articles were excluded due to divergent objectives, unavailability of the full text, or a focus outside the main theme, resulting in four articles being included in the final sample. Results: The analyzed results suggest that insulin resistance is the main pathophysiological mechanism of T2DM, being modulated by inflammatory and oxidative processes, and the action of bioactive compounds. Integrating functional foods into the diet contributes to reducing inflammatory processes, improving insulin signaling, and preventing disease progression. Foods such as cinnamon, ginger, turmeric, lentils, soy, cocoa, coffee, blueberries, and Brazil nuts have demonstrated hypoglycemic and anti-inflammatory effects. Environmental factors, such as exposure to ultra-processed foods, negatively impact glycemic control, while the consumption of natural and minimally processed foods, along with mindful eating strategies, promotes better indicators. The role of the nutritionist is central to the safe prescription of functional foods and herbal remedies, and the use of modern technologies such as continuous glucose monitoring (CGM) optimizes clinical management. Conclusion: Functional nutrition is a strategic pillar in the management of T2DM, integrating pathophysiological, nutritional, behavioral, and clinical aspects. Although there are still gaps regarding standardization of doses and long-term effects, further scientific studies are needed. The integration of functional nutrition, a healthy environment, and monitoring technologies represents a promising path for multidisciplinary care.
Keyword: functional foods, type 2 diabetes mellitus, insulin resistance, hyperglycemia.
1. INTRODUÇÃO
O Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2) constitui um desafio crescente para a saúde pública mundial, sendo caracterizado por hiperglicemia crônica decorrente de defeitos na secreção de insulina, na ação da insulina ou em ambos (MAHAN; RAYMOND, 2018). Sua prevalência vem aumentando de forma exponencial, impulsionada principalmente pelo envelhecimento populacional, pela alta incidência de sobrepeso e obesidade e pela adoção de um estilo de vida sedentário (AYLA et al., 2025). As complicações associadas ao DM2 — como doenças cardiovasculares, nefropatias, retinopatias e neuropatias — estão entre as principais causas de morbidade e mortalidade precoce (PORTELA et al., 2022).
Nesse contexto, a nutrição surge como um pilar fundamental tanto na prevenção quanto no controle da doença. A intervenção nutricional não se limita apenas à restrição calórica ou ao controle de macronutrientes, mas incorpora o conceito de nutrição funcional, que busca otimizar a saúde por meio do consumo de alimentos com propriedades bioativas e benefícios que ultrapassam o valor nutricional básico (BERNARDES et al., 2010). Nesse mesmo sentido, Fung (2018), em sua obra O Código do Diabetes, enfatiza a importância de uma abordagem natural para prevenir e reverter o DM2, destacando o papel central da dieta e do estilo de vida na modulação da resistência à insulina e no controle glicêmico.
A resistência à insulina, considerada um dos principais mecanismos fisiopatológicos do DM2, ocorre quando as células do corpo não respondem adequadamente à ação da insulina, resultando em níveis persistentemente elevados de glicose no sangue (NOGUEIRA, 2024). Evidências apontam que a qualidade dos carboidratos na dieta é mais relevante que a quantidade para melhorar a sensibilidade insulínica, priorizando o consumo de alimentos integrais, frutas, legumes e laticínios in natura (NUTRITOYAL, 2023; SCIENCE PLAY, 2024). Nesse sentido, alimentos funcionais ricos em compostos bioativos podem desempenhar papel significativo na modulação dessa resistência. Estudos recentes têm demonstrado que o consumo de cacau, café, canela, alho, goiaba, gengibre, cúrcuma e mirtilos apresenta efeitos benéficos na redução de parâmetros relacionados ao DM2 (TORRES, 2024). Além disso, pesquisas vêm explorando os efeitos hipoglicemiantes de alimentos específicos, como a lentilha e o óleo de capulim (PILCO, 2023; LARIOS, 2021).
A relação entre dieta e DM2 é amplamente reconhecida. Segundo Fung (2018) e Mahan e Raymond (2018), a modificação dos hábitos alimentares constitui um dos pilares tanto para a prevenção quanto para o tratamento da doença. Autores como Silva et al. (2023) e Zhang et al. (2022) reforçam que o sedentarismo associado a dietas inadequadas são os principais responsáveis pelo avanço da epidemia de DM2.
Adicionalmente, fatores externos, como o ambiente alimentar moderno e a ampla disponibilidade de alimentos ultraprocessados, impactam negativamente o estado nutricional e o controle glicêmico. Estudos mostram correlação entre o domínio externo e medidas antropométricas — índice de massa corporal, peso e circunferência da cintura —, bem como associação negativa com o consumo de alimentos in natura e minimamente processados, o que evidencia a importância da alimentação consciente (AYLA et al., 2025; OCEANDROP, 2025).
Nesse cenário, cresce o reconhecimento do papel dos alimentos funcionais no controle glicêmico. Martins et al. (2023) destaca sua relevância para a prevenção de complicações metabólicas, enquanto Wang et al. (2023) e Naghavi et al. (2024) evidenciam que o consumo regular de frutas, vegetais e cereais contribui para a redução da glicemia e para a melhoria da qualidade de vida. De forma semelhante, Setti et al. (2021) observam um aumento no consumo de alimentos funcionais, motivado pela maior conscientização da população sobre a relação entre alimentação e saúde. Outros estudos reforçam esse papel: Gontijo et al. (2017) explicam como alimentos de alto índice glicêmico podem favorecer a resistência à insulina, enquanto Carvalho e Perucha (2016) demonstram que a soja exerce efeito protetor ao reduzir a resistência insulínica, auxiliando na manutenção da glicemia em níveis adequados.
A presente revisão integrativa visa, portanto, utilizar esses conhecimentos para criar estratégias alimentares personalizadas abordando seus mecanismos de ação, a relevância dos alimentos funcionais e a importância da adesão a hábitos alimentares saudáveis para a melhoria da qualidade de vida, saúde e controlem o avanço do diabetes mellitus tipo 2.
2. METODOLOGIA
2.1 Tipo de estudo
Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, de caráter qualitativo e exploratório, cujo objetivo foi identificar e analisar a influência da nutrição funcional na prevenção e no controle do Diabetes Mellitus tipo 2.
2.2 Coleta de dados
A busca bibliográfica foi realizada entre fevereiro e setembro de 2025, em bases de dados nacionais e internacionais, incluindo BVS, PubMed, SciELO e Google Acadêmico. Utilizaram-se descritores em português e inglês relacionados ao tema, como: alimentos funcionais, diabetes mellitus tipo 2, resistência à insulina e hiperglicemia.
Foram inicialmente identificados 2.138 artigos. Após a leitura dos títulos, 2.031 foram excluídos por não se adequarem ao escopo do estudo (ex.: pesquisas em animais e estudos de angiologia ou apneia obstrutiva do sono). Em seguida, 61 artigos duplicados foram eliminados. Assim, 25 artigos permaneceram para leitura integral. Destes, 21 foram excluídos por apresentarem objetivos divergentes, indisponibilidade do texto completo ou enfoque fora da temática principal. Por fim, 4 artigos atenderam aos critérios de inclusão e compuseram a amostra final da revisão.
2.3 Análise de dados
Os artigos selecionados foram organizados em um quadro sinóptico, contendo autor, objetivo, metodologia, principais resultados e conclusões. A análise crítica foi realizada de forma descritiva, buscando identificar conceitos centrais, mecanismos de ação e evidências científicas sobre o papel da nutrição funcional no manejo do DM2. Para ilustrar o processo de seleção, elaborou-se um fluxograma adaptado.
Figura 1.: Fluxograma de Identificação e Seleção dos Artigos Incluídos na Revisão Integrativa

Fontes: Autorias (2025).
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
3.1 Mecanismos fisiopatológicos da resistência à insulina
A resistência à insulina é reconhecida como o principal mecanismo fisiopatológico associado ao desenvolvimento do Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2). Segundo Lee, Park e Choi (2022), o acúmulo ectópico de lipídios em tecidos como o fígado e o músculo esquelético desencadeia inflamação crônica, estresse oxidativo e desregulação das adipocinas, comprometendo a captação de glicose e a ação da insulina. Essa condição é multifatorial e demonstra que o controle do DM2 deve ultrapassar a simples contagem de carboidratos, envolvendo alimentos e compostos bioativos capazes de atuar sobre os mecanismos celulares.
Estudos recentes reforçam esses achados ao demonstrar que a disfunção mitocondrial e a inflamação sistêmica são fatores determinantes na manutenção da resistência insulínica. Accili, Deng e Liu (2025) argumentam que a preservação da integridade mitocondrial e a redução do estresse inflamatório são fundamentais para prevenir a progressão do DM2. Isso indica que a intervenção nutricional, além de atuar na glicemia, deve focar em estratégias que reduzam a inflamação e promovam a homeostase metabólica.
O papel dos polifenóis também tem sido amplamente destacado. Williamson e Sheedy (2020) apontam que esses compostos bioativos, encontrados em frutas vermelhas, cacau e chá verde, reduzem a produção de espécies reativas de oxigênio (EROS) e melhoram a sinalização da insulina em tecidos periféricos. Nitzke et al. (2024) complementam que fibras solúveis modulam a microbiota intestinal, aumentando a produção de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), os quais contribuem para a sensibilidade insulínica.
Nesse contexto, a nutrição funcional emerge como ferramenta de manejo ao oferecer alimentos ricos em compostos antioxidantes e anti-inflamatórios. O consumo de vegetais crucíferos, frutas cítricas e cereais integrais tem mostrado impacto direto na redução do estresse oxidativo e na melhora do metabolismo da glicose (ZHANG et al., 2022). Esses alimentos, aliados a um estilo de vida ativo, contribuem para a modulação da resistência insulínica e, consequentemente, para a prevenção das complicações do DM2.
A síntese das evidências sobre mecanismos fisiopatológicos está organizada no Quadro 01, que reúne os artigos selecionados na revisão, destacando como a resistência insulínica é modulada por processos inflamatórios, oxidativos e pela ação de compostos bioativos.
Quadro 01 – Análise dos artigos selecionados
| Autor e Ano | Objetivo do estudo | Metodologia | Resultados | Conclusão |
| Lee, Park & Choi (2022) | Investigar os mecanismos fisiopatológicos da resistência à insulina e discutir estratégias terapêuticas. | Revisão de estudos epidemiológicos, experimentais e clínicos. | Resistência insulínica associada a lipídios ectópicos, inflamação e disfunção de adipocinas; estratégias como redução da lipogênese e aumento da oxidação de gorduras melhoram a sensibilidade. | A resistência insulínica deve ser alvo central; intervenções multidisciplinares são necessárias. |
| Ayla et al. (2025) | Analisar a relação entre influências externas e escolhas alimentares em indivíduos com DM2. | Estudo transversal com 325 adultos e idosos; recordatório 24h; Classificação NOVA; dados antropométricos. | Consumo de ultraprocessados associado a maior IMC, peso e circunferência da cintura; consumo de alimentos in natura correlacionado a melhores indicadores. | A alimentação consciente pode auxiliar na redução do consumo de ultraprocessados e na melhora do estado nutricional. |
| Vieira et al. (2025) | Avaliar o papel do nutricionista em fitoterapia, alimentos funcionais e bioativos. | Revisão teórico-prática organizada em quatro seções. | Destaque para alimentos brasileiros e plantas não convencionais; regulamentação da fitoterapia é essencial; bioativos apresentam ações fisiológicas relevantes. | O nutricionista tem papel central na prescrição baseada em evidências, com vasto potencial de atuação no Brasil. |
| Ceriello et al. (2022) | Analisar criticamente a HbA1c como parâmetro isolado e propor estratégias modernas de manejo. | Revisão de evidências clínicas e tecnológicas. | HbA1c é útil, mas insuficiente; recomenda integrar variabilidade glicêmica, tempo em normoglicemia, tecnologias modernas (CGM, novos fármacos). | O manejo deve ser multifacetado e personalizado, com foco em segurança e qualidade do controle glicêmico. |
Fonte: Autores (2025).
Portanto, os resultados analisados sugerem que a resistência insulínica deve ser considerada alvo terapêutico prioritário no manejo do DM2. A integração de alimentos funcionais na dieta contribui para a redução de processos inflamatórios, melhora da sinalização insulínica e prevenção da progressão da doença, confirmando a relevância da nutrição funcional nesse processo (LEE; PARK; CHOI, 2022; ACCILI; DENG; LIU, 2025).
3.2 Papel dos alimentos funcionais no controle glicêmico
Vieira et al. (2025) destacam que bioativos presentes em alimentos brasileiros, incluindo plantas alimentícias não convencionais, possuem potencial terapêutico importante, podendo ser utilizados como estratégia complementar ao manejo clínico do DM2. Esses compostos atuam modulando a glicemia, a inflamação e a resistência insulínica.
Torres (2024) observou que especiarias como canela, gengibre e cúrcuma possuem efeito significativo na redução da glicemia pós-prandial. Da mesma forma, Pilco (2023) demonstrou que o consumo de lentilhas auxilia na modulação glicêmica, enquanto Carvalho e Perucha (2016) apontaram que a soja é capaz de reduzir a resistência insulínica. Esses resultados indicam que alimentos funcionais não apenas previnem, mas também colaboram para o tratamento do DM2.
Pesquisas recentes reforçam esse potencial. Oliveira (2025) demonstrou que antioxidantes presentes em frutas e verduras reduzem a inflamação subclínica, comum em pacientes diabéticos. Além disso, Botelho (2023) destacou que o consumo de castanha-do-brasil, rica em selênio, pode melhorar a atividade antioxidante endógena e reduzir o risco de complicações cardiovasculares. Tais evidências sugerem que o efeito hipoglicemiante dos alimentos funcionais deve ser compreendido dentro de uma abordagem integrativa.
Esses achados foram organizados no Quadro 02, que sintetiza os principais alimentos funcionais estudados e seus efeitos na modulação glicêmica.
Quadro 02 – Síntese dos achados por eixo temático
| Eixo Temático | Principais Evidências | Autores/Ano |
| Mecanismos fisiopatológicos | Resistência insulínica ligada ao acúmulo de lipídios, inflamação e estresse oxidativo; compostos bioativos como polifenóis e fibras modulam esses mecanismos. | Lee, Park & Choi (2022); Accili et al. (2025); Williamson & Sheedy (2020); Nitzke et al. (2024) |
| Alimentos funcionais | Cacau, café, cúrcuma, gengibre, mirtilos, lentilha, soja, castanha-do-brasil e bebidas funcionais apresentam efeitos hipoglicemiantes e anti-inflamatórios. | Torres (2024); Pilco (2023); Carvalho & Perucha (2016); Botelho (2023); Oliveira (2025) |
| Fatores ambientais | Ultraprocessados aumentam risco metabólico; mindful eating promove adesão a hábitos saudáveis; políticas públicas e ambiente digital influenciam escolhas. | Ayla et al. (2025); Monteiro et al. (2022); Minari et al. (2024); Safraid et al. (2022) |
| Papel do nutricionista e estratégias clínicas | Nutricionista é agente central no uso seguro de alimentos funcionais; tecnologias como CGM e TIR otimizam manejo clínico; dietas mediterrânea e low-carb ampliam possibilidades. | Vieira et al. (2025); Ceriello et al. (2022); Battelino et al. (2023); Neto et al. (2025) |
Fonte: Autores (2025).
Portanto, fica evidente que os alimentos funcionais não devem ser considerados meros complementos alimentares, mas sim elementos estratégicos dentro da terapêutica nutricional. Seu consumo regular está associado não apenas à redução da glicemia, mas também à melhora da resistência insulínica e à prevenção de complicações metabólicas, reforçando a importância da alimentação funcional como ferramenta clínica (TORRES, 2024; OLIVEIRA, 2025).
3.3 Fatores ambientais e adesão comportamental
Segundo Ayla et al. (2025) identificaram que pacientes expostos a ambientes alimentares dominados por ultraprocessados apresentaram maiores índices de massa corporal (IMC), peso e circunferência da cintura. Esse dado reforça o impacto do ambiente sobre as escolhas alimentares e a necessidade de estratégias que reduzam a disponibilidade de produtos de baixo valor nutricional.
Monteiro et al. (2022) destacam que os alimentos ultraprocessados são determinantes na crescente prevalência de obesidade e DM2 no Brasil, uma vez que possuem alto teor de açúcares, sódio e gorduras saturadas. Minari et al. (2024), por sua vez, apontam que práticas de mindful eating contribuem para o autocontrole alimentar e redução de compulsões, favorecendo a adesão a padrões alimentares saudáveis.
Essas evidências demonstram que a adesão ao tratamento nutricional não depende apenas da motivação individual, mas também de fatores externos. Políticas públicas, como a regulação da publicidade de ultraprocessados e o incentivo ao consumo de alimentos in natura, são fundamentais para modificar o cenário atual (SAFRAID et al., 2022).
Assim, confirma-se que o sucesso das intervenções nutricionais depende da integração entre práticas individuais e transformações estruturais no ambiente alimentar. A adoção de estratégias de conscientização, associadas a políticas de incentivo, potencializa os efeitos da nutrição funcional no controle do DM2 (AYLA et al., 2025; MONTEIRO et al., 2022).
3.4 Papel do nutricionista e estratégias clínicas modernas
Para Vieira et al. (2025) destacam a importância do profissional na prescrição segura de fitoterápicos e alimentos funcionais, sobretudo em um país como o Brasil, com ampla biodiversidade. Souza et al. (2021) reforçam que compostos bioativos podem apresentar efeitos semelhantes a medicamentos, o que exige atuação ética e respaldada em evidências.
No campo clínico, Ceriello et al. (2022) demonstraram que a hemoglobina glicada (HbA1c), utilizada isoladamente, não é suficiente para avaliar o controle glicêmico. Estratégias modernas, como o monitoramento contínuo da glicose (Continuous Glucose Monitoring – CGM) e métricas como o time in range (TIR), permitem maior precisão e personalização do tratamento. Battelino et al. (2023) confirmam que o uso dessas tecnologias melhora a segurança e eficácia da abordagem nutricional integrada.
Os resultados sintetizados no Quadro 02 confirmam que a atuação do nutricionista deve ir além da prescrição alimentar tradicional, abrangendo a integração de alimentos funcionais, fitoterapia e tecnologias clínicas modernas.
Dessa forma, a atuação multidisciplinar, com protagonismo do nutricionista, mostra-se essencial para otimizar os resultados clínicos. A combinação entre nutrição funcional, fitoterapia regulamentada e tecnologia aplicada permite avançar no tratamento do DM2, garantindo maior adesão, segurança e qualidade de vida ao paciente (VIEIRA et al., 2025; BATTELINO et al., 2023).
CONCLUSÃO
A nutrição funcional configura-se como uma estratégia essencial para a prevenção e o controle do Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2), pois atua em diferentes dimensões do cuidado. A modulação da resistência à insulina por meio do consumo de alimentos ricos em compostos bioativos, como polifenóis, fibras e antioxidantes, representa um dos principais caminhos para melhorar a sensibilidade insulínica e reduzir complicações metabólicas associadas à doença.
Verificou-se também que as práticas alimentares baseadas em alimentos in natura ou minimamente processados favorecem melhores indicadores nutricionais e metabólicos, ao passo que a elevada ingestão de ultraprocessados está associada ao aumento do risco de obesidade, inflamação e agravamento do quadro glicêmico. Estratégias como o mindful eating e políticas públicas de incentivo a hábitos saudáveis fortalecem a adesão ao tratamento.
O papel do nutricionista emerge como elemento central nesse processo, tanto na prescrição segura de alimentos funcionais e fitoterápicos quanto na orientação para escolhas alimentares conscientes e individualizadas. Quando aliado ao uso de tecnologias modernas, como o monitoramento contínuo da glicose e métricas de controle avançado, o profissional amplia sua capacidade de promover um cuidado personalizado e eficaz.
Conclui-se, portanto, que a nutrição funcional deve ser reconhecida não apenas como prática complementar, mas como pilar estratégico no manejo do DM2, integrando aspectos fisiopatológicos, nutricionais, comportamentais e clínicos. Ainda que evidências robustas já sustentem sua aplicabilidade, permanecem lacunas relacionadas à padronização de doses, à duração do consumo e à avaliação de efeitos em longo prazo, o que torna necessária a realização de novos estudos científicos.
De forma prática, a integração entre alimentação funcional, ambiente saudável e tecnologias de monitoramento representa um caminho promissor para o cuidado multidisciplinar, oferecendo subsídios concretos para a melhoria da qualidade de vida e a redução das complicações em pessoas com Diabetes Mellitus tipo 2.
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1Graduanda do Curso de Bacharelado em Nutrição do Centro Universitário FAMETRO. E-mail: jocelia8rocha@gmail.com
2Graduanda do Curso de Bacharelado em Nutrição do Centro Universitário FAMETRO. E-mail: imayaracalvet@gmail.com
3Orientadora do TCC, Mestre em Ciência da Saúde pela Universidade Federal do Amazonas. Docente do Curso de Bacharelado em Nutrição do Centro Universitário FAMETRO. E-mail: rebeca.figueiredo@fametro.edu.br
4Coorientador(a) do TCC, Mestre pela UNISANTOS. Docente do Curso de Bacharelado em Nutrição do Centro Universitário FAMETRO. E-mail: david.reis@fametro.edu.br
