NÃO ESQUEÇAM DO FASCISMO: O DEBATE CONCEITUAL SOBRE O FASCISMO ONTEM E HOJE E A CRISE DA INSTITUIÇÃO DEMOCRÁTICA

NEVER FORGET THE FASCISM: THE CONCEPTUAL TRAJECTORY OF FASCISM AND THE CONTEMPORARY EROSION OF DEMOCRATIC INSTITUTIONS.

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202510241308


Júlio Edstron Secundino Santos1


“O fascismo é um jogo que pode ser jogado sob
muitas formas, e o nome do jogo não muda.

O perigo está sempre à nossa porta.”
– Umberto Eco, O Fascismo Eterno (Ensaio, 1995)


RESUMO: O presente artigo empreende um rigoroso escrutínio do Fascismo enquanto categoria histórica e potencialidade perene, tomando como ponto de partida a exortação “NÃO ESQUEÇAM” (Eco) para revisitar seu debate conceitual. O Objetivo Geral reside em desvelar a complexa trajetória do fenômeno, desde a anatomia do Fascismo clássico (Paxton e Mann) até suas metamorfoses na atualidade, e correlacioná-la com a progressiva erosão da instituição democrática liberal. A Metodologia adotada combina a análise historiográfica comparada e a aplicação de marcos teóricos como o Ur-Fascismo (Eco) e a crítica da destruição do espírito crítico, buscando diferenciar as aspirações fascistas contemporâneas do mero populismo autoritário. A Conclusão primária sugere que a natureza assistemática e ambígua do fascismo permite sua reconfiguração adaptativa frente às crises do capitalismo e à fragilidade democrática, solidificando-se como um desafio estrutural que transcende a repetição histórica, exigindo a precisão analítica para uma resistência efetiva.

Palavras Chave: Fascismo; origens fascismo; fascismo e risco democracia; ur fascismo; democracia atual. 

ABSTRACT: This paper undertakes a rigorous scrutiny of Fascism as a historical category and a perennial potentiality, taking as its starting point the exhortation “DO NOT FORGET” (Eco) to revisit its conceptual debate. The General Objective is to unveil the complex trajectory of the phenomenon, from the anatomy of classical Fascism (Paxton and Mann) to its metamorphoses in the present day, and to correlate it with the progressive erosion of the liberal democratic institution. The Methodology adopted combines comparative historiographical analysis and the application of theoretical frameworks such as Ur-Fascism (Eco) and the critique of the destruction of the critical spirit, seeking to differentiate contemporary fascist aspirations from mere authoritarian populism. The primary Conclusion suggests that the unsystematic and ambiguous nature of fascism allows for its adaptive reconfiguration in the face of capitalist crises and democratic fragility, solidifying itself as a structural challenge that transcends historical repetition, demanding analytical precision for effective resistance. 

Keywords: Fascism; origins of fascism; fascism and democratic risk; Ur-Fascism; contemporary democracy.

Introdução

O Fascismo, enquanto categoria histórica e potencialidade política, emerge no panorama acadêmico como um objeto de estudo de imperativa revisitação, sobretudo diante da ascensão global de movimentos de extrema-direita e da evidente fragilização das democracias liberais. A presente investigação empreende um rigoroso escrutínio de suas fundações doutrinárias e metamorfoses contemporâneas, estabelecendo como Objetivo Geral a análise das múltiplas faces do fenômeno, desde sua gênese até sua manifestação adaptativa na atualidade.

O problema central que norteia esta pesquisa questiona a natureza dessa reemergência: o que se observa será uma mera repetição histórica (farsa anacrônica) ou uma reconfiguração complexa e adaptativa (tragédia renovada) do modelo clássico? 

A justificação primária do trabalho reside, assim, na urgência de se alcançar a precisão conceitual, diferenciando o fascismo de outros autoritarismos e populismos, de modo a instrumentalizar uma resistência analítica eficaz.

Metodologicamente, a pesquisa se fundamenta na Revisão Bibliográfica Sistemática, abrangendo literatura especializada que perpassa textos fundadores, historiografia clássica e a produção teórica mais recente sobre o neofascismo e a crise democrática atual. O corpus documental confere a profundidade necessária para a compreensão diacrônica e sincrônica do tema em questão.

A análise é conduzida pelo método hipotético-dedutivo, testando a premissa de que o fascismo subsiste enquanto potencialidade política. Sua irrupção é contingente à crise sistêmica, ao enfraquecimento do espírito crítico e à eficiente mobilização de ressentimentos de massa. A confrontação rigorosa entre teoria e manifestações empíricas permite o refinamento das categorias conceituais ao longo das seções.

O percurso analítico se inicia com a primeira seção, dedicada à conceituação e doutrina do fascismo clássico, estabelecendo as bases conceituais sólidas a partir da auto-definição de Mussolini e Gentile, em contraste com a abordagem funcional de Robert O. Paxton, que privilegia a anatomia em ação do fenômeno.

A seção subsequente aprofunda-se nos Fundamentos, Ambiguidade e Ur-Fascismo, explorando a dificuldade de uma definição rígida (Orwell) e a matriz ideológica perene do Ur-Fascismo (Eco). Esta parte examina a rejeição sistemática ao pensamento crítico como pilar doutrinário e mecanismo de rebaixamento cognitivo.

A terceira parte procede a uma categorização analítica fina ao abordar O Franquismo e o Salazarismo: autoritarismos ibéricos em perspectiva comparada, distinguindo os autoritarismos conservadores de base militar-clerical do Fascismo Clássico de massa. Examina-se como táticas de ultranacionalismo e coerção foram cooptadas, alinhando esses regimes à tendência ao fascismo (Ur-Fascismo) e oferecendo um contraponto crucial ao cenário brasileiro.

Por fim, a quarta e última seção concentra-se nas Faces do Fascismo no Mundo Contemporâneo: crise neoliberal e populismo, analisando o neofascismo global e o estudo de caso da “democracia debilitada” brasileira. Aprofunda-se na manipulação da linguagem e da esfera digital como táticas fundamentais do autoritarismo moderno.

As conclusões alcançadas demonstram que o fascismo não se resume a um corpo ideológico monolítico ou a uma cópia exata do passado. A pesquisa valida a tese de que o fenômeno se manifesta como uma anatomia em ação e uma realidade dinâmica, cuja lógica de apropriação do aparelho estatal está intrinsecamente ligada a momentos de profunda crise sistêmica.

A hipótese de perenidade é confirmada: o Ur-Fascismo, ou fascismo eterno, apresenta-se como um arquétipo persistente da modernidade, capaz de se adaptar a diferentes roupagens políticas – da militarização à guerra cultural – mantendo o núcleo duro de sua essência, como o desprezo pela razão crítica e a canalização do ressentimento.

Delineia-se, assim, a urgência ético-política de um combate que transcende a esfera eleitoral. A erradicação do fascismo, em sua forma arquetípica, requer uma luta intransferível que se inicia com a desbarbarização da cultura e a restauração do espírito crítico na esfera pública e individual.

Em síntese, a pesquisa oferece um panorama de alto rigor acadêmico sobre a complexa trajetória do fascismo, que se manifesta das doutrinas clássicas às faces do mundo contemporâneo. A meta final reside em combater o fascista que habita o interior de cada indivíduo para que, em coerência com o imperativo ético de Adorno, Auschwitz não se repita, solidificando a defesa intransigente da democracia e dos Direitos Humanos.

2 O fascismo: conceitos, origens e desenvolvimento

O Fascismo não pode, em hipótese alguma, ser relegado à cômoda categoria de relíquia histórica, mas deve ser reconhecido como uma potencialidade atemporal (Ur-Fascismo) que se rearticula nas fissuras da modernidade e das crises sistêmicas, conforme a lição incontornável de Umberto Eco (2019, p. 10). Sua reemergência no mundo contemporâneo, sutilmente adaptada aos vetores da Tecnopolítica e alimentada pela crise estrutural do neoliberalismo, exige uma vigilância analítica redobrada, pois o erro de subestimar ou rotular incorretamente suas novas manifestações pode pavimentar o caminho para a repetição de tragédias já cometidas por nações (PAXTON, 2007, p. 25). 

A precisão do debate conceitual, ao desvelar o fascismo como uma anatomia adaptativa de poder, torna-se o prerrequisito ético inegociável da resistência: somente o conhecimento exato de sua essência permite cumprir o imperativo de garantir “que Auschwitz não se repita” (ADORNO, 1995, p. 119, apud BUENO, 2022, p. 91), transformando a análise histórica em um ato inadiável de defesa intransigente da instituição democrática.

O fascismo, enquanto fenômeno sociopolítico seminal do século XX, apresenta-se como um objeto de análise que obsta uma definição unívoca, dada a sua profusão de manifestações históricas e a natureza, por vezes, fragmentada e assistemática de sua doutrina. Tal complexidade intrínseca exige uma abordagem analítica que transcenda a superficialidade.

A investigação acadêmica contemporânea, notadamente a empreendida por Robert O. Paxton, procurou superar as descrições estritamente ideológicas para se concentrar na ação efetiva do fascismo, ou seja, no que o movimento fazia em termos de dinâmica política e articulação de poder (PAXTON, 2007, p. 25).

Em sua obra seminal, A Anatomia do Fascismo, Paxton propõe um enquadramento teórico focado no comportamento político, caracterizando-o como uma “preocupação obsessiva com o declínio, a humilhação ou a vitimização de uma comunidade” (PAXTON, 2007, p. 30).

Esse comportamento é magistralmente transfigurado em um culto compensatório à unidade, à energia vital e à pureza racial ou nacional. Um partido de militantes ultranacionalistas de direita encarna essa negação veemente dos valores e das estruturas democráticas liberais (PAXTON, 2007, p. 30).

O movimento, nesse arcabouço, emprega a violência como método para a tomada do poder e subsequente exercício do mesmo, desprovido de quaisquer restrições constitucionais ou legais. A práxis da força, e não apenas o dogma, constitui o cerne de sua natureza política (PAXTON, 2007, p. 30).

A “A Doutrina do Fascismo” (MUSSOLINI, 1932), redigida em colaboração com Giovanni Gentile, estabeleceu o fundamento ideológico do regime italiano. O texto nega categoricamente o liberalismo, o socialismo e a democracia, priorizando o Estado na sua forma totalitária.

Essa Doutrina preconiza que o Estado é a única realidade capaz de conferir significado, “força e beleza” à nação e, por extensão, ao indivíduo. Mussolini articulava que o fascismo possuía a missão de “remodelar a característica dos Italianos”, fomentando neles uma fundamental “vontade de poder” (MUSSOLINI, 1932, passim).

A despeito dessa aparente rigidez na defesa do estatismo, a ideologia fascista é notabilizada por uma ambiguidade estrutural e um policentrismo doutrinário, elementos que a diferenciam de sistemas ideológicos mais coesos e sistematizados, como o marxismo (SCHUBACK, 2021, p. 5).

Essa maleabilidade tática e conceitual revela-se uma característica crucial, permitindo ao fascismo adaptar-se com desenvoltura a diferentes contextos sociais e políticos, absorvendo e rearticulando uma miríade de elementos ideológicos (SCHUBACK, 2021, p. 5).

Não obstante a adaptabilidade, a estrutura essencial do fascismo é mantida: ela é definida pela exaltação ilimitada ao líder (o Duce), pela hostilidade radical e direcionada ao inimigo (interno ou externo), e pela preponderância absoluta da entidade do Estado-Nação sobre o indivíduo.

A gênese histórica do fascismo clássico na Itália (1922) está indissoluvelmente ligada à profunda crise social, econômica e política que se sucedeu ao término da Primeira Grande Guerra (PAXTON, 2007). O quadro conjuntural envolvia a ampla frustração nacionalista com os ganhos territoriais considerados insuficientes (vitória mutilada), a aguda instabilidade econômica e o temor das elites conservadoras diante das greves e mobilizações da esquerda, período conhecido como o Biennio Rosso.

As origens intelectuais do movimento revelam-se complexas, com raízes em correntes que precederam o próprio regime, a exemplo do sindicalismo revolucionário de Sorel, que glorificava a ação direta e o mito da greve geral como motor de transformação social.

Um ponto de inflexão decisivo reside na trajetória do líder do movimento, destacando as origens socialistas de Benito Mussolini, que efetuou uma migração ideológica do internacionalismo proletário para a exaltação nacionalista de massas e o ultranacionalismo radical (SILVA, 2019, p. 1).

A base de pensamento fascista absorveu elementos da denominada “revolução conservadora” europeia do alvorecer do século XX, que buscava articular uma via antiliberal e antidemocrática, sem, contudo, retroceder aos anacronismos dos regimes monárquicos tradicionais (VASCONCELOS, 2022, p. 1).

A crise da modernidade e o avanço irrefreável da secularização contribuíram, por sua vez, para a instauração de uma profunda crise de sentido no mundo ocidental, que clamava por novas narrativas políticas capazes de oferecer redenção (LEITE, 2022).

O fascismo, ao prometer a redenção nacional e a superação da decadência moral por intermédio do retorno a um passado mítico e glorioso, supriu o vazio narrativo deixado pelas instituições tradicionais que estavam enfraquecidas.

O desenvolvimento do movimento fascista, segundo Paxton, pode ser esmiuçado em “cinco etapas” progressivas, abrangendo desde a eclosão inicial do movimento até a sua radicalização e colapso (PAXTON, 1998, p. 13).

A conquista do poder foi garantida pela capacidade do fascismo de estabelecer alianças estratégicas com as elites tradicionais (proprietários de terras, industriais), as quais, por temerem a esquerda revolucionária, optaram por chancelar a violência fascista como um mal menor, pavimentando o caminho para a Marcha sobre Roma em 1922.

O regime consolidado foi notavelmente marcado pela edificação de uma religião política, que transcendia a esfera meramente administrativa para exigir a adesão completa e mística à nação e ao Duce2. Isso foi catalisado pela estetização da política, convertendo a violência e a mobilização de massas em espetáculos de impacto grandioso (SCHARGEL, 2023, p. 210).

A consolidação do regime deu-se por um processo totalitário que mesclou coerção – por meio do terror e da polícia política (OVRA) – e consenso – obtido pela propaganda, pela manipulação do sistema educacional e pela criação de organizações de massa, culminando na instituição de um regime de partido único, cuja política externa expansionista o levou ao colapso com a Segunda Guerra Mundial (BERTONHA, 2008).

Apesar do colapso histórico do regime italiano e da volatilidade semântica do termo, o debate sobre a essência do fascismo persiste para além da cronologia, como demonstram os teóricos que buscam o seu núcleo atemporal. Tamanha volatilidade conceitual levou o escritor George Orwell a indagar se o vocábulo “fascismo” não teria sido degradado ao patamar de um mero epíteto ofensivo. Contudo, ele reconhecia que o termo designava, ainda que de modo simplório, algo implacável, inescrupuloso e antiliberal (ORWELL, 1944).

No plano da análise conceitual mais refinada, Umberto Eco identificou o que denominou Ur-Fascismo3 (ou Fascismo Eterno), uma matriz ideológica subjacente que se manifesta em múltiplas configurações e que permanece potencialmente latente no tecido social.

A essência dessa matriz ideológica reside intrinsecamente na aversão visceral ao pensamento crítico, considerando a divergência de opiniões ou o dissenso como uma inequívoca marca de traição e promovendo, em contrapartida, o culto à tradição e ao herói (ECO, 2019, passim).

Essa repulsa sistemática ao pensamento complexo está umbilicalmente ligada à destruição do espírito crítico – um mecanismo de rebaixamento cognitivo e de propaganda ideológica que torna a coletividade vulnerável à emergência de inclinações autoritárias (JUNIOR; CONTRERA, 2021, p. 1).

3 Fundamentos e características centrais do fascismo

O fascismo, dada a sua diversidade fenomenológica e a sua natureza assistemática, desafia uma definição doutrinária unificada, exigindo uma abordagem que não se restrinja à taxonomia dos dogmas, mas que avance para observar o seu funcionamento prático e a sua dinâmica de poder (MONTEIRO, 2020, p. 1). Assumindo a definição do fascismo como anatomia em ação (Paxton, 2007) e potencialidade atemporal (Ur-Fascismo, Eco, 2019), a análise subsequente deve focar-se nos pilares conceituais que sustentam sua estrutura de dominação.

Essa perspectiva é crucial para evitar o erro de tratar o fascismo como um corpo teórico rígido, o que obscureceria as suas adaptações oportunistas e os seus ajustes históricos em resposta às crises conjunturais (MONTEIRO, 2020, p. 2). “É no anti-individualismo militante que reside a chave filosófica que diferencia o fascismo do autoritarismo meramente conservador, direcionando a análise para a primazia absoluta do Estado” (SCHARGEL, 2023, p. 212).

O fundamento filosófico do regime italiano foi estabelecido na obra A Doutrina do Fascismo (1932), redigida por Benito Mussolini em colaboração com Giovanni Gentile, texto que formaliza o rompimento com os sistemas políticos e éticos anteriores (MUSSOLINI, 1932). Este documento articula a rejeição categórica do liberalismo, do socialismo e, sobretudo, do individualismo, erigindo o Estado em sua forma totalitária como a única fonte de valor.

A característica mais saliente dessa doutrina é a estatolatria, termo que descreve a primazia absoluta do Estado sobre qualquer outra esfera da existência humana ou espiritual (MUSSOLINI, 1932, p. 11). Para o fascismo, “tudo está no Estado, e nada de humano ou espiritual existe, e muito menos tem valor, fora do Estado”, consolidando uma visão de mundo inequivocamente totalizante.

Essa doutrina preconiza que o Estado é concebido como uma entidade ética suprema, investida da capacidade de moldar a vontade individual e a nação, transformando o cidadão em uma peça funcional e moralmente dependente da entidade coletiva (MUSSOLINI, 1932). O fascismo enxerga o Estado não apenas como uma máquina administrativa, mas como um corpo ético que deve educar e disciplinar a sociedade.

O anti-individualismo militante fundamenta a repulsa fascista à democracia liberal, que é vista como uma doutrina que privilegia a “unidade do indivíduo” em detrimento da “unidade do Estado”, enfraquecendo fatalmente a nação (SCHARGEL, 2023, p. 212). O pluralismo, neste contexto, é interpretado como decadência e fragmentação da vontade nacional.

Essa concepção exige do cidadão uma visão de vida como um “dever, luta e conquista”, que rejeita o hedonismo burguês e o materialismo. O indivíduo deve viver e morrer pelo Estado, elevando a experiência política a um campo de sacrifício heroico e contínuo (MUSSOLINI, 1932, passim).

Tal visão totalitária culmina na edificação de uma religião política, que transcende a esfera meramente administrativa para exigir a adesão completa e mística à nação e ao Líder (GENTILE, 1990). O Estado fascista torna-se, assim, um objeto de culto, com rituais, símbolos e liturgias próprias que substituem as instituições tradicionais da fé.

A sustentação dos regimes fascistas clássicos não se baseou unicamente na coerção bruta, mas sim em uma sofisticada dialética de coerção, consenso e resistência, um tripé que explica a longevidade e a penetração social do domínio (BERTONHA, 2008). O “controle dos corpos e das mentes” era uma estratégia central para a dominação (MONTEIRO; CARNEIRO, 2019, p. 1).

O professor João Fábio Bertonha argumenta que, na Itália Fascista, o regime utilizou uma combinação estratégica de terror estatal (coerção) e controle da informação (consenso), visando obter apoio social ou, no mínimo, uma passividade eficiente diante do novo poder (BERTONHA, 2008, p. 143). A intimidação era complementada pela sedução.

O polo da coerção era ativado pelo terror de Estado, pela polícia política (OVRA) e pela repressão violenta contra sindicatos e dissidentes, garantindo o silêncio e a conformidade pública através do medo. A violência era não apenas um meio, mas um componente estético do regime (BERTONHA, 2008, p. 143).

O consenso era meticulosamente construído por meio de políticas sociais direcionadas, da propaganda maciça, do controle estrito do sistema educacional e da criação de organizações de massa (MONTEIRO; CARNEIRO, 2019). O objetivo era criar o culto ao líder e garantir a hegemonia do pensamento único.

Para a consolidação totalitária, o regime recorria à estetização da política, convertendo a violência e a mobilização de massas em espetáculos de impacto grandioso, como as paradas militares e os discursos de praça pública (SCHARGEL, 2023, p. 210). A beleza da ordem e da força servia para mascarar a brutalidade política.

Essa dominação totalitária buscava não apenas o controle territorial, mas a adesão emocional e irrefletida das massas, silenciando sistematicamente as vozes dissidentes e eliminando o debate público pluralista (BERTONHA, 2008, p. 143). A negação da divergência era um pilar operacional do poder.

A crítica implacável ao pluralismo, aliada à promoção de uma moralidade rígida, é o fundamento que liga o fascismo clássico às tendências autoritárias contemporâneas. A dominação, em essência, requer a destruição do senso crítico para ser efetiva (BALESTRINI JUNIOR; CONTRERA, 2021, p. 1).

O ressurgimento de tendências autoritárias na contemporaneidade tem estimulado o debate acerca do neofascismo ou fascismo do século XXI, buscando compreender as permanências e as profundas mutações do fenômeno histórico (MARTINS, 2022, p. 1). O foco reside em como o arquétipo se rearticula.

Nesse contexto, o fascismo é revisitado como um “recurso para apreender a complexidade da realidade” atual, funcionando como uma ideologia que rearticula a crise em momentos de falência hegemônica do capitalismo em sua forma neoliberal (RICUPERO, 2022, p. 1). Ele oferece respostas simplórias para problemas complexos.

A chave para o entendimento do fenômeno contemporâneo é a sua ligação com a crise estrutural do capitalismo neoliberal, que gera precarização, insegurança e um vasto contingente de ressentidos. O neofascismo desvia a crítica ao sistema econômico para a perseguição a minorias ou a classes políticas (FERREIRA; SILVA; BARBOSA, 2019, p. 1).

Assim, o neofascismo adota uma nova roupagem, valendo-se da manipulação da linguagem, da desinformação digital e do ultranacionalismo como ferramentas de contrainformação para minar as instituições democráticas a partir de dentro (SEVERO; BARCELLOS; CAMPOS, 2019, p. 2). O vetor tecnológico torna-se crucial.

A tática de guerra cultural e a manipulação da esfera digital, que Eco descreveu como características do Ur-Fascismo, representam um perigo efetivo à universalidade dos direitos e à própria democracia (BALESTRINI JUNIOR; CONTRERA, 2021, p. 1). A rede é usada para difundir a aversão visceral ao pensamento crítico.

O fascismo do século XXI se manifesta pela destruição do espírito crítico como tática de poder, promovendo o rebaixamento cognitivo e assegurando a adesão emocional e irrefletida das massas (BALESTRINI JUNIOR; CONTRERA, 2021, p. 1). Ele transforma a complexidade em inimigos a serem odiados.

A persistência do Ur-Fascismo exige, portanto, um combate ético-político que transcende a esfera da disputa eleitoral. A luta contra o fascismo é, em sua essência, uma luta em defesa da racionalidade e da autonomia do pensamento (BUENO, 2022).

Conforme propõe Adorno, a meta central desse combate deve ser garantir “que Auschwitz não se repita” (BUENO, 2022, p. 91), o que implica a vigilância constante não apenas das estruturas políticas, mas do próprio arcabouço cultural que permite a ascensão da barbárie.

A erradicação do fascismo, em sua forma arquetípica, requer uma luta intransferível que se inicia com a desbarbarização da cultura e a restauração do espírito crítico na esfera pública e individual (BUENO, 2022). O cerne da defesa democrática é a educação e cidadania para entender e enfrentar a complexidade.

A única meta plenamente atingível, para o combate a essa sombra persistente, residirá no enfrentamento contínuo do “fascista existente no interior de si mesmo” (BUENO, 2022, p. 99). A reflexão autocrítica torna-se, assim, um ato político fundamental.

Em síntese, os fundamentos do fascismo demonstram que ele é uma ideologia totalizante que exige a adesão absoluta (Estatolatria) e se sustenta na dialética de poder (Coerção/Consenso). Seu ressurgimento contemporâneo, alimentado pela crise neoliberal, torna o imperativo ético da defesa do espírito crítico a tarefa inadiável da democracia.

4 O Franquismo e o Salazarismo: autoritarismos ibéricos em perspectiva comparada

A pertinência de se proceder à análise dos regimes peninsulares de Francisco Franco e António de Oliveira Salazar reside na sua imprescindível contribuição para a compreensão dos modelos de autocracia que, embora empregassem recursos táticos e retóricos fascistas (como o ultranacionalismo e a repressão implacável), se consolidaram como ditaduras de matriz militar-clerical e profundamente conservadora (PAXTON, 2007, p. 150). Estes sistemas de poder se notabilizaram por serem despidos do ímpeto revolucionário e da mobilização de massas característicos do Fascismo Clássico.

Essa demarcação conceitual se estabelece, assim, como um arcabouço analítico fundamental, especialmente para o contexto brasileiro. O fenômeno da extrema-direita contemporânea se manifesta frequentemente como uma simbiose entre o conservadorismo tradicional das elites (marcado pela aversão aos direitos humanos) e a agressividade tática do Ur-Fascismo, dificultando a sua categorização unívoca (COUTINHO, 2021, p. 3).

O exercício comparativo permite, com maior acuidade, o discernimento entre um autoritarismo reacionário, cuja finalidade reside na restauração de uma ordem social pretérita, e a plena instalação de um regime fascista, cuja essência se encontra na revolução ultranacionalista da sociedade.

As raízes históricas e a longa duração de estruturas sociais e políticas pré-democráticas no Brasil, que datam de sua formação colonial, criam um substrato social e cultural que ecoa problemas estruturais encontrados nas experiências ibéricas (MARTINS, 2022, p. 1). Este legado inclui uma relação intrinsecamente violenta entre o Estado e a sociedade, a persistência de um elitismo oligárquico e uma frágil cultura democrática.

O Fascismo e seus congêneres autocráticos, como argumenta o sociólogo Michael Mann, prosperam em sociedades que padecem de fissuras profundas e percebem um declínio civilizacional ou uma humilhação nacional (MANN, 2008, p. 17). No Brasil, a instabilidade política, denúncias de corrupção e a crise econômica contemporânea reavivam esse substrato de forma perigosa, oferecendo terreno fértil para ideologias ultranacionalistas.

O Franquismo na Espanha (1939-1975) e o Salazarismo em Portugal (1933-1974) constituem regimes políticos cuja classificação analítica exige extremo rigor, por se situarem em uma zona de ambiguidade conceitual em relação ao Fascismo Clássico italiano e ao Nazismo alemão (PAXTON, 2007, p. 25). A não-identidade com o fascismo pleno é o ponto de partida.

A historiografia moderna, ao esmiuçar esses regimes de exceção, frequentemente os enquadra na categoria de autoritarismos conservadores, e não como manifestações cabais de fascismo (MANN, 2008, p. 115). Essa diferenciação se fundamenta, primordialmente, na dinâmica de poder, no grau de mobilização social e no aparato ideológico que os sustentava.

Para Michael Mann, o fascismo se define inequivocamente por um movimento de massa de direita, ultranacionalista e transcendente, que busca a purificação e a violência paramilitar para alcançar o poder (MANN, 2008, p. 17). Os sistemas ibéricos, em contraste, distinguiram-se pela ausência desse impulso revolucionário e dessa mobilização de massa intensa e sustentada.

O elemento basilar para distinguir o autoritarismo ibérico do Fascismo Clássico reside no papel do líder e do partido na tomada e manutenção do poder (PAXTON, 2007, p. 150). Historicamente, Franco e Salazar foram chefes de Estado que subjugaram a militância fascista em seus países, enquanto Mussolini e Hitler eram chefes de partido que assaltaram e cooptaram plenamente o aparelho estatal.

No regime de António de Oliveira Salazar, o Estado Novo português era eminentemente tecnocrático, corporativista e clerical, e a sua sustentação se deu por meio da desmobilização política da sociedade civil (PINTO, 2006, p. 22). Salazar priorizava a “ordem” e o “progresso” dentro de um quadro católico e ruralista, repudiando o ativismo de rua típico do Duce.

Na Espanha de Francisco Franco, o Caudillo rapidamente subjugou e instrumentalizou a Falange (o partido fascista espanhol), diluindo sua militância radical dentro de uma estrutura estatal dominada pelos pilares do conservadorismo tradicional: o Exército e a Igreja Católica (PAXTON, 2007, p. 129).

Esses regimes, portanto, não ambicionavam a revolução totalitária da sociedade, mas sim a restauração de uma ordem social tradicional e hierárquica (PAXTON, 2007, p. 150). Esta finalidade reacionária é o que os classifica fundamentalmente como autocracias de direita, e não como fascismos plenos.

Essa diferença substantiva, no entanto, não exime os regimes ibéricos da presença latente da tendência ao fascismo, ou Ur-Fascismo, concebida como um conjunto de táticas e traços ideológicos que podem ser ativados em momentos de crise para fins autoritários (ECO, 2019, p. 10). O Ur-Fascismo funcionava, nesses casos, como um reservatório de agressividade política.

A disposição ao fascismo nessas autocracias manifestava-se no culto à tradição e na rejeição veemente ao modernismo (ECO, 2019, p. 11), elementos ideológicos que robusteciam a legitimidade reacionária de ambos os governos e a sua base de apoio clerical.

O uso da violência e da coerção estatal era onipresente e implacável contra opositores políticos e movimentos populares, independentemente de uma ideologia racial explícita (MONTEIRO; CARNEIRO, 2019, p. 18). Compartilhavam, assim, a técnica de controle dos corpos e das mentes que é central na lógica de dominação fascista.

O Estado Novo e o Franquismo empregaram a retórica de um nacionalismo excludente, assentada na ideia de uma vitimização histórica e de uma Pátria ameaçada, ecoando a obsessão com o declínio, característica central do Fascismo (PAXTON, 2007, p. 30).

Essa narrativa de perigo iminente justificava a suspensão de liberdades e a imposição de uma ordem moral repressiva, recorrendo a um ultranacionalismo que em Portugal se voltava para a defesa do Império Ultramarino e na Espanha para a exaltação da “Cruzada” contra a República (SILVA, 2000, p. 150).

A destruição do espírito crítico foi uma meta comum, alcançada pelo controle estrito da educação, da imprensa e da propaganda oficial (BALESTRINI JUNIOR; CONTRERA, 2021, p. 5). O objetivo era forjar uma hegemonia cultural que inviabilizasse a formação de uma consciência política autônoma.

A longevidade desses sistemas dependeu da utilização calculada de elementos fascistas para gerar um consenso passivo na sociedade (BERTONHA, 2008, p. 143), onde a ausência de mobilização e a conformidade eram obtidas tanto pelo medo quanto por uma retórica sedutora.

No Franquismo, a adoção de símbolos e rituais da Falange demonstra uma hibridização tática: o uso da estética fascista como um verniz dinâmico para legitimar uma ditadura militar-clerical profundamente assentada na tradição espanhola.

O elemento crucial de coerção e consenso nos regimes ibéricos, onde o Estado emprega violência sistemática ao mesmo tempo em que constrói um “consenso passivo” baseado na propaganda, oferece um espelho útil e instrutivo para a análise do cenário político brasileiro contemporâneo (BERTONHA, 2008, p. 143).

A persistência de traços como a glorificação da guerra e a militarização da vida civil revela a predisposição desses sistemas de autoridade em “recorrer a práticas fascistas sempre que a ordem social é percebida como ameaçada” (PAXTON, 2007, p. 200).

A análise comparativa reforça, em última instância, a ideia de que o Fascismo Clássico se constitui como uma categoria estrita, mas a tendência ao fascismo opera como uma caixa de ferramentas ideológicas e coercitivas prontamente acessível a autoritarismos conservadores (PAXTON, 2007, passim).

O estudo acadêmico aprofundado desses regimes autoritários de longa duração é essencial para o debate contemporâneo, pois ilustra como a instituição democrática pode ser erodida por processos que combinam a força da tradição conservadora com a agressividade tática e a mobilização discursiva do fascismo (COUTINHO, 2021, p. 3).

A longevidade do Franquismo e do Salazarismo destaca que a estabilidade autocrática pode ser mantida não pela histeria revolucionária, mas sim pela repressão sistemática da oposição e por um baixo grau de mobilização popular, o que contraria o modelo totalitário clássico.

A experiência ibérica evidencia que o Ur-Fascismo pode se manifestar de forma mais sutil, no silêncio da desmobilização forçada, na ausência de debate público e na conformidade imposta pela vigilância estatal e pelo medo (BERTONHA, 2008).

Ao desvendarmos a apropriação seletiva da retórica e da coerção fascista pelos regimes peninsulares, refinamos a capacidade analítica de identificar a presença do Ur-Fascismo no mundo contemporâneo, mesmo em sistemas que evitam o rótulo fascista e se valem de discursos democráticos.

O fascismo, em sua essência latente, permanece uma ameaça estrutural da psique e da política ocidental (ECO, 2019, passim). O estudo dos autoritarismos ibéricos oferece um alerta fundamental sobre as diversas e duradouras manifestações dessa ameaça em sociedades com frágeis tradições democráticas.

A principal lição ibérica é que o perigo para a democracia não reside apenas no surgimento de movimentos totalitários de massa, mas também na capacidade das elites conservadoras de cooptar táticas fascistas para debilitar as instituições democráticas sob a capa da “ordem” (COUTINHO, 2021, p. 3).

A luta contra as tendências autoritárias contemporâneas, portanto, exige uma vigilância conceitual constante, ancorada na demarcação precisa entre o fascismo pleno e seus congêneres taticamente adaptados, para que a defesa intransigente da democracia seja eficaz.

5 O Fascismo e suas Novas Faces no Mundo Contemporâneo: crise neoliberal e populismo

A complexidade inerente ao ressurgimento do fascismo reside na sua intrínseca capacidade de reconfiguração adaptativa, distanciando-o de uma mera repetição histórica para manifestar-se como uma potencialidade perene que opera a partir da ambiguidade conceitual e política. O fascismo, em sua forma arquetípica, encontra na contemporaneidade um novo palco para a sua manifestação.

O neofascismo não se define primariamente pela uniformidade ideológica do modelo clássico (Mussolini/Hitler), mas sim pela sua aptidão para se inserir nas fissuras e contradições da sociedade em rede. Essa fluidez conceitual, que permite ao fascismo da atualidade assumir faces dissimuladas, torna-se a primeira linha de defesa contra a sua nomeação e, por conseguinte, contra a sua neutralização política (SCHUBACK, 2021, p. 5).

A ascensão das novas direitas radicais, rotuladas como neofascistas ou populistas de extrema-direita, encontra-se estruturalmente acoplada à crise de legitimidade e efetividade da democracia liberal, notavelmente após o suposto “triunfo” do liberalismo com o fim da Guerra Fria (RICUPERO, 2022, p. 1).

O colapso do consenso político e a inércia institucional em prover respostas eficazes às demandas sociais geram um vácuo de sentido e representação, que é prontamente preenchido pela retórica simplista, vitimista e agressivamente nacionalista da extrema-direita.

Desse modo, a extrema-direita contemporânea não apenas desafia, mas capitaliza-se sobre a fragilização da própria base do sistema. Tal dinâmica resgata o tema do fascismo para o centro do debate político-acadêmico, configurando-o como um sintoma da falência da “normalidade” democrática (RICUPERO, 2022, p. 1).

A crise profunda do capitalismo em sua forma neoliberal funciona como o solo fértil para a emergência do ressentimento e da insegurança que o neofascismo habilmente mobiliza (MARTINS, 2022, p. 1). A instabilidade sistêmica gera o substrato social para a adesão a narrativas radicais.

O ressentimento das massas é gerado pela precarização do trabalho, pela financeirização da economia e pela agravada desigualdade social, características inerentes ao modelo neoliberal em sua fase de crise. O neofascismo atua como um desvio ideológico que impede a crítica ao sistema econômico.

Essa política de ressentimento é deliberadamente voltada a alvos fabricados e minoritários. O discurso ultranacionalista e anti-imigração, por exemplo, canaliza a frustração estrutural para a demonização do “Outro” (minorias, intelectuais, adversários), impedindo que o conflito de classes venha à tona na esfera pública.

Na perspectiva da tradição marxista, o ressurgimento fascista contemporâneo é interpretado como a forma específica que o populismo de extrema-direita assume no século XXI, inserido na “longa duração” da crise do sistema-mundo capitalista (MARTINS, 2022, p. 18).

Manifesta-se, portanto, como uma reação política e autoritária reativa à crise estrutural do capital, buscando recompor a disciplina social e, em última instância, a taxa de lucro para a classe dominante que perdeu o controle pelo consenso.

O elemento catalisador essencial a este processo é a crise de hegemonia da classe dominante, no sentido gramsciano. Sua incapacidade de manter a dominação social fundamentalmente pelo consenso abre um déficit de poder que possibilita a forças de extrema-direita se organizarem como uma alternativa radical (FERREIRA; SILVA; BARBOSA, p. 1).

A Tecnopolítica4, isto é, o uso estratégico e instrumental da esfera digital, ironicamente, tornou-se o principal vetor de propagação da ideologia neofascista, instrumentalizando a tecnologia para a destruição sistemática do espírito crítico.

As plataformas algorítmicas facilitam a criação de câmaras de eco digitais e a circulação ubíqua de desinformação com o objetivo deliberado de descredibilizar a imprensa, o saber científico e as instituições que tradicionalmente promovem a pluralidade e os valores democráticos.

O mecanismo articulado de guerra cultural opera diretamente na cognição. O processo subverte as bases do debate racional e da deliberação pública, espelhando as táticas de propaganda totalitária e forjando uma hegemonia que se alimenta da cegueira voluntária e do rebaixamento cognitivo da massa (BALESTRINI JUNIOR; CONTRERA, 2022, p. 1).

A destruição do espírito crítico, característica central do Ur-Fascismo, encontra no ecossistema digital a sua ferramenta mais potente para promover a irracionalidade em escala, transformando a complexidade em inimigos a serem odiados.

A anatomia política do fascismo contemporâneo manifesta-se através de uma estratégia de erosão institucional por dentro, caracterizando-o como um tipo de autoritarismo eleitoral que simula a normalidade democrática. Enquanto o fascismo clássico almejava a destruição imediata, o neofascismo adota a tática do “fascismo democrático” (FERREIRA; SILVA; BARBOSA, 2019, p. 1).

A democracia contemporânea encontra-se sob um stress inédito, pois o ataque se dirige ao próprio modus operandi da deliberação. A fragmentação da esfera pública pelos novos meios de comunicação inviabiliza o consenso e transforma a política em uma disputa permanente por autoridade e moralidade, não por políticas públicas (COUTINHO, 2021, p. 3).

O cerne desse dessa pressão reside na crise de autoridade do conhecimento. A constante produção algorítmica de desinformação (as fake news) e o ataque coordenado às mídias tradicionais e à academia solapam sistematicamente a legitimidade das instituições baseadas em fatos e evidências (BUENO, 2022, p. 91). Sem uma base fática comum, a deliberação racional se torna quase impossível.

Este ambiente de desagregação e polarização extrema é o incubador perfeito para a volta de movimentos fascistas. Ao invalidar a multiplicidade de vozes e a complexidade dos fatos, a Tecnopolítica facilita a imposição de uma única “verdade” autoritária, que é o pré-requisito filosófico do Ur-Fascismo: a rejeição ao pensamento divergente como sinal de traição (ECO, 2019, p. 11).

O stress democrático cria, portanto, um vácuo de liderança e de ordem. A falência da política tradicional em lidar com essa crise de informação e legitimidade oferece a oportunidade ideal para que líderes populistas/neofascistas se apresentem como a única força capaz de restaurar a mítica unidade nacional e impor a “ordem” perdida, ainda que isso signifique o sacrifício da liberdade (VASCONCELOS, 2022, p. 208).

A combinação da crise econômica e da crise mediática estabelece uma armadilha autoritária. O neofascismo emerge não apenas pela atração ideológica, mas como uma promessa de cura para a insegurança gerada pelo bombardeio informativo e pela instabilidade socioeconômica, resultando na erosão progressiva da confiança nos mecanismos de freios e contrapesos do Estado (FERREIRA; SILVA; BARBOSA, 2025).

Neste cenário de fragilidade, os aparatos estatais são esvaziados de seu conteúdo liberal-democrático por meio de ataques constantes à Justiça, aos órgãos de controle e aos direitos fundamentais, pavimentando um caminho institucionalmente validado para a autocracia.

É neste esforço de definição conceitual, adaptado ao século XXI, que emerge o conceito de “fascismo da ambiguidade” (SCHUBACK, 2021, p. 5). Esta ferramenta conceitual visa capturar a natureza multifacetada e programaticamente contraditória das novas direitas radicais.

A mencionada ambiguidade reside na tensão programática entre a defesa explícita e militante do livre mercado/neoliberalismo e a prática de um intervencionismo estatal/autoritarismo radical em todas as esferas que envolvem a moralidade, a cultura e a identidade nacional.

O fascismo contemporâneo configura, portanto, uma perigosa síntese política entre a dinâmica da política de massas, a exacerbação do ultranacionalismo e o populismo de direita. Crucialmente, utiliza o ressentimento social, o medo cultural e o ódio político como os principais mecanismos de mobilização (VASCONCELOS, 2022, p. 208).

O fenômeno ganha contornos concretos na prática política por meio de figuras que alcançaram o poder executivo por vias eleitorais, mas que promovem a corrosão interna e a desestabilização sistemática do sistema democrático, a exemplo de Donald Trump, Viktor Orbán e Jair Bolsonaro (CARNUT et al., 2025, p. 2).

Tais regimes operam sob um regime de “democracia debilitada” ou “democracia autoritária” (COUTINHO, J. A., 2025, p. 1). O mecanismo fundamental é o esvaziamento progressivo das instituições, minando o sistema de freios e contrapesos por meio da nomeação de aliados e do ataque à imprensa livre.

Antes de concluir a análise das “novas faces” no panorama global, é imperativo examinar os precedentes históricos nacionais que estabeleceram as matrizes de autoritarismo e ultranacionalismo no Brasil, fornecendo um contraponto essencial para a compreensão das manifestações contemporâneas do Ur-Fascismo no país.

Em perspectiva histórica a Ação Integralista Brasileira (AIB), fundada em 1932 por Plínio Salgado, representou a forma mais notória e organizada de fascismo no Brasil. Com o lema trinitário “Deus, Pátria e Família”, defendia um nacionalismo místico, o corporativismo e rejeitava a democracia liberal, alinhando-se ao fenômeno fascista transnacional (PERICÁS, 2015, p. 110-111).

A ligação do Integralismo com o fascismo europeu manifestava-se na essência de sua doutrina e prática política. O modelo do Estado Corporativo era uma cópia direta da estrutura política da Itália Fascista, e a militância dos “camisas-verdes” caracterizava-se pela violência política em confrontos de rua (CHALHOUB, 2004, p. 195).

O Estado Novo (1937-1945), de Getúlio Vargas, representou o ápice do autoritarismo, com sua Constituição de 1937 (a “Polaca”) que eliminou o Legislativo e estabeleceu um Estado Corporativista. A historiografia aponta para o caráter pragmático do varguismo, que reprimiu a AIB e confirmou ser um regime autoritário de matriz populista com traços fascistas, mas que priorizou o interesse do Estado nacional (FAUSTO, 2006, p. 345).

A estrutura jurídico-política do Estado Novo de Getúlio Vargas institucionalizou a violência de Estado como ferramenta fulcral para a eliminação da dissensão e a manutenção da ordem. A repressão sistemática aos direitos humanos fundamentais era capitaneada pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), que implementava a censura draconiana, a prisão arbitrária e a tortura de opositores, sendo esta uma metodologia coercitiva que dialogava diretamente com os fascismos europeus (FAUSTO, 2006, p. 343). 

As violações atingiram um patamar de extrema gravidade com o alinhamento tático do regime às potências do Eixo, evidenciado pela deportação de inimigos políticos, como a militante comunista Olga Benário, que foi entregue ao regime nazista, revelando que a ausência de uma doutrina fascista pura no Brasil não implicou a ausência de sua metodologia de terror e violação da dignidade humana.

A afinidade tática do Estado Novo com o Fascismo e o Nazismo manifestou-se na adoção de traços institucionais que conferiram ao regime brasileiro uma roupagem de modernização autoritária e centralizadora (FAUSTO, 2006, p. 345). A Constituição de 1937, a “Polaca”, aboliu o Legislativo e solidificou o modelo Corporativista, em uma evidente imitação da estrutura de controle social e laboral da Itália Fascista. 

Não obstante, o varguismo era essencialmente pragmático e nacionalista: ele utilizava o arcabouço fascista para centralizar o poder do Estado-nação, e não por subordinação ideológica, o que lhe permitiu reprimir a Ação Integralista Brasileira e, “subsequentemente, realinhar-se às potências Aliadas na Segunda Guerra Mundial, confirmando sua natureza de autoritarismo híbrido com fortes traços fascistas” (FAUSTO, 2006, p. 344).

O legado autoritário desses precedentes históricos estabeleceu o substrato ideológico e tático que o neofascismo contemporâneo resgata, como a glorificação da violência estatal, o ultranacionalismo místico e a crítica moralista ao pluralismo. O Ur-Fascismo no Brasil tem, portanto, raízes profundas na cultura política.

O aspecto cultural e a dimensão simbólica são, de fato, elementos centrais e estratégicos para a manutenção desses movimentos. A política é reconfigurada de forma consciente como um campo de batalha ideológico total, definido pela agressiva defesa do “antiglobalismo” e uma incessante “guerra cultural” (VASCONCELOS, 2021, p. 1).

A mobilização persistente da base social é realizada, de forma crucial, por meio de uma poderosa nostalgia reacionária. Essa estratégia idealiza um passado nacional mítico, puro e perdido, em oposição a um presente que é sistematicamente percebido como decadente, corrompido e ameaçado pela diversidade (COUTINHO, J. A., p. 1).

A urgência do presente impõe o imperativo ético e acadêmico de que “Auschwitz não se repita” (ADORNO, 1995, p. 119, apud BUENO, 2022, p. 91). O enfrentamento eficaz do fascismo transcende a política eleitoral, exigindo uma luta irrestrita contra o autoritarismo em todas as suas manifestações.

O combate ao fascismo, em sua essência arquetípica, exige o enfrentamento ao “fascista interno” (BUENO, 2022, p. 99), o que implica uma autocrítica rigorosa das pulsões autoritárias e uma defesa inegociável da razão complexa contra a simplificação populista.

Finalmente, a luta acadêmica e política contra o novo fascismo exige o cultivo irrestrito do espírito crítico e a busca pela superação da crise estrutural do capital, que, em última análise, alimenta continuamente o ressentimento popular e a ambição autoritária, sendo o verdadeiro solo do neofascismo (MARTINS, 2022, p. 18).

Considerações Finais

A presente investigação se encerra, não com a resolução definitiva do Fascismo, mas com o mapeamento preciso de sua complexa trajetória e sua anatomia adaptativa, oferecendo um arsenal conceitual robusto para a vigilância política contemporânea. A senda analítica foi inaugurada pela contraposição do marco conceitual fundacional.

A primeira seção estabeleceu o escrutínio do Fascismo Clássico, contrapondo sua auto-definição doutrinária (Mussolini/Gentile) com a análise funcionalista e pragmática de Robert O. Paxton, que priorizou o fascismo como uma anatomia em ação e um método eficiente de exercício do poder.

Na seção subsequente, o foco migrou da práxis para a potencialidade ideológica. O rigor analítico foi direcionado à dificuldade de uma definição rígida (Orwell) e à matriz atemporal do Ur-Fascismo (Eco). Esta etapa demonstrou que a rejeição sistemática ao espírito crítico e a preferência pela ação irrefletida constituem o núcleo arquetípico que transcende o tempo e as fronteiras ideológicas.

A Seção três aprofundou o entendimento sobre os pilares conceituais do fascismo, detalhando a Estatolatria como seu núcleo filosófico e a sofisticada dialética de coerção e consenso (Bertonha) como seu mecanismo operacional de dominação social.

A Seção quatro adicionou uma camada de sofisticação à categorização ao analisar O Franquismo e o Salazarismo: autoritarismos ibéricos em perspectiva comparada. Este segmento foi crucial para distinguir o Fascismo-movimento (de massa e revolucionário) dos autoritarismos conservadores de base militar-clerical e desmobilizadora.

A verificação comparativa estabeleceu que a presença de traços do Ur-Fascismo não implica a plena identidade fascista, mas exige vigilância. Tal análise metodológica impediu a generalização do termo e garantiu que o foco recaísse sobre os mecanismos táticos de coerção e consenso que são cooptados por diferentes matrizes autoritárias.

O percurso culminou na seção cinco, que concentrou a análise nas Faces do Fascismo no Mundo Contemporâneo: crise neoliberal e populismo. Foi examinada a reconfiguração do fenômeno como “fascismo da ambiguidade”, atuando por meio da erosão institucional e utilizando a Tecnopolítica como vetor de dominação.

O problema de pesquisa central — se a reemergência do fascismo seria repetição ou adaptação — foi, ao longo do trabalho, resolvida de forma categórica. Constatou-se que a manifestação contemporânea não é uma farsa anacrônica que repete os rituais e símbolos dos anos 1930, mas sim uma reconfiguração adaptativa (tragédia renovada), que se insere nas fissuras da crise estrutural do capital em sua forma neoliberal.

A hipótese de trabalho, que postulava o fascismo como uma potencialidade política contingente à crise sistêmica, foi plenamente validada. O estudo demonstrou que essa potencialidade, descrita como Ur-Fascismo, encontra no ressentimento das massas e na falência das instituições liberais o solo fértil para sua irrupção e consolidação.

A Metodologia baseada na revisão bibliográfica sistemática e no método hipotético-dedutivo provou ser a ferramenta mais adequada. Ela permitiu o diálogo horizontal entre a historiografia clássica (Paxton, Mann) e a teoria crítica recente (Martins, Eco), garantindo a precisão analítica exigida pelo objeto.

A principal conclusão teórica é que a chave para a compreensão do Fascismo reside no funcionalismo de Paxton: o fascismo é, antes de tudo, uma anatomia em ação, um método de ascensão e exercício do poder que transcende qualquer rigidez doutrinária. Sua essência é a mobilização ultranacionalista e violenta.

Outra conclusão incontornável é a ligação intrínseca entre a crise estrutural do neoliberalismo e a ascensão do Neofascismo. O ressentimento e a insegurança gerados pela financeirização e precarização da vida são desviados da crítica econômica para a demonização do “Outro” (minorias, intelectuais), cumprindo a função histórica de recomposição da disciplina social em favor das classes dominantes.

No cenário contemporâneo, o papel da Tecnopolítica mostrou-se crucial: ela é o novo vetor de dominação e de stress democrático. O controle algorítmico da informação e a guerra cultural visam a um objetivo político maior: a destruição sistemática do espírito crítico.

A erosão cognitiva da esfera pública é a manifestação mais perigosa do Ur-Fascismo no século XXI, pois mina o consenso factual mínimo e anula a capacidade da própria democracia de autodefesa, criando o ambiente perfeito para que a simplificação autoritária se apresente como a única via de “ordem” diante do caos informativo.

O Fascismo se revela, assim, como uma sombra persistente da modernidade, uma categoria que, em sua ambiguidade, se adapta a novas roupagens — da corrosão institucional e do “fascismo democrático” à manipulação digital. A precisão analítica alcançada por esta pesquisa oferece, portanto, uma bússola inestimável para a vigilância.

Finalmente, a pesquisa ratifica que o combate ao Fascismo exige um compromisso que vai além da política externa. A luta deve ser interna, cultural e pedagógica, demandando a desbarbarização da educação e o cultivo incondicional da autonomia crítica, conforme a lição ética de Sinésio Ferraz Bueno.

A meta suprema reside em garantir que o imperativo ético de Adorno — que Auschwitz não se repita — seja perene. A luta contra o Fascismo não é um evento do passado, mas um exercício contínuo de autoconhecimento, crítica histórica e defesa intransigente da democracia. A única vitória definitiva é a erradicação do “fascista que habita o interior de si mesmo”.

Em última análise, a pesquisa cumpre a exortação ética contida em seu título – NÃO ESQUEÇAM DO FASCISMO – ao demonstrar que o rigoroso debate conceitual sobre o Fascismo Ontem e Hoje é a ferramenta imprescindível para navegar a Crise da Instituição Democrática. 

A precisão analítica alcançada, ao desvelar o fascismo como uma anatomia adaptativa que utiliza a Tecnopolítica e a crise neoliberal, confirma que a luta contra essa sombra persistente exige um exercício contínuo de vigilância histórica, cultural e autocrítica, sendo a defesa intransigente do espírito crítico o único caminho para a perpetuação do imperativo ético de Adorno.


2 Benito Amilcare Andrea Mussolini, o Duce (Líder). Sua ascensão, iniciada com os Fasci di Combattimento em 1919, consolidou-se na crise pós-Primeira Guerra Mundial. O termo Duce, que significa Líder, não é apenas um título, mas sim um símbolo que encapsula o culto à personalidade e a mística da “religião política” que o regime buscava edificar, sendo um elemento central na tentativa de remodelação do caráter do povo italiano.
3 A obra O Fascismo Eterno (1995) de Umberto Eco é o pilar conceitual para o desvendamento da reconfiguração do fenômeno, pois desvencilha o fascismo de sua rigidez histórica (Mussolini/Hitler) e o eleva à categoria de potencialidade arquetípica, ou Ur-Fascismo. Eco demonstra que o Fascismo não se caracteriza por uma doutrina unificada ou por um sistema filosófico coeso, mas sim como uma “colagem” assistemática de traços ideológicos que podem coexistir parcialmente em diversos contextos políticos (ECO, 2019, p. 10). O núcleo central deste arquétipo reside na rejeição categórica dos valores iluministas e do racionalismo, manifestada no culto à tradição e na desconfiança imediata da crítica e da diferença (ECO, 2019, p. 11). Este anti-intelectualismo, que promove o “culto à ação pela ação” e o desprezo pela reflexão, é o fator que torna a ideologia perene e perigosamente adaptável, pronta para eclodir sempre que a sociedade liberal-democrática entra em crise. O mecanismo operacional do Ur-Fascismo se manifesta através de seus traços mais salientes, notavelmente o populismo qualitativo, no qual o líder se apresenta como a voz direta e não mediada da “vontade comum”, repudiando o sistema parlamentarista como corrupto ou traidor (ECO, 2019, p. 15). Este populismo é crucialmente sustentado pela obsessão pela conspiração, onde a derrota, o declínio ou a crise nacional são invariavelmente atribuídos a um inimigo externo ou a um “complô” interno (o “Outro”), justificando a xenofobia e a paranoia social (ECO, 2019, p. 13). Por operar sob a lógica da guerra perpétua, o Ur-Fascismo exige a constante mobilização emocional das massas e a militarização da vida civil, tornando-se uma sombra permanente que, ao utilizar as esferas digitais, encontra o vetor ideal para minar a racionalidade e a coesão da instituição democrática (ECO, 2019, passim).
4 A Tecnopolítica emerge como um campo de estudo fundamental para a compreensão das novas arquiteturas de poder na sociedade em rede. O conceito se refere à intersecção complexa e tensa entre o uso das tecnologias digitais (tais como plataformas, algoritmos e redes sociais) e os processos políticos e sociais (TORET, 2013, p. 35). Foca na capacidade dos atores sociais de empregar as infraestruturas digitais para reorganizar a esfera pública e a luta por hegemonia, revelando o ecossistema digital como um espaço de disputa onde se manifestam tanto as oportunidades de ativismo quanto os riscos de vigilância ubíqua e de modulação algorítmica do comportamento cívico (LEMOS, 2015, p. 12).


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1 Advogado, graduado em Direito pela Universidade Presidente Antônio Carlos (2008), Mestre em Direito pela Universidade Católica de Brasília (2014). Doutor em Direito pelo UniCEUB, Membro da comissão de ensino jurídico da OAB/MG. Pesquisador do Centro Universitário de Brasília. Ex-assessor Especial no Tribunal de Contas do Estado do Tocantins. Professor do Curso de Direito da Fbr. Tem experiência na área de Direito, com ênfase em Direito Público, atuando principalmente nos seguintes temas: Terceiro Setor, direitos fundamentais, educação em direitos humanos, cidadania e direito e Seguridade Social. Membro dos grupos de pesquisa Núcleo de Estudos e Pesquisas Avançadas do Terceiro Setor (NEPATS) da UCB/DF, Políticas Públicas e Juspositivismo, Jusmoralismo e Justiça Política do UNICEUB. Editor Executivo da REPATS. E-mail: edstron@yahoo.com.br.