FALL MORTALITY IN ACRE AND BRAZIL: A COMPARATIVE ANALYSIS OF TRENDS IN THE LAST DECADE
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202510170954
João Vitor Marques de Oliveira1
Victor Hugo Araújo Meireles da Silva2
Jackeline Aiko Kitano3
Kevilyn Assis de Almeida4
Alessandre Gomes de Lima5
Cássia Maria Gomes Lima6
Jaçamar Aldenora dos Santos7
Kizzy Montini Ramos Azenha8
1 RESUMO
As quedas entre idosos são um problema significativo de saúde pública, conforme definido pela OMS. Têm etiologia multifatorial, envolvendo tanto fatores intrínsecos, como deficiências sensório-motoras, quanto fatores extrínsecos, como riscos ambientais. No Brasil, a prevalência de quedas em idosos é alta, com cerca de 25% dos idosos caindo anualmente. Esse fenômeno é particularmente relevante entre octogenários e nonagenários, com uma incidência anual de até 50%. As quedas em idosos podem levar a consequências graves, incluindo morbidade, perda de independência e até mesmo morte. Este estudo objetivou analisar a mortalidade por quedas no estado do Acre e no Brasil ao longo da última década, com o intuito de identificar padrões regionais e contribuir para estratégias preventivas. A metodologia utilizada foi uma análise transversal, descritiva e retrospectiva dos dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) do DATASUS, abrangendo os anos de 2013 a 2023. A população do estudo incluiu todos os casos de mortalidade por quedas no Acre e no Brasil, analisando variáveis como idade, sexo, raça/cor, estado civil e localização do acidente. Foram consideradas quedas relacionadas aos códigos específicos da CID-10. Os resultados revelaram um total de 83.056 mortes por quedas, com uma média de idade de 69,55 anos entre as vítimas. Houve um aumento gradual na mortalidade por quedas ao longo da década, especialmente entre 2020 e 2021. A maioria das mortes ocorreu em idosos com 60 anos ou mais (71,2%), sendo mais prevalentes em homens (61%) e na população branca (57,1%). A principal causa das quedas foi classificada como acidente (89,5%). As regiões com maior incidência de mortes foram São Paulo, Paraná e Minas Gerais. A discussão dos dados destaca a necessidade de intervenções específicas para prevenir quedas, especialmente em idosos. O aumento da mortalidade, especialmente durante a pandemia de COVID-19, ressalta a importância de estratégias de prevenção e manejo direcionadas para populações mais vulneráveis. As disparidades encontradas entre diferentes grupos demográficos sugerem a necessidade de políticas públicas equitativas que abordem os determinantes socioeconômicos e culturais relacionados às quedas.
Palavras-chave: Acidentes por Quedas; Mortalidade; Idoso; Epidemiologia.
2 ABSTRACT
Falls among the elderly are a significant public health issue, as defined by the WHO. They have a multifactorial etiology, involving both intrinsic factors, such as sensorimotor deficiencies, and extrinsic factors, like environmental hazards. In Brazil, the prevalence of falls among the elderly is high, with about 25% of seniors falling annually. This phenomenon is particularly relevant among octogenarians and nonagenarians, with an annual incidence of up to 50%. Falls in the elderly can lead to serious consequences, including morbidity, loss of independence, and even death. This study aimed to analyze mortality due to falls in the state of Acre and Brazil over the past decade, in order to identify regional patterns and contribute to preventive strategies. The methodology used was a cross-sectional, descriptive, and retrospective analysis of data from the Mortality Information System (SIM) of DATASUS, covering the years 2013 to 2023. The study population included all cases of mortality due to falls in Acre and Brazil, analyzing variables such as age, sex, race/ethnicity, marital status, and accident location. Falls related to specific ICD-10 codes were considered. The results revealed a total of 83,056 deaths due to falls, with an average age of 69.55 years among the victims. There was a gradual increase in mortality from falls over the decade, especially between 2020 and 2021. Most deaths occurred in individuals aged 60 years or older (71.2%), with a higher prevalence in men (61%) and in the white population (57.1%). The primary cause of falls was classified as accidental (89.5%). The regions with the highest incidence of deaths were São Paulo, Paraná, and Minas Gerais. The discussion of the data highlights the need for specific interventions to prevent falls, especially among the elderly. The increase in mortality, particularly during the COVID-19 pandemic, underscores the importance of targeted prevention and management strategies for more vulnerable populations. The disparities found among different demographic groups suggest the need for equitable public policies that address the socioeconomic and cultural determinants related to falls.
Keywords: Falls Accidents; Mortality; Aged; Epidemiology.
3. INTRODUÇÃO
Conforme definido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), uma queda é um evento que faz com que uma pessoa inadvertidamente pare no chão, no piso ou em outro nível inferior. As quedas são corriqueiras na população idosa, têm etiologia multifatorial e decorrem, principalmente, de deficiências sensório-motoras, que aumentam com o avanço da idade. Entretanto, também estão relacionadas a fatores extrínsecos (riscos ambientais) como má iluminação, piso escorregadio, tapetes soltos ou com dobras, via pública mal conservada com buracos ou irregularidades, polifarmácia e órteses inapropriadas (Gonçalves Et al., 2022).
Quedas não intencionais são uma das principais causas de morbidade e mortalidade por lesões em todo o mundo, colocando um fardo significativo sobre as vítimas, famílias e sociedades (Cheng Et al., 2016). Em grande parte devido à influência combinada do crescimento populacional e do envelhecimento populacional, o número de mortes devido a quedas aumentou 21% entre 2005 e 2015, e os anos de vida ajustados por incapacidade induzidos por quedas por 100 000 habitantes aumentaram 14% entre 2006 e 2016 (RodríguezMolinero., Et al 2015) (Nevit Et al., 2017). Prevê-se que as quedas aumentem para se tornarem a 17.ª principal causa de todas as mortes até 2030 se não forem tomados esforços preventivos (OMS, 2024).
No Brasil, a prevalência de quedas apontada pelo Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), realizado em uma amostra representativa da população idosa residente em áreas urbanas, foi de 25%. Segundo dados do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia, a estimativa entre os idosos com 80 anos ou mais, é que 40% sofram quedas todos os anos. Dos que moram em instituições de longa permanência, asilos ou casas de repouso, a frequência de quedas é ainda maior: destes, 50% podem cair.
Estima-se que cerca de um terço desses indivíduos sofra uma ou mais quedas a cada ano, enquanto 10% sofrem múltiplas quedas anualmente (Rapp Et al., 2014). O risco é mais significativo em octogenários e nonagenários, nos quais a incidência anual de quedas pode chegar a 50% (Vaishya; Vaish, 2020). Essas quedas podem ter um impacto severo nos idosos, pois podem levar a morbidade significativa e podem comprometer sua independência. Pode, portanto, levar a uma cascata de consequências socioeconômicas e pessoais.
Dessa forma, uma queda em idosos pode ter um efeito devastador e pode resultar em perda de independência, dor crônica e redução da qualidade de vida. O objetivo deste estudo é analisar e comparar as tendências de mortalidade por quedas no estado do Acre e no Brasil ao longo da última década. Por meio dessa análise, busca-se identificar padrões e variações regionais que possam contribuir para uma compreensão mais aprofundada dos fatores que influenciam a mortalidade por quedas na população idosa. Além disso, o estudo pretende fornecer subsídios para a formulação de estratégias de prevenção e intervenção que sejam adaptadas às realidades locais, reduzindo a mortalidade por quedas e melhorando a qualidade de vida dos idosos.
4. METODOLOGIA
Esta pesquisa desenvolveu uma abordagem transversal, descritiva e retrospectiva, utilizando dados secundários provenientes do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), disponibilizados pelo Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS), vinculado ao Ministério da Saúde do Brasil. Os dados analisados referem-se aos óbitos por quedas registradas entre 1º de janeiro de 2013 e 31 de dezembro de 2023, abrangendo uma série temporal.
A população do estudo incluiu todos os casos de mortalidade por quedas registradas no estado do Acre e no âmbito nacional no Brasil. Foram considerados diagnósticos de mortalidade por questões em conformidade com a Classificação Internacional de Doenças, 10ª Revisão (CID-10), especificamente os códigos relacionados a todos tipos de quedas, a citar: Tabela 1: Legenda do Código CID-10

As variáveis analisadas incluíram: quantidade de óbitos, faixa etária, distribuição temporal dos óbitos, sexo, raça/cor, estado civil, nível de escolaridade, localização do acidente, quantidade de cirurgias e necropsias, causas da queda, distribuição geográfica dos casos. A taxa de mortalidade foi calculada dividindo o número de óbitos por quedas pelo número total da população na faixa etária mesma, multiplicando o resultado por 100.000 para obter a taxa por 100 mil habitantes.
Os dados foram analisados utilizando estatística descritiva, apresentando frequências absolutas e percentuais para variações categóricas, além de medidas de tendência central (média) e dispersão (desvio padrão) para variações contínuas. As comparações entre grupos (Acre x Brasil) foram realizadas por meio do teste Qui-quadrado para variáveis categóricas e do teste T de Student para variáveis contínuas, com o nível de significância estabelecido em p < 0,05. As análises estatísticas foram realizadas utilizando o software SPSS versão 30. Este estudo utilizou exclusivamente dados de domínio público, não envolveu a identificação de indivíduos, e, portanto, não é necessária aprovação por um Comitê de Ética em Pesquisa, em conformidade com a Resolução CNS nº510 de 2016.
5. RESULTADOS
A análise dos 83.056 casos sobre mortalidade por quedas no Acre e no Brasil nos últimos dez anos revela padrões consistentes. A média de idade das vítimas foi de 69,55 anos (±20,31), com idades variando entre 1 e 115 anos. A maioria das mortes ocorreu na faixa etária de 60 anos ou mais, representando 71,2% dos casos, enquanto 26,5% das vítimas tinham entre 20 e 59 anos, e apenas 1,9% tinham menos de 19 anos. A análise estatística revelou significância (p < 0,05) (Gráfico 1: Distribuição por Faixa Etária e Média de Idade).
Gráfico 1: Distribuição por Faixa Etária e Média de Idade

Fonte: autor (2025).
A distribuição temporal dos óbitos demonstra um aumento gradual na mortalidade por quedas. Em 2013, 7,0% dos óbitos ocorreram, com o percentual crescendo de forma constante até 11,7% em 2023, indicando um aumento acumulado de 4,7% ao longo da década. O maior crescimento anual foi registrado entre 2020 e 2021, quando o percentual passou de 9,7% para 10,7%. A análise estatística revelou significância (p < 0,05) (Gráfico 2: Distribuição Temporal dos Óbitos).
Gráfico 2: Distribuição Temporal dos Óbitos

Fonte: autor (2025).
No que se refere ao sexo, 61,0% dos óbitos ocorreram entre homens, enquanto 39,0% das vítimas eram mulheres. Em relação à raça/cor, 57,1% das vítimas eram brancas, 34,8% pardas, e 5,0% pretas. Indivíduos indígenas e de cor amarela representaram 0,2% e 0,8% dos casos, respectivamente, enquanto 2,1% das informações sobre cor/raça não foram registradas. A análise estatística revelou significância (p < 0,05) (Tabela 2: Distribuição dos Óbitos por Sexo e Raça/Cor).
Tabela 2: Distribuição dos Óbitos por Sexo e Raça/Cor

Quanto ao estado civil, 31,5% das vítimas eram casadas, seguidas por 27,9% de viúvos, 24,2% de solteiros, e 6,5% de separados judicialmente. A união consensual foi observada em 2,7% dos casos. Informações sobre estado civil estavam ausentes em 7,2% dos registros. A análise estatística revelou significância (p < 0,05) (Tabela 3: Distribuição dos Óbitos por Estado Civil).
Tabela 3: Distribuição dos Óbitos por Estado Civil

A faixa etária predominante para mortalidade por quedas é a dos 60 a 125 anos, que representa 71,2% dos casos. A faixa etária de 20 a 59 anos corresponde a 26,5%, enquanto a faixa etária de 0 a 19 anos representa apenas 1,9%. A análise estatística revelou significância (p < 0,05) (Tabela 4: Faixa Etária e Mortalidade por Quedas).
Tabela 4: Faixa Etária e Mortalidade por Quedas

O nível de escolaridade dos indivíduos variou, com 25,4% dos casos tendo 4 a 7 anos de escolaridade, 20,4% com 1 a 3 anos, e 16,0% com 8 a 11 anos. A ausência de escolaridade foi registrada para 14,9%, enquanto 19,1% dos casos não tinham informações sobre escolaridade. A análise estatística revelou significância (p < 0,05) (Gráfico 3: Distribuição por Nível de Escolaridade).
Gráfico 3: Distribuição por Nível de Escolaridade

Fonte: autor (2025).
A localização dos acidentes revelou que 78,1% dos casos ocorreram em hospitais, 11,6% em domicílios, 5,6% em outros locais, e 2,6% em outros estabelecimentos de saúde. A menor proporção foi para ocorrências em vias públicas (1,9%). A informação sobre localização foi não disponível para 0,1% dos casos. A análise estatística revelou significância (p < 0,05) (Gráfico 4: Localização dos Acidentes).
Gráfico 4: Localização dos Acidentes

Fonte: autor (2025).
Quanto à cirurgia, apenas 0,2% dos casos foram quantificados, sendo o mesmo valor daqueles que não fizeram cirurgia, e a necropsia foi realizada em 49,6% dos casos, enquanto 32,2% não tiveram necropsia e 18,2% tiveram a informação ausente. A análise estatística
revelou significância (p < 0,05) (Tabela 5: Dados sobre Cirurgia e Necropsia).
Tabela 5: Dados sobre Cirurgia e Necropsia

A causa dos acidentes foi predominantemente classificada como acidente (89,5%), com uma pequena porcentagem para suicídio (0,1%) e outras causas (0,1%). A classificação da causa foi não disponível para 10,4% dos casos. A análise estatística revelou significância (p < 0,05) (Tabela 6: Causa dos Acidentes).
Tabela 6: Causa dos Acidentes

A análise das causas de morte (CAUSABAS) indica que as cinco principais causas de mortalidade por quedas foram: outras quedas no mesmo nível (W18), responsável por 29,7% dos óbitos; queda em ou de escadas ou degraus (W10), com 14,1%; queda sem especificação (W19), que contribuiu para 9,9% das mortes; outras quedas de um nível a outro (W17), com 6,9%; e queda de ou para fora de edifícios ou outras estruturas (W13), que representou 4,2% dos casos. Essas cinco causas totalizaram 64,8% das mortes analisadas, demonstrando uma concentração significativa em poucos códigos de causa básica. A análise estatística revelou significância (p < 0,05) (Tabela 7: Principais Causas de Mortalidade por Quedas).
Tabela 7: Principais Causas de Mortalidade por Quedas

Quanto às causas que diretamente levaram à morte (CAUSABAS_O), os cinco principais códigos foram: Outras quedas no mesmo nível (W180), responsável por 21,0% das causas finais de morte; queda em ou de escadas ou degraus (W010), com 11,3%; fatos ou eventos não especificados e intenção não determinada – local não especificado (Y349), que representou 9,7%; Queda no mesmo nível por escorregão, tropeção ou passos em falsos – local não especificado (W019), com 8,4%; e outras quedas de um nível a outro – local não especificado (W179), com 3,5%. Essas cinco causas combinadas foram responsáveis por 53,9% dos óbitos, indicando que mais da metade das mortes por quedas no Brasil e no Acre resultaram dessas causas específicas. A análise estatística revelou significância (p < 0,05) (Tabela 8: Causas Finais de Morte por Quedas).
Tabela 8: Causas Finais de Morte por Quedas


A fonte principal dos dados foi o boletim de ocorrência (36,0%), seguido por estabelecimentos de saúde/prontuários (13,2%), visitas familiares/entrevistas com a família (3,0%) e outras fontes. A fonte foi não disponível para 22,7% dos casos. A análise estatística revelou significância (p < 0,05) (Tabela 9: Fontes dos Dados).
Tabela 9:Fontes dos Dados

Sobre a investigação dos casos, 42,2% foram investigados, 35,0% não foram investigados e 22,9% não tinham informações sobre a investigação. A análise estatística revelou significância (p < 0,05) (Tabela 10: Status da Investigação dos Casos).
Tabela 10: Status da Investigação dos Casos

Geograficamente, São Paulo concentrou 20,6% dos casos, seguido por Paraná (11%) e Minas Gerais (10%). Na outra extremidade, o Acre registrou a segunda menor proporção de casos (aprox. 0,2%), ficando à frente apenas do Amapá, que representou 0,1% do total. A análise estatística revelou significância (p < 0,05) (Gráfico 5: Distribuição Geográfica dos Casos).
Gráfico 5: Distribuição Geográfica dos Casos

Fonte: autor (2025).
Quanto à mortalidade por quedas a cada 100 mil habitantes, a distribuição se deu da seguinte forma: O Estado do Paraná apresentou a maior taxa, com 77,9 óbitos por 100 mil habitantes, seguido pelo Espírito Santo (75,2) e por Santa Catarina 55,0. Na outra ponta, o Acre ocupou a 24ª posição, com aproximadamente 18,3 óbitos por 100 mil habitantes. Considerando o país como um todo, o índice nacional foi de 39,1. A análise estatística revelou significância (p < 0,05) (Gráfico 6: Distribuição Geográfica da Mortalidade por 100 mil Habitantes).
Gráfico 6: Distribuição Geográfica da Mortalidade por 100 mil Habitantes

Fonte: autor (2025).
A análise evidencia a predominância dos códigos W180 (Outras quedas no mesmo nível – residência) e W010 (Queda no mesmo nível por escorregão, tropeção ou passos em falsos – residência) tanto nas causas básicas quanto nas causas finais de óbito, com significativa diferença entre essas e as demais causas. Esses resultados destacam a importância de monitorar essas causas em políticas de prevenção.
6. DISCUSSÃO
A análise dos dados sobre internação e mortalidade por quedas no Acre e no Brasil revela tendências alarmantes que sublinham a vulnerabilidade das populações mais idosas. O aumento constante na mortalidade por quedas ao longo da última década, particularmente entre 2020 e 2021, destaca uma necessidade urgente de revisar e aprimorar as estratégias de prevenção e manejo desses eventos. A pandemia de COVID-19 desempenhou um papel crucial nesse aumento, exacerbando a situação ao interromper serviços essenciais e alterar rotinas, resultando em maior fragilidade e, consequentemente, mais quedas (Santos et al., 2021). A literatura global confirma essa tendência, relatando um impacto negativo significativo da pandemia na saúde dos idosos, agravando problemas pré-existentes e criando novos desafios na gestão das quedas (Von-Bahten et al., 2023).
A predominância de mortes por quedas na faixa etária acima de 60 anos é consistente com o que é observado em outras pesquisas. Estudos indicam que idosos são particularmente vulneráveis a quedas devido a uma combinação de fatores, como osteoporose, fragilidade física, comorbidades e a presença de condições crônicas (Greco; Pietschmann; Migliaccio, 2019; Kakara, 2023). Os achados deste estudo, que revelam uma alta taxa de mortalidade entre homens, corroboram pesquisas que sugerem que os homens tendem a adotar comportamentos de risco mais elevados e são mais suscetíveis a lesões graves decorrentes de quedas (Peden et al., 2008). A observação de uma mortalidade maior entre indivíduos brancos em comparação com pardos e negros sugere que fatores socioeconômicos e culturais podem influenciar esses resultados. Estudos como o de Mishra et al. (2021) reforçam a ideia de que desigualdades no acesso ao cuidado de saúde e às condições de vida, sobretudo durante a COVID-19, desempenham um papel importante nas taxas de mortalidade por quedas. Essa perspectiva deve ser considerada na formulação de políticas públicas para garantir um atendimento mais equitativo.
Além disso, o padrão observado nas causas de mortalidade, particularmente a predominância dos códigos W180 (Outras quedas no mesmo nível – residência) e W010 (Queda no mesmo nível por escorregão, tropeção ou passos em falsos – residência) destaca a importância dessas lesões na mortalidade por quedas. Esses achados são corroborados por outros estudos que identificam essas lesões como as mais letais entre a população idosa (Novaes et al., 2023). A baixa taxa de investigação dos casos e a predominância de boletins de ocorrência como principal fonte de dados revelam lacunas significativas na coleta e análise das circunstâncias das quedas (Fabrício; Rodrigues; Costa Junior, 2004). A falta de uma investigação mais detalhada compromete a compreensão completa dos fatores contextuais e limita a capacidade de implementar estratégias de prevenção eficazes. A literatura existente sugere que uma coleta de dados mais robusta e a inclusão de informações detalhadas sobre o contexto das quedas são essenciais para desenvolver intervenções mais eficazes e específicas (Montero-Odasso et al., 2022).
A sub-representação do Acre na amostra, em comparação com outras regiões, pode refletir não apenas diferenças na densidade populacional, mas também na capacidade de coleta e registro de dados e na disponibilidade de serviços de saúde. Essa discrepância é consistente com estudos que indicam que regiões com infraestrutura de saúde menos desenvolvida enfrentam desafios adicionais na prevenção e manejo de quedas (Loganathan et al., 2015). O Acre, como uma região com menos recursos, pode estar enfrentando barreiras significativas em termos de acesso a cuidados preventivos e tratamento adequado, o que pode contribuir para a menor representação e os desafios relacionados à mortalidade por quedas.
As limitações deste estudo incluem possíveis viéses na coleta e registro de dados, como a variabilidade na qualidade dos dados entre diferentes regiões e a ausência de informações detalhadas sobre as circunstâncias das quedas. Esses fatores podem influenciar a precisão das análises e a generalização dos resultados. A falta de dados detalhados sobre o contexto das quedas limita a capacidade de entender completamente os fatores de risco e de formular intervenções mais eficazes. Estudos futuros devem focar na implementação de sistemas de coleta de dados mais integrados e detalhados, bem como em avaliações qualitativas que possam fornecer uma visão mais profunda dos fatores contextuais e comportamentais associados às quedas. A análise longitudinal dos dados também pode ajudar a identificar tendências emergentes e avaliar a eficácia das intervenções de prevenção ao longo do tempo. A integração de abordagens qualitativas e quantitativas permitirá uma compreensão mais completa das dinâmicas envolvidas nas quedas e contribuirá para o desenvolvimento de estratégias de prevenção mais eficazes e adaptadas às necessidades específicas de diferentes populações.
7. CONCLUSÃO
A análise dos casos de mortalidade por quedas no Acre e no Brasil ao longo dos últimos dez anos revelou tendências preocupantes que refletem o envelhecimento da população e a vulnerabilidade inerente aos indivíduos idosos. Com a maioria das mortes ocorrendo em pessoas com 60 anos ou mais, nossos achados corroboram a literatura existente que aponta para a fragilidade física, presença de comorbidades, e fatores sociais como elementos-chave que contribuem para o aumento do risco de quedas fatais nessa faixa etária. O crescimento constante da mortalidade por quedas, especialmente o pico observado entre 2020 e 2021, sugere que eventos como a pandemia de COVID-19 exacerbaram as condições de risco, destacando a necessidade de intervenções mais eficazes e específicas durante crises sanitárias.
Além disso, a predominância de óbitos entre homens e indivíduos brancos levanta questões sobre comportamentos de risco e desigualdades no acesso a cuidados preventivos. Esses dados sugerem que abordagens preventivas devem ser multifacetadas, levando em consideração fatores biológicos, sociais e comportamentais. A maior incidência de mortes em ambientes hospitalares indica uma potencial relação entre quedas e condições de saúde prévias, ressaltando a importância de ambientes seguros e da implementação de medidas preventivas, especialmente em locais de cuidado aos idosos.
A mortalidade por quedas no Brasil é um problema de saúde pública crescente que requer atenção urgente. Estratégias abrangentes de prevenção, que incluam programas de educação, fortalecimento muscular, e adaptação de ambientes para minimizar riscos, são essenciais. Políticas públicas devem focar não apenas na redução do risco de quedas, mas também em abordar as desigualdades sociais que afetam o acesso ao cuidado preventivo e terapêutico. O aumento da conscientização sobre os riscos de quedas, aliado à promoção de um envelhecimento saudável, é crucial para reduzir a mortalidade associada a esse evento e melhorar a qualidade de vida da população idosa.
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1 Graduando em Medicina Instituição: Universidade Federal do Acre – UFAC Endereço: Rodovia BR 364, Km 04, B: Distrito Industrial, Rio Branco – AC, CEP 69.915- 900. Orcid: https://orcid.org/0009-0003-9117-8698 Email: marquesvitorjoao@gmail.com
2 Graduando em Medicina Instituição: Universidade Federal do Acre – UFAC Endereço: Rodovia BR 364, Km 04, B: Distrito Industrial, Rio Branco – AC, CEP 69.915- 900. Orcid: https://orcid.org/0009-0005-1716-6837 Email: victorhugom.s21@gmail.com
3 Graduanda em Medicina Instituição: Universidade Federal do Acre – UFAC Endereço: Rodovia BR 364, Km 04, B: Distrito Industrial, Rio Branco – AC, CEP 69.915- 900. Orcid: https://orcid.org/0009-0003-5248-7455 Email: Jackeline.aiko@gmail.com
4 Graduanda em Medicina Instituição: Universidade Federal do Acre – UFAC Endereço: Rodovia BR 364, Km 04, B: Distrito Industrial, Rio Branco – AC, CEP 69.915- 900. Email: kevilyn.aa@gmail.com
5 Doutor em Bioética. 2 Instituição: Universidade Federal do Acre – UFAC Endereço: Rodovia BR 364, Km 04, B: Distrito Industrial, Rio Branco – AC, CEP 69.915- 900. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-2030-1586 Email: Alessandregomes@hotmail.com
6 Especialista em Saúde da Família e em Saúde Estética. Instituição: Universidade Federal do Acre – UFAC Endereço: Rodovia BR 364, Km 04, B: Distrito Industrial, Rio Branco – AC, CEP 69.915- 900. ID Lattes: http://lattes.cnpq.br/2349510700580806 Email: cassia.maria@ufac.br
7 Doutora em Ciências da Saúde. Instituição: Universidade Federal do Acre – UFAC Endereço: Rodovia BR 364, Km 04, B: Distrito Industrial, Rio Branco – AC, CEP 69.915- 900. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-1405-4849 Lattes: http://lattes.cnpq.br/9006933879768993 Email: jacamar.santos@ufac.br
8 Especialista em Saúde da Família na Amazônia Ocidental. Instituição: Universidade Federal do Acre – UFAC Endereço: Rodovia BR 364, Km 04, B: Distrito Industrial, Rio Branco – AC, CEP 69.915- 900. Orcid: https://orcid.org/0009-0004-4606-9983 Email: kizzy.azenha@ufac.br
