REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202507211146
Felipe Menezes de Abreu¹
Maria Joselia Mendes das Chagas²
Paulo Adriano Maciel da Silva³
Gleisson Amaral Mendes⁴
Abstract. This article explores the importance of software process maturity models, with an emphasis on the CMMI, SPICE, and MPS.BR models. It discusses the benefits of adopting these models, such as continuous process improvement, reduction of failures and costs, and greater predictability in software development. Additionally, the article addresses the challenges organizations face when implementing these models, including resistance to change, initial costs, and the need for team training. Finally, it highlights the relevance of adopting these models for organizations seeking to enhance their competitiveness and quality in the software market.
Keywords. CMMI, Maturity model, MPS.BR e SPICE.
Resumo. Este artigo explora a importância dos modelos de maturidade de processos de software, com ênfase nos modelos CMMI, SPICE e MPS.BR. São discutidos os benefícios da adoção desses modelos, como a melhoria contínua dos processos, redução de falhas e custos, e maior previsibilidade no desenvolvimento de software. No mais, o artigo aborda os desafios enfrentados pelas organizações na implementação desses modelos, incluindo resistência à mudança, custo inicial e a necessidade de capacitação da equipe. Por fim, destaca-se a relevância da adoção desses modelos para organizações que buscam melhorar sua competitividade e qualidade no mercado de software.
Palavras-chave. CMMI, Modelos de maturidade, MPS.BR e SPICE.
1. Introdução
Os modelos de maturidade de processo de software surgiram como uma resposta às crescentes demandas por qualidade e eficiência no desenvolvimento de sistemas em um ambiente competitivo e dinâmico [Shewhart 1931]. À medida que os projetos de software se tornam mais complexos e críticos para os negócios, garantir processos bem definidos e padronizados se tornou algo essencial para alcançar resultados consistentes e confiáveis [Paulk et al. 1993].
Esses modelos fornecem um framework estruturado que permite às organizações avaliar o estado atual de seus processos de desenvolvimento e identificar áreas de melhoria. Eles ajudam na implementação de práticas maduras e eficientes, promovendo maior previsibilidade nos projetos, redução de falhas e entregas dentro do prazo e orçamento. Além disso, as certificações associadas a esses modelos frequentemente se tornam um diferencial competitivo no mercado, atraindo clientes e fortalecendo a reputação da empresa.
O presente artigo tem como objetivo analisar os principais modelos de maturidade de processo de software, como o CMMI (Capability Maturity Model Integration), o ISO/IEC 15504 (SPICE) e o MPS.BR destacando suas características, benefícios e desafios. Busca-se compreender como esses modelos impactam a qualidade dos processos organizacionais, promovendo melhorias contínuas, eficiência operacional e maior competitividade no mercado de tecnologia.
2. Maturidade de Processo de Software
A maturidade de processo de software refere-se ao grau de formalização, padronização e otimização dos processos utilizados no desenvolvimento de software dentro de uma organização. Um processo maduro é caracterizado por ser bem definido, documentado, controlado e constantemente aprimorado, com práticas consistentes que produzem resultados previsíveis e de alta qualidade.
No contexto de desenvolvimento de software, a maturidade implica que a organização possui uma abordagem sistemática e disciplinada para gerenciar seus projetos, desde a concepção até a entrega do produto [Franco 2023]. Isso inclui o uso de metodologias, ferramentas, e técnicas específicas que garantem a eficiência dos processos, a redução de riscos e a satisfação do cliente.
Os modelos de maturidade, como o CMMI e o ISO/IEC 15504 (SPICE), foram desenvolvidos para fornecer diretrizes e critérios que ajudam as organizações a alcançar níveis mais altos de maturidade. Esses modelos medem a capacidade dos processos organizacionais em termos de previsibilidade, controle e alinhamento com os objetivos de negócio, promovendo a melhoria contínua e a evolução da eficiência organizacional.
3. Principais Modelos de Maturidade de Software
3.1 CMMI (Capability Maturity Model Integration): Estrutura e Níveis de Maturidade
O Capability Maturity Model Integration (CMMI) é um dos modelos mais utilizados mundialmente para a melhoria de processos em organizações de desenvolvimento de software. Desenvolvido pelo Software Engineering Institute (SEI), o modelo fornece uma estrutura robusta para auxiliar organizações a estabelecerem práticas eficazes, padronizadas e alinhadas a objetivos estratégicos [Chrissis et al. 2011].

A estrutura do CMMI está organizada em cinco níveis de maturidade, os quais indicam a progressão da organização na padronização e melhoria contínua de seus processos. Cada nível representa um estágio mais avançado de controle e eficiência:
Nível 1 – Inicial: Neste nível, os processos são desestruturados, ad hoc e frequentemente reativos. Não há previsibilidade nem repetibilidade nos resultados obtidos. O sucesso das entregas depende de habilidades individuais e, muitas vezes, de esforços extraordinários por parte da equipe.
Nível 2 – Gerenciado: Os processos básicos de planejamento e controle começam a ser estabelecidos. As práticas incluem o gerenciamento de requisitos, controle de configuração e medição básica de desempenho. Apesar disso, os processos ainda não são padronizados em toda a organização, limitando a consistência dos resultados.
Nível 3 – Definido: A padronização dos processos ocorre em toda a organização, com base em um conjunto de políticas e procedimentos bem documentados. Há um foco em processos proativos, e a organização adota uma cultura de melhoria contínua.
Nível 4 – Gerenciado Quantitativamente: Os processos são monitorados e controlados quantitativamente por meio de métricas. Essa abordagem garante previsibilidade nos resultados, pois desvios podem ser identificados e corrigidos com antecedência.
Nível 5 – Otimizado: No estágio mais alto, a organização busca constantemente novas formas de melhorar seus processos. Ferramentas como análise de causa raiz e inovações tecnológicas são utilizadas para eliminar problemas e aumentar a eficiência.
O CMMI também abrange áreas específicas, como desenvolvimento de produtos (CMMI-DEV), serviços (CMMI-SVC) e aquisições (CMMI-ACQ), tornando-o uma escolha flexível e poderosa para organizações de diferentes setores [Jubran Junior 2022].
3.2 ISO/IEC 15504 (SPICE): Abordagem Baseada em Processos
O ISO/IEC 15504, mais conhecido como SPICE (Software Process Improvement and Capability Determination), é um padrão internacional desenvolvido para avaliar e melhorar processos relacionados ao ciclo de vida do software. Diferentemente do CMMI, o SPICE adota uma abordagem baseada em processos, com foco na capacidade de cada um individualmente.

O modelo define seis níveis de capacidade, que permitem uma avaliação detalhada de como os processos estão sendo conduzidos na organização:
Nível 0 – Incompleto: O processo não é implementado ou não atinge seus objetivos básicos. Não há evidência de resultados consistentes ou de práticas estabelecidas.
Nível 1 – Executado: O processo é implementado e atinge seus objetivos principais, mas não há garantia de que ele seja planejado ou controlado de maneira sistemática.
Nível 2 – Gerenciado: O processo é planejado e executado de acordo com objetivos pré-estabelecidos. Recursos e responsabilidades são claramente definidos, e os resultados esperados são monitorados e ajustados conforme necessário.
Nível 3 – Estabelecido: O processo está documentado e padronizado em toda a organização. Ele se integra aos demais processos e segue práticas bem definidas, promovendo consistência nos resultados.
Nível 4 – Previsível: O desempenho do processo é monitorado e controlado quantitativamente, utilizando métricas específicas. Isso permite prever resultados e lidar com desvios de forma eficaz.
Nível 5 – Em Otimização: O processo é continuamente analisado e melhorado para atender às mudanças nas necessidades organizacionais e do mercado.
O SPICE é frequentemente utilizado para avaliar processos em diferentes contextos, permitindo que organizações escolham os processos mais relevantes para análise e melhoria, ao invés de abordar a maturidade organizacional como um todo, como ocorre no CMM [Ress 2013].
3.3 MPS.BR: Melhoria de Processo do Software Brasileiro
3.3.1. Conceito e Origem
O MPS.BR (Melhoria de Processo do Software Brasileiro) é um modelo de referência desenvolvido no Brasil, com o objetivo de promover a melhoria dos processos de software de forma acessível e adequada à realidade das organizações brasileiras, especialmente pequenas e médias empresas. Criado em 2003 pela Softex (Associação para Promoção da Excelência do Software Brasileiro), o MPS.BR é uma alternativa viável e economicamente sustentável em relação a modelos internacionais, como o CMMI.
O modelo foi concebido para atender às necessidades específicas das empresas brasileiras, oferecendo um framework que combina rigor técnico com flexibilidade, adaptando-se a diferentes níveis de maturidade e tamanhos organizacionais. Ele também foi projetado para alinhar-se aos padrões internacionais, como o ISO/IEC 12207, ISO/IEC 15504 (SPICE) e ISO/IEC 33000, garantindo reconhecimento global.
3.3.2. Estrutura e Níveis de Maturidade

O MPS.BR adota uma abordagem progressiva e incremental, com sete níveis de maturidade organizados de forma decrescente, o que facilita o avanço gradual das empresas na implementação de boas práticas. Esses níveis são:
Nível A – Em Otimização:Foco na melhoria contínua dos processosorganizacionais. A empresa realiza análises avançadas para identificar oportunidades de inovação e busca otimizar os processos continuamente.
Nível B – Gerenciado Quantitativamente:O desempenho dos processos é gerenciado de forma quantitativa, com o uso de métricas que permitem previsibilidade e controle rigoroso.
Nível C – Definido:Os processos estão documentados, padronizados e alinhados aos objetivos estratégicos da organização. Existe um forte enfoque na integração entre os processos.
Nível D – Largamente Definido:Os processos críticos para o sucesso organizacional são definidos, e boas práticas estão sendo aplicadas em larga escala.
Nível E – Parcialmente Definido:Os processos começam a ser padronizados e documentados em áreas específicas, mas ainda não abrangem toda a organização.
Nível F – Gerenciado:Os processos são planejados, monitorados e ajustados conforme necessário, garantindo maior controle sobre os resultados.
Nível G – Parcialmente Gerenciado:Representa o nível inicial do modelo, onde práticas básicas de gerenciamento começam a ser implementadas. Há foco em requisitos, projetos e monitoramento inicial dos processos.
3.2.3. Benefícios do MPS.BR
O modelo MPS.BR oferece uma série de vantagens para as organizações que o adotam, destacando-se:
Acessibilidade:Diferentemente de modelos como o CMMI, o MPS.BR apresenta custos significativamente mais baixos, tornando-se uma opção viável para pequenas e médias empresas que buscam melhorar seus processos.
Adaptação à Realidade Brasileira:O modelo foi desenvolvido considerando as características e desafios específicos do mercado brasileiro, como limitações financeiras e carência de mão de obra especializada [Freitas 2024].
Reconhecimento Internacional:Por estar alinhado a padrões como o ISO/IEC 15504 e ISO/IEC 12207, o MPS.BR proporciona reconhecimento global aos processos certificados.
Implementação Gradual:A estrutura de níveis permite que as empresas avancem de forma incremental, reduzindo a complexidade e os custos associados a grandes transformações.
Melhoria Contínua:O modelo incentiva a evolução constante dos processos organizacionais, promovendo competitividade e qualidade no desenvolvimento de software.
3.2.4. Comparação do MPS.BR com Modelos Internacionais (CMMI e SPICE)
Embora o MPS.BR compartilhe semelhanças com modelos internacionais, como o CMMI e o SPICE, há diferenças importantes que tornam o modelo brasileiro uma escolha estratégica para certas organizações[Boehm and Valerdi 2010]:
Custo:O MPS.BR é consideravelmente mais econômico, enquanto o CMMI demanda maiores investimentos financeiros, sendo mais utilizado por grandes empresas [Carr et al 2023].
Abordagem Incremental:O MPS.BR permite uma implementação mais acessível e gradual, enquanto o CMMI exige um compromisso organizacional maior para atingir os níveis mais altos de maturidade.
Foco no Mercado Local:O MPS.BR foi projetado especificamente para atender às necessidades das empresas brasileiras, enquanto o CMMI e o SPICE têm um escopo mais genérico e global.
Flexibilidade:O MPS.BR oferece maior flexibilidade na adaptação às particularidades das empresas, enquanto o CMMI adota uma abordagem mais rígida e estruturada.
3.2.5. Impactos do MPS.BR na Qualidade e Eficiência Organizacional
A adoção do MPS.BR tem se mostrado altamente eficaz na melhoria da qualidade e da eficiência dos processos em empresas brasileiras[Alcantara 2020]. Com a implementação do modelo, organizações conseguem:
Reduzir Custos: A padronização e otimização dos processos diminuem retrabalhos e desperdícios.
Aumentar a Competitividade: Empresas certificadas com o MPS.BR têm maior credibilidade no mercado nacional e internacional.
Melhorar a Produtividade: Processos bem definidos e monitorados aumentam a eficiência das equipes [Sousa 2024].
Atingir Conformidade com Normas: O alinhamento do MPS.BR aos padrões ISO facilita a conformidade com requisitos legais e de mercado.
4. Importância dos modelos
A importância dos modelos de maturidade no desenvolvimento de software está diretamente ligada à necessidade de alcançar padrões elevados de qualidade, eficiência e competitividade no mercado. Esses modelos, como o MPS.BR, CMMI e SPICE, são fundamentais para a melhoria contínua dos processos organizacionais, proporcionando um ambiente estruturado onde as práticas são constantemente avaliadas e otimizadas[Silva and Rocha 2010]. A implementação desses modelos resulta em uma significativa redução de falhas e custos, uma vez que os processos padronizados e bem definidos minimizam erros, retrabalhos e desperdícios de recursos. Além disso, eles oferecem maior previsibilidade e controle no desenvolvimento de software, permitindo que as organizações planejem melhor suas atividades, antecipem riscos e garantam entregas dentro dos prazos estabelecidos. Esses benefícios tornam os modelos de maturidade essenciais para organizações que buscam não apenas atender aos requisitos técnicos e de mercado, mas também sustentar uma evolução contínua e alcançar um diferencial competitivo no setor de tecnologia.
5. Desafios na implementação
A implementação de modelos de maturidade em processos de software, apesar dos seus inúmeros benefícios, apresenta desafios significativos que as organizações precisam superar para garantir o sucesso da adoção. Um dos principais obstáculos é a resistência à mudança, que ocorre frequentemente em equipes que já estão acostumadas com métodos informais ou práticas consolidadas [Galhardi 2021]. Essa resistência pode se manifestar em diversos níveis, desde a liderança, que pode relutar em abandonar práticas que parecem funcionar, até os colaboradores, que podem temer o aumento da carga de trabalho ou a complexidade das novas metodologias.
Outro desafio importante é o custo inicial associado à implementação. Modelos de maturidade, especialmente aqueles de âmbito internacional, como o CMMI, podem exigir investimentos consideráveis em consultorias, ferramentas e certificações. Mesmo modelos mais acessíveis, como o MPS.BR, demandam recursos financeiros para adaptação de processos e auditorias, o que pode ser um entrave para pequenas e médias empresas com orçamentos limitados.
Além disso, a necessidade de capacitação da equipe representa uma barreira crítica. A adoção de modelos de maturidade exige que os colaboradores desenvolvam novas habilidades e conhecimentos relacionados aos processos definidos pelo modelo. Isso implica na realização de treinamentos, workshops e mudanças culturais dentro da organização. Sem o engajamento e a qualificação dos profissionais, a implementação pode se tornar superficial e ineficaz.
Esses desafios ressaltam a importância de uma abordagem estratégica e gradual para a adoção de modelos de maturidade. Envolver a liderança no processo, comunicar os benefícios para toda a organização e garantir que os custos sejam planejados e alinhados às metas organizacionais são passos essenciais para superar essas barreiras e maximizar o retorno sobre o investimento na melhoria dos processos de software [Santos 2011].
6. Considerações finais
Os modelos de maturidade de processos de software, como o CMMI, o SPICE e o MPS.BR, desempenham um papel fundamental no aprimoramento da qualidade e eficiência organizacional. Cada modelo oferece abordagens específicas para a melhoria contínua dos processos, com níveis de maturidade que permitem avanços progressivos e estruturados [Piana, Costa and Zola 2023].

O CMMI destaca-se por sua aplicação global e ampla padronização, enquanto o SPICE foca na avaliação de processos com base em normas internacionais, e o MPS.BR surge como uma alternativa acessível e adaptada à realidade brasileira, especialmente para pequenas e médias empresas.
A adoção de modelos de maturidade não é apenas uma escolha técnica, mas uma estratégia essencial para organizações que buscam aumentar sua competitividade no mercado. Esses modelos promovem a padronização e a otimização dos processos, reduzem custos, minimizam falhas e oferecem maior previsibilidade no desenvolvimento de software [Pereira 2021]. Apesar dos desafios na implementação, como resistência à mudança e custos iniciais, os benefícios superam as dificuldades, tornando-se um investimento estratégico de alto impacto [Camargo 2024].
Dessa forma, é imperativo que empresas que almejam excelência e inovação considerem a adoção desses modelos como parte integrante de suas práticas de gestão. Além de atender às demandas do mercado, os modelos de maturidade impulsionam as organizações rumo à evolução contínua, consolidando sua posição em um ambiente cada vez mais competitivo e exigente.
Referências
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¹Universidade do Estado do Pará, Concórdia do Pará, PA, Brasil. E-mail: felipe.md.abreu@aluno.uepa.br;
²Universidade do Estado do Pará, Concórdia do Pará, PA, Brasil. E-mail: maria.chagas@aluno.uepa.br;
³Universidade do Estado do Pará, Concórdia do Pará, PA, Brasil. E-mail: paulo.amdsilva@aluno.uepa.br;
⁴Universidade do Estado do Pará, Belém, PA, Brasil. E-mail: gmendes@uepa.br.
