MICROBIOMA INTESTINAL E ENXAQUECA: UMA RELAÇÃO  EMERGENTE E SUAS IMPLICAÇÕES CLÍNICAS

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202512060810


Gustavo Santos Andrade; Isadora Leão Beltrami; Jayne Gracielle Dos Santos Oliveira; Josy Barros Noleto De Souza; Juliana Abreu Oliveira; Nayara Cristine Pereira Goffi; Rômulo Jales Natal; Rubens Gabriel Martins Rosa; Thaís Oliveira Santos; Vitoria Canto Duarte


RESUMO  

Introdução – As cefaleias, como a enxaqueca (migrânea), são queixas médicas  debilitantes. A enxaqueca é primária, unilateral, pulsátil e acompanhada por  náuseas/sensibilidade à luz/som, podendo ter aura. Seu tratamento agudo é feito  com triptanos e ergotaminas, mas o alto custo e baixa eficácia levam ao uso  comum de AINEs. Assim, torna-se crucial investigar a relação entre alimentação,  enxaqueca e o microbioma intestinal, visando entender as implicações clínicas  da relação entre tais elementos. Métodos – Esta revisão integrativa analisou  artigos (2020-2025), em português, sobre a relação entre “Migrânea” e  “Microbiota intestinal” (DeCS/MeSH). Utilizou SCIELO e LILACS, excluindo  revisões, para propor novas evidências sobre o tema. Resultados e discussão  – A enxaqueca está intrinsecamente ligada a distúrbios gastrointestinais (TGI),  como SII e gastroparesia. Essa correlação é modulada pelo eixo intestino cérebro, onde a disbiose (desequilíbrio da microbiota) influencia a enxaqueca  pela produção de neurotransmissores e inflamação. Nitratos e certos alimentos  (chocolate, queijo) podem ser gatilhos. O peptídeo CGRP e a CCK também  participam da fisiopatologia. Obesidade é um fator de risco devido à inflamação  crônica. Estratégias multidisciplinares (dieta, exercícios) e a abordagem do TGI  são cruciais no manejo da dor. Conclusão – A enxaqueca está ligada ao eixo  intestino-cérebro. A disbiose intestinal modula a neuroinflamação e a dor.  Comorbidades gastrointestinais e gatilhos dietéticos reforçam essa ligação.  Intervenções holísticas, como dietas e probióticos, são promissoras para  modificar fatores de risco, avançando além do manejo puramente sintomático da  migrânea. 

Palavras-chave: Microbioma intestinal; Enxaqueca; Implicações clínicas. 

ABSTRACT 

Introduction – Headaches, such as migraine, are debilitating medical  complaints. Migraine is primary, unilateral, throbbing, and accompanied by  nausea/sensitivity to light/sound, and may involve aura. Its acute treatment is  based on triptans and ergotamines, but high cost and low efficacy lead to the  common use of NSAIDs. Thus, it becomes crucial to investigate the relationship  between diet, migraine, and the gut microbiome, aiming to understand the  clinical implications of the link between these elements. Methods – This  integrative review analyzed articles (2020-2025), in Portuguese, on the  relationship between “Migraine” and “Intestinal Microbiota” (DeCS/MeSH). It  utilized SCIELO and LILACS, excluding reviews, to propose new evidence on the  topic. Results and Discussion – Migraine is intrinsically linked to  gastrointestinal disorders (GI), such as IBS and gastroparesis. This correlation  is modulated by the gut-brain axis, where dysbiosis (microbiota imbalance)  influences migraine through the production of neurotransmitters and  inflammation. Nitrates and certain foods (chocolate, cheese) can be triggers.  The CGRP peptide and CCK also participate in the pathophysiology. Obesity is  a risk factor due to chronic inflammation. Multidisciplinary strategies (diet,  exercise) and addressing GI issues are crucial in pain management. Conclusion – Migraine is linked to the gut-brain axis. Intestinal dysbiosis  modulates neuroinflammation and pain. Gastrointestinal comorbidities and  dietary triggers reinforce this connection. Holistic interventions, such as diets  and probiotics, are promising for modifying risk factors, moving beyond the  purely symptomatic management of migraine. 

Keywords: Intestinal Microbiome; Migraine; Clinical Implications. 

1 INTRODUÇÃO  

As dores de cabeça, conhecidas como cefaleias, representam uma  relevante queixa médica em todo o mundo e tal enfermidade se destaca como  altamente debilitante, afetando a produtividade dos afetados e no seu bem estar social. Essas dores podem apresentar características e etiologias  diversificadas, sendo a tensional e a enxaqueca, as formas mais recorrentes no  mundo todo e o conhecimento da sua epidemiologia, bem como o seu  tratamento se fazem importantes para minimizar os impactos econômicos e  sociais associados (Figueiredo et al., 2023). 

Desse modo, a enxaqueca, também conhecida como migrânea, é  uma forma comum e debilitante de cefaleia primária, que pode se apresentar  de forma aguda ou crônica e possui uma duração média de 24 a 72 horas.  Usualmente caracteriza-se por uma dor geralmente unilateral, pulsátil, de  intensidade moderada a intensa, que é agravada por atividades cotidianas,  acompanhadas de náuseas e/ou vômitos e/ou sensibilidade à luz e ao som.  Pode ou não ser precedido por sintomas reversíveis de curta duração, como  alterações visuais, sensoriais ou outras manifestações do sistema nervoso  central, episódios esses conhecidos como aura (Speciali; Fleming; Fortini,  2016).  

Sendo que alguns pacientes também experimentam uma premonitória,  a qual pode incluir hiperatividade, letargia, alterações de humor, desejos  específicos por certos alimentos, sintomas frequentes e alguns inespecíficos. E  o diagnóstico da forma aguda dessa doença se fecha com a constatação de  cinco episódios envolvendo os sintomas relatados, já a enxaqueca da forma  crônica é evidenciada por uma ocorrência de cefaleias em quinze ou mais dias  em um mês, contando oito dias ou mais com as crises satisfazendo os critérios  de enxaqueca, em mais de três meses (Nacazume, 2019). 

Atualmente, o seu tratamento é feito de forma abortiva com triptanos  (agonistas de receptores 5-HT 1B/D) e ergotaminas, sendo que a taxa de 29 a  50% de alívio dos pacientes nas primeiras vinte e quatro horas após o uso e tripatanos e de apenas 8% de alívio no mesmo período com o uso de  ergotaminas, além da incidência de complicações cardiovasculares e alto custo,  fazem com que seja comum que a população faça uso de anti-inflamatórios  não-esteroidais com o propósito de alívio da dor aguda, mesmo contando com  baixas taxas eficácia na erradicação da dor (Lamb, 2018). 

Ademais, este estudo se justifica pela necessidade de investigar a  associação entre a alimentação e a incidência da enxaqueca, uma condição de  alta prevalência global. Ao analisar o panorama atual da literatura, esta  pesquisa visa preencher uma lacuna no conhecimento científico e fornecer  subsídios para a formulação de políticas de saúde pública mais eficazes. A  compreensão dos fatores socioeconômicos e ambientais relacionados à  doença permitirá a implementação de ações direcionadas para reduzir a sua  incidência e os custos associados às internações, contribuindo para uma  melhor gestão da saúde pública. 

Assim, ao observar esse panorama de desregulação no uso de remédios,  associado às constatações de um mal-estar onipresente na população verde e  amarela devido às incapacitantes cefaleias, torna-se imperativo o  desenvolvimento do projeto vigente para entender esse aumento da incidência  da enxaqueca na população, faz-se imperativo desenvolver o presente projeto  com o fito de verificar relação entre o microbioma intestinal e a enxaqueca. 

2 MATERIAL E MÉTODOS 

O presente artigo se trata de uma revisão integrativa, em que se foi  analisado artigos científicos e diretrizes sobre a temática da relação entre a  enxaqueca e a microbiota intestinal. Nesse enfoque, foi utilizado como base de  dados a Biblioteca Eletrônica Científica Online (SCIELO) e a Lilacs. E para a  seleção dos artigos, utilizou-se os descritores “Migrânea” e “Microbiota  intestinal”, os quais são encontrados nos Descritores em Ciências da Saúde  (DeCS), e combinados com operador boleano AND. Sendo que para os  descritores em inglês, utilizou-se os termos correspondentes encontrados no  MeSH: “Migraine” e “gut microbiota”, também utilizando a combinação com o  operador boleano AND.  

Paralelamente, dentre os artigos e diretrizes pesquisados, foram  adotados como critérios de inclusão: artigos originais, de estudo de campo, e de  relatos de experiência; os quais continham texto completo para serem analisado  e que foram publicados em português, no período de 2020 a 2025. Tais objetos  de análise abrangiam os temas da Medicina. E como critérios de exclusão,  evitou-se o uso de artigos de revisão de literatura, publicações anteriores a 2020  e as que não estavam interligadas ao objetivo de estudo proposto. 

Outrossim, os resultados da análise estão apresentados em quadros  relacionando informações sobre a temática supracitada. Por fim, a pesquisa analisou informações sobre esse tema, sendo essas, de domínio público,  disponíveis para acesso nos sítios eletrônicos supracitados. Sendo que tais  bases de dados não permitem a identificação de pessoas e não foi necessário  a submissão do projeto de pesquisa à apreciação de um Comitê de Ética em Pesquisa. 

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO 

A enxaqueca, frequentemente associada a sintomas prodrômicos e  acompanhantes, como náuseas e vômitos, que exacerbam o sofrimento do paciente. Assim, a literatura tem consistentemente apontado para uma intrínseca  ligação entre tal doença e os distúrbios gastrointestinais (TGI), sugerindo que o  sistema digestório pode ser mais do que um mero coadjuvante na fisiopatologia  dessa cefaleia primária. Nesse enfoque, estudos epidemiológicos, como o de  Aamodt et al. (2008), demonstraram uma correlação direta entre a prevalência  de queixas gastrointestinais, incluindo refluxo, diarreia, constipação e náuseas,  e o aumento da frequência e intensidade da cefaleia.  

Ademais, de modo a entender essa correlação, vale salientar que a  composição e o equilíbrio da microbiota intestinal assumem um papel  fundamental na modulação do eixo intestino-cérebro, influenciando diretamente  a fisiopatologia da enxaqueca. Já que o microbioma pode impactar o sistema  nervoso central através de diversos mecanismos, incluindo a produção de  neurotransmissores, moléculas inflamatórias e hormônios, além de uma conexão  direta com os terminais do nervo vago (Cryan & Dinan, 2012). Reciprocamente,  o sistema nervoso central exerce sua influência sobre a microbiota intestinal por  meio dos sistemas simpático e parassimpático e da liberação de peptídeos  neuroendócrinos. Estudos têm demonstrado que um desequilíbrio na microbiota  intestinal, ou disbiose, desempenha um papel crucial no desenvolvimento da  enxaqueca. Por exemplo, a presença de nitratos como gatilho para a enxaqueca  tem sido associada a níveis elevados de espécies bacterianas capazes de  reduzir nitratos, nitritos e óxido nítrico, como Haemophilus sp. e Rothia sp.,  observadas em amostras orais e fecais de pacientes migranosos (Sandor et al., 2012). Adicionalmente, foi constatado que indivíduos com enxaqueca  apresentam uma redução na diversidade de espécies e nas funções metabólicas  da microbiota intestinal, acompanhada por um aumento significativo de espécies  do gênero Clostridium (e.g., Cl. asparagiforme, Cl. clostridioforme), em  detrimento de espécies bacterianas benéficas que são mais prevalentes em  indivíduos sem a condição. Esses achados reforçam a ideia de que a modulação  da microbiota intestinal representa uma promissora via terapêutica para o  manejo da enxaqueca. 

Para tanto, um dos elos mais robustos entre a enxaqueca e o TGI reside  na associação com a Síndrome do Intestino Irritável (SII). Pois, há uma  incidência significativamente maior de enxaqueca em indivíduos com SII. Nesse prisma, já em 1992, Jones e Lydeard reportaram que 32% dos portadores de SII  em sua amostra queixavam-se de enxaquecas, em contraste com 18% dos  controles. Achados semelhantes foram confirmados em estudos prospectivos  posteriores, reforçando essa coocorrência (Vandvik et al., 2004).  Adicionalmente, a gastroparesia, caracterizada pelo esvaziamento gástrico  retardado, tem sido há muito tempo reconhecida como uma comorbidade da  enxaqueca. Boyle, Behan e Sutton (1990) observaram uma correlação  significativa entre o tempo de esvaziamento gástrico e a intensidade da dor,  náusea e fotofobia durante uma crise enxaquecosa, sugerindo um papel do eixo  cérebro-intestino na manifestação da dor. 

Outrossim, Arzani et al. (2020) citam por meio de uma metanálise, a qual  demonstrou que aproximadamente 45% dos indivíduos com enxaqueca  apresentam infecção por Helicobacter pylori (HP), em contraste com a  prevalência de cerca de 33% observada em controles saudáveis. No entanto, é  crucial que futuras investigações sobre o papel da HP na fisiopatologia da  cefaleia levem em consideração a diversidade das cepas bacterianas, a etnia  dos pacientes, as variações regionais da bactéria e as possíveis distinções  patológicas entre os subtipos de cefaleia, a fim de obter resultados mais precisos  e clinicamente relevantes. 

Assim, a dieta, um fator ambiental primordial que modula a composição  do microbioma intestinal, emerge como um ponto crucial na compreensão da  relação entre TGI e enxaqueca. Assim, um número considerável de pacientes  com enxaqueca relata alimentos específicos como gatilhos para suas crises. A  pesquisa de Peatfield et al. (1984) revelou que alimentos como chocolate (19%),  queijo (18%) e frutas cítricas (11%) foram frequentemente identificados como  desencadeadores. Considerando que a microbiota intestinal desempenha um  papel fundamental no metabolismo de nutrientes e na produção de metabólitos  que podem influenciar o sistema nervoso central, a ligação entre alimentos e  enxaqueca aponta para um potencial envolvimento do microbioma intestinal na  fisiopatologia da migrânea (Moschen et al., 2012). A disbiose intestinal, portanto,  pode ser um elo patogênico chave, mediando a resposta inflamatória e  neurogênica que culmina na crise de enxaqueca. 

Paralelamente, o peptídeo colecistocinina (CCK) é produzido por células  enteroendócrinas no intestino e também em diversas áreas do sistema nervoso  central, como o córtex, tálamo e substância cinzenta periaquedutal (PAG), além  da medula espinhal. No sistema digestivo, a CCK age inibindo o esvaziamento  gástrico e a secreção de ácido, enquanto estimula a contração da vesícula biliar  e a secreção pancreática. A sua ação nos receptores CCK1 em terminais  nervosos aferentes do nervo vago no trato gastrointestinal reforça a  comunicação entre os sistemas endócrino e parácrino. No cérebro, a presença  de receptores CCK1 em estruturas mesolímbicas e no hipotálamo, e sua  interação com neurotransmissores como a dopamina e a serotonina, sugerem  sua influência no comportamento, humor e função motora. Pois, como avaliam  Arzani et al. (2020), o peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP), a  CCK é sintetizada no PAG e pode desempenhar um papel no sistema de  modulação endógena da dor, com seus níveis elevando-se durante a  enxaqueca. Adicionalmente, a CCK também está presente no gânglio do  trigêmeo, e a sua estimulação leva a um aumento local de CCK, o que ressalta  a sua participação direta nos mecanismos fisiopatológicos da enxaqueca. 

Ademais, além dos distúrbios gastrointestinais específicos, observa-se  que o excesso de peso e a composição corporal inadequada são achados  prevalentes em pacientes com enxaqueca. A obesidade é um conhecido fator de  risco para cefaleias em geral e, mais especificamente, para a enxaqueca crônica.  O tecido adiposo em excesso é metabolicamente ativo, secretando adipocinas e  diversas citocinas pró-inflamatórias, como IL-1, IL-6 e Fator de Necrose Tumoral  alfa (TNF-α). A elevação desses mediadores inflamatórios no plasma tem sido  consistentemente associada à migrânea, estabelecendo uma relação  significativa entre a enxaqueca e condições inflamatórias crônicas, incluindo a  obesidade. Assim, estima-se que o excesso de tecido adiposo, além de ser um  fator de risco para a migrânea, pode predispor os indivíduos a distúrbios  gastrointestinais, e vice-versa, complexificando ainda mais o quadro clínico e  ressaltando a natureza incapacitante da enxaqueca, independentemente dos  indicadores utilizados. 

Além das abordagens farmacológicas convencionais, dentre as  estratégias consideradas eficazes, destacam-se as intervenções multidisciplinares, que englobam a dieta alimentar, a prática regular de  exercícios físicos, técnicas de relaxamento e o treinamento comportamental.  Outrossim, é notório que o consenso da Sociedade Brasileira de Cefaleia, datado  de 2002, já preconizava a inclusão de terapias não medicamentosas na profilaxia  da enxaqueca, como biofeedback, terapia cognitivo-comportamental,  acupuntura, psicoterapia e fisioterapia (SBCE, 2002). Essa convergência de  recomendações sublinha a importância de uma abordagem holística, que  contemple não apenas a supressão da dor, mas também a modificação de  fatores contribuintes e a promoção do bem-estar geral do paciente. A filosofia  naturopática, por exemplo, que busca otimizar a função orgânica pela melhora  da assimilação de nutrientes e eliminação de toxinas, demonstrou que a terapia  nutricional pode levar a uma melhora significativa na qualidade de vida de  indivíduos com enxaqueca, corroborando o papel central da dieta nesse cenário. 

Por fim, Souza, Leite e Nepomuceno (2020) investigam a coexistência  de distúrbios de origem gastrointestinal, como a constipação e a intolerância à  lactose, em pacientes diagnosticados com enxaqueca. Em seus achados  revelaram uma prevalência considerável de 32% para a constipação intestinal e  23,7% para a intolerância à lactose, reforçando a hipótese de que distúrbios do  trato gastrointestinal são mais comuns nesta população quando comparada à  população geral. Esses dados evidenciam a importância de uma análise holística  da sintomatologia do paciente com migrânea, considerando o eixo intestino cérebro como um componente fundamental na fisiopatologia da doença. 

4 CONCLUSÃO 

A compreensão da enxaqueca como uma condição neurovascular  complexa, cuja fisiopatologia transcende o sistema nervoso central, está  correlacionada com o eixo intestino-cérebro. Os resultados supracitados  analisados demonstram de maneira clara que a disbiose da microbiota intestinal  não é um epifenômeno, mas um potencial modulador da migrânea, influenciando  a neuroinflamação e a sensibilização trigeminal por meio da produção de  neurotransmissores e metabólitos bacterianos. A correlação com comorbidades  gastrointestinais, como a Síndrome do Intestino Irritável e a gastroparesia, e a associação com gatilhos dietéticos reforçam a hipótese do envolvimento do  microbioma. Dessa forma, a elucidação do papel de espécies bacterianas  específicas, como as redutoras de nitrato, e a modulação do peptídeo  Colecistocinina (CCK) oferecem novos alvos terapêuticos, sinalizando a  transição de um manejo puramente sintomático para uma abordagem preventiva  baseada na modulação do ambiente intestinal. 

Assim, diante da natureza incapacitante da enxaqueca, que acarreta  perdas significativas na produtividade e na qualidade de vida, e da prevalência  do subdiagnóstico e do uso inadequado de medicações, torna-se fulcral que a  prática clínica evolua para um modelo mais holístico. Para além dos tratamentos  farmacológicos abortivos e profiláticos convencionais, a integração de  estratégias não medicamentosas, como intervenções dietéticas personalizadas  e a utilização de probióticos e prebióticos, emerge como uma área promissora.  Logo, a incorporação dessa perspectiva do eixo intestino-cérebro no manejo  clínico da enxaqueca representa um avanço significativo, o qual permite aos  clínicos a formulação de planos terapêuticos mais eficazes e personalizados,  visando não apenas o alívio da dor, mas a modificação dos fatores de risco  subjacentes para o controle duradouro da condição. 

5 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

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6 ANEXOS 

Autoria / ano
do estudo
Tipo de
estudo
ObjetivoEvidências / resultados
Crawford, Liu
e Tao, 2022
Revisão
bibliográfica
Fornecer um breve
relato da história das
teorias da enxaqueca
e resumir os estudos
recentes que demonstram o envolvimento da
microbiota intestinal
na fisiopatologia da
enxaqueca.
Nos últimos anos, surgiram evidências que
relacionam a microbiota intestinal à enxaqueca.
Estudos utilizando modelos animais e humanos demonstraram que o microbioma intestinal é alterado em pacientes com enxaqueca em comparação com controles saudáveis.
Estudos anteriores também demonstraram o
efeito benéfico de uma variedade de tratamentos
diferentes que visam a microbiota intestinal e a
sinalização do nervo vago, como dietas
especiais, probióticos e estimulação do nervo
vago.
Souza, Leite e
Nepomuceno,
2020
Estudo
transversal e
retrospectivo
Avaliar a associação
entre enxaqueca,
intolerância à lactose
e constipação intestinal em pacientes em estado
migranoso.
Embora identificadas prevalências consideráveis de constipação intestinal e intolerância à lactose na amostra avaliada, além de maiores médias de pontuação nos questionários utilizados para impacto e intensidade da dor nos pacientes constipados e de maior tempo de diagnóstico da migrânea nos intolerantes à lactose, não houve significância estatística na associação entre enxaqueca e esses distúrbios gastrointestinais.
Ele et al., 2023Estudo
transversal
Explorar a possível
associação causal
entre cada taxa
bacteriana e a
enxaqueca por meio
de análises de RM,
que podem fornecer a
base teórica para o
eixo intestino-cérebro
e fornecer novos insights para a prevenção da
enxaqueca.
Nosso estudo demonstra que o microbioma
intestinal pode exercer efeitos causais na
enxaqueca, enxaqueca desordenada e
enxaqueca desordenada.
Fornecemos novas evidências da disfunção
do eixo intestino-cérebro na enxaqueca. Estudos
futuros são necessários para verificar a relação
entre o microbioma intestinal e o risco de
enxaqueca e seus subtipos, e ilustrar o mecanismo subjacente entre eles.
Kappéter et
al., 2024
Revisão
integrativa
Realizar uma revisão
sistemática da
literatura acerca da
associação da
disbiose intestinal e da
utilização da terapia
com transplante de
microbiota fecal
Estratégias dietéticas podem afetar o curso das
enxaquecas e são uma ferramenta valiosa para
melhorar o manejo da enxaqueca. Com o
transplante de microbiota fecal, a restauração da
microbiota intestinal é mais eficaz e duradoura.
As alterações após o transplante de microbiota
fecal foram estudadas em detalhes, e muitos dados
nos ajudam a interpretar as intervenções bem-
sucedidas. A alteração microbiológica da
microflora intestinal pode levar à normalização dos
mediadores inflamatórios, da via da serotonina e
influenciar a frequência e a intensidade da dor da
enxaqueca.
Arzani et al.,
2020
Revisão
integrativa
Discutir as evidências
diretas e indiretas que sugerem relações entre a enxaqueca e o eixo intestino-cérebro.
Também foi proposto que a enxaqueca pode ser
melhorada por abordagens dietéticas com efeitos benéficos na microbiota intestinal e no eixo intestino-cérebro, incluindo consumo adequado de fibras por dia, adesão a uma dieta de baixo índice glicêmico, suplementação com vitamina D, ômega-3 e probióticos, bem como planos alimentares de
perda de peso para pacientes com sobrepeso e obesos.
Cavalcante e
Benevides,
2023
Revisão
integrativa
Revisar a relação
entre a saúde
intestinal e a
ocorrência de
enxaquecas, e como a administração de
probióticos pode
atenuar as crises de
dor.
Conclui-se que o eixo intestino-cérebro é de
fundamental importância para amenizar a
ocorrência de dores migrâneas relacionadas a
enxaqueca, e que a suplementação de probióticos é uma alternativa eficaz para modular a microbiota
intestinal em casos de disbiose intestinal em
pacientes com enxaqueca. Ainda são necessários mais estudos para definir cepas e quantidades específicas em seu tratamento.
Di Lauro et
al., 2023
Revisão
integrativa
Explorar a correlação
bidirecional entre
enxaqueca e as
principais doenças
crônicas não
transmissíveis, como
diabetes mellitus,
hipertensão arterial,
obesidade, câncer e
doenças renais
crônicas, cuja ligação
é representada pela
disbiose intestinal.
O desenvolvimento da enxaqueca parece estar
parcialmente relacionado à disbiose intestinal. De
fato, pode levar à redução da produção de AGCC e
ao aumento concomitante de citocinas inflamatórias derivadas do intestino, o que pode influenciar as atividades do SNC e, por sua vez, causar enxaqueca. Além disso, parece haver uma correlação bidirecional entre a enxaqueca e o risco de aparecimento e progressão de DCNT, onde a microbiota intestinal desempenha um papel fundamental.
Júnior et al.,
2024
Revisão
bibliográfica
Explorar a interligação
entre o microbioma
intestinal e a saúde
cerebral, identificando
como a composição e função da microbiota
impactam diretamente processos
neurobiológicos.
Em síntese, aprofundamos a compreensão das
intricadas conexões entre o microbioma intestinal e a saúde cerebral. Os resultados destacam a
relevância dessas interações na modulação
de condições neuropsiquiátricas, abrindo portas para intervenções terapêuticas inovadoras. Sem desconsiderar a complexidade do tema, as
estratégias terapêuticas exploradas, desde
suplementação até modulação dietética,
prometem contribuir significativamente para a
promoção da saúde mental.
Silva et al.,
2025
Revisão
integrativa
Avaliar o impacto da microbiota intestinal
no desenvolvimento
da ansiedade e
depressão em
mulheres.
Comprovadamente há uma correlação entre
microbiota intestinal e ansiedade e depressão em mulheres. Como resultado, o uso de prebióticos e probióticos vêm sendo administrados em conjunto com a psicoterapia, como terapias complementares para estes transtornos de
humor.

Tabela 1: Explicita os estudos encontrados que remetem a relação entre microbioma intestinal  e enxaqueca.