REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202512060810
Gustavo Santos Andrade; Isadora Leão Beltrami; Jayne Gracielle Dos Santos Oliveira; Josy Barros Noleto De Souza; Juliana Abreu Oliveira; Nayara Cristine Pereira Goffi; Rômulo Jales Natal; Rubens Gabriel Martins Rosa; Thaís Oliveira Santos; Vitoria Canto Duarte
RESUMO
Introdução – As cefaleias, como a enxaqueca (migrânea), são queixas médicas debilitantes. A enxaqueca é primária, unilateral, pulsátil e acompanhada por náuseas/sensibilidade à luz/som, podendo ter aura. Seu tratamento agudo é feito com triptanos e ergotaminas, mas o alto custo e baixa eficácia levam ao uso comum de AINEs. Assim, torna-se crucial investigar a relação entre alimentação, enxaqueca e o microbioma intestinal, visando entender as implicações clínicas da relação entre tais elementos. Métodos – Esta revisão integrativa analisou artigos (2020-2025), em português, sobre a relação entre “Migrânea” e “Microbiota intestinal” (DeCS/MeSH). Utilizou SCIELO e LILACS, excluindo revisões, para propor novas evidências sobre o tema. Resultados e discussão – A enxaqueca está intrinsecamente ligada a distúrbios gastrointestinais (TGI), como SII e gastroparesia. Essa correlação é modulada pelo eixo intestino cérebro, onde a disbiose (desequilíbrio da microbiota) influencia a enxaqueca pela produção de neurotransmissores e inflamação. Nitratos e certos alimentos (chocolate, queijo) podem ser gatilhos. O peptídeo CGRP e a CCK também participam da fisiopatologia. Obesidade é um fator de risco devido à inflamação crônica. Estratégias multidisciplinares (dieta, exercícios) e a abordagem do TGI são cruciais no manejo da dor. Conclusão – A enxaqueca está ligada ao eixo intestino-cérebro. A disbiose intestinal modula a neuroinflamação e a dor. Comorbidades gastrointestinais e gatilhos dietéticos reforçam essa ligação. Intervenções holísticas, como dietas e probióticos, são promissoras para modificar fatores de risco, avançando além do manejo puramente sintomático da migrânea.
Palavras-chave: Microbioma intestinal; Enxaqueca; Implicações clínicas.
ABSTRACT
Introduction – Headaches, such as migraine, are debilitating medical complaints. Migraine is primary, unilateral, throbbing, and accompanied by nausea/sensitivity to light/sound, and may involve aura. Its acute treatment is based on triptans and ergotamines, but high cost and low efficacy lead to the common use of NSAIDs. Thus, it becomes crucial to investigate the relationship between diet, migraine, and the gut microbiome, aiming to understand the clinical implications of the link between these elements. Methods – This integrative review analyzed articles (2020-2025), in Portuguese, on the relationship between “Migraine” and “Intestinal Microbiota” (DeCS/MeSH). It utilized SCIELO and LILACS, excluding reviews, to propose new evidence on the topic. Results and Discussion – Migraine is intrinsically linked to gastrointestinal disorders (GI), such as IBS and gastroparesis. This correlation is modulated by the gut-brain axis, where dysbiosis (microbiota imbalance) influences migraine through the production of neurotransmitters and inflammation. Nitrates and certain foods (chocolate, cheese) can be triggers. The CGRP peptide and CCK also participate in the pathophysiology. Obesity is a risk factor due to chronic inflammation. Multidisciplinary strategies (diet, exercise) and addressing GI issues are crucial in pain management. Conclusion – Migraine is linked to the gut-brain axis. Intestinal dysbiosis modulates neuroinflammation and pain. Gastrointestinal comorbidities and dietary triggers reinforce this connection. Holistic interventions, such as diets and probiotics, are promising for modifying risk factors, moving beyond the purely symptomatic management of migraine.
Keywords: Intestinal Microbiome; Migraine; Clinical Implications.
1 INTRODUÇÃO
As dores de cabeça, conhecidas como cefaleias, representam uma relevante queixa médica em todo o mundo e tal enfermidade se destaca como altamente debilitante, afetando a produtividade dos afetados e no seu bem estar social. Essas dores podem apresentar características e etiologias diversificadas, sendo a tensional e a enxaqueca, as formas mais recorrentes no mundo todo e o conhecimento da sua epidemiologia, bem como o seu tratamento se fazem importantes para minimizar os impactos econômicos e sociais associados (Figueiredo et al., 2023).
Desse modo, a enxaqueca, também conhecida como migrânea, é uma forma comum e debilitante de cefaleia primária, que pode se apresentar de forma aguda ou crônica e possui uma duração média de 24 a 72 horas. Usualmente caracteriza-se por uma dor geralmente unilateral, pulsátil, de intensidade moderada a intensa, que é agravada por atividades cotidianas, acompanhadas de náuseas e/ou vômitos e/ou sensibilidade à luz e ao som. Pode ou não ser precedido por sintomas reversíveis de curta duração, como alterações visuais, sensoriais ou outras manifestações do sistema nervoso central, episódios esses conhecidos como aura (Speciali; Fleming; Fortini, 2016).
Sendo que alguns pacientes também experimentam uma premonitória, a qual pode incluir hiperatividade, letargia, alterações de humor, desejos específicos por certos alimentos, sintomas frequentes e alguns inespecíficos. E o diagnóstico da forma aguda dessa doença se fecha com a constatação de cinco episódios envolvendo os sintomas relatados, já a enxaqueca da forma crônica é evidenciada por uma ocorrência de cefaleias em quinze ou mais dias em um mês, contando oito dias ou mais com as crises satisfazendo os critérios de enxaqueca, em mais de três meses (Nacazume, 2019).
Atualmente, o seu tratamento é feito de forma abortiva com triptanos (agonistas de receptores 5-HT 1B/D) e ergotaminas, sendo que a taxa de 29 a 50% de alívio dos pacientes nas primeiras vinte e quatro horas após o uso e tripatanos e de apenas 8% de alívio no mesmo período com o uso de ergotaminas, além da incidência de complicações cardiovasculares e alto custo, fazem com que seja comum que a população faça uso de anti-inflamatórios não-esteroidais com o propósito de alívio da dor aguda, mesmo contando com baixas taxas eficácia na erradicação da dor (Lamb, 2018).
Ademais, este estudo se justifica pela necessidade de investigar a associação entre a alimentação e a incidência da enxaqueca, uma condição de alta prevalência global. Ao analisar o panorama atual da literatura, esta pesquisa visa preencher uma lacuna no conhecimento científico e fornecer subsídios para a formulação de políticas de saúde pública mais eficazes. A compreensão dos fatores socioeconômicos e ambientais relacionados à doença permitirá a implementação de ações direcionadas para reduzir a sua incidência e os custos associados às internações, contribuindo para uma melhor gestão da saúde pública.
Assim, ao observar esse panorama de desregulação no uso de remédios, associado às constatações de um mal-estar onipresente na população verde e amarela devido às incapacitantes cefaleias, torna-se imperativo o desenvolvimento do projeto vigente para entender esse aumento da incidência da enxaqueca na população, faz-se imperativo desenvolver o presente projeto com o fito de verificar relação entre o microbioma intestinal e a enxaqueca.
2 MATERIAL E MÉTODOS
O presente artigo se trata de uma revisão integrativa, em que se foi analisado artigos científicos e diretrizes sobre a temática da relação entre a enxaqueca e a microbiota intestinal. Nesse enfoque, foi utilizado como base de dados a Biblioteca Eletrônica Científica Online (SCIELO) e a Lilacs. E para a seleção dos artigos, utilizou-se os descritores “Migrânea” e “Microbiota intestinal”, os quais são encontrados nos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), e combinados com operador boleano AND. Sendo que para os descritores em inglês, utilizou-se os termos correspondentes encontrados no MeSH: “Migraine” e “gut microbiota”, também utilizando a combinação com o operador boleano AND.
Paralelamente, dentre os artigos e diretrizes pesquisados, foram adotados como critérios de inclusão: artigos originais, de estudo de campo, e de relatos de experiência; os quais continham texto completo para serem analisado e que foram publicados em português, no período de 2020 a 2025. Tais objetos de análise abrangiam os temas da Medicina. E como critérios de exclusão, evitou-se o uso de artigos de revisão de literatura, publicações anteriores a 2020 e as que não estavam interligadas ao objetivo de estudo proposto.
Outrossim, os resultados da análise estão apresentados em quadros relacionando informações sobre a temática supracitada. Por fim, a pesquisa analisou informações sobre esse tema, sendo essas, de domínio público, disponíveis para acesso nos sítios eletrônicos supracitados. Sendo que tais bases de dados não permitem a identificação de pessoas e não foi necessário a submissão do projeto de pesquisa à apreciação de um Comitê de Ética em Pesquisa.
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
A enxaqueca, frequentemente associada a sintomas prodrômicos e acompanhantes, como náuseas e vômitos, que exacerbam o sofrimento do paciente. Assim, a literatura tem consistentemente apontado para uma intrínseca ligação entre tal doença e os distúrbios gastrointestinais (TGI), sugerindo que o sistema digestório pode ser mais do que um mero coadjuvante na fisiopatologia dessa cefaleia primária. Nesse enfoque, estudos epidemiológicos, como o de Aamodt et al. (2008), demonstraram uma correlação direta entre a prevalência de queixas gastrointestinais, incluindo refluxo, diarreia, constipação e náuseas, e o aumento da frequência e intensidade da cefaleia.
Ademais, de modo a entender essa correlação, vale salientar que a composição e o equilíbrio da microbiota intestinal assumem um papel fundamental na modulação do eixo intestino-cérebro, influenciando diretamente a fisiopatologia da enxaqueca. Já que o microbioma pode impactar o sistema nervoso central através de diversos mecanismos, incluindo a produção de neurotransmissores, moléculas inflamatórias e hormônios, além de uma conexão direta com os terminais do nervo vago (Cryan & Dinan, 2012). Reciprocamente, o sistema nervoso central exerce sua influência sobre a microbiota intestinal por meio dos sistemas simpático e parassimpático e da liberação de peptídeos neuroendócrinos. Estudos têm demonstrado que um desequilíbrio na microbiota intestinal, ou disbiose, desempenha um papel crucial no desenvolvimento da enxaqueca. Por exemplo, a presença de nitratos como gatilho para a enxaqueca tem sido associada a níveis elevados de espécies bacterianas capazes de reduzir nitratos, nitritos e óxido nítrico, como Haemophilus sp. e Rothia sp., observadas em amostras orais e fecais de pacientes migranosos (Sandor et al., 2012). Adicionalmente, foi constatado que indivíduos com enxaqueca apresentam uma redução na diversidade de espécies e nas funções metabólicas da microbiota intestinal, acompanhada por um aumento significativo de espécies do gênero Clostridium (e.g., Cl. asparagiforme, Cl. clostridioforme), em detrimento de espécies bacterianas benéficas que são mais prevalentes em indivíduos sem a condição. Esses achados reforçam a ideia de que a modulação da microbiota intestinal representa uma promissora via terapêutica para o manejo da enxaqueca.
Para tanto, um dos elos mais robustos entre a enxaqueca e o TGI reside na associação com a Síndrome do Intestino Irritável (SII). Pois, há uma incidência significativamente maior de enxaqueca em indivíduos com SII. Nesse prisma, já em 1992, Jones e Lydeard reportaram que 32% dos portadores de SII em sua amostra queixavam-se de enxaquecas, em contraste com 18% dos controles. Achados semelhantes foram confirmados em estudos prospectivos posteriores, reforçando essa coocorrência (Vandvik et al., 2004). Adicionalmente, a gastroparesia, caracterizada pelo esvaziamento gástrico retardado, tem sido há muito tempo reconhecida como uma comorbidade da enxaqueca. Boyle, Behan e Sutton (1990) observaram uma correlação significativa entre o tempo de esvaziamento gástrico e a intensidade da dor, náusea e fotofobia durante uma crise enxaquecosa, sugerindo um papel do eixo cérebro-intestino na manifestação da dor.
Outrossim, Arzani et al. (2020) citam por meio de uma metanálise, a qual demonstrou que aproximadamente 45% dos indivíduos com enxaqueca apresentam infecção por Helicobacter pylori (HP), em contraste com a prevalência de cerca de 33% observada em controles saudáveis. No entanto, é crucial que futuras investigações sobre o papel da HP na fisiopatologia da cefaleia levem em consideração a diversidade das cepas bacterianas, a etnia dos pacientes, as variações regionais da bactéria e as possíveis distinções patológicas entre os subtipos de cefaleia, a fim de obter resultados mais precisos e clinicamente relevantes.
Assim, a dieta, um fator ambiental primordial que modula a composição do microbioma intestinal, emerge como um ponto crucial na compreensão da relação entre TGI e enxaqueca. Assim, um número considerável de pacientes com enxaqueca relata alimentos específicos como gatilhos para suas crises. A pesquisa de Peatfield et al. (1984) revelou que alimentos como chocolate (19%), queijo (18%) e frutas cítricas (11%) foram frequentemente identificados como desencadeadores. Considerando que a microbiota intestinal desempenha um papel fundamental no metabolismo de nutrientes e na produção de metabólitos que podem influenciar o sistema nervoso central, a ligação entre alimentos e enxaqueca aponta para um potencial envolvimento do microbioma intestinal na fisiopatologia da migrânea (Moschen et al., 2012). A disbiose intestinal, portanto, pode ser um elo patogênico chave, mediando a resposta inflamatória e neurogênica que culmina na crise de enxaqueca.
Paralelamente, o peptídeo colecistocinina (CCK) é produzido por células enteroendócrinas no intestino e também em diversas áreas do sistema nervoso central, como o córtex, tálamo e substância cinzenta periaquedutal (PAG), além da medula espinhal. No sistema digestivo, a CCK age inibindo o esvaziamento gástrico e a secreção de ácido, enquanto estimula a contração da vesícula biliar e a secreção pancreática. A sua ação nos receptores CCK1 em terminais nervosos aferentes do nervo vago no trato gastrointestinal reforça a comunicação entre os sistemas endócrino e parácrino. No cérebro, a presença de receptores CCK1 em estruturas mesolímbicas e no hipotálamo, e sua interação com neurotransmissores como a dopamina e a serotonina, sugerem sua influência no comportamento, humor e função motora. Pois, como avaliam Arzani et al. (2020), o peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP), a CCK é sintetizada no PAG e pode desempenhar um papel no sistema de modulação endógena da dor, com seus níveis elevando-se durante a enxaqueca. Adicionalmente, a CCK também está presente no gânglio do trigêmeo, e a sua estimulação leva a um aumento local de CCK, o que ressalta a sua participação direta nos mecanismos fisiopatológicos da enxaqueca.
Ademais, além dos distúrbios gastrointestinais específicos, observa-se que o excesso de peso e a composição corporal inadequada são achados prevalentes em pacientes com enxaqueca. A obesidade é um conhecido fator de risco para cefaleias em geral e, mais especificamente, para a enxaqueca crônica. O tecido adiposo em excesso é metabolicamente ativo, secretando adipocinas e diversas citocinas pró-inflamatórias, como IL-1, IL-6 e Fator de Necrose Tumoral alfa (TNF-α). A elevação desses mediadores inflamatórios no plasma tem sido consistentemente associada à migrânea, estabelecendo uma relação significativa entre a enxaqueca e condições inflamatórias crônicas, incluindo a obesidade. Assim, estima-se que o excesso de tecido adiposo, além de ser um fator de risco para a migrânea, pode predispor os indivíduos a distúrbios gastrointestinais, e vice-versa, complexificando ainda mais o quadro clínico e ressaltando a natureza incapacitante da enxaqueca, independentemente dos indicadores utilizados.
Além das abordagens farmacológicas convencionais, dentre as estratégias consideradas eficazes, destacam-se as intervenções multidisciplinares, que englobam a dieta alimentar, a prática regular de exercícios físicos, técnicas de relaxamento e o treinamento comportamental. Outrossim, é notório que o consenso da Sociedade Brasileira de Cefaleia, datado de 2002, já preconizava a inclusão de terapias não medicamentosas na profilaxia da enxaqueca, como biofeedback, terapia cognitivo-comportamental, acupuntura, psicoterapia e fisioterapia (SBCE, 2002). Essa convergência de recomendações sublinha a importância de uma abordagem holística, que contemple não apenas a supressão da dor, mas também a modificação de fatores contribuintes e a promoção do bem-estar geral do paciente. A filosofia naturopática, por exemplo, que busca otimizar a função orgânica pela melhora da assimilação de nutrientes e eliminação de toxinas, demonstrou que a terapia nutricional pode levar a uma melhora significativa na qualidade de vida de indivíduos com enxaqueca, corroborando o papel central da dieta nesse cenário.
Por fim, Souza, Leite e Nepomuceno (2020) investigam a coexistência de distúrbios de origem gastrointestinal, como a constipação e a intolerância à lactose, em pacientes diagnosticados com enxaqueca. Em seus achados revelaram uma prevalência considerável de 32% para a constipação intestinal e 23,7% para a intolerância à lactose, reforçando a hipótese de que distúrbios do trato gastrointestinal são mais comuns nesta população quando comparada à população geral. Esses dados evidenciam a importância de uma análise holística da sintomatologia do paciente com migrânea, considerando o eixo intestino cérebro como um componente fundamental na fisiopatologia da doença.
4 CONCLUSÃO
A compreensão da enxaqueca como uma condição neurovascular complexa, cuja fisiopatologia transcende o sistema nervoso central, está correlacionada com o eixo intestino-cérebro. Os resultados supracitados analisados demonstram de maneira clara que a disbiose da microbiota intestinal não é um epifenômeno, mas um potencial modulador da migrânea, influenciando a neuroinflamação e a sensibilização trigeminal por meio da produção de neurotransmissores e metabólitos bacterianos. A correlação com comorbidades gastrointestinais, como a Síndrome do Intestino Irritável e a gastroparesia, e a associação com gatilhos dietéticos reforçam a hipótese do envolvimento do microbioma. Dessa forma, a elucidação do papel de espécies bacterianas específicas, como as redutoras de nitrato, e a modulação do peptídeo Colecistocinina (CCK) oferecem novos alvos terapêuticos, sinalizando a transição de um manejo puramente sintomático para uma abordagem preventiva baseada na modulação do ambiente intestinal.
Assim, diante da natureza incapacitante da enxaqueca, que acarreta perdas significativas na produtividade e na qualidade de vida, e da prevalência do subdiagnóstico e do uso inadequado de medicações, torna-se fulcral que a prática clínica evolua para um modelo mais holístico. Para além dos tratamentos farmacológicos abortivos e profiláticos convencionais, a integração de estratégias não medicamentosas, como intervenções dietéticas personalizadas e a utilização de probióticos e prebióticos, emerge como uma área promissora. Logo, a incorporação dessa perspectiva do eixo intestino-cérebro no manejo clínico da enxaqueca representa um avanço significativo, o qual permite aos clínicos a formulação de planos terapêuticos mais eficazes e personalizados, visando não apenas o alívio da dor, mas a modificação dos fatores de risco subjacentes para o controle duradouro da condição.
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6 ANEXOS
| Autoria / ano do estudo | Tipo de estudo | Objetivo | Evidências / resultados |
| Crawford, Liu e Tao, 2022 | Revisão bibliográfica | Fornecer um breve relato da história das teorias da enxaqueca e resumir os estudos recentes que demonstram o envolvimento da microbiota intestinal na fisiopatologia da enxaqueca. | Nos últimos anos, surgiram evidências que relacionam a microbiota intestinal à enxaqueca. Estudos utilizando modelos animais e humanos demonstraram que o microbioma intestinal é alterado em pacientes com enxaqueca em comparação com controles saudáveis. Estudos anteriores também demonstraram o efeito benéfico de uma variedade de tratamentos diferentes que visam a microbiota intestinal e a sinalização do nervo vago, como dietas especiais, probióticos e estimulação do nervo vago. |
| Souza, Leite e Nepomuceno, 2020 | Estudo transversal e retrospectivo | Avaliar a associação entre enxaqueca, intolerância à lactose e constipação intestinal em pacientes em estado migranoso. | Embora identificadas prevalências consideráveis de constipação intestinal e intolerância à lactose na amostra avaliada, além de maiores médias de pontuação nos questionários utilizados para impacto e intensidade da dor nos pacientes constipados e de maior tempo de diagnóstico da migrânea nos intolerantes à lactose, não houve significância estatística na associação entre enxaqueca e esses distúrbios gastrointestinais. |
| Ele et al., 2023 | Estudo transversal | Explorar a possível associação causal entre cada taxa bacteriana e a enxaqueca por meio de análises de RM, que podem fornecer a base teórica para o eixo intestino-cérebro e fornecer novos insights para a prevenção da enxaqueca. | Nosso estudo demonstra que o microbioma intestinal pode exercer efeitos causais na enxaqueca, enxaqueca desordenada e enxaqueca desordenada. Fornecemos novas evidências da disfunção do eixo intestino-cérebro na enxaqueca. Estudos futuros são necessários para verificar a relação entre o microbioma intestinal e o risco de enxaqueca e seus subtipos, e ilustrar o mecanismo subjacente entre eles. |
| Kappéter et al., 2024 | Revisão integrativa | Realizar uma revisão sistemática da literatura acerca da associação da disbiose intestinal e da utilização da terapia com transplante de microbiota fecal | Estratégias dietéticas podem afetar o curso das enxaquecas e são uma ferramenta valiosa para melhorar o manejo da enxaqueca. Com o transplante de microbiota fecal, a restauração da microbiota intestinal é mais eficaz e duradoura. As alterações após o transplante de microbiota fecal foram estudadas em detalhes, e muitos dados nos ajudam a interpretar as intervenções bem- sucedidas. A alteração microbiológica da microflora intestinal pode levar à normalização dos mediadores inflamatórios, da via da serotonina e influenciar a frequência e a intensidade da dor da enxaqueca. |
| Arzani et al., 2020 | Revisão integrativa | Discutir as evidências diretas e indiretas que sugerem relações entre a enxaqueca e o eixo intestino-cérebro. | Também foi proposto que a enxaqueca pode ser melhorada por abordagens dietéticas com efeitos benéficos na microbiota intestinal e no eixo intestino-cérebro, incluindo consumo adequado de fibras por dia, adesão a uma dieta de baixo índice glicêmico, suplementação com vitamina D, ômega-3 e probióticos, bem como planos alimentares de perda de peso para pacientes com sobrepeso e obesos. |
| Cavalcante e Benevides, 2023 | Revisão integrativa | Revisar a relação entre a saúde intestinal e a ocorrência de enxaquecas, e como a administração de probióticos pode atenuar as crises de dor. | Conclui-se que o eixo intestino-cérebro é de fundamental importância para amenizar a ocorrência de dores migrâneas relacionadas a enxaqueca, e que a suplementação de probióticos é uma alternativa eficaz para modular a microbiota intestinal em casos de disbiose intestinal em pacientes com enxaqueca. Ainda são necessários mais estudos para definir cepas e quantidades específicas em seu tratamento. |
| Di Lauro et al., 2023 | Revisão integrativa | Explorar a correlação bidirecional entre enxaqueca e as principais doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes mellitus, hipertensão arterial, obesidade, câncer e doenças renais crônicas, cuja ligação é representada pela disbiose intestinal. | O desenvolvimento da enxaqueca parece estar parcialmente relacionado à disbiose intestinal. De fato, pode levar à redução da produção de AGCC e ao aumento concomitante de citocinas inflamatórias derivadas do intestino, o que pode influenciar as atividades do SNC e, por sua vez, causar enxaqueca. Além disso, parece haver uma correlação bidirecional entre a enxaqueca e o risco de aparecimento e progressão de DCNT, onde a microbiota intestinal desempenha um papel fundamental. |
| Júnior et al., 2024 | Revisão bibliográfica | Explorar a interligação entre o microbioma intestinal e a saúde cerebral, identificando como a composição e função da microbiota impactam diretamente processos neurobiológicos. | Em síntese, aprofundamos a compreensão das intricadas conexões entre o microbioma intestinal e a saúde cerebral. Os resultados destacam a relevância dessas interações na modulação de condições neuropsiquiátricas, abrindo portas para intervenções terapêuticas inovadoras. Sem desconsiderar a complexidade do tema, as estratégias terapêuticas exploradas, desde suplementação até modulação dietética, prometem contribuir significativamente para a promoção da saúde mental. |
| Silva et al., 2025 | Revisão integrativa | Avaliar o impacto da microbiota intestinal no desenvolvimento da ansiedade e depressão em mulheres. | Comprovadamente há uma correlação entre microbiota intestinal e ansiedade e depressão em mulheres. Como resultado, o uso de prebióticos e probióticos vêm sendo administrados em conjunto com a psicoterapia, como terapias complementares para estes transtornos de humor. |
Tabela 1: Explicita os estudos encontrados que remetem a relação entre microbioma intestinal e enxaqueca.
