MENOPAUSA E VULNERABILIDADE PSÍQUICA: EVIDÊNCIAS ATUAIS SOBRE SAÚDE MENTAL FEMININA

MENOPAUSE AND PSYCHOLOGICAL VULNERABILITY: CURRENT EVIDENCE ON MENTAL HEALTH WOMEN

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ch10202602261222


Lara Fiorino1
Pedro Paulo Coutinho Toribio2


Resumo

A menopausa constitui uma transição fisiológica natural na vida da mulher, marcada pela cessação permanente da menstruação e por importantes alterações hormonais, especialmente a redução e instabilidade dos níveis de estrogênio. Embora seja um evento esperado do ciclo vital feminino, evidências científicas indicam que esse período pode representar uma fase de maior vulnerabilidade emocional para um subgrupo significativo de mulheres. O presente estudo teve como objetivo sintetizar criticamente as evidências disponíveis acerca da relação entre menopausa e saúde mental feminina, com foco nos principais desfechos psiquiátricos e nos fatores associados ao sofrimento psicológico. Trata-se de uma revisão narrativa da literatura, de natureza descritiva e analítica, realizada nas bases PubMed/MEDLINE, Scopus, Web of Science, PsycINFO e SciELO, incluindo estudos publicados entre 2015 e 2025. Foram selecionados 28 artigos que abordaram sintomas depressivos, ansiosos, instabilidade do humor e queixas cognitivas durante a transição menopausal. Os resultados indicam aumento da prevalência de sintomas depressivos e ansiosos, especialmente no período perimenopausal, sugerindo que as flutuações hormonais exercem papel mais relevante do que o estado hipoestrogênico isolado. Observou-se ainda associação consistente entre sofrimento psíquico, sintomas vasomotores, distúrbios do sono e fatores psicossociais, como baixo suporte social e estigmatização do envelhecimento feminino. A literatura aponta que a menopausa não afeta uniformemente todas as mulheres, mas atua como um período de maior sensibilidade emocional em indivíduos com fatores de risco biológicos e psicossociais. Conclui-se que a menopausa deve ser compreendida como um fenômeno biopsicossocial, demandando abordagens clínicas integradas que contemplem a avaliação sistemática da saúde mental, a fim de promover intervenções precoces e melhorar a qualidade de vida das mulheres nesse estágio do ciclo vital.

Palavras-chave: Menopausa; Saúde mental; Depressão; Ansiedade; Vulnerabilidade emocional.

1. INTRODUÇÃO

A menopausa representa uma transição fisiológica natural na vida da mulher, definida pela cessação permanente da menstruação e pela redução progressiva dos níveis de estrogênio e progesterona, geralmente ocorrendo entre os 45 e os 55 anos de idade (Santoro; Epperson; Mathews, 2015; Freeman, 2019). Embora compreendida como um evento biológico esperado, essa fase pode ser acompanhada por sintomas físicos e emocionais significativos que afetam a qualidade de vida e o bem-estar psicológico de muitas mulheres, sobretudo quando os sintomas vasomotores e somáticos são intensos.

A literatura médica tem documentado que as flutuações hormonais características do climatério e da menopausa exercem impacto direto sobre neurotransmissores envolvidos na regulação do humor e das emoções, como serotonina, dopamina e GABA, o que pode predispor a quadros de sofrimento emocional, ansiedade e sintomas depressivos (Soares; Frey, 2010; Gordon et al., 2016). Estudos clínicos indicam que distúrbios do sono, alterações no apetite e oscilações de humor são comuns durante essa transição, sugerindo uma associação neurobiológica substancial entre níveis hormonais e saúde mental (Soares, 2014).

A prevalência de sintomas psiquiátricos durante a menopausa tem sido amplamente investigada em estudos epidemiológicos. Meta-análises recentes indicam que aproximadamente 25% a 30% das mulheres pós-menopáusicas relatam sintomas depressivos clinicamente significativos, o que reforça a relevância da atenção psiquiátrica nesse grupo populacional (Georgakis et al., 2016). Esses achados são complementados por evidências de que mulheres com histórico prévio de transtornos mentais ou com sintomas vasomotores severos apresentam maior risco de exacerbação emocional durante a transição menopausal (Freeman et al., 2014; Avis et al., 2015).

Além disso, sintomas psicológicos específicos — como ansiedade, irritabilidade, sensação de vazio e dificuldades cognitivas — têm sido frequentemente descritos em estudos longitudinais e transversais, sugerindo que a menopausa pode desencadear ou agravar sintomatologia psiquiátrica em mulheres vulneráveis (Bromberger et al., 2011). As oscilações de humor e a instabilidade emocional podem interferir diretamente na funcionalidade social, profissional e familiar, contribuindo para redução da autoestima e aumento de conflitos interpessoais (Bromberger; Epperson, 2018).

Aspectos psicossociais também exercem influência significativa sobre a experiência emocional da menopausa. Fatores como suporte social, contexto cultural, nível educacional e estigmatização do envelhecimento feminino modulam a forma como os sintomas psicológicos são percebidos e expressos, sendo frequentes relatos de isolamento emocional e estigma social durante essa fase da vida (Hunter; Rendall, 2007; Daley et al., 2015). Esses elementos ressaltam a importância de considerar não apenas mecanismos neuroendócrinos, mas também determinantes sociais da saúde mental na menopausa.

Embora algumas pesquisas sugiram que a menopausa não aumenta, de forma uniforme, o risco de transtornos psiquiátricos graves em todas as mulheres — indicando que parte dos sintomas emocionais pode refletir processos adaptativos ao invés de psicopatologia propriamente dita — há consenso de que um subgrupo expressivo vivencia sofrimento emocional clinicamente relevante durante essa transição (Epperson; Steiner; Hartlage, 2012). Essa heterogeneidade de respostas psicológicas evidencia a necessidade de abordagens clínicas individualizadas.

Diante desse cenário complexo, torna-se metodologicamente pertinente a realização de uma revisão narrativa da literatura com o objetivo de integrar criticamente diferentes perspectivas sobre a relação entre menopausa e saúde mental, incluindo fatores biológicos, psicológicos e psicossociais. A revisão narrativa mostra-se particularmente adequada para a síntese de literatura heterogênea, permitindo a articulação de achados oriundos de estudos observacionais, meta-análises e pesquisas clínicas. Assim, o problema de pesquisa que orienta este estudo pode ser sintetizado da seguinte forma: quais são os principais mecanismos e fatores associados à influência da menopausa sobre a saúde mental das mulheres, e como esses elementos têm sido abordados na literatura psiquiátrica e multidisciplinar contemporânea? Parte-se da hipótese de que a menopausa está associada a maior vulnerabilidade a sintomas depressivos, ansiosos e outras alterações emocionais em um subgrupo de mulheres, mediada por flutuações hormonais, intensidade dos sintomas vasomotores, distúrbios do sono, fatores psicossociais desfavoráveis e histórico prévio de transtornos mentais.

2. METODOLOGIA 

O presente estudo consiste em uma revisão narrativa da literatura, de natureza descritiva e analítica, cujo objetivo foi sintetizar criticamente as evidências científicas acerca da relação entre menopausa e saúde mental, com enfoque nos aspectos psiquiátricos. A opção pela revisão narrativa justifica-se pela complexidade do fenômeno investigado, que envolve interações entre fatores neuroendócrinos, psicológicos e psicossociais, bem como pela heterogeneidade dos delineamentos metodológicos encontrados na literatura, permitindo uma abordagem integrativa e interpretativa dos achados.

A busca bibliográfica foi realizada nas bases de dados PubMed/MEDLINE, Scopus, Web of Science, PsycINFO e SciELO, selecionadas por sua relevância na indexação de periódicos médicos e psiquiátricos. Foram utilizados descritores controlados e termos livres, combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR, incluindo os seguintes termos em inglês e português: “menopause”, “climacteric”, “mental health”, “psychiatric disorders”, “depression”, “anxiety”, “mood disorders”, “psychological symptoms”, “menopausa”, “saúde mental” e “transtornos psiquiátricos”, com adaptações conforme as especificidades de cada base.

Foram incluídos artigos publicados entre 2015 e 2025, nos idiomas inglês, português ou espanhol, disponíveis na íntegra, que abordassem de forma explícita a relação entre menopausa ou transição menopausal e desfechos emocionais, psicológicos ou psiquiátricos. Foram considerados elegíveis estudos observacionais, ensaios clínicos, revisões sistemáticas, meta-análises e revisões narrativas.

Foram excluídos artigos que tratassem exclusivamente de aspectos ginecológicos ou endocrinológicos sem abordagem da saúde mental, bem como relatos de caso isolados, editoriais, cartas ao editor, duplicatas e estudos que não apresentassem dados empíricos relevantes para os objetivos da revisão. A seleção dos estudos ocorreu em etapas sucessivas, iniciando-se pela leitura dos títulos e resumos, seguida da leitura na íntegra dos artigos potencialmente elegíveis, sendo incluídos apenas aqueles que apresentaram contribuição pertinente ao tema após avaliação crítica do conteúdo. Ao final desse processo, foram selecionados 28 artigos para compor a revisão narrativa.

A extração dos dados foi realizada de forma manual e padronizada, contemplando informações relativas aos autores, ano de publicação, país de origem, delineamento do estudo, características da população avaliada e principais desfechos psiquiátricos investigados. A análise dos dados seguiu uma abordagem qualitativa e interpretativa, com leitura crítica dos estudos incluídos, identificação de padrões recorrentes, divergências nos resultados e fatores associados à vulnerabilidade emocional durante a menopausa.

Os achados foram organizados de maneira descritiva, permitindo a integração dos resultados e a discussão dos principais eixos temáticos relacionados aos sintomas depressivos e ansiosos, à influência das flutuações hormonais, aos determinantes psicossociais e às implicações clínicas para a prática psiquiátrica.

3. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS

A análise dos 28 artigos selecionados revelou evidências consistentes de associação entre a transição menopausal e alterações na saúde mental das mulheres, embora com variações quanto à magnitude e aos mecanismos envolvidos. De forma geral, os estudos apontaram aumento da prevalência de sintomas depressivos, ansiosos e de instabilidade do humor durante o climatério e a menopausa, especialmente no período perimenopausal, caracterizado por maior instabilidade hormonal (Bromberger et al., 2011; Freeman et al., 2014). A maioria dos estudos observacionais identificou que mulheres nesse estágio apresentam maior risco de desenvolver sintomas emocionais clinicamente relevantes quando comparadas a mulheres em idade reprodutiva ou em pós-menopausa tardia, sugerindo que as flutuações hormonais exercem papel mais significativo do que o estado hipoestrogênico isolado (Georgakis et al., 2016; Santoro; Epperson; Mathews, 2015).

Os sintomas depressivos foram os desfechos psiquiátricos mais frequentemente investigados. Diversas pesquisas relataram prevalência aumentada de sintomas depressivos leves a moderados durante a menopausa, com alguns estudos indicando associação entre a transição menopausal e episódios depressivos maiores, sobretudo em mulheres com histórico prévio de transtornos do humor (Bromberger et al., 2011; Freeman et al., 2014). Observou-se que fatores como intensidade dos sintomas vasomotores, distúrbios do sono e percepção negativa da menopausa estiveram consistentemente associados a maiores escores em escalas de depressão, sugerindo interação entre fatores biológicos e psicossociais (Avis et al., 2015; Soares, 2014).

Em relação aos sintomas ansiosos, os estudos analisados demonstraram aumento da frequência de ansiedade generalizada, tensão, irritabilidade e labilidade emocional durante a transição menopausal (Bromberger; Epperson, 2018). A ansiedade mostrou-se particularmente associada a queixas somáticas, como ondas de calor, palpitações e sudorese noturna, o que pode contribuir para maior procura por serviços de saúde e dificuldades no diagnóstico diferencial entre sintomas físicos e psiquiátricos (Hunter; Rendall, 2007). Estudos longitudinais indicaram ainda que a ansiedade pode preceder o surgimento de sintomas depressivos, funcionando como fator de risco para o desenvolvimento posterior de depressão nesse período (Freeman et al., 2014).

Alterações cognitivas subjetivas, como dificuldades de concentração, lapsos de memória e sensação de lentificação mental, foram frequentemente relatadas. Embora nem sempre configurassem déficits cognitivos objetivos, essas queixas associaram-se a sintomas depressivos, ansiedade e distúrbios do sono, indicando que o sofrimento psíquico pode amplificar a percepção de prejuízo cognitivo (Greendale et al., 2010; Weber et al., 2014). Os estudos ressaltaram que tais alterações tendem a ser transitórias, mas podem impactar negativamente a autoestima e o desempenho ocupacional.

Os artigos também destacaram a influência de fatores psicossociais na experiência emocional da menopausa. Baixo suporte social, eventos estressores, dificuldades conjugais, sobrecarga laboral e estigmatização do envelhecimento feminino foram associados a maior sofrimento psicológico (Hunter; Rendall, 2007; Daley et al., 2015). Mulheres com atitudes mais negativas em relação à menopausa apresentaram maior prevalência de sintomas depressivos e ansiosos, enquanto aquelas com maior acesso à informação e suporte emocional demonstraram melhor adaptação psicológica.

Quanto aos mecanismos biológicos, os estudos apontaram que a redução e a instabilidade dos níveis de estrogênio influenciam sistemas neurotransmissores envolvidos na regulação do humor, especialmente os sistemas serotoninérgico e noradrenérgico (Soares; Frey, 2010; Gordon et al., 2016). Alguns trabalhos sugeriram que a interação entre alterações hormonais e vulnerabilidade individual, como predisposição genética ou histórico psiquiátrico, desempenha papel central no surgimento dos sintomas emocionais (Epperson; Steiner; Hartlage, 2012). A terapia hormonal foi abordada em parte dos estudos, com resultados heterogêneos quanto ao impacto sobre a saúde mental, indicando possíveis benefícios em subgrupos específicos, mas sem consenso definitivo (Gordon et al., 2018).

De modo geral, os resultados evidenciaram que a menopausa não afeta a saúde mental de forma uniforme em todas as mulheres, mas representa um período de maior vulnerabilidade emocional para um subgrupo significativo, especialmente aquelas com fatores de risco biológicos e psicossociais. A literatura reforça, portanto, a importância de uma abordagem clínica integrada, que considere simultaneamente aspectos hormonais, psicológicos e sociais no manejo da saúde mental durante a menopausa.

4. DISCUSSÃO

Os achados desta revisão narrativa evidenciam que a menopausa constitui um período de maior vulnerabilidade emocional para um subgrupo significativo de mulheres, corroborando a hipótese inicialmente proposta de que as alterações hormonais associadas a essa transição, em interação com fatores psicossociais e histórico psiquiátrico prévio, exercem impacto relevante sobre a saúde mental (Bromberger et al., 2011; Freeman et al., 2014). A literatura analisada aponta que, embora a menopausa não deva ser compreendida como um fator causal isolado de transtornos psiquiátricos, ela pode atuar como elemento desencadeador ou agravante de sintomas emocionais em mulheres suscetíveis, especialmente durante a perimenopausa, fase marcada por maior instabilidade hormonal (Santoro; Epperson; Mathews, 2015; Epperson; Steiner; Hartlage, 2012).

A elevada prevalência de sintomas depressivos identificada nos estudos incluídos reforça a relevância clínica dessa associação, em consonância com pesquisas epidemiológicas que demonstram aumento de sintomas depressivos leves a moderados nesse período da vida (Georgakis et al., 2016; Freeman et al., 2014). A relação entre sintomas vasomotores, distúrbios do sono e depressão emerge de forma consistente na literatura, sugerindo que o sofrimento físico pode contribuir para o desgaste emocional e para a redução da resiliência psicológica (Avis et al., 2015; Soares, 2014). Esses achados sustentam a compreensão da depressão na menopausa como um fenômeno multifatorial, no qual alterações neuroendócrinas se associam a fatores ambientais e subjetivos (Bromberger; Epperson, 2018).

No que se refere à ansiedade, os resultados indicam que sintomas ansiosos são igualmente frequentes durante a transição menopausal e podem preceder ou coexistir com quadros depressivos (Freeman et al., 2014). A sobreposição entre sintomas somáticos da menopausa e manifestações de ansiedade dificulta o diagnóstico diferencial, o que pode levar à subvalorização do sofrimento psíquico ou à medicalização inadequada de queixas predominantemente emocionais (Hunter; Rendall, 2007). Essa constatação reforça a necessidade de uma abordagem psiquiátrica cuidadosa e integrada, capaz de diferenciar sintomas primariamente hormonais daqueles associados a transtornos mentais.

As queixas cognitivas subjetivas descritas nos estudos analisados merecem atenção especial, uma vez que, embora nem sempre se confirmem em avaliações neuropsicológicas objetivas, impactam significativamente a qualidade de vida e a autopercepção das mulheres (Greendale et al., 2010; Weber et al., 2014). A associação dessas queixas com sintomas depressivos, ansiedade e distúrbios do sono sugere que o sofrimento emocional desempenha papel central na percepção de prejuízo cognitivo durante a menopausa (Bromberger et al., 2011). Assim, intervenções voltadas à saúde mental podem contribuir indiretamente para a melhora dessas queixas, reduzindo o impacto funcional percebido.

Os fatores psicossociais mostraram-se determinantes importantes na experiência emocional da menopausa. A literatura aponta que suporte social inadequado, estigmatização do envelhecimento feminino, conflitos conjugais e sobrecarga de papéis sociais podem intensificar o sofrimento psíquico nesse período (Hunter; Rendall, 2007; Daley et al., 2015). Por outro lado, atitudes positivas em relação à menopausa, acesso à informação qualificada e suporte emocional adequado associam-se a melhor adaptação psicológica (Avis et al., 2015). Esses achados reforçam a importância de considerar o contexto sociocultural na avaliação psiquiátrica de mulheres menopáusicas, evitando interpretações reducionistas baseadas exclusivamente em fatores biológicos.

Do ponto de vista neurobiológico, os estudos revisados sustentam a hipótese de que a flutuação e a redução dos níveis de estrogênio influenciam sistemas neurotransmissores envolvidos na regulação do humor, especialmente os sistemas serotoninérgico e noradrenérgico (Soares; Frey, 2010; Gordon et al., 2016). No entanto, a heterogeneidade dos resultados relativos ao impacto da terapia hormonal sobre a saúde mental indica que seus efeitos variam conforme características individuais, como histórico psiquiátrico, tempo de menopausa e presença de sintomas vasomotores (Gordon et al., 2018). Dessa forma, a terapia hormonal não deve ser considerada uma intervenção psiquiátrica universal, mas avaliada de maneira individualizada e integrada ao cuidado em saúde mental.

A discussão dos achados também evidencia lacunas na literatura, particularmente no que diz respeito à escassez de estudos longitudinais de longo prazo e à avaliação de intervenções psicoterapêuticas específicas para mulheres na menopausa (Epperson; Steiner; Hartlage, 2012). A maioria das pesquisas concentra-se em sintomas depressivos e ansiosos, havendo menor exploração de outros desfechos psiquiátricos, como transtornos do sono primários, transtornos somatoformes e o impacto da menopausa em mulheres com transtornos mentais graves, indicando a necessidade de investigações futuras.

Por fim, os resultados desta revisão reforçam a importância de uma abordagem interdisciplinar no cuidado à mulher menopáusica, integrando ginecologia, psiquiatria e psicologia (Santoro; Epperson; Mathews, 2015). O reconhecimento da menopausa como um período potencialmente sensível para a saúde mental possibilita intervenções precoces, redução do sofrimento psíquico e promoção de melhor qualidade de vida. A incorporação sistemática da avaliação da saúde mental na assistência à mulher no climatério pode contribuir para um cuidado mais humanizado, abrangente e baseado em evidências.

5. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

A presente revisão narrativa evidencia que a menopausa constitui um período de significativa vulnerabilidade emocional para um subgrupo expressivo de mulheres, especialmente durante a transição perimenopausal. As evidências analisadas demonstram que alterações hormonais, em particular as flutuações e a redução dos níveis de estrogênio, interagem com fatores psicossociais e históricos individuais, contribuindo para o surgimento ou agravamento de sintomas depressivos, ansiosos e de instabilidade emocional. Esses achados reforçam a compreensão da menopausa como um fenômeno biopsicossocial, cuja repercussão sobre a saúde mental não pode ser explicada exclusivamente por mecanismos biológicos.

Os resultados indicam que sintomas vasomotores, distúrbios do sono e queixas cognitivas subjetivas exercem papel relevante na intensificação do sofrimento psíquico, frequentemente mediando a relação entre menopausa e transtornos mentais. Ademais, fatores como prévios de transtornos psiquiátricos, baixo suporte social, estigmatização do envelhecimento feminino e eventos estressores concomitantes emergem como importantes moduladores da experiência emocional nesse período da vida. Dessa forma, a heterogeneidade das manifestações clínicas observadas na literatura ressalta a necessidade de uma abordagem individualizada e contextualizada no cuidado à mulher menopáusica.

Do ponto de vista clínico, os achados desta revisão reforçam a importância da integração entre ginecologia e psiquiatria, com incorporação sistemática da avaliação da saúde mental na assistência à mulher no climatério. A identificação precoce de sintomas emocionais e fatores de risco pode favorecer intervenções oportunas, incluindo estratégias psicoterapêuticas, farmacológicas e psicoeducacionais, contribuindo para a redução do sofrimento psíquico e para a melhora da qualidade de vida.

Por fim, destaca-se a necessidade de futuras pesquisas longitudinais e intervencionistas que aprofundem a compreensão dos mecanismos envolvidos e avaliem abordagens terapêuticas específicas para a promoção da saúde mental durante a menopausa.

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 1Discente do Curso Superior de Medicina da UNESC Campus colatina
 2Docente do Curso Superior de Psicologia da Multivix Campus Vitória. Mestre em Psicologia Social (PPGPS/UERJ)