MELHORAMENTO GENÉTICO DA SOJA E TOLERÂNCIA AO ESTRESSE HÍDRICO: ESTRATÉGIAS PARA UMA AGRICULTURA SUSTENTÁVEL

SOYBEAN GENETIC IMPROVEMENT AND DROUGHT STRESS TOLERANCE: STRATEGIES FOR SUSTAINABLE AGRICULTURE

MEJORAMIENTO GENÉTICO DE LA SOJA Y TOLERANCIA AL ESTRÉS HÍDRICO: ESTRATEGIAS PARA UNA AGRICULTURA SOSTENIBLE

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cs10202511161450


Gabriel Henrique Ferreira Cardoso1
Professor-Orientador: Mauricio Pacheco da Silva Júnior2


RESUMO: O presente Trabalho de Conclusão de Curso aborda o desenvolvimento de cultivares de soja tolerantes à seca por meio do melhoramento genético, considerando a crescente demanda por sistemas agrícolas mais sustentáveis e adaptados às mudanças climáticas. O objetivo central é compreender de que forma as técnicas modernas de melhoramento têm contribuído para a obtenção de plantas mais resistentes ao estresse hídrico e produtivamente eficientes. A metodologia utilizada baseou-se em uma pesquisa bibliográfica de natureza qualitativa e caráter descritivo, fundamentada em artigos científicos, relatórios técnicos e publicações institucionais nacionais e internacionais. A análise das informações coletadas permitiu compreender a evolução histórica das estratégias genéticas, a importância das ferramentas biotecnológicas e as dimensões socioambientais envolvidas na produção de cultivares adaptadas. Os resultados indicam que o uso de tecnologias inovadoras têm reduzido o impacto da seca sobre a produtividade da soja, ampliando a estabilidade agrícola e contribuindo para a conservação dos recursos hídricos e do solo. Conclui-se que o melhoramento genético voltado à tolerância à seca constitui uma das mais promissoras alternativas para o fortalecimento da agricultura sustentável, promovendo equilíbrio entre eficiência produtiva, preservação ambiental e desenvolvimento econômico.

Palavras-chave: Soja. Melhoramento genético. Estresse hídrico. Sustentabilidade. 

ABSTRACT: This undergraduate thesis addresses the development of drought-tolerant soybean cultivars through genetic improvement, considering the growing demand for more sustainable agricultural systems adapted to climate change. The main objective is to understand how modern breeding techniques have contributed to obtaining plants that are more resistant to water stress and more productive. The methodology consisted of qualitative and descriptive bibliographic research based on scientific articles, technical reports, and institutional publications from national and international sources. The analysis of the collected information made it possible to understand the historical evolution of genetic strategies, the importance of biotechnological tools, and the socio-environmental dimensions involved in producing adapted cultivars. The results indicate that the use of innovative technologies has reduced the negative impact of drought on soybean yield, increased agricultural stability, and contributed to the conservation of water and soil resources. It is concluded that genetic improvement aimed at drought tolerance represents one of the most promising alternatives for strengthening sustainable agriculture, promoting balance between productive efficiency, environmental preservation, and economic development.

Keywords: Soybean. Genetic improvement. Drought stress. Sustainability. 

RESUMEN: El presente trabajo aborda el desarrollo de cultivares de soja tolerantes a la sequía mediante el mejoramiento genético, considerando la creciente necesidad de sistemas agrícolas sostenibles y adaptados a los cambios climáticos. El objetivo principal es analizar cómo las técnicas modernas de mejoramiento han contribuido a obtener plantas más resistentes al estrés hídrico y con mayor eficiencia productiva. La metodología se basó en una investigación bibliográfica de carácter cualitativo y descriptivo, sustentada en artículos científicos, informes técnicos y publicaciones institucionales nacionales e internacionales. El análisis de la información recopilada permitió comprender la evolución histórica de las estrategias genéticas, la relevancia de las herramientas biotecnológicas y las dimensiones sociales y ambientales involucradas en la producción de cultivares adaptados. Los resultados muestran que el uso de tecnologías innovadoras ha reducido los impactos de la sequía sobre la productividad de la soja, incrementando la estabilidad agrícola y promoviendo la conservación del agua y del suelo. Se concluye que el mejoramiento genético orientado a la tolerancia a la sequía constituye una alternativa esencial para fortalecer la agricultura sostenible, equilibrando eficiencia productiva, preservación ambiental y desarrollo económico.

Palabras clave:  Soja. Mejoramiento genético. Estrés hídrico. Sostenibilidad.

1. INTRODUÇÃO

A soja (Glycine max L. Merrill) é uma das culturas mais relevantes do agronegócio mundial, ocupando posição estratégica tanto na produção de óleo vegetal e farelo proteico quanto como base alimentar e energética. No Brasil, o grão consolidou-se como a principal commodity agrícola, respondendo por mais de 40% das exportações do setor e sustentando boa parte do PIB agropecuário (Embrapa, 2024). A expansão da soja para novas fronteiras agrícolas, como o Cerrado e o Matopiba, tornou o país líder global na produção e exportação, superando os Estados Unidos em volume exportado a partir de 2020 (FAO, 2023). No entanto, essa trajetória de sucesso vem sendo ameaçada pela intensificação das mudanças climáticas e pela irregularidade hídrica, fatores que afetam diretamente a produtividade e a sustentabilidade da cultura.

O estresse hídrico, causado pela escassez ou irregularidade das chuvas, constitui um dos principais entraves à manutenção da produtividade da soja. Estudos recentes estimam que a deficiência de água pode reduzir em até 50% o rendimento potencial da cultura, especialmente em fases críticas como floração e enchimento de grãos (Xu et al., 2023). No contexto brasileiro, regiões produtoras do Centro-Oeste e do Semiárido apresentam risco crescente de estiagens prolongadas, o que reforça a urgência no desenvolvimento de cultivares adaptadas às novas condições climáticas. Esse cenário torna a pesquisa científica voltada ao melhoramento genético uma ferramenta estratégica para mitigar os impactos da seca e garantir a estabilidade da produção nacional.

O melhoramento genético vegetal, tradicionalmente baseado em cruzamentos e seleção fenotípica, evoluiu consideravelmente nas últimas décadas com a incorporação de técnicas de biologia molecular, genômica e bioinformática (Wang; Li, 2022). No caso da soja, essas tecnologias têm permitido identificar genes relacionados à tolerância ao déficit hídrico, como GmDREB1, GmWRKY54 e GmNF-YB, que regulam a expressão de proteínas envolvidas na proteção celular e na economia de água durante períodos de estresse (Mutava et al., 2023). A edição gênica por meio do sistema CRISPR/Cas9, por exemplo, tem possibilitado modificar loci específicos do genoma da planta, conferindo maior precisão e rapidez ao processo de obtenção de novas variedades (Zhang et al., 2022).

Além dos avanços laboratoriais, a integração de ferramentas de fenotipagem de alta precisão, sensoriamento remoto e análise de dados tem ampliado as possibilidades do melhoramento genético. Essas abordagens permitem correlacionar parâmetros fisiológicos — como profundidade radicular, condutância estomática e eficiência no uso da água — com a expressão gênica em diferentes condições ambientais (Embrapa, 2024). Dessa forma, o melhoramento genético moderno não apenas busca a adaptação das plantas à seca, mas também contribui para o uso mais racional dos recursos hídricos e para a sustentabilidade ambiental da agricultura.

A importância dessa linha de pesquisa transcende o campo agronômico, alcançando dimensões econômicas e sociais significativas. Cultivares de soja mais tolerantes à seca reduzem a necessidade de irrigação intensiva, diminuem os custos de produção e garantem maior previsibilidade de safra, o que beneficia tanto grandes quanto pequenos produtores (FAO, 2023). Ao mesmo tempo, contribuem para a preservação de recursos naturais e para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), especialmente os ODS 2 (Fome Zero e Agricultura Sustentável) e 13 (Ação Contra a Mudança Global do Clima).

Nesse contexto, o presente trabalho tem como propósito analisar as estratégias de melhoramento genético aplicadas ao desenvolvimento de cultivares de soja tolerantes à seca, destacando desde os métodos convencionais até os avanços mais recentes da biotecnologia. A investigação adota uma abordagem bibliográfica e descritiva, fundamentada em artigos científicos, relatórios técnicos e documentos institucionais, buscando compreender como o progresso científico pode responder às demandas impostas pelas mudanças climáticas. Pretende-se, assim, discutir de que maneira a integração entre genética, fisiologia e sustentabilidade pode consolidar novas fronteiras tecnológicas para a agricultura brasileira.

A relevância deste estudo reside na possibilidade de gerar subsídios técnicos e teóricos que orientem futuros programas de melhoramento, políticas públicas e práticas agrícolas voltadas à mitigação dos efeitos da seca. A pesquisa contribui, ainda, para o fortalecimento da ciência agronômica nacional e para a valorização de soluções sustentáveis que garantam segurança alimentar, produtividade e conservação ambiental. Diante desse panorama, o trabalho estrutura-se em capítulos que abordam, sequencialmente, os fundamentos do melhoramento genético, suas aplicações no enfrentamento do estresse hídrico e os impactos sustentáveis e socioeconômicos associados à produção de soja adaptada às novas condições climáticas.

2. MELHORAMENTO GENÉTICO E A BUSCA POR TOLERÂNCIA AO ESTRESSE HÍDRICO

O melhoramento genético da soja tem desempenhado papel fundamental na modernização da agricultura e na superação dos desafios impostos pelas mudanças climáticas. Dentre esses desafios, o estresse hídrico destaca-se como o principal fator limitante à produtividade e à estabilidade das lavouras. A ciência genética, ao longo das últimas décadas, evoluiu de métodos empíricos baseados em observação fenotípica para estratégias de alta precisão, que integram biotecnologia, bioinformática e genômica. Essa transição tem permitido a criação de cultivares com maior tolerância à seca, eficiência no uso da água e estabilidade produtiva em ambientes de déficit hídrico (Embrapa, 2024).

2.1 EVOLUÇÃO DO MELHORAMENTO GENÉTICO DA SOJA

O processo de melhoramento genético da soja teve início com a aplicação de métodos convencionais, como a seleção massal, cruzamentos e retrocruzamentos, baseados na observação fenotípica e na seleção empírica de plantas superiores (Hartman et al., 2020). Esses métodos foram essenciais na domesticação e adaptação da soja às diversas regiões produtoras do mundo, permitindo o desenvolvimento de cultivares com melhor produtividade e resistência a doenças. No Brasil, o avanço desses programas foi impulsionado pela atuação da Embrapa a partir da década de 1970, o que possibilitou a expansão da cultura para o Cerrado — região antes considerada inapropriada para o cultivo (Embrapa, 2024).

Nas décadas seguintes, o melhoramento convencional passou a enfrentar limitações relacionadas à herança complexa de características quantitativas, como a tolerância ao estresse hídrico, de natureza poligênica e fortemente influenciada por fatores ambientais (Farias et al., 2022). Essa limitação levou à adoção de ferramentas de biotecnologia molecular, capazes de acelerar o processo seletivo e aumentar a precisão na identificação de genótipos promissores. Segundo Singh et al. (2021), o uso de marcadores moleculares e de mapas genômicos permitiu compreender melhor os mecanismos de herança e facilitou a identificação de Quantitative Trait Loci (QTLs) associados à tolerância à seca.

A partir dos anos 2000, a integração de Seleção Assistida por Marcadores (SAM) com a análise genômica e transcriptômica consolidou uma nova era no melhoramento vegetal. Essa metodologia possibilita selecionar plantas ainda nas fases iniciais de crescimento, antecipando gerações e reduzindo significativamente o tempo de obtenção de novas cultivares (Xu et al., 2023). Além disso, a criação de bancos de germoplasma e o sequenciamento completo do genoma da soja, concluído em 2010, ampliaram a base genética disponível para os programas de cruzamento e facilitaram a exploração de genes de espécies silvestres de Glycine soja (Zhu et al., 2021).

Mais recentemente, o desenvolvimento da edição gênica por meio do sistema CRISPR/Cas9 revolucionou os programas de melhoramento, permitindo alterações precisas e direcionadas em genes específicos. Essa tecnologia tem sido empregada para modificar genes relacionados à resposta ao estresse hídrico, como GmDREB1, GmWRKY54, GmNAC8 e GmNF-YC14, os quais regulam a expressão de proteínas de defesa celular e o controle osmótico (Zhang et al., 2022; Liu et al., 2023). Segundo Nandety e Pazdernik (2024), a edição gênica reduz custos, diminui o número de ciclos de cruzamento e evita a inserção de DNA exógeno, tornando o processo mais eficiente e socialmente aceitável que os transgênicos tradicionais.

Paralelamente, o avanço da Seleção Genômica (SG), associada à inteligência artificial e à fenotipagem de alta precisão, vem permitindo prever o desempenho das plantas com base em modelos estatísticos que correlacionam o genótipo com o fenótipo sob condições de seca (Wang et al., 2024). Essa integração entre genômica e tecnologia digital fortalece o conceito de agricultura 4.0, na qual dados de campo e análises moleculares convergem para decisões mais assertivas e sustentáveis (Liu; Hu; Li, 2021). Assim, o melhoramento genético da soja evoluiu de uma prática empírica para uma ciência de base molecular, altamente sofisticada, orientada pela sustentabilidade e pela adaptação climática.

2.2 O ESTRESSE HÍDRICO COMO DESAFIO CENTRAL NO DESENVOLVIMENTO DE CULTIVARES

O estresse hídrico é amplamente reconhecido como o principal obstáculo à estabilidade produtiva da soja, afetando todas as etapas do desenvolvimento da planta. A deficiência de água compromete a expansão celular, a abertura estomática, a fotossíntese e o transporte de nutrientes, reduzindo o rendimento e a qualidade dos grãos (Mutava et al., 2023). De acordo com Farias et al. (2022), a soja é particularmente sensível à seca durante o florescimento e o enchimento das vagens, fases críticas para a formação de sementes. A escassez hídrica prolongada nessas etapas pode ocasionar perdas superiores a 50% na produtividade.

Para enfrentar esses efeitos, as plantas desenvolveram mecanismos de adaptação morfológica, fisiológica e molecular. Entre eles destacam-se o crescimento radicular profundo, o fechamento estomático controlado e a produção de osmólitos como prolina e glicina-betaína, que protegem as células contra a desidratação (Bouton et al., 2022). A compreensão desses mecanismos tem orientado os programas de melhoramento na identificação de genes e vias metabólicas associados à tolerância ao estresse. Xu et al. (2023) explicam que o estudo de Quantitative Trait Loci (QTLs) e a expressão diferencial de genes reguladores têm sido fundamentais para definir alvos específicos de edição e seleção.

Os avanços em transcriptômica e proteômica também permitiram compreender como a soja responde em nível molecular à seca. Zhang et al. (2022) relatam que a indução de genes como GmMYB84, GmDREB2A e GmAREB1 está associada à ativação de proteínas de resposta ao estresse (LEA e HSPs), que preservam a integridade celular. Além disso, o uso de ferramentas de modelagem fisiológica e simulação de cenários climáticos têm auxiliado no desenvolvimento de cultivares resilientes às variações sazonais (Wang; Li, 2022).

Segundo a Embrapa (2024), o desenvolvimento de cultivares tolerantes à seca é resultado da integração entre genética, manejo e fisiologia vegetal. Programas de melhoramento que combinam análises genômicas e avaliação de campo têm apresentado sucesso na obtenção de genótipos que mantêm boa produtividade em regiões semiáridas, como o Cerrado e o Matopiba. Para Farias et al. (2022), essa abordagem representa um novo paradigma da agricultura tropical, baseada em ciência, inovação e sustentabilidade.

Isto posto, entre as estratégias de melhoramento voltadas à tolerância ao estresse hídrico, destacam-se a seleção assistida por marcadores moleculares (SAM) e o uso de tecnologias de edição gênica como CRISPR/Cas9, que permitem modificar loci específicos relacionados à eficiência do uso da água e à regulação de estômatos (Zhang et al., 2022). Além disso, a integração entre estudos genômicos, transcriptômicos e fenotípicos têm possibilitado identificar genes reguladores de resposta ao estresse, como GmDREB1, GmWRKY54 e GmNF-YB, amplamente estudados por Embrapa (2024) e Xu et al. (2023).

O avanço das técnicas de fenotipagem de alta precisão e de sensoriamento remoto tem auxiliado na identificação de genótipos adaptados, correlacionando parâmetros fisiológicos, como profundidade radicular e eficiência fotossintética, com a expressão gênica sob déficit hídrico (Mutava et al., 2023). Essa abordagem integrada representa um marco na agricultura de precisão e fortalece a aplicação prática dos resultados obtidos em laboratório no melhoramento de campo. Assim, o estresse hídrico, além de ser um desafio biológico, converte-se em um vetor de inovação científica e tecnológica no desenvolvimento de novas cultivares de soja adaptadas às mudanças climáticas globais.

Por fim, a mitigação dos efeitos do estresse hídrico sobre a soja exige um esforço conjunto entre pesquisadores, instituições públicas e o setor produtivo. Como defendem Nandety e Pazdernik (2024), o futuro do melhoramento genético dependerá da capacidade de combinar genética de precisão, bioinformática e gestão ambiental, transformando o conhecimento científico em soluções concretas para a segurança alimentar e climática. O estresse hídrico, portanto, não é apenas um desafio técnico, mas uma oportunidade para a consolidação de uma agricultura mais inteligente, resiliente e sustentável.

3. APLICABILIDADE DO MELHORAMENTO GENÉTICO NA TOLERÂNCIA AO ESTRESSE HÍDRICO

O melhoramento genético aplicado à tolerância ao estresse hídrico envolve uma abordagem multidimensional que combina técnicas de biotecnologia, genômica e fisiologia vegetal. A utilização de bancos de germoplasma permite a identificação de genes de interesse associados à resistência à seca, enquanto as ferramentas de biologia molecular e os marcadores genéticos aceleram a seleção de genótipos promissores. Além disso, a integração de análises fenotípicas e genômicas possibilita uma avaliação mais precisa do desempenho das plantas em condições de déficit hídrico. Estratégias como a piramidação de genes e a seleção genômica assistida aumentam a eficiência dos programas de melhoramento, tornando o processo mais rápido, sustentável e alinhado às demandas de adaptação climática da agricultura moderna.

Assim, no caso da soja representa uma das áreas mais promissoras da biotecnologia agrícola moderna. Diante da crescente escassez de recursos hídricos e da variabilidade climática global, o desenvolvimento de cultivares capazes de manter a produtividade em condições de seca tornou-se prioridade estratégica para os programas de pesquisa agronômica. Segundo a FAO (2023), as perdas agrícolas causadas pela falta de água já superam 30% do potencial produtivo em regiões tropicais e subtropicais, onde a soja é cultivada em larga escala. Assim, a biotecnologia e a genética molecular têm desempenhado papel central na criação de variedades mais eficientes no uso da água, reduzindo a dependência de irrigação e contribuindo para a sustentabilidade produtiva.

A aplicabilidade prática do melhoramento genético depende da integração entre recursos genéticos, ferramentas moleculares e conhecimento fisiológico das plantas. Bancos de germoplasma, como o mantido pela Embrapa Soja, têm sido fundamentais para a identificação de genes associados à resistência à seca, possibilitando a seleção de genótipos adaptados a diferentes condições edafoclimáticas (Embrapa, 2024). A análise desses bancos permite explorar a variabilidade natural de espécies silvestres de Glycine soja, que apresentam mecanismos fisiológicos mais eficientes de tolerância à desidratação, como maior profundidade radicular e controle osmótico mais estável (Zhang et al., 2022).

Entre as ferramentas empregadas, a Seleção Assistida por Marcadores moleculares (SAM) tornou-se uma das estratégias mais eficazes na triagem de genótipos promissores. Essa técnica possibilita identificar, em estágios precoces do desenvolvimento, alelos relacionados à eficiência no uso da água e à resistência ao estresse (Wang; Li, 2022). Paralelamente, o mapeamento de QTLs têm sido amplamente utilizado para correlacionar regiões específicas do genoma com características fenotípicas de interesse. Com isso, pesquisadores podem selecionar plantas com combinações genéticas mais adequadas ao cultivo em regiões secas, acelerando o ciclo de melhoramento.

Outro avanço relevante está na utilização da SG e da análise de associação genômica ampla (GWAS), que permitem prever o desempenho de uma planta com base em informações genéticas obtidas por sequenciamento de DNA. Essas técnicas, aliadas à inteligência artificial e à modelagem estatística, aumentam significativamente a precisão das previsões genéticas (Xu et al., 2023). Em projetos da Embrapa e de instituições internacionais como a International Soybean Genome Initiative, esses métodos têm possibilitado reduzir de 12 para cerca de 5 anos o tempo médio de lançamento de uma nova cultivar de soja resistente à seca (FAO, 2023).

Além das técnicas genéticas, o melhoramento fisiológico é outro eixo fundamental. Estudos indicam que a arquitetura radicular profunda, a regulação estomática e o acúmulo de solutos compatíveis — como prolina e glicina-betaína — são mecanismos que aumentam a capacidade de adaptação da planta (Mutava et al., 2023). O conhecimento desses processos fisiológicos permite selecionar genótipos que mantêm alta eficiência fotossintética e estabilidade produtiva mesmo sob déficit hídrico. A integração entre genética e fisiologia, portanto, reforça a aplicabilidade prática do melhoramento no campo, traduzindo descobertas moleculares em ganhos agronômicos tangíveis.

O uso de edição gênica com CRISPR/Cas9 ampliou ainda mais as possibilidades de melhoramento direcionado. Essa tecnologia permite introduzir modificações precisas em genes reguladores do estresse, como GmDREB2A e GmWRKY54, otimizando a resposta adaptativa da soja à seca sem comprometer outros aspectos do crescimento vegetal (Zhang et al., 2022). O diferencial dessa abordagem está em sua rapidez, precisão e custo relativamente baixo em comparação aos métodos tradicionais de transgenia. De acordo com Mutava et al. (2023), a edição gênica possibilita obter novas variedades com desempenho superior em ambientes áridos, sem dependência de transferência de genes entre espécies, reduzindo também barreiras regulatórias e sociais associadas aos transgênicos.

A aplicabilidade do melhoramento genético não se limita ao aspecto biotecnológico, mas abrange também dimensões econômicas e ambientais. Cultivares tolerantes à seca contribuem para a segurança alimentar e energética, uma vez que permitem maior estabilidade de produção em anos de estiagem (Embrapa, 2024). Além disso, reduzem o consumo hídrico por hectare, contribuindo para o uso racional da água — um recurso cada vez mais escasso. No Brasil, estima-se que a adoção de variedades mais eficientes possa reduzir em até 25% a necessidade de irrigação na soja cultivada em regiões semiáridas (FAO, 2023).

Em síntese, a aplicabilidade do melhoramento genético na tolerância ao estresse hídrico combina inovações científicas e práticas agronômicas, transformando conhecimento genético em sustentabilidade agrícola. A integração entre genômica, fisiologia e manejo de recursos naturais consolida o papel da pesquisa agrobiotecnológica como instrumento essencial para garantir a produtividade, a resiliência e a competitividade da soja brasileira em um cenário de mudanças climáticas crescentes.

4. BENEFÍCIOS SUSTENTÁVEIS DO DESENVOLVIMENTO DE CULTIVARES TOLERANTES AO ESTRESSE HÍDRICO

O melhoramento genético da soja voltado à tolerância à seca é uma das inovações mais relevantes para a sustentabilidade agrícola contemporânea. As variações climáticas, intensificadas pela ação antrópica, têm elevado a frequência e a severidade das estiagens, afetando diretamente a segurança alimentar e a rentabilidade das lavouras (FAO, 2023). Para Embrapa (2024), o desenvolvimento de cultivares adaptadas ao estresse hídrico é uma alternativa essencial para assegurar a continuidade da produção agrícola nacional e atender à crescente demanda global por alimentos. Assim, a biotecnologia aplicada ao melhoramento genético surge como um pilar de sustentabilidade, aliando produtividade, resiliência ambiental e responsabilidade social.

Sob o ponto de vista ambiental, cultivares geneticamente tolerantes à seca permitem uma expressiva redução da necessidade de irrigação, contribuindo para o uso racional da água e a preservação de mananciais subterrâneos (Zhang et al., 2022). Segundo Xu et al. (2023), plantas geneticamente aprimoradas para tolerância ao déficit hídrico apresentam maior eficiência fotossintética e melhor aproveitamento do solo, reduzindo a pressão sobre os ecossistemas naturais. A diminuição do consumo energético associado a sistemas de irrigação e o menor uso de insumos hídricos também favorecem a mitigação das emissões de gases de efeito estufa, colaborando para o cumprimento das metas de neutralidade de carbono estabelecidas pelo Acordo de Paris (Wang; Li, 2022). Dessa forma, o melhoramento genético contribui não apenas para a conservação de recursos naturais, mas também para a resiliência climática do setor agrícola.

Em termos econômicos, a adoção de cultivares tolerantes ao estresse hídrico representa um avanço estratégico para a estabilidade da produção e da renda do produtor rural. Estimativas da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB, 2024) indicam que a soja é responsável por aproximadamente 50% da receita cambial do agronegócio brasileiro, e as perdas provocadas por estiagens podem ultrapassar 12 bilhões de reais anuais. A introdução de variedades geneticamente resistentes reduz significativamente esses impactos e amplia a previsibilidade de safra, permitindo maior segurança financeira ao agricultor (Embrapa, 2024). Mutava et al. (2023) ressaltam que o uso de genótipos adaptados à seca pode elevar a produtividade em até 30% em regiões com restrição hídrica, mantendo a qualidade dos grãos e a competitividade no mercado internacional.

Na dimensão social, o desenvolvimento de cultivares adaptadas à seca tem efeitos diretos na redução das desigualdades regionais. Segundo a FAO (2023), pequenos produtores em áreas semiáridas são os mais vulneráveis à variabilidade climática, visto que dependem de sistemas de produção de sequeiro e possuem acesso limitado à irrigação. A introdução de sementes tolerantes ao déficit hídrico amplia as possibilidades de cultivo sustentável em regiões como o Matopiba e o Nordeste brasileiro, favorecendo a inclusão produtiva e a segurança alimentar (Xu et al., 2023). Além disso, a difusão dessas tecnologias reforça o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS 2 e 13), voltados à erradicação da fome e à ação climática (ONU, 2022).

A contribuição do melhoramento genético também se manifesta na dimensão científica e tecnológica. A incorporação de ferramentas como a edição gênica CRISPR/Cas9, a seleção assistida por marcadores moleculares e a GWAS tem possibilitado a criação de cultivares com desempenho superior frente à seca, consolidando o Brasil como referência em pesquisa agrícola (Zhang et al., 2022). Para Embrapa (2024), a integração entre genômica, bioinformática e fisiologia vegetal tem permitido acelerar o desenvolvimento de variedades adaptadas, diminuindo o tempo de lançamento de novas cultivares de 12 para 5 anos. Essa aceleração tecnológica reflete a maturidade científica do país e fortalece o papel da agricultura de precisão como instrumento de inovação sustentável.

Além das dimensões técnicas e produtivas, o melhoramento genético da soja também se insere no contexto estratégico global da sustentabilidade. O mercado internacional tem valorizado práticas agrícolas de baixo impacto ambiental, e o uso de cultivares adaptadas às mudanças climáticas reforça a imagem do Brasil como líder na produção sustentável de grãos (FAO, 2023). Conforme observa Wang e Li (2022), a agricultura resiliente é hoje um critério competitivo nos acordos comerciais internacionais, sendo cada vez mais exigida em blocos econômicos como a União Europeia e a OCDE. Assim, o investimento em biotecnologia agrícola não apenas protege a produção doméstica, mas também posiciona o país de forma vantajosa nas cadeias globais de valor, promovendo um modelo de desenvolvimento agrícola compatível com as metas ambientais internacionais.

Em síntese, o desenvolvimento de cultivares de soja tolerantes à seca é uma ação multifuncional que articula os pilares da sustentabilidade — ambiental, econômica e social — com a inovação tecnológica e a responsabilidade global. O melhoramento genético aplicado à soja não apenas assegura a produtividade diante das adversidades climáticas, mas também redefine os parâmetros de sustentabilidade agrícola, equilibrando eficiência produtiva, conservação ambiental e justiça social. Assim, a biotecnologia aplicada à agricultura torna-se um instrumento indispensável para garantir a segurança alimentar e o futuro da produção agrícola no século XXI.

5. DIMENSÕES DA SUSTENTABILIDADE NO MELHORAMENTO GENÉTICO DA SOJA

O desenvolvimento de cultivares de soja tolerantes ao estresse hídrico deve ser analisado à luz dos pilares da sustentabilidade, que abrangem dimensões científica, ambiental, econômica, social e estratégica. De acordo com Sachs (2020), a sustentabilidade agrícola requer uma abordagem integrada que combine inovação tecnológica, uso racional dos recursos naturais e justiça social. Assim, o melhoramento genético da soja não se restringe a ganhos produtivos, mas se consolida como um instrumento de transformação socioambiental e de adaptação às mudanças climáticas globais.

5.1 DIMENSÃO CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA

A dimensão científica do melhoramento genético da soja baseia-se na aplicação de biotecnologias avançadas voltadas à otimização da resistência ao déficit hídrico. De acordo com Xu et al. (2023), o progresso da genômica e da biologia molecular permitiu identificar centenas de loci associados à tolerância à seca, como GmDREB1, GmWRKY54 e GmNF-YB. Tais genes regulam a expressão de proteínas envolvidas em processos de resposta ao estresse, promovendo maior eficiência fotossintética e estabilidade celular em condições adversas.

A pesquisa científica conduzida por instituições como a Embrapa, a Universidade Federal de Viçosa e o Instituto Agronômico de Campinas (IAC) tem contribuído significativamente para o desenvolvimento de cultivares geneticamente superiores. Conforme a Embrapa (2024), a utilização de ferramentas como SAM e edição gênica CRISPR/Cas9 reduziu o tempo médio de obtenção de novas variedades de 12 para 5 anos. Essa integração entre ciência e inovação tecnológica reflete a consolidação da agricultura 4.0 no Brasil, onde o uso de big data, inteligência artificial e bioinformática potencializa a tomada de decisões em programas de melhoramento.

Além disso, a dimensão científica é responsável por ampliar o conhecimento sobre a fisiologia da soja sob estresse hídrico. Mutava et al. (2023) destacam que estudos transcriptômicos e proteômicos têm revelado interações complexas entre genes e fatores ambientais, possibilitando o mapeamento de rotas metabólicas associadas à resistência à seca. Dessa forma, o avanço da ciência aplicada à agricultura promove uma agricultura mais previsível, precisa e sustentável.

5.2 DIMENSÃO AMBIENTAL

Na dimensão ambiental, o melhoramento genético contribui diretamente para a mitigação dos impactos climáticos e para a conservação dos recursos naturais. A FAO (2023) aponta que o desenvolvimento de cultivares resistentes à seca reduz em até 25% o consumo de água por hectare, ao mesmo tempo em que minimiza a necessidade de irrigação artificial. Esse resultado é especialmente relevante para regiões com alta vulnerabilidade hídrica, como o Cerrado e o Semiárido nordestino, que concentram grande parte da expansão recente da soja no Brasil.

Zhang et al. (2022) reforçam que as plantas geneticamente adaptadas à seca apresentam maior eficiência no uso da água e melhor capacidade de retenção de umidade no solo, graças ao aprofundamento do sistema radicular e à regulação estomática. Essas adaptações reduzem a degradação do solo e a compactação, além de diminuir o escoamento superficial, contribuindo para o equilíbrio hídrico e a preservação dos ecossistemas.

A integração entre melhoramento genético e práticas agroecológicas tem sido defendida por organismos internacionais como uma estratégia de transição para uma agricultura de baixo carbono (ONU, 2022). Nesse sentido, as cultivares tolerantes ao estresse hídrico alinham-se às políticas ambientais do Acordo de Paris, reforçando o compromisso do Brasil com uma produção agrícola sustentável e de baixo impacto ecológico.

5.3 DIMENSÃO ECONÔMICA E PRODUTIVA

A dimensão econômica da sustentabilidade é fundamental para a viabilidade de qualquer inovação agrícola. O desenvolvimento de cultivares tolerantes à seca reduz significativamente as perdas econômicas associadas às estiagens. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB, 2024), a soja representa cerca de 40% das exportações agrícolas do país, e as perdas decorrentes da escassez hídrica podem comprometer mais de R$ 10 bilhões por safra. O uso de variedades resistentes melhora a previsibilidade da produção e estabiliza os custos de cultivo, protegendo a renda do produtor rural.

Conforme ressalta Wang e Li (2022), o investimento em melhoramento genético é uma estratégia de retorno sustentável, pois reduz a dependência de irrigação intensiva e de insumos importados. Essa redução nos custos de produção impacta positivamente a competitividade do agronegócio brasileiro no mercado global. Além disso, a estabilidade produtiva garante maior previsibilidade de oferta, evitando oscilações abruptas nos preços e contribuindo para o equilíbrio das cadeias de abastecimento.

Para Embrapa (2024), a difusão de cultivares tolerantes ao déficit hídrico também impulsiona a valorização da agricultura familiar, uma vez que pequenos produtores passam a ter acesso a tecnologias de alto desempenho adaptadas às suas realidades. A ampliação da produtividade, associada à redução dos riscos climáticos, torna o setor mais resiliente e economicamente sustentável.

5.4 DIMENSÃO SOCIAL E REGIONAL

A dimensão social da sustentabilidade no melhoramento genético da soja está relacionada à inclusão produtiva e ao fortalecimento das comunidades rurais. A FAO (2023) destaca que o desenvolvimento de cultivares adaptadas à seca permite a ampliação das fronteiras agrícolas em regiões semiáridas, gerando oportunidades de trabalho e renda para pequenos e médios produtores. Esse avanço contribui para a redução das desigualdades regionais e o fortalecimento da segurança alimentar nacional.

Mutava et al. (2023) observam que o uso de sementes geneticamente adaptadas promove uma produção mais estável, reduzindo a vulnerabilidade de agricultores que dependem de sistemas de sequeiro. Dessa forma, o melhoramento genético favorece a soberania alimentar, assegurando o abastecimento interno e o acesso a alimentos de qualidade mesmo em períodos de estiagem prolongada.

Além disso, o fortalecimento da pesquisa agrícola pública, liderada por instituições como Embrapa e universidades federais, reforça o caráter inclusivo e democrático da ciência no Brasil. Segundo a ONU (2022), a transferência de tecnologia e conhecimento para produtores locais é um dos principais instrumentos para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, especialmente o ODS 2 (Fome Zero e Agricultura Sustentável).

5.5 DIMENSÃO ESTRATÉGICA E GLOBAL

A dimensão estratégica da sustentabilidade está ligada ao papel do Brasil no cenário global de produção e comércio de alimentos. O país é atualmente o maior exportador mundial de soja, responsável por mais de 40% do mercado global (CONAB, 2024). A adoção de cultivares geneticamente aprimoradas reforça a imagem do Brasil como líder em agricultura sustentável e tecnológica. Segundo a FAO (2023), a inovação em biotecnologia agrícola é um fator decisivo para atender à demanda global de alimentos e para garantir a segurança alimentar até 2050.

A produção de soja tolerante à seca também possui importância geopolítica, pois assegura a oferta de grãos em um cenário de escassez hídrica global. De acordo com Zhang et al. (2022), países dependentes de importações agrícolas tendem a priorizar acordos com nações que investem em agricultura sustentável e resiliente. Nesse contexto, o Brasil fortalece sua posição estratégica ao integrar ciência, tecnologia e sustentabilidade, consolidando-se como fornecedor confiável de alimentos e bioenergia.

Por fim, como afirmam Sachs e Lopes (2021), a sustentabilidade global não é apenas um desafio ambiental, mas um novo paradigma de desenvolvimento econômico e político. O melhoramento genético da soja, ao unir inovação e responsabilidade social, representa a materialização desse paradigma na agricultura brasileira.

6. MATERIAIS E MÉTODOS

Este trabalho fundamenta-se em uma pesquisa de natureza básica e abordagem qualitativa, com caráter exploratório e descritivo, voltada à análise teórica e científica do processo de melhoramento genético da soja (Glycine max) e suas implicações no desenvolvimento de cultivares tolerantes ao estresse hídrico. A escolha metodológica justifica-se pela necessidade de compreender, sob o ponto de vista conceitual e técnico, as inovações e os avanços científicos que contribuem para o enfrentamento dos impactos das mudanças climáticas na agricultura.

6.1 TIPO E ABORDAGEM DA PESQUISA

Segundo Gil (2019), a pesquisa qualitativa busca interpretar fenômenos complexos com base em referenciais teóricos consistentes, privilegiando a compreensão de processos e contextos. Assim, este estudo é caracterizado como pesquisa bibliográfica, uma vez que se apoia em materiais já publicados em bases científicas, relatórios técnicos e documentos institucionais.
Trata-se também de uma pesquisa exploratória e descritiva, conforme os princípios de Marconi e Lakatos (2021), pois pretende reunir, interpretar e descrever informações sobre o desenvolvimento genético da soja e os mecanismos de tolerância à seca, sem a manipulação direta de variáveis experimentais.

A abordagem qualitativa permite analisar o tema em profundidade, correlacionando aspectos biotecnológicos, fisiológicos e socioambientais relacionados ao melhoramento genético. Segundo Minayo (2022), esse tipo de abordagem é adequada quando o objetivo é compreender inter-relações e interpretar significados em contextos específicos, como no caso da sustentabilidade agrícola e da biotecnologia aplicada.

6.2 FONTES E PROCEDIMENTOS DE COLETA DE DADOS

A coleta de dados deste estudo foi realizada por meio de um levantamento bibliográfico sistemático, orientado pelos princípios de rigor metodológico descritos por Gil (2019) e Marconi e Lakatos (2021). Essa técnica permitiu reunir, analisar e comparar produções científicas recentes relacionadas ao melhoramento genético da soja e à tolerância ao estresse hídrico, estabelecendo uma base sólida de conhecimento sobre o tema. O levantamento sistemático, segundo Prodanov e Freitas (2021), constitui uma etapa essencial em pesquisas teóricas, pois assegura a confiabilidade e a atualidade das informações, além de favorecer a construção de análises integradas e críticas.

O corpus da pesquisa foi composto por publicações científicas, dissertações, teses e relatórios técnicos nacionais e internacionais, disponíveis em bases indexadas de acesso público e institucional. As principais plataformas consultadas foram: SciELO (Scientific Electronic Library Online), Portal de Periódicos CAPES/MEC, ScienceDirect (Elsevier), SpringerLink, BMC Plant Biology, Frontiers in Plant Science, além dos bancos oficiais da FAO (Food and Agriculture Organization of the United Nations) e da Embrapa Soja (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). A escolha dessas bases justifica-se pela alta credibilidade científica, amplitude temática e cobertura global em áreas como biotecnologia vegetal, fisiologia da planta, genômica aplicada e sustentabilidade agrícola (EMBRAPA, 2024; FAO, 2023).

A seleção das fontes seguiu critérios de inclusão rigorosos, abrangendo artigos publicados entre os anos de 2019 e 2025, priorizando estudos que apresentassem revisão por pares, clareza metodológica, relevância científica e disponibilidade pública integral. Essa delimitação temporal foi adotada para garantir que as informações refletissem o estado atual da pesquisa em melhoramento genético, uma vez que o período compreende o avanço de tecnologias recentes como a edição gênica (CRISPR/Cas9), a seleção assistida por marcadores (SAM) e a genômica preditiva, amplamente utilizadas em programas de melhoramento modernos (WANG et al., 2024; LIU et al., 2023).

Durante o processo de triagem, foram excluídos documentos duplicados, desatualizados ou de caráter meramente opinativo, conforme recomenda Gil (2019), que enfatiza a importância da seletividade na composição de amostras bibliográficas para evitar vieses interpretativos. As publicações foram analisadas com foco na consistência metodológica e na pertinência temática, de modo a assegurar a validade científica do conteúdo selecionado. O cruzamento de informações entre fontes internacionais e nacionais, como as da Embrapa (2024) e da FAO (2023), possibilitou uma compreensão abrangente das tendências globais e dos desafios específicos enfrentados pelo agronegócio brasileiro no contexto das mudanças climáticas.

6.3 PROCEDIMENTOS DE ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO

Após a coleta, o conjunto de dados e referências selecionadas foi submetido a um processo sistemático de organização e interpretação, seguindo os princípios da análise de conteúdo descritos por Bardin (2016). Essa metodologia foi escolhida por sua adequação à abordagem qualitativa e por permitir uma leitura crítica e aprofundada das fontes teóricas, possibilitando identificar significados, padrões e inter-relações entre os diversos estudos sobre melhoramento genético da soja e tolerância ao estresse hídrico. Conforme destaca Bardin (2016), a análise de conteúdo se baseia em um conjunto de técnicas que buscam inferir conhecimentos e interpretações lógicas a partir de dados textuais, garantindo sistematização e validade científica às conclusões obtidas.

Inicialmente, procedeu-se à pré-análise, etapa caracterizada pela leitura flutuante e pela imersão no material coletado, com o intuito de obter uma visão geral sobre o conteúdo e identificar recorrências temáticas relevantes. Nessa fase, foram definidas as quatro categorias centrais de análise, a saber: (1) a evolução histórica e metodológica do melhoramento genético da soja; (2) as estratégias biotecnológicas e fisiológicas de tolerância ao estresse hídrico; (3) as dimensões da sustentabilidade associadas ao processo de melhoramento genético; e (4) os impactos socioeconômicos e ambientais decorrentes da adoção de cultivares adaptadas às condições de seca. Essa categorização, conforme defendem Prodanov e Freitas (2021), constitui um processo essencial para transformar informações dispersas em conhecimento estruturado, permitindo a comparação crítica entre diferentes perspectivas teóricas e empíricas.

Na sequência, realizou-se a exploração do material, etapa na qual as informações extraídas dos artigos, relatórios e documentos técnicos foram sistematizadas e organizadas em planilhas analíticas, com base na frequência e relevância dos conceitos identificados. Essa sistematização possibilitou o agrupamento de ideias convergentes e a identificação de divergências entre os estudos analisados, respeitando os critérios de objetividade e coerência teórica propostos por Bardin (2016). A técnica de análise integrativa foi aplicada para relacionar as evidências teóricas de diversas fontes, permitindo uma compreensão global das tendências científicas sobre o uso de ferramentas como seleção assistida por marcadores (SAM), edição gênica (CRISPR/Cas9) e modelagem genômica no desenvolvimento de cultivares resistentes à seca (LIU et al., 2023; WANG et al., 2024).

A etapa seguinte correspondeu à interpretação e inferência dos resultados, conduzida de forma integrativa e comparativa. Esse processo consistiu em correlacionar os achados das publicações científicas mais recentes com os dados técnicos apresentados por instituições como a Embrapa Soja (2024) e a FAO (2023), visando identificar tendências de pesquisa, avanços tecnológicos, lacunas de conhecimento e implicações socioambientais. A triangulação das informações, conforme orienta Minayo (2022), ampliou a validade interpretativa do estudo, permitindo confrontar as evidências empíricas com os referenciais teóricos de sustentabilidade e inovação agrícola.

Por fim, os resultados foram sintetizados e articulados com base na convergência de argumentos e evidências empíricas, possibilitando a formulação de inferências teóricas que sustentam as discussões apresentadas nos capítulos seguintes. Assim, o método de análise de conteúdo aplicado neste trabalho permitiu compreender o fenômeno do melhoramento genético da soja tolerante à seca de maneira ampla e multidimensional, revelando tanto os avanços científicos recentes quanto às implicações socioeconômicas e ambientais de sua aplicação. Essa metodologia, conforme salientam Bardin (2016) e Prodanov e Freitas (2021), é particularmente eficaz em pesquisas bibliográficas de caráter exploratório, nas quais se busca integrar informações dispersas para construir uma visão científica unificada e contextualizada.

7. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O desenvolvimento de cultivares de soja tolerantes à seca representa um dos maiores avanços científicos e tecnológicos da agricultura contemporânea. O presente estudo teve como objetivo compreender como o melhoramento genético tem contribuído para a criação de variedades mais resistentes ao estresse hídrico, analisando suas implicações produtivas, ambientais e sociais. A pesquisa evidenciou que a combinação entre inovação biotecnológica, sustentabilidade e planejamento agrícola é essencial para garantir a segurança alimentar e a resiliência das lavouras em um contexto de mudanças climáticas cada vez mais intensas.

Ao longo do trabalho, constatou-se que a evolução do melhoramento genético da soja passou por uma transição significativa — dos métodos convencionais de seleção e cruzamento para o uso de técnicas modernas de análise molecular e edição gênica. Essa transformação tornou o processo de obtenção de novas cultivares mais rápido, preciso e adaptado às necessidades do campo. O aprimoramento contínuo dessas tecnologias permite desenvolver plantas com maior eficiência no uso da água, estabilidade produtiva e capacidade de enfrentar longos períodos de estiagem, fatores fundamentais para a competitividade agrícola e para a sustentabilidade ambiental.

Os resultados da pesquisa destacaram que o estresse hídrico continua sendo um dos principais desafios da agricultura mundial. Nesse contexto, o melhoramento genético da soja tem desempenhado papel decisivo na manutenção da produtividade e na ampliação das áreas cultiváveis em regiões de baixa disponibilidade de recursos hídricos. O uso de cultivares adaptadas possibilita reduzir o impacto da seca sobre a produção e, ao mesmo tempo, contribuir para a conservação da água e dos solos agrícolas, aspectos indispensáveis para a manutenção dos ecossistemas e para o equilíbrio ambiental.

Sob a perspectiva socioeconômica, o desenvolvimento de cultivares resistentes à seca favorece a inclusão produtiva de pequenos e médios agricultores, especialmente aqueles que atuam em regiões semiáridas. A adoção dessas sementes contribui para a geração de renda, a redução das desigualdades regionais e o fortalecimento da segurança alimentar, além de impulsionar o agronegócio nacional e sua inserção em mercados internacionais que valorizam práticas sustentáveis de produção.

Do ponto de vista metodológico, o estudo confirmou a pertinência da abordagem bibliográfica e qualitativa para a compreensão dos avanços científicos e das práticas agrícolas relacionadas ao tema. A sistematização das informações obtidas nas fontes consultadas permitiu identificar as principais tendências de pesquisa e os caminhos de inovação tecnológica que vêm sendo adotados para aumentar a eficiência e a sustentabilidade do cultivo da soja em diferentes condições ambientais.

Conclui-se que o melhoramento genético da soja voltado à tolerância ao estresse hídrico é uma estratégia indispensável para o futuro da agricultura brasileira e mundial. Além de garantir maior estabilidade produtiva, essa inovação contribui para reduzir o uso de recursos naturais, mitigar os efeitos das mudanças climáticas e fortalecer o compromisso com uma agricultura sustentável, eficiente e socialmente justa. O avanço contínuo das pesquisas nessa área e o fortalecimento das parcerias entre instituições científicas, universidades e produtores rurais são fundamentais para assegurar a continuidade desses resultados e para consolidar um modelo agrícola baseado na ciência, na sustentabilidade e na inovação.

Embora este trabalho tenha abordado amplamente as contribuições do melhoramento genético da soja para a tolerância à seca, reconhece-se a necessidade de ampliar estudos aplicados que quantifiquem os impactos de longo prazo dessas cultivares no solo e nos ecossistemas agrícolas. Pesquisas futuras podem explorar o papel da inteligência artificial e do sensoriamento remoto na predição de desempenho de genótipos sob estresse hídrico, consolidando o vínculo entre ciência, tecnologia e sustentabilidade.

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