REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202511131742
Alicia de Sousa Rodrigues
Giovanna da Silva Fernandes
Orientador: Adail Rosa Alvarenga Júnior
RESUMO
As perfurações endodônticas são complicações relevantes durante o tratamento de canal, podendo resultar de fatores patológicos ou iatrogênicos, e estabelecem comunicação indesejada entre a cavidade pulpar e os tecidos perirradiculares, comprometendo o prognóstico do dente e exigindo intervenção imediata. Este relato descreve uma perfuração iatrogênica no assoalho da câmara pulpar do segundo molar inferior, ocorrida durante a tentativa de localização de canais atrésicos. O manejo incluiu o uso de barreira gengival fotopolimerizável (TopDam) como contenção provisória, permitindo instrumentação mecanizada segura e irrigação controlada do sistema de canais. Após medicação intracanal com hidróxido de cálcio, o selamento definitivo foi realizado com agregado de trióxido mineral (MTA), reconhecido por sua biocompatibilidade e capacidade de induzir reparo tecidual. O caso demonstra que a barreira gengival, embora não formalmente respaldada na literatura para esta aplicação, pode ser uma alternativa viável, garantindo controle do campo operatório e contribuindo para o sucesso clínico em técnicas endodônticas conservadoras.
Palavras-chave: perfuração endodôntica; barreira gengival; MTA; tratamento de canal; ultrassom.
INTRODUÇÃO
As perfurações endodônticas representam complicações relevantes nos tratamentos de canal, podendo originar-se tanto de processos patológicos quanto de iatrogenias ¹⁴. Ao estabelecer comunicação entre a cavidade pulpar ou os canais radiculares e os tecidos perirradiculares e/ou meio bucal, essas perfurações podem desencadear inflamação, reabsorção óssea e, em casos mais graves, culminar na perda do elemento dentário afetado ¹¹,¹⁴. Essas alterações podem ser classificadas como coronárias ou radiculares, variando conforme a região de ocorrência: as coronárias podem ser supragengivais, subgengivais supraósseas ou intraósseas, enquanto as radiculares podem localizar-se nas porções cervical, média ou apical da raiz ¹¹.
Diversos fatores influenciam o risco de ocorrência das perfurações, como o conhecimento anatômico do dente, a qualidade dos exames radiográficos, a técnica de acesso coronário, o método de instrumentação e a habilidade manual do profissional ¹⁴. O diagnóstico de uma perfuração iatrogênica pode ser sugerido por sinais como sangramento excessivo e inesperado, desconforto intenso na ausência de anestesia local, além dos achados obtidos por meio do localizador apical e de exames radiográficos ¹¹,¹⁴. Ademais, o uso de equipamentos auxiliares, como o ultrassom, pode contribuir tanto para a prevenção quanto para a localização de perfurações já estabelecidas ¹³.
O selamento e o tratamento das perfurações endodônticas, sobretudo das mais invasivas, devem ser realizados imediatamente após o acidente, a fim de evitar ao máximo a contaminação da área ¹. Nos casos em que a perfuração se encontra próxima à embocadura do canal, o preenchimento definitivo torna-se dificultado, sendo necessário o tamponamento provisório da perfuração durante a instrumentação e a obturação do canal radicular. A escolha do material reparador definitivo é de responsabilidade do profissional; contudo, a literatura destaca que materiais biocompatíveis, com capacidade de vedação eficiente, propriedades antimicrobianas e potencial de induzir regeneração tecidual, como o Agregado Trióxido Mineral (MTA), têm demonstrado bons resultados na reparação de perfurações ¹,²,¹³. O presente estudo tem como objetivo relatar um caso de perfuração endodôntica iatrogênica em um segundo molar inferior, detalhando a sequência de tratamento adotada e os materiais empregados na reparação da complicação.
RELATO DE CASO
Paciente do sexo masculino, 36 anos de idade, foi encaminhado a clínica escola da Faculdade Gamaliel-FATEFIG relatando desconforto após ocorrência de uma perfuração endodôntica iatrogênica durante o tratamento de canal do elemento 37. Ao exame clínico, verificou-se uma cavitação extensa e, ao exame radiográfico periapical, constatou-se evidente atresia em ambos os canais radiculares, além de uma perfuração localizada no assoalho da câmara pulpar, ocorrida durante a tentativa de localizar os condutos mesiais obliterados na embocadura com o uso de brocas.
A localização dos condutos radiculares foi realizada com o auxílio de equipamento ultrassônico, sob supervisão de profissional especializado, permitindo precisão e segurança durante o procedimento. Após a localização, aplicou-se uma barreira gengival apenas na área da perfuração, permitindo o uso controlado de irrigantes potencialmente irritantes sem comprometer a região, o que possibilitou a continuidade do tratamento de forma segura.
Os canais foram então instrumentados com o sistema rotatório SRF-Sequence (MK Life) e medicados com pasta de hidróxido de cálcio, mantida por aproximadamente 15 dias. Na sessão subsequente, após confirmação da ausência de sinais e sintomas clínicos, procedeu-se à obturação pela técnica do cone único, utilizando cones de guta-percha calibre 25.06. A perfuração foi selada com MTA, sobre o qual aplicou-se uma camada de CIV como base e, em seguida, realizou-se a restauração definitiva com resina composta, restabelecendo a função e a estética do elemento dental.

imagem inicial

Radiografia inicial

Tamponamento da perfuração com barreira gengival

Localização dos conduções e canais instrumentados

Aplicação da medicação temporária (hidróxido de cálcio)

Obturação definitiva dos condutos

Aplicação de MTA na região da perfuração

Ionômero de vidro sobre o MTA na região da perfuração

Radiografia final
DISCUSSÃO
O sucesso do tratamento endodôntico está diretamente relacionado à habilidade técnica do profissional, à adequada interpretação radiográfica e à execução criteriosa de todas as etapas do procedimento ⁶. Na fase de abertura coronária, a perfuração pode ocorrer pelo uso inadequado de brocas rotatórias ou durante a busca dos orifícios dos canais radiculares, especialmente em condutos atrésicos 9. O imediato diagnóstico de uma perfuração inclui identificar a etiologia e a classificação da complicação, o que por sequência leva ao tratamento mais adequado, melhora no prognóstico e impede o desenvolvimento microbiano 9. No presente relato de caso, a identificação de uma perfuração iatrogênica, de menor largura e próxima à embocadura do canal levou a escolha de diferentes métodos/execuções que permitiram a adequada instrumentação dos canais ao mesmo tempo que permitem a preservação dos tecidos perirradiculares prevenindo-os de possíveis contaminações.
O acesso coronário e a adequada visualização da entrada dos canais radiculares constituem etapas fundamentais do tratamento endodôntico, uma vez que condicionam a efetividade da instrumentação e da irrigação ⁸. Um acesso bem planejado garante a penetração adequada dos instrumentos endodônticos e dos agentes irrigadores, favorecendo a limpeza e a desinfecção do complexo sistema de canais ⁴,⁸. Nas últimas décadas, a introdução do ultrassom na prática clínica tem representado um avanço significativo para a Endodontia ⁴,⁵,⁸. Diversos estudos demonstram que a ativação ultrassônica potencializa a ação dos irrigantes por meio de fenômenos como cavitação e microstreaming acústico, os quais aumentam a remoção de debris, smear layer e biofilme bacteriano, sobretudo em regiões de difícil acesso, como istmos, anfractuosidades e canais estreitos ou atrésicos ⁵,¹². Dessa forma, o emprego do ultrassom contribui para a desinfecção mais eficaz do sistema radicular e para a melhoria dos resultados clínicos a longo prazo ⁴,⁵,¹².
As pontas ultrassônicas destacam-se por seu caráter conservador, promovendo um desgaste controlado da dentina radicular e diminuindo o risco de perfurações ou alterações indesejáveis na anatomia original do canal ⁵,¹⁶. Essa precisão permite maior previsibilidade durante o preparo, principalmente em casos de canais calcificados ou atrésicos, em que a localização e o desgaste excessivo representam desafios clínicos ⁷,¹⁶. Além disso, a eficiência de corte associada ao ultrassom está diretamente relacionada ao tipo de ponta empregada, ao seu design e ao ajuste da frequência utilizada ⁸. Recomenda-se a variação controlada da potência do equipamento conforme a finalidade clínica (seja para acesso, desgaste seletivo, remoção de cálcio, ativação irrigadora ou preparo em cirurgia parendodôntica) garantindo maior segurança ao procedimento ⁸. Tal controle assegura a preservação da estrutura dental e reduz a ocorrência de falhas iatrogênicas, aumentando a previsibilidade do tratamento ⁷,⁸,¹⁶.
Assim, o uso do ultrassom em Endodontia representa uma ferramenta indispensável na prática clínica atual. Sua aplicação não apenas potencializa a irrigação e a desinfecção do sistema de canais ⁴,¹², como também oferece maior segurança operatória ⁵,⁸, contribuindo para um tratamento mais eficaz, conservador e biologicamente compatível ⁴,⁵.
Em casos de perfuração, o isolamento rigoroso do campo operatório é um dos fatores determinantes para o sucesso do tratamento endodôntico ⁷. No presente caso clínico, optou-se pela utilização de uma barreira gengival fotopolimerizável (TopDam) de maneira provisória, mantida apenas durante as etapas de instrumentação e obturação. A literatura descreve, de forma recorrente, o uso de materiais como o sulfato de cálcio ou a pasta de hidróxido de cálcio associada a veículo viscoso como métodos convencionais de preenchimento da perfuração, sobretudo quando há necessidade de tamponamento temporário ³,¹⁰. Além disso, alguns autores relatam alternativas de barreiras mecânicas não convencionais, tais como bolinhas de algodão, discos de Teflon ou até raspas de dentina ³,¹⁰. O objetivo dessas abordagens é criar uma contenção eficiente que evite extravasamento de irrigantes ou materiais obturadores para o periodonto, preservando o prognóstico do dente até a realização da reparação definitiva ³,¹⁰.
Como material definitivo, optou-se pelo uso do agregado de trióxido mineral (MTA) ¹⁵, amplamente consagrado na literatura por suas propriedades biológicas e físico-químicas ³,¹⁵. O MTA apresenta excelente capacidade de selamento marginal, biocompatibilidade, ação antimicrobiana e potencial indutor de reparo tecidual, estimulando a formação de dentina e cemento ³,¹⁵. Sua versatilidade clínica permite aplicações diversas, como capeamento pulpar, pulpotomia, retrobturação, tratamento de reabsorções radiculares e selamento de perfurações ³,¹⁵. No presente relato, sua utilização possibilitou a preservação dos tecidos periapicais e contribuiu para um prognóstico favorável, consolidando sua indicação como material de eleição em casos de perfuração endodôntica ³,¹⁵.
CONCLUSÃO
O presente caso clínico evidencia a importância do diagnóstico precoce e da intervenção imediata em situações de perfuração endodôntica iatrogênica, destacando o impacto direto da conduta adotada sobre o prognóstico do elemento dental. A adequada identificação do local da perfuração, aliada ao emprego de recursos como o ultrassom, possibilitou a localização precisa dos condutos radiculares e a continuidade do tratamento de forma segura e controlada.
Durante o procedimento, a utilização de uma barreira gengival fotopolimerizável mostrou-se uma estratégia eficaz no período transoperatório, atuando como um método provisório de isolamento e contenção da região perfurada, protegendo tanto a área de perfuração quanto os condutos contra o contato com o agente irrigante potencialmente irritante. Essa conduta assegurou o controle do campo operatório e permitiu a execução adequada das etapas de instrumentação e obturação sem comprometer a integridade dos tecidos perirradiculares.
Após a remoção da barreira gengival, procedeu-se ao selamento definitivo com Agregado Trióxido Mineral (MTA), sobre o qual foi aplicado ionômero de vidro, seguido da restauração coronária, conforme o protocolo endodôntico convencional. Essa sequência terapêutica resultou em vedação marginal satisfatória e favoreceu a preservação dos tecidos periapicais, reforçando o potencial clínico do MTA como material de eleição para o reparo de perfurações.
Embora o uso de barreiras gengivais com finalidade transoperatória não esteja amplamente documentado na literatura endodôntica, a experiência apresentada neste relato demonstra que sua aplicação criteriosa pode representar uma alternativa viável e segura em casos específicos, quando empregada de forma temporária e complementada por materiais de selamento biocompatíveis. Tal abordagem reflete a capacidade adaptativa da prática clínica em lidar com intercorrências e ressalta a importância da individualização do tratamento para alcançar resultados satisfatórios e duradouros.
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