REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/cl10202508201148
Julia Scaramal Mello
Ana Luiza Marçalo de Tolosa
Camila Alves Petti
Carolina Carvalho Cesar
João Pedro Carvalho Cesar
Orientadora: Profa. Carla Muniz Pinto de Carvalho
RESUMO
A hérnia umbilical é um defeito da fáscia abdominal que permite a protrusão do conteúdo intestinal, sendo comum em adultos, especialmente em obesos, e tratada cirurgicamente por herniorrafia. Sua prevalência é de 10 a 25% na população geral e 0,08% em gestantes, com risco de encarceramento em 58% dos casos durante a gestação.
O caso descrito refere-se a uma gestante de 35 anos, com hipertensão arterial crônica, obesidade grau III e hérnia umbilical volumosa (30 x 30 cm), além de restrição de crescimento fetal tardio. Encaminhada para serviço terciário com 38 semanas, foi submetida a cesárea eletiva, sem intercorrências, e o reparo da hérnia foi adiado para 40 dias após o parto para otimizar o prognóstico cirúrgico.
A discussão destaca a raridade do caso, o impacto da obesidade e hipertensão no risco materno-fetal, a importância da abordagem multidisciplinar e os desafios no acesso a cuidados de saúde especializados no sistema público brasileiro.
INTRODUÇÃO
A hérnia umbilical é um defeito da integridade da fáscia abdominal, o qual permite que conteúdo intestinal se projete pelo umbigo (1). Essa é uma condição comum em adultos, mais frequentemente associada a aumento da pressão intra-abdominal, como obesidade. O tratamento é cirúrgico, com a correção da integridade da parede, cirurgia chamada de herniorrafia (1).
Entre a população geral a prevalência de hérnia umbilical é de 10 a 25% (2), porém entre grávidas ela cai para 0.08% (3). Dentro desta porcentagem estão mulheres que tiveram novas hérnias por conta da gestação, mas também aquelas que já tinham uma hérnia, mas a gestação exacerbou o quadro (3).
A maior complicação das hérnias, de modo geral, é o encarceramento ou estrangulamento, e na gestação esse quadro está presente em 58% dos casos (4). Nos outros 42%, que não tem urgência para a reparação, a cirurgia muitas vezes é adiada para o puerpério (5).
Em uma breve revisão bibliográfica nas bases de dados PubMed, Scielo e Lilacs, pode-se analisar uma finita literatura sobre hérnia umbilical e gravidez, tendo apenas 1 revisão sistemática sobre o assunto (6). Refinando mais a busca, hérnias grandes não são comuns, sendo encontrados tamanhos de até 12 cm de comprimento do defeito (7).
DESCRIÇÃO DO CASO
Paciente AJR, 35 anos, em união estável, G5P3A1 (dois partos cesáreos e um parto normal), com diagnóstico de hipertensão arterial crônica (HAC) e índice de massa corporal (IMC) de 41. Em uso de alfametildopa 750 mg/dia, cálcio 1 g/dia e ácido acetilsalicílico (AAS) 100 mg/dia, apresentando bom controle pressórico. Foi encaminhada da Unidade Básica de Saúde (UBS) de Araçoiaba da Serra para um serviço terciário em Sorocaba, devido à estação a termo (38 semanas e 2 dias), apresentação pélvica e restrição de crescimento fetal tardio grau I. O objetivo do encaminhamento era programar o parto e a realização de laqueadura tubária, devido à presença de uma hérnia umbilical volumosa (30 cm x 30 cm). A paciente relata estar a três anos na fila de espera para a cirurgia de correção da hérnia e para a laqueadura. O uso de anticoncepcionais foi suspenso pelo médico da UBS devido à obesidade e à hipertensão arterial crônica, resultando em uma gestação não planejada antes da realização da cirurgia da hérnia. Desde o início do pré-natal, houve tentativas frustradas de encaminhamento para o pré-natal de alto risco. A restrição de crescimento fetal foi identificada apenas a partir de 34 semanas, sendo que a principal intercorrência relatada foi a dificuldade intensa de evacuação devido à hérnia, com episódios de até 15 dias sem evacuar, resolvidos apenas com lavagens intestinais. No serviço terciário, a paciente foi avaliada em conjunto com a equipe de cirurgia geral. Ao exame físico, apresentava abdome gravídico com hérnia supraumbilical volumosa (30 cm x 30 cm), não redutível, com colo herniário de aproximadamente 8 cm, sem sinais flogísticos e indolor à palpação. Diante desse quadro, foi programada a cesárea eletiva com 39 semanas, associada à abordagem cirúrgica da hérnia abdominal. Durante a cesárea, não houve dificuldades nem na abertura e nem na extração fetal. Foi realizada histerotomia segmentar transversa, com parto de feto único, pélvico, sexo feminino, peso de 2.815 g, APGAR 8/9. No intraoperatório, a equipe de cirurgia optou por postergar a correção da hérnia para 40 dias após o parto, visando uma melhor avaliação da parede abdominal e possibilidade da perda de peso inicial da paciente, visto que não havia risco iminente de encarceramento da hérnia. A paciente evoluiu sem complicações no pós-operatório imediato e recebeu alta juntamente com o recém-nascido no segundo dia pós-parto, com retorno programado para abordagem cirúrgica da hérnia em 40 dias.
DISCUSSÃO
O caso apresentado traz uma condição pouco prevalente. Ademais, a área de hérnia relatada está entre as maiores da literatura, sendo outro exemplo dessas hérnias gigantes a de 25 x 20 cm, relatada por Saidi, 2021 (8). Neste caso, a cirurgia de correção foi feita durante o parto cesáreo às 39 semanas, e o recém-nascido pesou 3.7 kg, logo não teve problemas de desenvolvimento nutricional durante a gestação (8).
Além da hérnia, a junção de obesidade grau III e hipertensão arterial crônica aumenta significativamente o risco materno-fetal, exigindo, como foi feita, uma abordagem multidisciplinar e individualizada (9). Essa abordagem pode ser exemplificada pela decisão de postergar a herniorrafia, visto que a perda de peso e involução uterina são fatores que melhoram o prognóstico cirúrgico (10).
A demora para o encaminhamento ao pré-natal de alto risco e a demora para a correção da hérnia pré-gestação refletem um desafio no fluxo do sistema público de saúde brasileiro, principalmente quando relacionado à saúde da mulher (11). Destacando a necessidade de melhorias na rede de atenção à saúde e coordenação dos diversos níveis de atendimento.
BIBLIOGRAFIA
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