LESÃO PULMONAR INDUZIDA POR CIGARRO ELETRÔNICO (EVALI) EM ADOLESCENTES: REVISÃO SISTEMÁTICA

E-CIGARETTE-INDUCED LUNG INJURY (EVALI) IN ADOLESCENTS: A SYSTEMATIC REVIEW

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ra10202511051923


Ana Caroline Silva Louzado Flick¹
Bianca Rios Sampaio¹
Fernando Gassmann Figueiredo²
José de Souza Almeida Neto³
Isabela Monalisa Holanda Torres¹
Marina Cerqueira de Queiroz4
Matheus Magalhães Rocha¹


RESUMO

Introdução: A lesão pulmonar associada ao uso de cigarro eletrônico (EVALI) é uma condição emergente com impacto relevante entre adolescentes. Objetivo: Esta revisão sistemática teve como objetivo identificar os principais sinais clínicos e complicações pulmonares em jovens com EVALI. Métodos: A pesquisa foi realizada em bases como PubMed, UpToDate, LILACS e BVS, seguindo a estratégia PRISMA. Oito estudos observacionais foram incluídos na análise final. Resultados: Os sintomas mais frequentes foram dispneia, tosse, febre, náuseas e vômitos, com achados radiológicos como opacidades em vidro fosco. Casos graves exigiram ventilação mecânica e uso de ECMO, com boa resposta ao uso de corticosteroides. O uso de produtos com THC de fontes informais, contendo acetato de vitamina E, foi o principal fator associado. Fatores como TDAH, asma e transtornos mentais dificultaram o manejo clínico. Conclusão: Conclui-se que a EVALI exige diagnóstico precoce, atenção multidisciplinar e políticas públicas eficazes de prevenção e regulação do uso desses dispositivos entre adolescentes.

Palavras-chave: EVALI; Adolescente; Cigarro eletrônico; Lesão pulmonar.

ABSTRACT

Introduction: Electronic Cigarette or Vaping Product Use-Associated Lung Injury (EVALI) is an emerging condition with a significant impact among adolescents. This systematic review aimed to identify the main clinical signs and pulmonary complications in young individuals with EVALI. Methodology: The research was conducted in databases such as PubMed, UpToDate, LILACS, and BVS, following the PRISMA strategy. Eight observational studies were included in the final analysis. Results: The most frequent symptoms were dyspnea, cough, fever, nausea, and vomiting, with radiological findings such as ground-glass opacities. Severe cases required mechanical ventilation and ECMO, with good response to corticosteroid therapy. The use of THC-containing products from informal sources, often containing vitamin E acetate, was the main associated factor. Conditions such as ADHD, asthma, and mental disorders made clinical management more challenging. Conclusion: It is concluded that EVALI requires early diagnosis, multidisciplinary care, and effective public policies for the prevention and regulation of these devices’ use among adolescents

Keywords: EVALI; Adolescent; Electronic cigarette; Lung injury.

INTRODUÇÃO

Desde 2019, o Centers for Disease Control and Prevention (CDC) identificou oficialmente a E-cigarette or vaping product use–associated lung injury (EVALI), traduzida para o português como lesão pulmonar associada ao uso de cigarro eletrônico ou vaporizadores, contendo a substância tetrahidrocanabinol (THC) adulterado com acetato de vitamina E, a qual se torna nociva aos pulmões quando inalada (Lozier, 2019).

De forma concisa, cigarros eletrônicos são dispositivos responsáveis pelo aquecimento de líquido, que geralmente contém nicotina, funcionados com bateria, produzindo vapor aerossol que é inalado pelos usuários. Atualmente são encontrados em formas recarregáveis, possibilitando maiores doses de nicotina e outras substâncias. Também conhecidos como Dispositivos Eletrônicos para Fumar (DEF’s), foram desenvolvidos em 2003, na China, e foram comercializados de forma ampla no mercado através de empresas do ramo do tabaco. Os DEF’s estão disponíveis para compra pela internet ou por revendedores presenciais. No Brasil, a produção, importação, armazenamento, transporte, venda e propaganda de cigarros eletrônicos são proibidos desde 2009. (Rigotti; Redy, 2024; Brasil, 2024). A patogênese da EVALI não está bem esclarecida. Estudos demonstram que a EVALI parece apresentar um espectro de doenças, em vez de um único processo patológico. Notam-se achados como lesão pulmonar fibrinosa aguda, pneumonia bronquiolocêntrica e dano alveolar difuso. Em casos isolados, foram encontrados hemorragia alveolar, doença pulmonar intersticial e pneumonia lipoide, causada por aspiração de partículas oleosas (Rebuli, 2023; Zulfiqar, 2023; Rigotti; Redy, 2024; Kathuria, 2024).

Dentre os fatores preocupantes associados ao consumo de cigarro eletrônico, inclui-se a normalização do ato de fumar, que apesar de proibido em diversos países, cresce na população adolescente (Rigotti; Redy, 2024).

Estudos realizados nos Estados Unidos identificaram que dentre os usuários de cigarro eletrônico, aproximadamente 80% tinham menos de 35 anos, com variação da faixa etária entre 13 e 34 anos de idade, sendo 66% do sexo masculino (Zulfiqar, 2023, Kathuria, 2024).A exposição de adolescentes aos cigarros eletrônicos tem gerado preocupação, principalmente após a identificação de casos de lesão pulmonar associada ao uso desses dispositivos, tornando-se um tema de relevante discussão, sobretudo pelo impacto na qualidade de vida de pacientes com EVALI. Portanto, o objetivo deste estudo foi identificar aspectos clínicos associados a EVALI em adolescentes e as principais complicações desta enfermidade.

METODOLOGIA

Trata-se de uma revisão sistemática de literatura, com busca norteada pelo Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA).

Para delinear o estudo, foi utilizada a seguinte pergunta norteadora: ‘’Quais são os principais sinais clínicos e complicações pulmonares observados em adolescentes diagnosticados com EVALI decorrente ao uso de cigarro eletrônico?’’. Dessa forma, foram incluídos estudos observacionais, de coorte, caso-controle e transversais, que abordaram pacientes que desenvolveram lesão pulmonar mediante uso do cigarro eletrônico, com texto disponível na íntegra, sem restrição de idioma ou período de publicação. Foram excluídos da amostra estudos cujo conteúdo não estava alinhado ao tema proposto e artigos em duplicidade.

O levantamento bibliográfico foi realizado por dois pesquisadores, de forma independente, utilizando as seguintes bases de dados: PubMed, UpToDate, Lilacs e Biblioteca Virtual de Saúde (BVS). Foram utilizados descritores consultados através do Medical Subject Headings (MeSH) e Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), combinados com os operadores boleanos “AND” e “OR”, através da seguinte estratégia de busca: ((Evali) OR (lung injury) OR (lesão pulmonar)) AND ((adolescent) OR (teenager) OR (adolescente)) AND ((vaping) OR (e-cigarettes) OR (cigarro eletrônico)) Filters: Free full text, Observational Study.

Foram extraídos dados referentes ao autor, ano de publicação, objetivos, tipo de estudo, local de realização, tamanho da amostra e resultados, que posteriormente foram tabulados em uma planilha do Excel e analisados pelos pesquisadores. A avaliação da qualidade metodológica dos estudos foi realizada por meio da escala de Newcastle-Ottawa, recomendada para estudos do tipo coorte e caso-controle e Joanna Briggs para estudos transversais.

Os dois pesquisadores responsáveis pelo levantamento bibliográfico, analisaram, de forma independente, o título e resumos dos trabalhos, de forma individual, a fim de selecionar os que preenchiam os critérios de inclusão e exclusão. Em seguida, foi realizada a leitura completa dos estudos para assegurar a elegibilidade destes.

RESULTADOS

A partir da busca realizada nas bases de dados definidas para esta revisão sistemática, foram recuperados 274 registros. Após a exclusão de estudos por incompletude ou indisponibilidade dos textos, 165 trabalhos foram selecionados para avaliação mais detalhada. Desses, 147 foram excluídos após a leitura dos títulos, por estarem fora dos critérios do espaço amostral (como relatos de caso, cartas editoriais e meta-análises). Outros 10 estudos foram excluídos após a leitura dos resumos, por apresentarem fuga do tema ou incompatibilidade com o objetivo da revisão.

Após a leitura integral dos textos remanescentes e a verificação dos critérios metodológicos, oito estudos foram inicialmente selecionados para a síntese final dos resultados. No entanto, dois deles foram posteriormente excluídos devido à indisponibilidade de acesso no momento da análise final, totalizando seis estudos incluídos na síntese final.

Esses estudos, majoritariamente conduzidos com adolescentes entre 16 e 21 anos, abordaram desde os aspectos clínicos da EVALI até a percepção de risco associada ao uso de cigarros eletrônicos, compondo, destarte, o corpo de evidências analisadas nesta revisão.

Durante a realização da pesquisa bibliográfica para a presente revisão sistemática, foram identificadas algumas limitações nas bases de dados consultadas. Na base UpToDate, observou-se uma predominância de diretrizes clínicas (guidelines) com escassez de artigos originais relevantes para a temática em questão. Além disso, na base SciELO, não foram encontrados estudos que atendessem aos critérios de inclusão definidos. Houve também dificuldade em localizar publicações que abordassem recortes etários específicos, o que limitou a abrangência da análise por faixa etária. Tais restrições impactaram na seleção e diversidade das evidências disponíveis para esta revisão.

Fonte: os autores (2025).

Dentre os artigos incluídos, quatro conduziram análises retrospectivas dedicadas à descrição clínica de adolescentes internados com EVALI, relatando sintomas frequentes como dispneia, tosse e manifestações gastrointestinais, além de achados radiológicos típicos, como opacidades em vidro fosco. Esses estudos também destacaram a gravidade de alguns casos, que exigiram ventilação mecânica ou suporte por oxigenação por membrana extracorpórea (ECMO), bem como a resposta positiva ao uso de corticosteroides, ainda que com variações nos protocolos terapêuticos adotados.

Dois desses trabalhos abordaram especificamente o uso de produtos contendo THC provenientes de fontes informais como fator central na origem dos casos, reforçando a associação com a presença de acetato de vitamina E nas amostras analisadas. Outros artigos concentraram-se na análise de fatores psicossociais e comorbidades, como transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), asma e histórico de transtornos de saúde mental, ressaltando como esses aspectos podem dificultar o diagnóstico e o manejo clínico.

Dois estudos investigaram a percepção de risco entre adolescentes após o surto de EVALI, evidenciando um aumento na preocupação com os danos do vaping, especialmente em contextos de maior exposição midiática. Ademais, houve um estudo coorte prospectivo (2025–2028) sobre efeitos de longo prazo do vaping no Canadá em que propõe o acompanhamento prospectivo para avaliar os efeitos respiratórios de longo prazo, demonstrando a necessidade de monitoramento contínuo diante dos possíveis impactos duradouros entre jovens usuários.

A partir das aproximações temáticas identificadas nos resultados dos artigos, os achados dessa revisão foram agrupados na tabela abaixo:

Tabela 1: Características gerais e principais resultados dos estudos incluídos na revisão sistemática que demonstraram a lesão pulmonar induzida por cigarro eletrônico em adolescentes, 2025 

Autores/ Ano de publicação/
País do estudo
IntroduçãoMétodosResultados
Singh/2022/
Estados Unidos
Aumento de casos de EVALI em adolescentes,    com apresentações clínicas variadas e complicações respiratóriasEstudo retrospectivo
de 8 adolescentes
com EVALI, com
descrição clínica, laboratorial e radiológica.
Todos com sintomas
respiratórios; 6 com
sintomas GI; 5 hipoxêmicos; maioria usou THC. Todos melhoraram após corticosteroides.
Reddy et al/2020/
Estados Unidos
Aumento epidêmico de EVALI entre adolescentes; necessidade de caracterização em pacientes criticamente enfermos.Série de casos retrospectiva com 6 adolescentes internados em UTI pediátrica entre 2019-2020.Todos usaram THC e nicotina. Alterações radiológicas difusas. Todos receberam antibióticos e corticosteroides; 1 necessitou intubação. Sem mortes.
Rao et al./2020/ Estados UnidosEVALI em adolescentes não está bem caracterizado; surto em 2019 motivou análise clínica detalhada.Revisão retrospectiva de prontuários de 13 adolescentes hospitalizados com EVALI.92% usaram THC; 85% com sintomas GI; todos com opacidades em vidro fosco na tomografia de alta resolução; melhora com corticosteroides; 1 precisou de ECMO.
Adkins et al./2020/ Estados UnidosAdolescentes diferem de adultos quanto   às características clínicas e comportamentais associadas ao EVALI.Análise transversal de 2155 casos (360 adolescentes) reportados ao CDC em 2019.Adolescentes relataram mais uso informal de produtos com THC, mais TDAH, asma e sintomas GI. Associação forte com uso informal.
East et al./2022/ Estados Unidos, Inglaterra e CanadáPouco se sabe sobre como o surto de EVALI afetou as percepções de risco entre jovens em diferentes países.Pesquisas online transversais com jovens de 16–19 anos em 3 países, entre 2017 e 2020.Percepção negativa aumentou após o surto. Exposição à mídia negativa associada a percepção de maior risco do vaping.
Artunduaga et al./2020/ Estados UnidosEVALI pode apresentar achados típicos em exames de imagem torácica em crianças.Estudo retrospectivo com 14 crianças que realizaram RX e TC torácica ao diagnóstico.100% com opacidades em vidro fosco. TC mostrou predomínio bilateral, simétrico, com predomínio de lobos inferiores.

Fonte: os autores (2025).

Após o surto de EVALI, houve aumento na percepção dos riscos do vaping entre adolescentes, especialmente nos EUA, onde a repercussão midiática foi mais intensa. Muitos jovens passaram a considerar o vaping tão ou mais nocivo que o cigarro convencional, destacando o impacto de eventos de saúde pública na construção social do risco. A exposição à cobertura negativa da mídia teve papel central nesse processo: adolescentes mais expostos a notícias sobre os danos do vaping relataram maior preocupação com seus efeitos. Isso evidencia a influência da mídia na formação de atitudes em saúde, especialmente entre os mais jovens (East et al., 2022).

Notou-se também diferenças regionais: EUA e Canadá mostraram maior aumento na percepção de risco, enquanto a Inglaterra teve mudanças mais leves, possivelmente devido a uma postura oficial mais favorável ao vaping e menor alarmismo na mídia. O contexto sociopolítico e comunicacional, portanto, molda significativamente a percepção dos jovens sobre os riscos à saúde (East et al., 2022).

Rao et al. (2020) realizaram uma análise retrospectiva de prontuários médicos para investigar o perfil clínico e os desfechos de 13 adolescentes hospitalizados com diagnóstico confirmado ou provável de EVALI. Constatou-se que a maioria dos pacientes era do sexo feminino, com idade média de aproximadamente 16 anos. Os sintomas gastrointestinais — como náuseas e vômitos — foram os mais frequentes, ocorrendo em 85% dos casos, muitas vezes precedendo ou se manifestando isoladamente antes do surgimento dos sintomas respiratórios, que também foram relatados por grande parte dos jovens.

Além disso, quase todos os adolescentes (92%) relataram o uso de produtos contendo THC, enquanto o consumo de nicotina foi informado por 62% deles. Apenas um paciente relatou uso exclusivo de nicotina, embora cuidadores tenham levantado suspeitas sobre o envolvimento de outras substâncias. Nos exames de imagem, todos apresentaram alterações pulmonares típicas da condição, como opacidades em vidro fosco bilaterais visíveis nas tomografias de tórax. Curiosamente, alguns desses achados pulmonares foram detectados de forma incidental em exames abdominais realizados inicialmente para investigar queixas gastrointestinais.

No que se refere ao tratamento, o uso de corticosteroides foi amplamente adotado, resultando em melhora clínica significativa em menos de 24 horas na maioria dos pacientes. Apesar disso, alguns casos apresentaram evolução grave, exigindo cuidados intensivos, incluindo ventilação mecânica invasiva e, em determinados casos, oxigenação por membrana extracorpórea (ECMO), o que evidencia a gravidade potencial da EVALI em adolescentes.

 Para além dos aspectos físicos, o estudo revelou que muitos pacientes enfrentavam desafios emocionais e sociais: mais da metade apresentava fatores de risco psicossociais relevantes, como conflitos familiares, dificuldades escolares, transtornos de comportamento ou histórico de problemas de saúde mental. Em alguns casos, o uso de substâncias já era uma preocupação clínica prévia.

A avaliação psicológica foi considerada necessária em quase metade dos casos, e cinco adolescentes foram encaminhados para programas específicos de tratamento da dependência. Os testes de função pulmonar realizados durante e após o tratamento demonstraram melhora significativa dos parâmetros respiratórios na maioria dos pacientes, reforçando o benefício do uso de corticosteroides. Ainda assim, alguns apresentaram déficits persistentes mesmo após a terapia, indicando possíveis impactos respiratórios duradouros.

Um estudo retrospectivo com adolescentes de até 21 anos internados em UTI pediátrica evidenciou a gravidade dos casos de EVALI, com todos os pacientes necessitando de ventilação com pressão positiva e um deles evoluindo para ventilação invasiva. A média de permanência na UTI foi de 5,5 dias, refletindo a severidade respiratória, mesmo entre jovens previamente saudáveis. Não houve óbitos (Reddy et al., 2021).

O tratamento incluiu antibióticos e corticosteróides sistêmicos, mas com grandes variações nas doses e na duração, evidenciando a ausência de protocolos clínicos padronizados. Testes de função pulmonar realizados antes da alta mostraram comprometimento residual em alguns pacientes, sugerindo possíveis sequelas a longo prazo e a necessidade de acompanhamento ambulatorial (Reddy et al., 2021).

Dado o caráter epidêmico do uso de cigarros eletrônicos entre adolescentes nos EUA, entender melhor a EVALI nesse grupo vulnerável é essencial para orientar o manejo clínico e as estratégias de prevenção (Reddy et al., 2021).

Adkins e colaboradores, utilizando dados dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, apontam que o uso recorrente de produtos com THC provenientes de fontes informais está alinhado com evidências anteriores em nível nacional. Os achados sugerem uma forte relação entre esses produtos e a maioria dos casos da lesão pulmonar associada ao uso de cigarro eletrônico ou vaporizador (EVALI), especialmente no contexto do surto registrado em 2019. Análises de amostras obtidas em diferentes regiões dos EUA indicaram a presença de acetato de vitamina E — uma substância associada ao quadro clínico da EVALI — em diversos desses produtos. Importante destacar que essa substância foi identificada no fluido broncoalveolar de pacientes acometidos pela condição, mas não foi detectada em indivíduos sem o diagnóstico, fortalecendo ainda mais a hipótese de sua contribuição direta para a manifestação da doença (Adkins et al., 2020).

Apesar disso, os autores enfatizam que não se pode excluir o envolvimento de outros compostos potencialmente nocivos, estejam eles presentes em produtos com ou sem THC. A origem exata e a diversidade das substâncias envolvidas ainda estão sob investigação, sugerindo que múltiplos fatores podem estar contribuindo para o desenvolvimento da EVALI.

O estudo de Adkins et al., também ressalta a importância de que profissionais da saúde, especialmente aqueles que atuam com adolescentes, reforcem as orientações sobre os riscos relacionados ao uso de dispositivos de vaporização contendo THC, sobretudo quando adquiridos de fontes não regulamentadas. A análise conduzida pelos CDCs revelou ainda que adolescentes diagnosticados com EVALI relataram com mais frequência histórico de TDAH, asma, além de sintomas gastrointestinais e gerais inespecíficos, quando comparados a jovens adultos e adultos. Essa constatação indica que tais comorbidades podem dificultar o diagnóstico precoce e interferir negativamente na condução do tratamento.

Além dos riscos respiratórios, o uso de nicotina e THC durante a adolescência pode comprometer o desenvolvimento neurológico, favorecendo o surgimento de dependência e prejuízos cognitivos de longo prazo. Essas conclusões reforçam a necessidade de estratégias voltadas à prevenção e ao acesso facilitado a serviços de saúde mental, programas de cessação do tabagismo e triagens para uso de substâncias. A sensibilização dos profissionais de saúde quanto à prevalência de sintomas inespecíficos em adolescentes com EVALI pode contribuir significativamente para uma identificação mais rápida da condição e, consequentemente, para a melhora nos desfechos clínicos (Adkins et al., 2020).

Rao et al, em seu estudo, refletem a gravidade da EVALI entre adolescentes e a variedade de manifestações clínicas que podem dificultar o diagnóstico precoce. Também destacam a importância de considerar os fatores sociais e psicológicos no manejo da condição, além de reforçarem o papel do acompanhamento multidisciplinar e da educação sobre os riscos do uso de produtos inaláveis, especialmente os adquiridos informalmente (Rao et al., 2020).

DISCUSSÃO

A lesão pulmonar associada ao uso de cigarro eletrônico (EVALI) tem se configurado como uma condição emergente de significativo impacto clínico e social, especialmente entre adolescentes. Os estudos analisados convergem ao evidenciar a gravidade do quadro respiratório decorrente do uso de cigarros eletrônicos e de seus compostos, além de destacar fatores psicossociais e diagnósticos que tornam o manejo da doença mais complexo.

Nesse contexto, East et al. (2022) analisaram como o surto de EVALI influenciou a percepção dos riscos associados ao uso de cigarros eletrônicos entre jovens de 16 a 19 anos no Canadá, na Inglaterra e nos Estados Unidos — sendo este último o país mais afetado pela condição. Embora a percepção de risco tenha aumentado após o surto, a prevalência do uso de cigarros eletrônicos permaneceu elevada, sobretudo nos Estados Unidos e no Canadá. Fatores como curiosidade, sabores atrativos e influência social mostraram-se mais determinantes no comportamento desses indivíduos do que a percepção de risco isoladamente.

Singh (2022), ao analisar retrospectivamente os prontuários de oito adolescentes diagnosticados com EVALI, destacou que cerca de 50% dos pacientes apresentavam comorbidades psiquiátricas preexistentes, evidenciando uma notória associação entre vulnerabilidade emocional e o uso de cigarros eletrônicos. O autor observou ainda que aproximadamente metade dos participantes possuía algum tipo de desordem psicossocial, como uso de substâncias psicoativas ou transtornos de ansiedade.

Houve uma convergência importante entre os estudos analisados ao apontar que transtornos como TDAH, depressão e ansiedade constituem fatores de risco tanto para o uso de cigarros eletrônicos quanto para o agravamento do prognóstico clínico. A vulnerabilidade emocional, associada à atratividade dos dispositivos eletrônicos — frequentemente comercializados com sabores agradáveis —, reforça a necessidade de políticas públicas voltadas à promoção da saúde mental entre jovens.

Reddy et al. (2021) também observaram que metade dos pacientes analisados apresentava diagnóstico prévio de asma. Esses achados estão em consonância com outros estudos (Artunduaga et al., 2020; Singh, 2022; Rao et al., 2020; CDC, 2019), reforçando o padrão clínico da doença em adolescentes, especialmente naqueles com comorbidades respiratórias e psiquiátricas.

No que se refere às manifestações clínicas, Reddy et al. (2021) relataram que os pacientes com EVALI apresentaram sintomas como taquipneia, febre, náuseas, vômitos e dor abdominal, indicando uma tendência crescente de manifestações sistêmicas nessa faixa etária. Ao analisar o histórico de seis pacientes no Hospital da Infância da Filadélfia, o autor concluiu que a apresentação clínica em adolescentes é semelhante à observada em adultos, exceto pela dor torácica, mais frequentemente relatada em adultos — o que pode ser atribuído à maior prevalência de comorbidades cardíacas nessa população.

Já Adkins et al., (2020), ao analisar os desfechos clínicos por faixa etária, trouxe achados relevantes como a presença de sintomas gastrointestinais e a necessidade de cuidados intensivos como características frequentes em adolescentes enquanto os sintomas respiratórios foram comuns em todas faixas etárias. Tal fato foi atribuído à inexperiência dos adolescentes com o uso do dispositivo eletrônico acarretando na possível ingestão inadvertida de aerossóis o que levou a maior exposição e reações no trato gastrointestinal.

No tocante ao diagnóstico, os estudos que abordam os achados de imagem apresentam resultados que se complementam, destacando o padrão típico de opacidades em vidro fosco e consolidações bilaterais na tomografia computadorizada de alta resolução, com predomínio nos lobos inferiores. Artunduaga et al., (2020) destaca também a presença de consolidações, simétrica e difusas, em mais da metade dos casos, espessamento septal interlobular em menor proporção e o sinal do halo invertido em uma parcela dos pacientes analisados além da preservação subpleural em cerca de 79% das tomografias. A alta concordância interobservador reforça a importância da propedêutica radiológica na identificação precoce da doença.

Por outro lado, todos os pacientes analisados no estudo de Singh, (2020) apresentaram alterações na tomografia computadorizada de tórax. Tal fato corrobora com a importância da imagem na identificação precoce da doença. A presença de um padrão radiológico típico juntamente com a clínica do paciente pode auxiliar no diagnóstico diferencial de síndromes respiratórias agudas e corroborar para um tratamento mais assertivo e eficaz.

Quanto aos fatores etiológicos, os estudos de Rao et al., (2020) e Reddy et al., (2021) são complementares ao identificarem o acetato de vitamina E (VEA) como o principal agente associado aos casos de EVALI A substância, comumente presente em produtos contendo THC obtidos de fontes informais, potencializam a possibilidade de interação entre outros compostos e reforça o caráter multifatorial da doença, cuja fisiopatologia ainda carece de maior esclarecimento científico.

Os estudos convergem, portanto, ao apontar a necessidade de ações integradas de prevenção, que envolvam não apenas a proibição ou regulamentação da venda de dispositivos eletrônicos para menores de idade, mas também estratégias de educação em saúde, capacitação profissional para diagnóstico precoce e suporte em saúde mental. Além disso, os estudos de Adkins et açl., (2020) e Rao et al., (2020) reforçam que a EVALI não é uma condição manejável exclusivamente na atenção primária, demandando frequentemente suporte intensivo, com internações prolongadas e intervenções como ECMO ou ventilação invasiva, conforme demonstrado nos casos mais graves. Destarte, é evidente que isso onera o sistema público uma vez que há o custo direto do tratamento hospitalar e também das potenciais comorbidades associadas ao uso prolongado dos cigarros eletrônicos.

Por fim, os achados reforçam a complexidade da EVALI como uma doença que vai além da lesão pulmonar isolada, envolvendo determinantes sociais, fatores de risco emocionais, vulnerabilidade própria da adolescência e deficiências na comunicação pública sobre os riscos reais do uso desses dispositivos. East et al., (2022) e Artunduaga et al., (2020) reforçam a importância de campanhas de comunicação pública mais claras que salientem a gravidade dessa doença emergente e multifatorial e com grande potencial de desenvolvimento de comorbidades.

CONCLUSÃO

A EVALI representa um problema de saúde em crescimento, especialmente entre adolescentes, caracterizando-se por sintomas que variam desde dificuldades respiratórias até complicações graves que requerem hospitalização. As manifestações mais frequentes incluem dispneia, tosse e sintomas gastrointestinais, como náuseas e vômitos. Além das substâncias inaladas, fatores como ansiedade, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e asma também contribuem para a gravidade dos casos, ressaltando a necessidade de uma abordagem cuidadosa e multidisciplinar no manejo dessa população afetada.

Mesmo após o surto da doença, o uso de cigarros eletrônicos continua alto, impulsionado por fatores como sabor atrativo, marketing e influência dos pares. Isso mostra que só alertar sobre os riscos não basta — é essencial investir em estratégias educativas e políticas públicas eficazes para proteger os jovens desse hábito tão nocivo.

REFERÊNCIAS

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¹Discente do curso de Medicina do Centro Universitário de Excelência (UNEX)
²Farmacêutico, docente da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e discente do curso de Medicina do Centro Universitário de Excelência (UNEX)
³Médico e docente do curso de Medicina do Centro Universitário de Excelência (UNEX)
⁴Nutricionista e discente do curso de Medicina do Centro Universitário de Excelência (UNEX)