WORK SCHEDULE AS A MEDIATING VARIABLE OF POLICE OPERATIONAL EFFICIENCY: THEORETICAL EVIDENCE AND IMPLICATIONS FOR THE MILITARY POLICE OF PARANÁ
REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/ar10202602231144
Leandro do Nascimento¹
Resumo
A organização da jornada de trabalho no âmbito policial militar representa um fator crítico para a manutenção do desempenho institucional e da saúde ocupacional do efetivo. Este estudo examina a relação entre carga horária, regimes de escala e eficiência operacional, tomando como referência a realidade da Polícia Militar do Paraná (PMPR). A pesquisa foi conduzida por meio de revisão integrativa da literatura publicada entre 2010 e 2026, associada à análise documental de normativas e dados institucionais do Estado do Paraná. As evidências indicam que a exposição prolongada a turnos extensos e revezamentos irregulares favorece a ocorrência de fadiga acumulada, distúrbios do sono e estresse ocupacional, fatores que interferem diretamente na qualidade da tomada de decisão, na capacidade de resposta a situações críticas e na segurança das ações policiais. Argumenta-se que a eficiência operacional deve ser compreendida de forma ampliada, incorporando não apenas indicadores quantitativos de produtividade, mas também variáveis relacionadas à qualidade do desempenho humano e à sustentabilidade do trabalho ao longo do tempo. No contexto analisado, destaca-se a necessidade de adoção de práticas gerenciais fundamentadas em evidências científicas, incluindo monitoramento sistemático da carga horária efetiva, revisão de modelos de escala e fortalecimento de políticas preventivas voltadas à saúde mental. Conclui-se que a gestão estratégica da jornada constitui elemento essencial para o aprimoramento da eficiência institucional e para a consolidação de um modelo de segurança pública orientado por critérios técnicos e sustentáveis.
Palavras-chave: Jornada de trabalho. Polícia Militar. Fadiga. Eficiência operacional. Saúde ocupacional.
1 INTRODUÇÃO
A atividade policial militar caracteriza-se por elevada complexidade operacional, exposição contínua a riscos físicos e psicológicos e necessidade de resposta imediata a eventos críticos. Nesse contexto, a organização da jornada de trabalho assume papel central, ao influenciar diretamente o estado de alerta, a capacidade cognitiva e a segurança do efetivo. A literatura internacional demonstra que o trabalho em turnos — especialmente noturno e rotativo — está associado a distúrbios do sono, fadiga acumulada e prejuízos no desempenho psicomotor (Rajaratnam et al., 2011; James; Vila, 2015).
A privação de sono compromete funções executivas, atenção sustentada e tomada de decisão sob pressão, competências essenciais à atividade policial. Estudos conduzidos com policiais indicam que escalas irregulares e jornadas prolongadas estão relacionadas à pior qualidade do sono e maior incidência de fadiga ocupacional (Violanti et al., 2018). Tais fatores não impactam somente a saúde do trabalhador, mas podem repercutir na eficiência operacional, refletida em indicadores como produtividade por turno, número de atendimentos e cumprimento de metas institucionais.
No Brasil, pesquisas sobre estresse ocupacional em policiais militares apontam que sobrecarga de trabalho e fatores organizacionais contribuem para desgaste psicofísico e aumento do absenteísmo (Minayo; Souza; Constantino, 2007). Entretanto, observa-se lacuna na literatura nacional quanto à análise direta da relação entre jornada de trabalho e eficiência operacional, sobretudo em estudos com recorte institucional específico.
No Estado do Paraná, relatórios estatísticos criminais divulgados pela Secretaria de Segurança Pública evidenciam a dinâmica da demanda por serviços policiais e a necessidade constante de eficiência operacional (PARANÁ, 2025). Paralelamente, programas institucionais como o PRUMOS indicam reconhecimento da importância da saúde mental na atuação dos profissionais da segurança pública (PARANÁ, 2023).
À luz das transformações contemporâneas na organização do trabalho policial e das exigências crescentes por desempenho institucional qualificado, impõe-se a seguinte problemática investigativa: em que medida a configuração da jornada laboral atua como variável estruturante da eficiência operacional no âmbito da Polícia Militar do Paraná? Parte-se do pressuposto teórico de que a organização temporal do trabalho — especialmente quando marcada por extensões prolongadas de turno, regimes de revezamento e acúmulo sistemático de carga horária — interfere diretamente nos processos psicofisiológicos do trabalhador, afetando mecanismos cognitivos e emocionais indispensáveis à tomada de decisão em contextos de risco. Assim, sustenta-se como hipótese central que a intensificação da jornada tende a produzir fadiga acumulativa e sobrecarga ocupacional, comprometendo a qualidade do desempenho e reduzindo a eficiência operacional, entendida não apenas como volume de produtividade por turno, mas como capacidade institucional de atingir metas com estabilidade, precisão decisória e sustentabilidade ao longo do tempo.
Nessa perspectiva, o objetivo geral desta investigação consiste em analisar a jornada de trabalho como variável mediadora entre condições organizacionais e eficiência operacional policial. Para tanto, adota-se como estratégia metodológica uma revisão integrativa da literatura indexada no período de 2010 a 2026, articulada a um estudo de caso documental aplicado ao contexto paranaense, com ênfase na Polícia Militar do Paraná. Especificamente, busca-se: identificar, na produção científica recente, evidências empíricas relativas aos efeitos de turnos extensos sobre fadiga e desempenho profissional; examinar as possíveis correlações entre desgaste ocupacional e indicadores institucionais de eficiência; e contextualizar tais achados à realidade normativa e operacional da PMPR, a partir da análise de dados públicos e dispositivos regulatórios vigentes.
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA
O debate acerca da jornada de trabalho no âmbito policial insere-se em um campo analítico de natureza interdisciplinar, que integra aportes da saúde ocupacional, da psicologia organizacional, da administração pública e dos estudos em segurança pública. Nas últimas duas décadas, a produção científica internacional tem ampliado de forma consistente a compreensão dos impactos do trabalho em turnos sobre o sono, a fadiga e o funcionamento cognitivo, sobretudo em profissões consideradas críticas, como medicina, aviação e forças de segurança.
O regime de turnos é amplamente reconhecido como elemento capaz de alterar o ritmo circadiano, repercutindo diretamente na qualidade do repouso e nos níveis de vigilância e alerta (Rajaratnam et al., 2011). No caso da atividade policial, tais efeitos tendem a se intensificar em razão da imprevisibilidade das ocorrências, da exposição recorrente a situações potencialmente traumáticas e da exigência de prontidão permanente. Investigações longitudinais conduzidas com policiais norte-americanos apontam associação significativa entre escalas rotativas, redução da qualidade do sono, aumento de fadiga acumulada e maior incidência de agravos cardiometabólicos (Violanti et al., 2018).
Para além das repercussões orgânicas, a literatura destaca impactos relevantes sobre o desempenho cognitivo. A restrição de sono afeta funções executivas, atenção contínua, velocidade de resposta e processos decisórios em contextos de pressão (James; Vila, 2015). No exercício policial, essas competências são determinantes para avaliação adequada do cenário operacional, aplicação proporcional da força e condução segura de viaturas. Nesse sentido, a fadiga ultrapassa a dimensão individual e assume caráter organizacional, na medida em que pode interferir tanto na eficiência quanto na segurança institucional.
Sob a ótica da administração pública e da gestão organizacional, eficiência operacional refere-se à capacidade de converter recursos disponíveis em resultados concretos e mensuráveis. No campo policial, métricas como número de atendimentos por turno, produtividade por efetivo, cumprimento de metas estratégicas e tempo de resposta costumam servir como parâmetros de desempenho. Todavia, tais indicadores não podem ser analisados isoladamente das condições laborais que os sustentam, uma vez que o desempenho institucional está intrinsecamente ligado à qualidade do trabalho realizado (Vila, 2006).
O panorama internacional evidencia crescente preocupação com a implementação de sistemas estruturados de gestão da fadiga (“fatigue management systems”), sobretudo em organizações classificadas como de alto risco. Estudos recentes sugerem que intervenções institucionais envolvendo reconfiguração de escalas, controle de horas extraordinárias e capacitação sobre higiene do sono tendem a reduzir níveis de exaustão e aprimorar o desempenho autorreferido dos profissionais (Garbarino et al., 2019). Ainda assim, permanecem lacunas quanto à mensuração objetiva dos efeitos dessas estratégias sobre indicadores operacionais concretos.
No cenário brasileiro, a produção acadêmica concentra-se majoritariamente na análise do estresse ocupacional e da saúde mental de policiais militares. Pesquisas consolidadas apontam que sobrecarga laboral, exposição contínua à violência e ambiguidades organizacionais favorecem desgaste psicofísico e ampliação de afastamentos (Minayo; Souza; Constantino, 2007). De modo convergente, Silva e Vieira (2008) enfatizam que a forma como o trabalho policial é estruturado — incluindo jornadas extensas e escalas irregulares — constitui elemento central no processo de adoecimento.
Apesar desses avanços, observa-se que a literatura nacional ainda explora de maneira limitada a relação direta entre organização da jornada e eficiência operacional mensurada por indicadores de produção. Predominam investigações voltadas a desfechos subjetivos, como estresse, burnout e sofrimento psíquico, com menor ênfase na articulação entre condições de trabalho e resultados institucionais objetivos.
No contexto do Estado do Paraná, a temática da eficiência institucional ganha relevo diante da divulgação sistemática de indicadores criminais pela Secretaria de Segurança Pública (PARANÁ, 2025), os quais evidenciam oscilações na demanda por serviços policiais e reforçam a necessidade de estratégias organizacionais capazes de assegurar desempenho sustentável. Paralelamente, iniciativas como o Programa PRUMOS sinalizam reconhecimento institucional de que saúde mental e qualidade das condições de trabalho são dimensões estratégicas para a prestação eficiente do serviço público (PARANÁ, 2023).
Diante desse panorama, o estado da arte permite sintetizar três constatações principais: existem evidências consistentes de que o trabalho em turnos afeta negativamente sono e fadiga em policiais; há comprovação robusta de que a fadiga compromete o desempenho cognitivo; e permanece insuficientemente desenvolvida, especialmente no contexto brasileiro, a análise direta da associação entre jornada laboral e eficiência operacional institucional. Tal lacuna fundamenta a presente investigação, que propõe integrar essas dimensões sob a perspectiva da gestão pública aplicada à segurança.
3 METODOLOGIA
Trata-se de estudo de abordagem qualitativa, fundamentado em revisão integrativa da literatura científica e complementado por análise documental aplicada ao contexto da Polícia Militar do Paraná (PMPR). A revisão foi conduzida com base em produções indexadas no período de 2010 a 2026, selecionadas em bases de dados nacionais e internacionais, priorizando pesquisas empíricas e revisões sistemáticas relacionadas a jornada de trabalho, trabalho em turnos, fadiga ocupacional, estresse laboral e desempenho em atividades de segurança pública. Os critérios de inclusão contemplaram estudos com delineamento metodológico explícito e aderência temática ao objeto investigado; foram excluídas publicações sem rigor científico ou com foco dissociado da relação entre organização temporal do trabalho e desempenho operacional.
A estratégia de busca utilizou descritores combinados por operadores booleanos, em português e inglês, tais como “jornada de trabalho”, “shift work”, “police performance”, “fatigue”, “operational efficiency” e “occupational stress”. Após triagem por título e resumo, procedeu-se à leitura integral dos textos selecionados, com análise crítica orientada por categorias analíticas previamente definidas: (i) impactos psicofisiológicos da jornada prolongada; (ii) efeitos sobre desempenho e tomada de decisão; e (iii) implicações organizacionais para eficiência institucional.
Como complemento analítico, realizou-se estudo de caso documental com foco no Estado do Paraná, examinando normativas institucionais, dados públicos e instrumentos regulatórios relacionados à gestão da jornada e ao emprego operacional na PMPR. A articulação entre evidências científicas e contexto institucional permitiu interpretar a jornada de trabalho como variável mediadora entre condições organizacionais e eficiência operacional, assegurando coerência entre fundamentação teórica e aplicabilidade prática.
| Elemento | Descrição |
| Tipo de estudo | Qualitativo-analítico |
| Estratégia metodológica | Revisão integrativa (2010–2026) + Estudo de caso documental |
| Bases de dados | PubMed/MEDLINE, Scopus, Web of Science, SciELO |
| Critérios de inclusão | Artigos revisados por pares; população policial; relação entre jornada e sono/fadiga/desempenho |
| Processo de seleção | Triagem por título, resumo e leitura integral (referência metodológica inspirada no PRISMA) |
| Categorias analíticas | Jornada e sono; fadiga e desempenho; implicações para eficiência operacional. |
| Estudo de caso | Relatórios estatísticos da SESP-PR e documentos institucionais (ex.: PRUMOS) |
| Contribuição | Integração entre evidências científicas e realidade institucional paranaense |
| Limitações | Uso de dados secundários; ausência de dados operacionais por turno. |
4 RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS
Os estudos revisados indicam que a jornada de trabalho, sobretudo quando associada a turnos noturnos, alternância frequente de horários e extensão recorrente por demandas extraordinárias, atua como determinante central do desempenho operacional em atividades de segurança pública. No plano psicofisiológico, a literatura aponta que a privação de sono e a fadiga não se restringem à sensação subjetiva de cansaço, mas repercutem sobre processos cognitivos críticos para o trabalho policial, como atenção sustentada, velocidade de reação, controle inibitório e tomada de decisão sob pressão. Evidências nacionais em profissionais de policiamento ostensivo e correlatos reforçam que a manutenção prolongada de condições de privação de sono, fadiga persistente e estresse contínuo tende a produzir danos cognitivos progressivos e prejuízos no desempenho das atividades e na saúde mental (Freitas, 2023).
No campo empírico, pesquisas recentes com recortes aplicados à realidade policial/militar têm demonstrado padrões de sono aquém do recomendado em amostras de trabalhadores submetidos a escalas e exigências operacionais. Em estudo publicado pela Revista Brasileira de Estudos de Segurança Pública, os autores observaram duração de sono inferior ao intervalo considerado protetivo (em torno de 7 a 8 horas em 24h) em parte relevante da amostra, com indicativos de impacto sobre eficiência do sono e presença de distúrbios do sono em contexto de trabalho militar, aspecto que, em organizações de segurança, se relaciona diretamente à sustentação da vigilância e do desempenho em tarefas de risco (Mazariolli et al., 2023).
As extensas jornadas de trabalho apresentam impactos significativos na saúde física dos policiais. Pesquisas apontam que horários prolongados estão relacionados a um aumento na ocorrência de doenças cardiovasculares, hipertensão, diabetes e problemas musculoesqueléticos (Caruso, 2014). Policiais militares, devido à natureza exigente de suas funções, estão particularmente expostos a esses riscos.
Além disso, a saúde mental dos policiais é seriamente comprometida pelas longas jornadas. O estresse contínuo, a privação de sono e a exposição diária a situações de perigo contribuem para o surgimento de transtornos psicológicos, como depressão e síndrome do pânico (Silva, 2017). A sobrecarga de trabalho pode ainda resultar em esgotamento profissional, ou burnout, caracterizado por exaustão emocional, despersonalização e redução na sensação de realização pessoal no trabalho (Maslach e Jackson, 1981).
Os efeitos das jornadas exaustivas não se restringem ao âmbito profissional, atingindo também a vida social e familiar dos policiais. A escassez de tempo para estar com a família e amigos pode gerar conflitos conjugais, dificuldades nos relacionamentos com os filhos e isolamento social. Esses fatores, por sua vez, tendem a intensificar o estresse e a insatisfação com o trabalho, alimentando um ciclo vicioso difícil de superar (Cano, 2016).
No contexto da Polícia Militar do Paraná, a discussão sobre jornada ganha contornos específicos por coexistirem o policiamento ostensivo regular, demandas administrativas e mecanismos de emprego extrajornada. A normatização de regimes extraordinários, embora vise ampliar a presença policial e cobertura de ocorrências, traz consigo um problema de equilíbrio entre disponibilidade operacional e recuperação. O Projeto de Lei nº 313/2023, ao tratar da atividade extrajornada voluntária no Paraná, explicita a necessidade de intervalos mínimos de descanso antes e depois do emprego extraordinário, reconhecendo, no próprio desenho normativo, que a ausência de recuperação adequada compromete a condição laboral do agente (PARANÁ, 2023).
A eficiência operacional dos policiais militares pode ser significativamente impactada por jornadas prolongadas de trabalho. O desgaste físico e mental associado a essas condições tende a comprometer a capacidade de concentração, aumentar a incidência de erros e reduzir a eficácia na execução das atividades cotidianas (Martins, 2014). Ademais, o estado de fadiga crônica influencia negativamente os processos de tomada de decisão e a agilidade na resposta a situações de emergência, representando um potencial risco à segurança pública.
Além disso, as relações interpessoais no ambiente laboral podem ser profundamente afetadas. A exposição contínua a condições de exaustão extrema propicia manifestações de irritabilidade, redução da tolerância e dificuldade em estabelecer colaboração com os colegas de equipe. Esses fatores aumentam a probabilidade de conflitos internos e comprometem o desempenho coletivo, impactando negativamente a dinâmica do trabalho em equipe (Gomes, 2018).
Dessa forma, os resultados da revisão sustentam que a jornada impacta a eficiência operacional não apenas por “tempo disponível de policiamento”, mas pela qualidade funcional do policial ao longo do turno e no acúmulo semanal/mensal. Em termos de eficiência, isso implica reconhecer que indicadores como quantidade de abordagens, atendimentos ou patrulhamentos podem se manter ou até crescer no curto prazo, enquanto a qualidade técnico-procedimental e a segurança decisória declinam quando há fadiga acumulada, aumentando a probabilidade de erros, retrabalho, incidentes e riscos operacionais.
Outro achado consistente da literatura é que a jornada extensa funciona como amplificador do estresse ocupacional, sobretudo quando se articula a fatores organizacionais e de exposição ao risco. Em estudo recente com policiais do Estado do Paraná, aplicado a efetivo operacional e com uso do Inventário de Sintomas de Stress para Adultos de Lipp (ISSL), observou-se concentração relevante de sintomas em fases consideradas críticas (resistência e quase-exaustão), além de associação entre tempo de serviço e aumento dos níveis de estresse, sugerindo desgaste cumulativo (Dambros, 2025).
Em muitas profissões, a exigência profissional é bastante significativa, e na atividade policial militar, suas ações diárias exigem um preparo psicológico maior, visto a interferência direta desses fatores, que associados ao aumento da violência e à falta de preparo ou mesmo de condições profissionais, exigidos para a atividade profissional, fazem do trabalho policial um dos mais desgastantes (Arroyo et al., 2019).
Em diversas profissões, a demanda profissional é bastante elevada, e no caso da atividade policial militar, as ações cotidianas requerem um preparo psicológico ainda mais intenso. Tal necessidade decorre da influência direta de diversos fatores, que, somados ao aumento da violência e à carência de preparo adequado ou mesmo de condições profissionais exigidas para o desempenho da função, tornam o trabalho policial um dos mais desgastantes (Arroyo et al., 2019).
Esse resultado dialoga com o argumento de que, em atividades de alto risco, o estresse crônico reduz a eficiência operacional por mecanismos diretos e indiretos. Diretamente, ao comprometer regulação emocional, flexibilidade cognitiva e tolerância a frustrações, elementos decisivos para abordagens seguras, manejo de conflito e comunicação com o público. Indiretamente, ao elevar adoecimentos, afastamentos, rotatividade de função e conflitos internos, gera-se perda de continuidade de equipes e aumento de custos institucionais. Embora parte da literatura nacional descreva o fenômeno com ênfase em saúde mental, o efeito organizacional é inseparável: quando o estresse se acumula e a recuperação é insuficiente, a corporação enfrenta redução da “eficiência sustentável”, isto é, a capacidade de manter resultados operacionais com segurança, qualidade e previsibilidade ao longo do tempo. Trabalhar na área de Segurança Pública já representa, por si só, um grande risco à saúde do indivíduo, sendo uma das atividades mais perigosas do mundo.
Os estudos analisados até o momento, incluindo os de Abdala e da Silva (2012) e Arroyo, Borges & Lourenção (2019), salientam que as funções dos policiais militares são de alto risco, acompanhadas por elevados níveis de estresse. As atividades desempenhadas nesse campo sofrem profundas influências psicológicas que afetam diretamente a qualidade de vida desses profissionais, abrangendo aspectos relacionados à vida social, aos fatores biológicos e, principalmente, aos aspectos emocionais.
É importante ressaltar que o policial, responsável pela proteção de tantas pessoas, enfrenta o desafio contínuo de cuidar de si mesmo. Como qualquer indivíduo, ele possui necessidades e anseios que se refletem nas virtudes e nos problemas presentes na sociedade em que está inserido. A profissão é permeada por constantes pressões e adversidades, já que suas atribuições caminham sobre uma linha tênue que gera impactos variados não somente na vida profissional, mas também na vida social e pessoal. Isso contribui para problemas significativos na saúde do militar, desencadeando outros desafios, como apontado por Viana (2012).
No caso específico da PMPR, estudos de revisão sobre saúde mental no Estado apontam que estressores como exposição à violência e percepção social negativa do trabalho, combinados a condições institucionais e à pressão cotidiana, são relevantes para compreender o desgaste psíquico e seus efeitos sobre a atuação profissional (Oliveira; Prado, 2024). Assim, a jornada não deve ser tratada como variável isolada: ela interage com cultura hierárquica, disponibilidade de suporte psicossocial, desenho de escalas, volume de horas extras e qualidade do descanso.
No Paraná, um importante projeto que está sendo desenvolvido pela Assessoria de Planejamento Estratégico e Gestão de Projetos da SESP (Secretaria do Estado da Segurança Pública), denominado Programa “Prumos”, o qual “oferece suporte à saúde mental dos policiais militares, civis, bombeiros militares, agentes penitenciários e peritos oficiais, além de seus familiares, os quais estão expostos a situações de violência, estresse e pressão”. Legalmente, o programa está amparado pelo Decreto Estadual nº 6297 de 04 de dezembro de 2020 (PARANÁ, 2020).
O Programa de Saúde Preventiva da PMPR, implementado pela Diretoria de Saúde da PMPR, merece destaque, uma vez que possibilita ao efetivo a realização de exames médicos e o diagnóstico precoce de doenças, como aponta Taborda (2021).
Tanto em âmbito nacional quanto no estado do Paraná, nota-se a implantação de programas voltados à saúde dos profissionais da segurança pública. Essa implementação reflete mais uma necessidade evidente do que uma simples iniciativa, surgindo como resposta às demandas apresentadas aos gestores ao longo do tempo para lidar com os desafios enfrentados por esses profissionais. Essas iniciativas evidenciam uma preocupação crescente com o bem-estar dos militares estaduais, oferecendo suporte significativo e promovendo melhores condições de vida tanto no ambiente de trabalho quanto fora dele.
A revisão também identificou que o desenho da escala é um componente estruturante na relação entre jornada e eficiência. Em trabalho recente dedicado à aplicação de turnos de 12h com arranjos 12×24/12×72 no emprego operacional de militares estaduais do Paraná, o autor discute a escala como instrumento de organização da força, articulando-a a diretrizes de emprego operacional e à busca de equilíbrio entre policiamento ostensivo e descanso (Girotto, 2025).
Do ponto de vista da eficiência operacional, o debate sobre escalas é crucial porque a mesma carga horária formal pode produzir efeitos distintos quando distribuída de maneira mais ou menos compatível com a recuperação fisiológica e a vida social do trabalhador. Em termos práticos, escalas que geram prolongamento frequente de turno, “dobras” ou sucessivas ativações extrajornada podem preservar a presença policial imediata, porém elevam o risco de degradação do desempenho em tarefas que exigem vigilância, direção em patrulhamento, tomada de decisão rápida e manejo de situações críticas. A própria existência de balizas normativas sobre descanso mínimo em empregos extraordinários no Paraná evidencia que a gestão pública reconhece limites psicofisiológicos que, se ultrapassados, comprometem a qualidade do serviço (PARANÁ, 2023).
Assim, a discussão dos resultados indica que a PMPR, ao planejar escalas e programas extrajornada, precisa considerar que eficiência operacional envolve não somente “quantos turnos são cobertos”, mas “em que condição os turnos são cobertos”. Em outras palavras, a eficiência deve ser medida também por desfechos qualitativos, como redução de incidentes, diminuição de erros procedimentais, estabilidade emocional nas interações e menor necessidade de retrabalho administrativo decorrente de falhas em ocorrências.
Um dos achados mais relevantes para o diálogo com a PMPR emerge de pesquisas empíricas com efetivo do Paraná que associam adoecimento ocupacional e impactos institucionais. Em estudo transversal com policiais do 3º Batalhão de Polícia Militar do Paraná, identificou-se prevalência expressiva de burnout e associação negativa entre burnout e qualidade de vida, com pior desempenho em domínios relacionados ao meio ambiente e condições de trabalho; além disso, dimensões como exaustão emocional correlacionaram-se negativamente com domínios físico e psicológico (Vieira et al., 2025).
Esses dados são especialmente importantes para a tese do artigo porque conectam robustamente a discussão sobre jornada a um desfecho organizacional: o burnout, ao envolver exaustão emocional e despersonalização, tende a reduzir a qualidade da interação com o público, a disposição para ações proativas e a consistência decisória em situações críticas. Em termos de eficiência operacional, isso significa maior propensão a falhas, aumento de conflitos, maior desgaste interpessoal e, no limite, elevação de afastamentos e custos de substituição. Em complemento, estudo publicado em base internacional de livre acesso, com foco em policiais militares de município do Paraná e referência explícita à PMPR, reforça a pertinência de compreender burnout e fatores laborais associados como subsídio para estratégias de promoção de saúde e gestão do trabalho (Ribeiro et al., 2024).
A gestão eficiente de pessoas desempenha um papel essencial na redução dos impactos negativos ocasionados por jornadas de trabalho prolongadas. A implementação de políticas voltadas para a promoção da saúde e do bem-estar dos policiais, como iniciativas de apoio psicológico, atividades recreativas e ações preventivas voltadas à saúde, pode gerar avanços significativos na qualidade de vida no trabalho (QVT), conforme destacado por Chiavenato em 2014. No entanto, a administração do capital humano no setor público enfrenta constantes desafios ao equilibrar o cuidado com o bem-estar dos servidores e a necessidade de atender às demandas da população. Esse contexto é ainda mais complexo no ambiente da Polícia Militar, onde as exigências relacionadas à segurança pública geralmente resultam em rotinas exaustivas e prolongadas. Assim, torna-se imprescindível buscar estratégias que garantam a eficiência operacional sem prejudicar a saúde física e mental, bem como a satisfação pessoal dos policiais.
Uma possível solução para minimizar os efeitos negativos das longas jornadas seria adotar medidas voltadas à flexibilização do regime de trabalho, propondo escalas menos sobrecarregadas. A implementação de turnos alternados, que ofereçam períodos mais amplos de descanso entre as jornadas, pode ser uma estratégia eficaz para mitigar o desgaste físico e psicológico dos profissionais, além de favorecer uma melhora no desempenho geral das atividades realizadas (Vaz, 2021).
A melhoria das condições de trabalho, por meio de políticas bem elaboradas e uma gestão atenta do capital humano, traz benefícios não somente para a saúde e o bem-estar dos policiais, mas também para a eficiência e a eficácia da instituição na totalidade. Ao priorizar e valorizar a importância da qualidade de vida no ambiente laboral, possibilita-se criar um espaço mais sustentável e produtivo, onde os policiais possam exercer suas funções com maior motivação, segurança e satisfação. Esse cenário impacta diretamente a qualidade dos serviços prestados à sociedade. Dessa forma, investir no bem-estar e na saúde dos policiais ultrapassa o âmbito da justiça social, configurando-se como uma estratégia essencial para o fortalecimento da segurança pública (Faria & Ahrens, 2025).
Diante do conjunto das evidências analisadas, observa-se que a jornada de trabalho não atua somente como variável organizacional periférica, mas como elemento estruturante da eficiência operacional policial. A literatura revisada demonstra que a privação de sono, a fadiga acumulada e a alternância irregular de turnos afetam diretamente funções executivas, tempo de reação, julgamento situacional e regulação emocional, competências centrais à atividade policial. No contexto da Polícia Militar do Paraná, cuja atuação envolve decisões rápidas em ambientes de alto risco, tais impactos assumem relevância estratégica ao comprometerem não somente a saúde individual do policial, mas a qualidade e previsibilidade da resposta institucional.
A análise integrada permite inferir que modelos de escala que concentram carga horária excessiva em períodos contínuos, ainda que operacionalmente convenientes, podem produzir efeitos contraproducentes no médio e longo prazo. A eficiência operacional sustentável — entendida como a capacidade de manter resultados com segurança, qualidade e estabilidade ao longo do tempo — depende de políticas de gestão de jornada que considerem limites fisiológicos e cognitivos humanos.
Nesse sentido, os achados indicam a necessidade de transição de um modelo tradicional de administração de escalas, centrado exclusivamente na cobertura operacional, para um modelo baseado em evidências científicas. Entre as medidas possíveis destacam-se: a revisão periódica das escalas com monitoramento de horas efetivamente trabalhadas; a limitação estruturada de jornadas extraordinárias sucessivas; a implementação de protocolos institucionais de avaliação de fadiga; e o fortalecimento de programas preventivos de saúde mental já existentes, como iniciativas voltadas ao acompanhamento psicológico e à educação sobre higiene do sono.
Adicionalmente, recomenda-se incorporar indicadores de eficiência ajustados por carga horária, permitindo analisar a produtividade por turno em relação ao nível de exposição à fadiga. Essa abordagem possibilitaria à corporação avaliar não somente “quanto” se produz, mas “em que condições” se produz, promovendo uma gestão mais estratégica e humanizada do efetivo.
Assim, a jornada de trabalho deixa de ser somente um dado administrativo e constitui variável mediadora entre saúde ocupacional e desempenho organizacional, exigindo tratamento técnico, preventivo e contínuo no âmbito da gestão policial militar.
Em síntese, os resultados da revisão sustentam que a jornada de trabalho opera como variável mediadora entre condições organizacionais e eficiência operacional. Quando a escala e o emprego extrajornada ampliam sistematicamente o tempo de exposição ao risco, reduzem o descanso e aumentam o estresse, observa-se maior probabilidade de fadiga, sofrimento psíquico e burnout; e tais condições, por sua vez, comprometem o desempenho qualitativo do policiamento e a eficiência sustentada do serviço. Esse encadeamento é particularmente relevante para a PMPR, por existirem evidências empíricas com batalhões do Paraná e discussões recentes sobre modelos de escala alinhados às diretrizes de emprego operacional, abrindo espaço para intervenções institucionais com base científica (Girotto, 2025; Vieira Et Al., 2025; Dambros, 2025).
5 CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise desenvolvida permite afirmar que a jornada de trabalho constitui elemento estruturante da eficiência operacional policial, não podendo ser tratada somente como variável administrativa ou instrumento de ampliação de cobertura territorial. As evidências científicas indicam que a exposição prolongada a escalas extensas e a recuperação insuficiente produzem efeitos cumulativos sobre fadiga, sono e regulação emocional, comprometendo funções cognitivas centrais à atuação policial. Em ambientes operacionais de alto risco, como os vivenciados pela Polícia Militar do Paraná, tais impactos assumem dimensão estratégica ao influenciarem diretamente a qualidade das decisões, a segurança das abordagens e a confiabilidade institucional.
O estudo reforça que a eficiência sustentável da corporação depende do equilíbrio entre disponibilidade operacional e preservação da capacidade funcional do efetivo. A gestão da jornada deve, portanto, integrar indicadores quantitativos e qualitativos, incorporando métricas relacionadas à saúde ocupacional, estabilidade decisória e redução de retrabalho decorrente de falhas operacionais. A adoção de protocolos institucionais de monitoramento da carga horária real, a revisão periódica dos modelos de escala e o fortalecimento de programas preventivos de saúde mental configuram medidas concretas e viáveis para aprimoramento organizacional.
Além disso, a construção de uma cultura institucional baseada em evidências científicas pode contribuir para superar modelos tradicionais de administração do tempo de trabalho, orientando decisões mais estratégicas e sustentáveis. A eficiência operacional, nesse contexto, deve ser compreendida como resultado da interação entre estrutura organizacional, saúde ocupacional e qualidade do desempenho humano.
Por fim, recomenda-se que futuras pesquisas empíricas no âmbito da PMPR investiguem a correlação entre jornada real trabalhada, indicadores de produtividade e registros de afastamentos por adoecimento, bem como análises comparativas entre diferentes regimes de escala. Tais estudos poderão fornecer subsídios ainda mais robustos para a formulação de políticas públicas de gestão do trabalho policial, fortalecendo a segurança pública com base em critérios técnicos e científicos.
REFERÊNCIAS
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¹Licenciado em Letras pela Faculdade Anhanguera de Ponta Porã-MS. Pós-graduado “Lato Sensu” em Segurança Pública e Análise Criminal pela Faculdade UNINA-PR. E-mail: leandro@hotmail.com
