IRRIGAÇÃO NO AGRONEGÓCIO GOIANO: UMA ANÁLISE MULTIFACETADA DA EFICIÊNCIA HÍDRICA, SUSTENTABILIDADE E DESAFIOS DE IMPLEMENTAÇÃO

REGISTRO DOI: 10.69849/revistaft/dt10202512080901


Ronivon Almeida de Oliveira¹
Walyson Bruno Ferreira da Silva Santos¹
Stephanie Vicente de Bessa²


Resumo

A irrigação é decisiva para a competitividade da agricultura goiana, mas precisa  conciliar eficiência hídrica, conservação ambiental e governança por bacia. Este trabalho teve  como objetivo sistematizar diretrizes práticas e metas mensuráveis para uma irrigação eficiente  e sustentável no estado. Realizou-se revisão narrativa com protocolo de busca (2012–2025) em  fontes técnicas e oficiais, sintetizando evidências nos eixos técnico, energético, institucional e  climático. Os resultados indicam: metas de CUC 85–90% e CUD 75–80% em aspersão; EU  ≥90% em localizada; manejo ET₀–Kc integrado a sensores capaz de reduzir 10–20% da lâmina  sem perda de produtividade; medição/telemetria de vazão; auditorias pré/meio de safra; queda  de kWh·m⁻³ com operação fora de ponta e VFD; controle de CE/SDT/RAS e drenagem para  evitar salinização. Conclui-se pela adoção de um Plano de Manejo integrado à outorga e ao  crédito, com modelos cooperativos e monitoramento contínuo. 

Palavras-chaves: Irrigação; Eficiência Hídrica; Produtividade da Água; Automação;  Sensoriamento. 

Abstract

Irrigation is crucial for the competitiveness of Goiás’ agriculture, but it must  balance water efficiency, environmental conservation, and basin governance. This study aimed  to systematize practical guidelines and measurable goals for efficient and sustainable irrigation  in the state. A narrative review was conducted with a search protocol (2012–2025) of technical  and official sources, synthesizing evidence across technical, energy, institutional, and climate  axes. The results indicate: targets of 85–90% CUC and 75–80% CUD for sprinkler irrigation;  EU ≥90% for localized irrigation; ET₀–Kc management integrated with sensors capable of  reducing the depth by 10–20% without loss of productivity; flow measurement/telemetry; pre and mid-harvest audits; kWh m⁻³ reduction with off-peak operation and VFD; CE/SDT/RAS  control and drainage to prevent salinization. The conclusion is to adopt a Management Plan  integrated with granting and credit, with cooperative models and continuous monitoring. 

Keywords: Irrigation; Water Efficiency; Water Productivity; Automation; Sensing.

1. Introdução 

A agricultura brasileira, pilar da economia e da segurança alimentar, enfrenta o desafio  de sustentar e ampliar a produção sob crescente variabilidade climática. Em Goiás, polo  agrícola de relevância nacional, a irregularidade de chuvas e a recorrência de veranicos típicos  do Cerrado tornam a irrigação uma estratégia estruturante para estabilizar safras, reduzir riscos  e elevar a eficiência no uso da terra e da água. Ao mitigar o estresse hídrico em janelas críticas  do ciclo, do florescimento e enchimento de grãos, e viabilizar cultivos de inverno, a irrigação  aumenta a produtividade e a previsibilidade de resultados, reforçando a competitividade  regional (ANA, 2023; EMBRAPA, 2022). 

Nos últimos anos, o estado tem mostrado uma rápida aceitação de sistemas de irrigação  pressurizados. O pivô central tornou-se comum em grandes áreas de plantio de grãos e  sementes, enquanto as técnicas de gotejamento e microaspersão cresceram em hortas e pomares  de alto valor. Para 2024, o Brasil espera ter 33.846 pivôs, irrigando cerca de 2,2 milhões de  hectares, com a maior parte dessa área (mais de 70%) no Cerrado. Em Goiás, rios como São  Marcos e Paranaíba concentram grande parte desse sistema, o que exige cuidado constante com  a segurança da água e o equilíbrio entre os diferentes usos em toda a bacia (ANA, 2023). 

A centralidade da irrigação no consumo de água torna urgente um manejo eficiente e  transparente. Em 2022, a irrigação respondeu por aproximadamente 50,5% das retiradas  nacionais, à frente do abastecimento urbano (23,9%) e da indústria (9,4%). A sequência recente  de La Niña, até o início de 2023, e posteriormente de El Niño intensificou extremos climáticos,  demandando planejamento baseado em previsões sazonais, reservas estratégicas e protocolos  operacionais para períodos de escassez. No Centro-Oeste, tais sinais são modulados por  sistemas regionais, como a Zona de Convergência do Atlântico Sul, recomendando decisões  orientadas por cenários probabilísticos e atualização mensal de informações (ANA, 2023;  EMBRAPA, 2022). 

Tecnicamente, o desempenho depende de indicadores e práticas já estabelecidas, como  o uso de ET₀–Kc para calcular a evapotranspiração da cultura e definir quantidade e frequência  de irrigação. É importante monitorar a uniformidade (CUC, CUD) e a eficiência da aplicação  (Ea) além de avaliar a produtividade da água (WUE, IWP) que relaciona o uso de água e energia  com o retorno financeiro.

Automação, telemetria, monitoramento de solo e clima, calibração de pressão e vazão  por setor e, quando indicado, irrigação deficitária controlada tendem a elevar CUC, CUD, Ea e  reduzir custos. Em ambientes planos com lençol freático raso, a prevenção de salinização e  sodificação requer monitoramento de condutividade elétrica e RAS, frações de lixiviação  compatíveis e drenagem adequada (EMBRAPA, 2022; ANA, 2023). 

Do ponto de vista institucional, a governança é crucial. Nos corpos d’água federais, a  autorização é concedida pela ANA, enquanto em domínio estadual, em Goiás, fica a cargo da  SEMAD-GO. O Decreto Estadual nº 10.280/2023 regulamenta a cobrança pelo uso da água,  criando incentivos econômicos que promovem a eficiência, a medição e a transparência. A  harmonização entre políticas de irrigação, planos de bacia e ferramentas de conservação, APPs,  recarga e controle de assoreamento, é essencial para reconciliar a competitividade agrícola com  a segurança hídrica (ANA, 2023; EMBRAPA, 2022). 

2. Métodos 

Este Trabalho de Conclusão de Curso apresenta uma revisão narrativa sobre irrigação  no Cerrado goiano, seguindo um protocolo metodológico. O estudo estabeleceu com  antecedência o objetivo, as fontes de dados, o período de pesquisa, os descritores, os critérios  de inclusão e exclusão, os métodos de seleção, a avaliação de qualidade e a forma de síntese  dos dados. A pesquisa priorizou fontes confiáveis, como manuais de irrigação de Bernardo,  Soares, Mantovani e Frizzone, a referência FAO-56, relatórios da Agência Nacional de Águas  e Saneamento Básico, publicações técnicas da Embrapa e Infoteca, bases de dados oficiais do  MAPA, ZARC, IBGE e CONAB, e ainda boletins climáticos do INMET, CPTEC e INPE.  Foram analisados documentos em português e inglês, publicados entre 2012 e 2025, embora  obras de referência anteriores e regulamentações oficiais também tenham sido consideradas. 

As pesquisas foram realizadas e atualizadas até setembro de 2025, utilizando  combinações de termos e operadores booleanos, tais como: “irrigação e pivô central em Goiás”;  “eficiência hídrica”; “Cerrado”; “outorga e cobrança”; “previsão sazonal”. Os registros  encontrados foram importados para um software de gerenciamento bibliográfico para eliminar  duplicatas, organizar por temas e controlar versões. Em seguida, a triagem ocorreu em duas  etapas, com leitura de título, resumo e do texto completo, por dois revisores de forma independente. Quando surgiram divergências, buscaram consenso e, se necessário, envolveram  um terceiro avaliador. 

Os critérios de inclusão contemplaram pertinência ao contexto do Cerrado goiano, ou  transferibilidade claramente justificada, base técnica primária, manual, relatório técnico, artigo  científico ou norma e disponibilidade integral do conteúdo. Excluíram-se textos opinativos sem  método explícito, duplicidades, materiais com escopo alheio ao tema e documentos sem dados  verificáveis. Para avaliar qualidade e risco de viés, aplicou-se um checklist adaptado, inspirado  em CASP e JBI, pontuando clareza do objetivo, adequação metodológica, consistência dos  dados, completude e aplicabilidade regional. Produções institucionais e “grey literature” foram  classificadas como evidência moderada e utilizadas para contextualização quando corroboradas  por fontes primárias. 

A extração de dados seguiu um formato padrão em fichas que incluíam: método de  irrigação como pivô central e irrigação localizada, indicadores técnico-hídricos, métricas de  produtividade hídrica, parâmetros de manejo, variáveis de energia e custo, requisitos de  qualidade da água e aspectos de governança, outorga, cobrança e instrumentos de bacia. Para  garantir a comparabilidade, unidades e notações foram padronizadas, como 1 mm·ha = 10 m³,  utilização de vírgula decimal, e os custos foram convertidos para reais constantes de 2024  usando deflator oficial. Quando os estudos apresentaram resultados em formatos variados, foi  feita a harmonização com regras claras, como a conversão de lâmina em volume e de custo por  mm·ha para R$·m³. 

A síntese adotou uma combinação de análise temática e integração quantitativa  descritiva. Os resultados foram agrupados em seis áreas principais: (I) eficiência e indicadores  (CUC, CUD/DU, EU, Ea, WUE, IWP, kWh·m⁻³, R$·m⁻³); (II) métodos e tecnologia como pivô  central, irrigação localizada, automação, sensoriamento e VRI; (III) energia, operação de ponta,  VFD, geração fotovoltaica; (IV) qualidade da água, salinização, sodificação e drenagem; (V) governança, de outorga SEMAD-GO, ANA, cobrança, comitês de bacia e (VI) clima, ENSO,  ZCAS e previsões sazonais. 

Para cada área, foram resumidas as evidências, limitações e sugestões de operação com  objetivos mensuráveis, como CUC ≥ 85–90%; CUD ≈ 75–80%; EU ≥ 90% (bom) e ≥ 85%  (aceitável), ΔP de retrolavagem 0,4–0,5 bar; desvio de vazão setorial ≤ ±5%. Os mapas e figuras foram criados usando QGIS, a malha municipal do IBGE e recortes hidrográficos da ANA,  enquanto os gráficos e tabelas foram feitos em R ou Excel, mantendo os metadados e as fontes. 

O processo observou normas éticas rigorosas: não foram utilizados dados pessoais, nem  realizadas experiências com humanos ou animais, e não há declaração de conflitos de interesse  ou financiamento externo que pudesse afetar os resultados. Reconhecem-se as limitações que  são típicas de revisões narrativas, como a dependência de dados secundários, a diversidade  metodológica e as lacunas regionais, como as séries longas de IWP e kWh·m⁻³ em pequenas  propriedades.  

Para enfrentar essas limitações, foram empregadas triangulação de fontes, avaliação  rigorosa de qualidade e transparência na escolha e na harmonização dos dados. Para futuros  trabalhos, sugere-se a validação em campo por bacia, com auditorias independentes de  CUC/CUD/EU, monitoramento contínuo de kWh·m⁻³, R$·m⁻³ e IWP, além de estudos de caso  geocodificados que liguem eficiência, custos e estruturas de governança. Com essa abordagem,  o artigo garante que a metodologia é rastreável, reprodutível e aplicável ao cenário da irrigação  em Goiás. 

3. Eficiência Hídrica 

3.1. Conceitos e Indicadores de Eficiência 

Medir a eficiência da água na irrigação não depende de um único dado, mas de vários  fatores que auxiliam no projeto, operação e conserto do sistema. Um fator importante é a  uniformidade da aplicação, ou seja, se o sistema irriga toda a área de forma igual. Isso é avaliado  pelo Coeficiente de Uniformidade de Christiansen (CUC) e pela Uniformidade de Distribuição  (CUD/DU). Imagine um teste com baldes: se todos enchem de forma similar, a distribuição é  boa. Em pivôs centrais, CUC entre 85% e 90% e CUD/DU entre 75% e 80% mostram que o  sistema está bem regulado. Para conseguir isso, é preciso ajustar a pressão e a vazão, revisar os  bicos e reguladores, e fazer avaliações antes e durante a plantação. Quando a água é distribuída  igualmente, evita-se molhar excessivamente os pontos mais secos, diminuindo o desperdício de  água e energia. (Bernardo; Soares; Mantovani, 2019; Frizzone et al., 2012). 

Outro indicador essencial é a Eficiência de Aplicação (Ea), que representa a fração de  água que permanece acessível às raízes rapidamente após a irrigação, desconsiderando perdas por vento, evaporação imediata ou escorrimento. Para verificar se a água está contribuindo para  a produção, é importante distinguir entre dois conceitos, que mede a produtividade por água  consumida pela planta, incluindo a chuva e a irrigação, e IWP, que se refere à produtividade  em relação à água aplicada somente pela irrigação. Geralmente, melhorias nas operações e na  automação se manifestam inicialmente no IWP, assim como nas despesas referentes ao volume  bombeado, como kWh por metro cúbico e custo em reais por metro cúbico (Allen et al., 1998;  Frizzone et al., 2012). 

Na prática, o “piloto automático” do manejo é a combinação ET₀–Kc. ET₀ é a  evapotranspiração de referência, quanto a atmosfera “pede” de água, calculada a partir do clima, Kc é um fator da cultura que muda conforme a fase e o tipo de cultivo. A conta, ETc = Kc ×  ET₀, indica a lâmina a repor. Em Goiás, com estação seca e veranicos, acertar o momento e a  quantidade é decisivo para não gastar energia à toa e não lavar nutrientes do solo. Materiais da  Embrapa trazem valores de Kc e planilhas que ajudam nessa rotina (Embrapa, 2022; Allen et  al., 1998). 

Sensores deixam esse ajuste mais fino. Tensiômetros medem a “força” que a raiz faz  para puxar água e sensores capacitivos medem a umidade do solo, mostram quando irrigar e  quanto aplicar. Em pivô, tecnologias como setorização, controle de velocidade e VRI, irrigação  a taxa variável, permitem mudar a lâmina por “zona”, desde que existam mapas de solo e relevo  e que os sensores estejam calibrados. (Frizzone et al., 2012; Embrapa, 2022). 

O ambiente local enfatiza a relevância do assunto. Em 2024, o país registrava 33.846  sistemas de irrigação por pivô central, abrangendo cerca de 2,20 milhões de hectares irrigados,  com mais de 70% localizados na região do Cerrado. Municípios como Cristalina, em Goiás,  destacam-se como importantes centros, enquanto bacias como São Marcos e Alto Tocantins já  estão enfrentando desafios. Portanto, a eficiência de cada parte deve ser acompanhada de um  planejamento adequado a nível de bacia. 

Em conclusão, a regulação é crucial. A Agência Nacional de Águas (ANA) concede  outorgas para o uso da água em rios federais, enquanto a Secretaria de Meio Ambiente e  Desenvolvimento Sustentável de Goiás (SEMAD-GO) faz isso nos rios estaduais. Em Goiás, a  cobrança pelo uso da água incentiva a medição, a transparência e o uso eficiente. Integrar  indicadores técnicos (CUC/CUD, Ea, WUE/IWP), custos (kWh·m³, R$·m³) e normas de gestão hídrica auxilia o produtor a decidir com mais segurança e a região a manter a disponibilidade  de água a longo prazo. 

3.2. Tecnologias e Práticas de Irrigação Eficientes em Goiás 

Em Goiás, existem duas maneiras de irrigar que coexistem. A primeira opção é o pivô  central, amplamente utilizado em extensas áreas de cultivo de grãos, sementes e fibras. A  segunda é a irrigação localizada, que pode ocorrer por gotejamento ou microaspersão, sendo  comum em cultivos de frutas e hortaliças, onde a precisão é fundamental. 

Para o funcionamento eficaz do pivô, é essencial que a irrigação seja uniforme. Isso  pode ser avaliado por meio de dois parâmetros, CUC e CUD/DU. Se você distribuir latas pela  área irrigada e todas se encherem de maneira semelhante, está satisfatório. Na prática, valores  elevados são buscados (CUC na faixa de 85% a 90%; CUD/DU entre 75% e 80%). Para alcançar  isso, é necessário medir a pressão e a vazão, ajustar bicos e reguladores, calibrar a velocidade  do equipamento e, quando aplicável, implementar irrigação de taxa variável (VRI), que altera  a quantidade de água por “zona” do campo com base em mapas de solo e relevo. Realizar  auditorias breves antes e durante a colheita ajuda a evitar desperdícios (ANA, 2023;  EMBRAPA, 2022). 

Na irrigação localizada, a água vai direto na raiz. Por isso, a eficiência costuma ser maior  e a fertirrigação, nutriente junto com a água, rende melhor. O cuidado, aqui, é com entupimento,  precisa filtrar a água com areia, disco ou tela, conforme o risco, e acompanhar qualidade,  condutividade elétrica, salinidade, sólidos dissolvidos, sódio e presença de ferro e manganês.  Um bom alvo é manter a “uniformidade de emissão” (EU) acima de 90%, ou ao menos 85% e  retrolavar filtros quando a diferença de pressão bater 0,4–0,5 bar, além de fazer “flushing” nas  linhas. 

A tecnologia aprimora a precisão na irrigação. Estações meteorológicas e sensores de  solo, como tensiômetros, capacitivos e TDR, auxiliam na determinação do momento ideal e da  quantidade adequada de água a ser aplicada. Isso se baseia no cálculo de ET₀–Kc, que considera  a demanda atmosférica e a fase da cultura. Em fases menos vulneráveis da planta, é possível  adotar a irrigação deficitária controlada, uma estratégia que visa economizar água sem  comprometer a produção. O manejo por zonas e a automação bem ajustada reduzem a sobreirrigação, resultando na economia de energia e água, e na melhoria dos indicadores  técnicos e de custo, como kWh por m³ e R$ por m³ (SEMAD-GO, Decreto nº 10.280/2023;  ANA, 2023; EMBRAPA, 2022; GOIÁS, 2023). 

Cada método tem suas vantagens e desvantagens. A irrigação por pivô central cobre  grandes áreas e é forte, mas é preciso ter cuidado com a quantidade de água retirada e o gasto  de energia. Já o gotejamento usa a água de forma precisa e eficiente, porém precisa de água  mais limpa, custa mais para instalar e exige manutenção constante. Para escolher entre os dois,  é preciso pensar na eficiência, nos custos, na qualidade da água, na energia, no tipo de solo e  no clima. Também é importante verificar as regras locais e a autorização para usar a água, que  em Goiás tem um custo. Levando tudo isso em conta, os dois sistemas podem trabalhar juntos  para aumentar a produção de forma responsável. 

3.3. Demanda, Disponibilidade e Particularidade de Goiás 

Goiás localiza-se onde se encontram bacias hidrográficas importantes do país, a  exemplo do Paranaíba, Tocantins e Araguaia, e abriga sub-bacias sensíveis, como a do rio Meia  Ponte, que abastece grande parte da Região Metropolitana de Goiânia. No subsolo, destacam-se os aquíferos Bambuí, de rochas calcárias, e Urucuia, de areias. Estes aquíferos funcionam  como reservatórios naturais, assegurando a vazão dos rios, mesmo em períodos secos. Essa  estrutura hídrica é crucial para o abastecimento urbano, a geração de energia e a expansão da  atividade de irrigação. É preciso equilibrar a demanda hídrica da agricultura com a oferta dos  rios e as necessidades da população, definindo objetivos por bacia (ANA, 2023). 

A irrigação no estado se concentra em dois tipos de sistema. O primeiro é o pivô central,  comum em grandes áreas de grãos, sementes e fibras. O segundo é a irrigação localizada,  gotejamento e microaspersão, usada em frutas e hortaliças. Em 2024, o Brasil somou 33.846  pivôs e cerca de 2,20 milhões de hectares irrigados por pivô central, mais de 70% dessa área  está no Cerrado. Goiás tem papel de destaque, Cristalina ficou entre os cinco municípios com  maior área irrigada, aproximadamente ~69,6 mil ha. Esse crescimento pressiona bacias como  São Marcos (GO/MG) e trechos do Alto Tocantins, o que pede planejamento por bacia,  avaliação das vazões mínimas ao longo do ano e, quando fizer sentido ambientalmente, obras  de apoio para enfrentar estiagens (ANA, 2023; Embrapa, 2022).

Imagem 1 – Bacias Hidrográficas do Estado de Goiás

Fonte: Hidroweb/ANA e IBGE(https://bit.ly/4nL8wRN)

Para aproveitar a água de forma adequada, a consistência e os métodos são importantes.  No uso de pivôs, o princípio básico é garantir uma irrigação uniforme. Isso é avaliado por meio  de dois indicadores: CUC e CUD/DU. O objetivo é alcançar valores elevados, com CUC entre  85% e 90% e CUD/DU entre 75% e 80%. Geralmente, isso depende de um planejamento  adequado e de verificações fáceis: inspeções antes e durante a colheita, o teste das latas para  confirmar a distribuição uniforme, a verificação da pressão na última torre e o controle da vazão  por setor, mantendo uma variação máxima de ±5%. Uma aplicação mais uniforme leva à queda  do desperdício de água e energia. Outro ponto importante é a eficiência de aplicação (EA), que  indica a quantidade de água que fica disponível para as raízes. A manutenção preventiva e os  medidores com telemetria ajudam a manter a EA alta e a garantir o uso correto da água (Embrapa, 2022; ANA, 2023). 

Na irrigação localizada, a água é direcionada diretamente às raízes, resultando em uma  maior eficiência de aplicação e melhorando a fertirrigação, que é a introdução de nutrientes na  água. É crucial evitar obstruções, realizar uma boa filtragem utilizando areia, disco ou tela,  dependendo do risco, e monitorar a qualidade da água, incluindo salinidade, sólidos dissolvidos,  sódio e ferro/manganês. Além disso, é relevante medir a “uniformidade de emissão” dos gotejadores e realizar retrolavagens quando a diferença de pressão nos filtros atingir entre 0,4  a 0,5 bar, assim como “limpar” as linhas periodicamente. 

Na prática da irrigação, uma orientação básica é ajustar a quantidade de água necessária  (ET₀) com as características da planta (Kc). A fórmula ETc = Kc·ET₀, junto com informações  de estações meteorológicas e sensores de solo, como tensiômetros, auxilia a determinar o  momento e a quantidade ideal de água para irrigar, evitando o excesso. É importante analisar  indicadores que relacionam técnica, custo e produtividade, como a produtividade por metro  cúbico (IWP/WUE), o gasto de energia por metro cúbico e o custo por metro cúbico, junto com  os índices de uniformidade. A autorização para uso da água é concedida pela SEMAD-GO, para  rios estaduais ou pela ANA, para rios federais. Em Goiás, existe uma cobrança pelo uso da  água, conforme o Decreto nº 10.280/2023, o que estimula a eficiência, a medição e a clareza no  uso dos recursos hídricos (Goiás, 2023; ANA, 2023). 

3.4. Impactos da Irrigação na Produtividade e Segurança Alimentar 

A simples irrigação não assegura o sucesso financeiro na agricultura. O retorno  financeiro se concretiza quando a irrigação é combinada com genéticas de plantas superiores,  plantas sadias, solo fértil e um planejamento hídrico eficiente. Dentro desse sistema, os  indicadores de uso da água devem estar em concordância com dados financeiros e energéticos. 

É essencial distinguir duas formas de medir a produtividade da água: (1) considerando  o total de água disponível para a planta, precipitação e irrigação, e (2) focando apenas na água  usada na irrigação. A segunda abordagem está diretamente ligada ao custo por metro cúbico  bombeado e ao consumo de energia (kWh por m³). Para comparar projetos de forma objetiva,  pode-se usar a seguinte conversão: 1 mm de água aplicado em 1 hectare equivale a 10 m³ de  água. 

Em Goiás, o primeiro desafio costuma ser o investimento inicial (CAPEX), que inclui  captação, bombas, tubulações, pivôs ou irrigação por gotejamento. Na sequência, aparecem os  custos operacionais (OPEX), que são bastante afetados pelas tarifas de energia, pela demanda  contratada e, principalmente, pela eficiência do sistema eletro-hidráulico, levando em conta a  altura manométrica, diâmetros, perdas de carga e eficácia da motobomba. Medidas simples  proporcionam ganhos rápidos: irrigar fora dos horários de pico, empregar inversores de frequência, ajustar bocais e manter pressões adequadas. Todas essas ações diminuem o  consumo de kWh/m³ e o custo em reais por metro cúbico, aumentam a eficiência da irrigação,  garantindo que a água permaneça nas raízes e promovem uma distribuição uniforme, onde no  pivô, a meta é irrigar de maneira igual, com CUC de 85 a 90% e CUD/DU de 75 a 80%.  Auditorias antes e durante a colheita, como o “teste das latas,” verificação da pressão na última  torre e manter a variação de vazão por setor em até ±5% são rotinas que compensam os  investimentos. Irrigar à noite pode ser benéfico, pois há tarifas e evaporação menores, desde  que não interfira nas culturas e nas aplicações de defensivos (EMBRAPA, 2022). 

A seleção do método ideal varia conforme o tipo de produção. Em relação a frutas e  hortaliças, a irrigação por gotejamento com fertirrigação permite um manejo preciso de água e  nutrientes, o que aprimora a homogeneidade e aumenta a produção por metro cúbico. Para obter  esses resultados, é crucial manter a uniformidade alta dos gotejadores (idealmente acima de  90%), realizar uma filtragem eficiente e fazer a retrolavagem quando a perda de pressão nos  filtros atingir 0,4–0,5 bar, além de programar a limpeza das linhas. Já em culturas de grãos, o  uso de pivôs centrais orientados por dados climáticos (ET₀×Kc) e sensores de umidade  minimiza perdas durante fases críticas, como a floração e o enchimento dos grãos, e oferece  maior previsibilidade. Em áreas planas com lençol freático superficial, é preciso ter atenção  redobrada para monitorar a qualidade da água, planejar a aplicação de uma fração de lixiviação  e, se necessário, utilizar gesso e drenagem para evitar a salinização ou sodificação do solo. 

A digitalização, com o uso de estações meteorológicas na propriedade, tensiômetros,  sensores capacitivos, TDR, telemetria e controle, aprimora a eficácia do manejo, contanto que  seja complementada com calibração, manutenção e treinamento da equipe. A energia solar  associada ao bombeamento pode reduzir os custos operacionais em algumas situações, mas  requer um estudo de viabilidade e um contrato de operação e manutenção (O&M) bem  elaborado (ANA, 2023; EMBRAPA, 2022). 

Por fim, a governança da água entra na conta. Regras de uso e outorga definem limites  operacionais e influenciam custos. Medição e transparência ajudam a manter o sistema  sustentável para todos produtores, cidades e rios. Quando técnica, economia e regras caminham  juntas, a irrigação se torna um investimento competitivo e duradouro em Goiás.

3.5. Diretrizes de Manejo e Estudos de Caso 

A irrigação eficiente depende da distribuição equilibrada de água, tanto em quantidade  quanto no tempo certo. Em sistemas de pivô central, o objetivo primário é a aplicação uniforme  da água, avaliada pelos coeficientes CUC e CUD. Por exemplo, um CUC entre 85% e 90%  indica que a maior parte da área recebe volumes de água similares. A irrigação uniforme leva a  uma resposta superior das plantas, diminui o consumo de energia por metro cúbico de água e  minimiza o desperdício. 

No gotejamento e na microaspersão, sistemas “localizados”, a água vai direto à raiz, por  isso, a eficiência costuma ser maior. Mas há um cuidado-chave, manter os emissores limpos e  trabalhando de forma uniforme. Isso pede filtragem adequada com areia, disco ou tela,  conforme o caso, limpeza periódica das linhas e atenção à qualidade da água nos sais, ferro e  manganês podem entupir. Como regra prática, é desejável manter a “uniformidade de emissão”  acima de 90%, ou pelo menos 85% (Bernardo; Soares; Mantovani, 2019; Frizzone et al., 2012). 

O planejamento da irrigação, que define o momento e a quantidade de água a ser  aplicada, considera as condições climáticas e o estágio de desenvolvimento da cultura. Em  geral, a evapotranspiração de referência serve como indicador da demanda hídrica do ambiente,  sendo corrigida pelo coeficiente da cultura, que varia ao longo do ciclo. A capacidade de  retenção de água do solo e a fração disponível para a planta também são fatores considerados.  Em fases críticas, como a floração e o enchimento de grãos, recomenda-se uma gestão mais  conservadora da irrigação para prevenir déficits hídricos. 

Manutenção preventiva é o que sustenta bons números, antes da safra, conferir pressão  na última torre, vazão por setor, estado de bicos e reguladores, e fazer o teste de uniformidade.  No meio da safra, repetir as checagens e ajustar a pressão e velocidade do pivô. No dia a dia,  acompanhar a perda de carga nos filtros, para saber a hora de limpar, manter a vazão setorial  dentro de ±5% do planejado e programar lavagens nas linhas de gotejo (Embrapa, 2022; ANA,  2023). 

Sensores são ferramentas valiosas; tensiômetros mostram o “nível de seca” do solo,  enquanto sensores de umidade indicam a quantidade de água ainda presente no perfil do solo.  A utilização desses dispositivos pode resultar em uma redução de 10% a 20% na lâmina de  água aplicada, sem impactar a produtividade, desde que o sistema esteja devidamente ajustado  e apresentando boa uniformidade. Recursos como segmentação, controle de velocidade e irrigação por taxa variável permitem a gestão da água por zona, desde que existam mapas  simples de solo e relevo, além de dados climáticos confiáveis. 

Em resumo, a padronização rigorosa, o planejamento adaptado ao clima e à fase da  cultura, a manutenção regular e o emprego estratégico de sensores constituem um conjunto de  práticas que visam a economia de água e energia, a proteção do solo e a manutenção da  produtividade, que são objetivos centrais na irrigação em Goiás. 

4. Irrigação e a Sustentabilidade Agrícola 

4.1. Irrigação Como Vetor de Sustentabilidade 

A irrigação pode fortalecer a agricultura em Goiás em três aspectos simultaneamente:  ambiental, social e econômico. Contudo, isso só ocorre efetivamente com a adoção de  indicadores claros e diretrizes bem definidas. 

No contexto ambiental, o ideal é ter água bem distribuída e na quantidade exata. Em  sistemas de pivô central, busca-se um CUC entre 85% e 90% e um CUD/DU entre 75% e 80%.  Assim, quase toda a área recebe quantidades semelhantes de água, evitando tanto a falta quanto  o excesso. Já em gotejamento e microaspersão, almejamos um EU acima de 90% e um CV entre  7% e 10%, o que significa que os gotejadores devem liberar volumes muito parecidos. 

Para manter esses padrões, três ações são importantes: (1) filtrar a água de forma  apropriada, usando filtros de areia, disco ou tela, dependendo do risco de impurezas, (2) fazer  a retrolavagem quando a diferença de pressão atingir cerca de 0,4–0,5 bar e (3) limpar as  tubulações. 

É essencial verificar a qualidade da água, medindo CE e SDT (salinidade), RAS (sódio)  e os níveis de ferro e manganês. Se a água tiver muita salinidade, é preciso usar a fração de  lixiviação, que consiste em aplicar um pouco mais de água para remover o sal, além de garantir  uma boa drenagem para evitar o acúmulo de sais e proteger o solo. Para completar as práticas  ambientais, é crucial medir a vazão com hidrômetros, usar telemetria e respeitar as Áreas de  Preservação Permanente (APPs) e a Reserva Legal (ALLEN et al., 1998; FRIZZONE et al.,  2012; EMBRAPA, 2022; ANA, 2023). 

No aspecto social, a irrigação desempenha um papel fundamental estabilizando a oferta  e a qualidade dos alimentos, além de garantir empregos rurais. Os benefícios se mantêm quando há capacitação prática e contínua para operadores e gestores, assistência técnica acessível e  inclusão de pequenos e médios produtores por meio de associações coletivas, como compras  conjuntas, manutenção compartilhada, instalação de estações meteorológicas e auditorias  coletivas. Iniciativas de saúde e segurança no trabalho são essenciais para minimizar erros e  acidentes. 

E no âmbito econômico, a irrigação proporciona uma renda mais confiável, desde que  as métricas técnicas se transformem em resultados financeiros. Além de monitorar  CUC/CUD/Ea (eficiência de aplicação), é importante acompanhar WUE (produção por água  efetivamente consumida), IWP (produção por água utilizada na irrigação), custo por metro  cúbico (R$/m³) e consumo de energia por metro cúbico (kWh·m⁻³). Na questão energética,  existem boas opções: geração solar, operação fora do horário de pico e utilização de inversores  de frequência. A viabilidade dessas ações depende da estrutura tarifária, da altura que a água  deve ser bombeada, da altura manométrica, do desempenho da bomba e de um plano de  manutenção. Cada caso deve ser analisado individualmente, sempre com cálculos detalhados (EMBRAPA, 2022; BERNARDO; SOARES; MANTOVANI, 2019). 

Por fim, tudo isso precisa caber dentro da “governança da água” por bacia. Isso inclui  ter outorga em dia e medir o uso de forma transparente, definir metas na fazenda, como CUC  85–90%, CUD/DU 75–80%, EU ≥ 90% e metas coletivas para os períodos críticos e manter  auditorias periódicas de uniformidade, pressão e vazão, com fiscalização firme onde o rio é  mais sensível. A cobrança pelo uso da água, quando bem desenhada, recompensa quem é  eficiente e cumpre as regras. 

Considerando tudo isso, medidas definidas mais ferramentas certas mais equipe  capacitada mais normas de bacia resultam em eficiência aliada à preservação do meio ambiente  e à inclusão social. Isso é o que faz da irrigação um elemento de grande importância para Goiás. 

4.2. Práticas Sustentáveis e Conservação de Recursos Hídricos 

Para aumentar a eficiência da irrigação e assegurar o uso sustentável da água em Goiás,  a atenção deve estar mais nas práticas diárias do que em equipamentos caros. Em sistemas  pressurizados e pivôs centrais, três ações são cruciais: medir corretamente a vazão e o volume  com hidrômetros ou telemetria, dividir a área em setores e controlar a pressão com válvulas reguladoras. Isso torna o sistema mais estável, diminui perdas nas tubulações e simplifica o  trabalho diário. Ao usar a água para adubar, o ideal é dividir as doses e verificar a qualidade da  solução, observando a condutividade elétrica (CE) e o pH. A filtragem correta e a limpeza  regular das tubulações previnem entupimentos e desperdícios. Em agroindústrias, o reuso da  água exige licença e monitoramento constante da microbiologia, CE, sólidos dissolvidos totais  (SDT) e da relação de adsorção de sódio (RAS) para proteger o solo, as plantações e os  aquíferos (FRIZZONE et al., 2012; BERNARDO; SOARES; MANTOVANI, 2019; ANA,  2023). 

Essas ações devem estar alinhadas com a gestão hídrica nas bacias. A outorga, o  enquadramento e a cobrança são ferramentas para organizar as prioridades em momentos  críticos e incentivar todos a serem mais eficientes. Em rios vulneráveis, como o Meia Ponte,  medir e reportar o consumo de forma transparente é fundamental para equilibrar a irrigação e o  fornecimento urbano durante os períodos de seca. 

É muito útil possuir um Plano de Manejo da Irrigação (PMI) em uma fazenda. Nele,  descreva as fontes de água e as áreas irrigadas. Determine quando começar e parar a irrigação,  usando o balanço hídrico (ET₀–Kc) e a quantidade de água no solo, considerando a água total  disponível (TAW) e a parte mais fácil de usar (RAW).  

Estabeleça objetivos claros, em sistemas de pivô, busque alta uniformidade, com um  coeficiente de uniformidade de Christiansen (CUC) entre 85% e 90%, e uma uniformidade de  distribuição (CUD/DU) entre 75% e 80%, o que indica boa distribuição da água. Em sistemas  localizados, procure uma eficiência de uniformidade (EU) de pelo menos 90% ou 85% como  aceitável e um coeficiente de variação (CV) dos emissores de até 7–10%, o que significa que  os emissores liberam volumes similares. 

Além disso, avalie a eficiência de aplicação (Ea), a produtividade da água (IWP/WUE),  o consumo de energia por metro cúbico (kWh·m⁻³) e o custo da água bombeada (R$·m⁻³).  Inclua também informações básicas de manutenção: verificação de bicos/reguladores e  vazamentos, limpeza dos filtros quando a diferença de pressão (ΔP) atingir 0,4–0,5 bar e  limpeza das tubulações. Anote a pressão, a vazão e o desvio por área (até ±5%). Tenha um  plano para períodos de seca e para o reuso seguro da água (ALLEN et al., 1998; FRIZZONE et  al., 2012; EMBRAPA, 2022).

Os sistemas de gotejamento e microaspersão exigem vigilância contínua sobre a  consistência e a qualidade da água. Em relação aos pivôs, auditorias realizadas no começo e na  metade da safra asseguram a preservação da uniformidade e a eficácia da aplicação. Caso a  água apresente alta salinidade e o lençol freático esteja superficial, é necessário planejar a fração  de lixiviação e drenagem, tanto na superfície quanto, se necessário, no subsolo, para prevenir  problemas de salinização e sodificação (ANA, 2023; EMBRAPA, 2022). 

Há desafios a serem superados como a falta de medidores e sistemas de telemetria para  propriedades menores, o receio em relação à reutilização, o alto custo das válvulas reguladoras  e a escassez de mão de obra qualificada para fertirrigação. A resposta é prática e colaborativa:  oferecer assistência técnica contínua, documentar procedimentos simples, realizar compras e  serviços de forma coletiva, além de proporcionar treinamento prático com metas e indicadores  comparáveis. No final, a junção de “medição precisa + pressão constante + manutenção  preventiva”, aliada à fertirrigação e à reutilização responsável, ajuda a diminuir o desperdício  de água e energia, ao mesmo tempo em que melhora a competitividade da irrigação em Goiás  e assegura a segurança hídrica da área. 

4.3. Conservação de Recursos e Serviços Ecossistêmicos 

A recarga dos lençóis freáticos pela água que penetra na terra é importantíssima para a  irrigação e para termos água disponível nas bacias hidrográficas, que são as regiões por onde  os rios correm. No Cerrado de Goiás, várias ações de proteção ajudam o solo a agir como uma  esponja: o uso de curvas de nível e terraços bem feitos que seguram a água da chuva, o plantio  direto mantendo sempre a cobertura vegetal, a alternância de plantações com espécies de raízes  grandes e o cuidado com o movimento de máquinas agrícolas. Essas práticas deixam o solo  mais poroso, diminuem a água que escorre pela superfície e evitam o acúmulo de areia e terra  nos rios. Em pontos onde a água corre com mais força, construções simples como pequenas  barragens, áreas de coleta de água, faixas de plantas e até áreas alagadas feitas pelo homem  ajudam a diminuir as grandes cheias e ajudam a repor a água subterrânea. Cuidar das nascentes  e recuperar as matas que ficam nas margens dos rios ajuda a firmar o solo e a deixar a água  mais limpa para a irrigação e outros usos. 

É necessário monitorar a qualidade da água utilizada na irrigação regularmente. Além  de aferir a condutividade elétrica, CE (um indicador de salinidade), e os sólidos dissolvidos totais, SDT, é importante verificar a relação de adsorção de sódio, RAS (que mostra o potencial  de o sódio dispersar o solo), o pH e alguns íons como cloreto e bicarbonato ou carbonato. Nos  sistemas de gotejamento e microaspersão, a verificação de ferro e manganês (Fe/Mn) é crucial  para evitar obstruções. De maneira geral, águas com CE da água, CEw, até aproximadamente  0,7–1,2 dS/m e RAS de até 6–9 costumam ser adequadas para culturas de sensibilidade  moderada; se a alcalinidade for elevada, é preciso ajustar o pH para evitar que o cálcio e o  magnésio se precipitem e desapareçam da solução. Em áreas de horticultura intensiva, a  salinização do solo tende a ocorrer mais frequentemente quando a água é mais salina e a  drenagem é insuficiente, para esses casos, é planejada uma “fração de lixiviação,” que é um  pequeno excedente de água destinado à remoção de sais, além da implementação de drenagens  superficiais e, se necessário, subsuperficiais. O monitoramento do solo também deve incluir a  CE do extrato de saturação, CEe, e o sódio trocável (FRIZZONE et al., 2012; BERNARDO;  SOARES; MANTOVANI, 2019). 

Para funcionar, tudo isso precisa de rotina. Antes do plantio, análise água e solo e faça  uma “revisão” hidráulica do sistema, pressões, vazões e uniformidade. Durante a safra, repita  as leituras de água mensalmente e as do solo a cada dois meses nas áreas mais intensivas; ajuste  lâminas e intervalos e confira filtros e a diferença de pressão (ΔP). Após a colheita, reavalie a  estrutura do solo como densidade, resistência à penetração e infiltração. Onde houver risco para  o aquífero, instale poços de observação para medir o nível da água subterrânea e nitrato,  mantendo o lençol freático, em geral, mais fundo que 1,5–2,0 m. 

A infiltração pode ser medida com métodos simples, como o anel duplo, e a capacidade  de conduzir água, com estimativas de condutividade hidráulica. Esses dados devem “conversar”  com o manejo climático da irrigação (ET₀–Kc): a necessidade de água da cultura (ETc) define  quando irrigar e, no gotejo, quando aplicar pulsos extras só para “lavar” sais se a CEe passar  do limite da cultura. Em operação, alguns gatilhos ajudam como CEe alta → programar  lixiviação e conferir drenagem; RAS alta → aplicar gesso agrícola (fonte de cálcio) e, se  preciso, acidificar; Fe/Mn altos → reforçar filtragem e flushing; qualquer ajuste deve refletir  nas lâminas, nos turnos e nos limites dos sensores (EMBRAPA, 2022; ANA, 2023). 

Dessa forma, a união entre a gestão, o padrão hídrico e o escoamento necessitam de  regras claras na região, autorizações, metas, cobrança pelo uso, monitoramento remoto e  controle, sobretudo em rios sensíveis como o Meia Ponte. Ao integrar tais fatores, a absorção  da água se eleva, os reservatórios subterrâneos ficam protegidos, a vulnerabilidade climática diminui e a irrigação em Goiás ganha eficiência e competitividade sem prejudicar os recursos  de água. 

4.4. Políticas Públicas e Governança em Goiás 

A água que penetra na terra e alimenta os reservatórios subterrâneos é essencial tanto  para a irrigação quanto para a quantidade de água disponível nas regiões de rios, que abrangem  as áreas por onde a água escoa. No Cerrado Goiano, diversas técnicas de proteção incentivam  o solo a agir como uma esponja: a construção de curvas de nível e terraços bem planejados  auxilia na retenção da água da chuva, o emprego do plantio direto com proteção constante do  solo, a alternância de plantações com raízes extensas e o controle da movimentação de veículos  agrícolas.  

Tais medidas aumentam os “vãos” no solo, diminuem o escoamento pela superfície e  evitam o acúmulo de sedimentos nos rios. Em áreas onde a água corre de maneira intensa,  soluções básicas como pequenas barragens, fileiras de plantas e áreas alagadas criadas pelo  homem ajudam a controlar os momentos de cheia e a favorecer a recarga das águas  subterrâneas. A proteção das fontes de água e a restauração das florestas próximas aos rios  firmam as margens e elevam a qualidade da água utilizada na irrigação e em outras atividades (FRIZZONE et al., 2012; BERNARDO; SOARES; MANTOVANI, 2019). 

A qualidade da água utilizada na irrigação deve ser monitorada de forma constante.  Além de avaliar a condutividade elétrica, CE, que funciona como um indicador de salinidade,  e os sólidos totais dissolvidos, SDT, é importante verificar a relação de adsorção de sódio, RAS,  que sinaliza o risco de o sódio dispersar o solo, o pH e alguns íons, como cloreto e  bicarbonato/carbonato. Em sistemas de gotejamento e microaspersão, é fundamental observar  a presença de ferro e manganês (Fe/Mn) para evitar entupimentos.  

De maneira geral, águas com CE até aproximadamente 0,7–1,2 dS/m e RAS de até 6–9  são consideradas adequadas para plantas sensíveis a moderadas. Caso a alcalinidade seja alta,  o pH deve ser ajustado para impedir a precipitação de cálcio e magnésio, evitando que esses  elementos desapareçam da solução. Em áreas de horticultura intensiva, o solo apresenta maior  risco de salinização quando a água é mais salina e a drenagem é inadequada; nestas situações,  é necessário planejar uma “fração de lixiviação” (um pequeno excedente de água para remover sais) e instalar drenagem superficial, além de, se necessário, drenagem subsuperficial. O  monitoramento do solo deve contemplar a CE do extrato de saturação, CEe, assim como o sódio  trocável (EMBRAPA, 2022; ANA, 2023). 

Para que tudo isso funcione adequadamente, é preciso ter uma rotina estabelecida. Antes  do início do plantio, deve-se analisar a água e o solo, além de realizar uma “avaliação”  hidráulica do sistema, verificando pressões, vazões e distribuição. Durante a época de cultivo,  é importante repetir a medição da água mensalmente e as verificações do solo a cada dois meses  nas áreas de maior intensidade, ajustando lâminas e intervalos, além de inspecionar os filtros e  a variação de pressão (ΔP). Após a colheita, é necessário reavaliar as características do solo,  como densidade, resistência à penetração e capacidade de infiltração. Em áreas com risco de  afetar o aquífero, deve-se instalar poços de monitoramento para mensurar o nível de água  subterrânea e nitrato, mantendo, em geral, o lençol freático a uma profundidade superior a 1,5  a 2,0 m. 

A infiltração pode ser avaliada por métodos simples, como o uso de anéis duplos,  enquanto a condução de água pode ser estimada por meio da condutividade hidráulica. Essas  informações devem estar alinhadas com a gestão climática da irrigação (ET₀–Kc), que  determina a necessidade hídrica das plantas (ETc) e indica o momento adequado para irrigar,  além de indicar quando é necessário dar pulsos adicionais no gotejamento para “lavar” sais caso  a CEe ultrapasse o limite permitido para a cultura. Durante a operação, alguns indicadores são  úteis: se a CEe estiver elevada, é recomendado programar a lixiviação e verificar se há  drenagem adequada; quando o RAS estiver alto, a aplicação de gesso agrícola pode ser  necessária e, se for o caso, acidificação; se os níveis de Fe/Mn estiverem altos, é importante  melhorar a filtragem e realizar flushing; qualquer modificação deve ser refletida nas lâminas,  nos turnos e nos limites dos sensores (ANA, 2023). 

Para concluir, a combinação de manejo, qualidade e drenagem também requer diretrizes bem  definidas na bacia: concessão, objetivos, tarifação pelo uso, monitoramento e supervisão,  principalmente em cursos d’água delicados como o Meia Ponte. Quando todos esses elementos  se harmonizam, a infiltração melhora, os aquíferos são preservados, a exposição às variações  climáticas é reduzida e a irrigação em Goiás torna-se mais eficaz e competitiva, sem  comprometer os recursos hídricos.

4.5. Integração Tecnológica e Transição Energética 

A irrigação em Goiás está se tornando mais eficiente devido às inovações digitais.  Sensores instalados no campo, junto com telemetria, transmissão automática de informações,  painéis de controle acessíveis remotamente e software que auxilia nas decisões, possibilitam  monitorar, em tempo real, três aspectos essenciais: pressão nas tubulações, fluxo de água e a  quantidade usada, ou seja, a água que chega ao solo. Isso possibilita corrigir falhas  imediatamente e melhora indicadores cruciais: 

  • CUC/CUD (uniformidade): como a água se distribui no terreno; 
  • Ea (eficiência na aplicação): quanto da água efetivamente atinge as raízes. 

Esses modelos empregam “fórmulas de ETc”. Explicando: ETc reflete a demanda  hídrica da plantação (ETc = Kc × ET₀). ET₀ é a evapotranspiração de referência, o volume de  água evaporada e transpirada pela planta em condições ideais, enquanto Kc é um índice que  adapta esse valor à cultura e estágio de desenvolvimento. Unindo ETc a previsões  meteorológicas locais, o modelo atinge precisão: irrigação no momento certo, na dose exata,  otimizando água e energia e gerando dados para auditorias e conformidade legal (EMBRAPA,  2022; ANA, 2023). 

Para que os resultados sejam percebidos, é fundamental estabelecer uma “linha de base”  e alguns indicadores-chave simples por área: 

  • Uniformidade: CUC entre 85–90% e CUD/DU entre 75–80%. 
  • Custo/energia por água bombeada: kWh por m³ e R$ por m³ (medir antes e depois  das melhorias). 
  • Produtividade por água: IWP (por água aplicada) e WUE (por água consumida).
  • Operação: desvio de vazão por setor até ±5%; filtros com retrolavagem quando a  diferença de pressão (ΔP) chegar a 0,4–0,5 bar. 

Um sensor eficaz é aquele calibrado. Realize anualmente a “curva solo–sensor” e,  mensalmente, faça checagens com amostras de solo. Procure por erros menores que ±3% para  umidade e ±5 kPa para os tensiômetros. É importante também auditar o sistema antes e durante  a safra, avaliando pressão, vazão e CUC/DU (EMBRAPA, 2022; FRIZZONE et al., 2012). 

É crucial que a infraestrutura digital seja sólida, com sensores que se conectam a  dataloggers, como se fossem “pendrives inteligentes” no local e, em seguida, à nuvem. Caso a conexão com a internet seja interrompida, o sistema tem a capacidade de armazenar os dados  por um período de 30 a 60 dias. Redes como LoRa/NB-IoT ou redes Wi-Fi rurais são opções  viáveis para garantir a conectividade. É importante estabelecer claramente a quem pertencem  os dados, quem tem permissão para acessá-los, como os backups serão realizados e como os  registros de auditoria serão mantidos. 

É fundamental que os avisos gerem atitudes efetivas, como, por exemplo, uma pressão  que ultrapasse os limites seguros, uma variação de pressão (ΔP) do filtro acima de 0,5 bar, uma  evapotranspiração da cultura (ETc) muito alta em dias de calor intenso, ou uma queda na  velocidade de envio de dados. Cada aviso precisa vir com um manual com o passo a passo das  ações, e o que foi feito deve ser anotado para que o sistema seja sempre melhorado. A energia  também é muito importante. Juntar a produção de energia solar com um inversor de frequência,  controlar a velocidade da bomba e usar a energia fora dos horários de maior consumo pode  reduzir bastante os gastos com o bombeamento. Se essa opção é boa ou não depende do preço  da energia, da altura que a água precisa ser bombeada, do quão boa é a bomba, da manutenção  e da sujeira nos painéis. Faça uma análise econômica simples e teste várias possibilidades (ANA, 2023; EMBRAPA, 2022). 

Embora o começo envolva custos, a internet pode ser instável no campo e a equipe  precisa ser qualificada, é possível contornar esses problemas. Uma opção é financiamento que  já inclua os sensores e a manutenção. Outra é comprar e usar equipamentos em conjunto com  outros produtores. Também ajudam estações meteorológicas compartilhadas e dados enviados  automaticamente para os órgãos responsáveis, como relatórios mensais na seca e a cada dois  meses na chuva. No fim, juntar a tecnologia digital com a energia solar, fazendo os ajustes  certos e acompanhando os resultados, transforma dados em decisões inteligentes. Isso aumenta  a produção, economiza água e energia, e garante água para todos de forma mais segura. 

5. Desafio de Implementação a Adotabilidade 

5.1. Estruturas de Custos e Viabilidade Econômica 

A irrigação é essencial para a competitividade do setor agrícola em Goiás, mas enfrenta  dois desafios principais: o elevado custo inicial, que abrange a captação, bombas, tubulações,  equipamentos de aplicação e, cada vez mais, a automação, além das despesas contínuas de  operação, como energia elétrica, manutenção e substituição de peças. Essa situação afeta especialmente os pequenos e médios agricultores, aumentando a desigualdade tecnológica em  relação às grandes propriedades. 

Para que a irrigação seja financeiramente vantajosa, é crucial analisar os lados técnico  e econômico da questão. No que se refere ao lado técnico, o foco principal deve ser uma  irrigação que espalhe a água de forma correta e balanceada. Em sistemas de pivô central, os  Coeficientes de Uniformidade de Distribuição (CUC) ideais ficam entre 85% e 90%, e as taxas  de Distribuição Uniforme e Cuidados de Distribuição (DU/CUD) ficam entre 75% e 80%, o  que significa que a água deve cobrir toda a área plantada de modo uniforme. A eficiência na  aplicação também é muito importante, pois mede a quantidade de água que realmente chega até  as raízes das plantas. Já em relação ao lado econômico, é importante que o produtor rural fique  de olho na produtividade conforme a água utilizada, nos gastos de energia por metro cúbico  bombeado e nos custos totais por metro cúbico. Para quem está começando, é bom fazer uma  análise do retorno financeiro e simular diferentes situações de preços de energia e níveis de  produtividade (EMBRAPA, 2022; ANA, 2023). 

Qual o caminho para colocar isso em prática? O primeiro passo é criar um “ponto de  partida” para cada área de plantio, fazendo um diagnóstico do cenário presente, e definindo  referências fáceis de usar para análises posteriores, como CUC, DU, Ea, IWP, kWh/m³ e R$/m³.  No dia a dia, acompanhe o volume de água que passa em cada parte do sistema, aceitando uma  variação máxima de ±5%, programe a limpeza dos filtros quando a pressão aumentar entre 0,4  e 0,5 bar e use aparelhos que medem a umidade do solo, como tensiômetros ou sensores  capacitivos, para saber o momento certo de irrigar, de acordo com o que as plantas realmente  precisam, usando a fórmula ETc = Kc × ET₀, ou seja, calculando a necessidade de água das  plantas com base no tipo de cultura e na evapotranspiração de referência. 

Energia é outro eixo importante. Geração solar, inversor de frequência na bomba e  operar fora do horário de ponta costumam reduzir a conta. Mas a economia depende de tarifa,  altura que a água precisa subir, curva da bomba e rotina de manutenção, por isso, apresente  sempre resultados como estudos de caso, mostrando as premissas e o ganho real em kWh/m³,  R$/m³ e IWP. Não subestime os “ajustes baratos”: corrigir pressão de trabalho, calibrar bocais,  dividir o sistema em setores e ajustar a velocidade do pivô muitas vezes rende mais que trocar  equipamento (ANA, 2023; EMBRAPA, 2022).

Para impulsionar a adesão, algumas medidas são cruciais como linhas de crédito  atreladas ao desempenho na eficiência hídrica, que apoiem a formação, a medição remota e a  manutenção preventiva. Um roteiro de gestão da irrigação objetivo e acessível, com foco na  otimização da aplicação e no uso da água. E a fiscalização constante das licenças, por meio de  dados sobre a quantidade de água utilizada. Ao empregar a tecnologia corretamente, estabelecer  diretrizes claras e integrar os pequenos agricultores, a irrigação tem o potencial de transformar  água e energia em produção, preservando os recursos hídricos. 

5.2. Acesso à Tecnologia, Assistência e Infraestrutura 

Em Goiás, a irrigação tem um papel crucial para assegurar a colheita, só que os pequenos  produtores rurais quase sempre esbarram em barreiras para usar tecnologias novas. O preço dos  aparelhos de ponta, o amparo técnico especializado indispensável e a conservação permanente  representam um grande problema financeiro, sobretudo para quem não ganha muito, como é o  caso da agricultura familiar. Isso gera uma diferença grande no ramo: as propriedades extensas  aplicam dinheiro em medidores, sistemas automáticos e programas de computador de última  geração, enquanto as áreas menores seguem com práticas ultrapassadas, que gastam mais água  e eletricidade, culminando em uma produção inferior. 

Uma solução viável é a colaboração entre os produtores. A criação de cooperativas,  associações ou grupos informais facilita a compra conjunta de equipamentos, a contratação de  serviços de manutenção compartilhados e a organização de treinamentos coletivos. Essa  abordagem não só diminui os custos, mas também melhora o acesso a peças de reposição e  serviços, além de promover a adoção de práticas recomendadas. Em regiões como Cristalina e  Rio Verde, onde já existem iniciativas de compra coletiva de insumos, é possível expandir esse  modelo para a irrigação, incluindo auditorias de uniformidade em sistemas de pivô e  gotejamento, a substituição de bicos e reguladores, a limpeza de filtros, a calibração de sensores  e a oferta de cursos rápidos e frequentes (ANA, 2023; EMBRAPA, 2022). 

Para funcionar, porém, é preciso “estrada de apoio”: disponibilidade de peças na região,  técnicos capacitados e internet rural minimamente estável. Muitos produtores relatam  dificuldade de manter sensores de solo e estações meteorológicas por falta de conectividade e  custos de manutenção. Políticas públicas que levem internet ao campo e reforcem redes locais  de assistência técnica são, portanto, parte da solução (FERNANDES et al., 2021).

A capacitação tem um impacto imediato. Treinamentos práticos sobre como avaliar a  necessidade hídrica das plantas, utilizando tensiômetros, como determinar o volume de  irrigação e como interpretar previsões meteorológicas costumam reduzir a quantidade de água  desperdiçada de maneira significativa. Ferramentas como planilhas simples e aplicativos  intuitivos ajudam a decidir o momento de ligar o sistema de irrigação e a quantidade a ser  aplicada, de forma simples (ANA, 2023; EMBRAPA, 2022). 

Mesmo com alguns obstáculos, como a hesitação em formar grupos por receio de perder  a independência, o desconhecimento de recursos digitais e a necessidade constante de crédito e  apoio técnico, disseminar ações eficazes entre os pequenos e médios produtores é crucial.  Utilizar a água de forma consciente alivia a demanda sobre rios e fontes subterrâneas, e um  bom manejo diminui a aplicação exagerada de fertilizantes e o perigo de o solo se tornar salino.  Em outras palavras, ao integrar a união dos produtores, auxílio especializado, acesso à internet  e opções de crédito que englobem capacitação e conservação, a tecnologia se converte em  produção, de uma maneira mais equilibrada, eficaz e que respeita o meio ambiente. 

5.3. Capacitação, Extensão e Gestão do Risco 

Aprimorar continuamente o conhecimento de quem opera e administra sistemas de  irrigação é crucial para poupar água e energia, sem afetar a produção. Em Goiás, iniciativas da  Emater/GO e da Embrapa Cerrados mostram que treinamentos rápidos, práticos e constantes  ao longo do ano se tornam hábito: menos desperdício, menos erros e maior segurança na  operação, algo essencial em áreas com muitos pivôs centrais, como Cristalina e Rio Verde (EMBRAPA, 2022). 

Para que o treinamento gere resultados reais, o programa deve começar com metas bem  definidas e métodos de avaliação claros. Uma sugestão simples: encontros trimestrais (4 a 8  horas) e “consultorias de campo” antes e durante a safra. 

  • Para operadores: aprender a ler manômetros e hidrômetros, pressão e vazão, conferir  a vazão por setor, entender quando irrigar e quanto aplicar, usando a ideia de ETc = Kc  × ET₀, isto é, “quanto a cultura está pedindo de água”, inspecionar bicos e reguladores  e cuidar da segurança elétrica e hidráulica, travamento de energia e uso de EPIs.
  • Para gestores: acompanhar indicadores simples e úteis, produtividade por metro cúbico  de água (IWP), energia por metro cúbico (kWh/m³) e custo por metro cúbico (R$/m³),  planejar cenários de seca e de energia, organizar contratos de manutenção e manter a  documentação de outorga e telemetria em dia. 

Para evitar julgamentos precipitados, é útil ter diretrizes claras. É o caso dos POPs  (procedimentos operacionais padrão). Num sistema de pivô central, por exemplo, busca-se  “irrigar de maneira uniforme”: manter uma uniformidade elevada (CUC entre 85 e 90% e CUD  entre 75 e 80%), pressão adequada na última torre, variação de vazão entre setores de até ±5%  e inspeções rápidas antes e durante o ciclo. Já em sistemas de gotejamento/microaspersão, o  importante é garantir que os emissores permaneçam limpos e consistentes (EU ≥ 90% é o ideal),  realizar uma boa filtragem, fazer a retrolavagem quando a queda de pressão no filtro atingir  0,4–0,5 bar e agendar a limpeza das tubulações. No caso da fertirrigação, o controle da CE e do  pH previne obstruções e o uso excessivo de recursos (EMBRAPA, 2022). 

Também é importante treinar “o que fazer em situações críticas”: seca prolongada, falta  de energia, falha na bomba, água fora dos padrões. Ter um plano com prioridades de áreas,  volume mínimo em reservatórios de apoio, horário de bombeamento fora de ponta e uso de  inversor de frequência (VFD) para ajustar a vazão e pressão minimiza danos e acelera a  recuperação. Acompanhar poucos indicadores, mas de forma consistente, ajuda: cumprimento  dos POPs, tempo médio de resposta a alarmes, e a evolução de kWh/m³ e IWP a cada safra (ANA, 2023; EMBRAPA, 2022). 

Para finalizar, descomplicar o dia a dia de quem labuta na lavoura é crucial. Recorrer a  recursos acessíveis, como vídeos explicativos rápidos e manuais práticos, além de usar  dispositivos de coleta de dados capazes de guardar informações mesmo sem sinal de internet e  redes de rádio de grande alcance para telemetria, diminui bastante a dependência da  conectividade. Grupos de produtores ou associações podem, por sua vez, disponibilizar serviços  coletivos, como inspeções de padronização, aferição de sensores e manutenção com padrões de  qualidade assegurados, rateando os gastos. 

Dessa maneira, apostar em formação constante, conhecer a fundo as etapas  fundamentais e prever imprevistos permite otimizar o uso da irrigação, poupando água e  eletricidade, diminuindo erros e assegurando a regularidade da colheita, o que traz benefícios  tanto para o bolso do produtor rural quanto para a preservação dos recursos hídricos na região.

5.4. Legislação, Outorga e Regularização Ambiental 

Colocar os projetos de irrigação em dia vai muito além de burocracia, isso oferece  proteção legal ao agricultor e assegura que a água seja utilizada de forma consciente, sem afetar  os demais usuários a jusante. Em Goiás, essa regularização se apoia em quatro pilares: (1) a  outorga, que é a permissão formal para retirar água; (2) o licenciamento ambiental, que  comprova que o projeto não causa impactos negativos; (3) o CAR, que é o registro da  propriedade rural; e (4) a observância das áreas de preservação permanente (APPs) e da Reserva  Legal. Quando esses elementos estão alinhados, o produtor tem mais previsibilidade, regras  transparentes e evita imprevistos (ANA, 2023; GOIÁS, 2023). 

A outorga é a peça-chave, define a quantidade, o período e a origem da água a ser  utilizada. Em bacias sensíveis, como a do rio Meia Ponte, essencial para Goiânia, há planos de  contingência para a seca, onde todos reduzem a captação para priorizar o abastecimento  humano. Para aumentar a justiça e a segurança, novas outorgas podem ter gatilhos simples, se  o nível do rio baixar de um limite X, a regra Y é ativada, como redução temporária, uso de  reservatórios extras ou rodízio de horários. 

Licenciamento e CAR completam o quadro, verificam se a captação e as tubulações  respeitam as áreas de preservação e se não haverá desmate irregular. A ideia é que os sistemas  do governo conversem entre si (SEMAD-GO e Portal Ambiental), automatizando checagens  básicas e mostrando ao produtor, em tempo real, em que etapa está o processo (SEMAD-GO,  2025). 

A clareza é fundamental. O ideal seria que cada local de coleta medisse tanto a  quantidade quanto a intensidade da água, sempre que viável, utilizando sistemas remotos que  informem diretamente o órgão responsável. Isso reduz desentendimentos e ajuda os grupos de  bacias hidrográficas a decidirem usando informações concretas. Um sistema de informações  aberto por bacia seria de grande valia, mostrando o tempo gasto para analisar as solicitações,  os requisitos mais comuns, os locais monitorados remotamente, os gráficos de fluxo de água,  os avisos de falta de água e as metas de bom uso. Tudo isso mantendo a discrição dos dados e  a possibilidade de verificação. 

Para otimizar despesas e evitar retrabalho, é aconselhável usar listas de verificação  claras, personalizadas para cada tipo e tamanho de captação. Em poços de aquíferos delicados,  como o Bambuí, com suas rochas calcárias, exija logo de cara um teste de bombeamento e o monitoramento do nível da água. Para o pequeno produtor, um serviço centralizado com  formulários pré-definidos, guias fáceis, suporte misto (presencial e online) e um acordo para  regularização guiada soluciona boa parte da questão (ANA, 2023; GOIÁS, 2023). 

Para concluir, a taxa estadual pelo uso da água, que já possui regulamentação, pode se  tornar uma forte ferramenta para impulsionar a eficiência se vier acompanhada de estímulos.  Por exemplo, oferecer abatimentos para aqueles que demonstrarem automonitoramento,  telemetria em tempo real e auditorias regulares do sistema, e também dar prioridade no acesso  a linhas de crédito para quem estabelecer metas claras de performance, como a redução no  consumo de energia e nos custos por metro cúbico bombeado. 

Simplificando, estar em conformidade com a lei não é um obstáculo, mas sim um  diferencial no mercado. Com uma autorização técnica ágil, licenciamento unificado, Cadastro  Ambiental Rural (CAR) e Áreas de Preservação Permanente (APPs) regularizados, medição  precisa e regras flexíveis de acordo com cada bacia hidrográfica, a irrigação em Goiás se  desenvolve de forma eficiente, com colaboração e respeito ao meio ambiente, diminuindo os  perigos para o agricultor e fortalecendo a segurança hídrica para toda a população. 

5.5. Fatores Climáticos e Segurança Hídrica 

No coração de Goiás, o clima do Cerrado é notavelmente instável. Embora fenômenos  globais como El Niño e La Niña modulem os padrões de chuva, na região, esses efeitos são  suavizados por sistemas locais, com destaque para a ZCAS, uma extensa faixa de nebulosidade  que, quando ativa, traz consigo precipitações abundantes, e pelas condições predominantes no  oceano Atlântico. Consequentemente, durante um mesmo evento El Niño, Goiás pode  experimentar volumes de chuva próximos à média, inferiores ou até mesmo superiores a ela;  em situações de La Niña, observa-se uma alteração na frequência das pancadas de chuva, com  variações significativas de um local para outro. Diante disso, em vez de se ater a regras  inflexíveis, a gestão da irrigação deve se basear em cenários probabilísticos, atualizando as  previsões mensalmente (INMET, 2024; CPTEC/INPE, 2025). 

Como se adaptar na prática: 

  • Diversificar fontes de água: A combinação da captação em rios/reservatórios com a  utilização de poços pode aumentar a segurança hídrica. No Aquífero Bambuí (caracterizado por rochas calcárias), é fundamental realizar testes no poço, monitorar o  nível da água ao longo do tempo e verificar a qualidade da água para evitar a exploração  excessiva e insustentável. 
  • Armazenamento de água: A utilização de reservatórios de apoio auxilia na superação  dos períodos de estiagem, mas requer a obtenção de licenças e o estabelecimento de  regras claras de operação para os períodos de seca. 
  • Escalonar o plantio: Espalhar as datas de semeadura evita pico de bombeamento e casa  fases mais sensíveis das culturas com janelas de clima mais previsíveis.
  • Utilização das previsões sazonais: Os boletins oficiais fornecem informações sobre a  probabilidade de a estação ser mais seca, normal ou mais úmida. Com base nessas  informações, ajuste as lâminas e os turnos de irrigação. 

Em situações de aumento do risco de seca, adote medidas simples: 

  • Rios e reservatórios: adote faixas A/B/C de alerta. Quanto mais baixo o nível, maior a  redução temporária da lâmina e mais rígido o rodízio por setores, priorizando áreas em  fase crítica da cultura. 
  • Poços: se o nível baixar além de um limite combinado, reduza a vazão, alterne poços e  evite bombear nos horários mais caros da energia. 
  • Irrigação: em ondas de calor, encurte os intervalos entre irrigações e confira a pressão  para manter a boa distribuição de água no campo. 
  • Energia: sempre que possível, opere fora do “horário de ponta”; inversores de  frequência e, quando fizer sentido econômico, painéis solares ajudam a reduzir custos. 

Para finalizar, é vital ter uma gestão eficaz e total clareza: atrele o projeto às permissões  e autorizações logo no começo, use métodos de avaliação/monitoramento remoto e divulgue  informações resumidas por área de rio. Ao adotar diferentes fontes de água sob vigilância,  guardar água seguindo normas bem definidas, planejar o plantio por etapas e administrar com  base em estimativas, a irrigação em Goiás se fortalece, gasta menos água e impede a sobrecarga  das fontes naturais.

5.6. Riscos Agronômicos: Salinização, Drenagem e Qualidade da Água 

A irrigação em terrenos planos com nível freático próximo à superfície pode levar ao  acúmulo de sais no solo, um processo chamado salinização. Se o sódio (Na⁺) se torna o elemento  dominante, desestruturando o solo, chamamos isso de sodificação. Ambas as situações  dificultam a absorção de água, prejudicam a ventilação das raízes e diminuem a produtividade.  O risco aumenta ao irrigar com água em excesso, ao utilizar água já naturalmente mais salgada  ou quando a drenagem é inadequada, o que facilita a ascensão da água por capilaridade, levando  sais para a camada superficial (AYERS; WESTCOT, 1985; EMBRAPA, 2022; ANA, 2023). 

Como identificar precocemente: 

  • Água de irrigação: avalie a salinidade (CE, uma espécie de “teste elétrico” que  quantifica os sais), o pH e os principais íons (cálcio, magnésio, sódio, cloreto e  bicarbonato/carbonato). A RAS (relação de adsorção de sódio) sinaliza o perigo de  excesso de sódio. Em culturas intensivas (hortaliças, irrigação por gotejamento),  monitore a cada 1–2 meses. 
  • Solo: determine a salinidade do solo (CEe), o pH e o sódio trocável (ESP/PST) nas  profundidades de 0–20, 20–40 e 40–60 cm, antes e depois de cada colheita, sempre nas  mesmas áreas para comparação. 
  • Nível freático: instale poços de observação; o ideal é que o nível fique abaixo de 1,5– 2,0 m. Faça leituras mensais (semanais em períodos de seca). 

Como manejar para evitar o problema: 

  1. Distribua a Água de Maneira Uniforme: Em sistemas de pivô central, busque uma  alta uniformidade e opere na pressão correta. Em sistemas de gotejamento, assegure  uma boa filtragem e realize limpeza das tubulações regularmente. Isso previne áreas  com excesso de água, onde o sal se acumula e áreas com falta. 
  2. Irrigue Com a Quantidade Certa: Utilize o balanço clima–cultura (ET₀–Kc) como  guia, ele calcula quanto a planta consumiu e ajuda a decidir a quantidade de água e a  frequência. Com nível freático elevado, redobre a atenção para não saturar o solo. 
  3. Faça Lixiviação Apenas Com Saída Para os Sais: Lavar o solo, aplicar uma camada  extra de água para empurrar o sal para baixo, só funciona se houver drenagem. Em geral,  frações de lixiviação moderadas de 10–20% da quantidade normal, resolvem muitos casos, no gotejamento, é possível fazer aplicações específicas e verificar se a CE do solo  diminuiu. 
  4. Assegure a Drenagem: Na superfície, use valetas, terraços e saídas d’água; no subsolo,  utilize drenos quando necessário. O objetivo é manter o nível abaixo de 1,5–2,0 m na  fase de crescimento. 
  5. Realize a Correção Química Quando Houver Excesso de Sódio: A gessagem fornece  cálcio, que remove o sódio dos pontos de troca; em seguida, é preciso lixiviar para  eliminar esse sódio. Se a água tiver muito bicarbonato, uma leve acidificação impede  que o cálcio precipite e potencializa o efeito. 
  6. Ações Que Ajudam Muito: cobertura do solo para diminuir a evaporação e a ascensão  de sais, combinação de fontes de água quando uma delas for mais salina, escalonamento  das irrigações para evitar picos, rotação com culturas de raízes profundas que  aprimoram a porosidade. 

Afinal, qual a vantagem? Desconsiderar a gestão da salinidade e do sódio tem um preço  alto: menor rendimento, despesas maiores com produtos para correção e, em casos extremos,  terrenos que se tornam improdutivos. Em contrapartida, um conjunto de ações como o  acompanhamento constante, irrigação uniforme, escoamento adequado, lavagem do solo bem  pensada e aplicação de gesso quando necessário, prolonga a utilidade do sistema, diminui o  consumo de água e eletricidade por volume produzido e impede que a questão se agrave na  região. Unir todas essas práticas ao seu planejamento de irrigação, com anotações fáceis,  medições remotas sempre que possível e inspeções regulares, é uma atitude inteligente para a  lavoura e representa sustentabilidade de verdade. 

6. Considerações Finais 

Os dados analisados neste estudo mostram que a irrigação se tornou fundamental para a  agricultura em Goiás, trazendo estabilidade à produção, permitindo prever as colheitas e  aumentando a competitividade em um cenário de chuvas irregulares e secas. No entanto, esses  benefícios só se mantém se a irrigação considerar três aspectos essenciais: (I) uso eficiente da  água e energia: para produzir mais com cada metro cúbico de água, reduzindo custos e impactos  ambientais; (II) cuidado com o meio ambiente: protegendo o solo, rios e aquíferos e (III) gestão  com participação de todos: planejando por bacia hidrográfica, garantindo a transparência e diminuindo conflitos entre os diferentes usos da água. Essa combinação garante a produção no  presente e a disponibilidade de água no futuro (ANA, 2023; EMBRAPA, 2022). 

Observamos um grande avanço no uso de sistemas de irrigação modernos, como a  irrigação por gotejamento e a automação baseada nas necessidades das plantas e nas  informações do solo, principalmente em regiões como Cristalina e Rio Verde. O uso de  tecnologias como telemetria, controle remoto e a calibração dos equipamentos melhorou o  aproveitamento da água e diminuiu o desperdício. Ao mesmo tempo, a produção de energia  solar distribuída, junto com boas práticas de uso da água, horários de menor consumo de  energia, equipamentos que economizam energia e um bom planejamento da parte elétrica e  hidráulica, ajuda a reduzir os custos e a poluição, dependendo da situação de cada propriedade  (FERNANDES et al., 2021; ANA, 2023; EMBRAPA, 2022). 

Ainda existem problemas importantes: os custos iniciais são altos, é preciso fazer  manutenções preventivas com profissionais qualificados, faltam trabalhadores e os processos  para conseguir autorização para usar a água são demorados e incertos, o que afeta principalmente os pequenos e médios produtores. Em rios com pouca água, como o Meia Ponte,  a falta de fiscalização aumenta os conflitos entre o uso da água para as cidades, para a  agricultura e para a proteção do meio ambiente, mostrando a necessidade de criar regras mais  rápidas e transparentes (ANA, 2023; CBH MEIA PONTE, 2024). 

Com base nisso, sugerimos, para os próximos dez anos, um conjunto de ações e  políticas: (a) oferecer cursos e treinamentos contínuos para quem trabalha com irrigação,  ensinando a usar as informações das plantas e do solo, a verificar os equipamentos, a garantir a  segurança e a gerenciar a produção com indicadores; (b) oferecer crédito para quem investir  em irrigação eficiente, incluindo a compra de equipamentos de telemetria, a manutenção dos  equipamentos e a capacitação dos trabalhadores, com metas de economia de água; (c) garantir  a transparência e o controle do uso da água, com hidrômetros e informações digitais integradas  ao sistema de autorização, com painéis de controle por bacia hidrográfica; (d) integrar a  irrigação aos planos de cada bacia, conciliando a expansão da área irrigada com a proteção das  áreas de preservação, as regras para períodos de seca e o armazenamento estratégico de água,  usando informações sobre o clima; (e) criar modelos de cooperativas para compartilhar serviços  e reduzir os custos para os produtores (ANA, 2023; EMBRAPA, 2022).

Na parte técnica e ambiental, o Plano de Manejo da Irrigação (PMI) deve ter como metas  melhorar o aproveitamento da água, usar as informações das plantas e do solo para o manejo  da irrigação, cuidar da qualidade da água verificando a quantidade de sais, fazer a drenagem do  solo e evitar problemas de salinização com a lavagem do solo, o uso de gesso e a drenagem.  

Em áreas planas com água subterrânea perto da superfície, a prevenção é fundamental  para evitar custos e perdas na produção (EMBRAPA, 2022). As mudanças no clima causadas  por fenômenos como o El Niño e o La Niña exigem um planejamento com diferentes cenários,  com previsões atualizadas mensalmente, ações a serem tomadas nos reservatórios, uso  alternado de poços e ajustes na quantidade de água a ser aplicada nas plantas durante as ondas  de calor, priorizando as fases mais importantes do desenvolvimento das culturas (INMET,  2024; CPTEC/INPE, 2025; ANA, 2023). 

Para concretizar as orientações, algumas sugestões de objetivos são propostas: (1) alcançar ≥ 80% dos sistemas verificados com IUC ≥ 85% em cinco anos; (2) atingir ≥ 70% das  operações com telemetria em uso; (3) diminuir entre 10–20% o kWh·m⁻³ e a lâmina média em  áreas com automação/sensores e POs estabelecidos; (4) aumentar a cada ano a oferta de  treinamento (horas/operador) e a participação em serviços colaborativos; (5) juntar o PMI à  concessão e ao licenciamento, com verificações antes e durante a colheita (ANA, 2023;  EMBRAPA, 2022). 

Para que Goiás se destaque na irrigação eficiente, é crucial combinar tecnologias  avançadas, normas bem definidas e uma administração que valorize a colaboração e o  engajamento dos produtores rurais. Ao harmonizar a produção, a disponibilidade hídrica e a  preservação ambiental, e ao integrar pequenos e médios agricultores através de serviços  coletivos e crédito voltado a resultados, o estado demonstra seu compromisso com a excelência,  a inclusão social e a sustentabilidade, preparando-se para os desafios impostos pelas alterações  climáticas e pelas demandas do mercado (ANA, 2023; EMBRAPA, 2022; CBH MEIA PONTE,  2024; INMET, 2024; CPTEC/INPE, 2025).

7. Referências Bibliográficas 

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¹Discente Curso de Eng. Agronômica – Centro Universitário Brasília de Goiás – São Luís de Montes Belos – GO. Brasil.

²Docente Curso de Eng. Agronômica – Doutora em Agronomia – Centro Universitário Montes Belos – São Luís  de Montes Belos – GO. Brasil.